Olá. Espero que todos estejam bem.

Estou feliz com essa fic. Embora nunca tenha tido tanto medo de escrever algo, fico feliz pela amizade que sinto renovada nela. Pessoas estão lendo, colocando fé em um rascunho ainda incerto, em personagens até então secundários. Sou muito grata pelas reviews.

Há nesse capítulo um pouco mais de informações relativas a alguns fatos do passado, mas também algumas dicas do que estará por vir. Espero que gostem.

Muito beijos e obrigada mais uma vez.

Sadie


CAPÍTULO IV – O REGRESSO

Volta teu rosto sempre na direção do sol e, então, as sombras ficarão para trás.

Provérbio Oriental


Galadriel respirava o ar da mata molhada, aroma característico de um lugar que ela conhecia bem. Imladris era para ela um dos últimos redutos élficos no qual a paz ainda parecia reinar soberana, mesmo ameaçada inúmeras vezes pelas intempéries do destino.

A elfa suspirou, sentada em seu cavalo, que ziguezagueava pelas escadas que desciam até o fundo vale e cujo andar manso parecia se dar em respeito a seus próprios pensamentos. Ela e Celeborn já haviam vivido em Imladris, logo após a queda de Eregion. Sim, ela se lembrava bem. Haviam sido recebidos com respeito pelo antigo arauto de Gil-Galad, e agora senhor daquelas terras. Elrond já lhes era conhecido, tanto deles quanto da filha, que desde a primeira vez que o vira, ainda sem qualquer apresentação mais formal, já deixava que seus olhos acompanhassem a figura do curador sempre que possível fosse.

A elfa sorriu, lembrando-se da primeira vez que o então senhor de Imladris decidiu que chegara o momento dele também demonstrar abertamente seu apreço pela filha do casal, oferecendo-lhe o braço certa vez, enquanto caminhavam pelo jardim. E então tudo correu o rumo que o destino traçara, até que aquela mesma saudade do mar ressurgiu no peito de Galadriel. Ela e o marido acharam por bem se mudarem para o sul para viver nas margens da Baía de Belfalas, onde se localizava o porto élfico de Edhellond. Celebrian sorriu-lhes com tristeza, aceitando e respeitando a decisão dos pais, mas permanecendo na cidade do vale com aquele a quem o coração elegera.

A senhora do espelho soltou um breve suspiro, lembrando-se daquele momento. Elrond era uma imagem que jamais visitara suas visões de futuro. Era um enigma, uma surpresa, um elfo diferente de todos que conhecera, e, na época, a última escolha que seu coração faria para a filha, se a ela fosse concedido esse direito.

Hoje tal idéia trazia um sorriso conformado à elfa dos cabelos cor de ouro, que logo descobrira o quanto estava enganada sobre o que se escondia por trás daquele escudo de bondade e paciência, que antes despertava um pequeno receio em seu coração de mãe. Elrond era de fato bondoso e paciente, aquilo era inegável, mas seu sentido de dever e justiça estava além do de qualquer outro que Galadriel conhecera, fazendo dele um dos elfos mais admiráveis daquele e de muitos outros lugares.

Sim. Censo de dever e justiça. E agora, devido a eles, o senhor de Imladris estava numa dura encruzilhada.

"Elrond nem sequer virá nos receber?" Galadriel indagou, então, quando cruzaram os portais da cidade e, ao avistar a antiga casa amiga, encontrou apenas o vulto branco da filha, a espera deles em pé na varanda. "Decerto alguma das sentinelas já os avisou de nossa chegada."

Celeborn soltou um suspiro paciente, olhando agora para o calado neto, que ocupava o cavalo ao lado do seu, e cujos olhos já estavam presos naquele mesmo vulto branco, como se não houvesse mais nada no mundo a volta dele.

"Elrond está destituído dessas tarefas." Lembrou Celeborn, em um tom de voz proposital, cuja cadência procurava manter o interesse do neto distante do que diziam. Elrohir estava concentrado demais e, apesar de não demonstrar, saboreando um pequeno gosto de felicidade depois de muito tempo, gosto esse que o avô não se sentia disposto a corromper.

Galadriel trancou os lábios, lembrada agora de todos os efeitos que o problema possivelmente causara, enquanto seu cavalo se aproximava mais da grande casa e ela já podia avistar o rosto inundado de lágrimas da filha que, em poucos instante já ergueu ambos os braços, dando àquele que já a olhara há tempos a autorização que este parecia esperar. Elrohir lançou um olhar de angustiado para o avô, que se comoveu ao perceber que o neto ainda lembrava-se de sua condição e, portanto, pedia-lhe permissão para atender ao chamado da mãe.

Celeborn ergueu os cantos dos lábios em um sorriso paciente, respondendo à pergunta silenciosa com um breve aceno de cabeça e prendendo o ar no peito ao ver o jovem elfo saltar do cavalo ainda em movimento e correr como só ele sabia fazê-lo, pulando os degraus daquela escada como se nem sequer existissem e ganhando o lugar que tanto desejava nos braços da mãe.

O avô tornou a suspirar, sentindo um gosto amargo escorregar-lhe garganta abaixo, principalmente ao receber o olhar bastante breve da filha, ainda com o filho nos braços.

"Ai, Rohir-nín, que saudades, querido." Ela dizia, afastando o jovem elfo por um mero segundo para olhá-lo, mas depois voltando a abraçá-lo como se não o quisesse largar nunca mais. O rosto do filho também estava repleto de lágrimas e ele segurava nas vestes da mãe com punhos cerrados, fechando duramente os olhos assim que ela voltou a abraçá-lo.

Os dois elfos desceram enfim de suas montarias, aproximando-se devagar. Quando pararam diante da escada de entrada, Celebrian viu-se obrigada a deixar a única coisa que lhe trouxera prazer nos últimos meses e afastar um pouco o filho de si, mantendo-se em pé nas pernas ainda bambas de emoção.

"Mae govannen, adar-nín... naneth-nín..." Ela saudou os pais com uma diplomacia que a fazia a perfeita senhora de Imladris, mas a distanciava visivelmente da filha carinhosa que sempre recebia o casal nas outras vezes. A seu lado, Elrohir envolvia-lhe a cintura, enquanto ela o mantinha perto de si, apoiando a mão em suas costas com a firmeza de quem está disposta a enfrentar uma guerra.

Celeborn olhou a filha com serenidade, antes de oferecer a mão à esposa para subirem os últimos degraus que os separavam dela. Celebrian acompanhou aqueles passos, temerosa como nunca estivera. Agora que tinha o filho perto de si, sentia-se frágil novamente. Não queria passar pelo que passara mais uma vez.

No entanto, quando teve os pais diante de si, não viu nos olhos deles qualquer repreensão. Muito pelo contrário. Celeborn abandonou a formal diplomacia e aproximou-se, tomando a filha nos braços sem pestanejar.

"Ield-nín," Ele disse-lhe ao ouvido e só o mero tom de sua voz de pai já roubou dela todas as mágoas e incertezas e Celebrian envolveu o lorde elfo, retribuindo o abraço recebido.

"Ada... Por favor..." Ela implorou em um sussurro para que apenas o pai ouvisse. "Não o leve de mim novamente. Por favor..."

Celeborn fechou brevemente os olhos, depois desceu as mãos pelos cachos da filha antes de soltá-la.

"Estamos todos onde devemos estar no momento." Ele disse, encarando os olhos úmidos dela com um sorriso assegurador. "Uns temporariamente, outros em definitivo." Completou, olhando rapidamente para o neto, que soltou os ombros ao compreender as palavras do avô.

Celebrian forçou um novo sorriso, lançando um olhar de contentamento ao filho, mesmo em um rosto ainda úmido de lágrimas, e o casal recém-chegado foi presenteado com uma imagem que há muito não viam. O jovem elfo também lhes sorriu, observando agora a mãe ganhar um abraço carinhoso da avó. Logo, porém, seus olhos percorriam todo o lugar atentamente. Celebrian apercebeu-se disso, então voltou a aproximar-se do filho.

"Seu irmão está no campo de treino com Glorfindel." Ela esclareceu. "Mas ainda não está recuperado por completo, por isso não façam nenhuma estripulia." Ela adicionou e quase lamentou tê-lo feito, pois o rosto do filho empalideceu com a informação. "Não se preocupe, querido." Ela garantiu, ajeitando os agora desalinhados cabelos do jovem elfo com carinho. "Acho que ele vai melhorar rapidamente agora."

A informação pareceu ser o bastante para mover as sobrancelhas do gêmeo de volta para sua posição, mas a preocupação ainda parecia expressa no rosto dele, principalmente quando seus olhos voltaram a olhar para dentro da casa, parecendo ainda esperar por mais alguém. Esse fato fez com que a mãe respirasse fundo e lançasse um olhar de angústia para os pais, antes de voltar a dirigir-se para o jovem elfo.

"Aquele a quem você espera, querido, gostaria muito de estar aqui, mas não pode..." Ela esclareceu e os olhos de Elrohir ganharam o chão sobre seus pés, novamente entristecidos. Celebrian segurou-lhe o queixo, fazendo-o voltar a olhá-lo. "Não é porque ele está proibido de dirigir-se a você como pai, querido, que ele não o ama como sempre amou. Ele também está proibido de exercer sua função aqui nessa cidade, mas em nenhum momento deixou de amá-la como sempre a amou, bem como os habitantes dela continuam a amá-lo. Aja como o povo de seu pai está agindo, querido, o nome dele não está mais em suas canções, mas ele ainda recebe o mesmo olhar carinhoso de cada um com quem eventualmente se encontra."

Elrohir ainda olhou a mãe por um tempo, os olhos escurecidos de dor e dúvida. Na voz gentil dela tudo parecia ser muito simples, e até seria, se ele não soubesse muito bem quem colocara o pai na situação na qual se encontrava. O gêmeo voltou a baixar os olhos então, oferecendo um breve aceno de cabeça na indicativa de que havia compreendido. Depois respirou fundo e todos perceberam que agora ela voltava a segurar um pranto que lhe preenchia o peito. Por isso, ele voltou a olhar na direção do campo de treinos, movendo rapidamente os olhos para mãe em um pedido de autorização.

Celebrian suspirou resignada, mas tudo o que fez foi oferecer ao filho o que ele agora desejava.

&&&

Havia mais de um campo de treinos em Imladris. Alguns um pouco maiores, para grandes ensaios e técnicas, outros menores. Uns mais próximos, outros distantes. Elrohir passou por todos eles, mesmo sabendo bem que só encontraria Elladan em sua última tentativa. Na verdade estava ganhando tempo, deixando que as novas lágrimas secassem e seus traços desaparecessem um pouco de seu semblante antes que o irmão o visse.

Sim. Ele sabia onde Elladan estaria.

Havia um pequeno campo de treino no caminho para a Cascata, subindo os íngremes degraus de uma das pequenas escadas laterais e ganhando um atalho por entre as árvores que poucos se dispunham a percorrer. Era um lugar isolado, mas de bom tamanho e abençoado pelo canto dos pássaros. Elrohir nunca se importara muito com os locais de treino, se havia ou não pessoas os observando ou alguma espécie de ruído. Sua concentração era perfeita em qualquer lugar, pelo menos era o que dizia Glorfindel. Mas Elladan era diferente. Ele sentia-se bem no meio da mata, ouvindo o som das árvores e dos animais. Por isso mesmo, o gêmeo caçula sabia bem onde o mais velho estaria treinando. O que ele não imagina, no entanto, era encontrar nas mãos deste o que agora havia.

Ao ver sua outra imagem do outro lado do campo, Elrohir sentiu-se perdido pela primeira vez. Elladan de fato estava em um treino sério, mas não tinha nas mãos a espada de madeira de sempre. Havia nelas, para sua surpresa, um grande arco.

E as flechas eram muito verdadeiras! Pelo menos era o que ele conseguia perceber no rápido rumo da aljava do irmão para o alvo. Um círculo distante alguns bons metros, cujo centro já estava repleto de outras setas como aquelas que o irmão atirava seguidamente.

Elbereth, Elladan era um arqueiro! E não era um arqueiro qualquer!

"Duas agora, elfinho!" Incentivou a voz de Glorfindel, cujo rosto na mata o gêmeo não conseguiu avistar. Mas Elrohir nem mesmo pensou em procurar pelo mentor, seus olhos estavam presos demais no rápido movimento do irmão, que agora sacava duas flechas de sua aljava e as encaminhava irmanadas e certeiras ao alvo, fazendo o queixo do caçula cair completamente. "Três agora, Elladan!" A voz de Glorfindel ficou mais urgente e isso pareceu motivar o aprendiz, que sacou as três setas, sem pestanejar, e as fez seguir o mesmo rumo perfeito das anteriores.

"Ilúvatar, toron-nín!" Orgulhou-se o caçula para si mesmo, com um sorriso legítimo agora.

Só então a figura do mentor surgiu de trás de uma das árvores, com o mesmo sorriso orgulhoso no rosto, observando o gêmeo continuar a atirar suas flechas, inabalável com a emoção que fazia surgir com elas. Aquele era Elladan, elogio algum o movia a sentir-se diferente do que era, a não ser os do pai. Era uma rocha firme em campo, encarando seus acertos como encarava os erros, como um momento a mais no processo de aprendizagem. No entanto, em suas caminhadas pela mata, qualquer sorriso de aprovação do pai a seu lado, fosse pelo mero encontrar de uma planta pela qual buscavam, ou pela repetição certeira de uma poção, arrancava um tremor de satisfação do primogênito.

"Fez um bom trabalho!" Glorfindel pousou a mão no ombro do jovem elfo, impedindo-o de apanhar a próxima flecha. "Chega por hoje ou sua mãe vai se zangar. Extrapolamos o horário." Ele acrescentou em um tom diferente do habitual, um tom que só foi ser esclarecido com a sentença que se seguiu. "Mesmo porque, acho que você já impressionou o bastante seu visitante de hoje."

Só então Elladan pareceu abalar-se com o que ouvia. Ele se voltou intrigado e por coincidência ou qualquer outra razão que só gêmeos entenderiam, seu olhar encontrou-se de imediato com o do irmão, mesmo Elrohir estando por trás das folhagens. O gêmeo mais novo respirou fundo e empalideceu e o mais velho ficou por um instante petrificado. Os lábios de Elladan soltaram-se então devagar, até que ele deixou o arco cair, puxou a fivela da aljava para que fizesse o mesmo e correu rapidamente em direção do irmão.

Glorfindel não conseguiu se mover, nem se pudesse o faria. Mas foi recompensado com uma das cenas pela qual esperava ansiosamente. Os dois irmãos se abraçaram com força e assim ficaram como se não fossem mais se soltar. O mentor os analisava de longe, ouvia seus silêncios, compreendia suas dores.

Na verdade conversavam, ele sabia... Gêmeos que eram há muito já haviam descoberto como unir as mentes e vencer os obstáculos.

Era o que faziam agora. Glorfindel tinha certeza. Ainda abraçados, moviam, às vezes, a cabeça no ombro do outro, ou em uma afirmação ou em uma negação, respostas mudas para perguntas que só interessavam aos dois. Eram irmãos. Eram gêmeos. O silêncio que os distanciava dos demais, não os aprisionava.

"O pobre mentor aqui também pode saudar o recém-chegado?" Ele enfim disse, depois de sentir que já havia dado tempo suficiente aos dois, e que, fosse o que fosse que conversavam, estava agora lhes despertando mais tristeza do que alegria. Elladan desprendeu-se relutante do irmão, mas ergueu os lábios em um pequeno sorriso ao ver o ar saudoso com que o gêmeo caçula encarou o mestre.

"Venha cá, elfinho arteiro." Glorfindel moveu a mão direita para enfatizar o pedido e Elrohir ainda hesitou por um instante, depois deslocou-se vagarosamente, mas foi agarrado pelo mestre sem qualquer sobreaviso e erguido no ar. Por Elbereth, só mesmo Glorfindel ainda tinha forças e disposição para aquilo, haja vista o tamanho que os pupilos já alcançavam.

Elrohir soltou um riso, ecoado em seguida pelo irmão que observava, e o mentor comoveu-se, mantendo-o nos braços por mais um instante antes de colocá-lo no chão e abraçá-lo devidamente.

"Que saudades, Elrohir." Ele disse, apertando o pupilo em seu peito e afagando-lhe os cabelos. "Mal contenho minha curiosidade em saber o que aqueles incompetentes do cais foram capazes de lhe ensinar." Ele ainda brincou e satisfez-se novamente por voltar a sentir o gêmeo rir, agora com o rosto colado em seu peito. Elladan aproximou-se devagar, um sorriso também em seu rosto. Glorfindel o puxou então para mais perto, envolvendo-o os dois irmãos.

&&&

Sentado em sua cama agora, Elrohir olhava as paredes e a mobília de seu quarto como se estivesse em um lugar estranho. Nada havia de fato se modificado no tempo de sua ausência, tudo continuava no mesmo lugar... Menos ele mesmo... Ele é que não conseguia se sentir parte daquele universo mais. Não porque não amasse tudo aquilo, mas sim porque não se sentia mais digno de estar ali.

Freqüentara a mesa do jantar com os demais, mas muito pouco conseguira aproveitar daquela comida da qual sentira tanta falta. Como conseguiria se um dos lugares mais importantes da mesa estava vazio?

O gêmeo soltou um suspiro triste e só então percebeu que o irmão estava parado diante do espelho do quarto com um olhar preocupado voltado para ele.

Elrohir baixou a cabeça, cruzando as pernas por sobre a cama e Elladan soltou os ombros, afastando-se. Só então o gêmeo mais novo percebeu os movimentos ainda um tanto cautelosos do irmão, enquanto este se preparava para dormir.

"Ainda dói?" Deduziu, assim que Elladan acomodou-se por sob as cobertas. O gêmeo mais velho olhou para ele mais uma vez, depois se limitou a balançar a cabeça em um ar de quem ameniza um pouco a resposta positiva que está concedendo. Elrohir aprendera bem a entrar na mente do irmão, sempre aberta para ele, mas tinha dificuldades em retribuir o favor. "Se ainda incomoda assim, como o ada te deixou treinar?"

Elladan baixou os olhos e sua resposta resumiu-se a um mero erguer de ombros e um ar de quem não estava de fato sentindo muita dor e Elrohir deduziu que talvez tivesse sido uma decisão difícil para os pais permitirem aqueles treinos, mas que, quem sabe, tal decisão tivesse sido tomada para evitar algo pior do que meras dores no final do dia. Afinal, ele se lembrava bem de que também foram os árduos treinos no porto o único refúgio que ele mesmo usara para não ter sua mente tomada o tempo todo pelo que tinha lhes acontecido.

Ele pensou em levantar tal hipótese para o irmão, mas foi surpreendido pelo bater compassado na porta do quarto. Nem ele, nem Elladan, haviam ainda rompido o voto de silêncio que fizeram. Não sabiam ao certo o porquê, por isso ficaram ambos calados, aguardando que quem quer que estivesse lá, decidisse entrar mesmo assim.

Não tardou para a imagem da mãe surgir com seu sorriso de sempre. Ela entrou, acompanhada por Lady Idhrenniel.

"Boa noite, ionath-nín." Saudou-os, dando espaço então para que a elfa morena também entrasse no cômodo.

Elrohir estranhou ver a curadora ali, mas nada questionou, mesmo porque o ar de total descontentamento do irmão deixou claro o motivo da presença desta. Ambas as elfas se aproximaram da cama e Elladan cruzou os braços sobre o peito.

"Vamos lá. Sem manhas essa noite, está bem?" Celebrian sentou-se ao lado do filho, já lhe puxando os braços para permitir que Idhrenniel fizesse seu trabalho. "Hoje seu irmão está aqui, não quer que ele te veja agindo como um elfinho, quer?"

Elladan soltou um suspiro forçado. Nunca fora de seu feitio ser desagradável ou difícil, mas estava evidente que a situação quase o obrigava a isso. Ele pressionou o maxilar, engolindo seus protestos como sempre fazia. Enquanto a mãe desatava os laços de sua túnica para propiciar a curadora a imagem que ela precisava ver.

Elrohir sobressaltou-se quando viu surgir por debaixo do tecido aquela mesma cicatriz. Por Elbereth eram já duas estações! Por que estava ainda ali? Ele saltou da cama então, aproximando-se tão pálido e atônito que Celebrian tomou-lhe uma das mãos, puxando-o para sentar-se com ela perto do irmão.

"Está tudo bem, querido." Ela garantiu, preocupada com a forma fixa com que o caçula ainda olhava para aquele ferimento. "Agora que você está aqui acho que seu irmão vai melhorar por completo. Não é mesmo El-nín?" Indagou, afastando os cabelos que escondiam o rosto do primogênito, cuja cabeça baixa era um artifício inegável para fugir agora daquele olhar que todos lhe davam;

"Com certeza." Lady Idhrenniel foi quem assegurou, olhando rapidamente para o gêmeo mais novo, mas ainda mantendo as mãos por sobre o ferimento, buscando sentir como se dava a cicatrização. "Hoje já está bem melhor do que ontem."

Elladan não reagiu àquela informação, bem como o irmão também não o fez e isso gerou um instante de silêncio no qual ninguém desejava ficar. Idhrenniel ergueu-se então. Depois de trocar um olhar consternado com a senhora da casa, ela ainda olhou os dois irmãos mais uma vez.

"Procure não se exceder no campo de treinos amanhã, está bem, Elladan?" Ela disse já à porta e o gêmeo apenas balançou a cabeça, sem a reerguer. "Tenham uma boa noite, meninos." Completou, olhando com carinho para Elrohir. "É bom vê-lo de volta, Elrohir."

O gêmeo olhou rapidamente para a ela, apoiando a mão no peito como resposta e agradecimento. Ambos tinham grande afeto pela silenciosa e gentil Idhrenniel, cuja sombra competente e atenta parecia fazer parte da casa da cura. Entretanto, naquele instante, a presença da curadora lhe despertava sentimentos antagônicos dos piores tipos. Não era a elfa que ele esperava ver. Que o pai não pudesse ou quisesse vê-lo ele entendia bem, mas por que não estava cuidando também de Elladan?

Depois que a curadora saiu, Celebrian ainda permaneceu sentada com os filhos, analisando seus rostos pálidos e a forma como um evitava agora olhar para o outro. Ela deixou-se ficar assim por mais um tempo, até perceber que, sem sua interferência, eles todos podiam amanhecer na mesma inércia na qual estavam.

"Bem." Disse então, enchendo o peito e erguendo-se. "Cama já para os dois elfinhos." Completou, puxando sutilmente o filho mais novo pela mão e trazendo-o para a cama ao lado. Elrohir obedeceu como um autômato, enfiando-se em silêncio por sob as mantas e permitindo-se ser coberto pela mãe. Celebrian sorriu-lhe, observando os grandes olhos escurecidos do filho com um pesar disfarçado. Ela beijou-lhe ambas as faces, mantendo as mãos sobre elas por um tempo. "Tenho que agradecer ao bom Ilúvatar por você estar aqui querido. Estou muito feliz."

Elrohir sorriu timidamente, deixando que a mãe ainda o beijasse mais algumas vezes e lhe oferecesse outros afagos. Ele também sentia saudades, mas agora seu coração estava novamente entristecido e simplesmente não conseguia voltar a se animar. Celebrian pareceu perceber o fato, por isso sentou-se um instante na cama do gêmeo caçula, ainda com seu leve sorriso nos lábios.

"Seu pai está feliz também, querido." Ela disse, lendo as incertezas do filho e pressionando os lábios ao vê-lo atestá-las com uma rápida fuga do olhar dela. "Ele não pode exercer sua função de curador, ion-nín, por isso pediu que Idhrenniel cuidasse de seu irmão, não é mesmo El-nín?"

Elladan apenas balançou a cabeça sem olhar para os dois e Celebrian deixou-se ficar observando o mais velho agora e lamentou perceber que a chegada do caçula não parecia estar despertando nele todo o bem que ela ansiava. Elladan sentia saudades do irmão, isso era inegável, mas também queria muito ter a oportunidade de voltar a aprender o ofício com o pai, como sempre fizera. Idhrenniel oferecera-se para instruí-lo, mas o gêmeo simplesmente não conseguia aceitar a ajuda de outro alguém que não a do pai.

Celebrian olhou mais uma vez para os dois filhos, sentindo-se a pior pessoa do mundo por simplesmente não saber o que fazer ou dizer. Ela mesma não se conformava com a situação, como muitos pareciam igualmente inconformados. Aquela norma antiga precisava ser reavaliada, era o que dizia aos membros do conselho todos os dias, parecendo ler nos olhos deles o mesmo desejo. Era horrível ver que o medo impedia aqueles elfos de serem justos como gostariam de ser. A lei os protegia, era um forte freio para a atitude de muitos e por isso temiam criar nela qualquer exceção que fosse.

Com um suspiro de cansaço, a elfa se ergueu novamente então, depois colocou outro sorriso no rosto e beijou com força a face do filho mais novo, roubando-lhe enfim um riso. Elrohir passou a olhá-la com preocupação depois, mesmo que buscando disfarçá-la. Ela tinha bons filhos, sempre atentos ao que sentia, sempre dispostos a ajudá-la, sempre desejando sua aprovação.

Ela tinha bons filhos. E estavam a seu lado novamente.

"Eu te amo muito, Rohir-nín. Senti muitas saudades mesmo." Ela disse ao ouvido do mais novo, antes de dar-lhe mais um beijo prolongado na face esquerda e se levantar para despedir-se do mais velho.

Elladan já oferecia a mãe um sorriso terno, parecendo ter percebido que algo a havia entristecido. Celebrian cobriu-o também, repetindo a mesma cena de provocação que fizera com o caçula e roubando-lhe outros risos. Ela então se inclinou para um beijo final, depois se afastou em direção à porta. Quando já estava com a mão na maçaneta ainda voltou-se para os dois pares de olhos que a acompanhavam atentamente.

"Ele também os ama, ionath-nín." Disse e não conseguiu conter enfim os ardor nos olhos ao fazê-lo. "Não se esqueçam disso, certo?"

Os filhos responderem com tímidos acenos de cabeça...

Mundo difícil...

Quando a mãe enfim deixou o cômodo, Elrohir colocou-se sentado na cama de imediato.

"O que está acontecendo?" Ele dirigiu-se ao irmão, que a princípio sobressaltou-se, depois suspirou, ele fez menção de sentar-se também, mas decidiu ficar onde estava, depois de uma breve tentativa. "Por que ainda não está recuperado, Dan?"

Elladan olhou-o nos olhos atentamente então, e Elrohir percebeu pelo que o mais velho esperava antes de dar sua resposta. Ele respirou fundo, concentrando-se. Não entendia porque era tão difícil fazer aquilo que o irmão parecia fazer com a destreza de quem lê um livro importante. Era só abrir a mente. Não havia o que temer, ele sabia. Era apenas Elladan, ele não lhe faria mal algum.

Quando enfim a voz do gêmeo surgiu em sua cabeça, ele sentiu um leve alívio e uma pequena sensação de prazer. Sentia mesmo muita falta de seu irmão.

"Eu estou bem melhor." Disse o outro.

"E por que não está recuperado?"

Elladan ficou em silêncio, depois pressionou os lábios.

"Ada disse que é porque estou triste e quando estamos tristes é difícil ficarmos bons logo, demora mais tempo."

Elrohir curvou as sobrancelhas, depois soltou os lábios.

"Então você vê o ada?"

"Sim. Claro. Eu o vejo todos os dias."

"Quando?"

"Às vezes na biblioteca, onde ele fica quase o dia inteiro. Às vezes no jardim dos fundos, quando a nana consegue convencê-lo a sair. Ele não gosta muito de sair."

"Por quê?"

"Porque as pessoas ficam olhando para ele de longe..." Elladan baixou os olhos. "Elas não fazem por mal... acho que têm saudades dele..."

"Ada não pode falar com as pessoas?"

"Pode... Mas nana disse que ele não pode mais nem dar conselhos e nem ajudá-las como curador, então resta pouco o que conversar com elas, não é? Acho que é por isso que ele evita encontrá-las... porque sabe que elas querem que ele lhes diga coisas que ele não pode mais dizer."

"Então não estão com raiva dele, não é?"

"Raiva? Por que estariam?"

"Não sei..." Elrohir balançou a cabeça, confuso. "Ele foi desonrado... Dearada disse que pessoas desonradas são afastadas socialmente."

"Acho que depende do que elas fizeram, Ro..." Elladan disse com cautela e apertou o queixo ao sentir o que sua resposta, mesmo sutil, havia despertado no rosto do irmão.

"Imagino o que eles devam pensar de mim..." Ele disse em tom triste.

"Eles não pensam nada de nós." Elladan foi categórico. "Estão muito chateados com a tal lei. Pelo menos é o que a nana estava dizendo outro dia."

"Como assim?"

"Eu não sei... Eu a ouvi conversando com Erestor e eles pararam quando me perceberam ali... Até tentei saber o que era, mas ela não me disse..."

"Sei... Ficou com aquela conversa de que somos muito jovens para nos preocuparmos com esses assuntos etc etc." Queixou-se o mais novo, que já conhecia aquele discurso da mãe de cor e salteado.

Elladan soltou um breve suspiro.

"Não foi isso que ela disse... Ela só falou que era algo que ela e Erestor estavam discutindo, mas que não deviam."

"Como assim?" Voltou a intrigar-se o outro.

Elladan mordeu o canto dos lábios. Por fim jogou as cobertas para o lado e ergueu-se com algumas caretas de dor. Elrohir quis protestar, mas acabou por acompanhar os movimentos do irmão intrigado. O mais velho aproximou-se da cômoda e abriu a gaveta de cima, puxou algumas roupas e por fim retirou debaixo delas um grande livro, trazendo-o de volta para a cama. Elrohir saiu de onde estava, indo sentar-se ao lado dele.

Elladan cruzou as pernas sobre a cama, apoiando o livro sobre elas e Elrohir olhou atentamente o volume.

LEIS DOS ELDAR

O gêmeo torceu os lábios, esfregando os braços em seguida.

"Você leu?" Indagou e Elladan olhou novamente para ele, seus olhos se apertaram e Elrohir percebe que em sua surpresa e apreensão, tinha fechado novamente o canal de comunicação sem ter se apercebido. Ele voltou a concentrar-se e logo a voz do irmão ressurgiu, parecendo um tanto aborrecido dessa vez.

"Precisa facilitar um pouco, Elrohir." Ele disse e soltou um suspiro conformado ao ver o irmão largar os ombros.

"Você leu?" Repetiu o outro.

"Li."

"E o que descobriu?"

"Achei a lei que nos condenou." Disse o mais velho, folheando rapidamente o grande volume.

"Nos condenou..." Repetiu insatisfeito o outro. Sabendo que no fundo o irmão estava certo. A condenação, cujo verdadeiro alvo deveria ter sido apenas ele, de fato atingira todos os membros de sua família, tal qual uma maldição. Ele respirou fundo então, olhando para a página assim que o gêmeo parou sua busca, alisando as folhas do livro.

"É esta. A lei sobre fratricídio..."

Elrohir apertou os lábios juntos e empalideceu, voltando a olhar o irmão nos olhos.

"Eles consideraram fratricídio de fato?"

"Não, Ro. Para ser fratricídio eu teria que ter morrido. Nana disse que não poderiam sequer ter considerado o que você fez como uma tentativa de fratricídio, porque você não tinha a intenção de me machucar ou ameaçar de verdade."

Elrohir baixou os olhos.

"Não tinha mesmo..." Ele disse com tristeza.

"Eu sei..." Elladan disse complacente, depois apoiou a mão no joelho do irmão. "Isso é um atenuante..."

"O que são atenuantes?"

"Erestor me explicou. Ele disse que são detalhes que tornam algo menos grave do que parece. Como por exemplo você ter deixado a espada cair por acidente. Isso é um atenuante, você não queria me ferir. Os livros baseiam a condenação no que Fëanor fez, mas Erestor mesmo concorda que não há relação de semelhança nenhuma... Fëanor ameaçou Fingolfin com a espada... de verdade... Ele achava que o meio irmão o estava traindo, planejando tomar-lhe o poder e o afeto do pai... Mesmo não querendo matá-lo havia maldade em seu ato, porque Fëanor acreditou nas intrigas que lhe disseram sem questionar... sem dar a Fingolfin chance alguma, crédito algum... Nana também concorda... Você não me ameaçou... Nem em sombra... Nós gostamos muito um do outro... Não havia maldade alguma... A... A espada caiu..."

Elrohir sentiu o ar lhe faltar ao perceber a angústia tamanha que temperava as palavras finais do irmão e não pôde deixar de pensar nos tempos difíceis que só Elladan enfrentou e do qual ele, o autor de todo o conflito, foi poupado. Ele baixou os olhos e percebeu que a mão de Elladan estava apoiada justamente por sobre uma das gravuras do livro, um retrato de Fingolfin.

"Eu não tinha a intenção..." Ele disse em um repente, apoiando a mão por sobre a do irmão. "Eu... jamais faria qualquer coisa parecida com o que Fëanor fez... Você é importante pra mim... Eu..."

"Eu sei." Elladan assegurou rapidamente, segurando a mão do irmão. "E outros também sabem... Isso tudo são atenuantes..."

"Mas não nos ajudou muito..."

Elladan baixou os olhos, observando novamente a triste história narrada naquelas páginas por sobre seu colo.

"Erestor me disse que, assim como existem as atenuantes, existem também os agravantes..."

"O que são agravantes?"

"Outras coisas erradas que acompanham a primeira..." Elladan comentou tristemente. "Ele disse que foram os agravantes que te comprometeram. Se você tivesse me ferido por acidente em um treino ou com a espada emprestada de alguém, teria sido menos grave do que da forma que foi..."

Dessa vez Elrohir não comentou. Ele não tinha mais nada a indagar, muito pelo contrário, ele compreendia tudo melhor do que gostaria.

"E o fato de eu não tê-lo deixado chamar o ada logo que o acidente aconteceu também não ajudou muito..." Completou o gêmeo, balançando a cabeça baixa.

"Se eu tivesse te ouvido e não ido adiante com aquela minha maluquice, nós não estaríamos como estamos..." Comentou o mais novo, depois de um breve período de silêncio ao lado do irmão. Ele soltou um suspiro triste e Elladan cobriu-lhe os ombros com o braço direito.

"Ada está certo, Ro... Todos nós erramos. Não foi só você..."

"Claro que não!"

"Claro que sim, Ro. Eu sabia, podia ter feito algo, podia ter contado ao ada."

"Você não fez porque sabia que eu me zangaria."

"Se zangaria como eu me zanguei quando você trouxe o ada para me ajudar, mas se você não tivesse feito isso talvez eu não estivesse aqui. Se eu tivesse tido coragem de ter te contrariado como você teve, se não tivesse ficado com receio de que se zangasse comigo... de perder sua amizade... talvez tudo isso não estivesse acontecendo..."

Elrohir soltou outro suspiro, depois balançou a cabeça com força.

"Isso tudo é culpa minha, só minha... Por mais que me digam que não é. Eu sei que fiz o que não devia. Peguei a espada sem que ninguém soubesse, forjei-a, usei-a sem a autorização de seu dono, escondido de todos... Estava tão afoito que nem pensava direito... Feri você com ela..." Ele soltou as mãos sobre o colo. "Devia ter sido castigado mesmo, não sou de confiança, não poderia nem mesmo ter o direito a voltar a treinar para ser um guerreiro. Eu devia ser castigado... e não o ada..."

Elladan encostou a cabeça no ombro do irmão.

"Cada um tem direito a sua própria opinião a respeito, toron-nín. Você tem a sua, eu a minha, o ada a dele..."

"O que ele te disse?"

"Disse que queria ter feito mais... Ficou muito triste pelo dearada ter te levado, por não ter tido um argumento que o convencesse a não fazê-lo."

Elrohir voltou a balançar a cabeça, agora com menos força.

"Por que ele te trouxe, Ro? Nana disse que ele não vai mais te levar embora. O que você fez para convencê-lo?"

A princípio Elrohir não respondeu, depois um detalhe lhe voltou de súbito à mente.

"Dan! Ia me esquecendo! Como pude me esquecer?" Ele disse afoito, voltando-se para ficar de frente para o irmão.

"Esquecendo do quê?"

"Eu olhei no espelho da dearnana."

"Você o quê?"

"Olhei no espelho da dearnana."

Elladan empalideceu.

"Você não fez isso. Diga que não fez, Ro, por favor!"

"O quê? Não fiz o quê?"

"Você não foi lá quando a dearnana não estava olhando e..."

"Claro que eu não fiz isso, Dan!" Ofendeu-se o outro. Depois se silenciou, lamentando entender o porquê daquela pergunta. "Nunca mais vai confiar em mim para nada, não é?"

"Claro que vou!" Elladan apressou-se em garantir, depois segurou a mão do gêmeo. "Me desculpe, Ro... É que tenho receio..."

"Receio de que eu me meta em mais confusão..."

"É... que você se meta em mais confusão para tentar nos tirar dessa confusão na qual estamos..."

Elrohir torceu as sobrancelhas com o comentário.

"Do que está falando?"

Elladan desviou os olhos para a porta do quarto, como se tentasse ouvir se havia alguém do outro lado dela e Elrohir sentiu que o irmão parecia, assim como ele, desejar que um certo alguém entrasse por ali.

"Eu tive um sonho estranho..." Ele disse então, como quem deixa escapar uma informação sem perceber e Elrohir curvou, intrigado, as sobrancelhas.

"Que sonho?"

A pergunta pareceu despertar Elladan de seu breve devaneio. Ele pressionou os lábios então, baixando incomodado a cabeça.

"Eu não quero falar nisso, Ro."

"Sonhou que eu estava metido em confusão de novo?"

"Eu não quero falar, Ro... é bobagem..." Elladan categorizou, mas sério agora e Elrohir sentiu que seja lá o que fosse, parecia ser uma lembrança bastante triste. O gêmeo mais velho reergueu o olhar então, encarando o irmão. "Disse que olhou no espelho da dearnana?"

"Olhei."

"Por quê?"

"Porque ela me pediu."

Elladan intrigou-se.

"Ada certa vez me disse que jovens como nós não podem fazê-lo."

"É... o dearada não gostou muito quando ficou sabendo... mas a dearnana pareceu não se importar com isso..."

"E por que ela te pediu para olhar?"

"Eu não sei... Ela disse que achava que havia algo de errado com a minha história."

"Que história?"

"A história com a espada."

Elladan intrigou-se mais.

"E você viu alguma coisa?"

"Sim... Eu vi... Mas eu não sei o que foi... só sei que acho que foi por isso que dearada me trouxe de volta."

O primogênito ficou calado por um instante, sentindo os ares daquela informação.

"O que foi que você viu?"

"A Anglachel..." Ele arriscou e ficou analisando a reação do irmão.

"A espada de Eöl? A que foi de Beleg também?"

Elrohir sacudiu então a cabeça, ele parecia ser o único a não se lembrar de tal história. Por que Elladan tinha sempre que ser tão certinho?

"O que tem a Anglachel, Ro? Ela foi enterrada com Túrin Turambar, não foi? Depois que ele fez com que fosse reforjada. Como era mesmo o nome dela?"

"Gurtang – O ferro da morte." O gêmeo lembrou e Elladan surpreendeu-se pelo irmão conseguir fazê-lo. Elrohir nunca fora muito interessado em lendas e histórias do passado.

"O que mais você viu no espelho?" Indagou enfim.

"Vi a espada... desde que saiu das mãos de seu criador e passando pelas mãos de todos os outros donos."

O queixo de Elladan caiu.

"Você o viu?"

"Quem?"

"Beleg, o arco forte de Doriath. Você o viu, Elrohir?"

Elrohir franziu a testa, depois simplesmente balançou a cabeça.

"Dearnana disse que ele foi alguém especial." Disse por fim e Elladan soltou os ombros.

"Muito especial. Pelo menos é o que eu acho... foi por causa da história dele que decidi aprender o manejo do arco também."

"Sério?"

"É... O nome significa "Poderoso". Ele foi chefe dos guardiões das fronteiras de Doriath e um guerreiro muito sábio e corajoso... Lutou contra os orcs de Brethil na primeira era e também na Nirnaeth Arnoediad, a Batalha das Lágrimas Incontáveis."

Elrohir sorriu. Era bom ver o irmão animado assim com alguma coisa.

"Como é usar o arco?" Ele indagou e os cantos dos lábios de Elladan se ergueram em um sorriso que Elrohir não lembrava de ter visto antes.

"É totalmente diferente da espada... Você tem tempo para pensar, observar o que acontece a sua volta... Tem metas. Não precisa de que alguém treine com você. É útil para um monte de coisas."

O gêmeo mais novo continuou sorrindo, ouvindo o relato animado do irmão.

"Me ensina?"

"Claro. Mas acho que você ainda vai preferir a espada. Pelo menos foi o que Glorfindel disse."

"Por quê?"

"Ele disse que você é muito imediatista, que a espada sempre será sua arma principal."

Elrohir torceu os lábios. Ele não era imediatista! Ou era?

"Eu sou imediatista, Dan?"

"Às vezes." Elladan sorriu. "Mas acho que vai gostar do arco mesmo assim. Eu ganhei um de Glorfindel bem maior do que os outros que usava, mas ele me disse que só poderei treinar com ele quando estiver recuperado totalmente."

Elrohir soltou um leve suspiro, reconhecendo o recurso do mentor.

"Ele é um trapaceiro..." Comentou sorrindo. "Adora nos chantagear."

Elladan também esboçou um sorriso terno, dando a entender que a teoria do irmão também lhe passara pela cabeça.

"É... Ele é sim... E sempre consegue o que quer..." Comentou o outro, pensativo e Elrohir sentiu que os olhos do irmão se entristeciam sem um motivo aparente. Elladan estava realmente abatido. O gêmeo mais novo respirou fundo, sentindo-se deveras egoísta. Estivera afastado, mas não apenas do que era bom, como acreditara estar, estivera afastado da tristeza também. Não vira o fruto do mal que semeara. Não vira o pai enclausurar-se no próprio reino que criara, não vira a mãe ser obrigada a assumir o lugar deste na organização da cidade, não vira tantas coisas... Fora poupado dos problemas, mesmo sendo destes causador.

Elladan reergueu os olhos, percebendo-se então observado, ele forçou um sorriso.

"Estou muito feliz por tê-lo de volta, toron." Ele disse e Elrohir também sorriu.

"Como é o arco que ele lhe deu?" Indagou, apenas para manter o irmão falando de algo que parecia agradá-lo.

Os lábios do gêmeo permaneceram erguidos naquele sorriso de paz que apenas ele parecia saber dar, enquanto seus olhos fixavam-se na imagem da qual o irmão queria fazê-lo lembrar-se.

"É um arco de teixo, do mesmo material do Belthronding, o arco de Beleg. Glorfindel pediu que viesse das terras do norte." Ele relatou em tom sereno. "Dei a ele o nome de Cúthalion em homenagem a Beleg."

Elrohir sorriu, sentindo que os detalhes simples daquela experiência do irmão longe dele tinham amenizado um pouco o peso de seu coração.

"Por que você viu a Anglachel, Elrohir?" Elladan lembrou-se então do começo da história e Elrohir ficou pensativo, voltando à mesma questão que estava em seu pensamento desde que saíra do porto.

"Eu não sei... Você conhece bem a história dela?"

"Mais ou menos. Sei que não trouxe muita sorte a qualquer um que a portou e..." Elladan empalideceu novamente. "Acha que a espada pode ser ela?" Ele indagou com urgência e o silêncio do outro fez com que o tom de sua pele decrescesse ainda mais. "Mas como seria possível? Ela foi enterrada com Túrin..."

"A espada com a qual te feri também tinha sido enterrada..." Lembrou o gêmeo com um leve erguer de ombros.

"Espere!" Elladan ergueu a mão, como quem de súbito sente-se indisposto a pensar sobre aquilo. "Não pode ser, Elrohir... Faz tanto tempo e... é tão longe daqui... As terras estão até submersas... Ficou só uma ilha... Ninguém nem vai até lá... Marinheiro algum coloca os pés em Tol Morwen... Como poderia ter vindo parar nas suas mãos? Justamente nas suas, não pode ser..."

"Como assim, justamente nas minhas?"

"Por que você..." Elladan balançou mais uma vez a cabeça.

"Eu o quê?"

"Deixa estar. Estou dizendo bobagens."

"Diga, Dan. Eu já estou encrencado. Seja lá o que for que você acha que pode ajudar..."

"Não acho que teorias podem ajudar em alguma coisa, Elrohir. Eu só sei o que li nos livros e o que o Erestor contou... Você viu e sabe as mesmas coisas que eu."

"Mas não tenho sua visão das coisas, Dan. Anda, fala logo o que está na sua cabeça."

Elladan soltou um suspiro de insatisfação, depois tornou a balançar a cabeça.

"Diga, Dan! Diga logo!"

"Eöl, Thingol, Beleg, Túrin..."

"O que tem eles?"

"Eram pessoas... diferentes..."

"Diferentes como?"

"Eram decididas... do tipo que não..."

"Não o quê?"

"Não costumam ouvir conselhos dos outros, Elrohir. Não aceitam algo que julgam errado, nem mesmo por tradição... Lembra-se do que Erestor disse sobre Eöl? Sobre Thingol? Sobre os outros? É só você se lembrar. Ele eram todos do tipo que prefere sacrificar-se a curvar-se diante do que não é de seu desejo, mesmo que seja coerente, mesmo que seja sensato, mesmo que seja..."

Ele não terminou, nem precisaria, pelo menos era o que diziam os traços no rosto do irmão.

"Acha que a espada chegou propositalmente a minha mão?" Elrohir concluiu confuso. "É só uma espada, Dan! Você fala como se ela tivesse vida própria."

"As armas não ganham nomes a toa, Ro..."

"São armas, Dan. Não fazem nada que seus donos não queiram."

"Você queria que a espada caísse e me ferisse?"

"Não, mas isso foi diferente e..."

Os dois irmãos se olharam por um instante e o rosto de Elrohir foi ganhando ares de consternação e dúvida, até que o gêmeo pôs-se de pé, passando a andar pelo quarto.

"Isso não faz sentido." Ele disse e Elladan não respondeu, sabia que agora o gêmeo ficaria mastigando aquelas idéias que povoavam sua mente até que julgasse o bastante. Elrohir caminhava em círculos, os olhos bailando nos globos, os lábios recitando pensamentos para si mesmo. Ele voltou a fechar-se agora, restando ao irmão a árdua tarefa de aguardar pelo que quer que fosse ser seu próximo passo. Ele parou então bruscamente, depois voltou a olhar o irmão de onde estava. "Quer saber? Isso até que seria bom. Imaginar que alguma arma amaldiçoada me enfeitiçou ou algo assim. Eu estaria totalmente livre da culpa e todo mundo também... Só que... não dá, Dan... Não dá pra acreditar nisso. Eu posso não ser um elfo adulto, mas não sou mais o elfinho que ouvia com olhos arregalados as histórias dos livros da nana... Eu... Eu sou culpado, Dan... Eu sou tão culpado que parece que está escrito na minha testa a palavra CULPADO. Eu me sinto culpado, não adianta... Eu... Eu me sinto muito, mas muito culpado mesmo... Eu... sou a desgraça da família... eu e minha estupidez sem tamanho..."

Elladan pulou da cama então, ao perceber o que aquelas palavras estavam fazendo com o irmão. Elrohir deu as costas e tentou se afastar, mas o gêmeo o abraçou mesmo assim, mantendo os braços à volta dele, ainda que não sentisse retribuição.

Elrohir soltou a cabeça e os braços então, balançando o rosto vagarosamente.

"Eu sou culpado, Dan... Sou culpado... Me desculpe pelo que eu fiz... Me desculpe pelo irmão que você tem..."

Elladan puxou o irmão para olhá-lo então, querendo refazer o vínculo que o gêmeo havia rompido, mas Elrohir, mesmo em frente dele agora, continuou com o rosto voltado para outra direção, evitando o contato.

"Eu... estou cansado, Dan... Vamos dormir..."

Elladan quis argumentar, mas não havia mais como. Elrohir fechara em definitivo o canal pelo qual se comunicavam, limitando-se se afastar e enfiar-se embaixo das cobertas em silêncio. O gêmeo mais velho ainda aguardou mais alguns instantes, mas por fim fez o mesmo, esperando que o dia seguinte trouxesse notícias mais esclarecedoras. Afinal, aquele dia não fora de todo perdido.