Olá. Espero que todos estejam bem.

Aqui está uma das cenas que mais me preocupou nessa história e pela qual espero ansiosa saber a opinião dos amigos. Elrohir e o mar, Elrohir e a água pela qual ele sempre teve tanto apreço. Elrohir tentando transpor o que ele julga ser seu último obstáculo para terminar a tarefa a qual incumbiu a si mesmo realizar.

Espero que o elfinho e sua aventura consigam convencer e comover os leitores. Se sim, o mérito é todo dele, se não, culpem a escritora aqui, porque o filho de Elrond é fantástico, eu é que talvez precise de anos para relatar suas proezas.

Muito, mas muito obrigada mesmo aos que continuam acompanhando essa aventura.

Muitos beijos

Sadie


CAPÍTULO XI – VITÓRIAS IMPOSSÍVEIS

"Você precisa fazer aquilo que pensa que não é capaz de fazer."

Eleanor Roosevelt


Horas antes da arriscada partida de Elrond e Círdan, Elrohir também tentara domar esse cavalo arredio de gosto salgado e ânimo imprevisível, mas sua frágil embarcação não se mostrara ferramenta à altura, parecendo, por vezes, conivente com um outro senhor que não o gêmeo, lançando-o ao mar e mostrando-se pouco disposta a aceitar seu regresso.

No entanto, o jovem elfo não ganhara do pai aquele nome, para depois deixar de fazer jus a ele, muito menos permitiria que a força do vento apagasse dentro de seu peito o afeto intenso que sempre sentira pela água e toda a magia de seu indecifrável movimento.

Diversas vezes suas mãos não lhe bastaram e ele se viu obrigado a provar um gosto salobro que era inteiramente diverso da também arredia cascata de sua terra, mas acabava por sempre conseguir driblar esses obstáculos e regressava à balsa, dando graças por ter se precavido e deixado o objeto importante que levava amarrado a ela e assim protegido daquelas intempéries.

No entanto, agora acontecia mais um imprevisto. O anoitecer renovava-se e a escuridão aliava-se aos outros inimigos com os quais o menino lutava, parecendo disposta a tentar roubar-lhe o rumo. Somada a ela, a tempestade que já ocupava o céu desde a véspera, escondia agora o brilho das estrelas.

Mas Elrohir tinha poucas oportunidades para olhar ou temer o céu acima, pois a força da torrente era tanta que, para o jovem elfo, era um esforço cada vez mais árduo apenas tentar ver os faróis distantes. Eram luzes oscilantes, mas com o crescer das ondas, também elas pareciam querer tomar o rumo daquelas a quem tentavam espelhar. Tal qual as estrelas acima, os faróis dos portos eram pouco a pouco engolidos por um breu diferente ao que cobria a cabeça do gêmeo.

Foi em busca deles que Elrohir arriscou ajoelhar-se na balsa frágil, apertando os olhos açoitados pela chuva em direção a um horizonte de pura escuridão, sem qualquer sinal que lhe indicasse aonde ir. Era um sacolejar muito intenso, que o impedia de descobrir agora onde estava.

Luzes. Onde estavam as benditas luzes?

Ele virou o rosto preocupado em muitas direções, tomado pela sensação mais próxima ao desespero que já tivera, desde que cruzara pela primeira vez sozinho a ponte de sua cidade.

Elbereth, ele estava perdido.

Seu espírito lhe gritava agora essa entre outras conclusões mais aterrorizantes, enquanto a mente imaginava se seu coração acelerado seria capaz de bater ainda mais rápido de apreensão. Ele ainda persistiu em percorrer aqueles trezentos e sessenta graus de escuridão, mistério e terror antes que a lembrança das dores que tinha, somada à crescente agonia que o invadia, começasse a querer fazer com que as forças quisessem abandoná-lo.

Foi então que o pior aconteceu: Uma onda enorme somou suas águas, ergueu-se entre aquele alvoroço tempestivo e atingiu Elrohir em cheio pelas costas, pegando-o totalmente despreparado, roubando-lhe o ar e arremessando-o de volta às garras da temerária tempestade. Ele ainda custou alguns instantes para entender o que estava acontecendo, antes de seu corpo cair novamente naquela água ainda mais fria e revoltosa do que da última vez que estivera nela, a menos tempo do que ele gostaria. Submerso novamente, o gêmeo tentou usar da coragem que até então o mantivera firme, mas seus braços cansados e feridos começaram a se recusar a continuar participando daquele jogo insano.

As ondas passaram então a levá-lo em direção oposta a qual sabia que deveria ir, tragando-o diversas vezes antes que ele conseguisse voltar à tona. E o mundo ficou mais escuro e nublado, e ganhar o ar de cada dia pareceu impossível por instantes longos demais. Para sua infelicidade, quando enfim conseguiu ao menos emergir daquele pesadelo em busca do céu acima, tivesse ele a forma assustadora que fosse, percebeu que algo ainda pior havia acontecido: a noite sem estrelas, refletida naquelas águas, roubara seu último refúgio.

A balsa... Onde estava a balsa?

Elrohir ainda movimentou-se no mesmo lugar, voltando o rosto e o corpo para diferentes regiões enquanto tentava ao máximo não se deixar levar por aquela conclusão desesperadora.

Só havia escuridão e mais escuridão.

Desaparecera.

A balsa desaparecera...

E com ela o gêmeo sentia serem levados os vestígios de suas forças e de sua esperança.

Elbereth, aquilo não podia estar acontecendo. Ele ainda tentou forçar o olhar mais uma vez, enquanto brigava para manter-se fora daquele véu que queria envolvê-lo novamente. Estava tão cansado, e o mar o agitava e continuava a tentar submergi-lo, implacavelmente a cada instante. Eram dois momentos com a cabeça fora d'água, para outros mais longos, completamente submerso.

Cada vez estava mais difícil se manter à tona.

Cada vez estava mais difícil respirar.

Cada vez estava mais difícil acreditar...

Talvez por isso a próxima onda inesperada, que o tragou de forma mais violenta, não encontrou quase qualquer resistência. Ele nem tivera tempo ou chance de recuperar o ar perdido e quando ela o sugou para o fundo tão intensa e decididamente, tudo o que ocorreu àquele náufrago agoniado foi temer que a pequena Arehen estivesse certa e que aquela história de monstros horríveis, devoradores de embarcações, não fosse apenas um conto fantasioso usado pelos adultos, para impedir que as crianças se aventurassem em mar aberto.

Agora o rosto da menina estava diante dele, os olhos grandes dela e seu sorriso fácil, as mãos estendidas segurando a manta acinzentada que ganhara do pai.

O pai a quem aquele mar também levara...

"Use a manta sobre a cabeça quando estiver no mar grande. Não tire nunca e eles não vão te ver. Os monstros grandes não vêem quando estamos assim pequeninos e escondidos. Eles não vão te ver se você não se descobrir."

Não tire nunca. Não tire nunca...

Talvez ela estivesse certa... Sim. E ele estava naquela situação porque não seguira o conselho da menina, porque desobedecera às regras como sempre fazia.

Ele desobedecera às regras... Era tudo o que fazia...

Agora fora pego... Fora pego, enfim...

Depois daqueles últimos pensamentos tudo passou a se resumir em uma fria escuridão, uma úmida escuridão, uma sufocante escuridão.

Era quase o vazio.

E ele engoliu água uma vez, engoliu duas, três vezes, e então a verdade invadiu-lhe o espírito...

Tudo era água e mais nada além de água...

Água... Água... Água...

Não havia luz...

Não havia ar...

Não havia...

Até... O inesperado acontecer...

O que se deu a seguir, a inacreditável virada em um jogo praticamente perdido, o gêmeo jamais soube explicar, nem mesmo conseguira fazê-lo qualquer um a quem mais tarde tal história foi relatada. Para alguns, a estranha luz que Elrohir vira e que o trouxera de volta a tona, só podia ter sido uma peça de sua mente exausta e aflita. A mesma explicação se daria ao olhar firme, porém gentil, que o jovem elfo pensou ter visto dentro de uma espuma muito branca, que se assemelhava a fios sedosos de uma barba bastante longa.

Outros, no entanto, se calaram diante do relato do jovem elfo, mas guardaram, assim como Elrohir, uma intrigante desconfiança: a de que o próprio Ulmo, em presença e luz, apiedara-se daquela criança imprudente, ou talvez do desesperado pai que a procurava, resgatando-a... e atirando-a em terra firme...

Pelo menos foi onde o jovem elfo despertou. Em terra firme e úmida.

Elrohir ergueu a cabeça, sentindo que ela parecia pesar três vezes o normal. Ele tossiu algumas vezes, virando de lado sobre o cotovelo para fazê-lo, mas voltou a deitar-se mais um pouco em seguida. Seu corpo estava displicentemente jogado em algumas pedras e, embora ele ainda estivesse sendo atingido pelas águas que banhavam a costa, e o céu cinza continuasse a derramar suas lágrimas, ainda que menos intensas, não queria sair de onde estava. Sabia que, depois de escapar de tamanho acidente só deveria dar graças, mas, infelizmente, não conseguia nem mesmo sentia-se feliz pelo mar tê-lo poupado.

Ele sabia onde estava. Saberia mesmo se nem tivesse aberto os olhos. Vinha visitando aquele lugar em seus sonhos e pesadelos nos últimos poucos momentos de sono que tivera durante toda aquela viagem. Sim. Ele sabia onde estava, mas gostaria imensamente de não saber. Pelo menos não naquele momento, não justamente naquele instante.

Agora longe do sacolejo indigesto do mar ainda rebelde e do medo do pior, tudo o que Elrohir conseguia sentir era que seu coração estava para explodir de dor e angústia. Não se importava em estar só, em estar perdido, em saber que poderia até morrer ali naquele pedaço de chão, que já fora palco de outras histórias até bem mais tristes do que a dele. Não. Ele não se importava em findar seus dias ali, era o que merecia. Só queria não ter perdido sua única oportunidade de corrigir o erro que cometera. Queria ter ao menos cumprido sua missão, se redimido de seu erro, devolvido a espada a quem julgava ser seu verdadeiro dono.

Mas ele a perdera... no mais derradeiro momento...

Elrohir apertou os olhos, pensando em todo o mal que desencadeara e que ainda devia estar se desenrolando enquanto ele estava ali, perdido e perdedor mais uma vez. Aquela sensação o fazia voltar a ser movido pelo mesmo sentimento que vinha lhe trazendo lágrimas quase todos os dias: um ódio, um ódio implacável de si mesmo. Ele começou a imaginar o que o pai pensava dele, a rever aquele olhar de pura decepção que Elrond lhe lançara quando descobrira a infração do filho.

Elbereth, preferia mesmo morrer ali da mais dolorosa forma a ver o pai olhá-lo daquele modo um instante que fosse novamente.

Sim. Ele preferia morrer ali.

Ele respirou fundo então, e o gosto de sal que já estava impregnando seus sentidos voltou a seus lábios, só que dessa vez por um motivo diferente. Elrohir ergueu o rosto úmido então, depois se sentou, encarando novamente aquele mar imenso e pensando que, talvez, Ulmo recolhesse todas as lágrimas de Arda para compô-lo, por isso seu som era tão triste, tal qual um melancólico cantar. Certa vez ouvira Erestor explicar a um dos elfos da guarda um sentimento que afligia a alguns e que o conselheiro classificou como "desejo pelo mar". Ele disse que os elfos, uma vez cansados da vida, tinham o desejo de partir, de navegar.

Ele estava cansado... mas não queria que o mar o levasse a lugar nenhum...

Bem... talvez a um... a apenas um...

&&&

"O corpo de Túrin foi encontrado pelos elfos de Doriath, que o enterraram." Elladan lia em seu pensamento, com as pernas cruzadas sobre o colchão no dia da partida do irmão, enquanto Elrohir ajeitava seus pertences, mas acompanhava o relato mesmo assim. "Ergueram também, uma grande pedra e colocaram-na sobre o monte, e nela os Elfos esculpiram, em runas de Doriath o nome de Túrin e Nienor. Mais tarde, Húrin fez uma sepultura para Morwen acima de Cabed Naeramarth, do lado ocidental da pedra, e nela gravou as seguintes palavras: Aqui jaz também Morwen Eledhwen."

Elladan terminou o trecho, depois olhou para o irmão, que retribuiu o olhar. Então o primogênito voltou-se novamente para o livro que tinha sobre o colo e sua leitura tornou a ecoar na mente do caçula, só que em tom mais grave.

"Diz-se que um vidente e tocador de harpa de Brethil, chamado Glirhuin, fez uma canção, dizendo que a Pedra dos Infortunados não poderia ser conspurcada por Morgoth, nem jamais derrubada, nem mesmo que o mar afogasse a terra toda, como mais tarde veio realmente a acontecer, e a Tol Morwen continua a erguer-se sozinha da água, para além das novas costas que foram feitas nos dias da Ira dos Valar."

Quando Elrohir reabriu os olhos foi por apenas um instante, pois teve que fechá-los para se proteger de um desobediente raio de sol, que fugira por entre duas nuvens inchadas de cinza chumbo, como se tivesse apenas à intenção de despertar o rapaz. Todas os seus momentos de descanso ou devaneio eram tomados por sonhos, cujo tema persistia em prevalecer o mesmo, sem qualquer alteração. A chuva parecia ter decidido optar por um instante de trégua, mesmo com seus mal humorados sinais a ora escurecerem ora clarearem subitamente o céu.

Era um fim de tarde e o gêmeo começou enfim a sentir o frio do inverno, do corpo úmido e exaurido, da falta de perspectiva. Ele ergueu-se, lidando com as dores diversas causadas pelo local onde ficara e por tudo o que acontecera. Estava novamente diante daquele mar que não parecia ainda ter se acalmado o bastante. A maré recuara alguns centímetros agora deixando de atingi-lo.

Elrohir soltou os ombros, envolvendo-se inutilmente com ambos os braços para proteger-se do frio repentino, enquanto olhava para o horizonte escurecido, mas sentia-se indisposto a sequer pensar no que fazer. Na verdade não havia nada a ser feito, pelo menos nada de grande valor. Ele encolheu as pernas, envolvendo os joelhos com ambos os braços e fechando os olhos, enquanto atrevia-se, enfim, a pensar em tudo o que passou.

Elbereth, ele estava em Tol Morwen. Depois de tantos caminhos, de tantos receios, de tantos riscos, fizera o que nem mesmo ele acreditara-se capaz. Apesar da localização da ilha não aparecer precisa em qualquer livro ele estava em Tol Morwen... Estava em Tol Morwen, mas não conseguira trazer consigo o motivo de sua vinda para aquele lugar.

Elrohir fechou novamente os olhos por um instante, depois os reabriu e se atreveu a virar-se um pouco para olhar a paisagem que tinha atrás de si. A ilha não possuía praia alguma, sua costa era composta por pedras e musgos e seu interior embolava-se em um emaranhado de árvores de todos os tipos.

Tol Morwen era verde, pois assim fora sua mãe, a Floresta de Brethil, que outrora a mantivera nos braços. Antigamente o lugar fora um amplo espaço, igualmente repleto de árvores, entre os rio Teiglin e o Sirion. Aquele seu ponto mais alto permaneceu então intocado pelas águas, como uma lembrança de algo que jamais poderia ser esquecido. Talvez os bons e maus tempos tivessem poupado o ponto alto verde e rochoso para que aqueles que não tiveram paz naquele lugar, pudessem ter garantida, ao menos, a lembrança que deixaram.

Elrohir olhou aquela mata fechada por um instante, relembrando a triste história daqueles que a ilha protegia. Ele engoliu em seco então, seu coração já estava arrependido de estar ali, de saber que talvez morreria ali junto àquela família a qual não pertencia. Um vento balançava-lhe mais os cabelos e o frio já passava lentamente os limites do suportável para alguém tão cansado como o jovem elfo. Ele levantou-se então, olhando as árvores tortas e imaginando se fazer um abrigo e corromper aquela paisagem intacta seria sua última grande infração.

O que lhe restava era vencer algumas pedras lisas da encosta e subir até as árvores. Foi o caminho que o jovem elfo se pôs, mesmo contrariado, a fazer. Jamais imaginara que aquele último movimento pudesse ser tão pesaroso. A principio ele tentou executá-lo caminhando cambaleante entre os obstáculos da margem em direção à mata fechada, mas logo percebeu o quão arrisco era aquele território, e seu pé escorregou no limbo verde e pegajoso da margem, levando-o novamente ao chão com um abafado gemido de dor e um mais abafado ainda resmungar por entre os dentes. Voto de silêncio estúpido, porque continuava a cumpri-lo, mesmo ali, sozinho naquele nada absoluto?

Aquele pensamento só trouxe de volta a tona o mesmo sentimento danoso que o corroia há dias. Estúpido. Estúpido. Ele era mesmo um elfinho idiota que não conseguia fazer nada direito. Como pudera pensar-se capaz? Como pudera julgar possível executar tal manobra absurda? Como pudera? Como pudera acreditar assim?

E aquelas questões foram fazendo sua cabeça pesar, pesar tanto que quando ele deu por si havia encostado a testa no chão, sem nem ter ânimo de erguer-se. Estava apoiado nos joelhos feridos e nas palmas doloridas, mas pouco se importava com a dor, queria bater de vez sua cabeça ali naquele solo duro até que ela partisse e despejasse o nada que havia dentro dela. Ele até pensou em fazer isso, pensou em coisas piores, mas quando seus olhos reabriram, ainda a poucos centímetros do chão, algo lhe chamou a atenção.

Um novo raio de luz escapava pelas teimosas e gordas nuvens, parecendo brincar agora com outros objetos que não seu corpo imóvel e ensopado naquela encosta. Ele virou-se um pouco, os olhos apertados na concentração de quem na verdade não acreditava no que via: Havia alguns pedaços de madeira partidos pela maré e arremessados, assim como ele mesmo fora, contra a encosta da ilha, um pouco abaixo de onde ele estivera. Provavelmente estavam visíveis apenas agora que a maré baixara. Entre eles, no meio das pedras e desafiando o entardecer, parecendo igualmente disposto a participar da brincadeira de Anor, reluzia um metal que ele conhecia muito bem.

Elbereth. O jovem elfo exclamou para si mesmo, depois que sua mente o esbofeteou para que despertasse do transe no qual estava e fechasse a boca que a descrença e a surpresa escancarara.

Esquecendo-se completamente então do frio, da dor e da angústia toda, ele aventurou-se de volta a íngreme encosta, destemido como jamais deixara de ser, escorregou em algumas pedras bastante lisas, enfrentou outros obstáculos, ganhou novamente a benção das águas, mas, enfim, conseguiu resgatar o que já havia julgado perdido.

Quando finalmente regressou à entrada da pequena floresta, a última coisa que estava em sua mente era construir um talan ou descansar. Pouco importava para ele que a noite caísse ou a chuva ou até outra estrela como aquela que cedera o metal da misteriosa arma. Tudo o que ele queria era seguir seu trajeto e achar o túmulo do guerreiro, o túmulo de Túrin Turambar. Ainda havia uma brecha de sol, uma centelha de luz e acima de tudo, ainda havia alguma esperança.

&&&

Depois de um tempo de caminhada, conforme Elrohir traçava seu caminho por entre a mata, um questionamento começou a incomodá-lo imensamente; se de fato conseguiria achar a Pedra dos Infortunados, sob a qual jazia o túmulo do guerreiro. Andava já há um bom tempo, seguindo apenas suas impressões e seus instintos, mas não encontrara nada de significativo.

Era irônico que, depois de ter percorrido todos aqueles outros longos e perigosos caminhos com apenas seu mapa mal-traçado às pressas, se visse agora, em um lugar cujo diâmetro não chegava a três quilômetros, incapaz de finalizar sua tarefa. Tudo o que conseguia fazer era lembrar-se do mapa de Brethil e era nisso que concentrava suas poucas energias, na imagem de como fora tudo antes da inundação, mas aquilo não estava ajudando muito agora, por entre aquelas árvores e com um dia acinzentado pouco visível por entre elas.

Em alguma coisa a antiga floresta ainda estava fiel à sua geografia original, ela traçava caminhos em declives acentuados, escondendo o íngreme terreno e não oferecendo muita ajuda aos desavisados. Era quase impossível ler o céu acima, mesmo em dias de sol, e a mata era silenciosa demais. Tudo o que Elrohir ouvia eram apenas o dobrar de alguns pássaros, o trilar dos grilos e outros sons reconhecidos pelo rapaz, que sempre vivera avizinhado pela floresta e seus moradores.

Ele ainda continuou a andar devagar por um tempo, tentando encontrar um caminho efetivo a seguir, depois percebeu que sua empolgação inicial talvez o estivesse fazendo despender energia sem qualquer efetividade, haja vista que a terra, desabitada há centenas de anos, não ofereceria qualquer pista de que caminho seguir.

Só então o próprio corpo cansado do jovem elfo pediu-lhe desobediente alguma misericórdia. Ele então parou quase instintivamente, soltando o ar do peito algumas vezes. Acabou, por fim, se encostando contra uma árvore descascada, olhou a sua volta por mais um tempo ainda, e escorregou devagar. Pretendia sentar-se um instante apenas, o suficiente para recuperar um pouco da já escassa energia que o favorecia. Suas vestes ainda estavam molhadas e uma chuva fina começava a escapar por entre as altas árvores, como se objetivasse manter aquele pequeno mundo ensopado por quanto tempo fosse necessário.

Estava esgotado, por mais que se negasse a admitir isso. Suas pálpebras pesavam-lhe, recusando-se a manter abertas aquelas janelas que voltavam a refletir angústia e dor. Ele cerrou os olhos por um minuto, pensando se continuaria a sonhar com a ilha, agora já tão dentro de sua mata. Sua própria respiração parecia ruidosa, como se ele também fosse um dos animais daquele lugar. Ele a ouviu uma vez, imaginando-se como algum roedor qualquer, passeando por aqueles troncos contorcidos, fugindo por tocas infindáveis em busca de nada além seu próprio sustento.

Felizes eram os animais...

Elrohir suspirou, ajeitando o corpo no chão irregular com uma careta.

Por que continuava? Podia ficar ali, viver ali, morrer ali, podia desistir. Ninguém saberia de seu último fracasso. Ninguém... Ninguém nem mesmo o encontraria ali naquele território proibido...

Ele inflou o peito então, procurando encher-se daquela certeza na qual, no fundo, só fazia desacreditar. Quando soltou novamente o ar, o ruído se fez mais forte e mais próximo, fazendo o gêmeo começar a pensar que roedores não seriam capazes de fazê-lo, nem mesmo se tivessem o seu tamanho. O som seguinte, ainda mais alto e intrigante foi o último alimento para aquela incerteza e o fez reabrir os olhos.

Elbereth, quisera não os ter reaberto...

Foi a sensação que o jovem elfo enfrentou, quando a imagem embaçada que surgiu diante dele ganhou foco enfim. A única certeza que lhe ocorreu foi que, aquele era seu primeiro contato com uma figura que, real ou não, decididamente se converteria em um dos personagens que o assombraria por toda a sua existência.

Atrás de um arbusto magro, dois olhos muito brilhantes piscavam, focados em sua direção. Elrohir tornou a estufar o peito e dessa vez passou a desejar que sua mente cansada estivesse lhe pregando peças. Mas o som de um rosnar grave veio em resposta imediata a seu desejo, fazendo com que o gêmeo curvasse descrente as sobrancelhas, incapaz de acreditar no tamanho daquela criatura, que não deixava sua atenção escapar da presa por um instante sequer. Quando o som do animal ergueu subitamente seu tom ainda mais e dentes enormes e brancos brilharam na mata, aquilo pareceu bastar para que o rapaz se colocasse em pé novamente, segurando a arma em mãos trêmulas.

Enquanto isso a fera deslocou-se vagarosamente de seu esconderijo, as patas amassando galhos grossos como se fossem gravetos, o focinho escuro franzido em busca do cheiro prazeroso que emanava daquela presa assim tão próxima. Elrohir não conseguia conter a sensação mista que aquela visão estava lhe causando, ainda custava a acreditar. Jamais vira animal assim. O porte da criatura era enorme, maior do que um cavalo dos mais fortes, muito maior... Seu andar, no entanto, era firme e seguro, quase belo, quando se movia seu pêlo escuro brilhava muito, tal qual uma noite sem estrelas.

Gaurhoth. Eles já foram chamados, entre outros nomes. Elrohir se lembrava que certa vez Erestor comentara sobre eles, espíritos maléficos aprisionados em corpos de lobos imensos. O que tinham de belos tinham de perigosos. Eram guardiões de toda a espécie de perversidade, alimentados por carne viva e tendo como senhor apenas seu primeiro criador e aqueles a quem a ele servissem.

Gaurhoth... Não podia ser um deles... Não... Estavam extintos... Extintos...

O gêmeo encostou-se ao tronco atrás de si, tentando apegar-se àquela idéia, mas já se lembrando de que dormira um sono intranqüilo, durante três noites muito mais longas do que as demais, apenas porque tentara passar para o papel a imagem da criatura que o mentor relatara.

Elbereth, seu esboço ficara tão assustadoramente perfeito que Elladan lhe pedira algo que jamais pedira na vida.

Ro, jogue esse desenho fora...

Agora sentia que mais um dos desenhos que traçara no passado parecia criar vida. Infelizmente, não se tratava de uma paisagem desconhecida, de um conjunto de chapadas, uma floresta, um pântano cheio de insetos. Isso ficou mais do que claro para ele, principalmente quando o animal não apenas voltou a rosnar, mas pôs-se de pé tal qual criatura pensante, movendo as garras dianteiras como um urso.

O gêmeo arredondou os olhos...

Não, aquilo não era fruto de uma das noites de delírio e pesadelos que ele tivera depois da história que ouvira do mestre. Aquilo era real... Aquilo era bastante real. Real demais!

O lobo rosnou mais uma vez, abrindo a boca salivada e exibindo novamente as pontas brilhantes dos caninos, ele tombou enfim o corpo para frente, voltando a apoiar-se nas quatro patas e olhando-o nos olhos. Foi naquele instante que algo ainda mais aterrorizante aconteceu. A fera bestial franziu o focinho, mas, ao invés do mesmo som vinha emitindo, soou inesperado por entre aqueles dentes:

"Vogal zanbaur! Vrasubatlat!" (Cria de elfo! Eu vou te matar!)

Elrohir sentiu o queixo amolecer, sentiu o maxilar pender devagar, caindo lentamente...

Havia histórias de que os descendentes de Draugluin, o lobo de Sauron e rei dos lobisomens de Angband, em certos momentos muito raros sentiam-se inclinados a pronunciarem algumas frases. Elrohir não compreendeu o que as palavras diziam, mas reconheceu a entonação amaldiçoada da antiga Fala Negra, reconheceu seu tom, seu poder, a sensação indescritível que trazia para quem a ouvisse.

"Vrasubatlat!" A fera ameaçou outra vez, os olhos contraídos pareciam analisar agora a presa, aguardando por alguma coisa. O quê? Pelo que agradavam aqueles olhos? Pelo que aguardava aquela criatura horrível? Por que não o havia atacado?

Elrohir começou a sentiu o corpo amolecer, sem saber ao certo o porquê.

A Fala Negra... Ele então se lembrou. O dialeto era proibido em qualquer reino, mas certa vez Glorfindel dissera a ele e a Elladan, em absoluto segredo e em local bastante reservado, algumas daquelas palavras sinistras. Fizera-o a fim de que os dois irmãos conhecessem o efeito forte e bastante desagradável que aquele mal podia despertar.

"Vrasubatlat!" Ameaçou novamente a besta, fazendo Elrohir recordar ainda melhor da sensação que sentira no momento em que o mentor pronunciara, mesmo em sua voz melódica e bela, outras palavras semelhantes àquela: Um frio intenso, a impressão de que o ar não ia bastar. Ele fechou os olhos com o impacto daquelas lembranças, associado à nova, e evidentemente mais categórica, experiência.

O animal apertou os olhos de prazer então, parecendo perceber a reação do menino elfo e já deslizando a língua pegajosa pelo focinho úmido. Corromper a presa, para depois devorá-la. Era um deleite indescritível.

Mas Glorfindel não tinha quebrado tão rígidos protocolos, infringido as regras do lugar e ouvido uma repreenda considerável do amigo curador pelo que tinha feito em vão. Elrohir sabia porque seu mentor havia extrapolado tais barreiras. Ele queria, como em tudo o que fazia de bom ou mal, ensinar aos dois pupilos uma importante lição.

E foi feliz. Porque seu melhor discípulo conseguiu resgatar o que inferiu do ensinamento recebido, reabrindo os olhos e resguardando o espírito daquele mal, em tempo de perceber a sensação de desprazer que sua reação despertara no perverso animal. O lobo ainda teve um momento de estupefação e descrença, depois seu rosto se contorceu em uma ira ainda mais acentuada e ele ganiu alto, um uivo longo e ensurdecedor, antes de avançar sobre sua presa, sem mais qualquer sobreaviso.

Elrohir nem soube como conseguiu escapar do primeiro impacto, talvez fosse o pânico incontrolável que o fez fugir agilmente por entre alguns galhos retorcidos, ora a direita ora a esquerda, saltando alguns, passando por baixo de outros e sentindo, por várias vezes, as garras da fera passarem a milímetros de seu corpo.

Era tão inacreditável quanto assustador e o gêmeo nem sabia bem o que estava fazendo, movendo o corpo ofegante com uma agilidade incrível e aproveitando-se de sua pequenez diante da fera tão maior do que ele, para enganá-la diversas vezes. Em uma de suas inimagináveis escapadas, chegou a passar por debaixo do lobo, quando este se atirou cego em ira por sobre a presa.

No curso de sua fuga praticamente impensada, o corpo do jovem elfo escorregou de súbito por um caminho lamacento e ele rolou alguns metros por cima de galhos soltos e folhas molhadas. A fera, ainda em seu encalço, escorregou também em alguns instantes, depois deu dois grandes saltos para tentar alcançá-lo. Elrohir havia atingido o fim do declive pelo qual rolava e ainda estava meio tonto no chão, quando viu o algoz já no ar, as patas da frente esticadas como as de um grande tigre.

Mal conseguira recuperar-se do novo susto e das dores da reviravolta que seu corpo fizera no caminho cheio de obstáculos, e já apelava para o que seus instintos eram capazes de fazer. Sua rápida manobra para escapar do choque certo foi esgueirar-se por entre as raízes de uma grande árvore, escapando novamente com uma sorte incrível, ainda a tempo de ver as pesadas patas caírem no lugar onde ele antes estava e atolarem-se na lama e galhos alguns bons centímetros.

Não lhe ocorreu esperar para ver com que facilidade o animal escaparia, mas sim correr muito até se esconder atrás de um velho carvalho, cujas raízes escapavam pela terra tão antiga quanto ele parecia ser. Só então o gêmeo parou, um pouco para recuperar o fôlego, um pouco para pensar no que fazer naquele instante ínfimo que tinha para si.

Elrohir percebeu então que havia um espaço entre uma das raízes e o chão úmido. Ele até pensou em buscar um esconderijo melhor, mas ao ouvir aquele rosnar assustador aproximando-se novamente, deixou suas incertezas para depois e desceu como pôde pelo resto de tronco exposto, enfurnando-se naquela toca que a própria árvore criara.

Ilúvatar, aquilo não estava acontecendo. Ele devia estar sonhando, tal criatura não existia, não podia existir ali. Viver sozinha naquela ilha. Como teria ido parar ali? Não. Não podia estar acontecendo isso. Ele pensava, trazendo à espada que tentava proteger para perto do peito, enquanto sentia o coração querer sair-lhe pela boca e o corpo endurecer, petrificado pelo pavor intenso.

Não custou, no entanto, para que os temores do jovem elfo mostrassem-se efetivos e ele ouvisse o último som que gostaria de ouvir naquela ou em qualquer outra situação. O fungar constante de um focinho surgiu por entre os troncos caídos e galhos, cada vez mais próximo. O gêmeo prendeu o ar, sem saber ao certo o quanto daquela caça a criatura empreendia privilegiando a audição ao invés do olfato. O nariz da fera contorceu-se então, analisando o que podia sentir daquele cheiro que recolhia. Depois o focinho afastou-se, retrocedendo pelo caminho de onde viera e desaparecendo.

Seria sorte demais ele não tê-lo sentido. Elrohir sabia muito bem disso e foi esse motivo que fez com que o jovem elfo sentisse que não conseguiria respirar normalmente, mesmo se quisesse. Logo se concentrar em sua respiração passou a ser o último dos problemas: uma pata imensa surgiu inesperadamente por entre as raízes, invadindo veloz seu esconderijo com tenebrosa precisão e acertando em cheio em seu peito.

Elrohir emitiu um inevitável grito de dor, seu primeiro som depois de muitos meses, mas conseguiu escapar da segunda investida do animal, rolando para o outro lado da árvore e deixando ao inimigo, como triste recordação, restos da túnica que usava ainda preso em suas garras.

Agora já não questionava mais o motivo da presença daquele animal ali, muito menos como conseguia ainda ter forças para correr. Ele apenas o fazia, já sentindo o pesado som atrás de si novamente, em uma velocidade que não era páreo para criatura alguma. A sua frente o caminho era difícil, as árvores se abraçavam, trançando galhos pelo chão e criando obstáculos complicados demais. Ele continuava como podia, aproveitando que o inimigo tinha suas próprias dificuldades, pois precisava que se apertar na mata estreita e voltar a derrubar a vegetação mais frágil para abrir caminho.

Não podia permanecer naquele jogo de gato e rato por mais tempo. Ele sabia que não tinha forças para isso. Principalmente porque o som da fera aproximava-se cada vez mais perto, mais perto, mais perto e encontrá-la em um novo confronto não estava nos planos do jovem elfo. Elrohir não ponderou mais e seus instintos o levaram a buscar um outro caminho. Quando percebeu que a fera já estava quase a seu alcance, fez uso de uma outra habilidade sua, escalando desesperadamente a primeira árvore que tinha em frente e passando a fazer seu caminho pelos galhos acima.

A atitude pareceu enfurecer ainda mais o animal, que a princípio tentou seguir a astuta presa. Mas o frágil vidoeiro não agüentou o peso do besta e inclinou-se com estalos de dor. Elrohir não esperou pela queda, saltando para outra árvore e tentando prosseguir sua escapada pelo novo caminho que escolhera, longe do chão. O lobo não tivera a mesma sorte, e o gêmeo ainda ouviu o pesado som do corpo do inimigo, batendo no solo, enquanto continuava sua fuga.

A sensação de vitória durou pouco, pois logo o animal ressurgia, agora acompanhando a escapada de sua presa pelo chão, continuando a esmagar os galhos, a derrubar as pequenas árvores. Eram quase todas da mesma espécie, algumas com mais de vinte metros e resistência suficiente para ajudar o gêmeo a permanecer seguro, outras ainda jovens e frágeis. Elrohir se arriscara em todas elas, escapando das quedas por um triz, enquanto tentava manter o rumo com apenas uma mão livre a ajudá-lo.

Era um caminho extenso e perigoso, cheio de momentos que pareceram cruciais, cheio de sensações de desfecho iminente das piores possíveis, até que um último galho não se mostrou tão resistente quanto parecia. O gêmeo, desprevenido e cansado a extremo, percebeu o equilíbrio lhe faltar tarde demais. Quando sentiu o corpo cair, a única sensação boa foi a do rosnar do inimigo ficando mais longe.

Para sua surpresa, porém, o baque no chão abaixo de si não se efetivou, pelo menos não da forma como o rapaz imaginara que aconteceria. Na verdade, ele se viu caindo por mais tempo do que julgava ser a altura daquela árvore na qual buscara apoio, até que seu corpo foi amparado por alguns galhos compridos e finos que o impediram de prosseguir sua jornada incerta.

Parecia um lugar seguro, excetuando o fato de que ele não sabia ao certo onde estava. Elrohir pensou em virar-se um pouco para olhar para baixo, mas quando ergueu a cabeça arrependeu-se de imediato. Se não o tivesse feito não teria se apercebido do quão grave era sua situação. A camisa que usava estava rasgada e completamente ensopada de um sangue vermelho vivo que corria dos grandes cortes que as garras daquele estranho animal haviam feito em seu peito. Elrohir respirou fundo, o extremo pavor parecia tê-lo anestesiado então e apenas agora a dor lancinante daquele ferimento estava mostrando sua gravidade.

O momento de desespero e dor, no entanto, durou pouco, pois logo sua consciência e seu instinto de preservação o fizeram ver outro detalhe, igualmente grave, na situação em que se encontrava. A árvore, cujo galho o salvara da queda, tinha suas raízes fincadas em um chão íngreme demais. Íngreme e quase vertical. Ela parecia ter brotado de rocha pura.

Pior que aquilo...

Não era uma rocha qualquer que segurava aquela árvore. Era a parede de um penhasco, cuja altura não era a do antigo Cabed Naeramarth, que ganhara esse nome – "Salto do Terrível Destino" – porque Nienor dele se atirara para a morte certa. No entanto, a nova geografia que o precipício agora possuía, guardava boa parte de seu perigo. Ainda havia a mesma falésia abrupta desnuda, com outras árvores na crista, como aquela na qual o gêmeo estava. No entanto, substituindo as águas tumultuosas do antigo Rio Teiglin abaixo, havia agora o próprio mar, açoitando a encosta e parecendo disposto a encarar qualquer oferta que o penhasco lhe cedesse com a mais indigesta das recepções.

Depois daquela constatação cruel, o desespero ganhou um novo significado para o menino, que já passara por tanto e agora simplesmente não sabia o que fazer, não sabia no que acreditar, não sabia pelo que esperar, não sabia como lidar com tudo aquilo. A respiração de Elrohir acelerou-se ainda mais e ele passou a olhar para os lados em total exasperação. Dissera a si mesmo tantas vezes que sentia que morreria naquele lugar, mas não imaginava que fosse ser assim, não imaginava que, depois de tudo, regressaria para os braços do mar, para aquele que o havia descartado uma vez, mas agora parecia até mesmo ansioso pela nova chance de fazê-lo provar sua força.

O gêmeo ainda tentou mover o corpo para cima, mas sentia tantas dores de tão diferentes formas que tudo o que lhe ocorreu foi que queria gritar, gritar o mais alto que podia, gritar de dor, de ira, de desesperança. Estava cansado, estava apavorado, queria, mas queria muito que tudo aquilo acabasse, queria que aquele maldito lugar desaparecesse, que a água levasse de uma vez aquela terra amaldiçoada de vez. Ele apertou os olhos então, com o próprio coração já gritando de angústia como ele desejava tanto fazer. No entanto, quando desprendeu os lábios, uma cena do passado voltou-lhe como se fosse uma mordaça.

"Não pode ser assim. Não pode ser..." Dizia o inconformado Elladan, fechando os olhos em seu leito, enquanto ainda segurava a mão do irmão. Elrohir contara-lhe o ocorrido no pequeno conselho, assim que o gêmeo despertara e pudera ficar a sós com ele. Elladan era o mais esperto dos dois, aquele a quem a paz de espírito sempre trazia as melhores idéias nos momentos difíceis. Vê-lo agoniado não estava oferecendo ao caçula perspectivas muito positivas. "Dearada não pode ficar com a sua guarda... Ele não pode... não pode nos separar..."

O gêmeo mais novo sentou-se então na cama do irmão, parecendo por fim perceber que a armadilha na qual estava era mais abrangente do que parecia ser. Ela não pegara apenas uma presa, mas sim capturara, separadamente, todos a quem eles amavam.

"Eu não vou deixar ele fazer isso. Vou falar com ele... Eu vou... Vou fazer alguma coisa, Ro..." Elladan balançava a cabeça, agoniado, enquanto o corpo de Elrohir esfriava devagar, percebendo, antes do irmão, o quão atadas estavam as mãos de ambos.

"Eu posso ir... mas se você não estiver do meu lado, ninguém mais vai estar." Ele disse tristemente.

Elladan olhou-o sem entender e ao ver que os olhos do caçula já estavam inundados de lágrimas, procurou levantar-se. Mas tudo o que Elrohir fez foi segurá-lo pelos ombros. Já ferira o irmão, não queria vê-lo piorar porque fora imprudente. Ele olhou o mais velho nos olhos, segurando a mão dele com força e determinação.

"Eu juro, Dan. Juro a você que eu vou resolver isso... Eu... Eu não sei como, não sei quando, mas eu vou resolver..." Ele disse, depois parou por um instante, como se refletisse sobre a força da promessa que estava fazendo. Era importante demais e não deveria nunca ser esquecida. Não, ele não a esqueceria e não desistiria dela jamais, por isso acrescentou a suas palavras solenes, outras que fariam para ele o papel que precisava. "Não vou desistir... e ninguém vai ouvir a minha voz até que eu possa resolver o que fiz, até que eu possa consertar o que estraguei, até que eu possa ser digno de novo."

Os olhos de Elladan ficaram imóveis por um instante, como se seu corpo estivesse vazio. Ele então respirou fundo, olhando o irmão com afeto e tristeza.

"Se eles levarem você... Ninguém mais vai ouvir a minha voz também..." Ele disse com a mão sobre o peito. "E só vão voltar a ouvi-la, depois de ouvirem a sua."

Elrohir pressionou então os lábios trancados, apertando os olhos úmidos por emoções dos mais diferentes tipos. Elladan. Elladan. Elladan. Ele sentia falta do irmão. Ele sentia falta das certezas que apenas Elladan tinha, da paciência, da sensatez que apenas Elladan tinha. Ele sentia falta de Elladan e do que podia ver de seu no irmão, do que podia esperar ser ao lado dele.

Quando seus olhos se reabriram o gêmeo não olhava mais para baixo, nem pensava mais em juramentos rompidos e em caminhos sem saída. Ele saíra de Imladris com a ajuda do irmão, com uma ajuda que ele sabia o quanto custaria ao nobre Elladan. Ele saíra de Imladris com uma missão e com uma promessa e veria ambas cumpridas, ou morreria ainda tentando.

Com essa certeza o rapaz voltou o rosto para cima, encarou os galhos presos, soltos, pendentes, mediu riscos, ignorou dores, analisou sons. Em segundos estava novamente fazendo jus ao nome que ganhara, em segundos era novamente o elfo guerreiro que seu pai esperava que ele fosse.

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Elrohir tivera coragem, várias vezes sua mão quisera escapar do próximo galho, enquanto ele tentava regressar penhasco acima. Em um determinado momento a espada também quase escorregou de sua mão, mas ele tentou mantê-la firme, usando o punho que a prendia como apoio na escalada.

Quase no final do trajeto ele parou um instante, exausto e encostou o rosto no braço esticado, transferindo parte da mancha de sangue que o coloria para a testa igualmente úmida. Eram tantas dores e temores que ele nem sabia mais qual deles tentar combater.

Tornou a subir, como um autômato, o que restava. Quando sentia que suas últimas forças pareciam querer deixá-lo, percebeu um último galho que se esticava no final do trajeto, como uma mão gentil a tentar resgatá-lo. Elrohir olhou-o com cautela, afogado em todos os seus receios, mas por fim aceitou o auxílio, temeroso que suas avaliações de segurança não o estivessem ajudando a perceber se podia de fato usufruir tal ajuda.

A primeira coisa que fez, embora imprudente, foi soltar a espada no chão firme assim que pôde para tentar terminar a escalada com ambas as mãos livres. O final do penhasco era escorregadio e havia poucas reentrâncias ou galhos nos quais apoiar os pés. Na etapa final da escalada teve que, praticamente, se pendurar com ambas às mãos e usar apenas as forças de braços e ombros para trazer o corpo para cima.

Quando enfim se viu esticado em solo firme mais uma vez, o alívio e a exaustão o deixaram sem qualquer força para se levantar. O céu acima estava ainda carregado de nuvens e as poucas brechas que vira pela manhã já haviam desaparecido.

Choveria novamente. Disso ele não tinha a menor dúvida.

Ele tinha que se levantar. Era o que tinha que fazer. Nem sequer imaginava onde estaria aquele monstro que o perseguira, lembrava-se vagamente de ouvi-lo ao longe, mas não sabia se ele desistira da presa. No fundo, desejava acreditar que o animal havia caído naquele precipício com, quem sabe, menos sorte que a dele.

Elrohir respirou fundo então, mas antes de se levantar olhou cauteloso as feridas para sentir-lhes a gravidade. Eram cortes extensos, mas não pareciam profundos. Alguns ainda sangravam, outros estavam doloridos e talvez com traços de inflamação.

O gêmeo tornou a soltar a cabeça, fechando os olhos e lembrando da casca daquela árvore que a senhora adán lhe mostrara e esperando ter a oportunidade de encontrar algum exemplar dela ali em Tol Morwen. Talvez houvesse. Talvez ele tivesse mais sorte. Ele precisava ter sorte, ter alguma sorte, pelo menos para terminar sua tarefa, depois o que tinha que acontecer poderia acontecer, ele não se importaria mais.

Esse pensamento positivo o fez forçar os cotovelos e tentar erguer pelo menos o tronco. Quando conseguiu fazê-lo entre gemidos contidos e caretas de dor, foi surpreendido pela última imagem que esperava ver. A poucos passos de onde estava, por entre arbustos raquíticos e coberta de musgo e folhas velhas, erguia-se uma pedra acinzentada a qual cobriam agora folhas e musgo. Elrohir apertou os olhos, descrente do que podia ler nela, mesmo encoberto pelas diferentes forças do tempo.

Eram runas antigas de Doriath, mas o que informavam foi claro demais, mesmo para o cansado gêmeo.

TÚRIN TURAMBAR DAGNIR GLAURUNGA

Elrohir franziu as sobrancelhas e seu corpo estremeceu, seus olhos redesenharam traço a traço aquelas palavras diversas vezes antes de escorregarem, ainda atônitos para as palavras que vinham logo abaixo daquela sentença:

NIENOR NÍNIEL

O gêmeo ergueu-se então devagar, novamente esquecido de suas dores e temores. Quando se colocou de pé, suas pernas vacilaram e ele chegou a temer que não conseguiria dar aqueles últimos passos. Elbereth, estava sonhando, só podia ser. Era impossível que sua escapada insana o houvesse trazido ao mais improvável dos lugares.

Aquela idéia o ficou provocando duramente, enquanto ele se aproximava cambaleante do túmulo. Ao chegar quase em frente à enorme pedra conseguiu avistar outra a oeste, diferente em tamanho e cuja escrita não estava em runas. Mesmo de onde estava, pôde ler, letra a letra, a mensagem de um pai, que chegara até aquele lugar tarde demais, em tempo apenas de se despedir de sua amada e enterrá-la próxima aos dois filhos.

AQUI TAMBÉM JAZ MORWEN ELEDHWEN

Dizia a última mensagem de Húrin Thalion...

Elrohir sentiu então uma outra dor, uma dor diferente de todas as que ele estava sentindo ou já sentira durante aquela viagem, uma dor que o colou em seus joelhos novamente e o fez romper em um pranto incontrolável. Não era seu corpo que doía, não eram seus ferimentos, não era nada que ele pudesse cobrir com uma palma, apontar ou traduzir com palavras. Ele apenas apoiou a mão no túmulo do jovem guerreiro e deixou-se levar pelo que estava dentro dele e precisava sair, precisava sair com extrema urgência.

Chegara. Ele chegara. Sua viagem havia terminado...