Olá. Espero que todos estejam bem. Acho que, enfim, estou no término dessa jornada junto com o meu elfinho. Há ainda alguns poucos obstáculos, se ele for "bonzinho" e não quiser mais aprontar comigo e fazer o que lhe der na telha.

Gostaria de agradecer muito, mas muito mesmo, pelas reviews que recebi. Estou tento alguns problemas no trabalho, mais um projeto do governo que vem "de cima pra baixo" sem tempo hábil para qualquer coisa e temperado com uma série de exigências de todos os tipos. Meu feriado passado praticamente inexistiu e não creio que vou ter alguma paz até as férias de julho.

Bem, mas não vai ser isso a me conter, sempre há um tempinho aqui e ali. Computadores no banheiro talvez fosse uma boa alternativa hehehe... Mesmo assim, peço desculpas àqueles cujas reviews ainda não respondi. Pretendo fazê-lo o mais rápido possível, espero que essa minha falha não impeça os amigos de deixarem novos comentários.

Espero que gostem do capítulo, mellyn-nin. Que ele não tenha ficado muito confuso e que a história faça por si o seu papel.

Beijos.

Sadie


CAPÍTULO XI – SUPERAÇÃO

É corajoso quem teme o que se deve temer, e não teme o que não se deve temer.

Leon Tolstoi


Se havia algo que Elrohir sempre amara com toda força de seu espírito era o som do correr de um curso d'água. Desde muito pequeno o brilho do sol em qualquer poça no chão parecia encantá-lo. Nas caminhadas de treinamento que fazia com o grupo, era sempre o primeiro a encontrar qualquer veio d'água como se fosse um cão farejador. Elrond chegara a dizer certa vez, que aquele afeto todo parecia uma espécie de herança que o anel do pai, Vilya, deixara ao gêmeo.

A água sempre fora bem vinda para ele, e talvez por isso fosse o som dela que o estivesse despertando. No entanto, não era o cursar suave de um veio comum que ele ouvia, era o típico som de pedras açoitadas com exatidão e dureza por uma correnteza em total desassossego. Ele ergueu as pálpebras ao perceber que seu corpo sacudia de uma forma estranha.

"Pare, Glosur! Pare! Ele acordou." O jovem elfo ainda ouviu alguém dizer, antes do pesado som de duas botas ganhando o chão perto dele sobressaltá-lo. Elrohir reconheceu o rosto preocupado de Fesil, mesmo contra a luz, depois sentiu que estava sobre uma espécie de armação de madeira e palha trançada. Quis então mover os braços, mas percebeu que estava amarrado. "Vá com calma, rapaz.! Calma!"

Elrohir ignorou a advertência e não esperou qualquer outra explicação, passando a forçar ainda mais os braços para se libertar.

"Menino idiota! Quer abrir os ferimentos? Aquiete-se ou farei com que meu machado o obrigue a isso!"

Mesmo o som daquela ameaça não pareceu contê-lo e o gêmeo ainda resistiu por um tempo, para só depois, ao notar que de fato a intensidade de sua dor aumentava consideravelmente com a insistência de seus movimentos, concluir que havia verdade nas palavras do anão. Ele parou de se debater e só então, recuperado do susto e passada a sensação do despertar, começou a dar conta da grave situação na qual se encontrava. Os anões o haviam atado a uma maca improvisada cuja extremidade dianteira estava amarrada na montaria de um deles, enquanto a outra era carregada por aquele anão, cujo nome o gêmeo ainda desconhecia.

Fora aprisionado. A conclusão óbvia tomou-lhe a mente e inflou-lhe o peito no mesmo instante, roubando-lhe a cor. Ele tornou a olhar a sua volta, não conseguindo disfarçar a apreensão imensa que o estava assolando. Era um guerreiro, já passara por tanto desde que saíra de sua terra, por que, justamente naquele instante, seu espírito decidira lembrá-lo de que, apesar de tudo, era apenas um menino?

O anão torceu o bigode, em uma insatisfação cujo motivo Elrohir até temia questionar, mas depois ele balançou a cabeça, soltando os ombros com um ruidoso suspiro.

"Escute, rapaz." A voz de outro anão surgiu, o dono do burro, que descia de seu animal com ares de poucos amigos e tom deveras impaciente. "Você desmaiou de cansaço, dor, frio, fome, nós nem sabemos. Então o trouxemos conosco porque não sabíamos o que fazer. Não podíamos simplesmente deixar você em um lugar daqueles. Ficamos tão insatisfeitos com isso quanto dá pra imaginar. Você só fez atrasar nossa jornada. Se esse burro já é lento por conta própria, imagine o passo do infeliz com a desgraça dessa maca amarrada a ele. Pior que isso é que ainda temos que nos revezar carregando a outra parte dessa desgraça."

Elrohir apertou os lábios, sem saber o que deduzir daquelas palavras, principalmente com o inquestionável tom de insatisfação que as cadenciava. Ele estremeceu mais uma vez, depois respirou fundo, tentando se conter.

"Cale a boca, Glosur. Não vê que está assustando o menino?" O terceiro anão, que mantinha a maca erguida, manifestou-se.

"Cale a boca nada! Essa foi a pior viagem que eu já fiz e ainda nem estamos no final dela. Não sei se vocês repararam, mas isso aqui é a baixada do Baranduin. Preciso dizer mais? Quer lugar mais aberto que essas porcarias de chapadas? Podemos discutir isso um pouco melhor entre as colinas? Até que estávamos em um passo razoável até esse peste acordar."

"Nada disso. Eu estou querendo parar para comer desde antes de cruzarmos esse maldito rio. Vamos aproveitar que o pequeno acordou e darmos a ele algo para comer também."

Enquanto os dois amigos discutiam Fesil observava ao longe, analisando o território, sentindo as preocupações e seus fundamentos. Ele olhou novamente para o gêmeo, ao perceber que a atenção do jovem elfo estava focada nele e que havia muito receio naquele olhar. O anão encheu o peito. Não podia deixar de sentir pena do rapaz. Sabe-se lá pelo que havia passado e agora acordava assim no meio daquele bando de anões barulhentos, preso e sem poder se comunicar.

"Nós não vamos fazer mal a você. Entende?" Ele disse então e soltou os ombros ao ver o menino engolir em seco, mas assentir com a cabeça. No entanto, o olhar preocupado do pequeno elfo a sua volta fez com o Fesil compreendesse que precisava dar ao menino maior segurança. Ele apontou então para o próprio pônei e Elrohir viu ali o que procurava. "Sua bagagem está em minha montaria. Só mexi nela para conseguir uma outra camisa para você, não mexemos em mais nada."

O gêmeo abriu os olhos ao ver a mochila, mas logo a imagem que procurava surgiu. A espada ainda estava atada a ela, no mesmo lugar. Uma sensação de alívio adormeceu-lhe o corpo então.

"Glosur disse a verdade. Trouxemos você porque temos um prazo a cumprir e não sabíamos o que fazer. Contávamos encontrar algum dos seus na viagem, mas digamos que essa Floresta Velha não é mais lugar de elfos, nem mesmo os silvestres, pelo menos não tivemos tal sorte." Fesil completou, mas dessa vez não tentou ler qualquer resposta no rosto do calado menino, só soltou um suspiro de cansaço e voltou-se para os amigos. "Vamos acampar por sob aqueles arbustos ali. As árvores e aquela pequena depressão nos esconderão um pouco das vistas do caminho. Também estou com fome."

Elrohir não se manifestou, mesmo porque, diante do som de alegria e prazer que os demais anões emitiram, estava mais do que claro o que iam fazer. Ele procurou se acalmar, precisava se concentrar, ganhar forças para escapar deles antes que conseguissem seu intento. Encontrar um outro elfo não era exatamente o que o ajudaria naquela altura do percurso, ele pensava, enquanto o burro e o anão levavam sua maca na direção proposta e ele tentava ler a paisagem.

Glosur dissera a verdade. Aquela era a baixada do Baranduin. Ele se lembrava bem da descrição de Erestor e dos desenhos e pinturas dos livros. Ao longe podia ver as colinas e os inúmeros anéis e espinhaços à volta delas. Ele fechou os olhos mais um pouco, estava se sentindo estranho, não sabia se era pelo sacolejo desagradável da maca ou pelo ferimento que não parecia ter melhorado tanto assim, mesmo com o período de sono que não parecia ter sido tão curto, haja vista que já haviam abandonado a Floresta.

Quando o burro virou um pouco para a esquerda, abandonando a estrada, Elrohir teve uma visão melhor do caminho que ainda tinha que seguir. A sinuosa Estrada do Leste... passar pelas Chapadas Brancas, pelas Chapadas Distantes... Chegar até a Colina das Torres... o Golfo de Lune... e o mar... Ele fechou os olhos, sentindo um arrepio correr-lhe os braços. Elbereth, era um caminho tão longo... Tão longo...

&&&

"Shh, pare de fazer barulho, Glosur. Vai acordar o menino. Ande, vai fumar esse cachimbo em outro lugar."

Um som de protesto surgiu, mas foi engolido. E o barulho abafado do caminhar de duas botas pesadas por um solo arenoso se afastando se seguiu.

"Mas ele precisa acordar, Fesil." Outra voz, em um tom baixo e precavido falou. "Não podemos continuar levando-o assim como se fosse parte da bagagem. Temos que descobrir quem ele é."

"Eu sei."

"Sabe, mas não faz nada. Desde que passamos a ponte ele não acordou mais. Teve até febre um dia desses. Não comeu nada também e já cavalgamos quase uma lua."

"Não exagere, ainda temos dois dias até a próxima lua. O que ganharemos descobrindo quem é ele? Melhor é que durma e não nos dê dores de cabeça. Quando chegarmos à Colina das Torres, com certeza encontraremos alguém dos elfos lá."

"Vai ter que ser. Porque até os portos eu não vou. Já nos desviamos da nossa rota o suficiente. Devíamos ter continuado na estrada."

"Esse atalho é mais curto. Poupamos bastante tempo. Mais alguns dias e pegaremos a principal de novo."

O outro soltou um som de insatisfação. Depois se moveu.

"Quer saber?" Ele disse apanhando o cantil. "Vou ver se faço ele beber um pouco de água pelo menos."

"Isso. Você já conseguiu das outras vezes. Tente de novo."

"Sei... Queria é que o infeliz comesse algo. Está perdendo peso visivelmente."

"Ele não é um porco para abate, Rognus. Pouco importa o peso. Esses elfos se recuperam rápido."

O outro anão soltou mais um som de protesto, depois balançou a cabeça, sentando-se ao lado da maca e olhando para o menino ainda adormecido.

"Podíamos pelo menos soltá-lo."

"Não."

"Por que, Fesil?"

"Só para cuidar dos ferimentos, Rognus. Já combinamos. Ele pode acordar e fugir."

"Ele nem vai poder caminhar se acordar, o coitado."

"Esses elfos são surpreendentes, você não sabe do que estou falando. Vá por mim. Eu conheço essa raça. Eles renascem das próprias cinzas."

Rognus continuou olhando para o amigo, mesmo terminado o relato deste. Depois sacudiu a cabeça.

"E se ele fugisse?"

"Não vai fugir. Está preso."

"Mas e se fugisse? O que temos com isso?"

Fesil não respondeu, limitando-se a se erguer, apenas para sentar-se um pouco mais longe e acender o cachimbo. Seu olhar, no entanto, estava perdido, como se conjeturasse a resposta daquela pergunta particularmente.

"Ele nem precisa fugir, precisa, Fesil?" Rognus insistiu, levantando-se também e agachando-se diante do amigo. "Não estou entendendo. E se ele acordasse e quisesse ir embora? Não é nosso prisioneiro."

"É. Seria uma benção se ele fosse embora." Completou Glosur, entrando na conversa enquanto voltava a se sentar perto da fogueira. "Assim não precisaríamos estender nosso trajeto assim."

"É um menino." Fesil enfim respondeu. "Não pode andar sozinho. Temos que deixá-lo com um responsável por ele."

"Não temos obrigação de pajeá-lo." Opôs-se imediatamente Glosur, parecendo até indignado com o comentário. "Não vamos ganhar nada com isso, vamos?" Ele completou. Porém, diante do estranho silêncio do líder do grupo, os outros dois anões se entreolharam, apercebidos de algo que até então não lhes ocorrera.

"O que tem em mente, Fesil?" Foi Rognus a indagar quase de imediato. "Acha que vão nos dar uma recompensa ou algo assim se encontrarmos a família ou alguém que o conheça?"

Fesil deu de ombros, ainda olhando para o horizonte.

"Tudo é possível."

Glosur olhou o menino com outros olhos, depois a mochila ainda amarrada no pônei de Fesil.

"Mas se a intenção é ganhar algum, Fesil." Ele disse, os olhos ainda presos na arma que resplandecia, mesmo envolta ainda em sua cobertura protetora. "Não seria mais vantajoso se..."

"Ele deve ser alguém importante." Fesil impediu que o amigo revelasse uma idéia sórdida que, por certo, já havia passado pela cabeça de todos eles. "Por isso está com algo de tanto valor. Eu não mexo em armas que não me pertençam, principalmente esta aí... Não sei por que, mas tem algo nela que não me agrada. No entanto, se encontrarmos alguém que conheça o menino, decerto nos recompensará. Ele é filho de alguém importante, eu tenho certeza, e os elfos costumam ser... generosos... quando são bem atendidos e, principalmente, no que concerne às suas crias."

"Bom... Se ele não for generoso podemos fazer com que seja." Glosur comentou então, mas Rognus lhe lançou um olhar inconformado na mesma hora.

"Você não pode mesmo ver um elfo sem querer cortar-lhe o pescoço, Glosur?"

"Eles não são de confiança. Mesmo porque essa história continua não me agradando em nada. Ficamos mudando todos os nossos planos por causa desse menino, baseados em apenas algumas perspectivas que podem nem se concretizar. Afinal, quem me garante que o pai dele não esteja morto lá atrás em algum lugar?"

Elrohir, que até então fingia estar adormecido, não pôde evitar que um temor estranho lhe sacudisse o corpo com aquele comentário. Logo uma mão calosa estava em sua testa, mas ele continuou sua encenação.

"Acordou?" Fesil ergueu-se em um sobressalto.

"Acho que não." Rognus respondeu, mantendo a palma aberta por sobre a testa do rapaz por algum tempo. "Mas está meio febril ainda. Vou ver se consigo fazê-lo tomar um pouco de chá."

"Não dê nada a ele, deixe o corpo do infeliz se virar." Glosur disse como impaciência. "É a droga de um elfo. Os abençoados não sofrem como nós quando envenenados."

"Não sei se é veneno..." Rognus disse, pensativo. "O corte não parecia de uma arma orc."

"Os saqueadores também munem suas armas com veneno." Fesil lembrou com um ar de indignação. "Se a caravana dele foi saqueada é provável que tais ferimentos estejam envenenados."

Rognus balançou tristemente a cabeça, ainda apoiando a mão no rosto do jovem elfo.

"Pode ser, mas acho que tem a ver com o cansaço também, falta de alimentação, ou talvez a própria situação limite na qual está. É só um menino, um menino perdido. Ele precisaria dormir de fato com tranqüilidade, e não nesse sacolejo bendito que estamos impondo ao corpo do pobre. Mesmo adormecido percebo-o sobressaltar-se a cada mudança brusca do território. Além disso, ele precisa se alimentar também. Assim o corpo terá forças para reagir ao que quer que esteja acontecendo."

"Não temos que nos preocupar com ele também." Glosur resmungou por entre os dentes. "Era só o que faltava. Já fizemos demais. Ele que acorde e coma ou morra de vez."

"Não seja cruel. O menino não tem culpa. Ele confiou em nós."

"Confiou... O infeliz tinha alguma opção? Estava sangrando, ferido, sozinho e desarmado, porque duvido que ele consiga erguer aquela espada ali. Que alternativa ele tinha naquele momento em que o trouxemos para perto da fogueira. Sair correndo?"

"Glosur tem razão." Fesil disse, ainda olhando o rosto pálido do jovem elfo. "Deixe que o corpo e o espírito dele se ocupem com esse mal por um tempo, seja ele qual for, assim o teremos sob controle. Quanto menos recuperado ele estiver por enquanto, melhor será para nós. São só mais três dias até a Colina das Torres por esse caminho que estamos fazendo e se o tempo continuar a nosso favor. Amanhã, até o fim da tarde, já teremos alcançado as Chapadas."

"Eu quero voltar para a estrada." Queixou-se Rognus. "Se querem tanto encontrar alguém seria a melhor decisão."

"A estrada não nos garante encontrar quem precisamos. Esse caminho está cheio de saqueadores e estamos na desvantagem com esse peso extra e esse objeto de valor que levamos."

Rognus soltou um abafado som de desabafo, depois se jogou no chão ao lado da maca. Não sabia dizer o motivo, mas discordava inteiramente da atitude do líder de seu grupo.

E foi por esse motivo que, algumas horas depois, assim que Fesil afastou-se para apanhar mais lenha e Glosur se perdeu em seus próprios roncos e outros sons noturnos, o anão apanhou uma tigela do caldo que sobrara na fogueira, ergueu um pouco a maca onde o gêmeo estava e encostou nos lábios dele o líquido ainda morno.

"Vamos lá, rapazinho. Beba a sopa antes que não haja mais tempo. Vamos. Ainda tenho que te dar mais um pouco daquele chá ruim" Ele insistiu, vendo o menino franzir o rosto diante do incômodo que tentava despertá-lo de um sono bastante intranqüilo. "Quer ficar bom, não é? Quer rever seus entes queridos, ser livre, poder caminhar sem estar preso, não quer?" Ele insistiu e seus lábios se ergueram em um pequeno sorriso quando viu os olhos semi-abertos do elfo. O menino ainda estava muito fraco e aquela atitude parecia ser um grande esforço. "Isso mesmo." Seu sorriso se alargou ao ver os lábios do prisioneiro se desprenderem um pouco e ele aceitar a oferta, bebendo a sopa em pequenos goles. "Beba tudo, rapazinho. Tem que se alimentar e ficar bom."

&&&

O cavalo de Elrond descia os suaves declives da longa Estrada do Leste sem grande vigor. Seu cavaleiro passava todos os instantes com os olhos presos ora no horizonte ao longe ora nos pequenos detalhes próximos. Desde que saíra da Floresta Velha não conseguira encontrar mais qualquer vestígio do filho e isso estava criando dentro dele um sentimento de agonia quase incontrolável.

Desaparecera. Elrohir simplesmente desaparecera.

Como aquilo era possível?

Elrond fechou os olhos, buscando não dar ouvidos às palavras que sua consciência e sua lucidez lhe ofereciam como resposta àquela dura indagação.

Não. Ele não o perdera de vez... Elrohir estava vivo. Ele podia senti-lo dentro de seu peito, sentia a presença do filho, sentia o afeto mútuo que trocavam mesmo com todas as intempéries.

Não. Elrohir estava vivo.

Elrond soltou os ombros, diminuindo enfim o passo do animal para oferecer a ele e a si mesmo um pouco de água. Foi quando percebeu que havia por sobre a leve colina na qual estava uma pequena cascata de onde a água caia alguns centímetros, brotando de uma pedra acinzentada. Ele apeou apenas por alguns instantes, próximo a um vidoeiro, e deixou as pernas relaxarem da dura jornada por sobre o cavalo, enquanto reabastecia seus cantis e permitia que o amigo eqüino matasse a sede também.

Depois de algum tempo o animal relinchou, ao perceber o olhar do dono distante e triste e Elrond ofereceu a ele um sorriso breve, passando a mão pela crina escura e encostando brevemente a testa no pescoço do animal.

"Ah, Durion. De todas as obras nas quais poderia ter falhado em minha existência, essa seria a mais imperdoável delas. Preciso encontrar meu menino ou não saberei mais o que fazer nessa terra ou em nenhuma outra."

O cavalo voltou a relinchar e Elrond soltou ambos os braços. Não parara há dois dias, nem mesmo para se alimentar e ele percebia que seu bom amigo, apesar de estar entre os mais fortes eqüinos que já havia tido a oportunidade de ter a seus serviços, estava esgotado, assim como ele também.

O curador subiu os olhos pelo caminho que tinha diante de si. A Estrada faria mais alguns zigues-zagues, subindo preguiçosa outras colinas e bancos de terra solta, antes de converter-se em uma trilha entre outras altas árvores.

O anoitecer já transformara tudo em um quase perfeito breu há algumas boas horas.

Não. Não seria sensato continuar por um caminho tão cheio de mistérios. Pelo menos não até que o sol voltasse a sua posição.

Um novo dia. Era do que o curador precisava. Um novo dia e, se o bom Ilúvatar o ajudasse, uma nova esperança.

&&&

Quando Elrohir voltou a si reconheceu o sacolejo de sua maca. Ainda estava em jornada. Ele arriscou-se então a abrir os olhos alguns centímetros, apenas para tentar descobrir onde estava. Seu corpo doía mais a cada dia, talvez devido à posição constante na qual estava, a ausência de qualquer exercício, ou talvez pela seqüela da estranha febre que tivera.

Seus braços ainda estavam feridos. Podia sentir a dor sob as bandagens. Ele estava demorando a se recuperar e isso não era um bom sinal. Seu coração já se afligia com a situação na qual estava e por não ter uma noção específica de quem eram esses anões que o mantinham preso.

Essa era a pior parte do problema. Rognus tinha se mostrado cordial por diversas vezes, oferecendo-lhe medicamento, água e alimentação quando os outros não estavam vendo e libertando-o das amarras sempre que podia. No entanto, o fato do anão continuar a oferecer tal ajuda sempre nos momentos de ausência dos companheiros, além de insistir para que ele fingisse sempre estar dormindo na presença deles o estava preocupando. Elrohir acatava os conselhos, questionando-se sobre seus motivos, mas não chegando a qualquer conclusão efetiva.

O gêmeo moveu levemente as pupilas e, ao ver que era Rognus que levava a maca, arriscou-se a ao menos tentar descobrir que lugar percorriam. Estavam em terras abertas. Onde seria? Era um caminho menos íngreme, mas que começava a descer suavemente, indo em direção a oeste. Elrohir enfim descobriu onde estava.

Eram as Chapadas. As Chapadas Brancas.

As montarias dos anões caminhavam lentamente ao sul das colinas mais altas, virando cada vez mais em direção ao nascer do sol. Além das Chapadas já se viam terras estranhas, sem qualquer resquício de habitação, terras baixas cobertas de capim bem verde, onde um inexplicável sentimento parecia habitar.

Elrohir piscou algumas vezes, não conseguia deixar de olhar para aquela paisagem. O dia estava frio, mas elas por si só pareciam emanar uma agradável sensação de calor... algo a ver com... liberdade...

&&&

E a liberdade veio da forma que ele menos esperava. Fora para ele apenas após um breve fechar de olhos, mas agora percebia que talvez não tivesse sido tão breve assim. Elrohir despertou com um súbito sacudir em sua maca, então a sentiu tombar no chão e o rosto circunspeto de Rognus surgiu diante dele.

"Fuja, menino!" Foram suas palavras, antes dele cortar rapidamente as cordas que o prendiam e sair de suas vistas sem maiores esclarecimentos.

Na verdade, maiores esclarecimentos fizeram-se completamente desnecessários, principalmente quando o gêmeo percebeu para onde corria o anão. A alguns poucos metros, o pequeno grupo era atacado por um outro com praticamente o triplo dos integrantes. Seres abomináveis que o gêmeo conhecia muito bem.

"Orcs."

Não houve sequer hesitação. E qualquer mal que pudesse estar assolando o jovem elfo, de repente pareceu ser de quase nenhuma importância, pois o gêmeo colocou-se em pé no mesmo instante e, até para a sua própria surpresa, ignorou o conselho de Rognus e atirou-se na batalha desigual com uma gana de guerreiro, que no futuro viria a ser sua marca registrada.

Até os anões não acreditaram no que viram.

Nem os orcs acreditaram no que viram.

"Ele nem tem força para erguer aquela espada." Cuspia com ironia Glosur com as costas coladas às de Fesil. "Nunca mais afirmarei nada sobre elfos. Nada mesmo!"

"Eu disse que ele não era um elfo qualquer." Resmungou o outro, igualmente perplexo com a cena que via pelo canto dos olhos, enquanto ele e o amigo travavam sua batalha pessoal, tentando conter o avanço de seis criaturas que gritavam e blasfemavam contra eles.

O primeiro inimigo a conhecer o valor da arma que Elrohir reforjara nem soube bem o que o atingiu. Ele estava ocupado demais buscando derrotar, junto com mais outros quatro orcs, um anão ensandecido que simplesmente não queria cooperar. Rognus viu a cabeça de um dos algozes voar longe, bem no momento em que a espada deste vinha em direção a seu peito. Ele ainda teve um instante para admirar-se com a imagem que surgiu por trás do orc quando este foi ao chão, mas logo não houve tempo para mais nada, pois os inimigos eram tantos que, aos olhos dos anões, pareciam estar se multiplicando.

Elrohir também não parecia preocupado em julgar a capacidade de batalha de seus companheiros, muito menos ponderar sobre seus próprios esforços e dores. Ele apenas girava com surpreendente destreza a longa e pesada espada, decepando membros e criando imagens que, na certa, não seriam recordações agradáveis no futuro. Quando o grito de Glosur chegou a seus ouvidos, foi do gêmeo o derradeiro golpe que levou ao chão o corpo do último adversário que ameaçava o anão, fazendo a cabeça do orc voar a metros de distância.

Restou a imagem de quatro guerreiros exaustos, rodeados por uma quantidade impressionante de corpos inimigos. Os três anões enfim se olharam, após assegurarem-se que o perigo havia passado. Glosur tinha um corte extenso no braço, ao qual segurava com uma expressão de dor. Rognus não parecia ferido, no entanto era o mais exaurido deles, curvado agora, apoiando as mãos nos joelhos. Fesil parecia ser o menos abalado fisicamente, e era também o único que não baixara de imediato o machado, olhando ainda a sua volta como um cão acuado. Custou algum tempo até que ele o fizesse, já para encontrar Rognus acudindo o amigo ferido.

"Seres malditos e asquerosos!" Ele disse, olhando, ainda arfante, a pilha de corpos a sua volta. A quantidade deles era tão grande que, mesmo caídos e imóveis, eram de difícil contagem. Custava a crer que haviam sido capazes de vencê-los em número tão reduzido. Na verdade, não teriam tido tamanho êxito com o mínimo de danos físicos como tiveram sem a ajuda inesperada, porém providencial, que surgira em socorro deles. Só agora a imagem inacreditável daquele menino elfo, brandindo uma espada quase de seu próprio tamanho, pôde despertar nele o estarrecimento que, com certeza, os demais anões também compartilhavam.

"Cadê ele?" A voz surpresa de Rognus o trouxe de volta e ele se voltou para a imagem do preocupado amigo, que olhava para todos os lados. Fesil fez o mesmo, descobrindo o porquê do contundente questionamento. O pequeno e aparentemente frágil menino elfo, ferido, portando uma arma enorme e pesada, havia desaparecido.

&&&

Enquanto o valente Elrohir buscava, a todo custo, continuar sua jornada, munido apenas da espada enegrecida com o sangue inimigo, Roquen mostrava a sua senhora o valor do presente que esta ganhara. Ele transpunha obstáculos que nem mesmo o forte corcel do senhor de Imladris fora capaz de fazer com a mesma velocidade. Celebrian enlaçava os finos dedos na crina prateada, enquanto sentia as mãos de Elladan em sua cintura. Vez por outra ela fazia ao filho alguns gracejos, apenas para senti-lo sorrir. Era naquele momento difícil que vivia que o voto de silêncio dos irmãos mais a incomodava, por isso mesmo ela o provocava sempre que podia, não apenas porque era delicioso vê-lo sorrir, mas também porque, ao fazê-lo, conseguia a sorte de, às vezes, roubar-lhe algum som.

Cruzavam agora o pesaroso Pântano dos Mosquitos, passando pela neblina e nuvens de insetos encolhidos por sob os pesados mantos, mas sem conter seu passo que, de tão apressado e decidido, impediu-os de ver a cena triste que aquelas águas escuras já encobriam. Mais uma vez o corpo do algoz que se convertera na primeira vítima da espada reforjada pelas mãos do próximo guerreiro, ficara para trás sem socorro.

Havia três dias que cavalgavam sem qualquer descanso, por isso Celebrian decidiu parar por sob as árvores amigas da Floresta Velha. Estavam cansados, mas ainda assim Elladan dispôs-se a fazer uma fogueira sem mesmo que a mãe lhe pedisse. A elfa admirava-se a cada dia com a destreza que o primogênito demonstrava. Era uma lástima serem aquelas circunstâncias difíceis a lhe mostrarem as habilidades do filho. Ela virou-se então para apanhar a bagagem na montaria e aproveitou para tentar ler os sinais da floresta.

Já quase anoitecia, e as folhas acobreadas do início do inverno perdiam gradativamente o tom, conforme o sol lhes privava de seus últimos raios. Celebrian suspirou, enquanto deixava o olhar se perder naquela paisagem de cores diversas, lembrando-se que fora num lugar como aquele que vira Elrond pela primeira vez.

Depois da libertação de Eriador, Galadriel, que havia se apartado do esposo, a quem destino envolvera em importantes conflitos, sentiu que o desejo do mar se tornara forte demais nela e decidiu viver perto do mar. Ela passou de novo através de Moria com a filha e chegou a Imladris, à procura de Celeborn. Elrond viera receber a comitiva que as trouxera e aquela fora a primeira impressão que Celebrian tivera dele. Um lorde elfo em vestes de guerreiro, tão silencioso e altivo em seu cavalo negro que a elfa chegou a se questionar se ele era de fato real ou apenas uma imagem de seus sonhos.

Elbereth, ele era o mais intrigante de todos os elfos que ela já vira e fora uma luta bastante árdua não demonstrar o que seu coração subitamente descompassado a estava fazendo sentir. Havia algo nele, algo inexplicavelmente mágico que a fazia desejar ler-lhe todas as entrelinhas, descobrir-lhe todas as dores, todos os segredos, todos os desejos. A princípio ela até tentara recompor-se, mas em instantes seus olhos voltavam a traí-la, tomando, desobedientes, o rumo daquele cavaleiro misterioso.

A elfa sorriu, lembrando-se que ficara tão encantada que mal conseguira saudar o pai que há tanto tempo não via. No entanto, o senhor de Imladris limitara-se a oferecer a ela uma gentil, porém distante, saudação quando apresentados, o que a entristecera mais do que gostaria de admitir na época. Mais tarde, entretanto, Elrond assegurou-lhe que o sentimento fora mútuo, e que apenas a discrição e o receio de qualquer ofensa ou mal-entendidos o levaram a esconder o que sentia.

Celebrian ergueu a mão direita, segurando, instintivamente o broche que usava para manter a capa sobre as costas. Era o símbolo de Imladris, de uma terra da qual nem Elrond, nem ela, eram mais senhores. Muita coisa havia mudado e a ela só restava lamentar o que tivera que ficar para trás, sentir pelas perdas, mas buscar, como sempre fizera, seguir o rumo que seu coração lhe determinava.

Ela soltou um longo suspiro. A mata escurecia rapidamente e a elfa ainda estava indecisa se deveriam ficar em solo ou construir um talan. Tudo parecia ser indecisão nos últimos dias daquela jornada, conforme os poucos sinais que encontravam mostravam-se reveladores de quase coisa alguma. Ela se voltou, pensando em indagar a opinião do filho, mas quando buscou por ele, teve um sobressalto. O rapaz não estava na pequena clareira na qual decidiram acampar.

"Elladan?" Chamou, primeiro em tom baixo, depois mais alto. "Elladan!"

A ausência de qualquer resposta não foi acalentadora, fazendo apenas com que a elfa se apavorasse, sacando a espada imediatamente, dando mais alguns passos pela clareira com olhos atentos, mas o coração acelerado.

"Elladan!... Elladan!... Elladan!" Ela ainda chamou outras vezes e já ia entrar na mata quando a figura do filho surgiu detrás de um velho carvalho, roubando dela um sonoro suspiro de alívio. "Elladan! Onde, por Varda e todas as estrelas no céu, você estava, elfinho? Como desaparece assim sem me avisar? Onde foi? Quer parar meu coração?" Ela explodiu em tom agoniado, ainda com a espada erguida. Perceber que o menino portava seu arco a alertou ainda mais. "Por que está armado? O que aconteceu?"

Elladan, que arredondara os olhos diante do tom austero da mãe, ainda ficou petrificado por mais alguns minutos, jamais recebera uma advertência dessas dela, na verdade jamais a ouvira falar naquele tom com ninguém antes. Ele então ergueu a presa que acabara de capturar na mata. Vira a lebre correr e apressara-se em buscar uma forma de apanhá-la. Nem percebera que a mãe não vira seu afastamento.

Celebrian olhou para o animal, a flecha do filho ainda presa neste, depois se voltou para o rapaz, cujo rosto guardava agora ares de desculpa e arrependimento. Mesmo assim a elfa ainda custou alguns bons instantes para, em sua agonia, despertada por muitos porquês que não apenas aquele, entender a situação. Ela soltou, enfim, os braços, a espada ainda na mão direita.

"Ai, El-nín... Não suma mais desse jeito sem que eu veja onde está indo, certo?" Disse então, e seu tom natural fez com que o filho também soltasse os ombros, igualmente aliviado. Ele se aproximou, ainda com um pedido de desculpas estampado no rosto e Celebrian acariciou-lhe brandamente os cabelos, tentando compensar o rompante que tivera com seu sorriso de mãe. "Vamos ter carne hoje é, caçadorzinho?" Provocou.

Elladan sorriu timidamente, depois estendeu a presa, a qual a mãe aceitou de bom grado, guardando a espada em seguida e puxando a faca que carregava na bota. Eles se sentaram diante da fogueira recém acesa e a elfa pôs-se a limpar o que seria o jantar de ambos. Enquanto o fazia, entretanto, seus olhos voltavam-se várias vezes para o filho. O jovem elfo continuava a fazer o que vinha fazendo desde que saíram de Imladris, em qualquer oportunidade de silêncio intenso ele se concentrava como estava agora. Celebrian se perguntava pelo que os instintos do filho procuravam. A princípio julgara que o rapaz estivesse tentando captar algum som ao longe, mas depois começou a desconfiar que Elladan buscava pelo irmão de um modo diferente da mãe.

Eram gêmeos e tinham uma ligação que até mesmo para Elrond, que também tivera seu igual, às vezes parecia difícil de compreender.

Logo, porém, os olhos do menino estavam novamente focados e havia neles o explícito desapontamento de mais uma tentativa frustrada.

Celebrian suspirou com a tristeza do filho. Apesar de estarem vencendo os quilômetros daquela jornada quase em um terço do tempo que uma caravana levaria, ela entendia a preocupação extrema do rapaz. Estavam em um jogo com riscos incalculáveis, riscos que ela nem sequer queria cogitar, mas que pareciam assombrar dia a dia o preocupado primogênito. Ela apertou os lábios, pensando em como conseguiria consolar o rapaz, uma vez que ela mesma tinha um coração apertadíssimo dentro do peito.

"Quer que eu lhe conte uma história?" Ela indagou, tentando resgatar o filho dos pensamentos dolorosos que pareciam aprisioná-lo.

Elladan levantou os olhos tristes, mas assentiu com um movimento breve de cabeça, embora não parecesse muito empolgado a ouvir qualquer história. Mesmo assim Celebrian sorriu, erguendo as sobrancelhas em um ar de mistério.

"Essa é uma história especial, sabia? Uma história verdadeira sobre você e seu irmão que nunca contamos a ninguém. Apenas eu, seu pai e Idhrenniel a conhecemos." Ela comentou e seu sorriso se alargou ao perceber o filho envergar as sobrancelhas em um súbito interesse. "Muito bem então. Existe um fato no qual todos em Imladris acreditam, mas que não é verdade." Ela começou. "Todos pensam que as únicas pessoas a quem seu irmão e você nunca conseguiram enganar fomos seu pai e eu."

Dessa vez Elladan envergou ainda mais o cenho, tombando a cabeça de lado como quem não compreende bem do que a mãe estava falando.

"É elfinho. Ninguém os distingue. Em Imladris acho que não há quem já não os tenha confundido, não é fato?"

Elladan assentiu com a cabeça, ainda sem entender.

"Bem, uma vez eu e seu pai também fomos iludidos por vocês dois. Quer saber como?"

O rosto do gêmeo foi tomado por uma expressão mista de descrença e desconfiança, nunca o pai ou a mãe haviam tido qualquer dúvida em relação a eles e não faltaram vezes nas quais Elrohir tentara enganá-los. Mesmo durante o voto de silêncio de ambos, excetuando quando a mãe o vira de muito longe ocupando o lugar de Elrohir no campo de treinos, nem ela, nem o pai, jamais tiveram qualquer problema para distingui-los.

"Quer saber?" A mãe ainda insistiu e Elladan acabou por assentir com a cabeça, não conseguindo esconder a curiosidade que aquela história agora lhe despertava.

Celebrian sorriu satisfeita, enchendo o peito de ar, os olhos já focados em algumas cenas de um passado distante...


O compassado bater na porta do gabinete despertou Elrond de seus devaneios. Ele tinha mapas e outros papéis interessantes para avaliar, material recém-chegado trazido por uma caravana, acolhida por eles durante um tempo. No entanto, nada naquele dia estava conseguindo prender sua atenção e ele não sabia ao certo dizer o porquê.

"Entre, por favor." Ele autorizou, com os olhos ainda fixos naquelas idéias e desenhos.

E o porquê, que não saia de sua mente há mais tempo do que qualquer outra idéia esteve, surgiu por detrás daquela grande porta de madeira entalhada.

"Olá, senhor sempre ocupado." Uma voz doce que movia seu mundo há mais de um século soou, antes de uma barriga bastante redonda escondida em um largo vestido estampado surgir à porta. "Posso interromper por um cantar?"

Elrond ergueu-se com um sorriso. Mas impediu-se de ir ao encontro da esposa. Da distância que estava tinha um privilégio que jamais sonhara ter um dia. O de ver Celebrian, ainda mais bela, carregando o filho que conceberam e pelo qual esperavam com intensa ansiedade.

E a imagem fez o mesmo que vinha fazendo desde aquele ventre começara a ganhar os moldes da maternidade.

Deixou-o sem palavras...

"Elrond? Posso entrar?" A elfa indagou então, diante do silêncio e do olhar contemplativo que o esposo lhe lançava. Ela sorriu, percebendo-o erguer as sobrancelhas como quem acorda de um sonho bom.

"Já está dentro, amada minha." Ele disse, pousando a mão no peito. "Aqui dentro."

O sorriso da elfa transformou-se em uma risada adorável e ela balançou a cabeça.

"Incorrigível." Brincou, aproximando-se em seu longo vestido. Elrond deu a volta na mesa para encontrá-la.

"E apaixonado, sempre." Ele aproveitou sua deixa na brincadeira que faziam.

"Por isso dou graças, sempre." Celebrian completou, aninhando-se nos braços do marido.

Ficaram um instante assim, em silêncio. Até que ela afastou-se um pouco e o lorde elfo apontou-lhe um lugar no divã.

"Está muito ocupado, querido? Não queria afastá-lo de assuntos muito importantes."

Elrond apenas balançou a cabeça, segurando-lhe a mão para oferecer equilíbrio enquanto ela se sentava com seu peso extra.

"Vocês estão no topo de qualquer lista de prioridades que eu tenha." Ele disse paciente, sentando-se ao lado da elfa. "Como se sente?"

"Bem. Nosso elfinho não está tão disposto a peraltices hoje." A elfa comentou em tom divertido. Ela costumava brincar diversas vezes dizendo que, desde que o bebê descobrira que podia se movimentar dentro dela, aquilo parecia ser tudo o que ele mais gostava de fazer. "Está tão quietinho que estou ficando desconfiada."

Elrond curvou as sobrancelhas com o comentário, pousando a mão no ventre da esposa.

"Por que diz isso, Estrela. Sente algo diferente?"

"Sim. Sim." Ela disse, bastante séria agora e Elrond empalideceu.

"Como assim? Está sentindo algo de fato, Estrela?" Ele achegou-se mais, concentrando seus dons de curador nas mãos que tocavam agora toda a barriga da elfa e Celebrian ainda manteve a máscara de seriedade na qual se escondia por mais algum tempo, apenas para provocar o marido, depois sorriu.

"Acho que o nosso elfinho vai dormir fora essa noite." Ela observou e aguardou em silêncio, enquanto percebia o marido ainda ficar um tempo a mais fazendo suas checagens habituais de curador, como se não a tivesse ouvido. Enfim a compreensão exata daquela frase pareceu tocar os ouvidos dele.

"Disse que o bebê nascerá hoje?" Elrond indagou incrédulo e o ligeiro assentir da esposa atirou-o em um estado de extrema confusão. Aquilo não era possível. O prazo nem estava próximo do término. Restava quase uma estação para a data prevista. "Estrela, estamos ainda bastante distantes do fim da primavera."

"Eu sei." Celebrian disse paciente, as mãos deslizando pelo ventre enorme. "Mas será que ele sabe disso?"

Elrond soltou um abafado suspiro, depois voltou a balançar a cabeça, as mãos próximas as da elfa, repetindo a mesma checagem que ela. Não parecia haver nada de errado, nem qualquer indicação de que o acontecimento referido fosse de fato ocorrer agora. Mesmo porque se o bebê estivesse para nascer ele sentiria, não só como pai, mas também como curador. Já recebera muitas crianças em suas mãos, era experiente, não poderia estar errado justamente agora.

"Deve estar enganada, amada minha. Seus pais nem estão aqui. Lembra-se que disseram que viriam um tempo antes do nascimento?"

"Pois é." Celebrian respondeu pensativa, ainda alisando a barriga, depois soltou um riso contido. "Eles vão ficar bastante decepcionados."

Elrond torceu os lábios, incapaz de acompanhar o espírito que a esposa queria dar àquela questão e tremendamente incomodado com a naturalidade com que ela tratava o assunto. Seu olhar clínico deixou então de analisar o bebê que aquele ventre continha para ater-se a elfa. Ocorria-lhe agora que Celebrian pudesse estar confusa, talvez devido ao estado no qual estava, à distância dos pais, cujas visitas eram cada vez menos freqüentes. Quem sabe ele mesmo não oferecesse a ela ultimamente a atenção necessária e por isso a elfa estivesse criando aquela ilusão dentro de si, como uma espécie de válvula de escape ou, inconscientemente, um modo de conseguir mais atenção do esposo.

"O que acha de darmos uma volta no jardim?" Ofereceu, então, analisando a reação que sua proposta despertaria. "Talvez ao ar livre suas sensações diminuam e você perceba tratar-se apenas de uma impressão precipitada."

Celebrian ergueu as sobrancelhas claras e finas, ainda acariciando o ventre, depois deu de ombros.

"Caminhar a seu lado no jardim sempre foi meu passatempo favorito." Ela comentou, ainda sem erguer os olhos, parecia de fato concentrada na análise que fazia.

"Então?" Elrond levantou-lhe o queixo, para que olhasse para ele. "Há tempo ainda para que nosso filho ganhe lugar no berço que lhe demos, não há?"

A resposta para aquela indagação, porém, não foi a que o curador esperava, muito pelo contrário, ela se resumiu àquele mesmo pequeno sorriso, que a elfa parecia reservar a ele e cujo significado Elrond nunca soubera decifrar com precisão.

"Quem sabe..." Celebrian disse enfim, em tom bem pouco convincente. "Mesmo porque tudo o que esse elfinho faz é me enganar desde que usou o seu pesinho para chutar as minhas costelas. Então tudo é possível." Completou mas o esposo não sorriu, mesmo percebendo o tom apaziguador daquela voz ele estava deveras preocupado. Sua atenção voltou ao ventre dela.

Elrond respirou profundamente. Mesmo procurando agora se concentrar na mãe e não na criança, não conseguia. Aquele era o bebê mais forte que ele já vira. Tudo nele emanava uma estranha perfeição. Tudo nele era poder, era energia. Mesmo Idhrenniel mostrava-se confusa em relação às sensações que tinha quanto ao filho do casal. O fato de Galadriel e Celeborn insistirem que estariam presentes na data do nascimento também o estava intrigando.

"Vai chamar Idhrenniel para estar conosco, hervenn-nín?" A voz da esposa o despertou e ele voltou a olhá-la.

"Quando? Na hora do nascimento?"

"Sim, querido."

"Com certeza, amada minha. Idhrenniel também é bastante experiente nessa área e você mesma manifestou seu desejo de tê-la a seu lado, não foi, Estrela?"

"Sim, foi." Celebrian ofereceu outro sorriso angelical que Elrond não compreendeu, depois ergueu as sobrancelhas. "Então?"

"Então?" Elrond repetiu confuso.

"Vamos?"

"Aonde, Estrela? Ao jardim?"

"O jardim não seria um lugar apropriado para nosso filho vir ao mundo, seria, meleth-nín?"

Aquele novo comentário apanhou Elrond com os lábios ainda soltos e, mesmo em tom jocoso, as palavras fizeram com que um sentimento de agonia começasse a tomar o curador, que não compreendia a insistência inexplicável da elfa. Ele ainda levou mais alguns segundos para voltar a controlar-se e endurecer o queixo. Depois tornou a olhar para a mão que apoiava no ventre da esposa, ainda mais confuso.

"Estrela, não pode ser hoje." Ele disse, tentando permanecer em seu tom pacato.

"Não diga isso a mim, querido."

E enfim findaram-se os resquícios de paciência do lorde elfo e Elrond enervou-se como há muito não se enervara na vida. Ele balançou a cabeça e olhou para a esposa como um pai que encara uma criança impertinente.

"Estrela. Se for uma brincadeira o que está fazendo comigo, peço-lhe a gentileza de dar um fim a ela agora. Já estou nos meus limites, amada minha."

Dessa vez Celebrian não sorriu, mas as acusadoras entrelinhas do pedido do esposo também não a incomodaram. Só agora ela percebia que a angústia e a incompreensão que via no olhar dele eram genuínas. Ela apertou os lábios e sua próxima resposta não foi temperada por humor ou brincadeira alguma.

"O bebê virá ao mundo hoje. Como mãe só posso saber que virá. Talvez você devesse deixar de pensar na questão como um curador e analisá-la como pai. Qualquer elfo acreditaria em sua esposa se ela lhe dissesse o que estou lhe dizendo agora."

Elrond silenciou-se, abatido em cheio pelo sincero comentário da esposa e só não a julgou magoada porque, logo após o término da frase, a elfa voltou a oferecer-lhe o mesmo sorriso assegurador que vinha oferecendo.

"É o nosso bebê, meleth-nín. Estará em seus braços hoje. Não está feliz com isso?"

O curador ainda tentou, mas a incredulidade persistiu em lhe marcar o rosto, por isso tudo o que ele conseguiu fazer foi mover sutilmente a cabeça em uma negativa que chegava a doer e que parecia dizer por si só: Por que Celebrian continuava insistindo naquilo? Estaria ele tão enganado assim? E se estivesse, por que estava? Por que o bebê nasceria tão antes do esperado, violando todas as regras em um ato completamente inédito até então? Por que ele? Por que logo seu filho?

"Elrond?" Celebrian pousou a mão no rosto do marido e ele a olhou por um instante, depois balançou com mais força a cabeça, parecendo ainda inconformado.

"Pelos Valar, Estrela. Acha que devo mudar de ocupação?" Ele indagou com um forte suspiro.

"Como assim?"

Elrond tentou responder de imediato, mas mesmo com os lábios descolados as palavras não se encaixavam, não encontravam o caminho certo. Ele por fim soltou os ombros, esvaziando o peito em um sinal de desistência.

"Eu... Não sinto nada..." Admitiu por fim. "Não compreendo... Como isso é possível? Não sinto que o bebê nascerá hoje."

"Talvez seja porque não há nenhuma força o movendo a fazê-lo e ele esteja querendo vir ao mundo por vontade própria e ao seu próprio tempo." Celebrian teorizou com um sorriso natural, o que pareceria ser até também natural, se não fosse contra uma série de regras que Elrond já conhecia de cor.

"Isso não faz sentido, Estrela."

"Por que não? Estamos longe ainda da data prevista, não estamos?"

"Sim. Com o prazo que temos, ele só nasceria se fosse um numenoriano e não um elfo."

"Mas ele é meio adán, você mesmo já percebeu isso. E continuará sendo pelo menos até que escolha o contrário como você fez, não é?"

"Sim... mas..." Elrond concordou, enquanto buscava arduamente uma explicação que o convencesse mais do que aquela. "Conosco não foi assim... comigo e Elros..."

"Talvez porque fossem gêmeos e não um bebezinho só, mas bastante forte como esse nosso aqui." Ela disse e diante do silêncio do marido, respirou fundo, parecendo decidida a deixar de lado aquela conversa. Então, jogou o corpo para frente, como quem quer erguer-se.

Elrond ajudou-a a se levantar, ainda bastante intrigado com aquele fato estranho para o qual seus anos incontáveis de experiência pareciam ser inúteis. Logo a mão da esposa estava novamente em seu rosto e ele se viu espelhado em um esperançoso e confiante par de olhos claros.

"Vamos, hervenn-nín. Amanhã seremos ada e nana para alguém nessa bela terra que você idealizou e protegeu. Amanhã seremos uma família completa."


"E foi assim que seu irmão e você nos passaram a perna. Acho que essa foi a maior peça que já pregaram em alguém, não foi?" Celebrian completou, com um sorriso largo diante do atônito filho mais velho.

Elladan tinha a boca completamente aberta de espanto e surpresa e assim ficou até que a própria mãe pousou o indicador por sobre seu queixo forçando-o a fechá-la.

"Então. Gostou da história? Era um segredo nosso, mas como te contei, autorizo-o a contá-la a seu irmão quando o encontrarmos, mas apenas a ele, está bem? Seu pai ficaria deveras constrangido por ter que admitir que se enganara de forma tão absurda em um diagnóstico assim, sem contar em outro detalhe bem mais óbvio. Idhrenniel também passou dias inconformada. Ela ficou tão embasbacada quando viu vocês dois que chegou a dizer que vocês eram de fato um só e que se dividiram apenas para nascer." Completou por fim a elfa, depois soltou uma risada tão convincente que praticamente obrigou o filho a acompanhá-la.

Elladan sorria agora, sentindo uma saborosa satisfação por ter ouvido aquela história de sua própria vida, que até então era um segredo. Por que será que seus pais nunca lhes haviam contado isso?

A resposta àquela pergunta estava há muitos quilômetros dali. Ela residia em um detalhe final daquela história, o qual Celebrian propositalmente absteve-se de contar, e não pretendia fazê-lo jamais. No entanto, era justamente tal detalhe que sempre incomodara a mente de um pai, ainda mais agora, quando este já chegava, bastante angustiado, quase ao término de sua jornada, sem ter encontrado qualquer vestígio do filho.

O cavalo de Elrond parou quando a estrada alcançou o cume da Colina das Torres. A oeste uma imagem das mais belas, infelizmente se convertia para ele no mais terrível pesadelo: as águas do Golfo de Lune, claramente visíveis no horizonte.