Olá. Espero que todos estejam bem. Conforme prometido, aqui está o novo capítulo de A MÃO DO PRÓXIMO GUERREIRO. A cada fim de semana postarei um deles. Espero que todos tenham tempo para ler.

Fiquei feliz com a aceitação dessa fic, pensei que uma história com os gêmeos talvez não despertasse interesse nos leitores SdA. Que bom que estava enganada.

Agradeço demais as reviews que recebi e espero de coração que os que estiverem lendo me deixem um comentário que seja. Eu adoro reviews, sentir cada um que lê, encontrá-los novamente a cada capítulo. Obrigada de verdade aos que me presenteiam com esses comentários.

Desse capítulo em diante passo a desenvolver minha idéia, embasada em uma das versões de um período da história que não sei se está de completamente correta. Entre todas as minhas dúvidas está a história de Celeborn e Galadriel, que adaptei um pouco aqui e ali para que encaixasse na linha temporal que preciso. Espero não ter feito nenhuma heresia.

Obrigada novamente. Espero que gostem do capítulo

Beijos

Sadie


CAPÍTULO III – A DURA PENA

A principal e mais grave punição para quem cometeu uma culpa está em sentir-se culpado


Sêneca


Se havia algo que todos sabiam a respeito dos filhos do lorde de Imladris era que eles eram os elfos mais perspicazes do lugar, independentemente do plano de aprendizagem que lhes fosse exigido. E Elladan, apesar de mais pacato e avesso a grandes desafios, mostrou-se um eficiente guerreiro no que condizia ao talento que todo senhor das armas deve ter para lidar com suas dores, não fazendo delas um empecilho para qualquer trabalho.

Três longos dias se passaram sem que qualquer um na Grande Casa Amiga, a não ser os próprios gêmeos, soubesse o que havia acontecido. Elrohir escondera a arma até que decidissem o que fazer com ela e passava os dias às voltas do irmão, algumas vezes ajudando-o a trocar as bandagens, outras inventando desculpas para tirá-lo de qualquer compromisso em que os mais velhos queriam envolvê-lo. Ninguém na verdade estranhou, julgando que a atitude superprotetora do caçula fosse apenas um reflexo do caráter sempre enciumado que o jovem elfo tinha em relação ao gêmeo mais velho.

Tudo parecia correr bem, excetuando um fato que estava tirando o caçula do sério.

"Não fechou ainda, Dan." Ele disse, observando as manchas que surgiam nas bandagens do irmão. Estavam sentados em um jardim dos fundos da casa e Elladan encostara-se em um carvalho, bastante pálido. "Está doendo, não está?"

"Está... Essa noite eu tenho que arrumar uma desculpa para não jantar com todo mundo..." Ele disse, fechando os olhos. "Ada estava me olhando com aquele olhar ontem... Pensei que ele não fosse estar à mesa como nas noites anteriores. Ele e o dearada têm conversado tanto no gabinete..."

"É... eu o percebi te olhando. Ainda bem que não perguntou nada..."

"É..."

"Quer ir pro quarto?"

Elladan fechou os olhos, soltando o ar devagar pelos lábios.

"Quero que pare de doer..." Ele disse quase para si mesmo, mas em seguida percebeu sua indiscrição e reabriu, arrependido, os olhos. Elrohir o observava com ares de indisfarçável preocupação e arrependimento.

"Me deixa falar para o ada..." Ele pediu pela enésima vez.

"Não... Você prometeu..."

"Era para estar melhor, Dan... Você falou que eram dois dias para fechar por fora pelo menos e já são quatro e continua sangrando." Ele comentou, apoiando a mão na testa úmida do gêmeo. "Você parece quente..."

"Deve estar inflamado... Tenho que mudar as doses das folhas e usar um pouco mais daquele pó... laranja com gosto ruim..." Elladan disse como se conversasse consigo mesmo e Elrohir ofereceu um sorriso triste. Lamentava ter aprendido apenas agora a valorizar aquele ensinamento que o irmão parecia apreciar mais do que qualquer outra coisa no mundo. Ele voltou a olhar para o ferimento, tentando afastar mais uma vez aquela bendita voz que lhe gritava de dentro de sua cabeça. Elladan percebeu o desconforto do irmão e por isso buscou disfarçar o mal estar que sentia, deixando que se esvaíssem em seu rosto os traços de dor, agora camuflados como ele parecia fazer bem como ninguém. "Vai ficar tudo bem, Ro. Eu só preciso de mais tempo e acertar o medicamento... Acho que sei o que fazer agora..."

Elrohir suspirou, assentindo com a cabeça, mas o gemido fraco do mais velho, assim que ele apoiou a mão por sobre as bandagens, o fez ver que havia muitos riscos naquela nova empreitada, riscos que talvez fossem sérios demais para valerem realmente a pena.

"Vou buscar mais bandagens, está bem?"

Elladan custou um pouco a responder, concentrado como estava em lidar com um inimigo que parecia cada vez mais poderoso. Elrohir tocou-lhe uma das mãos, preocupado, e o gêmeo enfim refocou o olhou no do caçula.

"Certo..." Ele disse, voltando a fechar os olhos depois de fazê-lo. "Traga a mochila pra mim, toron... Acho que não vem ninguém aqui... já é quase fim de tarde..."

Elrohir assentiu em silêncio, erguendo-se e preparando-se para o que quer que estivesse por vir. Sabia que tinha cometido um erro grave, talvez o mais grave de toda a sua existência. Não podia arrastar seu irmão com ele como vinha fazendo. Precisava fazer alguma coisa.

&&&

Era o fim de uma tarde quente de primavera quando a porta da biblioteca se abriu e o rosto de gêmeo mais novo surgiu por trás dela. Elrond virou-se na poltrona na qual estava para vê-lo, estranhando que o filho houvesse desconsiderado o aviso de que estava em reunião e o estivesse interrompendo.

"Ion-nín." Ele disse de imediato. "A sentinela do corredor não lhe pediu que não entrasse?"

O jovem elfo não respondeu, seu olhar escurecido apenas passou rapidamente pelas figuras presentes: O avô e seus mentores, Glorfindel, Erestor. Eram todos familiares, mesmo assim o gêmeo os olhava como se fossem completos estranhos naquele momento.

"Preciso falar com o senhor, ada." Ele disse enfim, enfrentando bravamente o olhar intrigado do pai, adornado agora pelas contraídas sobrancelhas em v.

"Devo informar que estamos em reunião, Elrohir?" Elrond mudou seu tom, então. Tinha problemas com o filho mais novo, a quem a paciência nunca favorecera, e que, dia-a-dia, parecia saber menos como fazer uso da pouca com a qual fora agraciado. "Não é porque conhece os presentes que o que tratamos aqui é irrelevante ou pode esperar."

Elrohir pressionou o maxilar, ainda em pé, mas em seu rosto havia uma seriedade que pareceu estranha para o pai. Apesar de sempre irritadiço, o gêmeo mais novo passava a maior parte do tempo entre risos e brincadeiras e aquele semblante austero não lhe cabia de forma alguma.

"Preciso falar com o senhor, ada." Ele repetiu. "Agora..."

Elrond esvaziou os pulmões e seus olhos ainda favoreceram rapidamente os outros presentes da sala, buscando sentir como a atitude do filho estava sendo recebida por eles. Em momentos como aquele, no qual sabia que uma repreensão poderia ser necessária, Elrond tinha nos amigos bons aliados, que se guardavam sempre em um sábio silêncio, mesmo quando o desejo de manifestar-se parecia ser incontrolável.

"Venha cá, então." Concordou o curador a contragosto, fazendo um breve gesto para que o rapaz se aproximasse. "Mas seja breve, criança, pois estamos realmente em uma discussão bastante importante."

Elrohir não se moveu, mas Elrond percebeu-o encher o peito, e seus olhos buscaram rapidamente a luz da única janela aberta, como se algo que se passava lá fora o estivesse incomodando. Por fim, ele voltou a olhar para o curador, depois deu um passo em direção do corredor.

"Preciso que venha comigo, ada."

O próximo suspiro de desaprovação do pai foi menos sutil do que o anterior. Elrond balançou a cabeça.

"Elrohir..." Ele iniciou sua repreenda, mas foi de pronto interrompido.

"Preciso que o senhor venha comigo agora, ada."

Elrond tornou a franzir o cenho, observando agora a palidez do caçula, mesmo disfarçada em seu semblante sempre altivo e queixo erguido.

"O que aconteceu que não pode esperar, rapaz?"

Elrohir encheu o peito, e seu silêncio não ajudou a aplacar o inconformismo do pai por estar sendo interrompido em um momento que parecia ser bastante importante. Além disso, o fato do jovem elfo já se deslocar em direção á porta e passar a aguardar como quem nem sequer considera a hipótese de não ser atendido em seu pedido, só fez com que a indignação do curador aumentasse.

Elrond soltou um suspiro, audível dessa vez, lançando ao rapaz um olhar cuja tradução o filho conhecera desde pequeno, embora poucas vezes visse. Era o aviso de que os rumos não estavam a contento e algo deveria ser mudado urgentemente. No entanto, dessa vez nem mesmo essa ameaça tão característica do lorde elfo, surtiu o efeito esperado no caçula. O rapaz continuava a aguardá-lo, ignorando bravamente todos os indícios de que sua atitude estava sendo considerada no mínimo deveras inapropriada.

Foi só então que Elrond fez o que poucos pais faziam, engoliu seu brio e pôs-se a tentar compreender que outra interpretação além daquela que seu espírito de educador lhe despertava, podia haver para a insistência do filho. Ele desceu as linhas do rosto do rapaz com atenção, buscando ler os pequenos tremores que lhe haviam passado despercebido.

Algo realmente havia acontecido, só lhe restava descobrir a gravidade daquilo.

Elrond voltou-se mais uma vez para os amigos depois disso. Celeborn apenas ofereceu-lhe um pequeno aceno de concordância para o pedido implícito naquela atitude, o mesmo fez Erestor, mas Glorfindel tinha as sobrancelhas contraídas como as do amigo curador, parecendo compartilhar as mesmas dúvidas e preocupações.

"Peço-lhes desculpas." Disse, por fim, o lorde elfo, erguendo-se contrariado e afastando-se em direção à porta.

Elrohir já escapara por ela, apressando-se em sair e ficando a aguardar o pai no corredor. Elrond lançou-lhe um olhar breve.

"Menino, devo adverti-lo que se eu concluir que um outro alguém poderia ter resolvido seu problema ou que ele não é tão urgente quando quer me fazer crer, terei que lhe dar um corretivo pela interrupção." Ele ameaçou, mas tudo o que o caçula fez foi continuar o trajeto que tinha em mente alguns passos à frente do curador como se não o estivesse ouvindo.

Passaram então pela sala e quando chegaram à escada da saída da grande casa, a paciência de Elrond esvaiu-se e ele apressou o passo, segurando o filho pelo braço.

"Aonde deseja ir, Elrohir?" Ele indagou com uma seriedade que só fez com que o jovem elfo empalidecesse, mas o gêmeo encheu o peito de ar e coragem, puxando um pouco mais o braço até voltar a libertar-se e continuando sua caminhada escada abaixo.

A Elrond não restou alternativa se não acompanhá-lo.

Cruzaram então o jardim lateral, passaram por alguns pequenos arbustos até que o cenário que surgiu fez com que Elrond deduzisse onde o filho o estava levando e porquê. Encolhido em um dos cantos do jardim, embaixo de um velho carvalho, estava o gêmeo mais velho.

A princípio o curador sentiu uma sombra de indignação querer invadir seu peito, julgando que os gêmeos houvessem se desentendido como muitas vezes acontecia e, também como era bastante freqüente, estivessem apenas procurando o pai para ajudá-los em uma reconciliação amigável. No entanto, quando avistou o olhar de Elladan, no momento em que este ergueu o rosto ao vê-los se aproximando, percebeu que algo estava errado. O gêmeo mais velho levantou-se de imediato, mas não se afastou, parecendo caminhar com dificuldade.

"Não acredito, Elrohir!" Ele disse, baixando a cabeça e afastando-se. "Por que o trouxe aqui? Contou a ele?"

Elrond franziu as sobrancelhas, aproximando-se agora e estranhando ver que o primogênito não só fugia de seu olhar, mas buscava manter-se de costas e afastado dele, como se ocultasse algo bastante importante.

"O que se passa aqui, meninos?" Indagou o pai, confuso agora, mas desagradado por completo das sensações estranhas que aquela cena estava lhe trazendo. "Venha cá, Elladan, vamos."

O gêmeo mais velho não respondeu, nem mesmo atendeu ao pedido. Ele se limitou a ficar apoiado agora no carvalho antigo, ainda de costas para o pai. Elrond parou por um instante, analisando o corpo do primogênito e por fim algo lhe chamou a atenção. O jovem elfo mantinha um dos braços em volta do tórax, por sobre a região do abdômen. Foi a sensação que faltava ao curador para vencer por si a distância que o separava do filho.

"O que está sentindo, ion-nín?" Ele indagou, segurando um dos braços do rapaz. Elladan ainda tentou esquivar-se, mas Elrond não ignorou seus instintos de curador. Ele se ajoelhou então, buscando o olhar do filho e forçando-o a desfazer-se de sua posição defensiva. Logo a grande nódoa vermelha que se escondia por sobre a túnica escura do rapaz revelou-se aos olhos surpresos do pai. "Elbereth... O que foi isso, criança minha? O que aconteceu?"

Elladan sacudiu a cabeça com força então, o corpo trêmulo ainda tentando libertar-se da atenção a ele destinada.

"Não... Não foi nada... Não foi..." Ele dizia, ainda parecendo indisposto a se deixar ajudar, seus olhos, no entanto, enchiam-se de lágrimas, cuja motivação não parecia ser apenas a dor.

"Como assim, menino?" Disse o pai inconformado, segurando agora os braços do filho para que ele não voltasse a esconder o ferimento. "Diga-me o que aconteceu, Elladan!" Ele pediu então, mas seu tom decidido fez com que o pedido soasse mais como uma ordem ou algo pior do que isso. Elladan fechou os olhos, sentindo enfim que estava em um beco sem saída. Não podia negar o que estava sentindo, tampouco conter o avanço daquela dor. Ele apertou então as pálpebras fechadas, temendo incontrolavelmente tudo que estava por vir

"Desculpe... Desculpe, ada... Por favor... não se zangue..." Ele disse em um tom de pura agonia e estremeceu. Lágrimas de dor e angústia passaram a escorrer por seu rosto pálido enquanto seu corpo ardia em uma febre que crescia visivelmente.

Elrond sobressaltou-se, envolvendo agora o trêmulo filho, que ainda assim endurecia o corpo como se temesse ser ajudado.

"Está tudo bem... Não chore, ion-nín. Não estou zangado... Deixe-me ajudá-lo, criança minha..." Ele garantiu e só então o primogênito soltou-se nos braços do pai como se suas pernas não conseguissem mantê-lo em pé mais, e um gemido de dor foi sua única resposta, antes dele fechar os olhos e apertar uma das mãos no robe do curador como se temesse agora que o pai se afastasse dele.

Elrond sentiu como se uma parte de seu coração estivesse sendo açoitada impiedosamente. Ele abraçou o filho com cuidado e tomou-o nos braços. "Vai ficar tudo bem, confie em mim." Ainda garantiu ao ouvido do rapaz, enquanto reerguia-se seguindo apressadamente o caminho de casa sem mais qualquer questionamento.

&&&

Foram mais três longos dias para o quadro de Elladan se estabilizar. Durante esse tempo ninguém discutiu sobre o acontecido. Apenas depois que a febre cedeu, Elrohir foi, enfim, chamado em particular para a conversa pela qual o rapaz esperava e temia.

O gêmeo deixou, relutantemente, o quarto. Não havia abandonado o lado daquela cama desde que Elladan fora ali colocado, e agora, mesmo deixando o gêmeo aos cuidados de Lady Idhrenniel, sentia-se mal por fazê-lo.

Quando o gêmeo entrou na biblioteca, acompanhado pela mãe, estranhou ver que não apenas o pai estava ali, mas também o avô, Erestor e Glorfindel. Ele não olhou para ninguém, limitando-se a permanecer em pé enquanto a mãe fechava a porta. Ela tomou-o então pela mão e o fez sentar-se em uma das poltronas do lugar. Aquela era a sala de conselho. Local para o qual o pai se dirigia só quando os assuntos eram extremos. Elrohir jamais entrara ali, muito menos se sentara em uma daquelas poltronas e não se sentia nem um pouco satisfeito com o motivo que originara essa ocasião.

O gêmeo permaneceu calado, como estava desde o dia em que contara toda a história para o pai, enfrentando o ar atônito deste. Ele se lembraria daquele instante eternamente, disso tinha certeza. Jamais havia visto o pai tão decepcionado quanto naquele dia. Elrond ficou tão sem palavras que se limitou apenas a fazer-lhe um breve gesto indicando-lhe a saída. Desde então o curador passara todos os momentos ao lado do filho mais velho, mas não lhe dirigia qualquer palavra, mesmo nos momentos em que eles estavam no mesmo quarto.

Alguns instantes depois, que para Elrohir pareceram durar uma eternidade, a voz de um dos presentes se manifestou e, para sua infelicidade, não foi a voz que ele esperava ouvir.

"Elrohir. Você sabe por que está aqui?" Perguntou o avô e o gêmeo apenas balançou a cabeça positivamente. "Quero ouvir sua voz, soldado meu." Insistiu então o lorde elfo, mas tudo o que o gêmeo fez foi apertar um pouco as mãos sobre o colo e permanecer em silêncio. Celeborn aguardou mais um instante, enquanto os demais integrantes da sala trocavam olhares preocupados. Apenas Elrond não demonstrou qualquer reação, mantendo a cabeça apoiada em uma das mãos e os olhos voltados para o chão.

"Você precisa responder a seu avô, ion-nín." Celebrian advertiu em seu tom de mãe. Preocupada com o silêncio do filho. Tanto ele, quanto Elladan depois que despertara, estavam guardando um silêncio quase absoluto, e aquela situação não parecia disposta a se reverter.

Celeborn respirou profundamente, seu olhar sereno ainda na figura do neto.

"Vou colocá-lo a par de suas infrações e punições então, soldado." Ele disse. "Se não deseja defender-se tem esse direito, mas quero que seja adulto o bastante para olhar-me nos olhos enquanto eu sigo esse protocolo, está bem?"

Elrohir não respondeu, mas atendeu ao avô, erguendo os olhos escurecidos e brilhantes para ele.

"Muito bem. Eu, seus pais e seus mentores estamos aqui para analisarmos o quanto do que aconteceu é fruto de sua falta de conhecimento a respeito de importantes questões e quanto seria, de fato, fruto de sua própria inconseqüência e irresponsabilidade." Ele disse e aguardou alguns instantes pela reação do neto. Elrohir continuou a olhar para ele com admirável coragem, parecendo de fato disposto a ouvir o que quer que desejassem dizer-lhe como advertência. Celeborn esvaziou devagar o peito. "Pois bem." Ele disse então, depois se virou, erguendo levemente a mão para Glorfindel.

A primeira reação do lorde da antiga Casa da Flor Dourada foi apertar o maxilar, como se desejasse explodir naquele exato instante a ter a atenção de todos voltada para ele. Depois ele voltou também seus olhos para o elfo que conhecia desde os primeiros passos.

"Estamos mesmo em uma situação bastante séria, Elrohir..." Ele começou, descendo depois seu tom de voz enquanto olhava o pupilo com carinho. "Sabe o que fez, elfinho? Apropriou-se indevidamente da arma de outro soldado, transfigurou-a de sua forma original, portou-a sem para isso ter autorização, nem do proprietário da mesma, nem de seu mentor, já que ainda esta aquém da maioridade."

Elrohir retribuiu o olhar do mestre, assentindo também com a cabeça como fizera anteriormente. No entanto seu coração doeu ao perceber a reação nos olhos do mentor. Havia ali um ar ainda pior de desapontamento do que vira no pai. De alguma forma Glorfindel parecia se sentir culpado, como se não houvesse feito sua parte a contento.

"Está de fato ciente disso, menino?" Buscou ainda o mentor louro. "Não lhe restou qualquer dúvida quando tomou a atitude que tomou?"

Elrohir respirou fundo, percebendo suas suspeitas se confirmarem. Ele sentiu o ímpeto de dizer ao mestre palavras que o fizessem ver que a culpa era apenas dele e de mais ninguém, que ele era o pupilo estúpido com quem ninguém jamais deveria ter perdido tempo. No entanto, até para aquelas palavras o desejo de ouvir sua voz não surgiu, por isso ele apenas balançou novamente com a cabeça e uma lágrima escapou-lhe, antes que ele voltasse a baixar o rosto.

Glorfindel também baixou o seu, sem mais nada dizer, por isso Celeborn voltou-se então para Erestor. O conselheiro respirou profundamente e seus olhos ainda passearam por todas as estantes do lugar e seus livros de diversas cores, mesmo sabendo que nada do que estava escrito ali, papéis que ele conhecia de cor, poderia ajudá-lo naquela questão tão difícil.

"Elrohir..." Ele disse e os olhos do jovem elfo se voltaram para ele, como o avô determinara. "Lembra-se do que lhe falei sobre o destino das espadas após o desaparecimento de seus donos? Lembra-se de que elas têm um papel sagrado para muitos povos e que devem ser deixadas em descanso, quando não reivindicadas pelos proprietários ou qualquer herdeiro?"

Elrohir voltou a assentir, baixando novamente os olhos, mas infelizmente aquela não era a única pergunta que a Erestor fora reservada para aquela noite, por isso o elfo moreno pigarreou e os olhos do pupilo voltaram a favorecê-lo.

"Elrohir..." O mentor disse mais uma vez e o jovem elfo começou a desejar ter um outro nome qualquer. "Sabe também o que dizem as escrituras sobre atentar contra a vida de alguém do mesmo sangue?" Ele indagou com cautela e só então as sobrancelhas do jovem elfo se envergaram e ele empalideceu como se houvesse sido esmurrado. "Sabemos que não teve a intenção de fazê-lo." Erestor ergueu a mão direita em um gesto de paz. "Mas seu silêncio, depois do acidente, mesmo sendo você a buscar por ajuda, agravou bastante seu delito, menino."

O gêmeo sentiu o corpo congelar-se, assolado subitamente por aquela sensação de perigo que sempre o perseguia, só que desta vez amplificada. Ele olhou então para a mãe e surpreendeu-se ao ver que lágrimas caiam devagar por seu rosto bastante pálido. Ela também não o olhava mais, muito menos qualquer um dos demais ali, excetuando o avô, cujo olhar agravara-se agora tremendamente.

"A punição para qualquer soldado com essas infrações é o exílio para terras distantes, menino." Informou o lorde dos cabelos prateados, bastante sério e Elrohir estremeceu, soltando os lábios. "Essa é uma lei irrevogável."

Elrohir empalideceu ainda mais e seus olhos escuros fizeram um vai e vem frenético nas órbitas como se ele estivesse visualizando o futuro que o avô descrevia. Celeborn também empalideceu, lendo aquelas sensações de desespero que invadiam aquele elfo tão jovem e por quem ele tinha tanto afeto, sem ter muito a seu alcance que pudesse fazer para amenizá-las.

Só depois de algum tempo, os olhos do gêmeo pareceram lembrar-se do que deveriam fixar e ele forçou-se a tornar a encarar o avô, mesma sabendo o quanto de pavor e desespero o sábio elfo leria expresso neles.

Celeborn voltou a abastecer os pulmões com aquele ar pesado.

"Tudo o que aqui foi dito e visto atesta sua culpa, soldado." Ele continuou. "Compreende isso?" Ele indagou, recebendo um inseguro aceno de confirmação do neto. O lorde elfo pressionou os lábios fechados por um tempo, em seguida seu olhar agraciou rapidamente os demais ocupantes daquela sala, antes dele voltar a encarar o jovem moreno.

"No entanto, há um porém." Ele disse e Elrohir inclinou levemente as sobrancelhas, uma pequena sombra de esperança mudou-lhe o tom das órbitas. "Como você está a alguns anos da maioridade, o conselho dos habitantes do lugar aceitou que a responsabilidade seja transferida para outro alguém." Ele informou e Elrohir desprendeu os lábios, sentindo que, apesar de não compreender bem aquela informação, ela não era tão positiva quanto estava parecendo ser. Foi só então que Celeborn voltou-se para aquele que estava a seu lado.

Elrond ergueu enfim os olhos, olhando o filho com seu olhar paciente de sempre, embora houvesse nele uma tristeza que o gêmeo não conseguiu classificar. Depois o lorde elfo se ergueu, soltando um suspiro de cansaço e um silêncio ainda mais doloroso pairou no ambiente.

Foram poucos instantes, nos quais o curador deixou o olhar perdido em pensamentos que ao filho pareciam contundentes e dolorosas incógnitas, então sua voz finalmente surgiu.

"Elrohir é meu filho, nascido e criado sobre minha guarda e por quem meu coração sente extremo afeto." Disse o lorde elfo, esvaziando o peito mais vezes do que fazia normalmente, mas mantendo o rosto sereno, enquanto seus olhos nunca deixavam os do jovem elfo. "Sei que seu ato grave deve-se apenas à sua própria imaturidade e não à sombra alguma que possa estar em seu coração. Por esse motivo, por saber que os deslizes de tal imaturidade poderiam ter sido previstos por olhos mais atentos e zelosos do que os meus, eu assumo que falhei." Ele completou, desviando então o olhar do filho logo que o percebeu empalidecer com a afirmação e completando o que tinha que dizer em um tom forte e decidido que fez o rapaz estremecer: "Eu falhei, e por ter isso em plena consciência, tomo a culpa dos atos de meu filho como minha."

Elrohir arregalou os olhos, atônito, colocando-se em pé no mesmo instante. Mas tudo o que Elrond fez foi erguer-lhe uma palma em um gesto que o gêmeo não soube interpretar. Uma infinidade de desejos e impulsos ansiava por mover seu corpo, compelia-o a tomar uma atitude, mesmo diante daquela palma ainda erguida.

Mas ele já afrontara demais, já desobedecera demais, já fora por demais imaturo.

Por isso, tudo o que o gêmeo conseguiu fazer foi voltar-se, arfante agora, para o avô, com olhos de quem pede desesperadamente um auxilio, ainda alimentando a esperança vã de despertar de um terrível pesadelo.

Celeborn olhou-o com comiseração, sentindo a dor e o conflito no peito do neto.

"Dearada..." A voz do gêmeo foi ouvida então pela primeira vez, despertada pelo silêncio que insistia em congelar aquele lugar como se fosse um quadro triste. O som dela, no entanto, moveu o avô, que estufou o peito como quem busca criar um pouco mais de espaço dentro de si para o tudo que se acumulava agora ali. As lágrimas escorreram pelos olhos do jovem elfo, deixando as palavras que saiam de sua boca com um angustiante gosto de sal. "Dearada... Ele não pode levar a minha culpa..."

"Ele é seu pai, pen-neth."

"Mas..." Elrohir voltou-se novamente para Elrond, cujo olhar agora se perdia na paisagem escura de uma janela. Era evidente que o pai agora evitava olhá-lo. O que não estava tão claro, no entanto, era se ele o fazia por opção ou por alguma imposição desconhecida. "O que vai acontecer?"

Celeborn apertou os lábios, jamais se acostumaria com a dor de alguém tão jovem.

"Atestando a falha que cometeu ele isenta você de culpa, Elrohir."

O gêmeo continuou olhando para o pai. O curador estava parado em pé diante da janela já quase escura, as mãos fortemente enlaçadas nas costas, o peito inflado e o rosto bastante pálido continuava voltado para longe dele. O jovem elfo sentiu o corpo estremecer e aquela voz nunca lhe gritou tão alto dentro de sua cabeça.

Não... Não é só isso. Não terminará ali.

Ele voltou a olhar para o avô então, percebendo que este parecia apenas esperar por isso, guardando no rosto um semblante de quem ainda tem muitas frases para encaixar naquela primeira explicação que oferecera.

Elrohir viu-se ansiando e temendo por tais frases, imaginando em sua mente de menino que atalho poderia tirá-lo dali sem que fosse necessário o que estaria subentendido ou claro nelas.

"O que... O que acontece agora?... O que vai acontecer agora, dearada?" Ele se viu perguntando. Ao perceber que não havia como fugir daquela dor, sentiu que tinha que enfrentá-la antes que enlouquecesse apenas por conjeturar sobre ela. Só então uma idéia apavorante roubou-lhe novamente a cor e o ar. "Ele não será exilado, será? Ele..."

Celeborn respirou profunda e lentamente e seus olhos ainda percorreram os cabisbaixos membros daquela reunião, antes de pousarem pacientes sobre o distante genro e a resposta sair de seus lábios.

"Não, Elrohir." Ele respondeu, mas seu tom não foi o suficiente para convencer o neto que aquela era uma boa notícia, por isso Elrohir permaneceu rígido, aguardando pelo mas que sabia estar adicionado àquela resposta. "No entanto, assumindo a culpa, ele tem seu nome marcado nos livros da história. Atesta-se incapaz de uma responsabilidade extrema, e indigno de confiança."

"Está desonrado... Por minha causa..." Deduziu o jovem elfo, empalidecendo ainda mais. E uma das faces que ninguém ainda vira desenhar-se no rosto do gêmeo surgiu. Foi como se a luz houvesse sido roubada de seu rosto, como se ele não pudesse sorrir nunca mais. Ele ainda voltou-se mais uma vez para o pai e só então lhe ocorreu porque este não o olhava mais.

Ele mesmo não queria olhar para si nunca mais...

"É fato." Concordou Celeborn com pesar. Em seguida respirou profundamente, fazendo com que Elrohir tornasse a olhá-lo, parecendo prever que ainda havia algo a ser dito, e que não seria nem um pouco melhor do que tudo o que já ouvira. "E como seu pai admite não ter conseguido instruí-lo a contento, Elrohir. Eu, no papel de seu avô, reivindiquei sua tutela."

Dessa vez o queixo de Elrohir caiu e o jovem elfo sentiu que ele mesmo cairia se não buscasse um apoio qualquer.

"Como... Como assim, dearada?" Ele indagou, segurando-se com uma mão trêmula na poltrona que deixara. Celeborn percebeu seu mal estar, por isso ergueu-se, aproximando-se mais e apoiando a mão em um de seus ombros.

"Amanhã minha comitiva volta a nosso pequeno abrigo às margens da Baía de Belfalas, onde sua avó nos aguarda perto do porto élfico de Edhellond. Você vai como meu soldado e aprendiz."

"Por... quanto tempo?"

Celeborn não respondeu, ele apenas apertou os lábios e soltou um suspiro cansado.

Fosse qual fosse a resposta para aquela pergunta, ninguém parecia ter ânimo ou mesmo coragem para fornecê-la.

&&&

"Por que não posso ir também, dearada?" O jovem elfo moreno indagou mais uma vez, agora em pé próximo ao cavalo do avô. A mão do pai apoiada pesadamente em seu ombro.

Celeborn aproximou-se novamente, erguendo-lhe o queixo para que pudesse ver-lhe o semblante triste. Ele olhou o rapaz com carinho, depois observou atentamente as bandagens que ainda envolviam o tórax do neto mais velho.

"Em uma outra viagem, está bem, Elladan?"

O jovem elfo apertou os lábios, voltando seus olhos brilhantes para o gêmeo já sobre um dos cavalos da comitiva do avô. Elrohir não olhava para ninguém, mas suas mãos agarradas com força na crina do animal já atestavam seu estado de espírito.

"Não faremos novamente, dearada." Insistiu um pouco o jovem elfo, agora em um tom mais angustiado. "Não devíamos ter feito o que fizermos com a espada."

"Apenas seu irmão tocou na arma, tithen-pen. E a manuseou sem qualquer cautela, por isso você foi ferido."

"Foi um acidente, dearada. Ele já se desculpou. Está arrependido..."

"Nesse caso as desculpas de seu irmão não são válidas, Elladan. Seu pai já lhe explicou isso..."

"Então me deixe ir também. Eu quero ir com Elrohir. Eu também fiz o que não devia. Também mereço castigo."

Celeborn ofereceu um pequeno sorriso, acariciando agora os cabelos escuros do neto.

"Não os estamos castigando, Elladan." Ele disse em tom carinhoso, depois apoiou a palma por sobre o peito embalado do neto. "Embora você tenha cometido um grande erro ao esconder de seu pai que estava ferido. Deve pensar nisso enquanto se recupera."

Elladan apertou os lábios trancados e seus olhos marejaram enfim. Não queria chorar na frente do avô, mas se via sem qualquer alternativa naquele instante.

"Não vai mais trazê-lo de volta, não é, dearada? Só porque ele me feriu por acidente... Ele não vai fazer isso de novo... Ele não vai... Foi um acidente... Ele não tinha a intenção."

Elrohir baixou os olhos com o tom suplicante do mais velho, seus dedos se entrelaçaram ainda mais fortes na crina branca do cavalo no qual estava, enquanto algumas lágrimas também escorriam por seu rosto sem que ele as contivesse.

Celeborn suspirou e seu olhar passou rapidamente para o casal que se encontrava atrás do elfo mais velho. Elrond baixou os olhos, limitando-se a apertar um pouco o ombro do filho, mas Celebrian retribuiu o olhar com outro bastante diverso. Era evidente que a elfa não apoiava a atitude do pai.