Olá. Espero que todos estejam bem.

Estou muito feliz com a boa aceitação da fic. Agradeço bastante mesmo aos que estão acompanhando, mesmo sabendo ser uma história exclusiva dos gêmeos.

Esse capítulo é o que me preocupa bastante, pois estou me aventurando na vida de uma das mais poderosas elfas da TM e espero não ter cometido qualquer deslize. Estou me apoiando em uma das versões que li e dando minha própria conclusão em alguns momentos, espero não ter "viajado na maionese". Os trechos em itálico desse texto foram retirados das páginas da Valinor.

Além disso, há aqui algumas referência à obra Os Filhos de Húrin, que podem converter-se em um spoiler para quem não conhece a história. Lamento, mas precisava explicar alguns detalhes do livro para que o encaixe da trama com o meu texto fizesse sentido. Espero que não seja problema.

Estou ansiosa para saber o que acharam. Por favor, postem suas reviews nem que tenham apenas uma linha.

Muito obrigada, mellyn-nín.

Beijos

Sadie


CAPÍTULO IV – DIFERENÇAS SUTIS

Não há enganos. Os acontecimentos que recaem sobre ti, por muito desagradáveis que sejam, são necessários para que aprendas aquilo que precisas aprender.

Richard Bach


O céu ganhava pinceladas de um azul enegrecido agora, como se o anoitecer e a tarde rubra estivessem fazendo um divertido duelo de cores. Galadriel surgiu detrás de uma das colunas do acesso ao porto, lugar no qual o marido vez por outra gostava de se sentar para ver e ouvir o vai e vem das ondas, mesmo quando a ausência de luz praticamente roubava o sentindo de tudo.

A ela não encantava o bater das ondas da hora crepuscular, momento do dia no qual a vida já parecia bastante confusa. Ela preferia ouvi-las ao amanhecer, junto com a aurora, antecessora de um novo sol, e toda a esperança que aquela imagem sutil por si só lhe remetia.

"Está com aquele semblante novamente." Disse o marido, ao ver a esposa aproximar-se e sentar-se a seu lado.

"Qual semblante?"

"Aquele que me faz lembrar de nossa filha e também me faz crer que esteve com Astalder." Ele revelou, segurando a mão da esposa.

O olhar da bela elfa se perdeu na imagem distante deles e um suspiro doce escapou-lhe como primeira resposta.

"Está treinando desde antes do amanhecer." Disse a elfa. "É tão determinado."

"Sim. Determinação e insensatez. Isso se chama juventude." Sorriu o lorde dos cabelos prateados. "Com ambas se aprende muito, mas uma permanece e a outra se esvai. Cedo ou tarde."

Galadriel segurou uma das mechas dos próprios fios, enlaçando-a nos dedos displicentemente, enquanto seu olhar continuava perdido na imagem que via. Um jovem elfo treinando com sua espada de madeira horas a fio, ouvindo vez por outra uma provocação dos outros elfos, a maioria mais velha do que ele.

"Sempre esteve entre conhecidos. Tem que aprender a enfrentar o que desconhece. Não se preocupe." Leu-lhe os pensamentos o esposo. "Ficam a dizer-lhe provocações porque eu assim os instruí que fizessem. Aqui ele não pode ser o filho do mentor das terras, ele tem que aprender a ter seu próprio espaço e respeitar o dos demais."

"Não nos falou qualquer palavra desde que chegou." Ela lembrou.

"Eu sei."

"Celebrian escreveu-nos, dizendo que Elladan está no mesmo voto de silêncio."

Celeborn sorriu serenamente.

"Deixe que o façam. Não o estão fazendo como agressão ou provocação a nenhum de nós."

"E por qual motivo seria, hervenn-nín?"

O líder louro ergueu os olhos para o céu, cujo brilho decrescia em diferentes tons de rosa crepuscular em alguns lugares, enquanto outros já se permitiam abraçar quase que completamente pela escuridão que os sucederia. Outro sorriso de paz o agraciou.

"Querem estar juntos, melethril-nín... Por isso o fazem... Fazem-no para se sentirem juntos."

&&&

Havia por trás das pedras portuárias, além dos acessos principais, uma pequena clareira, cujo chão estava quase sempre coberto de folhas em qualquer época do ano. Os guerreiros e estudantes a usavam como campo de treino por diversos fatores que não só os geográficos. A maioria apreciava o fato do vento litorâneo cobrir de folhas o lugar mesmo quando não era outono, pois, assim sendo, sabiam sempre se havia alguém em treino ou se o campo estava vago.

No entanto, nas últimas duas estações o campo jamais ficara vazio.

Era já bastante tarde quando Galadriel encontrou o neto, ainda em seu árduo treinamento. Todos já haviam partido e o rapaz continuava a percorrer o lugar, sozinho agora, repetindo o mesmo bailado que fizera o dia todo, movendo o ar com sua espada de madeira. A elfa ficou observando-o por um tempo, lamentando que ele não se apercebesse do quão tarde era, mesmo tão cansado quanto estava. Ela deslocou-se graciosamente, passando por trás de algumas árvores e aproximando-se sem ser vista.

Quando o gêmeo voltou-se, trazendo a pesada arma que o instrutor lhe oferecera, em uma transversal que roubava chiados do próprio ar, esta encontrou outra semelhante em seu caminho.

Elrohir arregalou os olhos, diante da figura da avó, segurando uma espada de madeira igual a sua.

"Em guarda, soldado!" Ela disse em um tom sério que roubou qualquer expectativa que o gêmeo pudesse ter de que se tratava de uma brincadeira da bela elfa.

Sua arma girou então e o gêmeo teve que se reposicionar para não ser golpeado. Não havia gravidade extrema em lutas com espadas de madeira, mas os diversos hematomas no dia seguinte não eram apreciáveis, quando se tinha que prosseguir o treino com o corpo dolorido.

Ela continuou avançando passo a passo, olhos claros compenetrados em cada movimento e uma leveza que chegava a roubar o ar de quem assistia. Elrohir também sentia o ar lhe faltar, mas por um motivo completamente diferente.

Elbereth, de onde vinham todos aqueles golpes? Alguns ele jamais sequer vira...

"Conhece a história de seus antepassados, Astalder?" A dama loura indagou com os lábios erguidos em um insinuante sorriso, enquanto bailava com a leveza de uma garça levantando vôo. Seu sorriso se alargou um pouco mais com o breve aceno positivo do neto. "O que sabe sobre a minha?" Ela questionou, depois de girar a espada duas vezes e jogar longe a do neto.

Elrohir soltou os ombros contrafeito, afastando-se em silêncio e apanhando novamente a arma. Quando voltou, a avó continuava com a dela erguida, em uma indicativa evidente de que não considerava o duelo terminado.

"O que conhece sobre a minha história, Astalder?" Ela repetiu o questionamento, e Elrohir baixou os olhos, erguendo ligeiramente os ombros em uma indicativa de que não sabia se conhecia o bastante. Ele se posicionou então novamente diante da elfa, afastando as pernas e erguendo a espada.

Galadriel sorriu.

"Meu pai era Finarfin, e minha mãe era Earwen." Ela disse, voltando a bater sua arma na do neto, e admirando-se por percebê-lo bem mais atento ao conflito dessa vez. "Na Grande Jornada para as Terras Imortais, o pai de meu pai, Finwë, liderou os elfos conhecidos como Noldor, e o pai de minha mãe, Olwë, tornou-se o líder dos Teleri." Ela contou, reconhecendo nos olhos do neto que aquela não era uma informação que este desconhecesse. "Eu nasci nas Terras Imortais na Era das Árvores, antes do início da Primeira Era." Completou e percebeu o gêmeo encher o peito e erguer as sobrancelhas com aquela afirmação. Ele sabia do quão antigos foram os primeiros passos da avó após as notas de sua origem, mas ouvi-la dizê-lo com todas as letras causou-lhe admiração.

E roubou-lhe a espada mais uma vez...

Elrohir soltou novamente os ombros, com um nítido bufar de insatisfação agora. Perder um conflito com espadas de madeira era humilhante, perder para uma elfa chegava ainda a ser pior, só perdia mesmo para o fato dessa elfa ser sua avó.

Ele retomou a arma, agora analisando o material para ver se o tombo a havia danificado. Era a mais pesada de todas as espadas de madeira, não queria ficar sem ela e ter que continuar os treinos do dia seguinte com uma das mais leves que usava quando chegou.

"Meus pais me deram quatro irmãos mais velhos." Ele a ouviu dizer e recitou mentalmente os nomes que repetira nas aulas com Erestor: Finrod, Orodreth, Angrod e Aegnor, enquanto retomava sua posição. Sim. Ele conhecia aquela história. Por que será que a avó decidira revelar-lhe o que qualquer livro trazia letra por letra?

"Havia um costume entre os Elfos das Terras Imortais." Galadriel comentou, erguendo também a espada quando percebeu que o neto já estava em posição. "Cada criança recebia dois nomes, um nome de seu pai e outro de sua mãe. Mas hoje eu não uso nenhum deles."

Elrohir assentiu rapidamente. Ele também sabia disso. O nome dado pelo pai da avó era Artanis, significando "mulher nobre", e o nome dado a ela pela mãe era Nerwen, que queria dizer "donzela-homem", o que era um significado bastante estranho para uma elfa com a beleza extrema que a avó possuía.

"O nome materno era geralmente escolhido devido a uma visão de futuro que somente agraciava a mãe." Galadriel comentou e Elrohir começou a desconfiar que a avó estava lendo seus pensamentos. "O que me faz crer que minha mãe previu que me tornaria uma elfa mais alta e mais forte do que as demais." Ela comentou, atirando novamente longe a espada do neto.

Elrohir soltou os braços, irritado agora. Pelos Valar, nem Glorfindel roubava-lhe a arma com tanta rapidez, o que estaria fazendo de errado? Ele pensou e o riso da avó só fez com que se sentisse ainda pior. Ele posicionou-se novamente diante da adversária, não conseguindo deixar de olhá-la como olharia qualquer outro inimigo. Isso pareceu agradar a elfa

"Sabe de quem você herdou esse olhar?" Ela sorriu então. "É meu e de mais nenhum de seus ascendentes. Esse olhar e o que está por trás dele, o que qualquer pessoa a quem a sabedoria agracia mais do que aos demais pode ler."

Elrohir baixou a espada por um momento. As sobrancelhas curvadas, como quem tenta traduzir uma mensagem bastante difícil. A elfa reergueu a sua e avançou sobre ele sem qualquer sobreaviso.

"Sei o que é dito a meu respeito nos livros. Galadriel tornou-se a maior dos Noldor, exceto talvez por seu tio Fëanor, o criador das Silmarils. Galadriel era muito sábia. Enquanto vivia nas Terras Imortais, ela aprendeu muito com Yavanna, a Vala das coisas em crescimento, e Aulë, o mestre dos ofícios. Galadriel possuía muito discernimento sobre a mente de outras pessoas e ela era bastante compreensiva e piedosa," Ela recitou uma a uma todas as palavras que estavam nos livros que Erestor o fizera ler. "Mas de todas essas descrições o que vem depois do próximo 'mas' é o que mais peso teve em toda a história: mas também era orgulhosa e determinada. ".

Ela completou, atirando agora mais longe ainda a espada do neto e o fazendo segurar o próprio punho com uma careta de dor. Dessa vez ela aproximou-se, tomando a mão do gêmeo na sua e acariciando-a sutilmente. Logo o desconforto desapareceu, como se nunca tivesse estado ali e os olhos de Elrohir estavam novamente presos aos da avó.

Sim. Ela era tudo aquilo. Pensou o jovem elfo, que jamais conseguiria associar a figura da fascinante avó a algo negativo como ele sabia que alguns faziam. Ela era puro brilho e energia e só de olhá-la o resto do mundo parecia sem qualquer sentido. A bela elfa pousou a mão em seu rosto agora, descendo os dedos pelas manchas escuras com as quais o cansaço e outras dores envolviam os olhos do neto.

"Algumas coisas que seu avô chama de insensatez eu sempre chamei de determinação, Astalder." Ela disse, tomando a mão do neto e trazendo-o para sentar-se em um dos troncos do lugar. "Custei bons anos para compreender a sutil diferença entre esses dois termos, mas acho que, até hoje, ainda me pego questionando os limites entre essas duas classificações."

Eles sentaram-se então, e a bela elfa passeou os olhos pelo campo, agora iluminado apenas pelos lampiões locais, mas parecendo analisar outra cena, bem mais distante no tempo.

"Quando Morgoth matou meu avô e roubou as Silmarils, Fëanor fez um juramento de recuperá-las custasse o que fosse." Ela continuou e o gêmeo percebeu que os olhos dela escureciam-se devagar. "Ele perseguiu Morgoth até a Terra-média, contrariando a determinação dos Valar, e muitos dos Noldor o seguiram. Eu não proferi o mesmo juramento de Fëanor, a mesma afronta... julgava-o insensatez... Por outro lado, desejava ver as terras distantes e governar minhas próprias terras e povo, e então me uni à fuga dos Noldor para a Terra-média..." Ela completou com olhos pensativos agora. "A isso classifiquei por determinação..."

Elrohir acompanhou o discurso da avó bastante sério e quase estremeceu com o olhar que ela lhe direcionou depois disso.

"Consegue você, criança minha, compreender essa sutil diferença entre a insensatez e a determinação?" Ela indagou e seus olhos brilharam. "Fëanor capturou a luz das Duas Árvores nas Silmarils... Insensatez? Determinação? Fëanor conduziu os Noldor até Alqualondë na costa das Terras Imortais para pegar os barcos dos Teleri – Os Teleri eram sangue do nosso sangue... Um povo que morava à beira do Mar. Meu avô, Olwë, era quem os liderava. Eles se recusaram a ajudar, a fornecer os barcos para aquela manobra impensável... é claro que recusariam... Insensatez versus determinação..."

Galadriel parou por um instante com a lembrança e seus olhos marejaram pela primeira vez. Elrohir estendeu timidamente a mão, tomando a da avó nas suas e trazendo a ela um sorriso triste de volta ao rosto.

"Sabe o que é Fratricídio, Astalder?" Ela indagou então e o gêmeo empalideceu no mesmo instante, baixando o rosto, mas fazendo com que a avó o reerguesse de imediato, compreendendo melhor do que gostaria a associação que o neto fizera. "Fratricídio não é ferir alguém de seu próprio sangue acidentalmente como você fez, meu guerreiro. Fratricídio é o que Fëanor fez em Alqualondë, quando roubou os barcos que lhe foram negados e fez com quem muitos dos Teleri, daqueles cujo sangue era irmão do nosso, caíssem sem qualquer piedade." Ela parou por um momento, no rosto uma seriedade assustadora. "Fratricídio... é aquela cena horrível a qual eu não consegui impedir Fëanor de realizar."

Elrohir olhou-a com a mesma seriedade, os lábios descolados em um misto de surpresa pelas emoções que via a avó demonstrar e consciência daquela verdade que ouvira. Galadriel voltou a acariciar-lhe o rosto.

"E, inspirados nessas tristes histórias, alguns fazem as leis... A fim de que as pessoas pensem antes de realizar tais barbaridades..." Ela completou, baixando os olhos. "Mas tudo o que conseguem é punir uma criança inocente... Enquanto outros, mais culpados, caminham livremente e ainda têm suas histórias narradas nos livros."

Elrohir sacudiu a cabeça veementemente então, diante do que podia ler subentendido naquelas palavras. Ele tomou de novo a mão da avó e, pela primeira vez, lamentou-se do voto que fizera com o irmão. Queria dizer a ela o quanto ele tinha culpa, bem mais culpa do que a avó tomara para si por ter apenas acompanhado o parente em uma jornada desconhecida.

Galadriel voltou a oferecer-lhe um sorriso triste.

"Exílio e maldição. Foi o que restou aos Noldor por muitos anos. E nossa herança é esse cansaço que temos dessa terra, mesmo a amando. É esse desejo de ficar e partir, equilibrado, por vezes, e enlouquecedor por outras... Meu pai soube fazer algo que eu ainda não aprendi... Na ocasião certa ele voltou e pediu o perdão dos Valar, tornando-se rei dos Noldor nas Terras Imortais. Mas eu e meus irmãos, que continuamos na jornada, fomos incluídos na Maldição de Mandos." Ela voltou a baixar o rosto. "Podíamos ter voltado, mesmo depois disso, mas não o fizemos. Não o fizemos nem mesmo quando Fëanor nos traiu, deixando-nos para trás e partindo secretamente com seus parentes e seguidores mais próximos nos poucos barcos que havia. Eu era muito orgulhosa e ambiciosa. Não voltaria atrás e pediria o perdão dos Valar quando ainda podia tentar chegar a Terra-média e estabelecer meu próprio reino..."

Insensatez ou determinação? A pergunta soou na mente do gêmeo e o jovem elfo sentiu que não era seu inconsciente a despertá-la. Ele voltou-se surpreso e reencontrou os olhos da avó, novamente sérios, voltados para ele.

"Sabe quantos elfos pereceram na terrível jornada de gelo e morte que eu, Finrod e Fingolfin lideramos através de Helcaraxë – o Gelo Atritante que formava uma perigosa rota através do Mar no longínquo Norte?" Ela indagou e Elrohir empalideceu. "E ainda terminamos a árdua e mortal passagem iludindo nossos corações ambiciosos com a idéia conformista de que aqueles que sobreviveram tornaram-se mais fortes e audazes com a provação." Ela completou, soltando um riso triste e balançando a cabeça.

Elrohir também balançou a cabeça, apertando a mão da avó. Ela voltou a sorrir, retribuindo o aperto e tornando a olhá-lo.

"A vantagem única, que realmente vejo ter tido nesses caminhos e descaminhos, foi a de conhecer seu avô e da família que ele me ajudou a constituir. Ele transformou minha vida de tal forma que até um nome novo para mim surgiu de seus lábios." Completou, satisfeita por ver os lábios do neto ensaiarem um pequeno sorriso. "Mas sei que, apesar de tudo o que ele me mostrou, eu ainda não estou bem certa se consigo distinguir essa diferença. Ainda existem outras negativas que dei no passado, outros caminhos que tomei, outros desejos que ainda povoam meu coração... Há muito ainda que não consigo classificar propriamente no grupo ao qual deveriam fazer parte. Ainda não sei... ora estão ali com convicção, ora acho que ainda escorregam para a classificação que seu avô me mostrou certa vez..."

Elrohir continuou olhando para a avó, seus grandes olhos claros piscavam brilhantes e isso só fez com que o coração da elfa pesasse ainda mais.

"Acho que entende porque estou contando-lhe desnecessariamente uma história que já é de seu conhecimento, não é, Astalder?" Ela indagou e Elrohir baixou imediatamente o rosto, assim que a resposta àquela pergunta lhe chegou à boca, mesmo ele não podendo proferi-la.

Galadriel voltou a fazê-lo olhar para ela.

"Meu neto querido. De todos os que levam o meu sangue você é aquele com quem eu mais me preocupo. Uma nação inteira pode surgir de sua mão e espada, eu sinto isso... Está para nascer guerreiro com tanto poder." Ela completou, segurando o rosto do jovem elfo quando ele quis voltar a afastar-se, mas ele desprendeu-se da avó, erguendo-se e dando alguns passos indecisos pelo campo de treinamento, como se não soubesse ao certo aonde ir.

Galadriel olhava-o agora com preocupação. Tanta energia e tanto medo de usá-la. Seria essa uma boa mistura?

"Acho que é por isso que Ilúvatar lhe deu essa ponderada e caridosa cara metade." Ela lembrou então, apoiando a mão no peito quando a imagem de Elladan surgiu-lhe e Elrohir voltou-se para ela, parecendo visitado pela mesma lembrança.

"Ele é seu equilíbrio, Astalder, seu termômetro, seu conselheiro..." Comentou a elfa, erguendo-se também e aproximando-se do neto. "Seu irmão gêmeo é dotado de um senso de sabedoria diferente do seu e que lhe será bastante útil se souber ouvi-lo, Astalder." Completou e Elrohir baixou enfim o rosto, parecendo entristecer-se com a lembrança do irmão.

Galadriel resumiu então os passos que a separavam do neto e ajoelhou-se diante dele, para poder ver-lhe os olhos, mesmo escondidos na cabeça baixa como estavam.

"Não se preocupe. Voltará a vê-lo e ainda o envolverá em muitas de suas confusões, elfinho." Ela disse e Elrohir negou ardentemente com a cabeça como resposta. "Sim... Envolvê-lo-á em confusões de todos os tipos e nas que não o envolver ele se envolverá por conta própria apenas para ajudá-lo. Por isso deve ter cautela, Astalder, pois ninguém nessa terra o ama mais do que ele. Ele daria sua vida por você, trocaria a própria vida pela sua sem pestanejar."

Elrohir engoliu aquelas palavras com dificuldade e Galadriel ainda o olhou por mais um tempo, parecendo ser levada agora por outros pensamentos. Havia dias que o jovem percebia o olhar da avó sobre ele. Nos campos de treino, no caminho para o talan, nas poucas refeições coletivas da qual ele participava.

"Janta conosco essa noite?" Ela indagou por fim, refazendo um laço que se desprendera da túnica do rapaz antes de reerguer-se.

Elrohir enrubesceu, limitando-se a balançar negativamente a cabeça. Amava a avó de todo o coração, mas a saudade que sentia da mãe, e que só se agravava diante da bela elfa, depois das duas longas estações que estava fora, o fazia crer que já tinha ficado em sua companhia por tempo o suficiente por aquele dia.

"Seu avô também lamenta, Astalder. Há quase quatro luas não temos sua presença no jantar da comunidade."

Elrohir baixou os olhos, como sempre fazia quando era advertido de alguma forma. A última coisa que gostaria de fazer era parte de um jantar comunitário, no qual a maioria estaria com suas famílias. Não se sentia parte daquele povo, por mais gentis que alguns fossem com ele. Ele queria ir para casa e não conseguia se acostumar com a idéia de que jamais poderia fazê-lo. Por Elbereth, faria qualquer coisa que quisessem se pudesse voltar, estava tão arrependido que às vezes julgava que fosse explodir. Às vezes a tristeza lhe era tão grande que ele sentia dificuldades até mesmo de sair de seu talan pela manhã.

Galadriel ergueu-lhe o rosto mais uma vez e o neto permitiu, porém desviou os olhos para longe dela ao invés de retribuir o olhar recebido. A bela elfa sorriu um sorriso triste, depois pousou um beijo em sua testa.

"Esses dias estava me lembrando de algo." Ela disse, acompanhando agora o neto quando este pegou a bolsa com suas coisas e começou a se dirigir a seu abrigo, interpretando o beijo da avó como uma autorização para sair.

Elrohir olhou-a rapidamente, apenas para dar a entender que acompanhava a conversa.

"De quando você era elfinho e derrubou parte das águas do meu espelho." Ela disse e Elrohir apenas abriu um pouco mais os olhos, como se a lembrança fosse uma criança travessa a lhe chutar a canela. Ele enrubesceu levemente, esfregando a nuca; mas dessa vez nem sequer ergueu os olhos.

Galadriel sorriu.

"Agora o tenho em um lugar mais tranqüilo. Nunca mais senti a necessidade de provar o valor de suas águas desde aquele dia. Muito menos no sentido que você me fez prová-las." Ela provocou um pouco mais e Elrohir enfim enrubesceu em definitivo, balançando rapidamente a cabeça e lançando a avó um olhar de desculpas, que por si só já encerraria o assunto. Mas a boa elfa não parecia de fato ter iniciado tal lembrança atrás de um desnecessário pedido de perdão. Ela então parou, segurando o neto pelo braço. "Depois que se banhar volte a ver-me." Ela disse, apontando para uma direção específica. "Vê aquela estrela no céu? Siga-a e me encontrará na mata."

Elrohir intrigou-se, mas por fim, ao perceber a avó afastar-se sem esperar resposta, achou que lhe restava nenhuma alternativa que não atender ao pedido dela.

&&&

Edhellond se localizava no Rio Morthond de águas geladas, próximo do ponto onde ele recebia o Ringló, igualmente frio. O Morthond então desaguava no Porto de Cobas, um pequeno braço de mar na Baía de Belfalas. Edhellond estava sob o controle dos elfos, na verdade a tradução de seu nome – Porto Élfico - não negava tal fato, embora tivesse sido originalmente habitado por um povo pescador, que fugiu para as Montanhas Brancas quando os primogênitos de Ilúvatar chegaram.

O porto fora estabelecido por elfos, cujas origens e direções esbarravam em muitas teorias. Era nelas que Elrohir pensava agora, caminhando pela mata, enquanto seguia em direção a tal estrela. Os elfos sindar tiveram a companhia de alguns elfos silvestres, que vieram descendo pelo Anduin, deixando seus lares na Grande Floresta Verde e em Lothlórien, que ficavam de ambos os lados do Grande Rio, porque sentiam falta do mar.

Ele não sentia falta do mar, nem sequer entendia esse sentimento do qual muitos falavam. No entanto, fazia idéia do que pudesse ser, pois sentia falta, muita falta mesmo, de sua casa, e se esse sentimento era parecido com aquele que fez os elfos arriscarem-se em terras estranhas só para estar um pouco mais próximos do mar, ele os entendia muito bem.

O gêmeo fechou vagamente os olhos, puxando do bolso um pedaço pequeno de papel no qual o irmão lhe mandara um recado que a mãe escondera dentro de sua carta. Era parte de sua punição, embora ninguém gostasse de usar o termo, que eles não se comunicassem, mas a mãe permitira essa pequena contravenção. Elrohir leu as poucas palavras do gêmeo uma vez mais.

Eu odeio aquela espada. Estou com muita saudade.

Elrohir apertou um pouco o papel, que carregara consigo aonde quer que fosse. Logo o vestido claro da avó cintilou no meio da negra mata e ele descobriu, em definitivo, que rumo tomar. Em pouco tempo estava na clareira que Galadriel reservara para seus momentos de meditação. Era um lugar pequeno e, a princípio, o gêmeo nem mesmo avistou o espelho da avó.

Galadriel aproximou-se assim que o viu, com um sorriso delicado que apenas ela parecia possuir e que, com certeza, a colocara no topo da lista das mais belas elfas. Ela achegou-se do gêmeo, mas seu sorriso enfraqueceu lentamente ao perceber o ar triste que sempre se apoderava do rosto dele ao cair da noite. Ela compreendia o porquê e gostaria imensamente de poder suprir esse papel de família para o jovem elfo, se o coração dele não permanecesse tão fechado quando estavam seus lábios.

"Quel undome, Astalder." A elfa sorriu-lhe e Elrohir buscou retribuir como seu espírito lhe permitia. Ela lhe ergueu ambas as mãos, mas ele ainda hesitou em aceitar o convite. Então, percebendo que a proposta não seria declinada, deu alguns poucos passos, deixando-se envolver pelos braços da avó. A elfa, então, o trouxe para um dos bancos do lugar e ambos se sentaram, sem que ela deixasse de cobrir-lhe os ombros como vinha fazendo.

Elrohir procurou ignorar a presença da avó, o perfume dos cabelos dela em especial, pois, em quase tudo ela lhe lembrava a mãe. Estava se sentindo muito só naquela noite para qualquer tipo de jogo familiar. Queria ir embora para seu talan e dormir como sempre fazia. Dormir, ansiando secretamente acordar e descobrir que tudo aquilo fora um pesadelo.

Galadriel deixou-se ficar ao lado do neto por um tempo. Embora Celeborn lhe houvesse pedido que não se aproximasse demais do gêmeo, em favor do que o rapaz precisava aprender, ela simplesmente não conseguia, sentia que havia algo errado naquela história toda, como uma nota deslocada na canção, algo cuja afinação não fora bem aferida. Ela apertou um pouco mais o neto perto de si e o percebeu fechar os olhos por um momento a além do necessário, parecendo por fim ceder um pouco aos afagos da avó.

"Elrohir..." Ela chamou-o pelo nome pela primeira vez desde que chegara. Astalder era como todos o chamavam. O apelido que ganhara do avô desde muito pequeno e que, mesmo com o significado enobrecedor, estava começando a odiar. "Toda dor tem um propósito, querido." Ela disse e o gêmeo voltou a fechar os olhos, dessa vez como se não quisesse ouvir o resto. Outra coisa que ficavam a lhe repetir a cada instante era o quanto ele tinha que aprender com tudo o que fizera e com tudo o que ia passar. Ele já sabia aquela história de cor.

"Toda dor tem um propósito..." Galadriel repetiu, puxando agora gentilmente o queixo do neto para olhar para ela. "Mas a sua não tem só um propósito, ela tem um porquê, um porquê que não me parece bem esclarecido." Completou, e o jovem elfo olhou para a ela com as sobrancelhas apertadas de quem não compreende. A elfa passou, com tristeza, as pontas dos dedos mais uma vez pelas bolsas profundas que fizeram moradas por sobre aqueles olhos tristes, depois ergueu o rosto para um dos cantos de sua clareira.

Elrohir acompanhou o movimento atentamente agora, sentindo que algo parecia estar crescendo ali, algo que ele não sabia explicar.

"Gostaria que me acompanhasse até o espelho." Ela disse e o jovem elfo estremeceu. "Eu ficarei a seu lado e o ajudarei a interpretar qualquer imagem que venha a surgir... Quer tentar?"

Elrohir sacudiu rapidamente a cabeça, em uma veemente negativa da qual sabia que se envergonharia quando adulto. Não pôde evitar temer de todo o coração aquela experiência que, pelos que a vivenciaram, fora classificada como o desconforto absoluto de um renascer. Galadriel, no entanto, apenas sorriu, voltando a acariciar o rosto do neto.

"Pode esclarecer certas coisas, tithen-pen. Coisas importantes..."

O gêmeo, a princípio, voltou a sacudir a cabeça com força, depois, diante do silêncio da avó, ponderou então o que poderia estar naquelas entrelinhas. Ele voltou a olhar para a elfa e só então percebeu que, diferentemente dos demais, a avó não o estava compelindo a uma nova experiência a fim de trazer-lhe conhecimentos futuros, árduos ou não. Ela estava em busca de outras informações.

Elrohir engoliu em seco, sentindo em seu peito crescer uma estranha expectativa. Teria aquela oportunidade a interpretação que ele dava ou simplesmente estava atribuindo significados absurdos a qualquer palavra que ouvia por puro desespero?

Não havia resposta para aquela questão. Ele sabia. Por isso acabou deixando-se conduzir pela avó, mesmo bastante relutante, para perto do espelho. Quando estava próximo, começou a sentir as pernas quererem falhar em sua função principal, mas prosseguiu, procurando concentrar-se em um foco que não o fizesse finalizar o dia com mais alguma coisa pela qual se envergonhar. Caminhou seu trajeto final e, quando sua imagem distorcida surgiu naquelas águas nunca calmas, ainda pôde ver o reflexo do rosto da avó atrás do seu.

"Concentre-se." Ela disse. "Eu vou estar aqui com você."

Foi então que ela surgiu. Ele não sabia por que, mas tinha certeza que seria aquela a primeira imagem que veria. A bendita espada suja e quebrada na ponta. A espada que ele aquecera, que martelara impiedosamente por dias, cuja forma transformara a forma, cujo brilho restituíra. A escura espada que ganhara o reflexo do céu... Era tão bonita...

Ela ficou alguns instantes ali refletida, depois sua imagem voltou a distorcer-se, convertendo-se em um ciclo de fogo que girava com o céu escuro a seu fundo e caia com o peso de um exercito no chão de uma planície.

Uma estrela? Uma estrela caindo do céu?

Logo a imagem dissipou-se em uma nuvem de fumaça e voltou a transformar-se, ganhando a forma de uma espada diferente, e sendo colocada ao lado de uma outra quase idêntica. Diante delas um artesão sorria, satisfeito com seu serviço. Era um elfo de cabelos negros e alto, que acariciava as armas como se tivessem vida.

"Anglachel...Anguirel... Vindas do céu..." Ele cantou em uma voz cuja melodia era inesquecível. "Se forjadas são do material da mais bela estrela...vida eterna terão. Vida eterna terão, A existência de seus donos, os filhos de Ilúvatar, acompanharão."

Elrohir franziu o cenho e depois uma das espadas desapareceu, ressurgindo quando era passada das mãos desse mesmo elfo para um outro, cujas vestimentas lembravam as de um grande líder. Não custou muito, dessa vez, para que outra imagem surgisse: a do mesmo rei, repassando a arma para um outro elfo, um arqueiro bastante alto, que olhou a arma como se ela pesasse mais do que mil arcos e aljavas...

O arco forte de Doriath...

Uma voz entoou.

Por fim, o que até então eram imagens de brilho, converteram-se em escuridão. O arqueiro surgiu morto, a própria arma enterrada em seu peito, seu sangue escorrendo do corpo, banhado também pelas lágrimas de um outro alguém...

Um outro alguém que não era um elfo... Era um adán...

Elrohir sentiu seu corpo esfriar, assistindo ao pranto daquele desconhecido, cujo corpo dobrava-se em um choro convulsivo e palavras de arrependimento. O gêmeo estremeceu e ainda sentiu a mão da avó apertar-lhe ligeiramente o ombro, conforme a cena desaparecia, a água do espelho mesclando-se com aquelas lágrimas.

Tudo voltou a ser neblina por mais um tempo até que a imagem do infeliz soldado adán ressurgiu. Ele gritava agora, brandindo a própria espada para o céu, enlouquecido, delirante de dor, uma dor que parecia ser irreprimível. Por fim, ele fez o impensável, fincou o cabo da arma no chão e deu fim à própria vida da forma mais cruel possível, cravando o peito dolorido na arma com tanta força que ela se partiu.

Elrohir virou o rosto naquele momento, com o impacto daquela cena e abraçou-se a Galadriel em um instinto incontrolável. Era como se seu próprio peito ardesse, como se toda aquela dor estivesse dentro dele agora. A avó cobriu-lhe a cabeça com a mão delgada, acariciando-lhe os fios devagar, abraçando-o com força.

"Acabou..." Ela disse em voz doce. "Acabou, tithen-pen..."

Com algum custo então ela o trouxe de volta para o banco que haviam abandonado, deixando para trás aquele espelho e suas intrincadas imagens. Sentaram-se então, lado a lado mais uma vez, ela ainda abraçando o trêmulo neto, observando com atenção o rosto pálido do rapaz. Ele mantinha os olhos fechados com vigor como se aquela imagem estivesse a se repetir incessantemente.

Galadriel ainda aguardou mais um pouco, preocupada, depois buscou chamar por ele, tentar deslocá-lo do mundo de imagens tristes para o qual aquelas cenas o haviam atraído. Depois, ao perceber que o neto não conseguia acalmar-se o suficiente para desfazer-se daquelas cenas que vira, ela pousou a mão em seu rosto, cobrindo-lhe os olhos, e passou a cantar uma canção bastante doce, uma canção que ele nunca ouvira antes e que o resgatou momentaneamente de seu mundo de dor e angústia, deixando-o pairar em um outro apenas de sonhos.

Foram seus primeiros momentos de paz naquelas duas estações que pareciam ser intermináveis.

Quando despertou, estava em um dos sofás do abrigo da avó e foi a figura dela, conversando atentamente com o marido, a primeira imagem que viu.

Ele ergueu-se com dificuldade, então, e a elfa apressou-se em acolhê-lo assim que o viu, segurando-lhe os ombros e fazendo-o deitar-se novamente.

"Volte a dormir, Elrohir." Ela disse. "Essa noite você passa conosco."

O gêmeo voltou a deitar-se, como a avó o compelia a fazer, mas seus olhos permaneceram abertos, olhando preocupados para o ambiente no qual estava, sem entender como viera parar ali. Só depois de algum tempo de concentração a imagem do passado próximo lhe ressurgiu e ele voltou a erguer-se, desta vez não dando a avó tempo de impedi-lo. Ele cambaleou alguns passos e logo foi amparado por Celeborn, que o envolveu, trazendo-o de volta para o sofá.

"Calma, Astalder." Ele disse, fazendo o gêmeo sentar-se e tomando o lado deste ao perceber que o rapaz não parecia disposto a voltar a dormir.

Elrohir ainda olhou para ele, depois para a avó, por fim para todo o ambiente a sua volta, por fim estremeceu, apoiando ambas as mãos por sobre o rosto, como se não estivesse conseguindo juntar de forma coerente as imagens que via, com as cenas do passado próximo com as quais sua mente parecia intentada a torturá-lo.

O braço do avô encobriu seus ombros então e o som da voz segura dele preencheu-lhe os ouvidos mais uma vez.

"Está tudo bem, Astalder." Ele garantiu, descendo a mão pelo braço do neto em um afago sutil, mas de inegável poder.

Elrohir relaxou um pouco, sentindo paz naquele calor, uma paz reconfortante que lhe aquietou o espírito por um tempo. Sua respiração, no entanto, ainda estava ofegante e ele ainda sentia preocupação nos dois avós a seu lado. Ele olhou-os alternadamente então, sem saber ao certo pelo que buscava nos semblantes deles.

"Sua avó cometeu uma insensatez." Celeborn se manifestou então, e aquelas palavras fizeram Elrohir erguer os olhos, surpreso por ouvir o avô fazer tal comentário. No entanto, no semblante da avó não parecia haver qualquer ar de que se sentira ofendida com a recriminação.

"Ele tem razão, Elrohir. Não posso expor a verdade do espelho a alguém tão jovem. Não é... sensato..." Ela disse com os olhos baixos, mas um brilho que não parecia demonstrar arrependimento. Um brilho provocativo que, em outra circunstância, teria trazido um sorriso ao gêmeo mais novo, se ele não estivesse revendo aquelas imagens mais uma vez naquele momento.

Como podiam ter tamanha força, tamanha nitidez? Tudo havia sido tão real...

"Parece que há uma outra história que tenho que lhe contar agora, não é?" A voz da avó, sentada a seu lado, o fez abandonar suas indagações por um momento. "Quer entender o que viu ontem à noite ou quer apenas que o ajude a esquecer?" Ela indagou e o jovem elfo manteve os olhos bem abertos e fixos nos dela, respondendo, mesmo sem palavras, qual era a sua opção. Galadriel olhou para o esposo e Celeborn baixou os olhos, visivelmente contrariado com a situação na qual estava.

"Havia, há muito, mas muito tempo mesmo, um nobre membro da casa real de Doriath, parente do próprio Thingol. Sabe quem foi Thingol, não sabe?" Galadriel iniciou seu relato.

Elrohir assentiu com a cabeça. Prendendo o ar no peito diante da imagem de um dos três elfos que visitaram o Reino Sagrado pela primeira vez.

"Pois bem, seu nome era Eöl, conhecido por muitos como "o elfo escuro". Conhece a história de Eöl, Elrohir?" Ela indagou e o jovem elfo curvou as sobrancelhas tentando se lembrar. "Pois bem. Deixe-me ajudá-lo com essa parte. A princípio, Eöl viveu em sua terra natal, mas em um determinado momento sentiu o desejo de ir morar na floresta escura de Nan Elmoth, a leste de onde vivera. Eöl era um artesão dos mais talentosos, e mestre ferreiro sem par. Entre tudo o que fez de mais relevante estão as duas espadas que você viu. Eram armas especiais porque foram feitas com um material diferente de tudo o que há aqui. Ele as forjou do ferro de um meteorito. Sabe o que é um meteorito, não é Elrohir?"

O gêmeo ainda custou alguns instantes para responder, pois seu queixo estava completamente aberto com aquela informação. Onde estivera naquela aula em que Erestor explicara fato tão interessante? Logo ele o pressionou fechado, assentindo em uma resposta positiva.

"Certo. Anglachel e Anguirel eram os nomes dessas armas. Espadas irmãs... Anglachel foi dada a Thingol como pagamento por Eöl pelo direito de morar em Nan Elmoth, e é a saga dessa espada que parece nos interessar, pois são os donos dela que você viu no espelho." Ela completou, olhando o neto atentamente para tentar sentir o que a informação estava despertando nele. "Quer perguntar algo, Elrohir? Sabe que seu voto de silêncio é dispensável em caso de necessidade."

Elrohir respirou fundo, como se estivesse conjeturando dizer algo, mas depois fez uma enfática negativa com a cabeça, voltando a olhar atentamente para a avó, com ares de quem anseia muito pelo restante da história.

"Bem. O arqueiro que você vê ganhar a espada é Beleg Cúthalion, chefe da guarda de Doriath. Um soldado brilhante que foi arqueiro por toda sua existência, até ter a Anglachel nas mãos." Ela completou e, ao perceber as sobrancelhas do neto encurvarem-se novamente, acrescentou. "O adán que você viu era Túrin Turambar, filho de Húrin e um grande homem de seus tempos, sobre quem muitas músicas foram cantadas e muitas lendas ainda persistem".

Elrohir envergou novamente o cenho. Túrin Turambar. Esse nome lhe era familiar. Sim. Sem dúvida Erestor já havia lhe falado nele. Por Ilúvatar, precisava prestar mais atenção às histórias antigas que o mentor lhe contava.

"Elrohir?" A avó chamou-o, intrigada e o gêmeo despertou de seus devaneios, nos quais tentava intensamente resgatar aquela memória em particular, mas não conseguia. Por certo não ouvira com atenção o bastante para fixá-la. Ele lançou um ar de desculpas para a avó, voltando a olhar para ela.

"Bem, foi por amizade e para auxiliar a esse amigo, que Beleg optou por empunhar a espada, mesmo sabendo da energia negativa que ela carregava." Adicionou a elfa e apertou os lábios ao perceber o neto empalidecer com aquela informação. Os olhos de Elrohir se arredondaram e ele buscou o olhar do avô como se quisesse se certificar de que havia ouvido corretamente."

"Sim, Astalder." Confirmou o lorde dos cabelos prateados. "Beleg servia a Thingol e Melian e por eles era muito amado. Como o bom arqueiro decidiu pedir ao rei autorização para desistir de seu posto e auxiliar o amigo adán, por quem o próprio Thingol tinha muito apreço, o rei comoveu-se e, como agradecimento, deu-lhe sua permissão e votos de boa sorte. Além disso, disse a Beleg que escolhesse o que quisesse, de todo o seu arsenal, exceto apenas a sua própria espada."

"Beleg escolheu Anglachel." Galadriel completou, com olhos voltados para uma história que parecia comovê-la. "Mesmo com o aviso da rainha de que a arma jamais amaria seu dono ou com ele permaneceria por muito tempo. Segundo Melian, a espada carregava o coração negro de seu dono Eöl. Havia maldade nela."

Elrohir estremeceu, voltando a olhar para o avô, que parecia bastante incomodado com a natureza da conversa que estavam tendo. Celeborn lançou um olhar de advertência para a esposa, que apenas respirou fundo, balançando ligeiramente a cabeça. Por fim o lorde elfo respirou fundo, propondo-se a contar essa parte da história.

"Foi o fio dessa arma que roubou de Beleg Cúthalion o som da vida, como Melian talvez houvesse temido." Ele adicionou, olhando o neto com atenção. Ao perceber que Elrohir realmente não conhecia essa parte da história, esclareceu: "Beleg morreu pelas mãos do próprio amigo Túrin, quando tentava ajudá-lo após uma emboscada. Túrin estava desacordado e, quando despertou, a escuridão e os males da tortura que sofrera pelos inimigos levaram-no a consciência dos atos em um momento bastante impróprio. Ele não reconheceu o amigo, tomando-lhe a arma e matando-o com a Anglachel acidentalmente." Completou, e lamentou ver o gêmeo empalidecer de forma preocupante. Os olhos de Elrohir dançaram nas órbitas antes de se fecharem para fugirem do que pareciam ver e o avô compreendeu bem melhor do que gostaria quais associações o neto fazia entre aquela história e a sua própria.

Um silêncio invadiu aquele lugar por um tempo depois disso e o casal de elfos se entreolhou como quem ainda tem muito a discutir, mas sente o tempo transformar-se de aliado a inimigo. Elrohir, perdido novamente nos ecos daqueles relatos tão tristes e na ainda mais triste relação que fazia com sua própria desgraça, não percebeu o que havia naquela ausência de palavras dos avós.

"Túrin teve a espada nas mãos também." Lembrou o lorde elfo, apoiando agora a mão na cabeça do neto e despertando-o novamente para uma história que ele já julgava finalizada. Só então Elrohir lembrou-se da última e mais marcante cena de sua visão do espelho e subitamente sentiu-se indisposto a descobrir o porquê daquela imagem tão terrível. Ele agarrou uma mão no robe do avô e seu rosto empalideceu.

Celeborn sobressaltou-se, por fim soltou o ar do peito, tomando a mão do trêmulo elfo nas suas.

"O que Túrin fez chama-se suicídio, pen-neth." Ele disse. "É um ato extremo que apenas os edain já vi cometer. É diferente dos elfos que se deixam levar pela dor, porque buscam o descanso. Os edain quando o praticam parecem não desejar verem-se livres de sua vida aqui, eles parecem ter o desejo ardente de se libertarem de si mesmos."

Elrohir estremeceu novamente, mesmo com a explicação do avô. Ele passou a esfregar os braços como se estivesse com frio e a avó segurou uma de suas mãos amistosamente.

"Ele tinha seus motivos para isso." Ela disse, mesmo recebendo outro olhar de advertência do esposo. "Leia, quando puder, a triste história dos Filhos de Húrin e entenderá, Elrohir."

"Bem, o que importa é que entendamos onde a história dessa arma termina." Celeborn afirmou.

"Se é que termina de fato." Somou Galadriel, fazendo com que Elrohir voltasse a franzir as sobrancelhas.

"Em Nargothrond, Túrin fez com que a arma do amigo Beleg fosse de novo forjada por hábeis ferreiros que lhe recuperaram o brilho. O guerreiro adán deu-lhe um novo nome: Gurtang."

"O Ferro de Morte." Traduziu Galadriel, recebendo outro olhar de repreensão do esposo quando o neto voltou a estremecer. "A história tem seus belos fatos e seus fatos tristes também. Com ambos aprendemos." Ela se justificou, segurando a mão o jovem elfo. "A cena final que vimos foi a queda do poderoso Túrin." Acrescentou. "Ele buscou a morte no rumo da própria espada."

"O que também nos conta a história é que o herói foi enterrado com sua arma." Lembrou o lorde elfo, franzindo pensativo os olhos, depois ao sentir a atenção da esposa sobre ele, percebeu que esta não parecia a vontade com tal hipótese. "O que se sabe e que tanto ele, quanto a mãe e mesmo a memória da irmã, estão sepultados sob a pedra dos infelizes. O pico transformou-se em uma ilha após a grande inundação."

"A ilha de Tol Morwen." Lembrou a elfa.

Os olhos de Elrohir dançavam confusos agora pelas figuras dos avós. Apesar deles continuarem contando-lhe o término da história, pareciam agora trocar, naquelas entrelinhas, informações sérias e graves que ele não conseguia compreender.

Celeborn voltou enfim a encontrar as pupilas brilhantes do neto, olhando-o novamente com aquele mesmo olhar que às vezes lhe direcionava, como se visse nele sua única âncora.

"Ah, Astalder." Ele apertou um pouco o abraço que oferecia. "Vamos trocar um favor?" Indagou e Elrohir voltou a franzir as sobrancelhas. "Você deixa um instante o juramento que fez para seu irmão e me permite ouvir sua voz e eu o levo para casa amanhã."

Elrohir arregalou os olhos, e um sorriso, que seria o primeiro a despontar-lhe desde que chegara, quis iluminar-lhe o rosto, porém, logo ele desapareceu e o gêmeo apertou ambas as mãos por sobre o colo, como se estivesse sendo assolado por uma imensa dor.

"Vamos. Uma palavra e voltará a ver os seus, entre eles seu próprio irmão. Com certeza Elladan entenderá porque rompeu a promessa que fizeram um ao outro." Ele ainda insistiu e aguardou por momentos que jamais esqueceria. Nunca tão poucos minutos lhe pareceram tão dolorosos. Elrohir fechou os olhos, a cabeça baixa, o queixo quase colado no tronco. Ele então soltou o ar dos pulmões e quando Celeborn julgou que fosse ouvir sua voz, algumas lágrimas começaram a correr por seus olhos e ele simplesmente abanou a cabeça com força, erguendo-se e pondo-se a correr dali.

"Espere, Elrohir." A voz da avó foi quem o deteve e por consideração a ela o gêmeo parou, já quase à porta. Mas ele não se voltou, não tinha coragem de enfrentar os avós, de imaginar que, de alguma forma, os tinha decepcionado também. Tudo o que fazia era decepcionar as pessoas. Em momentos como aquele começava a acreditar mesmo que estava perdido de fato, além da esperança e do merecimento de qualquer ajuda.

Foi então que sentiu a mão do avô por sobre seu ombro, fazendo-o voltar a olhá-lo. Elrohir virou-se devagar, mesmo temendo ler mais um ar de desapontamento em alguém. Celeborn encurvou o tronco ligeiramente para olhá-lo, mas nos olhos de lorde elfo não havia desapontamento algum, ele apenas apoiou uma mão no peito do gêmeo com carinho.

"Não pretende romper seu juramento para com Elladan nem se isto lhe garantir o regresso ao lar?" Indagou e Elrohir fechou os punhos em uma ira contida que parecia ser contra si mesmo. Ele então balançou com força a cabeça, roubando um estranho sorriso do avô. "Bem, se está disposto a manter sua palavra para com seu irmão, mesmo com o que lhe estou oferecendo em troca, é porque seu tempo aqui está mesmo terminado, menino, e sua dignidade recuperada. Agora vamos voltar para a casa para que possamos tentar fazer o mesmo por aquele que o protegeu."