Olá. Espero que todos estejam bem.
Essa é uma fic difícil mesmo... e estou na pior parte dela... Passei dias lendo e relendo essa parte da fic e ainda não sei se estou satisfeita com ela. Parece confusa... não sei... Descrições, saltos temporais... Pelo menos os capítulos não estão tão longos... Talvez assim pareçam menos atrapalhados.
Obrigada de coração aos que estão acompanhando. Espero que gostem desse capítulo também.
Sadie
CAPÍTULO VII – RISCOS
"Nem tudo que se enfrenta pode ser modificado, mas nada pode ser modificado até que seja enfrentado."
Albert Einsten
Elrohir já estava no segundo dia de sua jornada. Saíra ainda antes do início da tarde da véspera com a ajuda do irmão, subira o vale rapidamente e acampara a nordeste do Vau, passando a noite com o som suave do Bruinen a embalar seu sono. Ele adorava o ruído calmo daquele rio, como amava o som do correr de qualquer veio d'água. A força do líquido puro o fazia lembrar-se de seu pai, por isso ouvi-lo durante aquelas suas poucas horas de sono foi como sentir a figura do elfo ali próximo a ele, bem perto, como o gêmeo tanto gostaria que o curador estivesse naquele momento.
Sabia que não devia ter parado, mas o cair da noite o compelira. Por mais preparado que se sentisse na véspera, quando convencera o gêmeo a protegê-lo e encobri-lo em mais aquela manobra arriscada, o término do dia afastara parte de suas certezas e ele quase desistira. Já tinha caminhado mais de onze quilômetros e na velocidade de seu passo sempre rápido isso o havia desgastado além do que ele admitiria a qualquer um.
Agora enfrentava o término de seu segundo dia de caminhada, ainda mais cansado do que estava na véspera e mais temeroso do que estivera por toda a sua vida. Cruzara o Vau com as águas brandas a acariciarem-lhe o peito, mas não se arriscara a nadar, pois carregava, além da mochila e provisões, um equipamento extra que a cada momento parecia pesar-lhe mais.
Agora, depois de seguir uma boa parte do percurso que cortava a paisagem de pedras avermelhadas e altos pinheiros, ele tornou a largar a bagagem e jogar-se em um canto distante do caminho geral. Estava fazendo seu trajeto sempre próximo da Grande Estrada do Leste, mas mantendo-se em um rumo paralelo por entre a mata rasteira e a grama fofa que a circundava. Não queria ser visto, pois sabia que, cedo ou tarde, alguém descobriria o que Elladan se dispusera a esconder até quando fosse possível, e tentaria alcançá-lo.
Elrohir soltou os ombros, imaginando quem seria esse alguém. Aprendera a esconder suas pistas e encarregava-se de fazê-lo todo o tempo, mas jamais se ausentara sozinho do vale, nem mesmo da cidade, por isso temia que, em sua inexperiência, pudesse ser alcançado antes que conseguisse efetivar sua tentativa.
Era um longo trajeto, pintado com sutileza no mapa que carregava e já dividido nos muitos dias que viriam. Teria que percorrer no mínimo 20 quilômetros por dia se quisesse estar lá antes do término da estação. Se o inverno o apanhasse antes da chegada aos Portos Cinzentos tudo ficaria mais difícil.
Seria o pior outono de sua vida... Mas não tão diferente do que foram as duas estações anteriores...
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Elrond estava sobre seu cavalo negro, passando agora as mansas águas do Vau com a rapidez de um lince, enquanto motivava o animal a apertar ainda mais o passo. Perdera tempo demais na subida íngreme do Vale e agora precisava recuperá-lo o quanto antes.
"Peça a Glorfindel que o acompanhe, meleth-nín, por favor!"
"Não posso pedir a ele que me acompanhe em uma jornada sem volta, Estrela." Respondeu o curador, apanhando as últimas provisões que julgava necessárias e as atirando sem muito cuidado na bagagem improvisada.
"Como assim sem volta? O que quer dizer?" Celebrian segurou o braço do marido, antes que ele alcançasse a porta do quarto.
"Viu a carta de admissão que ele deixou ao conselho. Está assumindo por vontade própria a culpa da qual procurei poupá-lo. Sabe o que isso significa."
"Não entregaremos a carta..." Celebrian propôs. "Você o trás de volta e..."
"E continuaremos vivendo vidas de marionetes aqui." Elrond disse com olhos escurecidos. "Glorfindel tem razão. Não semeei nada com minha decisão que não dor e angústia."
"Não diga isso, meleth..."
Elrond segurou os ombros da esposa.
"Nosso filho teve mais coragem do que eu, Estrela. Ele foi insensato, imaturo, mas muito mais efetivo em suas decisões do que eu fui nos últimos tempos."
"O que quer dizer?"
"Eu idealizei esse lugar, mas nada a ele me ata. O rio está contido por vontade própria agora e meus pensamentos sempre estarão aqui. Mas o estandarte de minha família só pode fincar-se em terras nas quais os meus encontram paz e felicidade. Imladris não é mais esse lugar. A fuga de Elrohir e o apoio que teve de Elladan são mais do que prova disso."
Celebrian sentiu o queixo amolecer, interpretando enfim aquelas palavras como a mensagem que o marido atribuía a elas. Seu coração acelerou com a gravidade absoluta que percebeu então.
"Eu vou com você. Eu e Elladan." Ela disse aflita e não esperou resposta, já afastando-se para efetivar o que havia dito. Desta vez foi Elrond a segurá-la.
"Você fica." Ele disse e enfrentou com firmeza o olhar desafiador que recebeu. "Elladan está ferido, Estrela. Que chances terei de encontrar Elrohir antes que ele efetive o que imagino que está em sua mente ou algo pior aconteça a ele com vocês dois a me acompanharem?"
Celebrian empalideceu então e seus olhos ganharam um brilho de tristeza e agonia que foi tal qual uma facada certeira no coração do esposo. Elrond tornou a segurar-lhe os ombros, mas havia carinho em seu olhar.
"Assim que eu o encontrar farei com que saibam onde estamos. E aguardarei por vocês se você ainda quiser me acompanhar. Peça a Glorfindel que os leve até mim."
Celebrian apertou os lábios, engolindo o pranto que a sufocava.
"Acha mesmo que ele estará aqui? Assim que souber o que aconteceu sairá por aquele portão atrás de vocês em tempo recorde."
"Faça com que ele não saiba então, Estrela." Elrond propôs, já apanhando sua bagagem e checando a janela escura. A esposa envergou as sobrancelhas, seguindo o marido.
"Como assim?"
"Preciso que ele esteja aqui. Seus pais partirão amanhã e eu o quero ao seu lado e ao de Elladan."Ele disse, voltando-se para a elfa já com a bagagem nas costas e lamentando encontrar o rosto dela coberto de lágrimas. Ele se aproximou novamente, segurando-o com ambas as mãos. "Talvez haja outra forma de resolvermos esse impasse, amada minha, e eu só posso lamentar não vê-la agora e optar por uma ação que lhe traga essa dor. Mas o tempo é meu inimigo no momento e tudo o que posso fazer e implorar-lhe que garanta a segurança de Elladan enquanto eu vou a busca de Elrohir."
"Sozinho..." Celebrian repetiu sua queixa, inconformada.
"Como estive por diversas vezes. Se você não me julgar capaz, melethril-nín, não saberei de quem esperar tal certeza... talvez não haja mais ninguém..."
Elrond respirou fundo, sentindo uma angústia no peito ao lembrar-se dos rostos tristes da esposa e do filho na janela da sacada superior, únicas testemunhas da saída furtiva daquele que certa vez fora o senhor da última casa amiga.
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O sol do terceiro dia da viagem de Elrohir amanheceu com o jovem elfo já embrenhado na mata que corria no vale do norte. Havia aproveitado a escuridão para atravessar a última ponte e deixar o rio de sua terra para trás. A própria estrada costurava-se na mata que abraçava as colinas e o tempo ainda guardava a morna sensação do outono a lhe oferecer algum afago.
O gêmeo praticamente não dormia há duas noites, mantendo o passo ora mais lento, ora mais acelerado, enquanto vencia alguns arbustos raquíticos, contornando a encosta de uma colina e já avistando o término da mata.
Ele era mesmo bastante rápido, pelo menos era o que todos sempre lhe disseram, talvez por isso ou por sua absoluta ausência de descanso, estava vencendo os quilômetros que o separavam de seu objetivo em menos tempo do que seu cálculo diário previra.
Quando o brilho da luz do meio-dia tocou-lhe o topo da cabeça por mais tempo do que ele conseguia suportar, o jovem elfo enfim decidiu procurar abrigo por sob a sombra amiga de uma das árvores. Fazia calor demais para um dia de outono e no céu acima ele já podia ver alguns borrões cinza escuro misturando-se num horizonte mais próximo do que ele gostaria.
A chuva podia esperar um pouco... Ele pensou. Ou ele podia ter um anel como o de seu pai.
Seu pai... O que estaria pensando dele naquele instante?
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Elrond cruzou a mesma ponte pela qual o jovem elfo passara, porém seus instintos ainda lhe gritavam que perdera tempo demais. Não conseguia sentir o filho por perto como esperava que aconteceria, mesmo cavalgando sem quase dar qualquer descanso a si mesmo ou à gentil montaria que se dispusera a levá-lo.
Ele parou na estrada sinuosa, apurando os ouvidos, enquanto o corcel negro dava voltas no mesmo lugar, parecendo fazer o mesmo que seu dono, deixando seus instintos aflorarem mais e mais.
"Elrohir... onde você está, ion-nín?"
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E a chuva prometida realmente caiu. E não o fez apenas por meras horas. Ela desceu ininterrupta por praticamente dois dias, deixando os atalhos cobertos de lama e o trânsito dos animais um grande transtorno.
Elrohir fugiu dela nas primeiras horas do sétimo dia, abrigando-se em algumas reentrâncias das colinas verdes, por fim aborreceu-se com seu atraso e decidiu enfrentar o que o céu lhe propunha como desafio. Ele caminhou bravamente por mais dois dias e meio sem qualquer trégua, sua própria ou do céu por sobre sua cabeça.
Elrond não teve a mesma sorte, perdendo horas para desviar-se de um trecho interrompido pela queda de duas grandes árvores e o deslizamento de algumas rochas. O curador começava a lamentar-se por decidir vir a cavalo.
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Celebrian observava o amanhecer ainda chuvoso da sacada de seu quarto, da qual poucas vezes saíra nos últimos dias. Procurava evitar expor-se desde que Elrond partira, pois sentia que seus temores estavam cada vez mais visíveis conforme os dias corriam sem qualquer notícia, por isso qualquer um, conhecendo-a bem ou não, poderia lê-los perfeitamente.
Ela suspirou. Na verdade chegava a desejar que alguém o fizesse, que alguém a colocasse em uma situação na qual ela se visse sem outra saída que não contar o que havia acontecido. Desde que seus pais regressaram ao porto sentia-se completamente sozinha.
Elbereth, como fora difícil enfrentar o olhar do pai e vestir uma máscara que quase lhe doía o rosto para proteger-se dele, para impedir-se de revelar o que ainda não tinha certeza se devia de fato estar ocultando.
"Elrond e Elrohir viajaram?" Celeborn repetiu a informação que acabara de ouvir intrigado, enquanto olhava a filha nos olhos.
Celebrian balançou a cabeça, mas a confirmação só fez envergar mais as sobrancelhas claras do pai. O elfo olhou rapidamente para a esposa, em cujo semblante traçavam-se os mesmo sinais de dúvida.
"Por que não se despediram?" Galadriel indagou.
"Era noite." A filha limitou-se a responder e os pais voltaram a analisar o rosto estranhamente sereno dela. Havia algo de inquietude extrema naquela quase total ausência de emoções nos traços da elfa.
"Não precisamos partir hoje se você e Elladan estão sós, ield-nín." Celeborn arriscou então e sentiu um brilho leve enfim surgir nos olhos da filha, tal qual um pranto muito bem camuflado, porém tal sinal desapareceu com a mesma rapidez e sutileza com que havia surgido. Celebrian respirou fundo, enchendo os pulmões devagar, e antes que uma revelação qualquer escapasse por seus lábios, ela forçou neles um pequeno sorriso, balançando a cabeça.
"Não custarão a regressar. Estão apenas passando um tempo juntos, longe dos olhos de todos.. A situação na qual estamos praticamente os obriga a isso. Podem ir tranqüilos."Ela ofereceu a desculpa plausível que lhe ocorreu, adicionando nela um tom seguro, mesmo seu coração desejando em quase completo desespero implorar que os pais fizessem exatamente o contrário daquilo. Os anos que se seguiriam mostrariam com quem Elrohir aprendera a encenar e esconder seus sentimentos com destreza.
Celebrian fechou os olhos, lembrando da agonia que sentiu ao ver os pais cruzarem o portão. A mãe ainda voltou o rosto em sua direção uma última vez e ela sentiu que sua boa representação não fora totalmente convincente, por isso reforçou-a como seu coração pesado lhe propiciou, oferecendo a mãe um breve aceno, cuja retribuição, também breve, foi ainda menos convincente.
"Minha doce Varda..." A elfa disse para si mesma, cobrindo o rosto com as mãos por um instante e voltando a respirar profundamente. Precisava se acalmar, precisava acreditar que tudo daria certo como Elrond havia lhe pedido. Precisava acreditar. Precisava acreditar.
Ela soltou então as mãos ao lado do corpo, os olhos já presos novamente naquele portão, o vento sutil a balançar-lhe os cabelos completamente soltos. Não queria sair dali mais, a não ser que fosse em direção àquela cocheira para apanhar o primeiro cavalo que havia nela e seguir atrás daqueles a quem amava.
Aqueles a quem amava... Pensou, voltando enfim os olhos para dentro do próprio quarto. Ela deu alguns passos então para dentro do cômodo, observando a grande cama do casal, por sobre a qual o filho mais velho dormia profundamente. Assim como ela, Elladan também passara noites em claro demais, compartilhando as mesmas inquietações, observando a mãe a cada instante com um olhar preocupado, cujo significado ela não conseguia decifrar.
O menino fizera isso por muitos dias, até que seu coração de mãe julgou que uma atitude deveria ser tomada, e ela pediu que Idhrenniel o fizesse dormir nem que fosse por poucas horas. O ferimento do filho não cicatrizara e diante de tanta dor e angústia ela nem mesmo sentia que podia esperar por essa melhora, por isso o mantivera ali, ao alcance de sua mão, mesmo porque, desde que Elrohir se fora, ela sentia um incontrolável receio de que Elladan, de uma hora para outra, fosse fazer o mesmo.
A elfa aproximou-se da cama, por fim decidiu se deitar alguns instantes ao lado do filho, passando o braço por sobre as costas dele e sorrindo ao percebê-lo achegar-se, mesmo forçosamente adormecido como estava. Ela acariciou-lhe os cabelos, cantando baixinho sua velha canção de ninar, a mesma que cantava quando os gêmeos eram bebês e satisfazendo-se por ver o rapaz voltar a se aquietar em seus braços.
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Uma jornada árdua. Pelo menos era o que julgava agora o caçula da família de Imladris, jogado exausto no encharcado território do Pântano dos Mosquitos. A chuva transformara os pequenos charcos em grandes piscinas escuras, mas pelo menos espantara as moscas e outros seres voadores.
Ele soltou os ombros, pendendo a cabeça até sentir os fios tocarem na água que lhe cobria os joelhos dobrados. Água, água e água, ele sentia que não teria o corpo seco nunca mais em sua existência. Estava cansado, tinha fome, frio e a disposição de levantar-se, mesmo estando no mais inóspito e inapropriado lugar para ajoelhar-se e deixar sua bagagem a mercê do ambiente, parecia abandoná-lo.
Pântano maldito, quanto de sua extensão já percorrera e o desgraçado parecia não ter fim. Por que, pelo som perfeito que criou tudo ali, alguma nota escolhera converter-se em paisagem tão desprovida de qualquer atrativo? Ele ainda conseguiu pensar, antes que os outros pensamentos que acompanhavam aquele parecessem querer escapar-lhe junto com a lucidez e o desejo de permanecer acordado.
"Ei, pequenino. Não está um pouco longe de sua terra?" Uma voz surgiu no meio da paisagem enevoada e úmida, mas foi o suficiente para trazer o jovem elfo de pé mais uma vez e fazê-lo sacar a adaga que carregava na bota de imediato.
A figura encapuzada parou por um instante, observando a cena e pendendo a cabeça para o lado como se tentasse compreendê-la. Elrohir decidiu não esperar pelo que aquele ser, cujo rosto resumia-se a uma nódoa escura dentro de um capuz, pudesse compreender ou fazer. Ele deu alguns passos sem se voltar, temendo dar as costas àquele estranho.
"Você não é do povo dos pequenos." Aquela frase era uma afirmação, mas soou nos lábios do viajante como um questionamento inadequado.
Elrohir voltou a estagnar-se, porém ergueu a arma mais uma vez ao ver o andarilho dar mais alguns passos.
"É do belo povo?" Indagou o estranho, analisando agora o rosto que lhe interessava conhecer. "Parece um elfo, embora sua estatura não seja a de um deles. Qual é o seu nome? O que faz por aqui? Está perdido?"
Elrohir não respondeu a qualquer daquelas perguntas, pondo-se a analisar o tom gentil que aquele estranho procurava atribuir a sua voz, mas não sentindo neste a confiança que deveria vir-lhe atada. Ele passou a observar as vestes do andarilho com cautela. A arma ainda erguida.
"Ei, pequeno." Insistiu o outro, que parecia fazer o mesmo. "O que leva aí com você? Sou negociante, tenho comida e outras coisas a oferecer."
Elrohir estranhou a comentário, mas só então percebeu o que o motivara. No meio da bagagem que carregava com custo em suas costas, um elemento importante escapou de seu invólucro de pano e deixou seu brilho a vista.
"É uma espada que tem ai, pequenino? Parece grande demais para você, não é?" Aproximou-se um pouco mais o estranho, com um sorriso amarelo nos lábios que Elrohir já conseguia ver, mesmo sendo a única imagem a sobressair-se dentro do capuz escuro. "Eu tenho uma aqui que pode lhe servir bem melhor do que esta. O que acha de fazermos uma troca?"
Elrohir estufou o peito, acompanhando agora com atenção o movimento do outro. O viajante carregava uma bagagem volumosa nas costas, composta por uma mochila e muitas peles de animais penduradas. Havia também outras ferramentas estranhas, entre elas uma que viajante puxou com uma rapidez que não condizia ao papel de comerciante que queria desempenhar...
Era uma adaga brilhante, cujo caminho foi interrompido por outra idêntica a ela, nas mãos improváveis de um menino-elfo...
"Pelo vento norte!" Foi o que o viajante conseguiu dizer em sua surpresa, ao ver-se digladiando arduamente contra alguém cuja estatura não dava dois terços da sua. "Você até que foi bem treinado, rapazinho." Ele riu então, não parecendo de fato intimidado com a rapidez do jovem elfo.
Na verdade Elrohir não estava conseguindo dar o melhor de si. Seus treinos com espadas de madeira não o tornaram apto a utilizar com maestria a adaga longa que tomara emprestada do pai no momento de sua fuga. Mesmo porque, o excesso da bagagem que o receio o impedia de jogar no chão, criava um contrapeso inadequado a seu corpo já cansado da viagem quase ininterrupta.
"Vamos lá, rapazinho," Tentou mais uma vez o grande homem, enquanto eles mais giravam em círculos naquele pântano apartados do que suas armas de fato colidiam uma com a outra. "Eu não tinha a intenção de te machucar de verdade. Vamos negociar, vamos."
Os olhos de Elrohir se apertavam agora, conforme a densa névoa descia seu inconveniente véu sobre eles e aquela conversa lhe acelerava o coração inseguro. Aquele era seu primeiro conflito e estava sendo completamente diferente daquele que findava a fase de treinamento dos elfos de Imladris.
Não, aquilo não era uma competição e aquele não era um de seus colegas ou mentores.
E, embora o estranho homem continuasse sorrindo, escapavam-lhe pelo envergar significativo das sobrancelhas grossas e desalinhadas suas intenções, que, aos olhos do jovem elfo, não estavam nem próximas do que seu tom de voz procurava transparecer.
As adagas colidiram mais uma vez, e mais duas e outras muitas que Elrohir deixou de contar. Ele agora mantinha os lábios apartados, o ar escapando-lhe deles como se estivesse conivente com seu inimigo, as costas doíam com o peso da bagagem, o ritmo se comprometia cada vez mais a cada nova investida.
O que talvez o estranho não esperasse, quando decidiu fazer de alguém ainda tão jovem seu inimigo, era que a batalha fosse ser tão árdua. Ele também se esforçava a extremo para manter a respiração controlada, movendo as pernas, cujas botas encharcadas faziam pesar o dobro do inconveniente que já eram, com menos rapidez do que gostaria. Quando o rapaz escapou de um golpe que já lhe parecia certo o homem enervou-se.
"Seu molequinho desgraçado! Por que não desiste de uma vez? Eu só quero a arma, não me faça deixar o seu corpo aqui para o seu pai encontrar boiando nesse pântano nojento."
Elrohir arredondou os olhos com o comentário, mesmo sabendo que talvez fosse um mero blefe de lutador, um dos muitos cuja existência e serventia Glorfindel vivia a lhe provar. Só agora ele se apercebia o porque daquela atitude, muitas vezes extremamente irritante, do mentor. Ele desviou-se do próximo golpe também, mas todos aqueles pensamentos, somados a seu extremo cansaço, roubaram-lhe um pouco da rapidez que utilizara anteriormente então, e ele enfim teve seu braço direito atingido.
Não gritou, mesmo com a dor quase insuportável.
Não gritaria... Ele não gritaria...
Mesmo assim o adversário soltou um repugnante som de satisfação com a manobra bem sucedida e ainda girou sua própria arma, agora suja de sangue, mais duas vezes. A investida certeira adicionara um brilho cruel a seu olhar. No entanto, a ausência de qualquer som de protesto ou dor de seu opositor, mesmo portando um ferimento daquela extensão, intrigou-o mais do que desejava. Aquele podia ser apenas um menino-elfo, mas sua atitude de guerreiro começava a despertar naquele contraventor instintos de proteção para os quais até agora não havia dado ouvidos.
"Está doendo, não está?" Ele buscou uma provocação bem colocada, arma efetiva e eficaz em qualquer boa batalha, enquanto observava o sangue escorrer pelo corte exposto no braço do jovem elfo. Agora banhado como estava por aquele vermelho vivo não conseguia perceber a gravidade do corte. Mesmo assim resolveu arriscar. "Imagine como vai ser quando eu o acertar bem no coração? Acha que vai doer também? Acha que vai morrer na hora?" Ele continuou, balançando a arma e ameaçando um ataque após o outro apenas para mexer com a guarda do rapaz a sua frente.
O que é um mercenário, Erestor?
Indagou o jovem elfo, sentado no chão do corredor da biblioteca com um grande livro sobre as pernas. A sua frente o gêmeo mais velho erguia os olhos de sua própria leitura, encarando o irmão e depois se voltando para o mentor com a mesma curiosidade.
O conselheiro parou o que fazia, largando a pena sobre o tinteiro e olhando os dois discípulos pacientemente.
"Mercenários são pessoas que vinculam seu trabalho a um ganho qualquer, independentemente da forma como esse ganho se efetive. Normalmente não têm qualquer ideologia e estão nesta terra para um tudo ou nada."
Um tudo ou nada. Repetiu mentalmente o gêmeo quando a adaga do inimigo veio a seu encontro e o som agudo do metal de suas armas colidindo mais uma vez, o fez sentir saudades de estar no chão frio daquela biblioteca que a ele tantas vezes desagradou. Ele tinha que tentar reencontrar-se como guerreiro naquele conflito. Era o que Glorfindel sempre lhe aconselhara. Mesmo no pior dos momentos, você precisa saber quem é e contra quem está lutando.
O homem a sua frente parecia tentar o mesmo, pois acelerava seu passo e reforçava suas investidas como quem deseja por um fim naquele entrave o quanto antes. As adagas dançaram juntas mais uma vez, e em Elrohir pesava agora o olhar enervado do homem sobre ele, bastante próximo, pesava-lhe a própria mão encharcada com o sangue que escorria por seu braço, pesava-lhe a dor no ferimento aberto, pesava-lhe... o desejo de desistir.
Mas ele não desistiria e as palavras dos mentores não eram agora apenas seu alicerce, mas também sua âncora. Por isso ele mantinha a mente ocupada com a imagem deles, com o sorriso assegurador de Glorfindel e suas palavras de provocação, mas também de incentivo; com o olhar ponderado de Erestor e suas boas repreendas. Elbereth, naquele momento ele agradecia os bons mestres que tivera e o tanto que aprendera com eles, pelo amor e pela dor.
Giraram então as armas mais uma vez, até que a voz entrecortada do inimigo voltou a invadir seus pensamentos e pesadelos.
"Seu braço não parece nada bem, rapazinho." Ele soltou um riso, andando agora um tanto arqueado a volta da presa, enquanto segurava a adaga com ambas as mãos. Também parecia cansado. "Acho que com todo esse sangue saindo assim de você, logo os insetos desse lugar vão ter carne nova para devorar. Você sabia que eles comem carne de elfo? É a preferida deles."
Que desgraçado... Elrohir ainda pensou, sentindo um tremor correr-lhe o corpo. Embora sua mente não acreditasse em palavra alguma que ouvia, seu coração não conseguia deixar de temer as condições nas quais estava. Queria se apegar ao que seu coração tinha de bom, às imagens asseguradoras do passado como vinha fazendo, mas seu corpo todo queria tornar-se seu inimigo também, os braços pesavam-lhe, as costas estavam quase dormentes de dor e o sangue que corria incessante de seu ferimento aberto tornava o cabo da adaga, agora segurada com ambas as mãos, traiçoeiro e escorregadio.
Além disso, seu coração era o maior empecilho. As sensações que havia dentro dele...
Estava sozinho, ferido... e encurralado...
E a dor... aquela dor incessante...
Ele fechou os olhos mais uma vez e a ausência de forças que a perda rápida de sangue estava lhe trazendo o fez demorar mais tempo para reabri-los. Quando pôde fazê-lo, tudo o que viu foi a arma vindo em direção a seu pescoço.
O mercenário moveu-se como quem sente a batalha ganha, mas o golpe foi contido mais uma vez, por mais improvável que parecesse. E aquele ato inesperado e quase impensado roubou um grito de insatisfação do adversário, que avançou mais algumas vezes, girando a arma cada vez mais alto e movendo o corpo em direção ao jovem elfo. Logo Elrohir estava inclinado, quase de joelhos, limitando-se a apenas receber os golpes que vinham, centrando a força toda agora no único braço que ainda podia lhe servir. Foram apenas mais alguns instantes para que um som desesperador preenchesse o ar e sua adaga voasse longe demais.
Dessa vez seu grito de dor foi incontrolável.
"Menino forte!" Riu alto enfim o vencedor, afastando-se um passo como quem quer admirar a dura conquista. Elrohir caiu por sobre os joelhos, segurando agora o novo ferimento, tentando administrar a dor ainda mais intensa e a aquele efeito enlouquecedor que a risada do adversário se causava.
No entanto, a alegria do oponente durou pouco tempo, o bastante apenas para que ele percebesse que, para sua surpresa e total indignação, o novo corte que fizera no adversário, agora no antebraço direito, não o intimidara e o jovem elfo reerguia-se novamente, ainda que de mãos vazias. O sangue escorria, bastante vermelho, encharcando-lhe ambas as mãos agora, mas, mesmo desarmado, seus olhos escuros ainda estavam voltados para o inimigo que ele via com precisão.
Elrohir enfrentou a imagem que via, buscando administrar o conflito que se estabelecia dentro de si: o menino assustado e o guerreiro que ele teria que ser um dia. Ele respirou fundo. Não, não temeria a morte, esse era o primeiro ensinamento que recebera do mestre.
A queda ocorre a alguns bons guerreiros, Elrohir. Dissera-lhe certa vez o mestre. E ela não desmerece as qualidades desse soldado. O importante é que, diante dela, o guerreiro guarde a última imagem que viu, que se assegure de qual foi o obstáculo que interrompeu sua trajetória, que aprenda sua última grande lição.
O gêmeo respirou profundamente mais uma vez, lembrando-se daquela valiosa lição enquanto mantinha seus olhos escuros ainda presos na figura do adversário. Seu primeiro e talvez seu único adversário. Queria ver aquele inimigo, queria lembrar-se daquele rosto, mesmo que fosse o último. Queria seguir as instruções de seu mestre, e, pelo menos naquele momento derradeiro, não decepcioná-lo.
Era um adán, um adán de pele queimada pelo sol e barba castanha bastante encardida. Quando ele sorriu o gêmeo percebeu que vários dentes lhe faltavam, mas outros tinham um brilho estranho.
"Vamos lá, molequinho." Ele disse com renovado deboche, os dentes arregalados bem como os olhos em uma alegria quase insana. Parecia cansado demais para esperar compreender o que para ele não fazia qualquer sentido. Era apenas isso. Era um molequinho e lhe dera tamanho trabalho. Era um pirralho, mas logo tudo haveria de ter terminado...
Ele avançou então sobre o gêmeo com um grito intimidador proposital, abrindo os braços como um grande urso apenas para assustá-lo. Parecia, na verdade, buscar em um último divertimento, enquanto recuperava as forças antes da conquista.
Elrohir gingava o corpo agora, encurvando o tronco e ainda buscando alguma forma de escapar, por mais impossível que lhe parecesse agora. Talvez ainda houvesse uma saída.
"Está pensando em fugir?" Provocou o outro, fazendo um leve bailado na água para demonstrar que impediria sua vítima de fazer o que intentava.
Elrohir olhou-o nos olhos novamente, o tom de deboche do inimigo escurecendo-lhe as pupilas. Apesar de ferido mais uma vez e tendo sua dor ampliada consideravelmente o espírito rebelde do gêmeo teimou em se manifestar, independentemente da situação extrema na qual se encontrava e seu olhar desafiador voltou a adornar-lhe o rosto, despertando um misto de surpresa e indignação no seu oponente.
"Eu devia te amarrar aqui para que os mosquitos te mordessem até que você enlouquecesse, seu pirralhinho de uma figa." Disse o outro estupefato. "Assim seu pai ou qualquer um que ainda se interessasse por você teria a última decepção da vida ao te ver aqui nesse nada." Ele completou, abrindo os braços quando Elrohir tentou escapar mais uma vez. "Diga a verdade seu peste. Essa arma que você tanto protegeu, você roubou, não foi?"
Foi naquele momento que o adversário sentiu encontrar a arma que lhe faltava, pois o jovem elfo empalideceu visivelmente com o questionamento, arrancando mais um som de satisfação do inimigo.
"Ah! É um ladrãozinho?" Ele indagou com satisfação. "Vamos lá! Não é melhor do que eu, então, é? É um ladrãozinho como outro qualquer. Um ladrãozinho de orelhas pontudas." Completou, aproveitando o tom rubro que surgia no rosto do jovem elfo para adiantar-se tanto em sua manobra verbal quanto física. Ele avançou sobre o rapaz, terminando sua provocação em tom de pura chacota. "Vejam só. Achei que elfos não eram ladrões. Vai ver que nem são e morreriam de vergonha se soubessem que um deles faz isso."
Se havia algo a ser dito naquele instante por aquele estranho, inegavelmente não deveria ter sido aquilo. No entanto, aquela certeza só ficaria comprovada pelo jovem Elrohir, pois o outro homem agora boiava naquele pântano, tendo sua cabeça apartada dele alguns metros.
Elrohir ainda ficou parado um instante, atônito, a grande espada que estivera o tempo todo em suas costas agora em punho firme, um sangue vermelho escorrendo por ela mansamente, o metal mais escuro do que nunca.
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Elrond quase não acreditou quando as patas de seu cavalo ganharam as águas do pântano. A chuva torrencial dificultara suas buscas a extremos, impedindo-o de analisar com cuidado as reentrâncias das paisagens, os caminhos ocultos, as pequenas cavernas e outros lugares que pudessem conter uma pista qualquer.
Uma pista. Uma boa pista era o que precisava. Perdera tanto tempo em encruzilhadas e caminhos lamacentos que mal continha o tamborilar angustiado de seu coração, ecoando em um peito repleto de preocupações.
A cena que viu após alguns instantes de cavalgada também não o ajudou muito...
O cavalo parou bruscamente a seu pedido e ergueu ambas as patas dianteiras, trazendo o tronco alguns centímetros para cima, como se ele mesmo sentisse que havia algo de errado naquela, até o momento indecifrável, imagem que boiava nas águas rasas e escuras daquele entardecer.
O lorde elfo desceu então, quando o animal estava próximo o bastante. Ele caminhou pela água avermelhada devagar, as sobrancelhas contraídas, os olhos escuros. Só então percebeu que se tratava de um cadáver, cujo corpo oscilava vagamente.
"Ilúvatar." Ele clamou para si mesmo, tentando entender o detalhe crucial que só agora lhe saltava aos olhos. A gravidade da cena o fez sacar a espada imediatamente, olhando para os lados com precaução.
O Pântano dos Mosquitos sempre fora um lugar deveras inóspito, mas excetuando sua paisagem desagradável, sua fauna mais desagradável ainda, há tempos não se ouvia qualquer história de violência cuja fonte fosse aquela região.
Elrond permaneceu olhando atentamente a sua volta por mais algum tempo. O lugar parecia vazio, o entardecer transformava a névoa em uma neblina escura e densa que não era causada pelo vapor. Ele ergueu o capuz para proteger-se dos insetos e olhou mais uma vez para o corpo que oscilava naquela água de pouco mais de um palmo e meio agora. Custou um instante a mais para ver, enfim, o que faltava àquela cena. A poucos centímetros do corpo, quase meio metro, o rosto surpreso da vítima revelava seus traços sob um local de águas menos escurecidas. Elrond aproximou-se para ver aqueles olhos ainda abertos, mesmo submersos, como se desejasse sentir o que restava de informação neles. Era muito pouco, quase nada. Tratava-se de alguém totalmente desconhecido para ele, um andarilho talvez, comerciante ou algo diferente disso, não parecia importar agora.
Ele voltou o rosto para o outro lado do pântano, dividido entre o que sua consciência e seu coração discutiam agora. Por fim soltou um suspiro resignado, segurando as vestes do homem e o arrastando para uma borda mais seca. Enterrar aquela carcaça em respeito a sua alma não era exatamente o que seu coração apressado desejava que fizesse, mas ele não conseguia simplesmente deixar aquele infeliz à mercê dos animais da região.
Foi quando a viu, poucos passos havia dado em seu trajeto quando o brilho de uma arma reluziu embaixo d'água. Elrond soltou novamente o corpo, agora por sobre um monte mais alto de terra e agachou-se, apanhando a adaga e reconhecendo-a imediatamente.
"Elbereth!" Ele ergueu os olhos, girando-os em todas as direções. Só agora aquela cena sinistra ganhava hipóteses de significados impensáveis. Elrond sentiu o coração acelerar-se novamente, observando ainda o vermelho vivo que tingira de forma cruel aquela água já bastante triste. "Elrohir..." O nome do filho escapou-lhe como se estivesse preso em sua garganta, impedindo-o de respirar e ele ignorou todos os seus pensamentos e intenções anteriores, atirando-se por sobre o cavalo e erguendo o tom de voz para mostrar ao amigo eqüino a urgência de suas palavras. Logo chegavam ao término do pântano, embrenhando-se mata adentro.
