CAPÍTULO II – O DESEJO DE CRESCER
Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.
Carlos Drummond de Andrade
Quando Elladan desceu a escadaria lateral em busca do irmão, percebeu que seus instintos enfim o haviam levado para o lugar certo.
"Até que enfim..." Ele disse, pulando os últimos degraus e correndo em direção ao gêmeo, que estava agachado embaixo de um carvalho. Elrohir apressou-se em envolver o que tinha nas mãos em um largo pedaço de pano. "O que tem aí?"
"Nada." Respondeu o outro aborrecido. "Por onde você andou? Passou a manhã toda com o ada de novo?"
"Te disse onde estaria." Defendeu-se o outro, estranhando o mau-humor do caçula. "Você não gosta de mexer com as ervas e sais do ada, então nem perdi meu tempo convidando."
"Sempre fica a manhã toda lá."
"Esses experimentos levam tempo, Ro. O ada mesmo disse que deve-se acompanhar tudo do começo ao fim, demore o que for." Explicou o jovem elfo, jogando-se ao lado do irmão, mas mantendo os olhos ainda fixos no objeto que estava sendo ocultado dele.
"Sei..." Elrohir respondeu, pouco convencido e o silêncio preencheu os espaços do que restou daquela conversa por mais tempo do que o desejável, até que Elladan curvou as sobrancelhas, já ciente demais de que algo estava fora de seus eixos.
"Está zangado porque não pude treinar pela manhã, Ro? Eu te disse que o ada tinha reservado esse horário para mim esta semana..."
"Não estou zangado."
"Eu posso treinar agora. Vamos?"
O gêmeo estalou os lábios, dando de ombros.
"Estou cansado desses treinos com espadas de madeira. Já somos adultos."
Elladan franziu os lábios, reconhecendo o velho discurso de queixas e lamentações que o gêmeo vinha repetindo tal qual uma ladainha nos últimos tempos e quase levando todos a sua volta ao desespero.
"Nosso mestre disse que ainda não podemos, Ro. Não temos porte para usarmos uma espada de verdade."
"Somos os mais altos de nossa turma. Crescemos mais rapidamente que todos os demais."
"Mas ainda não o bastante. O mestre disse que temos que ter no mínimo a altura da nana e ainda nem estamos no ombro dela."
Elrohir estalou a língua novamente, cruzando irritado os braços por sobre as pernas dobradas.
"Glorfindel mesmo disse que portava uma espada quando ainda era mais jovem que nós."
"É... ele disse também que nunca se arrependeu tanto por contar algo a alguém..." Lembrou o mais velho. "Era outra época, Ro. Ele explicou para nós, lembra-se? Podemos esperar. Ele já nós deu espadas mais pesadas que a de nossos companheiros. A luta até que está difícil com elas."
"Difícil uma ova..." Resmungou o outro. "E aquelas espadas são ridículas... Eu detesto espadas de madeira... parecem brinquedos de criança."
Elladan soltou um suspiro de insatisfação. Elrohir e suas idéias fixas. Ele desistiu de argumentar, o que era sempre a mais sábia decisão no que concernia aos assuntos radicais do irmão, por fim voltou a observar o objeto escondido pelo gêmeo.
"Vai me dizer o que tem aí?"
"Não é nada."
"E por que não quer me dizer o que é?"
"Porque não. Porque você não entende mais as coisas que digo e fica sempre tomando o partido do ada e do Glorfindel. Então não adianta repartir idéia nenhuma mais com você."
Elladan se surpreendeu com a acusação do gêmeo, não havia percebido até então que sua atitude conciliadora estava despertando esse tipo de sensação no caçula.
"Como assim? Eu... Eu não faço isso, Ro. Não tomo partido de ninguém."
"É claro que toma. Ontem mesmo você repetiu para o dearada o mesmo discurso que o Glorfindel nos diz todos os dias."
"Porque o dearada me perguntou como estavam os treinos..."
"E você foi logo dizendo que estávamos com as malditas espadas de madeira..."
Elladan silenciou-se, desistindo de defender-se. Na verdade não entendia por que o irmão estava tão irritado com ele.
"O que eu devia ter dito então, Ro?" Ele indagou, por fim.
"Deixa pra lá." Elrohir respondeu com os lábios ainda torcidos de insatisfação. "Você faz sempre o que deve fazer, sempre tudo certinho..."
Elladan encurvou as sobrancelhas.
"Não é errado isso, é?" Ele indagou e surpreendeu-se em ver o irmão juntar as coisas que tinha no chão e erguer-se com o que estava escondido ali. Elladan analisou a cena com atenção, enquanto também se erguia devagar, observando o irmão se afastar rapidamente.
"Não tem aí o que eu estou pensando que tem, não é, Ro?" Ele indagou por fim, temendo até cogitar a hipótese que lhe viera à mente.
"Não te interessa o que eu tenho aqui. Vai procurar suas plantas com o ada, vai."
Elladan desprendeu os lábios, surpreso com o ataque tão gratuito do irmão. Ele ainda deu alguns passos, mas desistiu de acompanhá-lo. Seja o que fosse que estivesse acontecendo, ele conhecia Elrohir o suficiente para saber que, no estado em que o irmão se encontrava, era pura perda de tempo tentar argumentar o que quer fosse.
&&&
Já era passado o anoitecer quando Elrohir entrou no quarto. Elladan, que estava em sua cama com um grande livro nas mãos, tentou disfarçar a surpresa de enfim reencontrar o irmão no término do dia, mas não conseguiu.
"Onde você estava, Ro? O ada ficou me perguntando de você o jantar todo."
"Por isso é bom que você não saiba." Elrohir respondeu irritado, retirando as roupas enquanto se dirigia à sala de banhos. "Se soubesse já teria contado. Não consegue ficar com a língua dentro da boca."
Elladan bufou então, sua paciência chegando aos limites com a provocação do irmão, o gêmeo jogou livro e cobertas de lado e seguiu o outro para dentro do cômodo. Quando entrou, Elrohir já estava completamente submerso na banheira. Elladan suspirou impaciente, aguardando que o irmão surgisse mais uma vez. Era um dos hábitos do caçula testar, sempre que podia, quanto tempo conseguiria ficar embaixo d'água segurando o ar. Cada dia esse limite se estendia.
"Fala como se eu contasse tudo a seu respeito para qualquer um que aparecesse." Queixou-se o primogênito, assim que o rosto do irmão ressurgiu, recuperando o ar.
"Pra todo mundo não." O jovem elfo corrigiu, tirando a água dos olhos. "Só para quem te pergunta."
Dessa vez Elladan não respondeu, seu limite de paciência definitivamente esgotado. Ele apenas ficou olhando enquanto o irmão terminava o banho e enxugava-se como se ele não estivesse ali. Quando Elrohir jogou-se, já em roupas de dormir, na própria cama, o gêmeo sentiu que já havia agüentado demais.
"Quando vai me dizer o que eu fiz de errado de uma vez, Ro?" Ele foi sincero então.
"Por quê?" Elrohir mostrou desinteresse, apanhando sem muito empenho um livro que estava em seu criado-mudo e abandonando-o em seguida após apenas ler o título.
"Porque eu não sei o que eu fiz e se você não disser logo o que é, eu vou continuar sem saber." Respondeu o outro, irritado.
"Não fez nada." Elrohir deitou-se então, puxando as cobertas por sobre o corpo e estendendo-se para apagar as velas. Elladan apanhou o castiçal antes que estivesse ao alcance do irmão, afastando-se alguns passos. "Anda. Apaga isso que eu quero dormir."
Dessa vez foi o mais velho a fingir desconhecer o que ouvia, permanecendo com a luz a iluminar-lhe o rosto bastante insatisfeito. Elrohir retribuiu o olhar de descontentamento por um tempo, depois soltou os braços por sobre a cama.
"Está bem. Eu vou dizer. Mas se uma palavra do que eu disser aqui sair por aquela porta, não importa o motivo, eu nunca mais vou falar com você."
Elladan abaixou um pouco o castiçal, depois se reaproximou, colocando-o de volta no lugar e sentando-se na cama do irmão. Elrohir o olhou por um tempo, ponderando os traços de irritação do gêmeo, os caminhos que podia tomar, até onde poderia ir.
"Eu não saio por aí contando aos outros tudo o que você me diz, Elrohir." Defendeu-se o primogênito, totalmente contrafeito e não parecendo ter a intenção de levar uma conversa amigável agora.
"Não. Só o que eu faço de errado."
"Eu não faço isso..." Defendeu-se novamente o irmão, agora com mais ênfase ainda do que da vez anterior. "Às vezes damos azar e alguém descobre e vem me perguntar... Então eu... eu não sei o que dizer. Não sou bom com mentiras como você é... É só isso..."
Elrohir apertou os lábios, a cabeça enterrada no travesseiro alto enquanto os olhos vagavam por aquele teto muito branco. Elladan silenciou-se, limitando-se a balançar o rosto em uma negativa que demonstrava o quanto ele ainda estava aborrecido com aquele impasse, que parecia ter surgido do nada. Só então ele se voltou novamente para o irmão, parecendo enfim aperceber-se do porquê de todo aquele mistério.
"Ai, Elrohir. O que você fez?"
"Por que acha que eu fiz algo?"
"Porque sim. Porque fez e quer me contar, mas acha que eu vou contar para alguém, não é?"
Elrohir não respondeu e Elladan chegou a desejar que ele o tivesse feito de uma vez. Conhecia os silêncios do irmão e a gravidade que escondiam.
"Diga logo... Tem a ver com aquilo que você estava tentando esconder de mim hoje, não tem?"
Elrohir torceu os lábios, mas o leve enrubescer de seu rosto o denunciou.
"O que é? O que tinha lá?" Elladan insistiu, preocupado agora. Então, diante de mais silêncio, ele segurou o braço do irmão, fazendo-o olhar enfim para ele. "Anda, Elrohir! Conta logo o que era!"
"Você disse que sabia o que era." Esquivou-se o gêmeo e Elladan empalideceu no mesmo momento, sentindo a esperança que tinha de estar enganado abandoná-lo subitamente.
"Elbereth." Clamou o jovem elfo, fechando os olhos diante da imagem que sua mente formava agora. "Onde conseguiu?"
Elrohir desviou o olhar para as cortinas oscilantes do quarto, mas um sorriso matreiro já lhe erguia as pontas dos lábios.
"Perto da ferraria." Ele respondeu, tentando agora disfarçar a satisfação que aquelas palavras lhe despertavam.
Elladan encurvou as sobrancelhas, lendo os traços do irmão como nenhum outro sabia fazer. Ele conhecia bem aquela situação, sabia bem no que estava metido quando o gêmeo caçula dava aquele sorriso.
"Como assim? Lorde Angatal não deixa espadas jogadas no lixo..." Ele disse intrigado. Depois uma idéia assustadora lhe ocorreu. "Você roubou uma, Elrohir?"
O gêmeo envergou fortemente as sobrancelhas, olhando agora para o irmão.
"Pelo que me toma agora você também, toron-nín?" Ele respondeu irritado, depois sentou-se na cama em um rápido movimento. Mas Elladan não se intimidou com o repente do caçula, continuando a olhar para ele como quem espera o final de uma história, que já não o agradava desde seu começo. "Era uma espada velha e enferrujada que os soldados acharam na floresta. Nem tem uma ponta decente,"
Elladan sentiu o queixo cair.
"Eu sei qual é... É enorme, Elrohir! Lorde Angatal disse que ia reformá-la..."
"Não pode fazê-lo. Ela não tem dono que autorize o processo. Lembra-se? Toda a espada tem um dono e ninguém pode manuseá-la sem que o dono ou alguém de igual valor autorize. É o que o Lorde Angatal sempre diz."
"Ele disse que ia pedir ao ada a autorização."
"É, mas o ada achou por bem não mexer nela. Eu o ouvi conversando com Lorde Angatal. Não entendi muito bem o porquê, mas no final das contas ele aconselhou o ferreiro a enterrá-la."
"E você a desenterrou?"
"Não era de ninguém."
"É claro que era. Você só não sabe quem."
"Ada disse que o dono deve estar morto, por isso a arma estava abandonada. Provavelmente caiu em alguma batalha ou emboscada há muito tempo. Não precisa da espada."
"Elrohir... Como pode dizer isso? Esqueceu-se de tudo que nos ensinaram? A arma de alguém é sagrada. Se esse alguém não cede o direito a outro de usá-la ela deve ser enterrada com o dono... a não ser que haja algum descendente que clame pelo direito à arma... O Erestor já nos explicou isso também, lembra-se?"
"Isso é besteira." O gêmeo se ergueu rapidamente, passando a andar pelo quarto. "Uma espada com a ponta quebrada, toda enferrujada como aquela... Quem ia se importar?"
"E se fosse a espada de nosso avô?" Elladan argumentou, voltando-se, ainda sentado na cama, para acompanhar o movimento do irmão pelo cômodo.
"Como assim? O ada reconheceria se fosse a espada do nosso avô. Que bobagem você está falando?"
"E o que você acha que o ada faria se reconhecesse a espada como a do nosso avô?"
"Sei lá! Depende..."
"Depende do quê?"
"Depende, droga!" Aborreceu-se o gêmeo, percebendo enfim aonde o irmão queria chegar. "Tem um monte de coisas que ele podia querer fazer..."
"Entre elas dar a espada para um elfo novato manusear." Completou Elladan, já com ares de quem sabe que está em uma discussão perigosa.
O olhar que Elrohir ofereceu-lhe como resposta só veio confirmar sua conjetura.
"Vou tratar a arma com respeito." Defendeu-se o mais novo. "Não vou sair com ela para matar insetos ou coisa do gênero como fazem os pequenos com suas espadas de madeira!"
"Não é sua, Elrohir." Elladan ergueu-se. "Não pode fazer nada com ela. Muito menos testar o pouco que aprendeu sobre ferraria com ela."
Elrohir abriu rapidamente os olhos, não conseguindo disfarçar a surpresa. Ter um irmão gêmeo que o conhecia tão bem, muitas vezes era por demais inconveniente.
"Quem te disse que vou fazer isso?" Procurou defender-se inutilmente o caçula.
"Seus olhos estão me dizendo isso e coisas ainda piores do que isso." Acusou o mais velho. "E nós vamos nos encrencar como nunca nos encrencamos desde que nascemos, toron-nín."
Elrohir enrubesceu novamente, mas dessa vez era a ira que lhe coloria as faces. Ele bufou então, indignado e pôs-se a balançar a cabeça.
"Droga, Dan. Por isso não lhe conto mais as coisas. Você está com uma conversa de adultos que é insuportável."
Elladan também sacudiu a cabeça, só que por um motivo diferente daquele do irmão.
"Percebe que ao dizer isso está praticamente admitindo que ainda quer ficar no mundo dos que não são adultos, Elrohir?" Ele disse e recebeu o pior olhar que já recebera do irmão, mas, mesmo assim, não se intimidou, dando um passo à frente e segurando-lhe o braço esquerdo. "Anda, vamos devolver a arma ao lugar onde você a encontrou. Fazemos um solene pedido de desculpas a seu antigo dono e assim, por sorte, ficamos livres de qualquer coisa ruim que ela possa carregar."
Elrohir puxou o braço, voltando a se afastar.
"Não sei por que está colocando essa conversa no plural desse jeito." Ele argumentou contrafeito. "Se a arma tem alguma maldição ou algo do gênero, você não precisa temer pelo seu pescoço de irmão mais velho. Fui eu que fiz a bobagem, seja o que for que ela venha a trazer vai atingir só a mim e não a você."
Elladan apertou os lábios firmemente, depois suspirou.
"Até parece que o que acontece com você não me influencia em nada..." Ele disse em tom triste. Só agora percebia porque aquela história o estava desagradando tanto. "Por que quer nos afastar um do outro, toron-nín?"Ele indagou. "Estou ficando tão insuportável para você assim?"
Elrohir não respondeu, também não olhou mais para o irmão, e o tempo escorregou novamente seus grãos de areia por mais um indigesto período, até que os olhos do caçula deslizaram em suas órbitas para tentar ver porque o irmão mais velho ainda não se movera. No rosto de Elladan não havia aquela resposta específica, no entanto, a tristeza que estava nele não era exatamente algo que o gêmeo mais novo pudesse ignorar.
"Eu não quero te afastar de mim." Elrohir disse enfim, aproximando-se um pouco. "Só sinto saudades do tempo em que você não questionava tanto as coisas que eu fazia como faz agora."
"Se faço isso é porque tenho receio que se dê mal, toron." Defendeu-se o outro, soltando os ombros. "Você é muito impulsivo. Faz as coisas sem pensar e depois se arrepende e eu... eu não gosto de ver como você fica quando está arrependido... É muito triste."
Elrohir trancou o maxilar, apertando os dentes com força para não deixar que a malcriação que estava preparada para saltar de sua garganta o fizesse. Sabia que o irmão tinha razão, mas simplesmente não conseguia admitir isso.
"Eles me forçam a fazer o que é errado." Ele disse então. "O que custava me darem a espada que eu queria?"
Elladan dobrou as sobrancelhas, desprendendo os lábios como quem não acredita no que ouve.
"Eles te forçam? Mas que bobagem é essa, Elrohir? Você sabe que não pode tê-la agora. Sabe o porquê. Eles te explicaram tudo, não disseram apenas 'não e fim de conversa'. Você está sendo injusto."
"E você os está defendendo! Viu! Por isso não lhe conto mais nada. Você não me entende mais!" Desabafou o gêmeo, apanhando uma muda de roupas e se dirigindo até a porta.
"Aonde vai?"
"Vou dormir em outro lugar!" Disse o irmão. "Eu não quero mais ficar com você. Amanhã vou pedir um quarto para mim. Quem sabe isso eles me dão."
Elladan ficou sem ação e nenhuma resposta lhe surgiu, nem mesmo quando se sobressaltou com o estrondo que o irmão fez, batendo a porta do quarto com força. Naquela noite, no entanto, ele não dormiu, passando horas sentado em sua cama, contendo algo muito ruim que crescia em seu peito, uma sensação de tristeza que jamais sentira antes.
&&&
Logo pela manhã Elladan vestiu-se e desceu as escadas à procura do irmão. Podia aceitar que Elrohir estivesse zangado com ele, mas ainda estava preocupado com o que o gêmeo faria com aquela espada que não lhe pertencia.
"Quel amrun, El-nín!" A voz suave da mãe encontrou-o no último degrau, mas seu sorriso logo se converteu em um olhar de preocupação. "Por que esta com esse semblante tão abatido, tithen-pen?" Ela encurvou-se um pouco para olhar o filho de perto. "Não dormiu bem essa noite?"
Elladan forçou os lábios em um ar de indignação disfarçado. Em algo os dois irmãos concordavam. A mãe precisava parar de tratá-los como dois elfinhos.
"Está tudo bem, nana." Ele respondeu sem olhá-la. "A senhora viu o Ro?"
Celebrian uniu os lábios em uma fina linha, depois apoiou a mão por sobre o ombro do filho, acariciando-o devagar.
"Discutiram?" Ela deduziu.
Elladan soltou um suspiro de insatisfação que, por si só, já refletiu a resposta que a mãe esperava.
"Não o vi desde que me levantei, ion-nín." Ela respondeu então. "Quer que eu te ajude a procurá-lo?"
"Não, obrigado, nana..." Elladan respondeu, já se afastando.
"Não quer me contar o que aconteceu, Elladan?" Celebrian ainda disse e o gêmeo mais velho estremeceu. Eram raríssimas as vezes que a mãe chamava qualquer um dos filhos pelo nome e quando o fazia assim, como estava fazendo agora, sem o tempero da advertência ou algo do gênero, uma sensação de gravidade o assolava. Ele voltou-se então, para reencontrar o olhar ainda mais preocupado da mãe.
"Não posso contar, nana..." Ele foi sincero, sabendo que se alguém ali poderia entendê-lo, esse alguém era a mãe. "Mas vai ficar tudo bem... Não se preocupe..."
Celebrian estagnou-se calada por um instante, depois se achegou, descendo os finos dedos por uma das mechas do filho.
"Se ele se meteu em alguma confusão tire-o dela antes que seu pai descubra." Ela aconselhou com um sorriso preocupado. "Mesmo porque, o meu pai também está aqui e ele é ainda menos tolerante do que o seu." Ela completou e o jovem elfo voltou a estremecer, agravando mais a preocupação que a mãe procurava disfarçar. Elladan apenas encurvou-se em uma pequena despedida e saiu pela porta principal, deixando Celebrian com um sentimento misto em seu coração. De repente os filhos pareciam tão crescidos e maduros, no entanto ainda tão despreparados para as intempéries da vida.
Custou ao elfo mais velho quase meio dia para, enfim, achar o irmão. Elrohir estava em uma das pequenas cavernas abandonadas das grutas laterais e não mostrou qualquer satisfação ao ver quem conseguira encontrá-lo.
"O que faz aqui?" Ele disse, jogando novamente o mesmo pano por sobre a arma na qual trabalhava.
"Eu não acredito que está fazendo isso, Elrohir." Elladan aproximou-se incrédulo, mas o gêmeo tomou-lhe a frente, comprometendo qualquer visão que ele pudesse ter do trabalho que fazia. "Não pode manusear a arma que não lhe pertence, Elrohir."
"Não posso, mas fiz." Disse o outro, dando um leve empurrão no irmão para que ele voltasse a se afastar. "Já tinha começado, não ia deixar o trabalho pela metade."
Elladan soltou os lábios, olhando agora para os apetrechos que o irmão trouxera para o lugar. A gruta, na qual estavam, era maior por dentro do que sua apertada e oculta entrada transparecia. Lá ele improvisara um forno quente em uma das falhas da pedra, trouxera um grande tonel d'água e outras ferramentas e conseguira transformar aquela pequena gruta em uma espécie de ferraria. O gêmeo mais velho observava tudo sem saber o que dizer, dividido entre a tremenda admiração que sentia pelo esforço e habilidade do irmão e pela intensa preocupação que aquilo tudo lhe despertava. Ele, por fim, pousou novamente seus olhos na peça coberta, antes de voltá-los ao irmão, cujo olhar era indecifrável.
"Como ficou?" Indagou, sem conseguir conter a curiosidade, e Elrohir ainda custou alguns instantes para demonstrar alguma reação diante daquele questionamento. Seus lábios se ergueram devagar e aquele mesmo sorriso matreiro voltou-lhe a face, quase fazendo o irmão esquecer de seus temores.
"Venha ver." Ele disse, apressando-se em colocar-se diante de seu trabalho. Elladan aproximou-se receoso, mas quando Elrohir descobriu a peça, seu queixo caiu, deixando a boca completamente aberta.
"Elbereth." Ele disse. "Essa é aquela espada que a patrulha encontrou?"
"Ela mesma." Elrohir sorriu largamente então, parecendo satisfeito com o ar de surpresa do gêmeo.
Elladan respirou fundo, jamais imaginara que arma tão antiga e desgastada pudesse se transformar daquele jeito nas mãos de alguém tão inexperiente quanto era o irmão.
"Fez um trabalho de mestre, Elrohir..." Ele se viu dizendo, ainda olhando meio pasmo para a bela peça, cujo brilho quase iluminava toda a caverna. "Como soube o que fazer?"
"Fiquei uns dias olhando o trabalho do ferreiro e repetindo aqui todas as manhãs, quando você estava com o ada."
Elladan olhou-o surpreso.
"Então está a muitos dias me escondendo essa sua investida!" Deduziu surpreso e o sorriso do outro desapareceu. Ele apenas deu de ombros, segurando o cabo da espada sem tirá-la do lugar. Elladan mordeu o canto dos lábios, sem saber o que dizer, o que aconselhar. Sabia que mesmo com um belo trabalho como aquele, ainda haviam infringido uma regra importante da qual tinham total conhecimento, o que só fazia agravar mais o fato. Logo os olhos de Elrohir liam a preocupação que havia no rosto do irmão.
"Eu vou me dar mal, eu sei." Admitiu. "Mas valeu a pena..." Ele adicionou, olhando agora seu próprio reflexo na arma.
O rosto de Elladan ganhou seriedade novamente enquanto repetia palavra por palavra do que ouvira. Ele então apoiou a mão por sobre a que o gêmeo segurava a espada e apertou-a.
"Vamos enterrá-la."
"Nem pensar."
"Vamos, Ro!" Elladan insistiu, mesmo quando o irmão voltou a empurrá-lo para longe da arma. "Vão descobrir..."
"Não vão descobrir."
"Vão sim. E vamos ser castigados."
"Você não vai ser castigado. Você não tem culpa."
"Claro que tenho. Eu sei de tudo."
"É só dizer que não sabe. Você nem sequer tocou em nada."
"Eu não sei mentir!" Elladan disse em tom forte e agoniado, e seus olhos brilharam dessa vez de tal forma que Elrohir indispôs-se a afrontá-lo.
"É só não dizer nada, Dan. Eu canso de te falar. Se te perguntarem você não diz nada... Eu não vou sair com a arma por aí. Eu prometo. Só vou treinar com ela aqui na caverna."
"Treinar com ela? Você enlouqueceu, Elrohir? Olhe o tamanho dessa arma! Olhe o fio que você deu a ela! Eu posso sentir o seu peso e perigo daqui! Não pode usá-la, nem de brincadeira."
"Eu não vou usá-la de brincadeira. Eu vou treinar com ela. Sabe que posso. Só preciso me acostumar com o peso dela."
Elladan sacudia a cabeça agora, quase em desespero.
"Pelos Valar, Elrohir... Pense no que você está fazendo. São muitos erros juntos para que possam resultar em alguma coisa boa. Você roubou uma espada de seu túmulo, você forjou seu metal, converteu-a em uma arma diferente da que era, você não informou a ninguém e agora quer portá-la sem qualquer preparo ou autorização de seu mentor. Não pode fazer isso. Tem que parar, Elrohir." Ele terminou, desesperando-se ainda mais ao perceber que a reação do gêmeo às suas palavras resumia-se apenas a um leve balançar de cabeça.
"Essas são só tradições tolas, Elladan." Elrohir retorquiu. "Nós mesmos estudamos tempos antigos nos quais essas tradições nem sequer existiam. Os elfos forjavam suas armas quando precisavam delas e elas eram só armas sem nome, identidade, dono. Não havia ritual algum para enterrá-las, para fazê-las, ou para portá-las. Isso é tudo bobagem que os mestres criaram para poderem ter algum poder de determinar quando as coisas podem ou não acontecer. Eu estou cheio disso, cheio de esperar que alguém me diga o que fazer e quando fazer."
Elladan cobriu o rosto, quando na verdade desejava cobrir os ouvidos e fingir que não era o irmão a dizer aquelas heresias.
"Elbereth, Elrohir..." Ele disse, respirando fundo. "Por que tem sempre que duvidar das pessoas, até daquelas de quem você gosta?"
"Elas é que duvidam de mim." Rebateu o gêmeo, estendendo o braço para mostrar novamente a peça. "Lembra-se o que disse o ferreiro Lorde Angatal quando eu pedi a ele que me ensinasse o ofício? Oh, Lorde El. É uma grande honra, mas esperemos sua maturidade para isso. Então falaremos com seu pai sobre seu desejo de ser aprendiz". Repetiu o gêmeo em tom de desdém, depois estalou a língua. "Toda essa espera sendo que eu consegui fazer o trabalho que queria em uma semana."
Elladan não respondeu, nada lhe ocorria no momento, senão a indigesta sensação de que os argumentos do gêmeo eram mais válidos do que ele gostaria que fossem. Ele baixou a cabeça, unindo as mãos diante do rosto.
"Mesmo assim, Elrohir... Se eles descobrirem..."
"Não vão descobrir." Disse o irmão, erguendo agora a espada com grande esforço. Elladan afastou-se um passo ao ver a cena.
"É muito grande..."
"É... É sim... Deu um trabalhão..." O irmão agora olhava a espada erguida com admiração e seriedade.
"Acha mesmo que pode manuseá-la?"
Elrohir torceu os lábios, fazendo um visível esforço para mover a peça em pequenos movimentos circulares agora, sem deixar de equilibrá-la em pé como vinha fazendo.
"Não parecia tão pesada assim quando eu a forjava." Ele admitiu e Elladan deu um passo a frente, para vê-la melhor.
"Ela tem um brilho estranho. Como era seu metal?"
"Não muito fácil de moldar. Tive que aquecer bem..." Respondeu o gêmeo, ainda concentrado nos pequenos movimentos que fazia. "Pensei que fosse mero ferro com ferrugem, mas não. Ainda bem que estava mais suja do que outra coisa. Só tive mesmo trabalho para reconstituir a ponta partida."
"Ah..." Elladan aproximou-se mais, fascinado pelo cintilar da arma. "Elbereth. É mesmo muito bonita."
"E resistente. Depois que esfriou nem uma pedra dura fazia nela a menor marca." Comentou o gêmeo, desviando vagamente os olhos para ver o ar de admiração com o qual o irmão olhava agora a arma. Um frio estranho estava se formando em seu estômago com aquela cena. Algo que ele não conseguia explicar. "Afaste-se um pouco, Dan." Ele pediu. "Vou colocar no lugar."
Elladan assentiu com a cabeça, mas antes que pudesse seguir o pedido do irmão a arma simplesmente pendeu nas mãos de Elrohir, como se subitamente tivesse ficado pesada demais. Seu fio desceu exato e mesmo Elladan, cujos sentidos de defesa Glorfindel sempre elogiava nos campos de treinamento, não foi rápido o bastante para proteger-se do perigo eminente. A espada desceu rasgando-lhe a túnica e abrindo-lhe um extenso corte no peito.
O jovem elfo ainda teve o ímpeto de dar mais um passo para trás, buscando alguma outra defesa, como se sentisse que a arma tinha vida própria, até perceber seu peito inundar-se de sangue rapidamente e apoiar ambas as mãos sobre ele, antes de cair de joelhos.
"DAN!" Elrohir largou a arma e atirou-se ao lado dele, puxando já a própria capa e a usando para tentar conter o sangramento. "Acha que pode esperar? Eu vou chamar o ada. Vou bem rápido."
"Não!" O gêmeo o segurou.
"Como não? Você está sangrando."
"É... É só um corte... Eu... Eu sei o que... o que fazer..." Dizia o mais velho entre gemidos e caretas de dor.
"Nem pensar." Elrohir pôs-se a levantar, mas foi novamente segurado.
"No nosso quarto... há aquela bolsa onde eu guardo... as ervas e experimentos que fiz com o ada... Traga para mim... Traga ataduras também..."
"Não, Dan! Eu vou chamar o ada."
"Vamos ser castigados."
"Dane-se."
"Não... Não sabemos... Não sabemos a gravidade do... do que fizemos... Por favor, Ro..."
Elrohir apertou o maxilar, observando o estado do irmão atentamente. Aquela sensação horrível ainda gritava-lhe que era hora de parar, mas ele não conseguia deixar de temer pelo que o irmão lhe dizia.
"Vai logo, Ro... Faça o que eu lhe peço... Vai dar tudo certo..."
Elrohir ainda olhou para o gêmeo, temeroso, depois assentiu, saindo como um furacão por aquela caverna. Se alguém haveria de ser indicado para uma tarefa cuja necessidade fosse a de rapidez, esse alguém teria que ser Elrohir. Logo ele estava de volta, auxiliando o irmão com as bandagens e medicamentos.
"Isso tem um cheiro horrível." Disse o gêmeo, quando terminava a atadura recheada de ervas amassadas e outras coisas que ele nem conhecia em volta do tórax do irmão. "Ada vai perceber assim que chegar perto de você."
Elladan mordeu o lábio, procurando administrar a dor.
"Estou sempre cheirando a essas ervas..." Ele defendeu-se. "Se ele perguntar, eu digo que estava mexendo com elas..."
"Vai aprender a mentir agora?" Provocou o irmão, apenas para ver se conseguia roubar um riso do gêmeo.
"Não... Não vai ser mentira..." Elladan não se deixou levar pela provocação, fechando brevemente os olhos. "Só espero que ele não me faça a pergunta seguinte..."
"Que pergunta?" Elrohir indagou preocupado, vendo o irmão pender a cabeça para o lado, no chão duro daquela caverna.
"Por... Por quê..." Esclareceu o gêmeo, reabrindo os olhos e fixando-os nos do irmão. Elrohir ofereceu-lhe um sorriso preocupado, apoiando a mão por sobre o ferimento embalado.
"Desculpe, Dan. Eu devia ter te ouvido." Ele disse com tristeza. "Tudo o que eu menos queria era ter na recordação que a primeira pessoa que atingi com a espada foi você."
Elladan fechou brevemente os olhos e Elrohir julgou que ele não os fosse mais reabrir até que o fez, tentando retribuir o sorriso fraco e forçado que o irmão lhe oferecia.
"Preciso dormir um pouco... É o remédio... Eu não consigo ficar acordado... Fique comigo até eu voltar a despertar, Ro... por favor..."
"Eu não vou a lugar algum... Eu prometo..." Elrohir disse rapidamente, apoiando a cabeça do irmão em seu colo e cobrindo os olhos dele com uma das mãos. Ele soltou um suspiro preocupado assim que o gêmeo desprendeu os lábios, adormecendo enfim, e lamentou profundamente todo aquele incidente que provocara. Se pelo menos houvesse um lugar confortável para o gêmeo se recuperar que não fosse aquele chão...
