Olá. Espero que todos estejam bem.

Essa é mais uma etapa da jornada do nosso elfinho pelo desconhecido. Espero que gostem. Como sempre tive algumas dificuldades com mapas e distâncias, espero que tudo esteja certo.

Queria agradecer mais uma vez quem ainda está acompanhando. Desejo de coração que a história valha o tempo de vocês investido nela. Obrigada mesmo, mellyn-nin.

Beijos

Sadie


CAPÍTULO VIII – DESVENTURAS E DESENCONTROS

"Não há infortúnio maior do que esperar o infortúnio".

Pedro Barca


A Grande Estrada cruzava o sul da Floresta Chet, subindo ligeiramente morro acima. Era por ela que Elrond cavalgava agora, olhos atentos na mata à direita dele, ouvidos focados em cada som, enquanto dava graças pelo abrandamento dos resquícios da tempestade de tantos dias. Tinha o coração repleto de angústia, mas também expectativas, talvez, por isso os sons da madrugada naquela mata escura o enchessem de ansiedade, como se a cada instante julgasse que a resposta a seus anseios fosse surgir sussurrada por entre aqueles arbustos.

Suas esperanças, contudo foram desaparecendo conforme os primeiros raios do dia escapavam pelas frestas verdes e amareladas. Ele entrara pelos atalhos escondidos, inspecionara cada fresta que pudesse ser esconderijo seguro, até encontrara algumas pistas: tons rubros dolorosos em algumas folhas caídas, em alguns troncos retorcidos, sinais inegáveis de dor e luta difícil para continuar um caminho ainda mais árduo. Porém, desapareciam vez por outra, para ressurgirem em um trajeto improvável e tornarem a desaparecer.

Elrond sabia que era o filho, caminhando ainda ferido, tecendo seu atalho em voltas confusas para que as pistas se tornassem inúteis. Naquele momento seu coração de pai lamentava a excelente escolha que fizera do alguém que instruiria os gêmeos nas artes da guerra. No entanto, pior do que tentar seguir um aprendiz do famigerado guerreiro louro da antiga Gondolin era seguir o melhor desses aprendizes.

A Colina de Bri há tempos começava a ser explorada, cultivada e habitada pelos edain, antigos descendentes da Terra Parda que se agrupavam em pequenas aldeias, ocupando os poucos quilômetros de sua área. Havia se criado um portão ao sul, no qual estabelecera-se uma Casa da Guarda antes da Estrada seguir para o oeste. Foi em direção dela que Elrond seguiu, alcançando-a assim que o sol mostrou um preguiçoso rosto matinal, depois de tantos dias de tempo instável e cinza.

Da porta de madeira rústica, saiu um adán esfregando os olhos para livrar-se do sono. Distinguira o vulto do cavaleiro ao longe em um passo estranhamente rápido e, vendo-o só, baixara seus escudos de precauções e deixara-se munir de curiosidade, principalmente por perceber tratar-se de alguém do belo povo.

Elrond nem sequer apeou, não queria parecer descortês, mas a preocupação crescia a cada som que os cascos de sua montaria davam naquela estrada que já lhe parecia infinda. Sua agonia elevava-se a extremos agora e o curador já mal conseguia esconder tal inquietação em seu costumeiro semblante de paz.

"Saudações." Ele cumprimentou o homem assim que o viu claramente.

"Saudações, mestre elfo." Respondeu o porteiro com respeito, a mão por sobre os olhos, tentando distinguir o vulto contra a luz matinal. "O que o traz com tamanha pressa a essas terras, senhor?"

Elrond ainda deu uma volta completa com seu cavalo, os olhos vasculhando a paisagem ao longe. Ele enfim voltou a encarar o porteiro.

"Sou Elrond Peredhel. Peço que perdoe meus modos e minha urgência, mas busco por um dos meus e temo que esteja ferido."

O homem arregalou brevemente os olhos, mesmo contra o sol.

"Lorde Elrond? O Senhor de Imladris?" Ele indagou e, diante da rápida confirmação do recém-chegado, não pôde evitar que um ar de descrença se desenhasse em seu rosto. Se aquele elfo era a pessoa importante que dizia ser, por que cavalgava sozinho sem qualquer escolta ou outra proteção?

Elrond traduziu aquela sombra de desconfiança de imediato e sem grande surpresa, sabia que devia ser cauteloso, mas estava por demais angustiado para preocupar-se se aquele adán achava ou não que ele era quem dizia ser.

"Estou à procura de um menino, senhor. Saí às pressas e a pressa precisará continuar a mover meus passos até que eu o encontre, pois, como já disse, temo que esteja ferido."

O porteiro voltou a arredondar os olhos, dessa vez diante do tom decidido e da gravidade das palavras do elfo.

"Um menino? Um menino elfo, senhor?"

"Sim. A estatura dele não alcança os ombros do senhor, tem cabelos como os meus."

O homem apertou os lábios, uma série de questionamentos encadeando-se em sua mente. Os elfos eram por demais cuidadosos com suas crianças. Por que aquela estaria perdida?

"Estavam em algum grupo que foi atacado, senhor? O menino se perdeu? Foi capturado?" Viu-se verbalizando suas dúvidas então o confuso porteiro. Porém, diante do olhar angustiado que o elfo continuava a lançar ao horizonte e a quase ausência de reação às perguntas que agora ouvia, julgou por bem não dar vazão aos outros por quês que gostaria de indagar. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, parecia ser bastante grave. "Temo que não o tenha visto, Lorde Elrond. No entanto, prometo-lhe manter meus olhos atentos."

Elrond soltou um suspiro pesaroso e preocupado. O olhar fixo no amanhecer ainda acinzentado. Ele apenas balançou, quase imperceptivelmente, a cabeça. Todas as poucas pistas que encontrara apontavam para aquela região a qual, por certo, Elrohir teria que cruzar, se de fato ia para onde ele julgava que o filho fosse. No entanto, o menino mostrava-se portador de impressionante habilidade, pois, mesmo ferido fizera um trajeto absurdamente complexo, deixando o mínimo de pistas possível.

"Posso lhe ser útil em mais alguma coisa, Lorde Elrond?" O porteiro indagou então, lamentando não poder ser de alguma ajuda. Começava a sentir tratar-se de um assunto realmente sério e urgente.

O elfo apertou apreensivo os lábios, o cavalo já dando outras voltas em um reflexo genuíno da angústia a urgência do mestre, ele enfim voltou a olhar rapidamente para seu interlocutor.

"Sou-lhe deveras grato, senhor. Peço-lhe apenas permissão para seguir por esse pedaço de chão ao qual protege."

O homem ofereceu-lhe um sorriso preocupado, comovido com a extrema gentileza e consideração daquele lorde elfo que, sendo quem era, não precisava pedir autorização para cruzar qualquer caminho.

"Siga o rumo que precisar, senhor. Desejo-lhe uma jornada segura e que encontre o menino a salvo sem demora." Ele respondeu, recebendo um aceno de cabeça como resposta do cavaleiro, que apoiou brevemente a mão por sobre o peito, fez uma rápida reverência e seguiu adiante, os olhos já fixos no caminho que tinha que percorrer.

&&&

Alguns quilômetros ainda foram necessários por aquele chão escorregadio até que mais sinais de vida surgissem. Era a Vila de Bri, que ficava onde o caminho começava a encurvar-se para o leste em direção ao encontro das duas estradas mais importantes da região: A Grande Estrada do Leste, pela qual Elrond ainda cavalgava e a Antiga Estrada do Norte, caminho árduo o qual sabia que não interessaria ao filho seguir.

O cruzamento desses dois trajetos se dava à oeste da Colina de Bri, e foi antes dele, bem antes do segundo portão, caminho obrigatório para o abandono daquelas terras, que Elrond tornou a parar seu cavalo, sentindo um inexplicável arrepio descer por suas costas. Ele se voltou mais uma vez em direção à colina. Sabia que essas paradas eram arriscadas, havia feito várias delas, desviando-se muitas vezes de seu trajeto para checar lugares obscuros, matas fechadas, possíveis esconderijos nos quais o filho pudesse talvez buscar abrigo. Sentia-se dividido, como em todas as vezes que reduzia ou estagnava seu cavalgar, temia passar despercebido pelo filho escondido ou ferido em algum lugar e perder a chance de encontrá-lo, mas temia também perder um tempo que pudesse impedi-lo de alcançar o rapaz, caso este, por algum motivo inacreditável, não tivesse parado um instante sequer.

Elrond esvaziou o peito inconformado. Teria sido possível? Teria um menino, ainda sem conhecimento algum, quiçá ferido, sozinho, conseguido continuar jornada tão árdua, mesmo com sua quase total inexperiência?

Elrond fechou os olhos, apoiando a mão no peito.

Não. Um menino provavelmente não teria ido tão longe. Mas Elrohir... Elrohir não era apenas um menino...

No entanto, outro detalhe naquele enigma todo o incomodava incontrolavelmente: A imagem que vira no Pântano... Quem teria sido responsável por ela? Teria o rapaz sido defendido por alguém?

Elrond olhou novamente para o caminho que tinha à frente e o cavalo deu dois passos naquela direção, mas seus olhos continuaram a vagar nervosos pela colina verde, inquietos, vasculhando um solo que era bastante claro e que estava obviamente vazio. Por que não conseguia deixar aquela região?

Não sabia a resposta para aquela incômoda questão. Muito menos sabia por que sua mente insistia em redesenhar aquele vilarejo de tão poucas casas. Eram habitações soltas pela colina, algumas mais próximas, outras bastante afastadas, todas muito parecidas, excetuando o acabamento. A maioria era de barro, madeira e pedra, mas eram sólidas e seguras, além de práticas, pois se mantinham aquecidas no inverno com pouco incentivo e eram bastante frescas no calor extremo. Elrond olhava-as angustiado, como quem tenta ler um pergaminho em um idioma há muito esquecido.

Entretanto havia uma informação ali. Ele sabia que havia. E haveria de decifrá-la, se Ilúvatar fosse caridoso o bastante e tivesse piedade de seu coração, já incontrolavelmente atormentado por pensamentos de todos os tipos.

Foi quando os viu. Um brilho remoto, em uma janela entreaberta, vinha de uma das casas mais próximas. Quem a visse de fora a julgaria abandonada, pois a dita janela não tinha qualquer moldura e a única dobradiça restante mantinha-se segurando uma folha pendida para frente, como se fosse ao chão a qualquer instante.

Elrond uniu as sobrancelhas, perdido no breu daquele cômodo desconhecido. Seu cavalo, porém, já dava passos indecisos naquela direção. O brilho voltou a oscilar, um brilho tênue como um par de estrelas azuladas. Foi mais um instante até que oscilou outra vez, acentuando-se um pouco, antes de desaparecer novamente.

Eram olhos. Elrond tinha certeza. Um par de olhos desconhecidos para ele, mas que o olhavam como se a sensação não fosse mútua. O curador aproximou-se um pouco. No entanto, enquanto o cavalo achegava-se, o elfo não foi agraciado com aquela visão novamente, o brilho parecia ter desaparecido por completo na escuridão do cômodo. Elrond parou há quase dois metros da casa e respirou profundamente, sabia da urgência de sua situação, do desespero absoluto no qual seu espírito se encontrava, no entanto precisava concentrar-se, transparecer uma paz que não o agraciava ou talvez não conseguisse a informação necessária.

"Olá." Ele chamou, dando alguns passos para a direita e para a esquerda com a montaria, a fim de tentar ver algo no breu do cômodo exposto pela janela. "Por favor, estou à procura de um dos meus." Ele disse, aguçando os ouvidos então para tentar perceber qualquer movimento.

Estranho... Não havia nenhum ruído... Nem seu espírito conseguia sentir ali qualquer presença... Teria se enganado?

Elrond respirou profundamente mais uma vez, soltando o ar devagar enquanto suas pupilas quase negras continuavam a analisar o enigma que havia diante dele. Começava a questionar suas sensações anteriores, pois o cômodo não parecia abrigar vida alguma. Ele soltou os ombros enfim, movendo o animal e dispondo-se a regressar a seu trajeto inicial.

"Ele se parece com você." Uma voz sobressaltou-o então, assustando igualmente seu animal, o cavalo voltou a girar desorientado e custou alguns instantes para sentir na voz de seu dono a firmeza suficiente para voltar a aquietar-se.

"Gwiil, Durion..." Pediu-lhe paz a voz do mestre, e o cavalo negro aquiesceu, parando enfim e oferecendo ao lorde elfo a oportunidade de entender de onde viera aquela voz.

Na mesma janela postava-se agora a figura de uma adán, uma mulher idosa, com olhos amendoados, as costas encurvadas e a pela bastante alva. Ela envergou igualmente o cenho ao vê-lo, parecendo analisar o rosto do elfo com bastante cuidado.

"É. Ele se parece mesmo com você." A senhora repetiu então a frase que anteriormente o curador não havia ouvido bem, e o significado dela fez com que os olhos do elfo se arredondassem. Ele saltou do cavalo no mesmo instante, achegando-se rapidamente e apoiando as mãos no enquadramento rústico daquela janela.

"Minha senhora, imploro-lhe que tenha misericórdia de meu coração de pai e diga-me onde ele está." Ele disse quase sem pensar.

A mulher soltou comovida os lábios enrugados, depois os pressionou fechados devagar, mas seu olhar ainda era o de quem analisa com cuidado a imagem que vê.

"É o pai dele?"

"Sim... Sou Elrond Peredhel. Venho de Valfenda."

"E o menino?"

"Elrohir. O caçula de meus filhos gêmeos."

A senhora parou pensativa, os olhos ainda fixos na figura que tinha diante de si.

"Parece um pai preocupado." Ela observou então e Elrond soltou um suspiro de angústia. Sim, estava preocupado, agoniado demais, custava-lhe agora compreender o que estava por trás daquele comentário.

"Rogo-lhe mais uma vez, senhora." Voltou a implorar, sentia em seu coração que o tempo corria decidido contra ele. "Elrohir está aqui? A senhora o viu?"

"Por que um pai tão preocupado deixa um filho na situação na qual o seu estava, Elrond de Valfenda?" A voz da mulher mudou seu tom, mas ainda havia sinceridade nela, uma sinceridade contundente que Elrond sentiu no peito como um punhal dos mais afiados. Não eram apenas as palavras diretas e verdadeiras da mulher que o torturavam, mas a imagem do filho ferido que aquelas entrelinhas faziam despertar em sua mente já deveras perturbada.

Elrond respirou profundamente, depois disse, com firme seriedade, resolvendo ser o mais sincero possível.

"O que ele está fazendo é por mim, senhora. Fugiu porque deseja corrigir um erro que cometeu, pois julga em sua inocência de menino e em seu coração bom de filho que assim poupará a mim de outros transtornos. Estou tentando alcançá-lo há muito tempo para dizer-lhe que não há necessidade para isso... Eu... temo pela segurança dele, senhora, pois ainda é uma criança, jamais se ausentou sozinho como está."

A mulher acompanhou o relato daquele pai com olhos atentos e um silêncio restou depois dele, silêncio este no qual Elrond sentiu-se submerso, como um náufrago a quem falta o ar. Ele fechou os olhos por um momento, mas quando se preparava para reestruturar sua retórica em uma nova insistência, a senhora se adiantou.

"Apareceu por aqui bastante ferido. Ambos os braços... cortes extensos e profundos..." Ela disse, o olhar vagando pela imagem triste do passado próximo. "Suas roupas estavam encharcadas de água e sangue e sua energia quase exaurida. Penso que pude ajudá-lo."


"Ah, menino... que faz aqui sozinho nessa escuridão?" A mulher indagou com um suspiro de alívio ao ver os olhos claros do pequeno elfo se abrirem. Encontrara-o caído próximo às raízes de um velho carvalho como se tentasse se esconder, despira-lhe a túnica encharcada e embalara-lhe os ferimentos de ambos os braços. "Está tudo bem." Ela buscou garantir quando os olhos do rapaz se arredondaram e ele esquivou-se das mãos dela, encostando-se mais na árvore que o protegia e buscando nitidamente uma forma de escapar. "Eu não vou lhe fazer mal. Estava ferido e cuidei de seus cortes. Apliquei um pouco do sumo da casca daquela árvore ali." Ela sorriu, apontando o lampião para um arbusto próximo. "É um bom cicatrizante."

O jovem elfo acompanhou o movimento. O susto que sentira parecia ter-lhe despertado as últimas energias, pois ele continuava a observar seus arredores com um olhar temeroso.

"Como é o seu nome, pequenino?" Ela indagou e Elrohir enfim olhou-a nos olhos. A senhora tinha uma voz doce em um tom que ele jamais ouvira. Erestor sempre dissera que os edain perdiam a cadência de suas vozes com o tempo, mas que, em contrapartida, elas ganhavam um tom meigo de alguém a quem a sabedoria enfim alcançara. Aquilo parecia ser verdade. "Pode me dizer, menino. Não lhe farei mal algum. Tem minha palavra. Como se chama? Que alma cruel fez isso com você?"

Elrohir apertou os lábios, indeciso sobre o que fazer. Ele olhou para o céu sobre sua cabeça. Parecia madrugada... mas qual madrugada? Ele voltou então os olhos para os ferimentos enfaixados em seus braços. Por que se ferira? O que havia acontecido? Não conseguia se lembrar...

"Alguém tentou fazer algo de errado com você, filho?" A mulher indagou com cuidado.

Elrohir ouviu a voz de sua salvadora novamente e seus olhos voltaram a encontrar os dela. Poucas vezes vira um adán na vida, apenas os que acompanhavam as comitivas que visitavam Imladris ou lá paravam por algum outro motivo qualquer. Mas junto a elas raramente vinham os edain mais velhos. Ele se lembrava bem da primeira vez que vira um deles. Era o capitão de uma patrulha, cujo rosto, além de marcado por inúmeras cicatrizes, tinha aquelas tais "linhas do tempo" como Erestor mais tarde lhe explicara.

Linhas do tempo. Ele gostava de vê-las, sinais que indicavam o quão fortes e resistentes eram os membros daquele povo. Erestor lhe ensinara que os anos para os edain não passavam da mesma forma do que para os elfos e que suas vidas eram frágeis. Por isso os que eram abençoados com a oportunidade de chegar à velhice de fato tinham que ser admirados e bastante respeitados.

Seu breve devaneio foi interrompido então por um pequeno agravamento da dor em seu braço esquerdo. Ele se voltou para ver a senhora verificando novamente as bandagens. Estava ferido... Por que estava ferido? O que havia acontecido? Por que não conseguia se lembrar?

"Seu semblante é o de quem está sentindo dor." A senhora observou, apoiando gentilmente a mão no braço que embalara e suspirando ao sentir o quanto o menino ainda parecia temê-la. Queria indagar-lhe o que havia acontecido, mas o rosto sofrido e amedrontado daquela criança não a estava inspirando a um questionamento daqueles."Não vou lhe fazer mal. Eu prometo, filho. Está frio. Ainda é madrugada. Venha para minha casa. Quando amanhecer pediremos aos homens da vila que procurem algum conhecido seu."

A frase infelizmente não surtiu o efeito desejado, muito pelo contrário. Ela colocou o pequeno elfo em pé de imediato, fazendo-o agarrar a camisa, mesmo manchada e encharcada e voltar a vesti-la.

"Não criança. Não faça isso. Não pode ir a lugar algum como está, menino."

Mas tais palavras foram inúteis e à senhora restou apenas admirar-se da súbita força do rapaz, que já jogava a pesada mochila nas costas com uma careta de dor e apressava o passo mata adentro. Ela pensou em impedi-lo, mas teve a estranha sensação de que tudo o que podia ter feito por ele já havia executado. No entanto, quando o rosto do rapaz, já bastante distante na mata, voltou-se em sua direção ela sentiu o coração apertar-se, principalmente quando ele ergueu-lhe timidamente a mão esquerda, o rosto quase sem brilho naquela mata tão maior do que ele.

"Que o bom criador o proteja, meu menino." Ela disse retribuindo o gesto de despedida. "Lembre-se da casca da árvore que lhe mostrei. Pode encontrá-la em muitos lugares por aqui. Lembre-se, pequenino!" Ela ainda disse, em tom mais alto e satisfez-se por receber um pequeno e cansado sorriso como resposta, antes daquela figura frágil desaparecer mata adentro.


"Eu quis fazê-lo ficar... Lamento agora não tê-lo feito." Terminou seu relato a entristecida senhora. "Sabia que medicá-lo seria de grande ajuda, mas agora me parece que o remédio principal para as dores daquela criança não estava comigo. Sinto um alívio ao tê-lo encontrado, Elrond de Valfenda, pois percebo que tal medicamento especial está em suas mãos."

A respiração do curador havia voltado a acelerar-se a cada frase daquele conjunto de torturantes informações que, apesar de dolorosas, desenhavam um quadro mais esperançoso do que ele tinha diante de si até então. Ele voltou a olhar a sua volta, já verificando os possíveis caminhos que brotavam da direção apontada pela senhora.

"Tem precisão de quando ele partiu, senhora?"

"Continuou bravamente seu caminho ainda com a lua redonda a surgir por entre as nuvens. Meu coração apertou-se por ele, que não se convenceu a ficar nem mesmo até o amanhecer. Parecia saber bem que estava sendo seguido. Pode ser um menino, mas já age como um guerreiro que orgulharia seu pai."

"E orgulha..." Elrond disse quase para si mesmo, olhando para a mesma direção que os comovidos olhos da senhora apontavam. "Sempre orgulhou..."

"Talvez queira continuar merecedor desse sentimento..." A mulher observou e Elrond ainda olhou-a por um instante, antes de seu impulso de pai movê-lo rapidamente para sobre o animal mais uma vez.

"Tenho para com a senhora uma dívida de gratidão, a qual não sei como pagar. Estarei a seus serviços como, quando e onde desejar, senhora. Sou-lhe mesmo infinitamente grato pela ajuda que ofereceu a meu filho."

A mulher sorriu com tristeza e comoção.

"Vá, bom pai. Alcance seu menino e resgate-o das idéias ruins sobre si mesmo que o devem estar perseguindo. Se realmente acha que tem uma dívida comigo, considere-a saldada assim que o tiver alcançado, pois meu coração terá uma paz que até hoje não encontrei."

Elrond respirou profundamente, mas limitou sua resposta a apoiar a mão no peito e fazer uma breve reverência, antes de pedir que seu amigo eqüino tomasse o rumo que seu coração ansiava seguir.

&&&

Elrohir soltou um grande suspiro, enquanto subia por uma colina árida, aliviado por, depois de julgar-se perdido, enfim reconhecer onde estava.

Chapada dos Túmulos. Disse para si mesmo, lembrando-se novamente da voz de Erestor, vendo o mestre em pé, altivo, diante do grande mapa, os dedos escorregando devagar por aqueles caminhos inimagináveis, enquanto os olhos dos pupilos acompanhavam atentamente a explicação.

Elrohir gostava das aulas de geografia, eram suas favoritas. Apreciava imaginar-se naqueles cenários e sempre que saía delas corria a desenhá-los conforme a descrição precisa do mestre. As palavras criavam vida conforme a voz de Erestor ecoava em seus ouvidos e seus dedos traçavam os caminhos no papel.

Agora as imagens de seus desenhos faziam mais do que ganhar vida. Pensou ao atingir o topo da subida suave e olhando a sua volta. Todas aquelas colinas ao redor daquela na qual estava eram quase idênticas, aglomerados verdes, alguns com pedras pontiagudas fincadas que marcavam a paisagem, mas pareciam apontar para o céu ainda bastante cinza. Ele voltou a cabeça em todas as direções. A oeste os montículos eram um pouco maiores, mas todos refletiam o mesmo tipo de paisagem.

O gêmeo respirou fundo, depois se deixou cair sentado em um pedaço de relva verde, observando a descida íngreme que o aguardava. Era bem mais trabalhosa do que a subida que tivera e não soava motivação das melhores para seu corpo cansado demais. Desde que saíra de Bri não descansara, parando apenas para checar as bandagens. Estava assustado demais para isso. Ainda estava assustado, mal conseguia quedar-se por um momento muito longo, nem mesmo para se alimentar.

Ele ergueu-se então com um gemido de esforço, procurando esquecer-se da dor e do sentimento de solidão que parecia castigá-lo mais intensamente conforme suas forças iam se extinguindo. A cada parada mais prolongada pegava-se vergonhosamente desejando não continuar, desejando ficar ali, ansiando até que alguém surgisse para resgatá-lo. Na verdade já olhava para trás com mais freqüência do que seu coração orgulhoso admitiria.

Naqueles momentos sentia-se ainda mais dividido... Seu espírito estava confuso demais e vez por outra parecia guiá-lo por pensamentos até menos acalentadores do que o de deixar-se ficar em um lugar parado a mercê da própria sorte. Erguer-se e lutar para completar sua missão também não o motivava mais como antes, pois sentia que, mesmo que o fizesse, mesmo que chegasse a seu objetivo final e conseguisse seu intento, não teria mais coragem de conviver com a família, de quedar-se sob a sombra protetora do pai. Envergonhara-o tantas vezes, só agora percebia quantas, só agora percebia o quanto fora intransigente. Um elfinho mimado cujos acessos o paciente pai buscava relevar. Alguém que ainda precisava aprender o significado exato das palavras não e paciência.

Sim, seu pai fora por demais paciente. Talvez fosse melhor para ele tê-lo longe. Elladan decerto lhe daria bem mais orgulho.

"Ada..." Ele apegou-se à figura do curador mais uma vez e fechou os olhos dolorosamente, apoiando a mão no peito, antes de continuar seu difícil trajeto. "Me desculpe..."

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Elrond também passou por aquelas terras depois, saltando insatisfeito do cavalo para conduzi-lo melhor enquanto desciam a íngreme ladeira que escorregava por uma das brechas entre as colinas. Ele suspirou, deixando para trás as tristes sensações que o lugar lhe despertava. Aquelas chapadas haviam sido usadas como locais de sepultamento pelos edain da Primeira Era, antes que entrassem em Beleriand e Elrond, senhor da arte da cura como era, tinha a amarga sensação que aquele ainda seriam palco de outras histórias igualmente tristes. Ele ainda olhou para trás quando o terreno voltou a possibilitar-lhe retomar a montaria, agradecendo por, pelo menos dessa vez, ele não ser personagem, nem mesmo expectador de qualquer cena triste demais.

Sua mente já estava repleta o bastante de outras imagens igualmente tristes, enquanto sua consciência açoitava-lhe cada vez mais impiedosa, conforme o tempo passava e sua busca não atingia o objetivo que precisava ter.

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A noite pode ser tenebrosa, principalmente quando se está sozinho, especialmente quando se sente dor. Elrohir estava sozinho e só aquele sentimento de solidão de tantos dias já poderia ser o bastante para ele encarar o anoitecer na Floresta Velha com olhos de angústia. No entanto, a dor presente nos cortes em seus braços e nos ombros igualmente doloridos pelo peso da bagagem que nunca deixara, estava adicionando àquele cenário uma característica mais sinistra do que talvez ele tivesse de fato.

O gêmeo encostou-se numa velha árvore e olhou para cima. Dentro da densa parte da floresta a luz já não era por demais acolhedora, e a queda rápida do véu noturno cobrava dele decisões urgentes. Fazer uma fogueira ou improvisar um talan? Elbereth, não tinha energia para nenhuma das tarefas, nem mesmo sabia se conseguiria subir naquela velha árvore com o peso que parecia acentuar-se cada dia mais em suas costas.

Elrohir fechou os olhos, apoiando instintivamente a mão por sobe a arma presa sob sua mochila. Sentia-lhe o metal frio colado em sua túnica ainda úmida, sentia-lhe o poder como se crescesse a cada dia, como se o consumisse, roubasse dele a energia. Parte dele sabia que tudo isso era tolice, que sua sensação de fraqueza devia-se apenas aos ferimentos, à árdua caminhada, mas outra não conseguia deixar de temer o poder desconhecido daquela espada, principalmente depois de muitas noites mal dormidas, como talvez fosse ser aquela também.

A Floresta era cheia de sons, principalmente no cair da noite. Eram sons demais para se conseguir dormir tranqüilamente sozinho. Eram sons demais... Elrohir fechou os olhos, deixando o corpo cair devagar, encostado naquela árvore. Desistir, desistir... Aquela palavra permeava seu monólogo mais vezes do que ele gostaria que fizesse, e a ela o jovem elfo passava a dar mais crédito conforme seu corpo começava a se recusar a lhe ser tão útil como fora outrora. Ele soltou um suspiro doloroso, deixando-se invadir por aqueles sons, sentindo os graves e agudos da mata, próximos, distantes, permitindo que preenchessem devagar seu espírito, enquanto imaginava se aquilo seria o desistir, sentir a natureza preenchê-lo assim e imaginar que, com o tempo, aqueles sons o neutralizariam e a relva o abraçaria e ele endureceria como aquele tronco atrás de si e tudo seria simplesmente... floresta...

"Vamos lá, seu animal estúpido!" O som grave de uma voz arredondou-lhe os olhos, fazendo-o subitamente esquecer-se de suas idéias e dores e colocar-se rapidamente atrás do tronco no qual até então se apoiava.

"Devíamos ficar mais longe da estrada." Uma outra voz soou igualmente grave, mas um pouco mais rouca do que a primeira. "Se fizermos uma fogueira aqui qualquer andarilho poderá nos ver. Eu não gosto dessa região. É muito cheia de surpresas das mais desagradáveis."

"Não tem andarilho algum." Uma terceira voz somou-se em idêntico mal humor. "Já é noite e qualquer um, até os menos espertos que nós, já providenciou abrigo ou armou acampamento. Nós demoramos demais, desse jeito nem cruzaremos o rio antes da próxima lua."

"A culpa não é minha." Tornou a falar o primeiro, a voz já bem próxima. "Esse animal que vocês me conseguiram é o bicho mais inútil que já servia a alguém."

"E que culpa temos nós se você conseguiu a façanha de deixar que seu pônei fugisse durante a noite?" Tornou a resmungar o terceiro. "Não sabe nem amarrar a própria montaria devidamente."

"É." O segundo soltou um riso. "Pelo menos se esse burro fugir não vai ser tão veloz."

"Cale a boca, Fesil!" O primeiro advertiu em tom de poucos amigos. "Meu humor se foi com os últimos raios do dia."

Elrohir encolheu-se mais, observando os três vultos aproximarem-se puxando suas montarias. Eram baixos, corpulentos, porém bastante ágeis, logo amarraram seus animais e um deles já limpou um pequeno espaço, adicionou a ele gravetos e trouxe a luz com o primeiro colidir de duas pedras. Seus rostos então surgiram diante da fogueira improvisada.

Eram do povo dos Gonnhorrim, os mestres da pedra. Anões... Três deles. Elrohir olhou-os com atenção. À pouca luz do lugar era como se fossem quase idênticos, excetuando a cor de suas camisas e o comprimento diferente das longas barbas. Um deles, o que puxara o burro, era um pouco mais gordo que os demais e continuava a resmungar, olhando o animal com o mesmo ar de insatisfação. Quando ele se voltou, porém, seus olhos escuros estavam voltados para a direção do gêmeo.

"Os Gonnhorrim são um povo astuto, deveras conhecedor das artes da guerra." Disse certa vez Erestor, diante da gravura de um grupo bastante bem armado de seres cujas longas barbas, mesmo trançadas, quase alcançavam a cintura.

Elrohir estremeceu, mesmo envergonhando-se por isso. Eles eram poucos centímetros mais baixos que ele, porém visivelmente mais fortes e conhecedores das armas que tinham, um deles já afiava o enorme machado diante da fogueira, e foi a voz deste que desviou a atenção do outro que olhava na direção do jovem elfo.

"Será que consigo ao menos pegar uma lebre antes do total escurecer? Estou cansado desse pão e dessa geléia."

"Devia ter pensado nisso antes. Ficou apressando nosso passo o dia todo."

"Quero terminar essa maldita jornada e voltar para casa. Encomenda miserável, da próxima vez exigirei que venham buscar o que precisam."

"Claro! Aproveite e dê-lhes um mapa preciso de onde se encontra nossa mina."

O outro só emitiu um rosnado de protesto, erguendo-se e apanhando um pedaço de madeira para improvisar uma tocha.

"Aonde vai?"

"Caçar algo, nem que sejam minhocas."

"Mas que idiota mesmo! Com uma luz dessas perto de que animal acha que chegará? Nem mesmo as minhocas são tão imbecis."

O outro grunhiu mais uma vez, sacudindo a cabeça depois de abaixar-se para acender sua tocha. Ele reergueu-se então em um movimento rápido e a luz que empunhava passou a ser perigosa demais. Elrohir encolheu-se mais e prendeu a respiração, mas sabia que a sorte voltava a desfavorecê-lo. Não custou até que ele tivesse diante de si três pares precavidos de olhos, cujas mãos empunhavam seus machados de forma bem pouco amistosa. Ele ergueu a cabeça devagar, as costas ainda coladas no tronco atrás de si, enquanto o anão à frente lhe direcionava um olhar misto de desconfiança e incompreensão.

Elrohir pressionou o maxilar, não queria demonstrar medo, queria manter-se firme, mesmo com a dor e a fraqueza querendo derrubá-lo. Os anões entreolharam-se depois de alguns instantes, parecendo consternados.

"Quem é você?" O anão à frente indagou, mas seu olhar não parecia o de quem se vê diante de um inimigo. Elrohir envergou as sobrancelhas e só depois percebeu o porquê do tratamento que recebia. O ferimento de seu braço esquerdo, o mais sério dos dois, voltava a sangrar.

O gêmeo tornou a apertar os lábios juntos, seus olhos escuros passando receosos pelos três estranhos.

"Acho que ele não fala essa língua. Tente outra." Disse o último deles, o dono do burro.

"Ele está falando em Sindarin. Todo elfo entende essa língua maldita." Aborreceu-o o segundo.

"Tenta o Quênya." Insistiu o outro. "Você sabe um pouco... Vai ver o pequeno fala o Avarin... o Quênya todos eles aprendem."

Elrohir encheu o peito, agoniado com a conversa e com o total desconhecimento do que poderia acontecer a partir de então. Estava sentindo o medo crescer dentro de si, mesmo sabendo que não devia permitir que isso acontecesse, mas estava cansado e sua visão escurecia mais do a noite em si já se encarregava de fazer. Tudo o que precisava era ter encontrado alguém naquele momento em que suas forças pareciam impedi-lo de qualquer manobra. Ele fechou os olhos então e quando os abriu percebeu que os três anões estavam agachados diante dele com um ar bastante preocupado. O gêmeo havia escorregado e em seu encosto e caíra sentado.

"Ele não parece bem." O de trás disse e os três se entreolharam, antes do da frente voltar a olhá-lo. No entanto, quando este ergueu uma mão em sua direção Elrohir encolheu-se em um instinto, fazendo-o recuar.

"Nós não vamos machucá-lo, menino." Garantiu o outro, não parecendo, no entanto, muito satisfeito com o ar precavido do gêmeo. "Não compreende o que eu digo? Não entende?" Ele ainda tentou, sem abandonar a língua comum.

Elrohir respirou fundo, sabia da gravidade de sua situação, não podia abusar da sorte. Ele então moveu a mão esquerda devagar, já estava manchada de sangue quando a levantou até a direção do pescoço e fez com ela um breve movimento que os anões pareceram entender, embora tenha despertado neles um inegável estranhamento.

"Não fala? Não pode falar?" Deduziu aquele a sua frente.

"Ora bolas. E desde quando um elfo é mudo?" Desconfiou o dono do burro.

Ele e o que estava a seu lado ainda emitiram outros sons de protesto e inconformismo, antes que aquele que fora chamado de Fesil erguesse uma palma para pedir silêncio aos demais, seus olhos estavam fixos nos do jovem elfo, mas seu olhar era ainda o de preocupação.

"Foi atacado, menino?" Ele quis saber, parecendo realmente tentar entender a situação. Quando Elrohir respirou fundo novamente e apenas assentiu com a cabeça receoso, sua atitude pareceu despertar um sentimento de condolência no anão, que pressionou os lábios, preocupado. "Longe daqui?"

O jovem elfo balançou positivamente a cabeça mais uma vez e o anão voltou-se para os amigos. Eles se entreolharam mais uma vez, e agora até mesmo o aborrecido dono do burro tinha traços de comiseração em seu rosto.

"Perdeu-se dos adultos ou eles morreram no ataque?" Foi ele quem perguntou, recebendo um breve cutucão do anão a seu lado, antes de perceber que talvez tivesse sido direto demais no questionamento.

O rápido empalidecer do jovem elfo só veio comprovar o que temiam ser a verdade dos fatos, por isso Fesil ergueu-se, sem esperar resposta.

"Vamos para perto da fogueira. É arriscado ficarmos aqui." Ele disse e os dois amigos moveram seus corpos robustos, ficando os três lado a lado, enquanto encaravam o que consideravam ser um problema a ser resolvido.

Elrohir retribuiu o olhar com cautela, mas estava satisfeito por sentir que aqueles três estranhos não pareciam ter qualquer má intenção para com ele. Sabia o que devia fazer. Tinha que se levantar como fizera na ocasião de seu encontro com a senhora adán e sair dali o quanto antes. O problema era que não sabia se seria capaz de repetir a façanha. Elbereth, estava muito cansado.

"Consegue se levantar, rapazinho?" Fesil indagou, oferecendo rapidamente uma mão estendida ao perceber que o jovem elfo tentaria descobrir aquela resposta. Elrohir ergueu-se sem precisar da ajuda, mas fechou os olhos assim que se pôs de pé e voltou a encostar-se na árvore atrás de si. Fesil colocou-se a seu lado, mas não o tocou. Não sabia o quanto o rapaz estava ferido, nem queria despertar nele mais qualquer aflição. Apesar de não ter apreço algum pelo belo povo, lamentava por aquele em questão, pois conhecia os elfos o bastante para saber que aquele era ainda muito jovem, por isso lamentava vê-lo ferido e ignorar qual seria a experiência triste que tivera.

Os outros dois se posicionaram logo a frente dele, como se julgassem que o rapaz fosse cair a qualquer momento, mas Elrohir não o fez. Ele reergueu as pálpebras e respirou fundo, combatendo como podia aquela sensação de mal estar.

Quando Fesil moveu a mão em direção à fogueira, dando a entender o que gostaria que o gêmeo fizesse, Elrohir hesitou, ponderando suas escolhas. Jamais se imaginara em tamanhas encruzilhadas como aquelas em que estivera desde que deixara sua terra.

"Vamos, menino. Ninguém vai lhe fazer mal. Vamos para onde há mais luz." Fesil enfim apoiou a mão no ombro do elfo com cuidado e Elrohir viu-se obedecendo devagar, contando os passos que dava, administrando a dor e a tontura que a falta de forças estava lhe despertando, logo estava ajoelhado diante do calor e as mãos de Fesil desatavam as correias de sua bagagem. Elrohir apercebeu-se do movimento e agarrou-se nas alças da mochila. "Não se preocupe. Eu só quero tirar essa bagagem pesada para que possa se sentar, rapaz. Nada que há nela nos interessa."

Elrohir baixou os olhos, envergonhado pelo tom ofendido que fizera despertar naquele estranho. Eles pareciam mesmo dispostos a ajudá-lo, mas o homem no pântano também parecia bastante disposto e ele não podia se arriscar, por isso soltou por vontade própria a bagagem, mas a manteve a seu lado, mesmo quando se sentou com dificuldade no chão.

Os três anões já pareciam ter percebido o porquê de tamanha precaução, pois os olhos deles estavam inegavelmente presos no brilho que escapava indisciplinado através dos panos que o envolviam. Elrohir fechou os olhos, pedindo a Ilúvatar que aquele olhar dos estranhos fosse apenas de admiração ou curiosidade e não de cobiça.

Fesil pareceu entender o temor do jovem elfo. Conhecedor da arte da forja, já percebia, pelo brilho do metal e o tamanho da arma, mesmo envolta e disfarçada como estava, que não estava diante de uma espada qualquer.

Não. Aquela devia ser a espada de algum rei. E se o fosse, quem seria aquele rapaz?

"De quem é a arma, menino? É de seu pai?" Ele indagou então e ergueu as duas mãos ao ver o jovem elfo erguer-se em um impulso como se fosse fugir. Na verdade teria feito isso se o mundo não tivesse rodado e ele tornado a cair. Só não se feriu porque o próprio Fesil o acolheu e daí então nada mais fez muito sentido para Elrohir a quem a escuridão enfim abraçou, depois de muitos dias sem qualquer descanso.

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Há muitos quilômetros dali. Elladan entrava sorrateiramente no estábulo de Valfenda. Fora trabalhoso sair da casa maior sem ser visto. Desde a partida de Elrohir e do pai, parecia que todos só tinham olhos para ele. Aquilo era estranho. A mãe conseguira habilmente desvencilhar-se da atenção e indagações, principalmente as de um intrigado matador de Balrogs, no entanto, com o passar dos dias, o caráter dos olhares que tanto ela quanto o filho mais velho recebiam, estava ganhando ares que nenhum dos dois ousava questionar.

A paciência se expirava. Era o que podia ser sentindo em cada canto do lugar. Há tempos a tolerância de todos estava sendo cobrada a extremos e ultimamente, com a suposta viagem, sem data certa de retorno, daquele a quem as pessoas, autorizadas ou não, continuavam a considerar o senhor daquelas terras, pareceu ser o que faltava para que a situação começasse a se tornar insuportável.

Elladan não culpava aqueles de quem recebia olhares questionadores. Ele mesmo gostaria de ter alguém a quem direcionar suas dúvidas, por isso mesmo fazia a loucura que estava fazendo. Não agüentava mais esperar, por mais que confiasse no pai, seu coração pesava-lhe a cada dia, a cada noite mal dormida, a cada imagem que seus sonhos traziam do irmão. Ele tinha que ir atrás de Elrohir, pelo menos era o que seu espírito desesperado lhe gritava a cada segundo.

Aproximou-se então de uma das cocheiras e recebeu um som conhecido seu como saudação. O relinchar do corcel pardo da mãe. Era um animal dócil que atendia pelo nome de Roquen que em Quênya queria dizer "cavaleiro." Ele e o irmão nunca entenderam porque a mãe escolhera tal nome e a resposta da elfa a esse questionamento toda vez que indagada a respeito era apenas um sorriso oferecido de bom grado.

Roquen fora um presente de Celeborn, o próprio pai chegara um dia em Imladris cavalgando-o. O cavalo tinha a crina prateada e além dela, seu brilho e porte em tudo remetiam ao pai de Celebrian. Talvez aquele fosse o motivo do presente. Ninguém nunca soube. Mas o animal tinha de fato o temperamento de seu antigo dono. Era gentil, pacífico, mas invencível em qualquer atividade a qual lhe era destinada.

Elladan esfregou-lhe o focinho com um sorriso triste, ansiando que o bom amigo da mãe fosse tão feliz também em mais aquela empreitada quanto fora nas anteriores, embora bem menos arriscadas.

"Olá, Roquen." Ele disse mentalmente, abrindo a portinhola da cocheira e permitindo que o animal saísse. "Preciso ir encontrar meu ada e Elrohir. Preciso ajudá-los. Você vem comigo, não é?"

O cavalo ofereceu mais um relinchar sutil como se de fato tivesse ouvido a pergunta, e isso despertou um sorriso um pouco menos doloroso no gêmeo. Ele voltou-se então para a porta do estábulo para conduzir o amigo, e só então percebeu que havia alguém na passagem.

Era o vulto de Celebrian.

Elladan estremeceu, fechando os olhos diante do que aquela visão lhe inferia. Passara quase uma lua tentando convencer a mãe que poderia voltar a dormir sozinho e, quando enfim conseguira a possibilidade de ter alguns momentos sem que o olhar preocupado dela o estivesse acompanhando, não fora eficiente o bastante.

O gêmeo soltou os ombros então, deveras insatisfeito por ter seu plano desarmado. A idéia de deixar aquela perspectiva para trás e voltar para casa, para aquela espera, o agoniava além do que ele se julgava capaz de suportar. E agora, sem outra saída, ele custava até mesmo a encontrar energia para reabrir os olhos e encarar a verdade que até então vinha tentando negar.

Ele não estava em casa. Estava em uma prisão. Ele e a mãe compartilhavam uma espécie de condenação, muito pior do que a que vinham sofrendo antes do regresso do irmão.

Elladan soltou os ombros, e um desejo imenso de cair naquele chão e nunca mais se mover em direção alguma até que as estrelas se apagassem assolou-o de forma quase cruel. No entanto, quando enfim encontrou forças e coragem para olhar novamente para a mãe, um fato chamou-lhe a atenção. Assim como ele a elfa não trouxera qualquer luz para guiar-lhe o caminho, mesmo em uma noite completamente sem estrelas. Seu vulto só se fez conhecido pelo leve cintilar das poucas lamparinas do pátio.

O jovem elfo pendeu a cabeça em sinal de incompreensão e, como se parecesse esperar por isso, a mãe deu alguns passos, aproximando-se mais da porta.

Foi quando, à luz da frente do estábulo, outro detalhe surpreendeu o filho, amolecendo-lhe os lábios soltos.

Era a primeira vez que a via assim. A mãe não trajava seus belos vestidos e mantos, ela usava túnica e calças como as de um guerreiro, quando baixou o capuz da pesada capa que lhe cobria os ombros, seus cabelos estavam inteiramente trançados, presos no topo da cabeça.

Elladan deu um passo para trás, receoso, como se subitamente estivesse questionando a veracidade da imagem que via e a elfa soltou a mochila que carregava em um dos ombros, dando enfim alguns passos para dentro do estábulo.

Agora na total escuridão de dentro do lugar, seu rosto transformava-se em um borrão. Ela achegou-se em instantes e ajoelhou-se diante do filho, pousando ambas as mãos em seu peito arfante.

O jovem elfo teve um momento de hesitação, mas depois cobriu instintivamente as faces da mãe com ambas as mãos, como se buscasse as respostas das perguntas que não poderia proferir. Ele lhe tocou as linhas de aflição com urgência e se surpreendeu então por perceber-lhe o rosto úmido e preocupado.

Celebrian ainda deixou-se ficar ali, enquanto o filho enxugava-lhe as faces, levando os últimos vestígios de seu pranto, mas não aplacando a série de dúvidas que a moveram até aquele lugar. Sabia que estavam sem tempo, que logo o amanhecer desfavoreceria a saída de ambos. Passara noites em claro lendo e relendo as intenções do filho, imaginando quanto o rapaz ainda resistiria, quanto ela ainda resistiria. Nunca estivera tão dividida em sua vida, mas de algo estava certa, não conseguiria agüentar mais um dia naquela situação.

Pensando nisso ela tomou as mãos do filho nas suas e depositou nelas dois beijos breves.

"El-nín." Ela disse e deixou que o sorriso de sempre estivesse presente em seu rosto, enquanto recebia o olhar confuso e angustiado do filho. Pobre Elladan, certa vez o próprio pai revelava o quanto temia por aquela sempre presente disposição que o primogênito tinha em ajudar o irmão, fossem quais fossem os custos. "Sei da dor e do afeto que te movem, ion-nín, pois estão aqui em meu peito também. Seu pai vai nos dar a maior repreensão de nossas vidas por isso, não é?" Ela disse forçando um riso travesso, apenas para tentar apagar aquele receio que congelava os traços do filho.

Como resposta, porém, a elfa recebeu um abraço cuja energia jamais se esqueceria. Um abraço forte e intenso que lhe roubou todas as incertezas. Eles eram uma família e uma família continuariam sendo, não importava o que os aguardasse, não importava o que fosse acontecer.