Olá. Espero que todos estejam bem.

Temo que a leitura da primeira parte do capítulo seja um pouco custosa, haja vista que estou tentando ainda tecer o pano de fundo do que irá acontecer daqui adiante. Peço desculpas antecipadas se fui detalhista demais.

Queria destacar que algumas idéias e detalhes do capítulo foram baseados no artigo Sobre Túrin Turambar e o Livre Arbítrio de Eric Tracy, postado em 28/01/09 na Dúvendor, embora eu tenha fugido aqui e ali em algumas de suas teorias. Gostaria de agradecer e recomendar a leitura do texto.

Aos amigos, meu muito obrigado pela leitura e apoio. Estou muito agradecida mesmo aos que estão acompanhando. Muito, mas muito obrigada mesmo, pelo apoio, mellyn-nín.

Mil beijos

Sadie


CAPÍTULO VI – BUSCANDO A LUZ

Terei toda aparência de quem falhou, e só eu saberei se a falha foi necessária.

Clarice Lispector


Ao lado da casa maior havia uma pequena escadaria que levava à casa de estudos, uma das bibliotecas do lugar, na qual ficavam os livros mais antigos. Era sobre eles que Erestor se debruçava a maior parte do tempo, passando horas em uma mesa de madeira escura diante da grande janela lateral. Havia no lugar toda sorte de volumes das mais diferentes regiões e épocas, desde encadernações bem acabadas, até modestos pergaminhos, pelos quais o conselheiro parecia ter especial apreço.

Elrohir nunca entendera muito bem a utilidade daquilo que para ele sempre fora apenas papel antigo que lhe fazia coçar o nariz. Aliás, aquilo era uma incógnita. Seu nariz parecia odiar tudo o que para o irmão resumia-se em passatempo e até mesmo diversão. Elladan percorria aquelas estantes e prateleiras sem um espirro sequer, enquanto ele prendia o ar no peito toda vez que tinha que pegar qualquer volume a pedido do mentor.

Bibliotecas... Certa vez as achara divertidas, mas isso fora há muito tempo.

Agora fazia algo que jamais imaginara até aquela data. Ele alçava os degraus que levavam ao lugar por vontade própria, fazendo-o com aquelas recordações de infância a lhe colorirem a mente. Era bom ter uma imagem agradável na qual se apoiar, principalmente quando tudo parecia negro e sem brilho.

Ainda nem bem amanhecera, por isso ele sabia que não encontraria ninguém na casa de estudos, nem mesmo Erestor, que costumava guardar a manhã para leituras em seus aposentos ou no jardim, onde também instruía alguns de seus discípulos, entre eles, muitas vezes, os filhos do lorde de Imladris, pelo menos o mais velho deles.

Elrohir empurrou a porta devagar, satisfeito por encontrar o lugar vazio como esperava. A luz do dia já escapava pelos vitrais trabalhados, acrescentando tons às paredes claras, mas não atingindo os livros, sabiamente guardados fora do alcance de qualquer intempérie. O gêmeo deu alguns passos pelas estantes. Na verdade não sabia bem o que viera fazer ali. Mal conseguira dormir e nos poucos momentos que o fizera sentira seu coração ser tomado por aquela imagem novamente.

Ninguém falara nela desde que ele chegara. Ninguém lhe perguntara onde a escondera, ninguém procurara saber dela.

Por quê?

Aquela era mais uma das inúmeras questões que invadiam e inflavam seu peito agora. E para a qual não sabia ao certo se encontraria qualquer resposta ali, naqueles livros antigos, cujas lombadas seus dedos percorriam devagar, os olhos escorregando por letras de todos os tamanhos, ora brilhantes, ora apagadas pelo tempo. Ele parou na última estante, reconhecendo a caligrafia precisa do último exemplar.

Ser escriba era também uma arte, uma arte que seu pai dominava muito bem.

Elrohir suspirou, passando devagar as pontas dos dedos por sobre as palavras que o pai escrevera naquela capa bem trabalhada. No entanto, ao puxar o exemplar com o desejo de apenas ter nas mãos algo de quem sentia extrema saudade, percebeu que não se tratava de um mero trabalho de reconstrução ou cópia, no qual o pai também gastava boa parte de seus dias. Era uma coletânea sem autoria, o que indicava se tratarem de textos do próprio curador.

CONTOS ANTIGOS – Coletânea de reflexões sobre a história.

Diziam as letras douradas.

Elrohir virou a capa, passando os olhos pelo índice manuscrito, saboreando aquela sensação agradável de ter um dos trabalhos do pai nas mãos. O Lorde de Imladris sempre fora preocupado com a preservação da cultura e da história, tanto do povo Eldar quanto do Edain. Ele temia que o tempo roubasse ou deturpasse a visão da verdade que eles conheciam, por isso dedicava muito de seus dias negociando novas obras e passando a limpo aquelas que o tempo parecia ter atingido antes que pudessem ser socorridas.

Ele amava os livros.

Elrohir suspirou, sentindo-se culpado por precisar ter uma experiência como aquela para poder compreender e respeitar tal afeto. Ele percorreu então o índice da obra com atenção e, por fim, acabou sentindo o coração acelerar-se com um dos títulos:

O destino de Túrin Turambar - maldição, predestinação ou livre-arbítrio?

A princípio Elrohir ficou atônito com a coincidência. Ele foi se agachando devagar, os olhos presos nas manuscritas linhas, até se jogar no chão no qual estava. Favorecido pela ausência de interessados naquele lugar, deixou-se ficar no piso de pedra frio, unindo as letras e idéias daquele artigo escrito há tantos anos, procurando compreender o que sabia ser muito importante. No entanto, mais atônito ainda ficou quando percebeu que o pai, em seu manuscrito, tratava o grande guerreiro como um de seus antepassados.

História estranha. Só agora ele percebia que o pai tinha razão. De certa forma ele e o guerreiro adán eram da mesma família. Túrin Turambar era filho de Húrin Thalion, um dos maiores guerreiros entre os edain da Primeira Era. Húrin era irmão mais velho de Huor, outra figura imponente a ser lembrada. Huor era pai de Tuor Eladar, que foi pai de Eärendil e, conseqüentemente avô de seu pai.

Seu bisavô...

Então seu pai e Túrin Turambar eram primos distantes, de certa forma...

Elrohir parou um minuto, pensando naquele detalhe que lhe escapara. Depois engoliu as sensações estranhas que aquilo lhe despertava e continuou lendo as idéias do artigo, sobre o destino daquele parente a quem o curador citava com respeito e consideração.

Primeiro o pai mencionou o livre-arbítrio. Apresentando uma teoria que evitava atribuir culpa pelo destino de Túrin à maldição que seu pai, Húrin, recebera nas mãos de Morgoth, e tentando buscar outras respostas que provassem que o destino segue o rumo que as pessoas comuns lhe propiciam. Afinal Túrin era um adán, e, segundo algumas interpretações das escrituras, os Edain diferiam de seus irmãos Eldar porque a eles fora atribuído o livre-arbítrio, ou seja, a capacidade de guiar seu destino para onde bem entendessem, escapando assim de qualquer papel maior que pudesse a eles ser atribuído se fosse assim de seu desejo.

Elrohir parou um instante para pensar naquilo, depois baixou os olhos para o trecho que o pai selecionara das escrituras a fim de retratar em que se baseavam tais opiniões.

[...] que os corações dos Homens buscariam para além do mundo e não encontrariam descanso dentro dele; mas eles teriam a virtude de moldar suas vidas, em meio aos poderes e acasos do mundo, além da Música dos Ainur, que é como o destino para todas as outras coisas..." (O Silmarillion)

O gêmeo voltou a desviar seus olhos do papel. Seria aquilo verdade? Teriam os edain tal privilégio? Ou melhor... Seria isso de fato um privilégio?

Ele tombou a cabeça para o lado pensativo, observando as linhas do pai. Foi quando outro detalhe lhe veio à cabeça.

Ele não era um elfo... não ainda...

Mas também não era um adán... não ainda...

Sabia que um dia teria que fazer aquela escolha, mas jamais se preocupara com aquilo, pois havia tempo...

De fato havia tempo...

Elrohir balançou a cabeça, sacudindo aquelas idéias antes de revisá-las. Se aquilo fosse verdade, então o destino dos elfos seria uma linha traçada fora da qual nenhum passo poderia ser dado e cujo final já estaria predestinado, cabendo ao indivíduo apenas deixar-se levar pelas influências e aprender, ou então lutar por toda a existência contra o inevitável para, por fim, deixar-se fazer o papel necessário.

Enquanto isso, para os edain restava sujeitarem-se às intempéries da vida e buscar sobreviver, executando, se desejarem um papel na história ou não.

O gêmeo voltou a sacudir a cabeça, percebendo que aquilo era complicado demais para sua compreensão agora. De qualquer forma, essa teoria roubava uma possível absolvição a Túrin, cujo destino trágico muitos atribuíam à maldição que Morgoth lançou sobre sua família. Se ele tinha tal poder de decisão, como explicava o pai em suas teorias, todos os passos falsos do guerreiro adán teriam sido frutos de sua própria inconseqüência, seu próprio orgulho exacerbado, sua soberba, seu desejo de vingança.

Assim sendo não havia maldição...

Mas... então as palavras duras que Morgoth quando estendeu o braço na direção de Dor-lómin, amaldiçoando Húrin, a esposa Morwen e seus descendentes, entre eles o filho Túrin, resumiram-se a meras palavras sem efeito?

Aquilo podia ser verdade? O jovem elfo esfregou a face esquerda, incomodado com aquela hipótese.

Todos tinham sucumbido... Todos... Até o inocente bebê que Nienor, irmã de Túrin, carregava no ventre quando se atirou para a morte no rio Teiglin...

Elrohir sentiu um arrepio correr-lhe a espinha, que o levou a esfregar ambos os braços para afastar aquela sensação sinistra.

E se assim não fosse? E se houvesse mesmo a maldição efetiva, ou em forma de palavras ou atos pequenos e grandes. E se houvesse maldições poderosas pairando no ar e usando toda espécie de subterfúgio como ferramenta? E se uma delas usasse apenas um subterfúgio... se conseguisse centralizar-se em um objeto qualquer?

Um objeto como... uma espada...

Elrohir cobriu o rosto, esfregando-o com avidez agora. Ele soltou as pontas dos dedos, voltando a olhar por entre elas para as linhas que o pai traçara.

O que seria pior?

Saber-se amaldiçoado ou predestinado e conformar-se...

Ou aceitar que tudo o que se move de negativo a sua volta, dá-se devido a sua própria vontade, a seu livre-arbítrio...

O que seria melhor?

Elrohir esvaziou o peito, sentindo que tal atitude não desacelerava seu coração inquieto. Seus olhos já estavam voltados novamente para as palavras do pai. Sempre ponderadas, sempre conciliadoras...

Se houvesse de fato dois destinos, o dos Eldar e o dos Edain, qual caberia a ele que, ainda na juventude ainda não escolhera que caminho seguir?

Elrohir respirou fundo, sem saber qual seria a melhor resposta, ou se de fato havia uma resposta melhor. Ele repensou as propostas mais uma vez.

Eram duas hipóteses nada acalentadoras. Ele podia ser mesmo o próximo guerreiro ambicioso e inflexível a quem a espada escolhera condenar? Ou apenas guardava os mesmos traços impulsivos de alguns de seus ancestrais e por isso pagava seu preço alto, assim como Húrin, assim como Túrin?

Ele respirou fundo então, percebendo que abandonara as teorias do pai em busca de suas próprias e decidindo voltar às primeiras para ver como o curador concluíra suas divagações.

Elrond na verdade, buscava uma interpretação diversa para a idéia do livre-arbítrio, atribuindo tanto aos homens quanto aos elfos o mesmo direito. A música podia ditar os destinos, mas cabia aos indivíduos, isoladamente ou em grupos, fazê-los valer ou não. Eles não eram meras ferramentas em mãos habilidosas, eles eram peças importantes que podiam ou não estar presentes, tornando assim o girar da engrenagem mais fácil ou mais trabalhoso. Receberiam ajuda, seriam guiados por palavras, visões, acontecimentos. No entanto, ao término de tudo, o que valeria de fato seriam as próprias decisões tomadas e no que estavam estas embasadas.

Elrohir apertou os lábios, compreendendo melhor do que gostaria a opinião do pai. O livre-arbítrio era uma faca de dois gumes. Olhando a história com cautela ele percebia que a todos, em todos os momentos, fora oferecida uma escolha diferente, mas a cada um, individualmente, coubera a decisão final. O fruto dessa decisão, no entanto, pode sim afetar a outros, por isso os sentimentos que as movem devem ser bem analisados.

Elrohir fechou os olhos, vendo-se espelhado dolorosamente nas atitudes impensadas de Túrin. Apesar de Morgoth ter usado de suas ferramentas, o jovem adán mais de uma vez fez uso de seu direito à escolha de forma impulsiva, usando os temperos do orgulho e da ira, para optar, por si mesmo, pelo caminho pelo qual Morgoth desejava conduzi-lo. Ele custava a oferecer compaixão, ignorava a idéia do remorso, abominava a expressão 'voltar atrás'. Tais características fizeram dele inegavelmente um guerreiro temido e valoroso, mas também selaram seu destino com a mais escura das tintas.

Livre-arbítrio, sacrifício, amor, perdão, busca, escolha...

Orgulho, ódio, sedução, crueldade, destruição, maldição...

Eram palavras demais. Eram perguntas demais. Eram respostas demais. Como unir as que se irmanavam? Ele pensou, erguendo-se forçosamente em um dos joelhos para recolocar o livro do pai na estante, foi quando viu que ao lado deste estava outro que deveria interessá-lo ainda mais...

OS FILHOS DE HÚRIN

Elrohir estremeceu, e a palavra coincidência veio em seu socorro, mas permaneceu pouco tempo aquietando-lhe o coração, pois logo ele estava novamente no chão, com outro livro nas mãos, cuja página, aberta a esmo, continha um dos parágrafos mais tristes que ele já lera.

Beleg e Gwindor cortaram os laços que prendiam Túrin, pegaram-lhe e levaram-no para fora do vale. Não conseguiram levá-lo muito longe, mas deitaram-no junto a um maciço de árvores, enquanto uma tempestade se aproximava. Beleg desembainhou a sua espada Anglachel e com ela quebrou as correntes que prendiam Túrin; mas a lâmina resvalou e picou-lhe um pé. Túrin despertou bruscamente e num grande medo, e ao ver alguém inclinado sobre ele de espada desembainhada julgou que fossem orcs; e atirou-se ao vulto, na escuridão, apoderou-se da espada e com ela matou Beleg, tomando-o por um inimigo. Mas brilhou sobre eles um grande relâmpago e Túrin ficou como que transformado em pedra, ao ver a morte horrível de Beleg e tomando consciência do que fizera.

Elrohir fechou com força os olhos agora, como se houvesse sido golpeado...

Por pouquíssimos instantes havia conseguido esquecer-se dela...

Agora ela voltava a assombrá-lo. A imagem daquela espada, a espada proibida, ainda estava em seu coração, gritando por mais um momento em suas mãos. Elbereth, era a mais bela arma que já vira. Mais bela do que qualquer outra, até mesmo as de Glorfindel. Como podia ainda gostar dela assim? Seria porque a arma reconquistara vida através de sua força, de seu empenho?

Não, Elrohir! Não! Gritava-lhe uma voz dentro de si. Beleg era um guerreiro digno e justo, por isso a espada chorara por sua morte, conforme dizia a mesma obra um pouco além. Com a arma nas mãos o arqueiro jamais cometera qualquer injustiça, no entanto apenas portá-la já pareceu selar-lhe um destino cruel. Apenas portá-la...

O gêmeo soltou então o livro por sobre o colo, cobrindo o rosto em extrema agonia. Maldita hora, maldito momento em que pusera as mãos no que não lhe pertencia. Maldito destino que selara para si e o qual palavra alguma parecia agora auxiliá-lo a evitar.

Não... Ele não podia ainda estar se sentindo ligado a ela. Preso àquela...

Maldição...

"A verdade dos livros está vinculada à interpretação que damos a ela." Ele ouviu então uma voz dizer e reergueu a cabeça em direção dela. Mesmo sabendo a quem pertencia, seu coração não estava conseguindo ainda acreditar.

Em pé no final do corredor, estava um vulto escuro que ele conhecia bem. Elrohir estremeceu, fechando o livro e erguendo-se devagar. A imagem não se moveu. O jovem elfo deu alguns passos, com o peito repleto de um misto de medo e emoção.

Ele podia se afastar, voltar a desaparecer... Não o vira desde que chegara... Não podia vê-lo, podia? Podia tocar nele? E se pudesse, ele desejaria o mesmo?

Estava agora a poucos passos dele, o rosto surgindo devagar com a claridade exposta. O mesmo ar sereno, embora um pouco abatido. Elrohir parou a dois passos e estremeceu, queria ir adiante, mas não conseguia... Queria abraçá-lo... Queria... Queria que ele o perdoasse.

"Ada..." Ele disse mentalmente, apenas para sentir o gosto da palavra que não podia dizer e, como se tivesse podido ouvir, o vulto do pai se moveu pela primeira vez, fazendo o jovem elfo voltar a estremecer de apreensão. Mas o curador não se afastou, como o filho temia, ele aproximou-se a passos lentos, silenciosos como a brisa, e Elrohir sentiu que seu coração ia sair pela boca quando o percebeu olhando-o fixamente.

Havia consternação naquele olhar... Havia aquela mesma preocupação que ele conhecia muito bem e que, pela primeira vez, sentia um grande alívio por estar lá, no rosto do pai.

Ele se importava... Ele ainda se importava...

Elrond inclinou-se levemente e pousou a mão por sobre o peito do filho, cauteloso. No entanto, não fez nela qualquer pressão, como se estivesse em um ato delicado, quase proibido.

"Esvazie seu coração de suas dores e arrependimentos, criança minha." Ele disse em tom baixo agora, próximo a um sussurro. "Deixe que apenas o que é bom preencha seu peito agora. Este é o caminho de volta. Você está nele... Continue assim."

Elrohir desprendeu os lábios para responder, mas ainda assim não conseguia deixar que as palavras rompessem seu voto, nem naquele instante. Algumas lágrimas quiseram escorrer por seus olhos, mas ele as conteve. Já envergonhara o pai, não choraria agora diante dele, não em um momento como aquele, não com o que ele o estava fazendo passar. Ele fechou os olhos e mordeu o canto dos lábios, a fim de mandar outra distração para o cérebro, algo que o tirasse daquele desejo quase incontrolável de se jogar nos braços que tinha diante de si.

Uma mão pousou sob seu queixo, fazendo-o levantar rosto então e ele reergueu as pálpebras para encontrar novamente os olhos do pai. O curador puxou-o devagar, envolvendo-o com o cuidado de quem embala uma porcelana fina e deixando-o encostar a cabeça em seu peito por algum tempo. Elrohir julgou estar sonhando, por isso fechou os olhos e permitiu que aquele sonho ganhasse asas, enquanto sentia o pai acariciar brandamente suas costas, resgatando-o das incertezas como sempre soubera fazer, ajudando-o a sentir-se como ele tanto ansiava sentir-se: perdoado... e protegido novamente, como um pássaro em seu ninho.

Quando enfim desprendeu-se, a contra gosto dos braços dele, sabia como nunca soubera antes, o quão real fora tudo aquilo pelo qual passara e fizera sua família passar também. No entanto, algo em seu peito se deslocava, movido pela certeza que o olhar do pai lhe remetia. A de que, apesar de tudo, eles ainda o amavam e não o amavam pouco.

Elrond pareceu perceber, por isso beijou a testa do filho, dando-lhe um tapinha carinhoso na face esquerda e afastando-se sem mais nada dizer.

Elrohir observou aquela rápida saída estratégica com uma ponta de tristeza. Sabia o que o pai queria esconder agora. Havia muita dor em Arda, por isso os curadores tinham tão pouco espaço para as suas próprias.

&&&

Quando Erestor entrou na biblioteca o sol já estava alcançando o topo de um céu não tão azul quanto fora o da véspera. Ele caminhou a passos lentos, a mente já distraída com um livro que tinha nas mãos, por isso demorou algum tempo para perceber o jovem elfo que estava sentado no chão frio de um dos corredores.

"Elladan?" Ele estranhou ver o rapaz ali, sem qualquer livro nas mãos, mas quando este lhe direcionou o primeiro olhar ele logo percebeu o engano, por mais improvável que parecesse. "Elrohir? É você?"

O gêmeo não respondeu, ele apenas voltou a baixar o rosto, parecendo insatisfeito com algo que o conselheiro não conseguiu classificar. Ele aproximou-se um pouco mais, dobrando os joelhos diante do pupilo.

"Elrohir?" Ele ainda buscou uma última confirmação e quando o gêmeo reergueu um olhar mais escurecido ainda, o mentor recebeu sua resposta. "Não pode me culpar, menino." Defendeu-se em seu tom ameno e sorriso sutil. "Você e seu irmão são idênticos e não é a sua figura que costumo ver aqui." Completou, apoiando com cuidado a mão por sobre o ombro do rapaz. "Embora deva admitir o quão satisfeito estou em vê-lo, rapazinho. Senti falta de suas reclamações."

O pequeno comentário ergueu os cantos dos lábios do gêmeo, cujos olhos haviam voltado a fixarem-se no chão abaixo de si. Ele deixou-se ficar assim, em silêncio, sentindo um prazer inesperado por não estar mais sozinho. Erestor era a alma daquele lugar, que simplesmente parecia sem vida quando o conselheiro estava ausente. Não custou muito para o jovem elfo sentir a mão do mentor apertar novamente seu ombro e ter que reencontrar o agora preocupado olhar deste.

"Por que está aqui, menino? Está se escondendo de alguém?"

Elrohir ainda o olhou mais um tempo, depois balançou a cabeça negativamente.

"Buscava algum livro então?" Tentou o mentor, embora julgasse já saber a resposta àquela pergunta em particular. No entanto, um aceno positivo o fez surpreender-se. "É fato? Encontrou o que buscava?"

Elrohir não respondeu de imediato, mas depois puxou um volume que deixara atrás de si. Erestor franziu os olhos ao ler o título, depois encheu os pulmões, incomodado.

"Penso que seu irmão tem um idêntico no quarto. Não é fato? Pediu-me um volume das Leis dos Eldar e o livro ainda não regressou para as minhas prateleiras. Pretende levar este também? Não tenho muitas cópias." Ele comentou, mas dessa vez o gêmeo não respondeu, ele apenas ficou olhando para as letras trabalhadas da capa do volume, pensativo. Erestor aguardou um instante, depois soltou os ombros. "Pelo menos encontrou nele o que buscava? Ou ainda lhe restam dúvidas?"

Os dedos do gêmeo apertaram ligeiramente o antigo livro que seguravam e isso intrigou o conselheiro.

"Parece agoniado, menino." Ele observou, acariciando o ombro do jovem elfo com cuidado. "Talvez essa não seja uma leitura apropriada para você no momento. Não creio que algo nessas páginas possam amenizar sua dor."

O silêncio de Elrohir despertou no conselheiro uma sensação desagradável que ele não conseguia traduzir. Erestor conhecia o pupilo e seus rompantes, seus repentes, suas atitudes impensadas. O que estaria por trás daqueles olhos ansiosos e escuros?

"Pelo que vejo ainda cumpre o voto de silêncio que fez com seu irmão." Ele observou agora, apenas para tentar tirar uma reação diferente daquele rosto. "Não acham que já se calaram o bastante? Agora que estão novamente juntos deveriam voltar a se comunicar plenamente. Esse empecilho complica a aprendizagem de vocês."

Elrohir não reagiu, seu olhar parecia distante, como se uma série de pensamentos estivesse inundando-lhe a cabeça. Uma série de pensamentos que Erestor desconhecia e cujo desconhecimento continuava a incomodá-lo tremendamente. Ele esperou mais um tempo, depois se ergueu e ofereceu a mão para o pupilo.

"Venha cá, Elrohir. Vou lhe mostrar como eu e seu irmão superamos essa barreira nessas duas estações."

O gêmeo hesitou, depois aceitou a proposta, tomando a mão do mentor e acompanhando-o até a grande mesa de estudos. O conselheiro o fez sentar-se na cadeira habitual, enquanto ele tomava a própria, então lhe estendeu uma pequena lousa e um pedaço de calcário. O quadro era uma lâmina de ardósia não muito grossa, cujo tamanho era o bastante para umas poucas palavras.

"Vamos lá." Erestor sorriu, encostando-se na cadeira e cruzando as mãos por sobre o colo. "Sobre o que vamos conversar?"

A princípio Elrohir ficou parado. Ele olhou para a pedra, para o pequeno giz que tinha na mão esquerda e depois para o mestre. Por fim soltou um suspiro triste e pôs-se a arranhar algumas palavras naquela superfície escura. Erestor aguardou, disfarçando a ansiedade como podia. Em pouco tempo o jovem elfo erguia a pedra para que o professor a lesse.

"O que aconteceria se meu pai não tivesse feito o que fez?"

Erestor surpreendeu-se com o questionamento. Ele ficou com os lábios entreabertos por um tempo, depois respondeu.

"Você sabe o que teria acontecido, menino. Seu avô lhe disse na ocasião."

Elrohir acompanhou a resposta atentamente. Depois seus olhos dançaram nas órbitas por um tempo, antes dele apanhar um pano e apagar o que havia escrito para voltar a fazê-lo.

"Então eles podem me castigar? Mesmo eu não sendo adulto?"

Erestor torceu os lábios, pensativo, amargando a conclusão mais óbvia que podia ter. Elrohir já havia lido o bastante e suas questões eram apenas formalidade, formalidade esta que fazia delas perguntas bastante perigosas.

"Seu pai não permitirá isso. Você sabe. Por isso ele fez o que fez, Elrohir"

Dessa vez Elrohir nem sequer olhou para o mentor. Enquanto ouvia o final da explicação já voltava a apagar com rapidez as palavras que fizera.

"E se eu não quiser?"

"Não quiser o que, rapaz?"

"...que ele me ajude." Elrohir completou a pergunta.

Erestor ponderou aquela questão. Não entendia plenamente aonde o jovem elfo queria chegar, mas se sentia caindo em uma armadilha, por isso precisava ponderar bem as palavras que diria. Era um professor, e como tal sabia que não deveria faltar com a verdade.

"Quer saber se pode tomar a culpa para si e libertar seu pai da condenação?" Erestor traduziu, como apenas ele sabia fazer, as intenções do gêmeo, e Elrohir empalideceu com a sinceridade e objetividade absoluta do mestre. Algo que tanto ele quanto Elladan sempre gostaram no conselheiro era aquilo. Ele os tratava como adultos, tinha conversas com eles de igual para igual, invadindo assuntos proibidos, discutindo qualquer questão que surgisse, usando de integral sinceridade. Elrohir respirou fundo, assentindo então com a cabeça.

Erestor silenciou-se por um tempo, o olhar atento analisando o rosto do pupilo em busca dos perigos daquela resposta. Por fim soltou o ar em um suspiro forçado e respondeu.

"Diante do conselho da cidade, o mesmo que condenou seu pai, você pode fazê-lo. Não tem idade para certas responsabilidades, mas a infância está a suas costas e o conselho sabe disso. Seu ato atestou-lhe uma maturidade antecipada que impressionou a muitos." Ele respondeu, mesmo sentindo os perigos que sua resposta poderia ocasionar. Agora teria que acompanhar com atenção os próximos questionamentos do rapaz. Sabia como agir com ele. As negativas enfáticas jamais foram freio para o decidido Elrohir. Ele teria que convencê-lo de uma outra forma.

O gêmeo empalideceu então e seu olhar ganhou uma seriedade absoluta. No entanto, para a surpresa do mentor. Ele não fez mais qualquer questionamento, muito pelo contrário, o jovem elfo ergueu-se e teria saído se não tivesse sido segurado pelo braço.

"Elrohir. Sabe que não pode fazê-lo."

O jovem elfo ergueu então o queixo como quem indaga o porquê.

"Não pode desprezar o que seu pai fez por você, aceitando algo do qual ele lhe vem protegendo todos esses meses."

Elrohir puxou o braço então, parecendo irritado. Ele apanhou novamente a lousa, rabiscando nela rapidamente.

"Quero libertá-lo."

"Ele não quer ser liberto dessa forma, menino! A liberdade só lhe valerá se vocês todos o acompanharem. Se fizer o que pretende só vai acentuar-lhe o sofrimento. Eles o encaminharão para terras distantes e..." Erestor parou sua explicação ao perceber que o jovem elfo desviava novamente a atenção para o trabalho de apagar agora com o próprio punho o texto que escrevera e voltar a lançar palavras por sobre aquele quadro negro.

"Tenho que ir para onde eles querem?"

Erestor soltou os lábios para responder, mas depois franziu as sobrancelhas.

"Não vai a lugar algum, menino. Quer partir o coração de sua família?"

Elrohir bufou, sacudindo o quadro que tinha nas mãos como se enfatizasse a pergunta que fizera e Erestor franziu a testa em igual indignação.

"Não pode morar em qualquer reino élfico. Para onde irá? Tampouco pode ir para o norte, pois os edain de lá são seus parentes distantes também."

Elrohir deu de ombros, em seguida jogou a pedra por sobre a mesa e foi se afastando.

"Você não aprende uma lição nem quando ela custa a felicidade de toda a sua família, não é mesmo, Elrohir?" Erestor disse então, e suas palavras foram tão fortes e inesperadas que o jovem elfo não só parou em seu trajeto, como também apoiou a mão por sobre uma das cadeiras do lugar. "Não pode fugir. Se o fizer a dor aqui não deixará de existir. Muito pelo contrário. Ela será intensificada. Não vê como está seu irmão com sua mera ausência? Como acha que ele ficará quando souber que você se foi para sempre e para uma terra sem qualquer segurança? Com certeza irá preferir que você o tivesse transpassado de vez com a espada reforjada, teria sido mais piedoso de sua parte."

Elrohir voltou-se rapidamente então e em seus olhos havia tanta ira que Erestor julgou que o jovem elfo fosse avançar sobre ele. O conselheiro ergueu-se de onde estava, aproximando-se com cautela do discípulo.

"Seja digno, Elrohir. É o que sua família espera de você. É o que todos nós esperamos. Aceite seu destino, aceite a dor de seus familiares e aprenda sua lição. Pelo menos todo esse pesadelo vai ter algum propósito."

&&&

"Foi o que disse a ele?" Glorfindel indagou inconformado.

"E o que esperava que eu lhe dissesse?" Defendeu-se o conselheiro, sentado em sua cadeira atrás da grande mesa maciça. "Esqueceu-se do que Elrohir é capaz? Preciso lembrá-lo? Suas virtudes inestimáveis são capazes de se converterem nos mais perigosos defeitos. Eu não duvido que ele fizesse o que intentava em suas palavras escritas."

"E por isso o fez lembrar de quantos problemas o pobre já causou? O que tem aí dentro do peito no lugar do coração? Por isso não o vi pelo resto da tarde."

Erestor rolou os olhos.

"Tive êxito pelo menos. Ele não terá coragem de fazer o que intentava. Mesmo porque você os trata de forma mais dura em seu campo de treinos, duvido que tivesse feito diferente em meu lugar." Ele se defendeu sem muito empenho. Não estava disposto a uma discussão como aquela.

Glorfindel ia objetar, mas sua resposta foi adiada pelo som de passos na escada. Ele e o conselheiro estavam na biblioteca à espera de um terceiro membro para aquele encontro. A figura aguardada surgiu então na porta, parando por sob o batente e aguardando.

"Entre, Elrond. Por favor." Erestor foi quem convidou, mas o curador permaneceu onde estava.

"Devo lembrá-los de que não posso participar de reuniões em lugares fechados." Ele comentou paciente. "O que desejam comigo, mellyn-nín?"

Glorfindel estalou a língua impaciente. Leis tolas. Como podiam aplicá-las daquela forma, sem qualquer adaptação?

"Já é noite, Elrond." Ele lembrou insatisfeito. "Independente do lugar onde estivermos, daremos margem a comentários de qualquer forma."

O curador baixou os olhos, mas não se moveu. Depois de um mero instante de silêncio, apoiou simplesmente a mão no batente e lá ficou sem dar mais nenhum passo. Os dois amigos sentados se entreolharam e espelharam um ar conformado. Conheciam Elrond bem o bastante para saber que não infringiria regra alguma, por mais tola que fosse.

"Elrohir esteve aqui." Adiantou-se então o conselheiro, percebendo como se daria aquela conversa.

"Eu o encontrei em minha visita matinal." Elrond respondeu com simplicidade, julgando que aquele era apenas um mero comentário do amigo para que iniciassem a conversa. No entanto, ao perceber os dois outros elfos se entreolharem preocupados, sentiu que havia mais do que casualidade naquela informação. "Ele fez algo de errado?"

"Olhava livros." Erestor informou.

"Sim. Foi o que o vi fazer."

"Sabe que seu filho não lê nada a não ser que seja obrigado." Comentou o conselheiro naquele tom de alguém que não quer ir adiante e as sobrancelhas do curador fizeram aquele movimento que também lhe era característico.

"Diga-me o que se passa, Erestor." Ele foi direto então. "Elrohir nem bem chegou e já está povoando suas preocupações, mellon-nín?"

"Não só as minhas." Rebateu o conselheiro, olhando o amigo com paciência. "Conhece seu filho. Todos sabemos porque Celeborn o levou daqui."

O olhar de Elrond tornou a deslizar pelos ladrilhos escurecidos que tinha diante de si.

"Ele não vai se conformar com a situação na qual você está, Elrond. Vamos falar com o conselho novamente."

O curador soltou a cabeça de lado, como quem ouve uma história pela enésima vez, depois passou a esfregar a têmpora direita com o indicador.

"Falar com o conselho sobre o quê?" Ele indagou em um tom tão baixo que parecia fazer aquela pergunta para si mesmo. "Quantas reuniões já foram feitas desde o acontecido?"

Erestor e Glorfindel se entreolharam. Tais reuniões foram de fato mais freqüentes e improdutivas do que qualquer um deles desejara. Por vezes um dos dois ou mesmo Celebrian dispusera-se a discutir com o conselho a situação, a buscar uma solução para o impasse no qual estavam.

"Eles estão embasados na lei." Elrond virou-se para o horizonte atrás dele e seus olhos se perderam nas poucas estrelas que já apontavam naquele fim de tarde. "Não podemos culpá-los e acho que só conseguiremos alguma paz quando, por fim, procurarmos seguir os caminhos que nos foram propostos."

Outro som de total desaprovação preencheu o ar, seguido do barulho de Glorfindel, erguendo-se e arrastando para trás a cadeira na qual estava.

"Desta vez será diferente. Temos a teoria de Celeborn sobre a espada."

Elrond soltou um suspiro breve, pondo-se de costas agora, ainda por sob o batente. Seu corpo resumia-se a um mero vulto coroado pelo luar. Ele tinha ombros rígidos e parecia olhar para um horizonte inatingível.

"Eles te darão crédito." Erestor tomou a palavra. "Você é o criador de tudo o que temos aqui. Eles só estão esperando por uma história que os convença de fato. Querem ser convencidos. Estão tão insatisfeitos quanto nós."

Elrond baixou a cabeça, sacudindo-a brandamente.

"Não sou o criador de nada." Ele disse. "Não quero estar em qualquer posição de privilégio. Saberei viver dessa forma como soube enfrentar outros empecilhos no passado." Completou, erguendo então o rosto e voltando-o rapidamente para os dois elfos que estavam dentro do cômodo. "Tenho que ir agora."

"Podemos conseguir provas ao invés de favores." Propôs Glorfindel então, antes que Elrond tomasse o primeiro degrau. "Farei o caminho da antiga Dor-Lómin, das terras submersas, até a Tol Morwen, e conseguirei as informações."

"Quais informações, Glorfindel?" O curador virou-se em um movimento vagaroso, mas seu olhar já se escurecia com as sensações que aquela conversa lhe despertava.

"Você sabe quais."

Elrond retomou sua posição por sobre o batente. Ele ainda olhou os dois amigos por um instante, antes de voltar-se para o guerreiro louro.

"Mellon-nín," Disse ainda em tom paciente. "Ouve o que diz? Para conseguir tais informações, ou melhor, a única informação que realmente nos interessaria, teria que fazer mais do que pisar em um lugar tão sagrado que até o próprio Ulmo resolveu poupar. Teria que fazer mais do que chegar ao túmulo de Túrin Turambar. Teria que violá-lo."

"É por uma boa causa."

"É proibido."

"É por uma boa causa, Elrond." Glorfindel reforçou o tom de sua voz. "Se a espada estiver enterrada junto com o corpo do herói morto, teremos mais uma teoria a abandonar, mas, se não estiver, isso será a prova da qual precisamos."

"Elrohir também julgava que o que fazia era por uma boa causa, Glorfindel. As leis não foram feitas para serem discutidas, mas sim obedecidas."

Glorfindel bufou de insatisfação.

"Não vou aceitar que me julgue insensato como uma criança, Elrond."

"Há insensatez no que me diz." Elrond não se intimidou.

"Insensatez em tentar provar a inocência de seu filho?"

Elrond soltou o ar do peito, fechando brevemente os olhos. Glorfindel aproximou-se então.

"Sabe que sou grato por sua boa intenção, mellon." Disse o curador, ainda de olhos fechados. Depois os reabriu, oferecendo um olhar preocupado ao amigo louro. "Entretanto, não é sensato semear esse tipo de esperança, embasada em riscos e outras contravenções."

Glorfindel voltou a indignar-se.

"Então o que seria sensato, Elrond? Deixar que os seus assistam ao sacrifício tolo que está fazendo?" Ele indagou contundente. "Tudo o que vejo é infelicidade e mais infelicidade a ser semeada. O que você de fato está lucrando com essa barbaridade, se sua família é incapaz de um sorriso sincero desde que tudo isso começou?"

Elrond empalideceu e Glorfindel arrependeu-se de sua sinceridade absoluta em tempo recorde. Ele soltou os lábios para tentar buscar outras palavras menos ásperas do que aquelas, mas foi contido pela palma erguida do curador. Elrond olhou-o nos olhos, depois apoiou a mão que erguera no peito do guerreiro em um sinal totalmente contrário do que Glorfindel julgava que ele desejava expressar. O curador a bateu duas vezes no peito do amigo, mas seus olhos fugidios tinham uma mensagem bem menos conciliadora. Por fim fez um breve aceno de despedida e saiu.

&&&

E aquela noite se foi, bem como o dia que a seguiu, sem que qualquer um dos envolvidos naquele triste evento pudesse de fato esquecer as palavras que foram ditas. Um outro dia tornou a amanhecer irrepreensível, correndo em suas horas tristes e preenchendo o céu com nuvens cada vez mais pesadas, até que uma nova tarde caiu escurecida antes do tempo e o guerreiro da antiga Gondolin reencontrou o amigo conselheiro na mesma biblioteca.

"Não deveria estar no campo de treinos?" Erestor indagou intrigado, vendo o elfo louro jogar-se na cadeira diante da mesa. "As nuvens carregadas o espantaram?"

Glorfindel deu de ombros, ignorando a provocação.

"Não há muito que fazer. Os pequenos já foram. Elrohir foi o último a sair."

"Como ele está?"

"Calado."

Erestor soltou um riso amargo.

"Diga algo que não sei."

"Calado de fato. Impenetrável."

"Como assim?"

"Mal olhou para mim. Passou o dia repetindo as mesmas manobras. Na verdade, parecia não me querer por perto, pois atendia todas as instruções sem pestanejar e nem mesmo reagia às provocações que fazia."

"Pois veja só. O treino do cais parece ao menos lhe ter dado alguma disciplina."

"É..." Glorfindel olhou a janela, pensativo. Havia de fato nuvens escuras demais naquele entardecer. "Devo admitir que está irreconhecível com a espada na mão, bastante concentrado, mas bem menos arrojado do que outrora. Mesmo assim venceu todos os pequenos confrontos com os adversários, inclusive um trabalhoso desafio com Beinion, mais velho que ele, inclusive, e um dos melhores entre os meus. O que terão feito com ele lá?"

"Cautela é um bom aprendizado."

"É..." Concordou novamente o outro, sem muito empenho.

"Bem, pelo menos está com a mente ocupada com algo melhor do que as idéias insanas que estava pregando ontem."

Aquela lembrança fez Glorfindel esfregar o rosto com ambas as mãos. Não encontrara com Elrond desde a véspera, precisava procurá-lo o quanto antes. Jamais haviam se desentendido em momentos até piores, por isso ele sabia que o curador não guardava mágoa alguma da sinceridade que ouvira, no entanto sentia que devia ao amigo um pedido de desculpas.

"E Elladan?" A voz de Erestor o despertou.

"Encontrei-o pela manhã, depois não mais o vi. Idhrenniel não o liberou ainda para participar dos treinos de espada e não quis praticar o arco hoje."

"Não ficou nem para assistir ao treino do irmão?"

"Não. Talvez esteja um tanto chateado por não poder treinar, agora que Elrohir está de volta ao campo."

"Talvez... O que terá feito o dia todo?"

"Deu-me a entender que estaria aqui ou com Lady Idhrenniel."

"Aqui não esteve. Terá enfim aceito a proposta da curadora e decidido estudar com ela ao invés do pai?"

Glorfindel jogou a cabeça de lado. Aquela parecia ser uma hipótese na qual era difícil acreditar. No entanto, depois do que vira no campo de treino naquele dia, assistindo ao sempre avesso e irritado gêmeo mais novo portar-se com uma cautela e atenção que nunca tivera, podia acreditar em qualquer reação estranha que aqueles dois irmãos tivessem.

"O jeito é ficar de olho neles. Não custa nada."

&&&

Celebrian também passara o dia intrigada, e mais intrigada ainda ficou quando entrou no quarto e, pela segunda noite seguida, encontrou o filho mais velho sozinho.

"Seu irmão ainda não veio dormir, El-nín?"

Elladan, que já estava deitado na própria cama, limitou-se a mover negativamente a cabeça. Ele parecia tão distante e entristecido quanto estivera na véspera, porém, ao ver Lady Idhrenniel acompanhar a mãe, inquietou-se.

"Brigaram?" Celebrian indagou, sentando-se ao lado do filho, sem perceber-lhe a súbita palidez. "Ele não estava à mesa nem no almoço, nem no jantar..."

O gêmeo voltou a balançar a cabeça e a mãe franziu a testa, olhando preocupada para a cama vazia do filho caçula. Ontem nem pudera desejar-lhe boa noite, pois quando regressara ao quarto, ambos já estavam dormindo, completamente embrulhados em suas mantas.

"Levou a comida para ele no campo de treinos como me prometeu?" Ela indagou, ainda pensativa. Depois voltou a olhar o mais velho, cujo rosto baixo respondeu com um breve aceno positivo. "Por que será que não quis estar à mesa conosco em nenhuma das refeições, ion-nín? Você sabe?"

Elladan pressionou os lábios e seus ombros enrijeceram. Sua reação surpreendeu um pouco a mãe, mas depois Celebrian pensou ter encontrado a resposta para aquela pergunta.

"Ele não quer estar à mesa sem seu pai, é isso?" Ela arriscou, e o rápido consentimento do filho dessa vez soou-lhe como uma resposta estranhamente pouco convincente. A elfa voltou a olhar para a cama do caçula, confusa agora. Algo a estava perturbando e não estava conseguindo descobrir o que seria.

Celebrian ainda girou os olhos pelo quarto mais algumas vezes, como se buscasse algo sem nem mesmo saber o que seria. Por fim respirou fundo, voltando-se ao primogênito. Só então se apercebeu de algo que até então lhe havia escapado.

"Parece cansado, ion-nín." Observou, descendo os dedos pelo rosto do filho. "Glorfindel me disse que não quis treinar com seu arco hoje. Com o que ocupou seu dia?"

Dessa vez Elladan deu de ombros, sem sequer olhar para a mãe e dando a entender que não dedicara seu tempo a nada muito importante. Celebrian ficou encarando-o por mais um tempo, depois, ao lembrar-se da presença de Idhrenniel no quarto, apercebeu-se de sua indelicadeza. A curadora esperava em gentil silêncio.

"Desculpe-me Idhrenniel." A senhora da casa sorriu constrangida, pondo-se agora a desfazer os laços da túnica do filho. Para sua surpresa, no entanto, o primogênito repetiu uma reação que já há algumas noites não tinha. Ele passou os braços à volta do corpo em um instinto, impedindo-a de continuar o que viera fazer.

"Ai, ion-nín." Objetou a elfa, impaciente agora, enquanto tentava em vão prosseguir o trabalho. "Sem manhas, está bem? Já superamos isso e você sabe que Idhrenniel está aqui hoje só por precaução. Ela já esperou mais do que seria necessário. Mesmo porque seu ferimento está dispensando medicação." Lembrou, mas surpreendeu-se ao ver que, desta vez, o filho não cederia. "Vamos, Elladan! Não me faça uma cena assim. Você não é mais um elfinho."

O gêmeo não respondeu, mas também não descruzou os braços que usava para proteger-se, mesmo diante do tom agora bastante insatisfeito da mãe.

Idhrenniel aproximou-se então, observando o jovem elfo com atenção.

"Deixe-o, minha senhora." Ela aconselhou em tom conciliador. "Ontem estava bastante bem. O estado do corte só vem melhorando nos últimos dias, não é mesmo Elladan?"

O gêmeo olhou-a rapidamente, tornando a baixar o rosto em seguida. Seu breve aceno positivo de resposta, no entanto, trouxe à experiente curadora uma estranha inquietação. Ela aproximou-se, sentando-se também na cama do rapaz.

"Elladan. Diga-me a verdade e dar-te-ei a paz que deseja para essa noite." Ela pediu com sutileza e calma. "Seu ferimento o está incomodando? Sente-o diferente de ontem?"

Elladan respirou fundo antes de balançar a cabeça negativamente desta vez. Porém, o tempo mais longo do que o habitual para a resposta fez com que as duas elfas se entreolhassem. Celebrian encurvou as douradas sobrancelhas, em seguida pôs-se a desatar os laços da túnica do filho, mesmo com a visível objeção deste. A Idhrenniel não restou alternativa que não ajudar à senhora da casa.

&&&

Quando Elrond entrou no quarto surpreendeu-se por ver o filho mais velho em pé em um dos cantos do lugar. Elladan arredondou rapidamente os olhos ao vê-lo, virando-se de lado diante da pequena cômoda e do espelho e fechando os olhos.

Aquela imagem...

Elrond sentiu um aperto em seu peito. Já vivenciara uma cena daquelas e não gostara nem um pouco da sensação nem do que viera depois dela. Ele voltou-se então para Idhrenniel que o encarava com ares de preocupação.

"Parece que o ferimento de Elladan o está incomodando novamente, Lorde Elrond." Ela adiantou-se, seus olhos sempre fixos na figura do paciente, mesmo sem aproximar-se. "Pedi que sua esposa o chamasse porque ele reluta em receber minha ajuda."

Elrond balançou a cabeça brevemente. Já ouvira aquele relato da própria Celebrian, cujo rosto pálido viera procurá-lo na biblioteca e o puxara naquela direção sem ouvir qualquer uma de suas objeções. O curador envergou mais as sobrancelhas, analisando o semblante angustiado do filho e o que poderia ler nele. Ele suspirou então, aproximando-se e sentando-se na cama do primogênito.

"Venha cá, ion-nín." Pediu e Elladan simplesmente fechou os olhos, sem se mover, como se estivesse tentando fingir que não havia ouvido o chamado. "Aqui, Elladan! Agora!" Elrond ergueu-lhe uma das mãos para enfatizar o que naquele instante parecia ser inegável.

O gêmeo respirou profundamente, os olhos ainda fechados e Elrond deu-lhe mais algum tempo, antes de descolar os lábios para repetir o chamado. No entanto não houve necessidade, pois o rapaz deslocou-se devagar, parando diante do pai, ainda com os braços em volta de si.

Elrond olhou-o atentamente, lendo, mesmo sem tocar no filho, a dor que ali estava escondida. Ele não compreendeu.

"Abra a túnica, menino." Ditou e o gêmeo estremeceu. "Abra, Elladan!"

O jovem elfo respirou fundo mais uma vez, depois soltou os braços, permitindo que a túnica, cujos laços a mãe com muito custo já havia desfeito, pendesse aberta, deixando a mostra o extenso corte que ainda teimava em traçar sua forma no peito e abdômen do rapaz, só que agora, com novos indícios de uma infecção que há tempos já deveria haver sumido.

"O que andou fazendo?" Elrond envergou as sobrancelhas. "Andou se excedendo nos treinos? Tentou mover o arco grande que ganhou de seu mentor?"

Elladan não respondeu, deixando que breves acenos negativos fizessem o papel das palavras que não podia usar.

"Ele não esteve no campo de treino." Celebrian adiantou-se. "Apenas Elrohir treinou hoje com a espada. Eu mesmo o vi lá de longe quando passei à tarde. Glorfindel me disse que Elladan sequer quis treinar com o arco."

"Por que, ion-nín? Já estava sentindo alguma coisa pela manhã?"

Elladan encheu o peito novamente. Algo parecia o estar incomodando demais. Era o que Elrond sentia. Por isso, o leve aceno positivo do filho soou mais como outra evasiva do que como uma informação de fato. Elrond desceu os olhos pelo ferimento, analisando-o do começo ao fim e lamentando não poder tocá-lo, como seus instintos lhe pediam que fizesse.

"O que me diz, mellon-nín?" Elrond voltou-se então para a curadora, ainda em pé perto deles, só que um tanto mais próxima.

Idhrenniel não moveu os olhos escuros do ferimento que preenchia sua visão. Ela era uma curadora experiente e Elrond sentia que uma teoria já temperava suas idéias.

"Tem certeza que não treinou com a espada, Elladan?" Foram as palavras da elfa, cujo olhar agora buscava o do gêmeo, mesmo sem ser correspondido. Outra vez o jovem elfo demorou mais tempo do que o necessário para esboçar seu leve aceno negativo.

"Ele não esteve no campo." Celebrian repetiu. "Apenas Elrohir."

Elrond acompanhou a afirmação da esposa com um olhar breve. Depois suas sobrancelhas se envergaram novamente e uma sensação absurda tomou-lhe a mente como uma cascata fria demais.

"Elladan. Onde está seu irmão?"