Olá. Espero que todos estejam bem.

Esse capítulo é uma espécie de divisor de águas, ele dá espaço para a segunda e última parte da história. A princípio minha idéia tinha sido acabá-la com a figura do pai resgatando o filho e o ajudando na etapa final de sua empreitada, mas então uma certa família não se conteve em esperar, um elfinho arteiro começou a julgar seus atos, um curador começou a achar que talvez não pudesse regressar simplesmente para sua terra... Enfim, a história se estendeu mais algumas páginas.

É um capítulo pelo qual tenho muito carinho, um dos poucos que reli sem sentir que algo estava faltando. Tomara que sintam o mesmo.

Quero mais uma vez agradecer as reviews dos amigos que estão acompanhando e me dando esse apoio inestimável. Espero que continuem gostando.

Beijos

Sadie


CAPÍTULO XIII – O INESPERADO E SEUS CAMINHOS

Tudo é mutável, tudo aparece e desaparece; só pode haver a bem-aventurada paz quando se puder escapar da agonia da vida e da morte.

Sakyamuni


Quanto tempo Elrond demorou a perder-se, ele também, em um necessário sono de recuperação o curador não soube dizer. Nem mesmo teria despertado se o som de vozes no convés não houvesse chamado sua atenção. Era um tom conhecido seu, podia distingui-lo, mesmo falando em sussurros como estava.

"Di-lo-ei em que acredito Mahtan, mellon-nín. Acredito que estamos precisando entrar em um conflito qualquer. De preferência um bastante sério, que envolva armas e exércitos. Estamos por demais desocupados ultimamente, por isso perdemos tempo com insignificâncias e nos colocamos contra os nossos."

"Círdan, meu caro. Tem o direito de indignar-se, mas não pode negar minha razão. As leis não existem apenas para ocuparem papéis em prateleiras empoeiradas."

"Não questiono as leis, apenas a interpretação rígida que alguns dão a elas."

"Percebe que me ofende sem razão? Julga-me incapaz de interpretar as próprias leis que criamos?"

"Não o estou ofendendo, apenas desejo fazê-lo rever algumas palavras e os propósitos verdadeiros que a elas estavam associados. Assim sendo a verdade não lhe será indigesta por motivo algum."

Elrond curvou as sobrancelhas preocupado, afastando um pouco o filho de si para que pudesse erguer-se e ir averiguar o que se passava. Quando saiu da cabine encontrou duas imagens cujas vozes já reconhecera. Círdan e Mahtan, um de seus assistentes de confiança, conversavam com bastante seriedade entre os vaus do convés. Além deles também estavam a bordo, porém extremamente calados, Eilafion e Galdor, o mensageiro do porto.

"Círdan. Nega-nos o que nos é de direito. Sabe disso."

"Não lhes nego nada que lhes seja de direito. Apenas o estou chamando à razão. Algo que confesso, jamais me imaginei necessitando fazer."

Elrond percebeu o conselheiro empalidecer. Ele mesmo jamais vira o amigo do porto como parecia estar. Mesmo nos momentos de guerra Círdan estava entre os mais frios e compenetrados líderes que já conhecera. O que o estaria tirando dos prumos daquela forma?

Tal porquê pareceu esclarecer-se assim que Mahtan notou a presença do recém-chegado. O conselheiro respirou profundamente, como se a resposta à afronta que estivesse para proferir houvesse ficado presa em sua garganta. Elrond chegou a julgar que o lorde elfo fosse ter um acesso de tosse, haja vista a vermelhidão que lhe tomou as faces, mas ele se conteve quanto a isso também, limitando-se a cruzar as mãos diante do corpo e aguardar.

Só então Círdan, de costas para a porta da cabine, pareceu perceber o que havia acontecido e voltou-se para olhar o amigo sobre o ombro.

"Peço desculpas se o despertamos, Elrond. Espero que não tenhamos acordado o menino também." Ele apenas disse, afastando-se depois alguns passos, mas não indo muito longe.

"Elrohir ainda dorme. Não se preocupe." Respondeu o curador, intrigado. "Temo estar interrompendo uma discussão importante..." Ele adicionou cauteloso. "Posso ser de alguma ajuda."

"Com certeza pode." Mahtan adiantou-se, recebendo depois um olhar agravado que parecia já esperar do mestre dos barcos.

"Discutiremos isso mais tarde." Círdan ditou com empenho, mas Elrond aproximou-se mais, as sobrancelhas em um v profundo.

"O que se passa, Círdan? Pode contar-me. Aconteceu algo?"

"É o que desejamos saber, Lorde Elrond." O conselheiro disse em tom de interpelação, trazendo a atenção do curador imediatamente para ele. "Estou aqui a pedir a nosso dirigente apenas um esclarecimento, mas a resposta me foi negada."

"Qual seria a questão, Lorde Mahtan?" Elrond devolveu o tom interrogativo ao elfo de cabelos castanhos e ar austero. Já conhecia Mahtan há algum tempo também, tempo suficiente para saber que o lorde elfo só saía de seu gabinete quando a questão era mesmo de extrema urgência. Apesar do tom arrogante que sua ancestralidade sindar lhe oferecera como herança, era um dos elfos mais ponderados da região.

O conselheiro soltou os lábios para responder, mas foi contido, em um primeiro momento, pelo olhar nada amistoso que voltou a receber de seu dirigente. O elfo, porém, não se intimidou, respirando fundo e dando um passo, apenas para parar diante do antigo arauto de Gil-Galad.

"Sabe que tenho pelo senhor um profundo respeito, Lorde Elrond." Ele foi dizendo e suas palavras trouxeram um gosto enjoativo à boca do curador. Fosse o que fosse que houvesse de errado, melhor seria que aquele elfo não se apegasse a rodeios desnecessários para esclarecê-lo.

"Conhecemos um ao outro por tempo suficiente para dispensarmos tal diplomacia, Lorde Mahtan." Ele disse impaciente, fazendo com que o outro elfo apertasse os lábios, mas não parecesse intimidar-se.

"O povo dos portos quer saber se o senhor esteve em Tol Morwen." Informou o outro então, com rapidez e sinceridade que impressionaram ao curador.

"Faz-me com certeza uma pergunta cuja resposta já é de seu conhecimento, Lorde Mahtan." Elrond rebateu no mesmo instante, sem sequer olhar para os lados.

"Preciso ouvir do senhor, Lorde Elrond. E preciso também ouvir o que fizeram na Terra dos Infortunados."

"Não precisa responder, Elrond." Círdan interrompeu.

"É evidente que precisa." Mahtan ergueu ligeiramente a voz. "A presença de qualquer um é proibida naquela terra. Todos sabem disso."

Elrond calou-se, sem saber ao certo o que seria sensato ou não fazer, mas compreendendo bem o impasse no qual não só estava, mas colocara o amigo também. Ele deslizou os olhos pelo convés. Não sabia há quanto tempo o barco já havia aportado, mas um som estava superando todos os outros, um som preocupante. Ele deu alguns passos então, chegando perto da borda-falsa do navio, além da qual, pôde atribuir uma imagem aos sons que o incomodavam: o que vinha ouvindo eram os murmúrios de alguns habitantes da cidade, que agora estavam aglomerados no porto, como que a espera de uma informação importante. Eles se silenciaram, porém, assim que viram a imagem de Elrond no topo da embarcação.

"São meu povo." A mão de Círdan logo estava em seu braço, puxando-o com sutileza para longe do parapeito. "Mas às vezes agem como tolos."

"Estão apenas defendendo os direitos de quem já não pode mais fazê-lo." Mahtan dessa vez pareceu indignar-se. "Aquela terra é local de descanso para muito mais do que apenas uma família edain, Círdan. Ela é símbolo de uma modificação inteira que nossa própria terra sofreu e da qual poderíamos ter sido vítimas de alguma forma. Quando concordamos que ninguém lá colocasse os pés não me lembro de ter ouvido sua objeção."

"Não objetei porque julgava que a lei tinha o objetivo de impedir que o lugar fosse saqueado, que pudesse ser defendido de usurpadores que o tratassem com desrespeito."

"Existem muitas formas de se desrespeitar uma terra."

"Concordo, mas entre elas não está um menino aventurar-se com uma balsa, ultrapassando toda a nossa pseudo-capacidade de proteção do local e deixar lá uma arma que ele julgava não lhe pertencer."

"Quem pode julgar agora o que é desrespeito e o que não é? Posso então eu também ir deixar o que não desejo mais, por algum motivo, na ilha? Aliás, a quem pertencia tal arma?"

"Pertencia a Túrin Turambar." Círdan disse com convicção.

"Círdan." Elrond segurou-lhe um braço. "Não pode afirmar tal coisa."

"Nem ele negar o fato."

"Claro que posso. Como a arma do herói morto saiu do lugar de seu sepultamento sem que tomássemos conhecimento?"

"Ignoro." Círdan foi categórico. "Talvez, quem sabe, do mesmo modo que um menino passou por nossos barcos todos em uma balsa de criança sem ser visto."

"Isso é um absurdo!" Mahtan bateu então os braços nas pernas. "O que lhe roubou a sensatez, Círdan? Jamais o vi assim."

"Eu lhe digo o que me roubou a sensatez. A imagem frágil de uma criança cruzando sozinha um continente, carregando e defendendo uma arma com quase seu próprio tamanho e enfrentando perigos inimagináveis até mesmo para você, meu caro. E ele o fez apenas porque desejava redimir-se de um erro, desejava devolver algo que não lhe pertencia a quem julgava ser o dono, nem que para isso arriscasse sua própria vida. Para ser sincero, Mahtan, acredito que a imagem desse menino ferido, assustado, mas, ainda assim, decidido a terminar sua missão, mesmo que todos, inclusive o próprio pai, se opusessem, não me roubou a sensatez, pelo contrário, me devolveu uma sensação de plenitude que há muito eu havia perdido sem que sequer tivesse me dado à falta dela."

Mahtan primeiro soltou os lábios, surpreso com o caloroso discurso, mas depois os pressionou com tanta força que Eilafion e Galdor se entreolharam preocupados, no entanto, quando ele ia responder, algo o calou, roubando-lhe novamente a cor. Elrond voltou-se para a direção na qual os olhos do conselheiro estavam e percebeu o porquê de tamanha consternação: Em pé, apoiando-se na porta da cabine, estava o filho caçula descalço no convés ainda úmido; a camisa entreaberta expunha as bandagens que lhe envolviam o tórax, pelas quais já se percebiam as marcas da hemorragia que ainda não parecia completamente estancada. Elrohir baixou os olhos quando percebeu que estava sendo observado, mas depois respirou fundo lançando um olhar preocupado para o pai.

Elrond não pensou duas vezes, ele deixou o centro daquele conflito e adiantou-se na direção do filho, tomando sua frente e segurando-o com cuidado pelos ombros.

"Por que está de pé, menino? Volte a se deitar. Está tudo bem."

Elrohir balançou a cabeça como resposta, olhando para Mahtan, que retribuía o olhar um tanto constrangido. Agora, vendo o menino que até então era apenas o nome de um problema inconcebível, percebendo-lhe a extrema fragilidade e associando a ele as informações que já dispunha, as palavras de Círdan pareciam ganhar mais sentido do que ele mesmo gostaria de admitir, parecendo forçá-lo a começar a reconsiderar a cena que fizera. Era mesmo uma história extraordinária na qual não depositaria a menor crença se não tivesse sido dela testemunha. O gêmeo permaneceu olhando o conselheiro mais um instante depois se voltou para o pai diante de si.

"Está tudo bem." Elrond tornou a garantir, notando a palidez do filho. "Não se preocupe, criança minha."

Elrohir abanou a cabeça tristemente, depois apoiou a mão no peito e fez um gesto na direção da saída do convés. Elrond envergou as sobrancelhas, sem entender.

"Quer que partamos agora? É isso?" Ele arriscou, observando Mahtan olhar intrigado para Círdan, como quem quer entender uma situação específica, e o armador informá-lo sobre o voto de silêncio do menino. Mas Elrohir não acompanhava mais qualquer cena, ele apenas voltou a balançar a cabeça e apoiar a mão no peito. Depois apontou para Elrond e repetiu o gesto de negação. Dessa vez o pai compreendeu bem o que o rapaz queria dizer. "Não, Elrohir. Eu vou estar com você, criança. Não vai a lugar algum sem mim."

Elrohir negou novamente, erguendo os pulsos agora e os colocando juntos em um gesto que trouxe arrepios à espinha do pai, depois bateu duas vezes no próprio peito.

Elrond respirou fundo para responder. Aquela idéia era tão terrível que ele não queria repeti-la nem que fosse apenas para desmenti-la.

"Elrohir. Ninguém vai levá-lo a lugar algum."

O menino trancou o maxilar com força, depois se pôs a repetir o gesto. Dessa vez o pai o impediu, segurando-lhe os pulsos.

"Ninguém vai prendê-lo, ion-nín." Ele disse categórico. "Você é uma criança."

Infelizmente a escolha do argumento feita por aquele pai não foi feliz. Ao invés de amenizar a situação, o comentário acabou por despertar no gêmeo um evidente sinal de desespero. Ele arredondou os olhos, como se uma lembrança recente o houvesse apunhalado. Ser criança simbolizava não poder arcar com seus erros. Ser criança simbolizava ter que assistir a outros serem punidos em seu lugar.

Elbereth, ele não queria mais ser criança. Ele não queria mais.

Elrohir respirou profundamente, como se tentasse se acalmar, por fim voltou a balançar, decidido, a cabeça, afastando as mãos do curador dele e tornando a bater, agora com mais força, no próprio peito, fazendo com que o pai compreendesse melhor do que queria qual era o grande temor do menino. Essa certeza encheu-lhe os olhos de lágrimas e ele segurou o filho novamente, dessa vez trazendo-o para perto de si, mesmo contra sua vontade.

"Paz, criança. Paz..." Ele repetia, enquanto o menino ainda tentava se afastar. "Ninguém me fará mal. Eu prometo. Ninguém tampouco o levará de mim. Acredite no que lhe digo, criança minha. Acredite, ion-nín."

Elrohir ainda custou um tempo para se aquietar nos braços do pai, mas quando percebeu Círdan aproximar-se se abraçou ao curador com urgência, como se ainda não conseguisse acreditar nas garantias ouvidas.

O armador parou, sentindo-se sem ação, tudo o que desejou fazer foi atirar o amigo conselheiro daquele barco na água gelada, por ter assustado uma criança que já passara por tanto. O olhar que lançou a Mahtan, no entanto, pareceu fazer mais do que o ato imaginado pelo mestre dos barcos. O próprio conselheiro baixou a cabeça, parecendo de alguma forma arrependido pelo rompante que tivera. Círdan deu, mesmo assim, os passos que faltavam e apoiou com cuidado a mão na cabeça de Elrohir.

"Ninguém vai fazer mal a você ou a seu pai, menino. Tem minha palavra." Ele disse com firmeza.

Elrohir não respondeu, nem sequer reabriu os olhos, apenas o fez quando Elrond afastou-o um pouco de si, parecendo perceber algo: a própria túnica agora estava manchada de um vermelho vivo. O curador não pensou duas vezes, ele ergueu o filho nos braços, voltando para dentro da cabine e recolocando-o por sobre o divã que abandonara. Círdan acompanhou-os, ficando ao lado do amigo.

"Do que precisa, Elrond?" Ele disse preocupado.

"De meu cavalo e alguns mantimentos, se puder me oferecer, mellon-nín."

"Do que está falando?"

"Eu conheço as leis, Círdan. Seu povo não deseja nos punir, não é fato? Infringimos a lei, mas não levamos nada de valor do local. No entanto, nossa infração nos transforma em pessoas não gratas aqui. Principalmente porque já trago outra condenação de minha própria terra. Condenação esta que seu povo nem sequer tem conhecimento e que poderia complicar ainda mais a situação. Partindo, resolveremos o problema."

"Não, Elrond." Círdan retrucou com calma, mas veemência, os olhos já atentos nos ferimentos de Elrohir que via com clareza pela primeira vez. Só agora se dava conta de que o rapaz havia sido atingido pela fera que o curador matara. "Veja o estado de seu filho. Não pode levá-lo a lugar algum antes que ele melhore."

"Ele só melhorará se eu o fizer. Ele precisa de paz, Círdan e por mais belo que seja esse lugar, se ficarmos aqui sob sua sombra, se você forçar nossa aceitação aqui, nem ele e nem eu teremos a paz que precisamos para que essa cura se dê."

"Elrond. É de meu desejo ajudá-lo. Julgo ser meu direito depois de ter essas terras sob meu cuidado por todo esse tempo."

"Círdan." Elrond parou então o que fazia, olhando o amigo com carinho e respeito. "Pedir-lhe mantimentos já é um abuso, mesmo sendo você quem é. O que seu povo esperava de você como líder era que nos colocasse fora daqui sem uma ajuda sequer."

"Se eles esperassem de fato isso de mim não seriam o meu povo, Elrond." Círdan disse com seriedade, depois olhou para o gêmeo, cujo semblante preocupado, mesmo com desenhados sinais de dor, acompanhavam aquela discussão atentamente. Elrohir desviou o olhar quando se percebeu observado, mas Círdan voltou a apoiar a mão em sua cabeça, fazendo-o voltar a encará-lo. "Diga-me, menino corajoso. Não acha que seu pai devia ficar e que devíamos provar tanto a meu povo quanto ao seu que vocês não são culpados?"

Elrohir ficou olhando o mestre dos barcos por um instante, depois se voltou para o pai, por fim ergueu sutilmente os ombros com um ar de tristeza e conformismo, balançando negativamente a cabeça. Círdan surpreendeu-se com o que compreendeu naquela resposta. Ele olhou para o amigo curador, inconformado.

"Elrond... Ele acha que é culpado..."

Elrond baixou os olhos, voltando a cuidar dos ferimentos do filho.

"Não criei uma criança que se ilude com facilidade, mellon-nín. Elrohir pode ter seus defeitos, mas ele sempre soube, nos momentos de pressão, admitir e pagar pelos erros que cometeu." Ele completou, depois, diante do silêncio do amigo dos portos, ofereceu a ele um pequeno sorriso. "Tudo ficará bem. Não se preocupe conosco. Eu já vivi todo tipo de situação em minha vida, não vai ser esta a me roubar a paz de espírito. E se meu filho tem um pouco de meu, o que eu acredito que seja verdade, aprenderei ainda mais nessa nova etapa de minha vida." Ele completou, olhando o rapaz com carinho e satisfazendo por vê-lo esboçar um pequeno sorriso de concordância.

&&&

Não havia decerto um momento do dia em que a paisagem daquele porto não fosse bela demais. E Elrond estava feliz em ter aquele pensamento bom a preencher-lhe os espaços entre os temores e as incertezas que ocupavam sua mente a tanto tempo. A seu lado Eilafion caminhava, olhando igualmente para os lados, mas com um propósito diferente daquele olhar contemplativo que o amigo moreno dava ao pôr do sol, cujos raios pincelavam o horizonte em um inesquecível rosa crepuscular.

"Lorde Círdan vai querer a minha pele. Ele julgava que o tinha convencido na breve conversa dessa tarde..." Disse enfim baixinho, encolhido, assim como o amigo, por sob uma manta acinzentada, cujo capuz escondia sua identidade dos elfos que cruzavam seu caminho. Quando eles chegaram perto do portão principal, Eilafion parou um instante. "Rogo-lhe que reconsidere, Lorde Elrond."

O curador, entretanto, não diminuiu seu passo, já bastante lento, continuando a caminhar até que cruzou enfim a saída da cidade portuária. Do lado de fora, ficou feliz em reencontrar um velho amigo a aguardá-lo.

"Olá, Durion, mellon-nín." Ele saudou o fiel eqüino com um leve afago, depois jogou um dos lados da capa que usava para trás, trazendo a luz a quem viera até então caminhando com o corpo quase colado ao dele, mas escondido por sob o tecido espesso. Elrohir apertou um pouco os olhos, diante da claridade, mesmo diminuída pelo entardecer, mas não teve tempo para mais nada. Elrond ergueu-o, colocando-o sentado no animal e checando no rosto do filho as reações de desconforto que o movimento causara.

O gêmeo retribui o olhar com uma sombra de sorriso, engolindo suas dores e disfarçando-as como podia. Sabia o que estavam fazendo, os riscos que o pai corria e ainda correria por ele, não queria adicionar mais rugas de preocupação ao já concentrado rosto do lorde elfo.

Elrond puxou um pouco a capa do filho, ainda sem subir no animal, checou as bandagens e a temperatura do rapaz, depois tornou a agasalhá-lo como podia, puxando o tecido para sua posição original.

"Nós já vamos, ion-nín. Apenas quero me despedir e agradecer a nosso amigo aqui." Informou com um sorriso paciente. Depois se afastou um pouco, puxando o outro elfo para longe do animal.

"Lorde Elrond." Eilafion já foi iniciando suas mesmas queixas em voz baixa. Jamais imaginara que pagar um favor fosse algo como aquilo que estava fazendo. Quando Elrond salvara sua vida, mais de uma vez, nos campos de batalha, não passara por sua cabeça que a retribuição do favor fosse vir na forma de uma atitude como aquela.

Mas Elrond não parecia compartilhar a opinião do amigo, por isso lhe calou os protestos com uma mão erguida e um sorriso de gratidão.

"Seguirei o caminho que me indicou." Ele disse. "Pela manhã, com certeza, estarei na casa de seu amigo."

Eilafion mordeu o canto dos lábios, visivelmente insatisfeito.

"Se ao menos me permitisse acompanhá-lo, senhor. Não é um dos caminhos mais perigosos, mas o senhor está sozinho e seu filho ferido e febril... Se precisar de ajuda o que poderá fazer?"

"A febre está se dando também pela ausência de descanso. Vou sedá-lo assim que começar a cavalgada. Ele não sentirá a viagem. Não se preocupe. Meu bom Durion nos levará em segurança. Com sorte superaremos o terreno com facilidade e estaremos lá antes mesmo do amanhecer. Peço que não deixe de entregar a carta que escrevi a Círdan, por favor."

"Não se preocupe, senhor." O elfo respondeu, olhando preocupado para a bagagem que seus soldados amarraram na montaria do lorde de Imladris. "Acha que tem suprimentos suficientes, Lorde Elrond?"

"Sim. Sou-lhe grato, mellon-nín." O curador fez o mesmo, mas voltou rapidamente o rosto, já apertando a mão do amigo. "Será que agora, depois de termos resolvido nossas dívidas passadas, posso ser honrado com um tratamento menos formal, Eilafion?"

O chefe da guarda encheu o peito, emocionado. Ele admirava aquele lorde elfo tanto quanto ao senhor das terras ao qual servia. Por isso mesmo tocava-o a extremo saber que aquela atitude gentil de seu amigo tinha o nobre e evidente propósito de amenizar o peso que o fiel soldado estava sentindo por estar, pela primeira vez, traindo a confiança de Círdan, a quem já respondia por um tempo incalculável.

"Ele vai querer a minha pele..." Repetiu, dessa vez com um pequeno sorriso. "E a culpa será sua... Elrond."

O curador soltou um riso que mais pareceu de alívio do que satisfação. Ele tomou então o ombro do outro elfo com carinho, dando-lhe uma leve sacudida.

"Tudo o que venho tentando fazer há tempos e ser responsabilizado pelo que me cabe. Espero que dessa vez eu consiga, e que outro não pague pelo que deveria me ser cobrado."

Eilafion balançou a cabeça em sinal de discordância, mas ainda procurando manter o sorriso no rosto, mesmo sem o menor desejo de fazê-lo. Aquilo era injusto demais, tudo aquilo. Mas ele prometera, dera sua palavra e não voltaria atrás, mesmo que seu coração lhe gritasse que o fizesse, como o fez quando o curador puxou-o para um rápido abraço, antes de se afastar, montar no cavalo atrás do filho e trazer o menino para perto de si.

"Elrohir, despeça-se, por favor, de nosso amigo Eilafion. Graças a ele teremos a chance de uma jornada segura."

Elrohir olhou para o soldado por um momento e a imagem daquela criança abatida e frágil só fez adicionar uma pedra a mais no fardo que estava quase esmagando a consciência do chefe da guarda. Mas quando o menino sorriu-lhe com leveza, apoiando a mão no peito e movendo a cabeça em uma breve despedida, Eilafion se viu trocando o discurso negativo que ocupava sua mente e pedindo aos Valar que intercedessem por aquela família e que aquela história tivesse o final feliz que ele julgava ser por eles merecido.

&&&

Após a submersão de Beleriand, os limites do continente se modificaram e os ventos marinhos ganharam um novo território para invadir e mostrar a qualidade de sua força. Toda a Terra-média teve sua temperatura modificada na Terceira Era de alguma forma. Onde era frio, onde não era tanto, onde o sol trazia calor, onde trazia um pouco mais do que isso. Todas as regiões foram se transformando e com Eriador, um dos territórios mais modificados geograficamente pela invasão das águas, não foi diferente. Lá o efeito dos ventos marítimos se deslocou mais para o interior. As Montanhas Azuis, conhecidas entre os elfos como Ered Luin, capturaram parte da umidade, semeando florestas em suas encostas ocidentais, adornando-se de verde e vida; contudo, a brecha no Golfo de Lune e a longa costa no sudoeste de Eriador de certa forma contrabalançaram o efeito das montanhas, dando a região central um clima temperado, um verão não tão quente e um inverno no qual as terras raramente se vestiam de branco.

Elrond cavalgava de volta pelo trajeto que fizera. Seu rumo, no entanto, não era o que seu coração desejava tomar. Se ouvisse o que espírito lhe gritava, continuaria aquela jornada pela Grande Estrada do Leste até que tudo lhe voltasse a ser conhecido e amado, até rever sua terra, até chegar em Imladris.

Aquele pensamento o fez apertar um pouco mais o abraço com o qual mantinha o filho junto ao peito. Elrohir adormecera com facilidade, tomando apenas a metade da medicação que faria alguém da idade dele perder a consciência e isso não era um sinal positivo. Tudo o que ele esperava agora era chegar o quanto antes à casa da qual Eilafion lhe falara. Para isso teria que percorrer a estrada mais alguns quilômetros até um local chamado por alguns de Terra das Colinas Verdes, lá tomaria o rumo sul, descendo em direção ao Vau Sarn, mas não cruzando o Baranduin. Era um caminho pelo qual não passava há muito, esperava que não tivesse sofrido nenhuma grande transformação nesse ínterim.

Já estava cavalgando há um bom tempo, com a luz do luar a clarear-lhe o caminho íngreme e a esperança de ver o sol nascer o quanto antes. A lua cruzara seu caminho no céu e estava agora em sua rota final, parecendo aguardar que os raios matinais a encobrissem com seu véu de afeto e calor. O desejo do lorde de Imladris era outro, ele ansiava por apertar o passo, mas o ritmo rápido não seria favorável nem a seu animal, nem ao filho ferido, em quem os poucos solavancos do caminho difícil já despertavam evidentes sinais de desconforto.

Cruzar aquele território aberto de rochas erodidas e longos espinhaços também não era muito motivador, principalmente à noite, e ele deu graças quando conseguiu transpor a difícil escarpa das Chapadas Brancas e descer seu declive posterior de pequena inclinação, sem apear do cavalo ou ouvir do filho algum gemido de dor.

Percorria agora a estrada com um território menos acidentado a facilitar um pouco a jornada. Começava a reconhecer o lugar e a ler os detalhes da paisagem que tinha diante de si. Eilafion os descrevera bem. Em breve, teria que abandonar a estrada, mas isso não o agradava. Agora, naquele território inóspito, começava a preferir sair do caminho geral já com o sol a esclarecer os pormenores do trajeto e não apenas com a bondosa luz do luar.

Pensando nisso, o curador foi diminuindo um pouco o passo, parando então diante do rumo novo que teria que tomar. Era nada além de mais um descampado, como qualquer outro trecho da paisagem da região, mas algo em seu coração o estava impedindo de sair do lugar por algum inexplicável motivo.

Elrond voltou a apertar um pouco o filho perto de si, deslizando a mão com leveza e carinho pelo peito do rapaz, tentando sentir o ferimento que não podia ver. Talvez ele devesse parar, tomar um canto daqueles pequenos declives e fazer um breve acampamento, trocar as bandagens do menino, dar-lhe algo que comer. Assim ganharia algum tempo e chegaria na estalagem já com o raiar do dia.

Foi pensando nisso, tentando entender a lógica estranha de seu próprio pensamento, ou talvez a total ausência dela, que Elrond acabou por seguir seus instintos. Ele adiantou o animal alguns passos, até um conjunto de rochas que formavam uma espécie de degrau natural no território e que poderiam servir como um pequeno esconderijo, pelo menos aos olhos dos que vinham da estrada. Então desmontou, trazendo o filho depois e colocando-o deitado em um cobertor e por sobre seu próprio manto, sem despi-lo daquele que vestia.

Apesar da paisagem imprópria, o curador conseguiu arranjar alguns resquícios de vegetação, suficientes para abraçarem o fogo e trazerem mais claridade ao pequeno acampamento. Depois de tudo pronto, Elrond sentou-se exausto ao lado do filho, tentando evitar, no entanto, permitir que a imagem triste do rapaz lhe despertasse aqueles mesmos sentimentos dos quais estava tentando fugir.

"Vamos lá, meu menino." Ele disse com carinho ao filho desacordado, abrindo-lhe a túnica e pondo-se a remover as bandagens. "Vai passar, shhh, tudo bem, tudo bem..." Foi repetindo, ao senti-lo tremer por causa do frio e também da dor. "Vou ser rápido, vai passar, agüente firme." Estava agora preocupado com o fato do menino não despertar. Conhecia aquele tipo de sono de recuperação e sabia que quando um paciente se entregava a ele, estava atrás de muito mais do que a cura de um ferimento corpóreo.

Quando já havia terminado rapidamente seus esforços e conseguira fazer o filho beber um pouco de água e medicamento para a infecção, Elrond ouviu um som estranho. O excesso de surpresas desagradáveis dos últimos tempos o colocou em pé e de arma em punho, sem que ele se sentisse disposto a atribuir ao evento qualquer justificativa de caráter mais brando.

Não parecia mesmo haver motivos para tal atitude, e isso ficou mais do que claro quando o lorde elfo sentiu uma flecha passar a poucos centímetros de sua cabeça. Ele levantou a espada em um instinto, desviando o rumo de outras duas que seguiram em sua direção.

Estava sendo atacado? Foi o rápido questionamento que lhe ocorreu.

Elbereth, estava sendo atacado em um lugar daqueles?

Logo outras perguntas ficaram sem espaço, pois ele avistou a resposta a algumas de suas dúvidas: a imagem de um ser execrável, cuja espécie conhecia muito bem, ressurgia erguendo meio tronco de uma escarpa mais distante, com o arco levantado e pronto para mais uma investida.

Orcs eram criaturas estúpidas. Pelo menos era o que seu amigo Glorfindel vivia a repetir. Naquele momento ele até teve um instante para concordar, principalmente, quando o mesmo orc caiu, com a adaga do curador enterrada no crânio.

Fora mesmo um movimento bastante rápido o que o elfo usou em sua defesa, quase instintivo também, e o inimigo nem mesmo soube o que o atingiu.

No entanto, o Lorde de Imladris teve pouco tempo para apreciar o resultado positivo de sua pronta atuação de defesa. Logo surgiam da mesma direção, outros inimigos de porte semelhante ao do primeiro. Dessa vez não carregavam arcos, mas espadas, cimitarras e outras armas brancas.

Agora era definitivamente inegável. Estava mesmo sendo atacado.

Elrond afastou-se um passo, erguendo uma perna apenas para apoiá-la um pouco mais distante da outra, um pé de cada lado do corpo do filho, mantendo-se como proteção para o menino embaixo dele. O curador levantou a arma diante do peito, pensando no que fazer. Não imaginara que orcs houvessem voltado a andar por terras como aquela com a liberdade com que esse grupo fazia. O líder não parecia mesmo incomodado, muito pelo contrário. Ele tinha no rosto um riso úmido e enjoativo que demonstrava já ter percebido com quanta ajuda o estranho poderia contar.

Aquela certeza pareceu conter o bando, que se espalhou em uma meia lua, cercando a presa com indescritível satisfação, enquanto o chefe deles, um orc um pouco mais alto que os demais, mas com as costas curvadas e desfiguradas em uma corcunda proeminente, soltava outros risos de prazer. A luz da lua brilhava-lhe os dentes, escurecidos em alguns cantos, e a saliva, transformando-o em uma criatura ainda mais repulsiva.

"Um elfo protegendo sua cria. Vejam só." O algoz disse em seu dialeto comum, fazendo com que, pela primeira vez, Elrond lamentasse conhecer tantos idiomas assim. "Então, vai nos enfrentar todos de uma vez, ou prefere encarar-nos um a um, criatura iluminada?" Ele indagou, movendo a arma ameaçadoramente apenas para tentar manter a atenção do elfo nele, enquanto os outros fechavam mais o círculo. No fundo, mesmo em maior número, os orcs temiam aquele inimigo. O tempo lhes havia ensinado a não menosprezar um guerreiro eldar armado, principalmente um como aquele, cujo olhar parecia traduzir uma experiência à não ser desprezada.

"Humm... carne de elfo." Provocava outro, do lado quase oposto ao círculo criado. "Não é das minhas favoritas, mas a do pequeno quem sabe. Ele cheira bem, tem cheiro de sangue vivo, deve ter um gosto muito bom."

Elrond fechou os olhos por um instante, tentando ao máximo não ceder às provocações ardilosas daquelas criaturas. Sabia, na verdade, qual era a intenção por trás delas. Estavam dispostos a enfrentá-lo, mas queriam garantir que sairiam vitoriosos e com o mínimo de prejuízos.

"Venha cá, venha, elfo." Um terceiro, à esquerda dele, balançava a espada suja em sua direção. "Deixe-me ser o primeiro e o último a enfrentá-lo."

"Isso! Isso mesmo!" Dizia um outro, cujo rosto era tão desfigurado que o olho esquerdo quase não podia ser visto, seu tom era ainda mais provocativo do que o primeiro. "Vamos fazer um duelo justo. Afinal um só de nós já é demais para esse elfo maldito. Um só já é capaz de deixá-lo no chão."

"Ah, não! Não! Não o matem!" O líder voltou a provocar, quando o círculo apertou-se um pouco mais e Elrond já moveu a espada como quem espera o ataque para se defender. "Precisamos deixá-lo vivo, pelo menos enquanto fazemos da cria dele nosso desjejum. Ah, eu quero muito vê-lo apreciar o que vamos fazer com o filhote dele."

Elrond apertou a espada que segurava com força, até os nós dos dedos perderem a cor. Malditas bestas estúpidas! Não podia ceder, não podia sair de onde estava e investir contra um deles, porque era exatamente o que esperavam que fizesse. Não podia sair de perto de Elrohir. Nem sequer conseguia imaginar que idéias sórdidas povoavam as mentes insanas daquelas criaturas, a ponto deles ainda não o terem atacado. Não. Orcs não eram criaturas estúpidas, muito pelo contrário, agiam sempre com extrema cautela e nunca desprovidos de qualquer objetivo maior por trás de cada investida. Era evidente que queriam afastá-lo do filho, só restava-lhe saber o motivo real para aquilo.

"Humm, carne de criança élfica." O líder do grupo continuou provocando, olhando agora para o menino desacordado e deslizando a língua pegajosa pelos lábios disformes. "Deve ter um gosto bom, principalmente o filho de um Lorde Eldar."

Aquele comentário fez Elrond mover as sobrancelhas, deixando de olhar o inimigo como um orc qualquer e buscando naquele rosto deplorável um traço que pudesse ler. Só agora concluía que o algoz não o encarava como um completo desconhecido e o uso daquele título, bastante incomum para os orcs, também era indicativa de algo maior.

Não. Estava em uma situação ainda mais delicada. Não se tratava de um conflito qualquer, por isso ainda não havia sido abatido. Aqueles orcs o conheciam e pareciam ter planos especiais para ele. Quando o olhar da criatura reencontrou o seu, o monstro demonstrou um segundo de surpresa e hesitação, como se estivesse se vendo subitamente sem sua máscara, como se percebesse que sua farsa havia sido descoberta.

"Quem é você, ser da escuridão?" Elrond surpreendeu-o. Muitos elfos conheciam o dialeto orc, mas aquele era o primeiro que o capitão do grupo via atrever-se a usá-lo. "Quem foi você antes que o mal o corrompesse? Antes que vendesse sua liberdade?"

O inimigo franziu o cenho e toda ironia se esvaiu de sua face, transformada agora em uma faceta de ódio puro a qual Elrond jamais esqueceria. Dessa vez foi ele a segurar a cimitarra com força em ambas as mãos escurecidas e dar um pequeno passo à frente, com ares de quem acaba de ouvir uma blasfêmia.

"Todo o elfo que se julga corajoso acaba afogado no próprio sangue." Ele disse então e o curador apertou o maxilar, levantando o queixo diante da afronta, a arma ainda erguida, o olhar escurecido. O jogo parecia inverter-se devagar e agora os orcs à volta dele se entreolhavam nervosos.

Diante disso o chefe do grupo soltou um bufar de irritação, encheu ruidosamente o peito e envergou mais as costas comprometidas, movendo o corpo na lateral em um vai e vem, como quem toma o impulso para um salto. Era pura provocação. Elrond sabia, mas a posição na qual estava não lhe dava as regalias de julgar por antecipação. O líder orc fixou os olhos no inimigo mais uma vez, com um sorriso totalmente diverso do que vinha dando.

"Quer saber, lorde eldar?" Ele indagou com ironia e desdém, tentando nitidamente demonstrar um descaso pelo inimigo o qual na verdade não sentia. "Pouco me importa quem você é, se já fundou cidades, se tem fama. Eu vou ver seu sangue e dessa sua cria mancharem esse chão hoje, e a carne de vocês vai ser nossa refeição, comeremos e cuspiremos seus ossos inúteis, povo de luz miserável."

Aquelas palavras derradeiras foram na verdade a motivação da qual o líder orc fez uso, a fim de escapar do estado de dúvida no qual estava e canalizar sua ira para algo que lhe desse prazer definitivo. Ele pareceu decidido a ser o primeiro a enfrentar o adversário.

Elrond recebeu o golpe e o grito de fúria do inimigo com a espada diante do peito, aplacando o choque com igual vigor. As armas de ambos giraram, cada qual investindo força sobre a do adversário, antes de voltarem a se separar. A volta deles, o curador conseguia sentir os outros integrantes do grupo moverem-se em seus próprios lugares, como se esperassem por algo, talvez o aval do chefe, para atacar. Pareciam ansiosos, mas o líder orc era astuto e não tão tolo como a teoria de Glorfindel buscara defender. Ele queria o mérito daquela vitória e em busca dele girava em volta do lorde elfo como um cão à espreita da caça, ora avançando, ora recuando, tentando ainda atingir seu objetivo, que era afastar o elfo do menino a quem protegia.

Elrond continuou em uma desvantajosa posição defensiva, haja vista que não podia sair do lugar na qual estava. Concentrava-se agora em mover as pernas de forma à não atingir o filho e tentar prever de onde e como viriam as investidas do adversário.

E os momentos se estenderam então de uma forma que nem Elrond e talvez nem mesmo o próprio capitão orc foram capazes de julgar. Logo o olhar do algoz não tinha mais o brilho da ira que o avermelhava e ele parecia mais arfante do que quando iniciara a batalha.

Maldito povo de luz! Filhos malditos das estrelas! Eram seus pensamentos cujo sentindo pareceu claro o bastante para seu opositor, mesmo que o duelo de ambos continuasse a ser sem qualquer som ou palavra. Por isso mesmo Elrond preocupou-se, quando viu o adversário mover sutilmente as pupilas na direção do seu grupo antes de fazer um novo ataque.

Se aquele pequeno exército precisava ou aguardava por uma ordem, talvez ele tivesse acabado de recebê-la. Foi o que o curador concluiu, ainda mais preocupado, já fazendo outros planos, traçando estratégias, relembrando táticas úteis para defender-se do que quer que estivesse por vir.

No entanto, à volta do conflito, enquanto tentava ao máximo não seguir o caminho que o inimigo tentava forçá-lo a fazer, o curador começou a ouvir gritos de todos os tipos, sem que para eles pudesse dar qualquer atenção. A princípio teve a estranha e bizarra impressão de que estava enganado sobre o ataque imediato, e os orcs houvessem se juntado à volta dos duelistas como uma platéia em um torneio, cuspindo berros de aprovação e incentivo a seu capitão. Talvez até aquela imagem tivesse sido verdadeira até um determinado momento, mas logo, conforme o conflito mortal se desenrolava, os gritos foram desaparecendo devagar.

Estranho... O que os calara?

O adversário agora movia as sobrancelhas, como se tentasse também se concentrar não só na luta, mas também no que ocorria a sua volta. Mas nem ele, nem Elrond, arriscavam-se a tentar buscar a informação que os intrigava. Pelo canto dos olhos ambos os guerreiros percebiam que os demais membros daquele grupo tinham, no mínimo, decidido abandonar sua posição, haja vista que, tanto o curador, quanto o algoz que o enfrentava, conseguiam perceber mais ninguém à volta deles.

Aquela intrigante situação, por certo, trouxe ao líder orc uma sensação de urgência, pois ele começou a investir contra o lorde elfo com mais energia, erguendo ambas as mãos ao alto e descendo a cimitarra como uma navalha. De sua boca saiam agora toda a espécie de ofensa e sons de provocação.

Elrond recebia todos os golpes, físicos e verbais, com a habilidade que o caracterizava, procurando agora limitar suas investidas, buscando permitir que o adversário desperdiçasse sua energia inutilmente como vinha fazendo. Logo os lábios do orc estavam entreabertos e seus movimentos não tinham nada próximo à precisão do início da luta. Mas ele continuava a afrontar o inimigo, mesmo sentindo a efetividade de seus golpes diminuírem significativamente.

"Noldo maldito... Vou apreciar ver você sofrer..." Ele provocava a cada intervalo entre um golpe e outro. "Vou apreciar a carne do seu filho... Você há de ver o que farei com ele... Há de ouvi-lo gritar... Você há de ver como tratamos uma espécie como a sua... Como nada nos é mais prazeroso do que ver um elfo morto... do que abandonar o resto de sua carcaça aos corvos."

Enquanto as afrontas continuavam, maleficamente criativas, a paciência de Elrond se extinguia na mesma proporção. Ele agora pressionava o maxilar, prendendo o ar no peito e procurando administrar a respiração para que o nervosismo e suas dúvidas sobre o que acontecia a sua volta não o levassem a por tudo a perder. O sol, infelizmente, não abençoava os ares matinais ainda e ele se via em uma situação de resistência que lhe dizia, a cada golpe, dado e recebido, que não poderia esperar pela ajuda de Anor.

Embasado e fortalecido naquela certeza, Elrond, decidiu não esperar mais pela próxima investida. Seu coração igualmente angustiado e seu estado de exaustão alertaram-lhe que era chegada a hora de um tudo ou nada. Se ele ainda tinha outros inimigos a sua espera, aguardando o desfecho daquele conflito como bizarros expectadores, ele tinha que poupar alguma força para ter a oportunidade de escapar e salvar o filho, mesmo que miraculosamente, daquele desfecho cruel que a eles estava sendo destinado.

Tendo agora seu pensamento centrado convictamente nessa certeza, ele arriscou-se a, dessa vez, ser o primeiro a dar um passo adiante. Em um movimento inesperado surpreendeu o adversário, movendo a espada e quase deferindo o golpe derradeiro. Sua investida só não foi mais feliz porque o inimigo de fato não ocupava a posição de chefia daquele grupo tolamente. O orc esquivou-se como pôde, mas Elrond conseguiu roubar dele um grito de dor, fazendo, com a lâmina de sua arma, um corte imenso e profundo no peito da criatura.

Assim que atingido, outras afrontas ainda piores e inenarráveis começaram a sair da boca do orc como uma torrente, acompanhando o ritmo do sangue negro que escorria agora pelo ferimento aberto. Antes de partir para uma nova investida, entretanto, ele olhou o inimigo nos olhos e Elrond percebeu que fora mais feliz em sua investida anterior do que imaginara. Os lábios do líder orc tremeram, encurvados em uma máscara de ódio e dor, mas seus olhos eram os de alguém que parecia ciente de que seus dias haviam se encerrado.

"Caminho nessa chão por tanto tempo quanto você, noldo maldito, e de uma coisa eu sei. Essa terra não será nossa, mas não será do teu povo também, não será dos Eldar. Nem eu e nem você vamos ver essa fase. Far-te-ei o favor de levá-lo agora e privá-lo de mais essa decepção." Foram suas últimas palavras, antes de jogar-se sem qualquer critério ou sensatez, para cima do oponente.

Elrond buscou ignorar também esta última provocação, tal qual fizera com as outras. A resposta para ela resumiu-se à afiada lâmina de sua espada, erguida ao céu e refletindo como nunca o brilho das estrelas, das quais muitos julgavam serem os elfos filhos amados. Ele girou a espada no ar, em um movimento que pareceu inesperado ao inimigo, mas cujo desfecho este não pode ver, pois o lorde elfo finalizou o golpe atirando longe a cabeça do adversário e trazendo de volta àquela clareira o silêncio que lhe era comum.

Silêncio...

Um silêncio preocupante...

Elrond sentiu aquela ausência de sons por um breve momento e não tirou dela qualquer prazer, nem mesmo o gosto da vitória de uma luta tão árdua. Logo ele já movia o rosto rapidamente em busca dos outros inimigos, procurando enfim descobrir o que os teria afastado do campo de luta no qual o chefe se colocara. Só então uma imagem o surpreendeu mais do que qualquer outra naquele inesperado conflito, e ele percebeu que os gritos que ouvira a sua volta anteriormente pareciam ter tido um outro propósito.

Um a um, os demais orcs do grupo haviam caído, restando agora ali um conjunto de cadáveres, cada qual com uma ou duas flechas transpassando regiões vitais. Elrond ainda se virou em círculos duas ou talvez três vezes com a arma em guarda, no rosto uma incompreensão indisfarçável.

Mais inacreditável ainda, porém, foi a imagem que surgiu devagar por trás da enorme rocha que Elrond escolhera como muralha...

Portando o arco que ganhara de seu mentor e olhando para ele com o rosto pálido e o peito arfante de quem acorda de um pesadelo estava o filho mais velho. Um pouco atrás dele, surgia a imagem da esposa, igualmente assustada.

"Elrond..." Ela o chamou e foi a voz dela que pareceu certificar ao lorde elfo que aquela cena absurda estava longe de ser um sonho qualquer.

"Elbereth!" Ele disse, erguendo de imediato um dos braços e já voltando a encarar defensivamente os arredores quando a família correu em sua direção. Mesmo no momento em que Celebrian e Elladan abraçaram-se a ele, tudo o que o curador conseguiu fazer foi continuar a olhar atentamente a sua volta, olhos redondos buscando por inimigos de todos os tipos, por eventos quaisquer, temendo inconscientemente que algo de muito grave acontecesse e ele nada pudesse fazer para defender-se, para defender aqueles que agora estavam a seu lado.

Celebrian, no entanto, não parecia compartilhar tal preocupação, em instantes ela já se desfazia dos braços do esposo e jogava-se de joelhos, alisando o rosto do filho desacordado com ambas as mãos.

"Ion-nín! Está... Está febril." Ela disse, olhando novamente para o marido. "Elrond. Elrohir está febril."

Elrond não respondeu, seus lábios estavam soltos como quem ainda quer acordar de um pesadelo, mas não consegue. Seus olhos insistiam em seguir aquele trajeto pelo qual a esposa viera, como se buscasse por algo que nem ele mesmo sabia bem o que seria.

"Vocês... Vocês..." Ele tentou dizer, olhando mais uma vez para a estrada que vinha de sua terra, para a grande pedra, para os corpos, para o filho a seu lado e depois, por fim, para esposa. "Celebrian, por Ilúvatar, diga-me que alguém os está acompanhando. Diga-me que não vieram sós atrás de mim."

A elfa, por sua vez, continuava concentrada em algo que para ela era muito mais importante do que todas as dúvidas desenhadas no rosto do marido. Ela agora abria com cuidado a camisa do filho, checando a enorme bandagem abaixo dela.

"Ai, minha doce Varda... O que houve? Como ele se feriu assim? Ele está tão magro e abatido... Elrond? Elrond, o que aconteceu?" Ela foi dizendo em tom angustiado, primeiro como se conversasse consigo mesma, depois com o olhar fixo no esposo. Só então o próprio curador caiu também em seus joelhos diante dela, sentindo que aquela enchente de emoções e informações era demais para ele.

"Estrela... Estrela minha..." Ele tomou a mão da esposa com fervor, enquanto ainda segurava com força a espada que portava, e aquele apelido carinhoso pareceu trazê-la também de volta aos eixos. "Como veio parar aqui?"

Celebrian deixou-se olhar pelo marido por um instante, seus olhos brilhavam então daquele modo especial que Elrond conhecia muito bem. No jardim de Imladris, atrás da casa maior, quando ele enfim dissera a ela o quanto a amava, os olhos da elfa haviam brilhado daquela forma, daquela mesma forma.

"Viemos por vocês, meleth. Viemos encontrá-los. Somos uma família."

Elrond ficou atônito, sentindo, primeiro, sua mente esvaziar-se rapidamente, como se nada fosse restar nela, por fim inúmeras imagens foram invadindo-a devagar: a manhã no navio, a tarde na casa de Círdan e a relutância do amigo dos portos em deixá-lo partir, a busca de um momento certo para sair sem ser visto que parecia nunca surgir, os conselhos de Eilafion, o tempo para convencer o amigo, os preparativos, a trilha, os atrasos, seu desejo de acampar ali, tudo de positivo e negativo que conspirou para aquele momento, todos os propósitos entrelaçados. Elbereth toda a sorte que tivera! Um cantar e poderiam ter sido a esposa e o primogênito a encontrarem aquele grupo, um instante de diferença e Elladan poderia não tê-lo ajudado.

"Meu bom Ilúvatar!" Ele clamou, olhando agora o filho em pé e puxando-o no mesmo instante para perto de si. Elladan ajoelhou-se conforme o pai o compelira a fazer e deixou-se abraçar, mas seus olhos estavam agora presos no irmão ferido e seu coração voltava a acelerar-se. Foi só quando filho mais velho soltou um incontível gemido de dor que Elrond voltou a afastá-lo de si, olhando-o com preocupação.

"O ferimento não fechou." Celebrian informou, ao ver o menino abaixar constrangido o rosto. "Ele tem usado o arco... então..." Ela tentou explicar, olhando enfim para a montanha de corpos aos quais as flechas do rapaz derrubaram. Aquela era a cena mais macabra que ela já vira e ainda custava a acreditar nela. "Ele... viu que você estava em perigo e... os orcs... eles iam avançar sobre você... então ele... Eu nem soube o que fazer..." Tentou explicar a elfa, contendo sua própria emoção enquanto segurava agora a mão do primogênito. Elladan não reergueu o rosto, como se estivesse sentindo que fizera algo pelo qual fosse ser repreendido.

O silêncio do pai de alguns instantes também não o ajudou a sentir-se melhor. Mas foi breve, embora para o gêmeo mais velho, tivesse parecido durar muito mais.

"Poucas vezes vi arqueiro tão habilidoso." Elladan ouviu enfim a voz que desejava e que trouxe seu olhar de volta ao pai em um misto de descrença e surpresa. "Beleg com certeza se orgulharia por ser inspiração de um guerreiro assim. Eu estou orgulhoso por ser pai de um guerreiro assim." Elrond completou, apoiando a palma no rosto abatido do filho e depois o trazendo de volta para perto de si.

Dessa vez Elladan retribuiu o abraço do pai, esvaziando o peito como se aquela aprovação fosse tudo o que realmente importava. Ele ainda ficou ali por quanto pôde, mas logo seus olhos foram atraídos para a imagem que o preocupava extremamente: o irmão ferido e desacordado, e toda a história que desconhecia que poderia ser narrada através daquelas marcas tristes.

"Elrohir vai se recuperar." Ele ouviu a voz do curador novamente, sentindo as mãos dele abrirem um pouco sua camisa para analisarem o antigo ferimento que parecia não querer deixar de incomodá-lo. Depois a mão do pai segurou seu queixo e ele enfim viu-se preso nos olhos claros e sinceros dele. "Elrohir vai se recuperar, ion-nín. Só temos que encontrar um lugar para nós."

Elladan assentiu tristemente, mas Elrond continuou segurando o queixo dele, os traços do pai se converteram então em um sorriso paciente.

"Seu irmão chegou até a Tol Morwen e enterrou a espada." Revelou o lorde elfo, e seu sorriso se alargou diante do olhar de surpresa do filho mais velho e do suspiro de exclamação da esposa. "Não sabemos se era ou não a arma do herói, mas para mim a história está encerrada e ele, isento de qualquer culpa, está bem, criança?"

Elladan ainda ficou perplexo por um tempo, olhando para o pai e questionando-se sobre a possibilidade de ter ouvido a informação corretamente, depois voltou a olhar para o irmão, por fim pressionou os lábios apertados, e uma soma de sentimentos, desde o orgulho estremo pelo que o gêmeo havia realizado, até a sensação de todos os infortúnios que poderiam ter cruzado o caminho dele quase lhe roubou o ar. Ele ainda sentiu o pai acariciar-lhe o braço esquerdo por um tempo, mas logo a atenção do curador estava em outro lugar.

Elrond voltava a olhar a sua volta, respirando fundo, tentando se equilibrar novamente. Tinha preocupações demais. A idéia de ficar naquele acampamento, mesmo a poucos cantares do amanhecer começava a desagradar-lhe. Tudo o que tinha de mais valor em sua existência estava ali, naquele descampado. Sua família, ferida, exausta, a mercê do que poderia acontecer. Não. Ele não queria mais receber nenhuma surpresa.

"Temos que ir." Ditou então, já se colocando em pé e acenando para a montaria. "Durion. Aqui, mellon-nín."

"Para onde vamos?" Celebrian não se ergueu de imediato, limitando-se a voltar a agasalhar o peito do filho adormecido.

"Um amigo da cidade portuária indicou-me um lugar. Não fica muito longe daqui." Elrond comentou, voltando a amarrar sua mochila no cavalo, mas ainda mantendo os instintos atentos a sua volta. "Estão a pé?" Ele indagou enfim para a esposa.

Celebrian sorriu, depois entoou um lá maior, maneira doce com a qual sempre chamara seu próprio animal. No mesmo instante o belo cavalo alvo surgiu em seu trotar majestoso por detrás da grande rocha, colocando-se ao lado de Durion, como se a ele houvesse sido ordenado.

Elrond observou a cena com a admiração de quem se vê diante da mais bela pintura. Depois se aproximou do cavalo da esposa, descendo a mão direita pela crina prateada e soltando um suspiro cansado.

"Olá, Roquen, mellon-nín." Ele disse, afagando o focinho do animal agora. "Sou-lhe grato por tê-los trazido em segurança."

Sem esperar mais, Elrond voltou a analisar os arredores e fazer planos mentais. Por fim, virou-se para a esposa e bateu sutilmente nas costas do cavalo. Celebrian entendeu bem o recado, aproximando-se e deixando que o marido a erguesse, ajudando-a a montar. Em seguida o curador achegou-se da fogueira, fez uma última checagem no filho desacordado, depois o reergueu, trazendo-o em direção da esposa.

"Acha que pode levá-lo? Preciso ter minhas mãos livres."

Celebrian apenas sorriu, erguendo os braços para receber o caçula. Ela preferiu levá-lo de lado por sobre o animal, com o rosto junto a seu peito. Quando o ajeitou perto de si, beijou-lhe a face algumas vezes.

"Vai ficar tudo bem agora, meu guerreirinho corajoso." Garantiu em um sussurro ao ouvido do rapaz. Como resposta, no entanto, Elrohir ergueu, com evidente esforço, as pálpebras, até que descobriram pouco mais que a metade dos olhos, o suficiente para que suas sobrancelhas se inclinassem em uma indagação, como se questionassem o que estavam vendo. Mas a mãe pôs-se a lhe beijar os olhos, obrigando-o a fechá-los novamente. "Shhh, não, não... nada disso..." Ela advertiu em seu tom doce. "Nada de despertar agora... Durma... Durma, Rohir-nín."

Elrond ainda acompanhou a cena por um instante e acabou sorrindo ao ver o filho voltar a dormir, seus traços bem mais serenos. Agora nos braços da mãe, talvez ele estivesse se sentindo em casa, e aquela sensação, apesar de não corresponder à verdade, era bem vinda e por certo auxiliaria o menino a enfrentar esse término de jornada.

O curador respirou profundamente, depois olhou para o filho mais velho.

"Apague a fogueira, ion-nín. Por favor." Ele pediu, terminando de ajeitar a bagagem em sua montaria e subindo em seguida. Quando Elladan finalizou a tarefa a ele destinada, encontrou Durion próximo a ele e a mão do pai estendida em sua direção. "Cavalgue comigo, meu arqueiro."

Elladan encheu o peito, administrando pela primeira vez uma sensação inexplicável de felicidade. Havia tanto a se preocupar, tantos problemas, tantas dores, tantas dúvidas, mas apesar de tudo isso, não trocaria o lugar no qual estava por nenhum outro em toda a Arda. Ele esboçou um pequeno sorriso, ajeitando a aljava nas costas, apanhando o arco e erguendo a mão, aceitando que o curador o ajudasse a tomar o lugar atrás dele e segurando-se no pai com satisfação.

Elrond sorriu ao sentir o filho envolvê-lo pela cintura e encostar o rosto em suas costas. Ele respirou fundo então, checando a própria arma, antes que seu animal e o da esposa seguissem por aquele rumo desconhecido, ansiando que a sorte continuasse a favorecê-los como acontecera naquele inicio de manhã.