Olá. Espero que todos estejam bem.
Esse é um capítulo especial para mim, espero que vocês gostem. Na verdade não tenho muito a falar sobre ele e por que é especial, talvez seja porque foi um texto que fluiu bem, sem grandes dores de cabeça ou necessidade de reparos, também porque me agradou bastante no final, espero que vocês sintam o mesmo.
Obrigada a quem está lendo e muito obrigada mesmo a quem está tendo tempo de me deixar uma review. Escrever histórias com personagens secundários sempre gera pouco apoio dos leitores, fico mesmo muito feliz em saber que há alguns acompanhando a saga do nosso corajoso elfinho moreno e de sua família.
Beijos
Sadie
CAPÍTULO XII – OUTRAS MÃOS
"Ainda que seus passos pareçam inúteis; vá abrindo caminhos como a água que desce cantando da montanha. Outros te seguirão..."
Antoine de Saint-Exupéry
"Você é um guerreiro corajoso, menino. A espada não vai experimentar o seu sangue." Elrohir ouviu em seu sono, encostado de joelhos na grande pedra acinzentada. De alguma forma sabia quem era a figura em pé ao seu lado, há tempos vinha tentando imaginar como ele seria, mas, agora o sentindo tão perto, não tinha coragem de abrir os olhos e encarar aquele adán a quem uma maldição arruinara a vida, mas transformara em herói.
Era bom sonhar com Túrin Turambar, cuja voz, mesmo em tom de sussurro, parecia ter a potência de todos os tambores do mundo.
"Você é corajoso, menino." O gêmeo ouviu então como se o guerreiro estivesse agora agachado a seu lado, falando quase a seu ouvido. "Vamos, guerreiro! Vamos! Desperte! Desperte! Desperte!"
Sonho estranho... Por que estava tendo esse sonho?
Elrohir ergueu as pálpebras com dificuldade, apesar do tom urgente que ouvira, não queria despertar, estava tão cansado. Quando enfim conseguiu fazer o mundo ganhar foco em suas vistas extenuadas, percebeu que adormecera com a espada junto ao peito...
A noite invadira enfim a terra dos Infortunados...
A arma estava úmida, dessa vez com seu próprio sangue. O ferimento não fechara, mas com seu breve descanso a hemorragia parecia ter diminuído consideravelmente, embora tivesse lhe roubado mais do que ele talvez pudesse ter cedido.
O gêmeo olhou para a arma uma outra vez. Era pouco o que podia ver com a luz escassa que a redonda lua, parcialmente encoberta por algumas nuvens, podia dispor, mas era bastante para destacar o metal escuro que agora refletia o vulto de seu pequeno mestre.
Elrohir esvaziou o peito e foi invadido por uma sensação que até então não sentira, um afeto pela arma que portara, a arma que desenterrara, que reforjara, que defendera e que usara em sua própria defesa... a arma que aprendera a amar. E esse sentimento preencheu-o por um tempo, apagando as outras dores, e a espada brilhou, como se estivesse compartilhando o sentimento de seu pequeno portador. Uma sombra de sorriso ergueu os cantos dos lábios do gêmeo. Era um sorriso cansado, mas que nascera de uma acalentadora conclusão.
"Não é só para mim... Acho que, no fim de tudo, a liberdade vai ser para nós dois, não vai?" Ele indagou em seu pensamento e, como se em resposta, a arma voltou a brilhar, fazendo com que o gêmeo deixasse amolecerem os ombros, aliviado. Estava tudo mesmo para se finalizar, era o que ele sentia, e esse pensamento acalentou seu coração enfraquecido. Se tanto ele, quanto a espada fossem também fazer parte daquele sepulcro, agora não importava. Estava tudo chegando mesmo ao fim.
Tudo está terminando... Tudo está chegando ao fim... Ele repetiu para si mesmo, reunindo o resto de sua vontade e desejo para terminar a tarefa que tinha a cumprir. Fazer uma cova, sepultar a espada que agora já sentia também um pouco como sua, fazer seu pedido de perdão... sentir-se livre outra vez...
Elrohir apoiou-se na pedra fria, erguendo-se devagar e administrando as dores e a vertigem que o movimento lhe causara. Na parte detrás do túmulo a pedra refletia melhor a luz da lua e o gêmeo pôde avaliar o campo que tinha que cavar. Ele deu dois passos nele. No entanto, quando sua mão soltou o apoio da pedra, apenas seu desejo não foi o bastante para mantê-lo em pé e ele foi a chão mais uma vez, dobrando os joelhos e fazendo o máximo para não perder a consciência. Apoiou ambas as mãos naquele chão embebido de chuva e tristeza, fincando os dedos na grama verde que crescera e percebeu que aquele não seria um solo simples de ser cavado.
"As guerras mais importantes são ganhas através das pequenas batalhas."
A voz de Glorfindel veio provocá-lo, junto com alguns pingos gelados de chuva, e Elrohir apertou os olhos, com uma mistura de sentimentos a assolá-lo. Eram obstáculos demais. Por que, pelo menos naquele instante derradeiro, as coisas não podiam se dar de uma forma mais simples?
"As vitórias podem se dar com a ajuda das pequenas superações do soldado nos momentos de exaustão, nos períodos de quase descrença."
A imagem de Glorfindel repetiu em sua mente, completando um daqueles ensinamentos que faziam com que os elfinhos rolassem os olhos insatisfeitos e consultassem o céu a espera do final das horas de treino. Elrohir era um deles, sempre fora, impaciente e questionador, queria saber o propósito de tudo. Tinha o direito a uma vida eterna se quisesse, mas sempre vivia como se fosse desaparecer no instante seguinte.
Agora ele estava lá, ironicamente repetindo a lição do mestre como um mantra, apoiando-se naquele som, esquecido de perguntas e propósitos, e munindo-se da ilusão de que o guerreiro louro estava a seu lado, motivando-o como fizera diversas vezes, a fim de encontrar forças para o que ainda tinha que enfrentar.
Aquele singelo jogo de emoções fez seu propósito, e as mãos do jovem elfo moveram-se em mais um esforço. Logo crescia a sua frente uma poça de água tingida de marrom e de vermelho. Conforme ela aumentava de diâmetro, engolindo água e a força de seu criador, Elrohir começava a sentir o calafrio de quem cava sua própria sepultura. Vira um funeral apenas uma vez em sua vida, mas não era o de um elfo. Uma caravana edain tinha sido atacada e um dos integrantes do grupo, ainda muito jovem, ferido gravemente, chegara às mãos do lorde de Imladris com o espírito já pronto para partir. Elrohir lembrava-se bem do olhar do pai e da canção de despedida que o próprio Elrond cantara na ocasião. Naquela noite a mãe esclarecera a ele e a Elladan sobre o destino dos edain.
Naquele dia ele também soubera que seu destino estava em uma decisão que tinha que tomar um dia...
O gêmeo soltou a cabeça para frente, as mãos agora apoiadas no buraco fundo, com água até quase os cotovelos. Os cabelos cobriam-lhe o rosto, as pontas já submersas naquela água escura. Um vento frio roçava-lhe as costas nuas, despertando-lhe tremores involuntários.
Mas faltava pouco agora, ele tinha que terminar o que viera fazer e não conjeturar sobre seu destino depois disso. Ele não tinha tempo para sentimentos de perda, arrependimentos, não tinha tempo para a saudade... Ele não tinha tempo para a saudade.
Elrohir ergueu os olhos ao céu acima e percebeu que as nuvens haviam voltado a se aglutinar e a castigar o chão já bastante encharcado. Ele ficou parado um instante, sentindo os pingos gelados escorregarem por seu rosto. Não parecia, entretanto, sofrer da mesma forma com a água que caia, estava desligado do mundo, guardando forças para aquele ato final.
A espada aguardava na grama, agora totalmente desaparecida com a súbita ausência do luar. O movimento seguinte do gêmeo foi esticar o braço e puxar a arma para perto de si. Ele apalpou-a uma última vez, medindo seu tamanho, imaginando se a cova que fizera fora suficientemente grande. Depois moveu o objeto para o seu destino final.
Embora sentisse ter o mundo inteiro contra ele, as intempéries, a dor do corpo e do espírito, sentiu uma sensação diversa de tudo o que imaginava ao perceber, mesmo na mais completa ausência de luz, a espada submergir naquele túmulo que ele criara. Era mesmo a liberdade que buscava, libertar-se daquele remorso, daquele ódio de si mesmo... ter paz novamente, nem que pela brevidade de um momento.
E foi mesmo um momento bastante curto o que o gêmeo teve para fazer uso daquela paz e tentar tirar dela as forças que precisava para terminar o trabalho. Isso porque, no momento seguinte, quando ele já movia novamente as mãos para cobrir a cova, um som inesperado escapou por entre os galhos da mata um pouco adiante. Naquele instante a audição élfica do gêmeo captou algo que ele gostaria de não ter ouvido, uma respiração cautelosa que ele conhecera naquela ilha e que aprendera a temer com todas as suas forças.
Por pura ironia do destino ou qualquer outro motivo, a chuva cessou e as nuvens voltaram a se apartar, como se a lua tivesse forçado uma brecha para iluminar aqueles caninos mortais, embebidos agora em saliva de puro deleite...
Saindo detrás de um arbusto, o terrível lobo parecia bastante satisfeito por reencontrar a presa que lhe escapara...
Dessa vez Elrohir nem pensou em reagir ou fugir, nem que quisesse conseguiria. Ele fechou os olhos, desacreditado daquele inesperado impasse e sentindo-se sem qualquer disposição de tentar o que quer que fosse. Aquilo não podia ser verdade... Não naquele momento... Não assim tão perto do fim... Parecia que os Valar não o achavam mesmo digno de completar sua missão, só podia ser isso. Ele não era merecedor de uma oportunidade de redenção, de conseguir se desculpar... se sentir perdoado.
O gêmeo soltou o corpo, tentando se deixar levar por aquela verdade, invadir-se de resignação, enquanto ouvia o agressor aproximar-se devagar... Passo a passo... Chegava a sentir o cheiro da mata molhada... O cheiro do sangue... O cheiro da morte...
Foi, no entanto, quando sentia seu tempo expirar e sua última chance desaparecer, que o espírito de guerreiro do jovem elfo decidiu lembrá-lo de que autopiedade e desistência nunca se encaixaram a seu temperamento. Elrohir ainda abanou a cabeça com força, tentando inutilmente se livrar daquela sensação, daquele anseio de não baixar sua guarda, de não se deixar abater... de não desistir. Mas o desejo cresceu em seu peito, rebelde, incontrolável como ele mesmo era, e a espada voltou mais uma vez à suas mãos, erguendo-se com ele e enfrentando o algoz com surpreendente convicção.
Os instintos do lobo fizeram o animal dar um salto na escuridão para fugir do conflito direto, mas Elrohir acertou-o categórico na lateral esquerda, arrancando um uivo de dor da fera, antes dele mesmo desequilibrar-se com a enorme espada e voltar ao chão. O animal também rolou alguns metros, mas logo estava em pé, desprezando o ferimento e até mais furioso. O gêmeo tornou a levantar-se, erguendo com dificuldade a arma em sua defesa.
Estavam frente a frente, mais uma vez, a mais estranha dupla de inimigos. O lobo rosnava na noite escura, o pêlo reluzindo o brilho da lua mãe acima, enquanto ele ziguezagueava como quem busca uma brecha em uma montanha sólida. Elrohir tentava ao máximo manter erguida a espada, mas agora ela tremia em suas mãos. Aquela sensação trouxe ao menino um lampejo de memória dos mais angustiantes: a imagem de um outro momento no qual não conseguira manter a grande espada em pé e acabara por desencadear todo o processo que o colocara ali.
Pobre Elladan... Ele não merecia ter um irmão como ele...
Talvez fosse melhor que aquela fera estúpida o engolisse de uma vez! Elrohir se viu pensando e voltou a irritar-se consigo mesmo. Elbereth, quando aquele ódio desapareceria? Quando? Seria preciso perder a vida de vez para se lembrar de como era ter um pouco de paz? Ele se questionou, encarando agora a imagem embaçada do lobo, que rosnava, andando precavido de um lado para o outro a sua frente, em nítida busca por uma oportunidade melhor para o ataque.
O gêmeo piscou algumas vezes, tentando manter-se em pé, mas sentindo que se exauriam suas armas pessoais, seu desejo de vencer, sua esperança de voltar, sua sede de liberdade. Ele estava muito cansado de tudo aquilo, cansado de acreditar e enganar-se, cansado de imaginar haver uma saída, cansado de sentir tanta dor.
A fera parecia ter percebido o enfraquecimento e a hesitação de sua presa, por isso aguardava, mostrando os dentes brancos e movendo ligeiramente os lábios como se conversasse consigo mesma. Elrohir continuou encarando-a, mesmo percebendo a arma oscilar. Ele a empunhava agora com ambas as mãos juntas, mas nem assim estava conseguindo mantê-la em pé.
Era demais para ele... Não conseguiria ir adiante, tinha que se conformar... Suas forças eram findas e ele passava a perceber agora que, ironicamente, o fim daquele pesadelo se daria da mesma forma que seu começo. A espada voltou a parecer pesada demais para ele e, como da primeira vez que a erguera, ela pendeu para frente sem sobreaviso, escorregando de suas mãos, sem, no entanto, fazer qualquer vítima.
A vítima, dessa vez, seria ele... Nem sabia se de fato se importava com isso agora. Sentia tanta dor. Tudo o que lamentava era ter tirado a espada da cova que fizera. Que destino estranho. Agora ela ficaria caída em algum lugar novamente, como quando o soldado a encontrara.
O ar agitou-se à sua volta e ele estremeceu, caindo de joelhos. Sabia quem vinha em sua direção, movendo o espaço em um rompante de puro terror. Conseguia sentir o hálito nefasto dele, antecipando a dor das garras que o atingiriam novamente... Para onde o arremessariam? Será que o arremessariam de fato? Será que a fera o exterminaria de uma vez ou ainda brincaria sadicamente com ele?
Já devia tê-lo atingido... Quando ia fazê-lo?
Então o ar moveu-se mais uma vez, e Elrohir, julgando que agora fosse acontecer, encolheu-se em um instinto. Contudo, ao invés disso, o ambiente foi tomado por uivos, ganidos e outros sons estranhos que o fizeram reerguer receoso as pálpebras.
E o que a pouca luz lhe revelou foi a última cena que ele imaginava ver...
Havia mais alguém ali... Um guerreiro... E ele brandia uma espada, investindo corajosamente contra a fera, que rosnava, movendo o corpo para frente e para trás, erguendo as patas dianteiras e procurando um modo de reverter a situação.
Havia mais alguém ali... Ali naquela ilha vazia... Ali na Terra dos Infortunados...
Elrohir ficou petrificado diante da imagem de alguém tão habilidoso. A espada brilhava, cortando o ar, e seu portador escapava das investidas do adversário com rapidez, embora continuasse a centralizar seus esforços em cercar o agressor como podia, parecendo tentar impedi-lo de se aproximar do túmulo.
O lobo era imenso, mesmo diante de um adulto como era aquele que agora o desafiava. Parecia incrivelmente mais irado. Seus dentes estavam à mostra, brilhando por sob o focinho franzido. Seu rosto era um borrão disforme agora, apenas as presas e os olhos conseguiam vencer a noite escura. Ele emitia toda espécie de sons de protesto e ameaças, procurando intimidar o novo inimigo.
O guerreiro, contudo, não demonstrava qualquer sinal de hesitação, mesmo com o tamanho e agressividade extrema do adversário que tinha à sua frente. Ele continuava a cercar o animal como podia, ainda em sua árdua tentativa de impedi-lo seguir o caminho que parecia desejar: chegar até sua primeira presa, perto do túmulo.
Por várias vezes a criatura saltou, procurando pegar o guerreiro de surpresa e atingi-lo. Em um determinado momento, Elrohir chegou a pensar que a fera havia sido bem sucedida, mas o estranho abaixara-se propositalmente, escapando em um movimento perfeito e sincronizado, apenas para erguer-se em tempo de atingir o animal, quando este passava por cima dele, e proporcionar-lhe uma aterrissagem das mais desastrosas. A fera rolou com um ganido pelo chão encharcado.
A luta, entretanto, não havia se encerrado. Mesmo ferido, o animal reergueu-se rápido e decidido, parecendo sobrepujar a dor do novo ferimento, abafando-a com uma gana ainda maior que o fez avançar enlouquecido por sobre o agressor, sem parecer medir qualquer conseqüência. Parecia cego de fúria, indiferente agora à dor e a espada que refletia a luz da lua como se fosse sua própria.
O que se seguiram foram momentos de pura agonia, repletos dos sons da arma cortando o espaço e dos gritos intimidadores da fera.
Era como se aquela luta jamais fosse ter um fim até que o inacreditável ocorreu: em um determinado instante do conflito, o guerreiro moveu a espada para frente do corpo, mantendo-a em uma linha horizontal e segurando-a com ambas as mãos. Foi um ato preciso, como se, subitamente, o futuro tivesse ficado muito claro para ele. Aquilo pareceu ser verdade, porque, de repente o animal voltou a avançar de forma mais ensandecida do que as anteriores. A fera parecia querer usar aquele movimento violento e rápido como uma arma intimidadora e derradeira.
Dessa vez, no entanto, o adversário não se esquivou como fizera anteriormente, pelo contrário, permaneceu onde estava, aguardando com coragem a chegada do enorme oponente, e limitando-se a tentar contê-lo com a espada diante de si. O lobo talvez não esperasse tal reação, quiçá acreditasse que alguém tivesse a força para contê-lo assim, com a própria arma. Mas aquele guerreiro mostrou-se um oponente à altura, usando a espada como escudo e fazendo com que o animal encontrasse, em seu ataque, aquela lâmina afiada e perecesse, enfim, com esta enterrada no peito e um uivo abafado de surpresa e dor.
Terminara...
E o silêncio voltara a imperar naquele local sagrado...
Silêncio... Silêncio...
Inacreditável... Inacreditável... Era o que Elrohir conseguia repetir para si mesmo, enquanto seu corpo parecia amolecer devagar, conforme a emoção daquela luta ia se esvaindo, amortecida pela certeza do pesadelo terminado. A imagem do vencedor do difícil duelo, ainda parado, observando a fera caída, checando se realmente não havia mais perigo, começou a parecer tão distante... Fora uma luta extraordinária e difícil. Era só o que ocupava a mente do atônito gêmeo, que ainda olhava para a cena final como quem não crê no que vê, achando que no fundo aquilo tudo só poderia ser um sonho bom, um sonho bom do qual não valia a pena despertar.
Foi apenas no instante em que o estranho virou seu rosto para ele que o gêmeo voltou a estremecer, com o repentino receio de que talvez aquele sonho não fosse ter o final que ele imaginava. Sua preocupação se efetivou ainda mais quando o viu correr em sua direção. Ele até tentou levantar-se, mas não tinha forças para fugir. Tudo o que lhe restou então foi voltar a encolher-se, temendo pelo que estava por vir. Quando sentiu mãos sobre ele, braços o envolvendo com urgência, até tentou reagir, mas a voz que acompanhou esses movimentos tornou as coisas extremamente confusas mais uma vez.
"Ion-nín!"
Elrohir a princípio estremeceu, passando por um momento de estupefação e incompreensão, mas depois seus instintos mais profundos o fizeram apertar, angustiado, os olhos em sua própria defesa. Precavia-se, prevenia-se, não queria acreditar nem por um instante naquela hipótese absurda. Não... Nem por um instante... De todos os sonhos estranhos dos quais fora prisioneiro desde que saíra, aquele era o mais injusto deles. Ele não queria ouvir aquela voz, não aquela voz... Não era justo ter uma alucinação como aquela, apenas para depois despertar no mesmo pesadelo de sempre... Não era justo... Não era...
Mas as mesmas mãos, mais cautelosas dessa vez, o trouxeram para perto, já descendo por seu peito ferido, checando o quadro triste que a escuridão parecia tentar esconder.
"Tudo bem, ion-nín. Confie em mim. Tudo vai ficar bem..."
O gêmeo voltou a abrir os olhos, mais devagar agora, tentando ler aquelas sensações, na quase total ausência de luz. O fato era que, na verdade, não precisaria de luz alguma para saber quem estava lá... por mais difícil que fosse acreditar naquilo... Jamais precisaria de qualquer ajuda para reconhecer aquela pessoa, cujo calor parecia trazê-lo de volta à vida...
No entanto... Algo estava errado... Tinha que estar... Não podia ser... Ele não podia acreditar naquela idéia... Não podia acreditar que aquele guerreiro... que aquele guerreiro que enfrentara aquela fera terrível... que aquele guerreiro era... era seu pai... O guerreiro que derrubara aquela fera terrível era... era seu pai? Como aquilo era possível? Como ele viera parar ali? Como?
Ele... Ele viera buscá-lo?
Elbereth... Sim... Seu pai... viera atrás dele... viera salvá-lo... Seu pai cruzara todo aquele caminho e... enfrentara por ele aquele... aquele monstro mortal...
"Shh, tudo bem... tudo bem, criança..." Elrond agora o mantinha encostado em seu peito, parecendo sentir os tremores que aquelas idéias todas despertavam no corpo exausto do menino. Mas Elrohir se concentrava apenas no tamborilar acelerado do coração que ouvia... do coração do pai... Aquele som que o fazia, enfim, acreditar que não tinha sido um sonho, que tudo fora real. Ele moveu as mãos então, segurando nas vestes do curador com força, como se o lorde elfo fosse desaparecer. "Está tudo bem. Tudo bem, criança minha. Fique em paz agora."
Elrohir ainda hesitou, parecendo não acreditar no que ouvia, mas Elrond continuou repetindo suas frases de sempre, suas certezas de curador, até que o jovem elfo não conseguiu resistir ao tom pacato do pai, um tom que ele ouvira desde pequeno e que sempre despertava nele aquela mesma sensação de paz, de segurança, independente de onde estivessem. Ele sentiu o corpo relaxar enfim, como não sentira uma única vez desde que saíra de casa, e o cansaço extremo não o levou ao reino dos inconscientes porque uma súbita luz iluminou a clareira na qual estavam, sobressaltando-o. Ele só não se levantou com o susto porque Elrond segurou-o perto de si, antes de reerguer a espada na direção de onde o som viera. Não custou muito, no entanto, até que o lorde elfo voltasse a abaixar a arma com um suspiro.
"Não devia ter vindo, mellon-nín." Ele ouviu o pai dizer a alguém que se aproximava.
"Ouvi um som que julgava não ter distinguido bem." Respondeu o recém-chegado e Elrohir enfim o viu, aproximando-se cauteloso da fera que o pai matara. Era um elfo de cabelos tão claros quanto a lua, a qual pareciam refletir. "Ilúvatar, quisera estar errado. O que tal criatura faz aqui?"
"Não sei se desejo saber." Elrond disse, esvaziando o peito. "Só espero que seja o único."
"Não costumam andar em grupos..." O outro comentou, voltando-se enfim para o amigo. Elrohir estremeceu novamente quando o elfo aproximou-se e agachou-se diante deles. "Encontrou-o então?"
Elrond sorriu breve e pacientemente, depois olhou para o assustado filho, em cujo semblante podia ler tantas coisas tristes e preocupantes que não o animavam a tomar qualquer outra atitude que não tirá-lo dali de imediato. Mesmo assim ele pousou cauteloso a mão no peito ferido do menino, tentando transmitir-lhe alguma energia, enquanto voltava a olhar para o amigo armador.
"Círdan. Esse é o caçula de meus filhos gêmeos: Elrohir." Ele disse, depois voltou a encarar o filho, cujos olhos já se arredondaram diante do nome do ilustre recém-chegado. "Elrohir, esse é Lorde Círdan, da cidade dos Portos."
Elrohir engoliu em seco, esquecido de suas dores. Em todas as lições que aprendera com o mentor e os pais, um personagem sempre estivera em destaque para ele. Círdan, o armador. O senhor dos mares, o escolhido de Ulmo, o não nascido. Círdan estava ali e o pai o chamava de amigo...
"Olá, Elrohir." O elfo sorriu-lhe, apoiando a mão em sua cabeça com cuidado. "Menino, sua trajetória se transformará em versos um dia, com certeza."
Elrohir intrigou-se com o comentário, mas depois ofereceu um breve sorriso.
A luz de um relâmpago levou então o olhar dos dois lordes elfos ao céu, e o estrondoso som que a seguiu colocou Círdan em pé de imediato.
"Temos que ir o quanto antes." Ele disse e Elrond apenas assentiu.
Todo aquele movimento trouxe a Elrohir uma conclusão que lhe roubou a pequena alegria despertada por aquela situação tão fabulosa. Ele desfez-se imediatamente dos braços do pai, que primeiro tentou contê-lo, mas depois, diante da insistência extrema do rapaz, acabou por deixá-lo afastar-se, limitando-se a acompanhar o movimento penoso do filho, enquanto tentava compreender o que estava acontecendo. O gêmeo apanhou a arma que deixara cair e passou a arrastar-se para longe. A princípio Elrond apenas observou o movimento intrigado, mas preocupou-se quando tentou voltar a aproximar-se e o filho levantou categórico uma das mãos.
"Ion-nín, o que houve?" Indagou sem entender. No entanto, quando percebeu a cova que o filho cavara, a intenção daquele ato saltou-lhe aos olhos. "Não... Não pode, menino..." Ele disse relutante. "Esse lugar é sagrado... Se violar esse túmulo estará cometendo um grave crime, criança."
Elrohir apenas sacudiu a cabeça como resposta, no rosto um misto de dor e angústia. Ele apontou nervoso então para o buraco que fizera e mostrou a arma em sua mão para o pai. Elrond envergou as sobrancelhas, por fim apertou os lábios fechados, mas foi Círdan quem pareceu disposto a traduzir os propósitos daquela criança.
"Ele quer apenas enterrar a arma. Não pretende verificar se o herói está ou não com a dele."
Elrond sentiu o queixo amolecer. Então Elrohir fizera aquela jornada perigosa e extenuante apenas para deixar a espada no reino dos infortunados, mesmo tendo ali a chance de conseguir provar sua inocência? Ele não pretendia abrir o túmulo e verificar se a Gurthang estava com seu último portador, Túrin Turambar?
A confirmação estava no semblante do menino, cujos olhos brilhantes estavam fixos nele com uma determinação que dizia mais do que qualquer palavra seria capaz.
"Mesmo assim, criança minha..." Elrond disse com paciência e afeto, lamentando ver o filho voltar a erguer a mão manchada, ao vê-lo tentar se aproximar. "Qualquer violação desse solo é crime, menino. Não pode resolver o problema dessa forma."
Elrohir pareceu hesitar a princípio com aquelas palavras, mas logo se recusou a aceitar o sentido delas. Quando Elrond tornou a se aproximar, os olhos do gêmeo se encheram de lágrimas e desespero, mas ele pressionou o maxilar fechado, afastando a ambas as sensações e balançando a cabeça com vigor, colocando de imediato a arma dentro da cova que fizera sem qualquer indecisão.
Elrond suspirou contrariado, vendo-se novamente em um daqueles terríveis impasses nos quais o destino parecia ter um prazer especial em colocá-lo. Ele respirou fundo, mas acabou tomando a última atitude que desejava: aproximou-se e segurou os pulsos do filho, impedindo-o de completar a tarefa e apertando os olhos com força ao perceber o menino usar suas últimas forças para se debater e tentar escapar.
Elbereth, quantos empecilhos teria o rapaz enfrentado para que fosse o pai a impedi-lo de conseguir o que desejava, praticamente às portas do ato encerrado?
"Perdoe-me, ion-nín." Ele pediu, abraçando o filho com cuidado quando enfim este deixou de se debater, ainda parecendo tremer de nervosismo em seus braços. "Não posso permitir... Eu... Eu enfrentarei o que tiver que enfrentar a seu lado, criança. Eu não vou deixá-lo nunca mais, não permitirei tampouco que o levem para longe de mim... Eu lhe dou minha palavra, ion-nín... Mas não somemos aos nossos ombros mais infrações, menino."
Elrohir não respondeu, dessa vez nem mesmo se manifestou. Ele estava quieto agora, estranhamente quieto. Elrond respirou fundo então, puxando o rapaz para que pudesse olhá-lo sob a luz que Círdan havia trazido. Mas o menino fugiu de seu olhar, encostando resignado a cabeça no peito do pai, seu rosto estava tão triste que o próprio Elrond sentiu o desejo de não olhá-lo mais, de não cogitar o que ele estaria pensando e sentindo.
"Vai dar tudo certo. Confie em mim, ion-nín." Ele tentou dizer, mas o menino não reagiu nem àquelas palavras, seu corpo estava frio, e ele parecia agora totalmente entregue, como um náufrago que não parece ter ciência que enfim encontrara a praia. Talvez não sentisse que de fato a tivesse encontrado. Talvez não sentisse mais no pai o porto seguro que sempre tivera. Talvez, apesar de tudo, ainda estivesse se sentindo condenado...
Elrond respirou profundamente, compreendendo melhor do que gostaria aquela amarga sensação de injustiça e desespero, sentindo ele mesmo o peso terrível daquela condenação. Ele olhou então para a cova rasa à sua frente, na qual a imagem da espada sequer podia ser vista, submersa na água que invadira o buraco. A seu lado Círdan se agachara, acariciando devagar a perna de Elrohir. O armador parecia deveras sentido também com a absurda encruzilhada na qual estavam. Por isso, quando os olhos do amigo moreno buscaram o dele, pela primeira vez o próprio Círdan não soube o que dizer.
Elrond fechou então os olhos, apertando levemente o abraço que oferecia ao filho. Como podia estar ainda angustiado, mesmo depois de ter encontrado, quase milagrosamente, o menino? Algo estava errado naquela história. Algo que já começara errado e que fora somando erros de todos os tipos em uma mistura quase vil. Ele soltou então os ombros, pensando ainda no que poderia ser considerado erro e no peso que cada um teria, por fim voltou-se para o amigo de cabelos claros e seu olhar parecia antecipar já o que ele diria.
"Círdan... mellon-nín. Ser-lhe-ei eternamente grato pela ajuda. Peço-lhe que vá embora em seu barco agora e não se preocupe mais, pois parece que essa história não terá o final que esperávamos. No entanto, mesmo que não haja para meu filho e eu a saída que eu desejava, farei o possível para que ao menos haja paz para nós."
O armador franziu as sobrancelhas, sem entender, e o mesmo fez o rapaz nos braços do pai. Foi apenas quando Elrond sorriu para o filho que Elrohir compreendeu o que o curador insinuava. O menino soltou os lábios surpreso, mas um pequeno brilho voltou a sua pele, como um raio de esperança. Círdan também entendeu bem as intenções do amigo, por isso apertou os lábios e engoliu aquela conclusão sem questionar-lhe o sabor. Ele ergueu-se então, recebendo um último olhar do lorde de Imladris, mas enchendo o peito, ao invés de se resignar.
"Você sabe o caminho, Elrond." Disse com firmeza. "Não questionarei o que acontecerá aqui, mas se com o raiar do dia vocês não estiverem no barco, eu voltarei para buscá-los."
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E Círdan falava sério, talvez por isso Elrond surgiu, mesmo relutante, trazendo o menino, ainda antes do amanhecer. O armador ajudou-os a embarcar em silêncio e o mar igualmente silencioso pareceu ter encontrado a paz junto com aquele pai e aquele filho. Círdan deixou-os sozinhos dentro da cabine, enquanto conduzia a embarcação de volta ao porto. Quando já estavam em alto mar, uma figura tomou seu lado ao leme.
"Dormiu enfim?" Ele indagou.
"Dormiu assim que consegui aquecê-lo. Não creio que despertará até chegarmos. Nem sei como chegou tão longe no estado no qual está."
Círdan nada disse, observando apenas o vulto triste do amigo, com o nascer do sol a ressaltar-lhe a silhueta.
"Ficam no porto conosco." Ele ditou. "Pelo menos até que os seus venham buscá-los. O que com certeza acontecerá. Logo seu povo estará querendo mandar ao espaço aquelas leis tolas."
Elrond baixou a cabeça.
"Isso não acontecerá. Os nobres com quem me aliei quando fundei a cidade do vale têm algo que meu coração preza extremamente. O que fazem o fazem por mim, porque sabem que é assim que eu gostaria que fosse feito."
"Isso é tolice. São inocentes."
"Não somos, Círdan. Sabe disso."
"A espada pertencia ao menino. É o que tudo indica a qualquer entendedor, mesmo mediano que seja. Como acha que uma criança daquele porte fez o que fez? Somente o dono da Gurthang conseguiria tê-la trazido até aqui, conseguiria tê-la portado. O que aconteceu, aconteceu pela vontade da arma. A espada agia independentemente da vontade de seu filho, fazia dele instrumento."
"Isso são lendas..."
"As lendas são frutos de uma realidade cuja interpretação é de difícil aceitação, mellon. Sabe disso."
Elrond balançou brevemente a cabeça.
"Nem sequer sabemos se tratar ou não da espada de Eöl." Ele lembrou. "Como teria saído daqui e cruzado tamanho território? Quem a teria trazido?"
"Não temos todas as respostas. Mas o fato de não as termos não anula a conclusão que chegamos."
"Não cheguei à conclusão alguma, Círdan. Não posso fazê-lo. Não temos provas suficientes para isso."
"Não temos porque você e seu filho foram nobres demais para violarem o túmulo do herói. Algo que passaria pela cabeça de qualquer outro na situação na qual estavam."
Elrond cobriu o rosto com a mão direita, massageando-o devagar. Depois soltou ambos os braços sobre o parapeito do convés.
"Isso não importa mais... Tudo o que eu quero é estar com ele, não interessa onde, não importa se sejamos aceitos ou não. Meu desejo agora é apenas encontrar um lugar para ficarmos, trazer Celebrian e Elladan, se ela ainda desejar estar a meu lado... Garantir que sejamos uma família novamente."
Círdan encarou o amigo um instante, sentindo extrema dificuldade em interpretar o que lia no semblante cansado deste. Ele indagou então:
"Se o que me diz é fato, por que ainda sinto um peso extremo em seus ombros, Elrond?"
"Por nada..." O curador desconversou. "Apenas ainda estou preocupado com ele... É só isso..."
"Preocupado com o menino? Por quê? São graves seus ferimentos?"
"Não são de risco mais sério... Custará a se recuperar com o espírito entristecido como está, mas o fará. Principalmente se estivermos todos juntos novamente."
"Estou certo de que esta é a vontade de sua esposa também. É com isso que se preocupa? Acredita que ela possa não desejar acompanhá-lo?"
Elrond silenciou-se, esvaziando devagar o peito, depois moveu a cabeça em uma pequena negativa.
"Ela virá..." Ele apenas disse. "Por isso sou grato. Pelo que nos une. Haveremos de resolver esses problemas e encontrar um lugar para vivermos."
Círdan esboçou um sorriso, mas continuou olhando preocupado para o amigo. Elrond parecia muito abatido, não que não houvesse motivos para isso. Fora de fato uma empreitada que exigira do lorde elfo não apenas a disposição de um dos mais bravos guerreiros, mas também a paciência do mais experiente dos elfos.
"Tudo acabará bem. Tenho certeza. Ainda os vejo de volta ao reino do vale, ao reino que você idealizou, meu caro." Disse o armador e Elrond esboçou um sorriso triste como resposta, reforçado por um breve movimento de cabeça. Porém, ambos não pareceram satisfazer ao senhor dos barcos, cujo olhar continuava a tentar desvendar o semblante exausto do amigo.
"Quero estar com ele... e que nenhum mal mais o aflija..." Elrond disse então, como se estivesse conversando consigo mesmo e Círdan, mesmo sem compreender exatamente o porquê, sentiu que naquela frase estava o cerne do problema que afligia ao amigo moreno.
"Ele o ama." Arriscou e surpreendeu-se por ver os olhos do curador brilharem de tristeza. "Elrond... Não duvida disso, duvida, mellon? Alcançou-o, salvou-o, ajudou-o até a burlar uma lei antiga, a enterrar a espada em solo sagrado, a libertar-se... Ele o ama profundamente, qualquer um que tenha visto o modo como olha para você concordaria com o que afirmo."
Elrond balançou a cabeça simplesmente, depois soltou o ar dos pulmões.
"É sempre assim..." A frase escapou-lhe por entre os lábios entreabertos, mas para o armador a seu lado, ela pareceu repleta de significados.
"O que é sempre assim?"
O curador não respondeu, voltando apenas a balançar a cabeça.
"Diga-me o que o aflige, Elrond. Quando cansados, como você está nesse momento, tendemos a analisar erroneamente até mesmo os menores problemas." Círdan aconselhou, mas quando sentiu que ouviria uma evasiva, o curador olhou-o com profundo pesar.
"Elrohir sempre escapa das minhas vistas..." Ele revelou em um semblante rígido, parecendo colocar aquelas palavras boca afora com extrema dificuldade. "Parece que estou condenado a perceber sua dor e seu sofrimento quando a situação já é extrema."
"Do que está falando?"
Elrond olhou o mar a sua frente. As ondas faziam um triste vai e vem. Ao longe o sol matinal refletia seus raios no espelho das águas. Círdan ficou esperando por sua resposta por um tempo, até que o curador pareceu disposto a concedê-la.
"Quando meus filhos estavam para vir ao mundo, eu cometi o único erro que julgava que jamais pudesse me ocorrer."
O armador intrigou-se, mas depois ergueu as sobrancelhas como quem se lembra de uma história antiga.
"Contou-me sobre o ocorrido, lembra-se? Quando estive em suas terras. Disse-me até que o que me revelava jamais contara a ninguém."
Elrond permaneceu imóvel, como se de fato se lembrasse bem da cena pelo amigo referida, mas seu silêncio só fez intrigar ainda mais o elfo a seu lado.
"Fala do fato de ter se enganado com o prazo do nascimento de seus filhos e de não saber se tratarem de gêmeos, não é?" Círdan procurou confirmar se de fato estavam falando do mesmo assunto, e quando o curador apenas balançou a cabeça, continuou analisando o semblante triste do amigo em busca do porquê de tamanha aflição. Ele relembrou o discurso ouvido no passado, palavra por palavra daquela honesta confissão. Lembrou-se do olhar angustiado do amigo moreno, arrancando cada lembrança como um espinho.
"Eram gêmeos... Eram dois..." Comentou então o curador, em tom tão baixo que o outro quase não pôde ouvi-lo.
"Sim... Não sabia que eram duas crianças." Repetiu o armador. "Cometeu um engano em seu diagnóstico, mas foi só isso, não foi? Julgava tratar-se de um só bebê e pelo que sei, não estava só nesse julgamento, sua esposa tinha a mesma opinião sua, além dos pais dela. Ninguém percebeu o engano."
Elrond baixou os olhos, apertando levemente a madeira rígida na qual se apoiara, atitude que despertou outro sentimento de inconformismo e incompreensão no amigo. Círdan voltou a analisar com cuidado toda a história que ouvira no passado, até que uma estranha conclusão tomou-lhe as idéias.
"Foi a presença de seu caçula que você julga não ter percebido, mellon-nín?" Arriscou por fim, já sacudindo negativamente a cabeça diante daquela idéia que para ele parecia absurda. Mas Elrond respirou fundo, dando a entender que o amigo fora deveras eficiente em sua conclusão. O armador fechou momentaneamente os olhos, voltando a balançar, inconformado, a cabeça. "Elrond. Como pode martirizar-se por algo assim?" Ele indagou, pacientemente. "Mesmo que fosse verdade. Estava lá por eles, não estava? Foram suas mãos de curador que os receberam, não foram, mellon?"
Elrond fechou os olhos, deixando que um silêncio fizesse com que Círdan começasse a achar que aquele início de manhã não estava tão leve quando parecia. O armador soltou então a mão direita do leme, apoiando-a no ombro do amigo. O elfo moreno ainda ficou imóvel por um tempo, depois baixou os olhos para o convés encharcado.
"Quando Elladan chegou às minhas mãos, ele mal podia respirar, estava com as vias aéreas completamente obstruídas. Já havia visto algumas crianças edain nascerem assim, mas jamais um elfo. Voltei-me então para ajudá-lo, Idhrenniel acompanhou-me. Creio que não custei nem a estrofe de um cantar para receber dele o som que desejava, mas no instante em que o ouvi balbuciar suas queixas sutis de bebê, outras ecoaram imediatamente atrás de mim. Quando me voltei, havia outra criança nos braços de Celebrian... Outro bebê idêntico ao primeiro..." Elrond interrompeu seu relato emocionado, depois cobriu o rosto com uma das mãos.
Círdan teve um instante de pura perplexidade. Aquela imagem triste transformava-se em um quadro perfeito diante dele, mesmo contra sua vontade. Ele pressionou os dentes juntos com vigor então, agarrando-se àquela sensação de força para que o discernimento não o abandonasse em um momento tão delicado como aquele.
"Sente-se culpado por não estar lá naquele momento, Elrond?" Ele apenas perguntou, dando uma leve sacudida no ombro do amigo. "E todos os outros momentos que vieram depois daquele, mellon-nín? E o momento de hoje? Tudo tem um porquê, mesmo o que ainda não compreendemos."
"A questão não é a de se sentir ou não culpado, Círdan." Elrond parecia frustrado a extremo e o assunto delicado não o estava fazendo sentir-se melhor. "O que aconteceu foi que perdi a confiança que tinha em meu julgamento no que concernia a ele. Fiquei pasmo... parado... petrificado, diante daquele bebezinho... Quando dei por mim era ele quem erguia os bracinhos para mim, como se dissesse. Ada, eu estou aqui... Eu também estou aqui..."
O curador finalizou seu desabafo com um veemente aceno negativo de cabeça, depois respirou fundo, levando os olhos à imagem da costa que começava a se fazer ver no horizonte. Quando a mão de Círdan voltou a apertar seu ombro, sentiu-se pouco disposto a encarar o semblante do amigo, mesmo assim, por respeito e consideração, ele o fez.
"Há algo de positivo nessa sua história, mellon." Afirmou o armador com um olhar bastante sério. "Algo que talvez possa amenizar suas preocupações."
"O que seria?"
"Ele ergueu os braços para você... Creio que, no momento extremo, sempre poderá esperar essa atitude dele." Círdan respondeu, e um sorriso sereno tomou seu rosto, adicionando àquelas palavras um singelo tom de veracidade. "Penso que, se você não perceber que ele precisa de sua ajuda, ele o fará saber... de alguma forma."
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Quando Elrond regressou para dentro da cabine, notou que o filho movera-se no divã no qual fora deixado, ele estava virado de lado agora, o rosto escondido contra a parede. O curador aproximou-se devagar, ajoelhando-se com cuidado perto dele.
"Não deve ficar nessa posição, criança." Ele ditou em um sussurro, puxando cauteloso o menino para que voltasse a ficar de costas no leito. "O que se passa? Nem depois de tudo o que aconteceu consegue dormir, ion-nín? Deve estar cansado. Com certeza deseja esse sono mais do que eu que o faça."
Elrohir não respondeu. Ele tinha as pálpebras quase fechadas agora e um ar de extrema exaustão no rosto sem cor. Elrond curvou as sobrancelhas, tentando descobrir o que estava incomodando o filho, fora uma surpresa encontrá-lo acordado mesmo depois de medicado. Era evidente que o menino lutava agora para manter os olhos abertos.
"Assustou-se por não me encontrar aqui quando despertou?" Ele tentou saber, procurando emprestar a voz um tom ameno. "Desculpe-me, ion-nín. Estava apenas no convés conversando com nosso amigo. Não pretendia deixá-lo só por muito tempo e podia ouvi-lo de onde estava."
Elrohir não respondeu, nem mesmo olhou para o pai. Ele não parecia amedrontado ou chateado, apenas entristecido. Elrond preocupou-se, mas não pôde indagar mais nada, pois o menino segurou-o pela túnica e puxou-o para perto. Elrond deixou-se conduzir, procurando entender o que o filho queria. Ele ergueu-se um pouco, mas começou a preocupar-se ao ver o filho tentar fazer o mesmo.
"Não deve levantar-se ainda, criança. Você..." Ainda quis aconselhar, mas calou-se quando percebeu que tudo que o filho queria era que ele se sentasse no divã no qual estava. Quando Elrond concordou, surpreendeu-se ao ver o menino aninhar-se junto a ele, quase sobre seu colo, envolvendo-o com o braço menos comprometido e apoiando a cabeça em seu peito.
O curador ficou sem palavras, sabia que aquela não era a posição mais favorável para o ferimento e que com certeza haveria uma dor desnecessária se o jovem elfo permanecesse daquele jeito. Mas Elrohir fechou os olhos tão fortemente assim que conseguiu abraçar o pai e pousar a cabeça sobre o peito dele, que Elrond indispôs-se a contrariá-lo, na verdade estava emocionado demais para isso. Ele apenas pousou a mão com cautela nas costas do rapaz, acariciando-o devagar, enquanto cantava baixinho uma canção, quase sem mover os lábios. Em sua mente, as palavras de Círdan voltavam a ecoar.
"Penso que, se você não perceber que ele precisa de sua ajuda, ele o fará saber... de alguma forma."
Sim. Talvez o amigo estivesse certo. Talvez não houvesse por que se preocupar tanto assim.
