Capítulo 12:
Confronto

- Tu bebeste o sangue dele!

Akane estava deitada sobre o sofá do escritório de Kuran. Ela estava ali havia algumas horas e permanecera sempre em silêncio, olhando para o tecto do cómodo, ignorando por completo a presença do vampiro que a encarava, estudando todos os seus gestos.

Os olhos verdes da menina deixaram o branco do tecto e desviaram-se lentamente para fixar as íris escuras de Kaname. Sorriu maldosamente e descruzou as pernas, levantando-se e caminhando até à secretária do vampiro.

- Bebi - concordou, apoiando as mãos sobre o tampo da mesa. - E então?

- Porquê? - indagou o moreno, visivelmente irritado com aquele facto que ela acabara de confirmar.

Tinha as mãos cerradas e olhava para a ruiva com raiva, como se ela tivesse escolhido o outro vampiro por pura implicação. Tentava estudar os detalhes da face dela, mas já não conseguia ver naquele rosto o mesmo que vira meses antes, quando ela ainda era pura, quando ela ainda não estava entregue às trevas.

- Eu estava sedenta - respondeu simplesmente, o que fez Kaname levantar-se repentinamente.

- Eu ofereci-te o meu sangue! - rosnou. - Eu dei-te a oportunidade de teres o meu sangue e tu escolhes o dele?

- O teu sangue não me satisfaz - declarou, sorrindo, uma sombra do demónio dentro dela a escurecer o olhar verde. - O teu sangue pode ser puro, Kaname, mas não me tira a sede.

- Como é que-

- O teu sangue pode ser aquilo que eu realmente preciso para me manter lúcida - acusou ela, revelando as presas brancas. - Mas não é aquilo que me vai alimentar.

- Então tu sabes - murmurou Kuran, voltando a sentar-se. - Sabes e nunca nada o fizeste. Porquê?

- Eu começo a ver as coisas com outra perspectiva - riu-se, baixinho, sentando-se de lado na secretária de Kuran. - Se no início eu apenas via trevas, agora eu vejo algo muito mais intenso, muito mais completo.

- Então perdoas-me pelo meu acto? - perguntou o moreno em surdina.

- Só quando me disseres realmente porquê! - atacou Saito, inclinando-se sobre ele. - Tu tiraste-me a vida, Kaname, tiraste o que de humano havia em mim. E, por algum motivo, eu sei que tu queres novamente o meu sangue, sei que trocarás o teu, que eu tanto preciso, por isso, mas eu quero respostas primeiro.

- Tu sempre queres respostas - observou o vampiro, levantando-se e contornando a mesa, de forma a aproximar-se da ruiva. - Mas ainda é cedo, Akane.

- Eu tenho tempo - comentou ela, sorrindo com o cantos dos lábios, segurando o pescoço do vampiro, antes de deixar selar os seus lábios pelos dele.

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- Cross-sama!

A porta do escritório do Directo da Academia foi aberta com nenhum delicadeza. Por ela entrou um homem e uma mulher, fechando-a em seguida. A voz de Midori, cumprimentando o antigo mestre, era clara como a água e decidida. Ela não estava ali para uma visita formal, ela tinha uma ordem a cumprir.

Mas os olhos de Kaien pousaram sobre o homem de olhos dourados e ele viu a dúvida e o medo existentes dentro deles. Jin podia ser dos melhores hunters do mundo, tal como Midori era, mas Jin tinha coração, Jin tinha pensava antes de agir, Jin era uma pessoa correcta.

- Mirodi-chan, Jin-kun, sejam bem vindos! - exclamou Cross, sorrindo para os dois.

- Não te faças de feliz por me veres, sensei, tu sabes o motivo da nossa visita - afirmou Midori, aproximando-se da secretária do homem.

- Eu sei a vossa ordem - confessou ele, sorrindo abertamente. - Mas também sei que não vos deixarei executarem-na!

Jin moveu-se levemente ao ouvir aquelas palavras, o seu olhar revelava-se levemente aliviado, porém, o olhar de desprezo que recebeu da mulher a seu lado, apenas o deixava mais inquieto. Midori voltou a encarar o director e mordeu levemente o lábio inferior.

- Ela foi mordida, ela tornou-se um monstro, ela vai ser executada - rosnou a mulher, cruzando os braços sobre o peito.

Kaien observou com descrição a mulher à sua frente. Ela tinha amadurecido desde que deixara os seus cuidados. Midori estava forte e decidida, e as armas que ela usava presas no cinto que trazia eram um indicador disso. Uma vez, ela fora uma menina pequena e assustada que não queria pegar naquilo, naquele momento, ela era uma hunter poderosa que não hesitava em matar.

- Ela não é um monstro - contrariou Cross, ainda com o sorriso no rosto. - Ela continua perfeitamente consciente.

- De certeza? - a voz grave de Jin pronunciou-se pela primeira vez naquela noite.

O seu olhar brilhava em expectativa ao ouvir as palavras do director. O homem, que não teria mais de vinte anos, estava demasiado nervoso para aquele caso, qualquer palavra que o alvos deles não era realmente um alvo, era um alívio para ele.

- Absoluta - afirmou Cross. - Kiryu Zero e Kiryu Ichiru podem confirmar-vos isso. Assim como Kuran Kaname.

- Os gémeos Kiryu estão aqui? - admirou-se Midori, encarando o seu antigo mestre. - Eu pensei que Zero tivesse sido executado pela associação de Hunters e que Ichiru tivesse morrido como o restante da família.

- Claro que não - cortou Kaien. - Zero está à minha guarda e Ichiru era prisioneiro de Shizuka-san. Ambos estão aqui e perfeitamente bem.

- Como podemos ter a certeza que... que ela está realmente bem, sem nos revelarmos? - indagou Jin, preocupado.

- Eu sugiro uma conversa com Zero e com Ichiru - sorriu Cross. - Eles serão os mais indicados para vos provar que ela ainda é humana!

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Zero entrou e não gostou de encarar os olhares atentos de mais quatro pessoas. Kaien e Ichiru eram conhecidos, mas quem eram aqueles dois que se encontravam a um canto? Aquela mulher... era-lhe tao incrivelmente familiar!

- Chamaram-me? - perguntou em voz baixa, olhando para Cross.

- Sim, Zero, senta-te - disse Kaien, indicando-lhe uma cadeira.

- Estou bem assim - respondeu, cruzando os braços e deixando-se ficar perto da parede. - Porque estão dois hunters aqui?

- Ele é realmente habilidoso - comentou Midori, escondendo um sorriso.

Zero olhou para ela e um terrível flash-back passou-lhe pela mente. Arregalou os olhos, vendo naquela mulher algo que o vinha a atormentar desde meses antes, percebendo o que não entendia ate então.

- Eu sei quem tu és - murmurou, olhando de lado para o irmão, que parecia ter chegado à mesma conclusão.

- Então vocês lembram-se de mim - ela sorriu, olhando de um dos Kiryu para o outro. - O vosso pai foi meu mestre, antes de Cross-sama.

- Tu costumavas estar lá em casa - lembrou Ichiru, levantando-se. - Por isso as visões quando... entendo.

- O que querem de nós? - rosnou Zero, sem desviar o olhar de Midori.

- Informações - respondeu Jin, observando os dois rapazes. - Nós precisamos que nos digam o estado em que Saito Akane se encontra!

- Para que vocês a executem? - bufou Zero, fuzilando os dois hunters com o olhar. - Ou apenas para terem a certeza que ela não vos vai dar problemas?

- Zero! - advertiu Kaien, olhando para o rapaz. - Por favor colabora. Jin e Midori apenas estão a fazer o trabalho deles.

- Matar Akane é trabalho? - indagou Ichiru, dando um passo em frente. - Que raio de hunters são vocês?!

- Ninguém vai matar Akane - exclamou Cross, entrelaçando os dedos. - Ichiru, Zero, eles precisam de saber o grau de desenvolvimento de Akane para poderem avaliar a situação. É o trabalho deles, tal coo costuma ser o teu, Zero.

- Se querem tanto saber dela, porque não lhe perguntam a ela mesma? - perguntou Ichiru. - Porque perguntarem-nos a nós e não a ela? O que têm a esconder se sabem que lhe vamos contar o que se está a passar aqui!

- Ela não deve saber que- começou Midori, mas Zero cortou-a.

- Que tem dois hunters atrás dela? - completou, irritado. - Que querem matá-la? Ou que esses dois hunters são vocês os dois em questão?

- Vocês têm medo do que ela possa sentir quando vos vir? - continuou Ichiru, sentindo a raiva a correr-lhe as veias. - Medo do que ela possa fazer? Por isso é que nos chamaram?!

- Ouve bem, idiota, tu não sabes realmente o que significa estarmos aqui - berrou Midori, avançando na direcção de Ichiru. - Não sabes o que nos custa estar aqui. Por muito que eu odeie aquela criatura, ela é importante e eu não posso negar isso! Mas se é minha obrigação matá-la, então eu terei todo o prazer em dilacerar aquela pele e-

- Midori, chega! - gritou Jin, visivelmente furioso. - Tu não tens o direito de falar assim!

No momento em que Jin terminara de falar, todos os presentes na sala desviaram os olhares paa a porta do escritório. Todos sentiam a presença das duas pessoas que se aproximavam no corredor e, segundos depois, dois toques leves na porta anunciavam a chegada iminente.

- Entre - disse Cross, sem tirar os olhos da porta, que foi lentamente aberta, revelando Kaname.

- Com licença - pediu o vampiro, a sua expressão neutra como sempre. - Mas eu penso que esta conversa teria mais efeito se Akane estivesse presente.

Ele abriu o resto da porta, afastou-se e revelou o corpo de Akane, de olhos arregalados e profundamente admirada com o que os seus olhos viam.

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- Isto não vai continuar - a sua frase não era uma afirmação ou uma ordem, era apenas a constatação de um facto. - Sabes disso, não sabes, Kaname?

O moreno levantou-se, pegou na camisa negra que se encontrava no chão e vestiu-a lentamente, enquanto se dirigia à janela do seu quarto, sem nunca encarar os olhos de Akane. Apoiou a mão fria no vidro e ficou a olhar para o pôr do sol. Mais um dia passara. Possivelmente, o último dia ao lado dela.

- Sei - respondeu. - Mas preferia que não o tivesses dito.

- Perdoa-me - pediu ela, levantando-se também e refazendo o caminho do vampiro.

Aproximou-se dele, abraçando-o por trás, encostando a cabeça nas costas dele, sentindo a pele do seu abdómen contra as suas mãos tão quentes. Kuran fechou os olhos e encostou a testa no vidro, apoiando a mão livre sobre as de Saito, respirando pesadamente.

- Não é culpa tua - murmurou, sentindo-a apertando-o mais contra ela.

- Eu tentei, Kaname, e eu cheguei mesmo a acreditar, mas não é assim que a natureza quer - sussurrou Saito, soltando levemente o abraço e colocando-se entre Kuran e o vidro da janela. - Olha para mim.

O vampiro baixou o olhar para ela, sempre com uma expressão neutra no rosto. Ela levantou os braços, segurando-lhe o rosto entre os dedos, olhando-o fixamente nos olhos, colando o seu corpo ao dele. Kaname segurou uma das mãos dela com a sua, a outra ainda contra o vidro, os olhos profundamente fixos nos dela.

- Não faças disto uma despedida, Akane! - ordenou ele, pressionando-a contra o vidro, aproximando o rosto do dela. - Ainda não é a hora de nos despedir-nos!

- Ela chegará em breve, eu sinto-o - sussurrou a menina, segurando-o junto a si.

- Está próximo - disse, inclinando-se para lhe roubar um leve beijo. - Mas agora há coisas mais urgentes a fazer.

Kuran afastou-se dela, caminhando pelo cómodo, apertando a camisa aberta. Saito sabia que aquilo fora uma ordem silenciosa e ela rapidamente ajeitou os cabelos ruivos e calçou os sapatos do uniforme. Saíram do quarto do vampiro em silêncio e assim foi todo o caminho, ignorando olhares curiosos, murmúrios e exclamações baixas.

Os dois caminhavam por entre os alunos da Night Class e depois por entre os da Day Class, sempre lado a lado, uma mão de Kuran apoiada sobre um ombro de Saito. Sem nunca trocarem um olhar, sem nunca trocarem um sorriso.

Estavam prestes a chegar ao corredor do escritório de Cross quando a menina parou subitamente. Ela olhou, admirada, para Kaname e, quando estava prestes a abrir a boca para falar, Kuran apenas lhe apoio a ponta do dedo dos lábios. Ela sabia que não devia fazer perguntas, mesmo sabendo que o que tinha acabado de sentir era completamente sem noção.

Ouviu Kaname bater duas vezes à porta e abrir esta. Ouviu dizer algo para os presentes e afastar-se, deixando-a ver todos os que se encontravam no cómodo. Akane deu um passo em frente. Os olhos já arregalados e admirados com o que ela sabia que iria ver. Cross estava sentado no seu lugar, do outro lado, Zero estava perto da porta e Ichiru mais para o lado da janela. E, no lado oposto, um homem de puros olhos dourados encarava-a com medo, ânsia, alívio. Enquanto ao seu lado, uma mulher da sua altura, com os cabelos da mesma cor que os seus, os olhos da mesma tonalidade de esmeralda, as mesmas expressões do rosto, o mesmo olhar decidido e a mesma postura. Era como se ela estivesse a olhar-se no espelho, e se visse dez anos mais velha.

Akane, abriu a boca duas vezes e nada disse. Sentia-se a tremer, mas a mão de Kaname nas suas costas amparava-a e não permita que ela caísse. Fechou os olhos com determinação, ganhando coragem e força para conseguir expelir o que lhe estava preso na garganta. Cerrou os punhos, sacudiu a cabeça reabriu os olhos, verificando que não era um pesadelo, e focou as íris verdes, nos olhos iguais da mulher à sua frente.

- Onee-san?! - perguntou.


*Onee-san - Irmã mais velha.


N.A.: Penúltimo capítulo on ^^

R.E.V.I.E.W.
Just