Olá. Espero que todos estejam bem.
Esse capítulo foi o mais problemático de toda a história. Cenas surgiram, desapareceram, retornaram, estenderam-se, foram cortadas. No final o número de páginas extrapolou um pouco o que eu desejava e o capítulo acabou ficando como eu não gosto que seja, cheio de cenas importantes, porém pequenas, que assim misturadas, podiam perder um pouco a força.
Recebi então alguns conselhos valorosos e por fim decidi me arriscar em uma divisão. Espero que as partes fiquem inteiras (contraditório não?) e os leitores, sempre amáveis, tenham paciência com cada pedacinho de cena, sabendo aproveitar os momentos, mesmo narrados assim com tanto descuido.
Há uma cena final nesse capítulo que acabou entrando desobedientemente na história, foi um acréscimo que escrevi para demonstrar um pouco mais efetivamente a profundidade da relação afetiva de um certo casal de Imladris. Espero que a cena não destoe do resto do capítulo e que minha pequena ousadia passe despercebida pelos que dela não se agradarem.
Mais uma vez agradeço aos leitores que estão acompanhando e me deixando seus comentários de motivação. Quando estou sem saber o que fazer, como quando estava editando esse capítulo, eu vou até a página de reviews e releio alguns comentários positivos atrás da energia que preciso e volto para terminar o que comecei. Por isso sou extremamente grata, pela amizade de vocês. Obrigada mesmo.
Beijos
Sadie
CAPÍTULO XIV – O QUE VEM DEPOIS DA DOR? (Parte I)
"Penso que chega um momento na vida da gente em que o
único dever é lutar ferozmente por introduzir no topo
de cada dia, o máximo da eternidade..."
João Guimarães Rosa
A noite estava clara e ainda não havia sinais do amanhecer quando o casal de Imladris deixou o chão mais íngreme e passou a subir as encostas das colinas. A paisagem à volta deles resumia-se ainda em bétulas delgadas e empalidecidas pelo inverno. Embalados pelo vento, os arbustos mais distantes pincelavam uma rede de sombras contra o céu ainda quase sem brilho.
Durion e Roquen chegaram enfim a uma pequena estrada que desenhava curvas nos arredores das Colinas Verdes em direção ao encontro das terras com o curso do Baranduin. Elrond lançou o olhar mais adiante, checando os detalhes do caminho para certificar-se que estava seguindo a risca as diretrizes oferecidas pelo amigo Eilafion.
Ainda estava muito escuro, mas um sentimento de segurança parecia invadir o coração do casal, mesmo eles não entendendo o porquê. Elrond já guardara a espada e agora mantinha um braço virado para trás, a mão segurando o filho que adormecera em suas costas. Não queria movê-lo por enquanto, pois ainda estava concentrado em tentar descobrir em que ponto da viagem na verdade estavam.
Finalmente, quando começaram a subir uma ladeira íngreme do outro lado da colina, o curador avistou mais uma referência que o amigo lhe oferecera: um pinheiral seco que escurecia a paisagem, adicionando a ela um odor característico. Um pouco abaixo, à esquerda, a estrada descia íngreme por um desfiladeiro e desaparecia.
Uma a uma as demais referências iam dando vida ao mapa mental que Elrond criara do lugar. Logo surgiu a imagem de um riacho quase congelado ao pé da colina com uma pequena cascata escapando de uma saliência rochosa cinzenta. Não pararam, mesmo porque a temperatura daquela água não era convidativa nem mesmo para elfos. Desceram então a ladeira, e atravessaram o pequeno rio no momento em que ele invadia o caminho, depois subiram a próxima inclinação, e assim ficaram ziguezagueando até o topo de uma encosta íngreme, onde a estrada se preparava para descer mais uma vez.
"Ainda está muito longe?" Celebrian indagou, assim que percebeu a manhã começar a chegar fria e úmida. Os raios do sol surgiam pela névoa que pairava sobre a paisagem, tingindo as árvores de dourado. Ela soltou um leve suspiro, observando a estrada que agora descia íngreme por um desfiladeiro à esquerda e parecia desaparecer.
Elrond desceu o olhar por aquelas terras mais baixas, habitadas por pequenos grupos de árvores aos quais a neblina matinal ainda mantinha em quase segredo. Parecia que a estrada seguia seu rumo impreciso e distante, dando voltas como se não desejasse de fato chegar a lugar algum. Ele soltou um breve suspiro, movendo então o braço e trazendo Elladan para frente do cavalo. O menino despertou com o movimento, mas o pai apenas livrou-o de suas armas, assegurando-lhe que tudo estava bem e que poderia voltar a dormir.
"Não é tão perto quanto eu imaginava, Estrela." Ele admitiu, na verdade jamais fizera tal caminho. "Pelo que meu amigo me relatou estaremos em terreno menos acidentado em breve. Deseja parar agora ou podemos ir adiante? Está cansada?"
A elfa balançou a cabeça, não parecendo de fato cansada ou agoniada a chegar a algum lugar. Ela pousou então a mão por sob a testa do filho e sorriu. Elrohir também não parecia sofrer com a viagem.
"Estamos bem." Ela disse, oferecendo um sorriso singelo ao marido. "Não se preocupe."
Elrond soltou o ar dos pulmões, ainda olhando a esposa. Seu coração continuava a descrer na total reviravolta que sua vida parecia insistir em dar a cada nascer do sol das últimas estações. Ele apenas assentiu, porém, sem qualquer comentário, e o casal continuou a seguir por aquela estrada, que depois de muitas curvas, estendeu-se em linha reta, como Eilafion havia dito a Elrond, cortando um capinzal que, mais adiante teria somado a ele árvores bastante altas.
Enfim o sol do inverno deu o ar de suas graças e, depois de dias de chuva, o céu azulou o cenário acima, enquanto o astro brilhante seguia seu rumo, aquecendo a paisagem e os corações. Depois da primeira bifurcação do caminho, o casal encontrou um conjunto de árvores velhas, algumas já derrubadas por antigas tempestades. Ali eles enfim apearam, decidindo fazer uma parada rápida, apenas para checar ferimentos e alimentar os filhos. Daquele momento em diante Elladan não mais adormeceu, mas Celebrian insistiu em continuar levando o gêmeo mais novo, a quem Elrond optara por manter sedado, ao menos até que chegassem ao destino.
O vento oeste começou a cantar por entre os galhos, assim que a tarde enfraqueceu seus traços. Elrond olhava o céu acima, calculando o tempo que teriam ainda até um novo anoitecer. Enganara-se no prazo que dera para sua viagem assim como viera se enganando em diversas outras previsões ultimamente. Talvez devesse parar de olhar para o futuro e simplesmente deixar que os fatos seguissem os rumos que deveriam tomar. Talvez devesse acreditar um pouco mais no que lhe fora reservado de bom nesse e em qualquer outro lugar. Ele olhou então para o lado, observando a mata rasteira e as folhas que continuavam a balançar, cantarolando seus sussurros tal qual orquestradas fossem pelo vento.
"Veja, Elladan." Ele disse ao filho que viajava a sua frente agora. "Aquela é uma glawarod, muito rara em nossa região. Com suas folhas podemos combater o veneno negro." Ele disse, apenas para atrair a atenção do calado menino, logo a cabeça dele inclinou-se para trás para ver melhor a planta e o pai sorriu, satisfeito por poder ter novamente a liberdade de fazer algo que lhe dava tanto prazer.
A viagem passou então a ser temperada por algumas daquelas instruções, muitas vezes era o próprio Elladan que, ao não reconhecer uma planta ou arbusto, apontava-o prontamente para o pai em busca da resposta. Ao lado dele Celebrian sorria com brandura, acariciando os cabelos de Elrohir e dizendo-lhe algumas palavras de paz quando ele se movia em seu sono forçado.
Logo a estrada começou a desaparecer devagar no crepúsculo vespertino e tudo foi perdendo de leve a cor. Uma estrela brilhou sobre as árvores no leste já escurecido e, uma a uma, suas irmãs surgiram, aumentando a luz do anoitecer. Quando a floresta de ambos os lados se mostrou mais densa e jovem e o caminho começou a descer em uma trilha por entre moitas de aveleira, Elrond sentiu no coração o alívio de quem está próximo do término de uma jornada bastante dura. Jamais se incomodara em viajar a noite, mas aquela era a viagem mais perigosa que já fizera e, por mais que evitasse pensar naquilo, ainda temia por qualquer imprevisto.
Tomaram então uma trilha brilhante de um capim verde que parecia refletir a luz lunar, o trajeto surgia saindo à direita do caminho principal e mais parecia um atalho escondido do que um caminho de fato. Por ali seguiu a família de Imladris, abaixando um pouco as cabeças ao sentirem alguns galhos tocá-los na escuridão. Celebrian abraçou instintivamente o filho na ausência de luz e sentiu o cavalo do marido achegar-se mais ao dela.
"Estamos bem próximos agora." Ela ouviu-o murmurar e apegou-se à segurança transmitida naquela voz. Depois de algumas poucas curvas voltaram a subir uma ladeira mais larga, até o topo da saliência das colinas. Naquele momento já ouviam perfeitamente o barulho do rio e aquele som trouxe a Elrond uma sensação agradável. Há tempos acostumara-se a ter uma certa música amiga a embalar-lhe todo o momento do dia. Fosse qual fosse o rio, era sempre bom ouvir mais uma vez aquele cantar.
Foi com aquele pensamento acalentador que, de repente, eles se viram longe da companhia das árvores, dentro de um espaço grande de capim baixo, que ganhava um tom acinzentado no escuro da noite. Apesar da floresta continuar a cobrir quase todos os rumos e, ao leste o caminho descer vertiginosamente trazendo a copa das árvores quase à altura da própria trilha, havia um caminho visível que levava às terras baixas através de uma pequena abertura, foi por ela que o casal passou e foi depois dela que eles finalmente viram uma inusitada construção: tendo como base um enorme carvalho estava a casa que Eilafion lhes indicara.
A árvore era a maior que qualquer um já vira, e crescia com seus galhos apontados para o céu. Entre eles uma propriedade fora construída com outras toras amarradas e em barro vermelho. Elrond subiu os olhos, contanto os andares um a um. Eram três, forrados de pequenas janelas, em algumas delas luzes oscilavam alegremente. Havia uma larga porta principal que dava em uma varanda há quase quatro metros de altura. Dessa varanda descia uma escada espiralada, que abraçava o largo tronco em alguns lugares e desembocava bem a frente deles. Foi por ela que o curador viu, enfim, descer um homem já em roupas de dormir, segurando um enorme lampião.
"Boa noite..." Ele disse, receoso, quando já estava no penúltimo degrau, mas, por algum motivo, não foi adiante. "Posso ser de alguma ajuda?"
Elrond, que havia passado o filho para a parte de trás do cavalo antes mesmo que chegassem ali fez um breve sinal para a esposa a seu lado, depois adiantou o animal alguns poucos passos, apenas para que seu rosto se tornasse mais visível à luz que o homem trouxera. Aquilo não era de todo necessário, haja vista que o próprio reflexo das estrelas, principalmente nos cabelos claros e na pele alva de Celebrian, com certeza já haviam dado ao proprietário daquele lugar, uma boa certeza de quem eram seus visitantes, talvez por isso o homem parecesse tão intrigado.
Elrond encheu o peito de ar, ansiando que a influência do bom amigo Eilafion fosse positiva o bastante.
"Boa noite, senhor." Elrond disse, sem desmontar, não queria tomar nenhuma atitude que pudesse ser mal interpretada. "Peço desculpas pelo horário. Venho em nome de meu amigo Lorde Eilafion, da cidade portuária." Ele disse e aguardou para ler o que aquela informação poderia produzir em seu favor.
Como resposta os olhos do estranho se arredondaram.
"Lorde Eilafion? Ele é um bom amigo meu." Disse então, já com o rosto menos austero. "Um amigo dele é bem vindo em minhas terras, senhor."
Elrond soltou um suspiro aliviado.
"Sou-lhe grato. Chamo-me Elrond Peredhel, esta e minha esposa Celebrian." Ele apresentou-se e só então a elfa aproximou seu animal. O homem mostrou-se surpreso ao perceber que aquela não parecia ser uma caravana qualquer, mas sim uma família de elfos. Por mais inusitados que os últimos tempos pudessem estar sendo, a imagem de uma família eldar viajando sozinha ainda surpreenderia qualquer um.
"É um prazer conhecê-lo, senhor. Meu nome é Marach." Ele disse, um tanto intrigado. "Há um lorde eldar cujo nome é Elrond... senhor de terras além dos pântanos, no vale depois do rio Bruinen..." Ele completou e o curador encheu o peito de ar e preocupação antes de responder.
"Não sou senhor daquelas terras, nem de terra alguma, Lorde Marach... Mas sou eu esse de quem ouviu falar." Ele respondeu com sinceridade.
O homem voltou a envergar as sobrancelhas, intrigadíssimo, depois seus olhos se mantiveram na figura do menino no colo da mãe.
"Em que posso ajudá-lo, senhor? Precisam de um quarto para o pernoite? Mantimentos?"
Elrond olhou para a esposa, depois respirou profundamente.
"Meu amigo Eilafion me disse que talvez o senhor pudesse nos ceder abrigo por alguns dias. Estou com meus filhos feridos, o mais novo deles precisa de atenção especial, além de cuidados e repouso que eu não poderia oferecer em um acampamento..." Ele disse, voltando a olhar para o caçula com preocupação. "Se não houver a possibilidade eu entenderei e agradecerei se puder me indicar um outro lugar e..."
"Meu bom Ilúvatar... Claro!" O homem foi logo dizendo então, seu olhar agora mais fixo ainda no menino. "Pensei que apenas dormia..." Ele disse, parecendo desapegado de suas dúvidas e já descendo os últimos degraus, trazendo a luz para a pequena clareira. "O senhor disse filhos?" Ele quis indagar, mas a resposta surgiu assim que o lorde elfo desmontou e a figura do outro menino surgiu por trás dele. Elladan baixou o rosto, ao ser olhado, por isso o homem não insistiu. Elrond trouxe o primogênito para o chão, depois foi até a esposa, e pegou Elrohir nos braços. Foi o próprio Marach quem, por formalidade, ajudou a senhora élfica a descer de sua montaria.
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Quando Elrond entrou no quarto, encontrou Celebrian em pé diante da pequena janela e Elladan ajoelhado ao lado da cama na qual Elrohir fora colocado. Ele ofereceu à família um pequeno sorriso, já lançando ao primogênito um sinal para que se levantasse daquele chão frio. O menino obedeceu de imediato, aproximando-se do pai quando este jogou o corpo em uma das poltronas do quarto.
"Deu tudo certo, meleth?" Celebrian indagou, aproximando-se.
Elrond encostou um pouco a cabeça no encosto atrás de si, fechando brevemente os olhos.
"Sim. Relutou em aceitar qualquer pagamento, mas consegui convencê-lo. É um bom homem. Vive aqui com a mãe idosa e alguns empregados. Não é de fato uma hospedaria, mas costumam receber algumas caravanas quando a caminho dos portos o tempo as pega desprevenidas."
"É uma construção inusitada de fato. Há mais pessoas hospedadas aqui?"
"Não. Apenas nós, por enquanto." Elrond disse, já olhando a sua volta. "Como está Elrohir?"
"A febre não voltou." Celebrian sorriu para a imagem do filho adormecido. "Isso é um bom sinal, não é?"
Elrond também sorriu. Já se erguendo e indo até a cama do caçula.
"Não tem febre desde que foi para os braços de um certo alguém." Ele disse, apoiando a mão no peito enfaixado do filho e suspirando. "Mas ainda assim precisa de cuidado e descanso, muito cuidado e muito descanso."
"Ele terá..." A elfa garantiu, observando agora o marido entrar por uma pequena porta no quarto. Ela o acompanhou então.
"Há uma banheira." Informou. "E água encanada como em nossa terra."
Elrond sorriu, ligando o pequeno dispositivo que fazia a água jorrar.
"Nosso amigo Marach é um inventor." Ele disse, colocando a mão por sob a água que caia. "Idealizou um sistema de espelhos e outros componentes e com isso, vejam só o que acontece." Comentou, olhando para o filho, que acompanhava a explicação. Elladan estendeu a mão, como o pai o compelira a fazer e surpreendeu-se ao ver que a água estava quente. Celebrian fez o mesmo.
"Como? Em pleno inverno?" Ela indagou atônita.
Elrond apenas sorriu, já despejando na água que caia algumas de suas ervas e sais. Celebrian silenciou-se, ela jamais interrompia o marido quando em seus processos de cura, fossem os que fossem, desde meras palavras ao lado da cama de um paciente, até complicados procedimentos cirúrgicos.
Logo o curador já se dirigia ao leito do caçula, passando a despi-lo de suas vestes e bandagens. A mãe retomou seu lugar na janela, haja vista que o primogênito já se colocara de prontidão para ajudar o pai no que fosse necessário. O processo todo não levou muito tempo, mas teve um quê de sagrado, algo que para Elladan, que, quando permitido, acompanhava todos os processos de cura do pai, causava incrível admiração.
Obviamente, daquela vez, se tratando o paciente de quem era, tudo o que ocorreu naquela sala de banhos teve um significado muito maior. Elladan aquietou-se, apenas observando enquanto o pai descia, cauteloso, a esponja de banhos pelo corpo do filho ferido, pousando a mão direita em cada traço mais fundo das ranhuras que lhe marcavam o peito e concentrando sua energia de cura, como jamais fora visto outro fazer. Em seguida ele banhou os cabelos do filho com cuidado, sempre dizendo a ele palavras de afeto quando sentia qualquer reação ao tratamento recebido.
Quando o curador envolveu o paciente em uma toalha, trazendo-o de volta a cama recém-feita pela esposa, Elladan nem conseguiu se aproximar mais. Ele ficou parado ao lado da poltrona, uma mão segurando o estofado, apertando-o algumas vezes a cada gemido do irmão, enquanto o pai refazia as bandagens e a mãe terminava de secar como podia os cabelos do filho. Logo Elrohir voltava a dormir, ajudado pelas poções de sono que o curador misturava com destreza, e que, apesar do gosto desagradável que tinham, o jovem elfo pareceu tomar sem qualquer hesitação. A dor deveria ainda ser muita, para que o tão arredio gêmeo, mesmo em um momento de quase inconsciência, aceitasse beber aquele líquido horrível.
Elladan baixou os olhos por um momento, quando viu o pai inclinar-se e beijar o rosto do irmão depois de todo o processo. De onde estava pôde ouvir os murmúrios do curador, pedindo desculpas ao filho por não ter chegado em tempo e prometendo a ele que a dor passaria se ele dormisse, e tudo então ficaria bem, que ele jamais estaria só e que era muito amado. A mãe também segurava a mão do caçula, descendo o indicador com carinho pelo braço esquerdo do rapaz, marcado por vários hematomas, além do grande corte que Elrond enfaixara.
O primogênito ficou tão perdido naquela imagem doce e triste que permaneceu em sua mente, mesmo depois de tudo terminado, que se sobressaltou quando a mão do pai pousou em seu ombro. Nem o havia visto se afastar do leito. Elrond sorriu-lhe com carinho e segurou-lhe a mão em seguida, trazendo-o para a sala de banhos. Elladan surpreendeu-se então ao perceber que o pai preparara para ele uma mesma seleção de medicamentos na banheira. Ele olhou-o sem compreender, depois balançou a cabeça para dar a entender que aquilo não era necessário.
Elrond retribuiu o olhar por um instante apenas, depois ele mesmo foi desfazendo os laços da túnica do filho, ajudando-o a despir-se e entrar na banheira. O gêmeo ainda tentou argumentar como podia, mas depois cedeu, obedecendo, como sempre fora de seu feitio.
A água estava morna e tinha um aroma agradável, uma vez nela o gêmeo sentiu o corpo relaxar quase de imediato, mas suas preocupações e receios só começaram a esvaírem-se quando sentiu as mãos seguras do pai sobre ele, descendo agora pela a grande cicatriz, parando alguns instantes e roubando dela parte da dor que insistira em habitar naquela região.
Elladan fechou os olhos quase sem perceber.
Durante o terno processo, ao permitir aquele contato novamente, o primogênito se deu conta, enfim, do que o lorde elfo por certo já sabia: que ele, assim como o irmão, por mais que negasse, também estava ferido física e espiritualmente, também precisava de cuidados, também precisava do pai. E como sentira falta daquele contato, de poder estar perto dele sem sentir que o obrigava a fazer algo de errado, de poder voltar a indagar-lhe suas dúvidas, mas, melhor do que tudo, de poder voltar a buscar por seu afeto. Fora mesmo uma fase difícil demais e ele nem acreditava que, de alguma forma, todo aquele pesadelo estava chegando ao fim, mesmo com todas as incertezas do futuro que tinham pela frente.
Era uma sensação de alívio indescritível e talvez devido a ela, ou, quem sabe, a todos esses sentimentos misturados, quando o gêmeo deu por si, havia encostado a cabeça no peito do curador e chorava silenciosamente. Elrond afagava-lhe os cabelos com carinho, reafirmando sua presença, repetindo a ele os mesmos pedidos de desculpas que fizera ao outro filho, oferecendo-lhe as mesmas garantias de recuperação, prometendo-lhe o mesmo afeto.
E assim como o irmão, uma vez na cama que lhe fora concedida, Elladan também aceitou a medicação que o curador lhe oferecera, acabando por achar que, estranhamente, o líquido amargo ganhara um gosto de afeto inesquecível. Pouco antes de adormecer, ele ainda segurou a mão do pai mais uma vez, em um pedido silencioso para que ficasse um pouco ao seu lado. O lorde elfo se sentou então na cama do filho, descendo os dedos pelo rosto dele com carinho, murmurando uma canção antiga, enquanto acompanhava calado o adormecer inseguro do menino, cujos olhos ainda continuaram um tempo presos na imagem do irmão na cama ao lado, antes de por fim se fecharem.
A última imagem que Elladan queria ver antes de adormecer era aquela que tinha diante de si e pela qual havia esperado por tanto tempo: Elrohir dormia em segurança, profundamente, num leito ao lado do seu.
Onde?
Não importava onde...
&&&
Elrond deixou-se ficar ali por mais um tempo ali, estava em um estado de absoluta exaustão, mas profundo alívio. Era como se, enfim, pudesse respirar. Quando a mão de esposa tocou suavemente seu ombro, ele ainda estava perdido em seus pensamentos e preocupações, por isso ergueu os olhos na direção dela lentamente.
Celebrian ofereceu-lhe um sorriso singelo, descendo os finos dedos pelas mechas do cabelo um pouco desfeitas do marido. Elrond os havia amarrado displicentemente atrás da cabeça e tirado a camisa para banhar os filhos. Sentado ali, visivelmente esgotado, por mais que buscasse esconder, ele estava longe do retrato do elegante lorde elfo a quem olhares acompanhavam silenciosamente em suas breves caminhadas pelo jardim. Mas para a esposa não havia imagem que quisesse mais ver do que aquela.
Elrond por fim percebeu o olhar da elfa acompanhar o movimento dos dedos, que desciam devagar pelo braço do marido e sentiu um arrepio bom correr-lhe a espinha. Ela gostava de provocá-lo nos momentos mais difíceis, mas naquele pequeno quarto, diante dos filhos adormecidos e do futuro incerto, o curador notou a ausência daquele brilho provocativo no olhar da esposa, que ainda deixou a palma aveludada escorregar pelas costas descobertas dele, antes de tomar-lhe a mão e puxá-lo devagar.
O elfo ergueu-se então, cansado demais para pensar em porquês, e deixou-se levar daquela forma, puxado sutilmente como uma criança. Quando passou mais uma vez pela pequena porta da sala de banhos, percebeu o propósito da atitude inesperada. Havia para si reservada a dose de afeto que lhe cabia. Celebrian preparara, assim como ele fizera aos filhos, a banheira com água e sais, e agora, assim como ele também fizera, ajudava-o a deixar de suas vestes e compelia-o a conhecer os frutos positivos da invenção do bom Marach.
Elbereth o mundo todo podia se resumir a momentos como aquele, a pequenas ações distantes da vaidade, apartadas do luxo, indiferentes a títulos de nobreza, repletas de ternura. Foram os pensamentos que passaram devagar pela mente do lorde elfo, enquanto seus olhos não conseguiam deixar a imagem da esposa, cuja atenção mantinha-se inabalável no que estava fazendo, na espuma que espalhava pelos cabelos do marido, na atenção que dava um pouco mais demoradamente a um ou outro ferimento que via.
Quando enfim os olhos dela retribuíram o olhar do esposo, a bela senhora ofereceu-lhe aquele mesmo sorriso de quando se encontravam no jardim, ou viam-se de longe em meio aos afazeres diários. E se Elrond julgava que não conseguiria amar aquela elfa mais do que a amara todos esses anos, tal pensamento ficou para trás, junto com seus títulos, com as posições importantes que já ocupara na vida, com os problemas inadiáveis que agora perdiam completamente o sentido. Ele a puxou para perto de si então, e seus lábios cobriram os dela sem que qualquer palavra fosse necessária, apagando incertezas, substituindo prioridades, relembrando o sentido da palavra perspectiva, da palavra esperança, da palavra destino.
Calor depois de tanto tempo assolado de tremores era só o que ele desejava sentir, e sua mente deixou de se preocupar com o lugar onde estava, com a situação na qual estava, seus pensamentos só acompanhavam o bailar das bocas unidas, do encontro, do gosto antigo e novo, enquanto recebia outros afagos menos direcionados à limpeza de seu corpo dolorido, mas sim ao despertar de sua alma. Quando os dedos aveludados da esposa encontraram o que ela parecia buscar, os lábios dele se desprenderam dos dela em uma súbita falta de ar.
"Estrela." Ele disse, jogando a cabeça para trás em um instinto. "Por favor..."
E o som daquele sorriso travesso que sempre embalara a relação dos dois tornou-se a melodia de seus dias mais uma vez, principalmente quando a elfa encostou os lábios em seu ouvido, deixando o ar quente escapar devagar, junto a outras palavras provocativas.
"Por favor? Desde quando você precisa pedir por favor, meleth-nín?" Ela indagou, mantendo-se firme em seu propósito como era de seu feitio. Elbereth que chance ele teria se ela realmente desejasse desconcertá-lo um dia por completo? Que chances ele teria se ela desejasse fazer dele o que desejasse? Que chances ele teria?
Que chances ele realmente desejaria ter?
"Ah, Estrela... Estrela... Por favor..." Ele repetiu inutilmente, balançando a cabeça, as mãos já buscando pela amada como se sentisse que estava em alguma espécie de transe do qual não podia despertar. Os lábios dela trilhavam as linhas do seu rosto, descendo devagar, escorregando pelo pescoço como as mãos dela faziam em pequenas caricias que quase o enlouqueciam.
"Diga o que quer, meleth-nín. Diga-me o que quer de mim..." Ela continuou e suas palavras quase roubaram a pouca sensatez que lhe restava, quase o atiraram em um mundo do qual talvez ele não desejasse retornar.
Que aquilo terminasse? Era o que ele queria? Que as mãos dela o conduzissem devagar ao fim de tudo, e que então houvesse um depois e outro depois e mais outro. Era o que na verdade ele desejava. Que eles se amassem perdidamente e que nesse amor tudo fosse calor e certeza.
Ele desceu a palma pelo braço esquerdo da esposa, sentindo o tecido molhado da camisa que ela ainda usava. Vestes de guerreiro... Sua esposa em vestes de guerreiro. Estava linda, mesmo assim. Como ficava linda em qualquer veste... E sem elas, sem elas principalmente... Seus dedos então buscaram por aqueles laços que o separavam da imagem que queria ver, enquanto sua mente fazia o possível para oferecer-lhes alguma coerência, já totalmente aprisionada nos afazeres igualmente urgentes que à dama de Imladris pareciam ocupar.
Laços... Laços difíceis... Logo seus dedos apenas agarravam o tecido.
"Estrela, ajude-me..."
"O que quer?" Ela continuou a dizer provocativamente ao seu ouvido, pousando pequenos beijos no pescoço do esposo, acariciando-o com a ponta do nariz, enquanto suas mãos continuavam seguindo rumos muito mais fáceis, sem qualquer obstrução.
Elrond respirou fundo, apertando os olhos por um instante, depois soltou o ar do peito quase dolorosamente. Elbereth, como uma experiência torturante podia soar assim tal qual um sonho bom?
"Quero estar com você. Quero você, amada minha. Por favor, não me faça esperar mais, não me faça pensar que pode não acontecer."
Ele reabriu os olhos então e o olhar dela se reencontrou com o dele novamente, dessa vez mais terno do que provocador. A provocação anterior mudou de propósito então. Ela passou a se resumir apenas ao desatar displicente dos laços que ocupavam os dedos da esposa, exibindo a pele alva que se escondia por baixo daquelas vestes de soldado. Quando o corpo mais feminino tomou formas diante dele Elrond ainda se conteve, calculando a força que tinha, a força que desejar usar, a força que desejava ter.
"A água esfriou." Ela sorriu, passando delicadamente para dentro da banheira.
"Acho que esse problema eu posso resolver." O marido forçou um sorriso ainda um pouco arfante, sentindo enfim o contato esperado.
"Eu acredito. Esse e muitos outros." Celebrian ajoelhou-se então, o corpo ereto diante dele era a visão de um cenário perfeito. Colinas, vales, cobertos pelo brilho do sol do mais belo dos dias. O brilho do sol, o calor do sol. A água podia estar fria, mas Elrond nem percebia, seus olhos desciam pela paisagem que agora a esposa expunha e explorava, dedicando-se ao singelo movimento de subir e descer a espoja de banhos pelo próprio corpo.
Tocá-la era quase como profanar um local sagrado. Mas aquela idéia tomou do elfo apenas um milésimo do pensamento, pois suas mãos seguiram o caminho desejado, alheias a qualquer precaução, ansiando apenas por ouvir outros cantares.
Não custou para a música esperada tomar o lugar. Mãos de curador. Ele tinha mãos de curador, podia trazer a paz, aliviar a dor e depois de muitos anos descobrira que, além de tudo isso, ele podia oferecer prazer.
Logo o corpo dela estava sobre o seu, e os lábios de ambos retomavam o ritmo daqueles corações. Suas mãos escorregavam pelas costas dela, indo além, percorrendo territórios, relembrando caminhos conhecidos, despertando amanheceres.
"Ai, meleth-nín." Ela sussurrou ao seu ouvido, deixando a palma encontrá-lo por entre seus corpos, posicionando-se para recebê-lo melhor. Eles tremeram então ao mesmo tempo. Tempo. Tempo. Não tinham tanto tempo. Mas se tivessem mais tempo, o que fariam que não aquele cavalgar a dois? O que o tempo em excesso ou em falta poderia roubar-lhes ou acrescer-lhes naquele ato de amor?
"Amin mela lle..." Ele sussurrou-lhe ao ouvido, enquanto o calor dela o envolvia, enquanto seus corpos se lançavam àquele bailado perfeito, embalado pela canção das poucas palavras de amor que saiam por seus lábios entreabertos. As mãos dele a seguravam, a orientavam, a auxiliavam como sempre fizeram, como sempre fora. Naquele instante, naquele lugar, naquele hoje, naquele sempre.
O resto da noite o casal passou abraçado na poltrona do quarto, de onde podiam ver os filhos, indispostos a pensar em suas dúvidas e dores, esquecidos por enquanto da idéia da passagem do tempo.
