Capítulo 13:
O vermelho, o verde e o dourado
Onee-san? - perguntou, sentindo todo o corpo gelar ao ver a irmã mais velha.
- Akane-chan! - Jin exclamou, fazendo a menina desviar o olhar de Midori e fixar-se nele.
- Onii-san! - suspirou ela, atravessando o cómodo e lançando-se num abraço com o homem. - Eu senti tanto a tua falta! Tu nunca me respondeste às cartas, eu-
- Afasta-te dela imediatamente, Jin! - rosnou Midori, os olhos verdes fixos nos dois irmãos mais novos. - É uma ordem!
- Midori, como podes? - interrogou ele.
- Ela é o nosso alvo! - relembrou a Saito mais velha, sem tirar os olhos de Akane.
- Ela é nossa irmã, Midori! - berrou Jin. - Como queres que a trate como um alvo?
- Midori - chamou Cross, calmamente. - Jin tem razão. Podes verificar que Akane está perfeitamente normal, por isso, não há motivos para a tratar dessa forma.
- Eu devia imaginar que tu não estavas aqui por saudades, não é, Midori? - bufou Akane, ainda abraçada ao irmão, mas com os olhos fixos no seu espelho. - Porque tu nunca virias aqui por mim!
- Ainda bem que compreendes, querida - afirmou a mais velha. - Eu só estou aqui porque tenho ordens para te executar!
- Chega - sussurrou Kuran, o suficientemente alto para que Midori o olhasse indignada. - A associação de hunters apenas tem o direito de extreminar os vampiros que caíram para o nível E. E, caso ainda não tenhas percebido, Saito Midori, Akane está perfeitamente consciente e nem perto de decair para o nível E.
- Não tens qualquer motivo para ainda permanecer aqui, já que a tua ordem não tem fundamento - completou Zero, de forma fortiva. - Akane está ciente e continuará assim. Não permitiremos que ela decaia!
- E como pensas fazer isso se não sabem qual o sangue puro que a mordeu? - indagou a mulher, cruzando os braços e criando um sorriso maldoso nos lábios. - Como tensionas mantê-la sã se não sabes a quem pertence o sangue que ela precisa.
- Eu sei! - rosnou Akane, fazendo quase todos os presente olharem-na. - Eu sei quem me mordeu, Midori. Ou acreditavas mesmo que a inútil da tua irmã mais nova se ia deixar morder por um vampiro e que ia ficar na situação de ser transformada sem saber quem o fez?
- Tu-
- Tu soubeste que eu fui atacada no próprio dia, que eu sei que sim - acusou a menina. - Tu tens formas de o saber. Soubeste-o e começaste a procura por quem o tinha feito e, como não conseguiste uma resposta, acreditaste que mais ninguém o havia conseguido! Mas enganaste-te, Midori, enganaste-te! Eu sei quem me mordeu! Eu descobri algo que tu não conseguiste. Vais odiar-me ainda mais por causa disso?
- Akane! - chamou Jin, tentando apaziguar a guerra entre as duas irmãs.
- Sua fedelha insupotável, eu fiz tudo por ti! - atacou a mais velha. - Eu fiz tudo por ti, sempre. Ensinei-te tudo o que deverias saber para seres uma hunter, como toda a família, mas tu nunca te interessaste, nunca quiseste saber e sempre te mostraste sem talento para que os pais não te enviassem para treino como eu e como Jin! E porquê? Porquê, Akane, porque o fizeste?
- Porque era destino dela tornar-se uma de nós - respondeu Kaname, simplesmente.
Logo a atenção de todos estava focada no puro sangue. Kaname tinha os braços cruzados e segurava o olhar de todos, enigmáticos e cheios de perguntas sobre a sua afirmação. Mas ele não queria saber, ele não se importava com nada a não ser procurar o olhar de Akane e sorrir-lhe delicadamente quando os olhos verdes dela pousaram nos seus.
- Akane é a reencarnação de Kuran Asami - informou ele, deixando um silêncio perturbador cobrir toda a sala antes de continuar. - Esposa do fundador da família Kuran e primeiro rei vampiro.
- Kaname...
- O que estás a dizer não tem qualquer sentido! - declarou Midori, encarando o moreno, mostrando-se revoltada com aquela revelação.
- Se o que dizes é verdade - murmurou Zero, mantendo o olhar com Kaname. - Isso significa que Akane é...
- Não é verdade o que ele está a dizer, é ridículo! - berrou Midori. - Como ele poderia saber disso?
- Akane é igual a Asami - ele informou, sorrindo levemente. - E Akane cheira como Asami, fala como ela, pensa como ela, age como ela... é ela.
- Kaname...
- Como sabes disso?! - guinchou Midori, recusando-se a aceitar que a sua irmã mais nova fosse realmente a reencarnação de uma vampira ancestral.
- Porque eu sou o fundador da família Kuran, acordado no corpo do filho de Haruka e Juuri - confessou, olhando novamente para Akane. - Eu reconheceria-a em qualquer lugar, em qualquer forma, de qualquer maneira.
- O que estás a dizer-
- Por isso digo que era destino dela tornar-se vampira e viver a infinita vida que lhe fora roubada da primeira vez - disse, simplesmente. - Mesmo que, desta vez, a natureza não a queira do meu lado.
- Então foi por isso? - indagou Akane, ao lado de Jin. - Porque não me disseste antes?
- Eu não queria que te sentisses obrigada a nada - confessou.
- Isto é RIDÍCULO! - berrou Midori.
- Não é ridículo - contrariou Jin. - Não é, Midori, até faz bastante sentido.
- Jin!
- Ela sempre teve uma capacidade incrível para sentir vampiros, mais que qualquer um de nós, mais que os nossos pais - recordou o Saito. - Ela sempre fora dotada e revelava conhecimentos que nem tu sabias e tu sempre a odiaste por isso, por ela ser especial sem saberes porquê!
- Não é verdade! - contrariou Midori.
- É verdade sim! - berrou Jin, apoiando as mãos sobre os ombros da irmã mais nova. - E agora que sabes os motivos, ainda mais a odeias, por ela ser diferente, por ela ser melhor do que alguma vez puderás ser! Foi por isso que ficaste com aquele sorriso nojento ao saber que ela era um alvo! - Jin fez uma pequena pausa. - Metes-me nojo, Midori!
Um pequeno silêncio encheu o cómodo, alimentando o olhar mortal cruzado por Jin e Midori. Cross continuava sentado na sua cadeira, observando o que se passava. Ichiru estava preocupado com a amiga e sentia-se enjoado com o que Jin revelara sobre a irmã mais velha. Mesmo a sua relação com Zero não sendo das melhores, nenhum deles sentia um ódio assim pelo outro. Kaname continuava perto da porta, sereno e neutro, como habitual. Não revelava nada na sua expressão. Já Zero, havia-se deixado encostar na parede e parecia assimilar tudo que era dito naquela sala, sem nunca mudar a sua aparência inabalada. Mantinha os braços cruzados e ouvia tudo sem nada dizer.
- Desaparece, Midori - pediu Akane, olhando a irmã. - Já viste que não sou um monstro, já viste que não tens motivos para me matar, então podes sair daqui!
- Ouviste-a, Midori - apoiou Jin. - Eu vou tratar dela, eu observo o nível de desenvolvimento e decido o que deve ser feito. Tu não estás a fazer nada aqui!
- Eu tive uma ideia melhor - murmurou Akane, segurando o braço do irmão. - Eu vou sair daqui! Com licença.
A menina virou-se, sempre com o braço de Jin perto de si e preparou-se para sair. Não olhou para ninguém, apenas sussurrou um "obrigado" a Kaname quando este lhe abriu a porta do escritório. Ela saiu por esta, seguida pelo irmão, deixando duvidas, incertezas e duras verdades para trás. Como cada um deles iria lidar com aquelas informações, ela não sabia, mas sabia que teria de falar com cada um, sozinhos. E sabia que deveria esquecer Midori, deixando apenas uma nota mental de matá-la, caso ela voltasse a cruzar o seu caminho.
X X X
Abriu a porta do quarto de Ichiru, entrou e e fechou a porta, encostando-se a esta e encarando a silhueta do amigo. Suspirou lentamente e caminhou até ele, colocando-se a seu lado na janela aberta. Ichiru olhou para ela, sorriu e voltou a olhar para as folhas das árvores a balançarem ao vento.
- Como estás? - perguntou.
- Confusa, triste, aliviada - respondeu, suspirando novamente. - Obtive as minhas respostas, soube a verdade sobre a minha irmã e ainda revi Jin. Acho que estou... a reorganizar-me.
- Fiquei preocupado contigo - confessou. - O que ouviste naquela sala foi demasiado. O que o director te disse sobre isso?
- Nada demais - contou, fechando os olhos docemente. - Apenas que eu teria de resolver a minha situação como vampira e que, assim que a associação de hunters deixar de me chatear, que posso viver a minha vida como quiser.
- Vais ficar com Kuran? - perguntou Ichiru, olhando-a. - Depois do que ele disse sobre vocês serem reencarnações, eu já entendo a vossa relação.
- Kaname e eu temos algo a resolver, mas ele não será o meu destino - confessou ela, reabrindo os olhos e voltando-os para o amigo, sorrindo em seguida. - A natureza escolheu outro rumo.
- O que queres dizer? - indagou ele, desviando-lhe uma mecha de cabelo vermelho da frente dos olhos.
- Que não ficarei ao lado de Kaname - disse, sorrindo.
- Ficarás feliz, certo? - perguntou-se Ichiru, encostanto a sua testa na dela e sorrindo. - Garante-me isso!
- Eu serei feliz, Ichiru - afirmou Akane. - Eu serei feliz.
X X X
- Agora sim - murmurou Akane, entrando no quarto de Kuran e esperando que ele a encarasse.
- Temos de nos despedir, não é? - indagou ele, voltando-se para ela com um sorriso triste no rosto.
- Não fomos nós que escolhemos, Kaname, não podemos ir contra a vontade da natureza - murmurou ela, aproximando-se e abraçando o vampiro.
- Não seria justo privar-te do único sangue que te alimenta apenas porque te quero para mim - disse ele, beijando os cabelos dela. - Este é o nosso adeus, Akane, mesmo continuando a ver-nos todos os dias, mesmo continuando a falar por motivos da monitoria, tu não mais serás minha.
- Que assim seja - murmurou ela, encostando os lábios nos dele, beijando-o delicadamente.
Sentiu as mãos do vampiros envolverem-lhe a cintura, acariciando-lhe a pele por debaixo da camisa branca. Tinha os braços em volta do pescoço dele, pressionando o seu corpo no dele, sentindo-o, tendo-o pela última vez. As suas costas bateram contra a parede enquanto os seus lábios voltavam a juntar-se aos de Kaname.
Trocaram um beijo intenso, selvagem, perdido na luxúria e no desejo de ambos. Saito sentiu os dedos de Kaname sobre o seu rosto, afastando-lhe os cabelos ruivos, olhando-a nos olhos, lembrando-lhe o que ela tinha de fazer em seguida. Akane começou, então, a criar uma pequena linha de beijos pelo maxilar do vampiro, descendo levemente para a curva do seu pescoço, depositando um especial sobre a veia que pulsava delicadamente.
Passou a ponta da língua pela pele de Kuran, saboreando cada momento, ganhando coragem de fazer o que tinha de ser feito e, ao mesmo tempo, quebrar definitivamente a ligação entre eles. Roçou o lábio inferior novamente na pele dele antes de perfurar a superficie alva com força, cravando as suas presas, sugando o sangue puro do corpo de Kaname. Engoliu o líquido vermelho, percebendo o sabor metálico e sabendo que, mesmo salvando-lhe a vida, impedindo-a de decair para o nível E, aquele sangue nunca poderia alimentá-la.
Afastou-se do pescoço dele, olhando-o nos olhos e deixando escapar uma tímida lágrima. Tinha os lábios cobertos de sangue, mas não se importou quando Kaname os beijou novamente. O laço entre eles estava quebrado, desfeito para nunca mais existir. Kuran olhou-a fixamente, não conseguindo esboçar um sorriso, nem dizer uma palavra, nem sequer beijá-la mais uma vez.
Era o derradeiro adeus deles.
Akane passou a mão pelos lábios, limpando a mancha de sangue que ainda lá se encontrava. Nada disse, não olhou novamente para ele, não olhou para trás enquanto deixava o quarto do vampiro. Parou com a mão sobre a maçaneta da porta e ainda de costas suspirou. No momento seguinte ela tinha deixado o vampiro e ambos escondiam no fundo das suas mentes tudo o que haviam vivido juntos. Porém, Akane tinha um sorriso no rosto, sorriso esse que repetir-se-ia mais tarde nos lábios de Kuran.
Sobre o título do cap.: Akane, Midori e Jin significa, em Japonês, respectivamente vermelho, verde e dourado.
Epilogo a caminho ^^
R.E.V.I.E.W.
Just
