28 de Outubro de 1979 –(In)Felicidade

Apesar dos problemas com Lucius, a nossa relação mantinha-se, aparentemente, igual ou então mais falsa e hipocrita. O afecto do meu marido fazia-se notar em todos os sítios, cada vez mais… Preocupava-me o facto de ele ter começado a preocupar-se comigo. Fazia-me sentir uma pessoa ainda mais devassa. É certo que tudo o que aconteceu foi um triste encadeamento de relações sexuais advindas do esmorecimento do nosso amor, e disso eu não tinha culpa.

Para meu infortúnio, era sistematicamente obrigada a assistir a almoços tediosos e jantares de negócios burocráticos. Como era o último domingo do mês, era obrigada a almoçar com os meus relativos parentes. Fazia dois meses que meu pai tinha falecido, apesar da minha parca vontade de assistir ao jantar saberia que teria de ir, quer por respeito ao meu pai, quer por amor à minha sanidade mental, visto que Walburga não iria deixar a ausência passar em branco.

Levantei-me cedo para tomar um banho antes de ir com Lucius para Grimauld Place. Despi-me no quarto de banho da suite e entrei para dentro da banheira branca. Sentia-me pesada, e o meu corpo apresentava uma conjuntura desconfortável. Desesperei ao ver a minha imagem retorcida na água. Saí da água rapidamente e vesti o meu roupão vermelho.

Vasculhei os meus armários à procura de uma roupa com a qual ficasse confortável e minimamente apresentável. Acabei por encontrar uma túnica de verão, rosa, algo mais solto que não realçasse as minhas linhas. A Túnica tinha sido um presente de namoro de Lucius, era bastante folgada e apresentava um padrão reconfortante.

Desci as escadas com a minha túnica rosa, chamando à atenção de Lucius que se apressou a elogiar a minha imagem e a dissertar sobre o motivo da minha estranha escolha de vestuário.

"Essa é a túnica que eu te ofereci no nosso primeiro aniversário..." – disse embaraçado.

"É verdade!" – respondi secamente.

Rapidamente se apressou a mudar de assunto e a escoltar-me para dentro da lareira. As usuais labaredas envolveram-me e apressaram-se a conduzir-me até à "mui nobre casa dos Black".

Vislumbrei a velha sala da minha infância e os meus parentes sentados à volta da velha mesa de jantar, no meio da sala. Reparei que o lugar habitual de meu pai, ao lado da minha mãe, permanecia vazio. Apressei-me a dar a volta à mesa e a dar um beijo na face da minha mãe. Walburga sentava-se ao lado do meu tio Orion, que encabeçava a mesa. Todos me saudaram cordealmente, excepto a minha escrupulosa tia.

Bellatrix e Rodolphus convidaram-nos à sentar a sua frente. Aceitei o convite, tomei o lugar em frente à minha irmã e Lucius ladeou-me.

O almoço decorreu sem grandes problemas. Walburga proferia algumas frases desdenhosas e depreciativas, Lucius e Rodolphus falavam de negócios, Druella, a minha mãe, envergava um véu preto, o qual não tirava, e falava em surdina com Orion, Regulus ouvia os homens a conversar, e eu dava voltas à comida, tentando arranjar apetite para a consumir.

Subitamente, senti uma indisposição e pedi para me ausentar da mesa. Dirigi-me ao quarto de banho enquanto grossas gotas de suor frio me escorriam pela testa. A indisposição voltou seguida de uma tontura. Agarrei-me aos lavatórios massajando lentamente o ventre.

Ajoelhei-me na tijoleira fria e debrucei-me sobre a porcelana sanitária. Engoli em seco de modo a controlar os vómitos. Arfava violentamente e vomitei em poucos segundos.

"Vejam só! Narcissa, estás com um ar péssimo" – soltou minha irmã, acompanhada de uma gargalhada.

"Vai-te embora, Bellatrix" – ameacei entre vómitos.

"E perder a hipótese de te ver em agonia? Provavelmente, não."

Demorei algum tempo a recompor-me. Limpei a boca à toalha que repousava num toalheiro ao lado do lavatório. Olhei para Bellatrix que ostentava um sorriso cínico.

Cinismo era coisa que não faltava À minha irmã. Toda senhora de si, encostada ao lavatórios como se tudo lhe pertencesse, com os braços cruzados sobre o vestido preto que tão orgulhosamente salientava os seus atributos físicos. O cinismo e a confiança eram a imagem perfeita da minha irmã.

"Há quanto tempo, sabes?"

"O quê?" – Perguntei.

"Que estás grávida…"

Grávida? Não, era impossível. Era impossível, sequer, a hipótese de ter um filho nos próximos dois anos. Não estava pronta, nunca estaria. Por Merlin, um filho, nesta altura em que tudo aquilo que eu e Lucius partilhava-mos estava prestes a sucumbir à luxúria dos meus actos. Aos poucos a ideia começou a entrar na minha cabeça, como que explicando as atitudes estranhas do meu marido. Seria possível que ela já desconfia-se? Seria concebível que ele tivesse sabido antes que a própria mãe?

"Há muito pouco tempo." – menti.

"Hum, Lucius sabe?" – sondou.

Lucius... teria de lhe contar, mesmo tendo a certeza das suas desconfianças. Ainda que esta criança tenha vindo numa péssima altura, pelo menos, era um pretexto fabuloso para nos unir, nem que seja um pouco mais. Mas um filho daquele, devoto, homem, era como uma maleita que ninguém queria… A minha cara contorceu-se de nojo por ter um filho com um homem que não queria saber de mim e que apenas me usa para relacionamentos sexuais. Relacionamentos esses que careciam de doses incríveis de amor. Relações em que apenas a carne se toca e em que o espírito se mantêm preso no nosso corpo, impedido de se fundir, verdadeiramente, com o seu cônjuge.

"Bem, bem… Pela tua cara, para além dele não saber, é provável que nem seja o pai!" – riu-se.

Por Merlin, poderia haver a mínima possibilidade da criança não ser filho de Lucius, poderia ser filho do destino, filho de um mero afair? A possibilidade de não ser de Lucius era baixíssima. Tinha tido apenas dois casos extraconjugais.

Rabastan, James, Lucius… o que foi que eu fiz? Não poderia ser de Rabastan, apenas tinha estado com ela uma vez acerca de dois meses, e de certeza que eu já teria notado caso estivesse grávida há tanto tempo. James, não podia ser dele. Seria impossível ser dele. Foi uma coisa… rápida… ainda que cheia de amor. Lucius, tinha de ser dele. Foi o único que tinha estado comigo mais vezes, no entanto, eu tinha estado com gripe nas semanas antes de ter encontrado James, e uma vez que o meu pai tinha morrido, Lucius nem se atrevia a investir contra mim.

Filho de Lucius, que nojo. Filho daquele que eu tinha mais como irmão do que como companheiro. Um incesto previsto por todos mas o qual me enojava agora que pensava nele. E se fosse de James?

Tinha de ser, eu sentia que sim… Mas, Merlin, não podia ser! Um bastardo, o meu filho ia ser um bastardo.., Certamente iria nascer com cabelo preto desgrenhado. Eu não podia deixar isso acontecer. O filho era de Lucius, tinha de ser dele! Mas por outro lado o facto da criança ter um pai tão porco deixava-me com vontade de me matar a deixar aquela criança calcar este mundo.

"Eu estou grávida do Lucius!" – gritei, sufocando em mim o nojo, o desprezo e o desespero que sentia por Lucius naquele momento. Era como se esta criança fosse filha de todas as violações sofridas por mim.

O sorriso desvaneceu-se de Bellatrix, que, assim como eu, não tinha ficado convencida. Ouvi passos apressados e vislumbrei o cabelo doirado de Lucius. A única pessoa que não queria ver naquele momento.

"É verdade, Narcissa?" – perguntou , incrédulo – "Estás grávida?"

"Sim, Lucius, a tua mulher vai ter um filho teu, vai ser varão com certeza." – envenenou Bellatrix.

"Porque não me contaste?"

"Soube há pouco tempo…" disse. Há muito pouco tempo, até.

Lucius apressou-se a abraçar-me a beijar-me.

Voltámos para a mesa, Bellatrix comentava com Rodolphus, e eu fui-me sentar no meu lugar.

"Está melhor, Narcissa?" – perguntou Walburga, sarcasticamente.

"Estou óptima, tia." – menti.

Lucius precipitou-se a contar a novidade a toda a família.

"Está mais do que óptima, está grávida!"

"Oh filha, que maravilhoso!" – exclamou minha mãe tentando conter as lágrimas.

Desbocado. Além de não pensar naquilo que diz ainda falou com como se fosse o homem mais feliz do mundo.

"Sim, sim, vai ser uma bela criança…" – disse Bellatrix com desdém.

Nunca tinha conseguido mentir a Bellatrix. E agora, o segredo que mais avidamente queria manter foi descoberto pela mesma pessoas que mo contou. Como é que era possível que uma pessoa tão desprezível fosse, sequer, minha irmã.

"Como se vai chamar?" – perguntou Orion.

Já sabia onde me ia levar aquela conversa. Longas e disparatas teorias sobre os nomes da família Black.

"Cassiopeia é lindo!" – disse a minha mãe.

"Se for rapariga, mas vai ser um varão com certeza. Arcturus!" – exclamou Orion.

"Eu gosto de Draco!" – disse Bellatrix.

Draco, do latim, dragão. Sabia perfeitamente o que Bellatrix quereria dizer com aquilo. Ambas costumávamos ouvir as histórias do nosso pai sobre os dragões do nosso tetravô. "Lembre-se, crianças, sempre que virem um dragão é sinal de que um grande tesouro está perto." Tesouros esses que eram mantidos em segredo pelos dragões. Como uma verdade inconveniente que todos desejam, mas que todos tinham medo de descobrir. A criança seria igual. Teria dentro dela o maior segredo desta família, caso as minhas suspeitas se confirmassem.

"Draco é bom!" – disse Lucius, inocentemente.

"Porque não Sirius?" – comentou Regulus em surdina.

"Vai ser uma menina, tenho a certeza" – disse Walburga, espicaçando-me – "ela é fraca demais para ter um filho varão. Calíope deverá ser o seu nome.

"Se dependesse de si, Walburga, a criança devia ser baptizada de Pandora, dado que seria um infortúnio nascer menina." – ripostei.

"Não minha querida, Pandora, serias tu."