Olá. Espero que todos estejam bem.
Essa é a segunda metade do capítulo problemático sobre o qual lhes falei na minha última introdução. Ficou para essa segunda parte um pouco das farpas, um pouco da magia também e um pouco da expectativa. Mas acho que o problema do acúmulo de acontecimentos encadeados ficou amenizado, pelo menos um pouco.
Essa parte da história, para ser sincera, quase não entrou. Eu já a deletei e recoloquei tantas vezes que até perdi as contas. Ela só ficou mesmo em respeito a um personagem meu que surgiu também sem grandes pretensões, mas acabou ganhando um espacinho não só no meu coração como também nos de quem já leu o texto. Se eu o retirasse da história talvez o que ganharia com a aceleração da narrativa para seu desfecho, não compensasse o que perderia com a ausência da cena que criei.
Não sei se estou certa. Vocês me dirão, assim espero.
Obrigada mais uma vez pela ajuda inestimável.
Mil beijos
Sadie
CAPÍTULO XV – O QUE VEM DEPOIS DA DOR? (Parte II)
É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado."
João Guimarães Rosa
Quando amanheceu, o bosque, até então silencioso e vazio, pareceu repleto de cores e ruídos. A esquecida cortina do quarto, entreaberta ficara, e pelas frestas da janela passavam agora toda sorte de sons. No entanto, no meio do cantar dos pássaros, do sacolejar dos troncos e folhas, do pesado bater do machado na lenha ao longe, das tampas de panelas, somente um som, entre os que a manhã trouxera foi capaz de despertar com tanta rapidez o ainda cansado casal de Imladris de seu momento de repouso: o gemido de um dos filhos. Elrond, a quem a fadiga atirara ao sono dos mortais, custou um instante a mais para acordar. Quando ergueu as pálpebras, Celebrian já estava ao lado da cama do caçula, impedindo-o de se levantar.
"Shh, tudo bem... Tudo bem, Rohir-nín. Não se erga ainda." Ela dizia a um agora muito confuso gêmeo, que olhava para a mãe com contraídas sobrancelhas, como se não a estivesse reconhecendo ou talvez não conseguisse acreditar no que via.
Elrond levantou-se então, alcançando rapidamente o filho, que agora olhava assustado para os cantos do cômodo no qual estava.
"Fique em paz, criança minha." Ele disse, obrigando o menino a voltar a se deitar, já que a mãe parecia não ter conseguido convencê-lo.
Elrohir ainda resistiu, por fim deixou o corpo cair no colchão com mais um abafado gemido de dor, mas continuou a olhar a sua volta, parecendo agoniado para entender o que estava acontecendo. A mãe apenas sorria, segurando sua mão com firmeza, enquanto Elrond já checava novamente os ferimentos, demonstrando visível insatisfação com o resultado do esforço do filho.
"Agora você precisa se comportar, criança." Ele disse em tom preocupado. "Precisa dar paz a seu corpo enfim, ou então custará mais tempo a se recuperar."
Elrohir não parecia incomodado com as palavras de repreensão do pai ou mesmo com os ferimentos, sua atenção continuava completamente voltada para o lugar no qual estava, em especial para a imagem intrigante que via. A imagem da mãe...
"Está tudo bem, Rohir-nín." Celebrian buscou garantir, depois seus lábios se ergueram em um sorriso preocupado, quando o menino apenas voltou a unir as sobrancelhas como se lhe perguntasse algo de extrema importância. A elfa sabia bem o que era. "Viemos aqui para encontrá-lo. Está tudo bem agora. Vamos ficar todos juntos. Mas você precisa voltar a dormir, meu guerreirinho, ou não vai melhorar."
O semblante intrigado do gêmeo, no entanto, não se modificou, pelo menos não até que outra imagem surgisse em seu campo de visão. Elladan levantou-se em um cotovelo na cama ao lado, mas mal teve tempo de esboçar qualquer reação, pois o caçula ergueu-lhe, desesperado, uma das mãos e, mesmo com a visível objeção dos pais, praticamente puxou-o de sua cama, trazendo-o para perto de si. Quando o gêmeo mais velho ajoelhou-se diante do leito, os olhos do irmão não o deixavam mais, redondos de expectativa.
Elrond e Celebrian se entreolharam apreensivos. A comunicação mental dos filhos era uma desconfiança para ambos, mas naquele momento os irmãos não se preocuparam em disfarçar ou negar o que até então jamais haviam admitido a ninguém, por mais insinuações que houvessem recebido a respeito. A aflição do casal aumentou, quando notaram Elrohir perder a cor, parecendo desvendar aos poucos todos os enigmas daquela estranha manhã. Ele e o irmão continuavam a se encarar fixamente, mas por vezes o mais novo voltava a olhar para o pai, depois para a mãe, para o lugar no qual estava, até que, por fim, aquelas idéias todas que o primogênito lhe esclarecia pareceram ganhar sentido.
E foi um sentido totalmente desolador, pelo menos foi o que os pais concluíram ao se surpreenderem por ver o menino soltar-se com convicção das mãos que o seguravam e colocar-se sentado na cama, sacudindo a cabeça em uma veemente negativa.
Elrond não entendeu por completo o que havia acontecido, na verdade suas conjeturas não eram das mais otimistas, por isso ele limitou-se apenas a observar a esposa, que tomara a iniciativa de tentar conter o filho. O menino, entretanto, ergueu convicto uma mão para ela, voltando a sacudir a cabeça com força e passando a olhar novamente à sua volta como um animal enjaulado que procura uma oportunidade de fuga.
"Ion-nín..." Disse a elfa com brandura, o filho parecia tão angustiado que ela sentia até receio de tocar nele agora. "Elrohir... Está tudo bem, querido." Ela reforçou, tentando voltar a se aproximar, mas foi surpreendida novamente quando o filho bateu com força a mão no colchão no qual estava, arrastando-se depois e erguendo-se com dificuldades do outro lado da cama. Elrond e Celebrian também se ergueram, cada qual emitindo seus próprios sons de protesto.
"Elrohir! Pare, menino! Faça-nos saber o que o está incomodando dessa forma." O pai pediu com convicção, mas ainda assim não se aproximou, permitindo que Celebrian, em quem o olhar do menino continuava a parar como se não se conformasse com o que via, persistisse em sua investida. A elfa já dava vagarosamente à volta na cama, enquanto o filho encostava-se acuado na parede.
"Ion-nín. Olhe para mim. Está tudo bem." Ela ainda procurou garantir, mas o menino continuava a balançar a cabeça, fechando os olhos agora como quem deseja imensamente acordar de um pesadelo.
Celebrian respirou fundo, sabendo que o delicado momento não permitiria dela uma atitude precipitada. Ela então envolveu um dos pulsos do filho com carinho, apenas para que não fosse mais longe, depois se sentou novamente na cama, perto dele, mas não o compeliu a fazer o mesmo. Sabia o que devia fazer, que tipos de portas abrir em seu coração. Não era porque seu filho não dirigia a palavra a mais ninguém, que isso a impediria de saber o que ele estava sentindo.
Elrohir manteve os olhos fechados por um tempo, mas depois os reabriu, ainda arfante, encontrando o olhar sereno da mãe a aguardá-lo. Sua primeira reação foi voltar a fechá-los, mas depois baixou a cabeça, ainda balançando-a em uma angustiante negativa, como se não conseguisse se acalmar ou se conformar, por mais que estivesse tentando.
Quando Celebrian olhou para o esposo, ambos já tinham uma desconfiança sobre o que incomodava o menino, mesmo sem estarem inteiramente certos se tratar daquilo.
"Está assim angustiado porque não voltaremos mais a Imladris?" Foi Elrond quem tentou questionar, ainda em pé do outro lado da cama, enquanto a mãe apenas acariciava com o polegar o pulso que segurava. "Esperava voltar, criança? Continuar aquela vida que estávamos levando?"
Elrohir voltou a sacudir prontamente a cabeça, os olhos transformando-se aos poucos em um espelho de tristeza, agora que a indignação com as informações que recebera parecia aplacar-se um pouco. No entanto, não podia negar a verdade que lhe gritava aos olhos e aos ouvidos:
Fugira para tentar alcançar alguma redenção, tomar para si a culpa, livrar a família. Mas agora percebia, o que já vinha desconfiando ser verdade desde que aceitara regressar da ilha com o pai, desde que vira a recepção que aguardava a ambos no porto, desde sua saída furtiva da cidade de Círdan: Tudo o que fazia, em cada movimento seu, era cavar um buraco cada vez mais largo e cada vez mais fundo, e agora não era apenas ele a ser tragado por sua insensatez.
Ele apertou então os olhos, enrijecendo tanto o corpo que a mãe preocupou-se. Ela segurava agora seu braço com ambas as mãos, acariciando a pele fria do filho. Elrohir custou até encontrar coragem para levantar as pálpebras. Ele ficou um instante imóvel, depois reergueu a cabeça e encarou os pais com a dificuldade de quem está fazendo um ato pela primeira vez. Olhou então para a mãe e para Elladan, depois para o pai novamente. Por fim, respirou fundo, seus olhos enegreceram e ele repetiu aquele ato que Elrond passara instintivamente a associar com as mais terríveis emoções. O menino bateu com a mão no peito algumas vezes, depois apontou para a família e balançou negativamente a cabeça.
Celebrian fechou os olhos por um instante, como se assim impedisse que o significado daquele gesto a atingisse. Ela apertou então sutilmente o pulso do filho, roubando novamente a atenção dele. Quando o menino virou seu rosto contraído de revolta e dor, foi para a mãe uma dificuldade das mais intensas conservar o sorriso paciente que tentava usar. Ela pousou a mão livre sobre o peito enfaixado do rapaz.
"Não acha que já ficou sozinho o bastante, menininho travesso?" Indagou amenamente e procurou manter o coração calmo, mesmo quando sentiu que seu tom ao invés de acalmar o filho o fez estremecer. Elbereth, o que estaria passando pelo coração daquele menino a ponto de um gesto de carinho corriqueiro fazê-lo sentir tamanha insegurança?
Celebrian continuou olhando-o com paciência e afeto, deixando o silêncio envolvê-los por um tempo na esperança de que o coração do filho se acalmasse um pouco. Ela limitou-se a tentar ler naqueles globos escuros e brilhantes como afastar o que ainda causava tanta dor. Mas quando Elrohir voltou a descer as pálpebras como se sentisse que uma dor terrível o houvesse assolado, ela percebeu que fosse qual fosse o pensamento cruel que estava na mente do menino, ela tinha que fazer o possível e o impossível para libertá-lo dele.
Ilúvatar, Elrohir era apenas uma criança. Aquela era a verdade. Por Varda e todas as estrelas do céu que com certeza foram testemunhas. O que aquele menino enfrentara fora quase insano! Ela mal podia imaginar, mal tinha coragem de conjeturar e talvez jamais conseguisse indagar a ele os detalhes daquela empreitada. Elrohir era só uma criança, e ainda mantinha a mão por sobre o próprio peito como se desejasse receber todas as punições, assumir todas as culpas.
"Rohir-nín." Ela o chamou então, apegando-se àquela expressão na esperança de que o apelido de infância do menino oferecesse a ele aquela certeza, a certeza de que ainda era quem era. Que nem tudo estava mudado. "Querido... Somos uma família... Você é o nosso caçulinha, lembra-se? Cruzamos todo esse trajeto para estarmos novamente juntos, Rohir-nín, e o teríamos cruzados quantas vezes fosse preciso. Nós te amamos e queremos estar com você, querido. Não há lugar em toda a Arda que faça sentido para nós se não estivermos juntos. Deixe que isso seja o bastante. Tente esquecer o restante, querido. Tente deixar o que passou para trás."
Conforme ela enfatizava cada frase, movendo a cabeça enquanto tentava ganhar o olhar do filho, novas lágrimas escorriam devagar pelo rosto do gêmeo. Enquanto as palavras da mãe ecoavam naquele quarto, porém, ele continuava a balançar a cabeça, mais lenta e tristemente agora.
"Não quer estar conosco, elfinho? É isso que está querendo nos dizer?" Celebrian provocou-o então, ainda acariciando o pulso que segurava. "Não nos ama mais? Acostumou-se a perambular por aí sem que alguém lhe dissesse a hora de ir dormir?"
A brincadeira despretensiosa fez com que Elrohir apertasse novamente os olhos, mas se a mãe imaginasse sua reação depois dela talvez não a tivesse feito. O menino baixou o rosto, o queixo quase preso no peito, o corpo endurecido, depois seu choro foi se intensificando, transformando-se de breves sons de lamúria até um lamento convulsivo que ele não conseguia controlar, mesmo cobrindo agora o rosto com ambas as mãos.
Para a mãe aquela última reação foi o que bastou e ela decidiu dar a todas aquelas dúvidas e rodeios um fim, trazendo o filho imediatamente para si, ignorando dessa vez qualquer protesto ou reação contrária. Ela o fez sentar-se e envolveu-o completamente em seus braços. Logo percebeu que não seria mais um esforço mantê-lo junto a si, pois o menino escondera o rosto em seu ombro, o corpo sacudindo em um pranto que partia o coração de todos. Depois de tanto tempo de silêncio absoluto, era triste demais serem aqueles os sons a serem ouvidos do jovem elfo.
"Ai, Elbereth. Não fique assim, querido." Ela o embalava agora, preocupadíssima. "Não chore assim. Confie em nós, meu guerreirinho. Vai ficar tudo bem."
Só então Elrond aproximou-se, ajoelhando-se diante do filho e fazendo um breve gesto para a esposa. Eles se entreolharam e ela calou-se enfim com a informação que lia nos olhos do marido. Aquela era a primeira vez que Elrohir se deixava levar pela tristeza assim, que se dispusera a permiti-la fluir por ele daquela forma e aquilo não era tão ruim quanto parecia ser. Era o que o curador procurava informar à preocupada esposa, enquanto acariciava em silêncio a perna do filho, oferecendo a este o tempo que precisava para se recuperar.
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Quando alguém bateu na porta do quarto, Elrohir dormia silenciosamente nos braços da mãe e não acordou. Elrond, que tomara o lado de Elladan sentado na cama do filho mais velho, ofereceu um breve aceno para a esposa e se levantou, abrindo a porta devagar para encontrar o rosto sorridente de Marach segurando uma bandeja. Ao lado dele uma senhora trazia outra.
"Bom dia, Lorde Elrond. Espero não estar incomodando."
"De forma alguma, Lorde Marach." Elrond olhou um tanto receoso para dentro do quarto, mas por fim abriu a porta. "Por favor, entrem."
O homem passou por ele com as costas um pouco encurvadas, mas educadamente não olhou para dentro do cômodo, limitando-se apenas a ajudar a acompanhante a ajeitar a refeição que trouxera.
"Não sei do que as crianças vão precisar. A cozinheira não tem por hábito assar bolos ou doces, mas o pão é muito bom e temos uma geléia de tâmaras que por certo os agradará."
"Não há com que se preocupar." Garantiu o elfo, afastando uma das cadeira da mesa na qual as bandejas estavam sendo postas, para facilitar o acesso.
"Há também frutas e posso providenciar algo mais consistente para o almoço. Ou uma sopa seria melhor? Disse que eles estavam em recuperação, talvez devam comer algo especial."
"Não se preocupe, eu lhe peço." Insistiu o curador, realmente agradecido pela consideração. Haviam conversando por um tempo na ocasião de sua chegada e logo o dono daquele lugar mostrou a seu hóspede que tinha caráter e coração irrepreensíveis, motivo pelo qual, provavelmente, conquistara a amizade do bom Eilafion. O homem parecia genuinamente preocupado com a situação do curador, com a saúde das crianças e relutou em aceitar qualquer pagamento pela hospedagem. Por aquele motivo talvez, estivesse fazendo questão de trazer aos convidados, o que tinha de melhor. "O que nos oferecer será bom demais e, pelo que vejo, está sendo cortês a extremo."
"É um prazer tê-lo aqui." Ele sorriu novamente. Marach era um homem de grande humor e interesse pelo que era novo. Apesar de isolado naquela pequena clareira, parecia apreciar a companhia e amizade de outras pessoas. Esse sentimento, por certo foi o que o moveu a enfim olhar para dentro do quarto, quando a outra mulher saiu com uma breve reverência de despedida.
Elrond engoliu seus receios ao ver o homem dar mais atenção agora à família. Mesmo assim o curador limitou-se a fazer o mesmo, deslizando os olhos pela cena que compunha aquele quarto. Era quase impossível não considerar o quadro que ali se desenhava uma cena bastante triste. Elrohir ainda estava nos braços da mãe, mas seus olhos já estavam abertos, provavelmente despertara com os recém-chegados. Celebrian o segurava perto de si. Elladan, que continuava a ocupar seu lugar na cama em frente da do irmão, nem mesmo se voltou.
"Minha senhora." O anfitrião curvou-se respeitosamente ao receber o olhar da elfa.
Celebrian sorriu, menos preocupada com a presença daquele benfeitor do que o marido demonstrava estar. Marach parecia ser um bom homem. Uma pessoa simples para quem o universo resumia-se a um pequeno bosque escondido nas colinas e seus passatempos criativos. Ele tinha os olhos escuros de alguém que está sempre analisando o que vê e tendo grandes idéias, mas o corpo pesado e cansado de quem atualmente não parece em condições de colocar muitas delas em prática.
"Lorde Marach. Sou-lhe grata pela hospitalidade." Ela respondeu, movendo também a cabeça em retribuição ao cumprimento recebido.
"É um prazer ser de alguma ajuda, senhora." Garantiu o outro, unindo as mãos diante do corpo sem saber se já devia sair ou quem sabe indagar algo mais. Não era alguém de formalidades e jamais tivera pessoas nobres assim sob seu teto. Mas estava preocupado com o bem estar de seus hóspedes, embora não soubesse ao certo o que fazer. Foi quando os instintos levaram seu olhar para o menino nos braços da mãe. Ele parecia tão triste e abatido, que o coração do homem se comoveu. "Como está o garoto?" Perguntou então a Elrond, que se colocara a seu lado.
"Recupera-se devagar. Obrigado pelo interesse."
Marach continuou olhando para Elrohir por um tempo, depois, quando Elladan se voltou devagar em sua direção, talvez à procura do pai, as sobrancelhas do homem fizeram o já esperado movimento de surpresa e confusão.
"São gêmeos." O curador apressou-se em esclarecer.
"Ah... Vejam só..." Disse apenas o outro, olhando alternadamente cada uma das crianças. Ele deu um passo receoso à frente e Elrond afastou as pernas em uma posição defensiva automática, mesmo sem ter a intenção de parecer tão precavido. O homem voltou-se com um ar de desculpas, parecendo ter notado a preocupação daquele pai. Não sabia ao certo pelo que tinham passado, nem se atrevera a perguntar, mas pelo estado não apenas físico, mas emocional de todos eles, principalmente as crianças, concluía que por certo as experiências dos últimos dias não tinham sido das melhores. "Desculpe-me. Só queria vê-los de perto. Gosto de crianças, raramente temos alguma aqui. Mas se for incômodo eu..."
"Não, Lorde Marach. De forma alguma." Foi Celebrian quem sorriu, procurando afastar a austeridade daquela situação. "Esse é Elrohir, nosso caçula." Ela disse, acariciando o braço do filho, mas ainda não lhe permitindo afastar-se. Ele estava deitado na cama, com o corpo quase todo apoiado na mãe. "Aquele é Elladan."
Marach sorriu aos gêmeos. Algo neles era mesmo muito triste de se ver, como uma estrela fraca que tenta brilhar em um céu ainda bastante cinza. Sofrimento. Era o que lia no semblante de ambos. Um sofrimento impossível de ser suportado em rostos tão jovens.
Nem Elrohir, nem o irmão retribuíram o olhar recebido. O mais novo manteve a cabeça encostada no peito da mãe, o mais velho tinha a atenção presa nos dedos das mãos, entrelaçados sobre o colo. Elladan só desviou o olhar, preocupado, quando percebeu que o dono da hospedaria, após mais uns instantes analisando os dois, começou a se aproximar do irmão.
"Olá, Elrohir." Ele disse com um sorriso hesitante. "Como está se sentindo hoje? Parece-me bem melhor."
Elrohir respirou fundo, mas não conseguiu deixar de lançar um olhar precavido para o senhor, cujo sorriso e as palavras gentis não inspiravam a confiança que ele gostaria. Depois da jornada que tivera, o jovem elfo achava tremendamente complicado confiar em alguém que não fosse um dos membros de sua família. Para ele qualquer olhar, qualquer gesto e, especialmente, qualquer cordialidade excessiva, fazia-o sentir a mesma sensação que tivera diante do enorme lobo da Tol Morwen. Era quase inevitável. Por isso, quando o dono da hospedaria deu mais um passo em sua direção, ele só não fez uma cena de criança malcriada porque não queria envergonhar os pais.
"Ele está mesmo bem melhor, não é querido?" Foi a mãe que, diante da atitude pouco receptiva do filho, inseriu-se na conversa a fim de que a situação não ficasse por demais incômoda. Mas Elrohir não pareceu disposto a seguir aquele rumo, nem mesmo com a mãe a acompanhá-lo. Tudo o que fez foi endurecer o rosto e voltar a manter os olhos focados em um ponto distante que apenas a ele parecia interessar. Celebrian apertou um pouco os lábios, depois ofereceu ao anfitrião um sorriso paciente que o homem compreendeu muito bem.
Na verdade, ao bom Marach, que de todos os pesadelos pelos quais o jovem elfo havia passado não tinha qualquer conhecimento, a atitude precavida do menino resumiu-se apenas em mera desconfiança de criança. Por esse motivo ele apenas retribuiu o sorriso, mas não se afastou, ainda encarando o pequeno elfo nos braços da mãe com curiosidade.
"Ele parece mesmo bem melhor." Comentou, lançando um rápido olhar a Elrond, que também acompanhava a situação com contida apreensão. A diplomacia era mesmo a mais árdua das tarefas para qualquer raça.
"Sim. Está de fato melhorando. Logo poderá levantar-se e apreciar os belos dias desse bosque." Disse o curador, disfarçado em um sorriso formal, enquanto mantinha um olhar ainda preocupado no filho, cujo rompante matutino não despertara nos pais muitas certezas sobre seu estado psicológico, depois de tudo o que havia passado. Ele preferia que o bom Marach não testasse daquela forma as barreiras protetoras do menino, que mesmo em perfeita saúde, nunca fora dos mais sociáveis.
A diplomacia e suas amarras. O curador ainda pensou, percebendo sua esperança esvair-se quando o anfitrião contrariou as perspectivas otimistas do curador e, ao invés de afastar-se, aproximou-se ainda mais do caçula.
"Com certeza você logo ficará bom e poderá ir para casa." Marach foi dizendo, enquanto se achegava mais. Ele por certo tinha a melhor das intenções, mas o comentário só fez o jovem elfo empalidecer ainda mais. Seus olhos enegreceram de tal forma que Marach encurvou as sobrancelhas. Contudo, ao invés de intimidar-se com a reação do menino, ele deu mais um passo, um caminho lento de aproximação que foi acompanhado por todos com cuidado e que fez o gêmeo voltar a conter o desejo de manifestar sua pouca satisfação com a situação na qual estava.
Na verdade o já abalado Elrohir não esperava viver mais um momento de incerteza, tivesse a gravidade que fosse. Ele não queria sentir aquela sensação novamente, aquela de momentos que parecem simplesmente não ter fim. O caminho por um pântano frio, estar amarrado à maca do grupo de anões, o porto escuro, os olhares desconfiados, a sensação de não ser aceito em lugar algum, o mar revolto, o medo da morte, a ilha, o lobo, o túmulo, o medo de não ser capaz de provar inocência... o medo de perder tudo o que tinha... medo... medo do inesperado... Ele apertou as mãos juntas com força, querendo conter a vontade que tinha de fugir dali. Não queria que brincassem com ele, não queria que tocassem nele, não queria ter aquela sensação de expectativa, de não saber o que o futuro lhe reservava.
Porém, ao contrário do que Elrohir esperava. O bom Marach não o tocou quando enfim estava perto o bastante para isso, nem mesmo proferiu mais qualquer brincadeira. Ele apenas o olhou com um carinho que o gêmeo não entendeu.
"Sim. Você vai ficar bom. Vejo que é um bom guerreiro, não é, meu amiguinho?" Comentou o homem com os olhos grandes ainda voltados para ele, por fim apenas ergueu uma das mãos fechada para perto do rosto do jovem elfo e esperou um instante, administrando o tempo habilmente. O menino curvou desconfiado as sobrancelhas, ainda sem retribuir o olhar que recebia, mas por fim seus olhos acabaram por ceder à pressão e pousaram intrigados no punho cerrado do homem.
O sorriso de Marach se alargou então.
"Sabe. Acho que descobri o seu segredo e sei exatamente que espécie de guerreiro você é. Acredita?" Ele disse em tom de mistério. Elrohir moveu os olhos rapidamente para ele, como se questionasse a qualidade daquela brincadeira, por fim tornou a endurecer o rosto. Contudo, quando já ia desviar os olhos, novamente insatisfeito com a situação na qual estava, Marach soltou devagar os dedos, abrindo a mão e revelando algo que o gêmeo não esperava ver: pousada em sua palma estava uma pequena estátua entalhada.
Elrohir soltou os lábios, a princípio intrigado, mas depois visivelmente perturbado, não só com a brincadeira do estranho, mas mais ainda com a imagem que via. Era a de um espadachim perfeito, um elfo com cabelos trançados e uma espada bastante longa, erguida para o céu. Ele ficou tão confuso que quando Marach lhe estendeu a mão, oferecendo a figura, aceitou-a de imediato e a segurou hesitante por entre os dedos.
"Pois é, rapazinho. Acho que há um guerreiro como esse dentro de você, não há?" Ele ouviu a voz do anfitrião novamente, em um tom ainda mais amigável. "Deve ser difícil, não é? Humm, esses guerreiros nos dão muito trabalho. Vivem nos cobrando fazermos o que é certo. Estão sempre insatisfeitos com o que não podemos fazer... É... vivem dentro da gente e incomodam um bocado."
Elrohir envergou as sobrancelhas e a pouca cor de seu rosto enfraqueceu ainda mais. Ele soltou os lábios então, os olhos ainda cansados descendo e subindo pela pequena imagem, como se por ela estivessem enfeitiçados. Quando Marach, parecendo satisfeito por ao menos ter dado ao menino algo com o qual se distrair, já ia se afastando, percebeu o olhar do jovem elfo erguer-se enfim em sua direção. O homem o recebeu em silêncio, um sorriso e um leve aceno de concordância apenas compunham o semblante pacífico. Por fim, o gêmeo se viu esboçando também um pequeno sorriso, que para o anfitrião foi melhor do que qualquer resposta, ele voltou a olhar a figura mais uma vez depois, antes de estender a mão para devolvê-la.
Marach, no entanto, limitou-se a empurrar gentilmente a mão do menino, ao perceber nele a intenção de restituir o brinquedo. "Sabe..." Ele sorriu com brandura. "Às vezes precisamos deixar o guerreiro sair, mas temos que ficar de olho nele, certo?"
Dessa vez a resposta recebida foi ainda melhor, pois o olhar do jovem elfo foi acrescido de um brilho que até então não o favorecia e ele ofereceu ao bom anfitrião um sorriso diverso do que dera. Não fora um sorriso largo de um elfinho que ganha um brinquedo novo, mas sim o de uma criança que parece enfim despertar de um pesadelo.
Marach se deixou levar por aquela imagem, mesmo sem entender-lhe propriamente o significado. Tudo o que lhe passava pela cabeça era que a brincadeira tinha sido mais feliz do que ele esperava. Quem imaginaria, um simples espadachim de madeira, e o menino o olhava como se tivesse um significado especial, um significado que apenas ele conhecia. Qual seria?
Quando o anfitrião reergueu, enfim, as costas encurvadas, Elrohir olhou-o novamente e fez ao bondoso senhor um ligeiro agradecimento com a cabeça que o homem também não esperava. Atrás dele Elrond também sorria com a imagem que via.
"É um bom menino." Ele disse ao curador então, assim que seus olhos conseguiram deixar a imagem daquela criança misteriosa. "Por certo o fará um pai bastante orgulhoso."
"Ele já faz." Elrond respondeu de imediato, encontrando o olhar do filho assim que terminou sua frase. Elrohir encheu o peito e seus olhos brilharam, mas ele apenas apertou os lábios em uma fina linha, cujos cantos esboçavam um sorriso bastante sutil e continuou a olhar a figura que ganhara. "Na verdade, ambos o fazem." Completou então o curador, movendo os olhos agora para o silencioso primogênito que se limitava a olhar com um igualmente leve sorriso a cena a sua frente, a imagem do irmão que ainda analisava atentamente o presente recebido. O menino parecia tão satisfeito que nem sequer se apercebeu do pequeno elogio que recebera do pai.
Marach acompanhou o olhar do amigo elfo e acabou por ser acometido pelas mesmas deduções deste. Só então se apercebeu de algo e pensou que ainda havia tempo de aproveitar uma boa brisa e com sorte, arriscar a levar o barco um pouco mais longe. Ele respirou fundo então e voltou a se aproximar, parando agora perto do primogênito do casal.
"Elladan, é esse seu nome, não é, meu amiguinho?" Sua voz ganhou mais uma vez aquele tom que passou a agradar a todos, mas o gêmeo mais velho levantou os olhos sobressaltado. "Sabe, acho que seu pai tem razão. Acho que vocês dois são guerreiros bastante eficientes. O que você acha? É um bom guerreiro como seu irmão?" Ele completou em um tom enigmático, inclinando-se como se quisesse olhar o rapaz de perto.
O gêmeo mais velho moveu os olhos para os lados, receoso. Havia gostado do truque do senhor, da maneira como surgira praticamente do nada com a figura entalhada, mas nunca fora tão adepto a brincadeiras e surpresas quanto o irmão e não queria a atenção de todos sobre ele como estava tendo naquele instante.
"Bem... talvez você não seja um guerreiro como seu irmão." Marach disse e sua voz soou distante, quase um devaneio, seus olhos rodaram por toda aquela sala algumas vezes então, antes de voltar a se fixar no gêmeo. "Talvez você seja diferente." Ele completou, erguendo uma mão igualmente fechada para o gêmeo mais velho.
Elladan respirou fundo, tentando ignorar aquela atitude provocativa. Porém sua curiosidade, idêntica a do irmão, não o permitiu fazê-lo por muito tempo e ele se viu observando atentamente aqueles dedos com uma certa apreensão, mesmo deixando-se levar sem perceber pela sutil brincadeira. Em sua mente ainda cansada, pensava agora se realmente havia um guerreiro dentro daquela mão... se havia mesmo um guerreiro dentro dele como havia dentro do irmão. Talvez não houvesse. Talvez ele, no lugar de Elrohir, não tivesse sido capaz de percorrer sozinho o caminho cheio de perigos que o gêmeo fizera.
Quando Marach enfim esticou os dedos, em parte houve uma correspondência à expectativa de todos, mas em contraparte o homem adicionou àquela expectativa um elemento inesperado e surpreendente: Havia sim uma outra estátua entalhada na mão do habilidoso artesão, mas não era a de um espadachim, era a imagem perfeita de um arqueiro, um elfo alto portando um imenso arco, presas nele estavam duas flechas. Elladan empalideceu de surpresa e Elrohir soltou um riso contido que há muito ninguém ouvia.
"Olhe só. Não é que eu estava certo?" Marach ainda brincou, observando com carinho o gêmeo, que agora estendia receoso a mão e apanhava entre os dedos a pequena peça. "Gosta mais do arco do que da espada?" Ele arriscou, ao perceber o modo como o menino olhava para a figura.
Elladan moveu distraído a cabeça em um aceno positivo como resposta. Seus olhos completamente presos nos detalhes daquele pequeno soldado. Depois de alguns instantes, porém, ele tornou a olhar para o benfeitor com um tímido sorriso e esticou novamente o braço para devolver a imagem. O bom homem recusou a oferta, assim como fizera anteriormente, balançando agora a cabeça, mas envolvendo a mão que o gêmeo segurava a imagem na sua.
"Sabia que, entre todos os soldados, o arqueiro é um dos mais importantes?" Ele perguntou então e quando as sobrancelhas do gêmeo mais velho se envergaram de curiosidade, Marach sorriu de novo, soltando o menino e olhando os dois irmãos alternadamente. "Sou um grande estudioso das artes da guerra, sabiam? Perguntem ao pai de vocês se não estou certo." Ele adicionou, dando uma rápida olhada para Elrond para assegurar-se que sua pequena conversa com os filhos do curador não o estava aborrecendo. Ao receber um pequeno sorriso e aceno do lorde elfo, ele prosseguiu. "O espadachim depende de sua arma e destreza, mas o arqueiro depende também da sorte, do afeto do senhor dos ventos e das tempestades, do guia de todas as suas flechas. Todo guerreiro que decide ser um arqueiro, na verdade atende a um chamado e é muito amado por isso." Adicionou, mantendo os olhos no gêmeo mais velho por alguns instantes.
Mas Elladan não retribuiu o olhar, ele já baixara novamente os olhos para a figura em suas mãos, como se sua mente estivesse plenamente tomada por aquele fato narrado, por aquela verdade que desconhecia, mas que agora o preenchia por completo. Foi só quando a mão de Marach tocou-lhe o rosto sutilmente que o gêmeo reagiu, reerguendo os olhos para o anfitrião. Logo um pequeno sorriso estava também em seu rosto e ele movia a cabeça em um gentil agradecimento.
Marach também sorriu e, antes de se afastar mais uma vez, olhou um instante para Elrohir.
"Ter um arqueiro a seu lado quer dizer compartilhar dessa sorte, é ter sorte dobrada." Ele informou ao caçula. "Isso me faz crer que vocês serão uma dupla e tanto de guerreiros." Completou, soltando uma breve e agradável gargalhada que acabou por trazer um sorriso a todos, inclusive aos irmãos.
Elladan ainda ficou olhando a imagem que tinha nas mãos por um tempo, só depois se apercebeu que o gêmeo o estava observando. Elrohir sorriu-lhe então e havia tanto significado naquele olhar e naquele sorriso que há tanto tempo o gêmeo mais velho não via, que só o pequeno ato já lhe moveu o coração. O primogênito se ergueu em um impulso e foi se sentar perto da mãe e do irmão.
Marach acompanhou o movimento e permaneceu mais um instante olhando os dois jovens elfos idênticos com disfarçada curiosidade. Os gêmeos se entreolharam e trocaram rapidamente as peças, passando a analisá-las com atenção e pequenos sorrisos. Logo cada qual estava novamente com seu guerreiro na mão, olhando distraído para a imagem que ganhara.
"Fizeram um pacto de silêncio." Elrond esclareceu, diante do ar que percebia no semblante do dono da hospedagem. Este se virou com uma expressão de quem não ouviu bem. "Meus filhos fizeram um pacto de silêncio... Não sei ao certo por qual motivo específico. Não sei ao certo também até quando."
Marach voltou-se mais um instante aos irmãos, que vez por outra ainda se entreolhavam de uma forma intrigante.
"Parecem conversar... um com o outro..." Ele observou receoso, sentindo que estava dizendo uma grande tolice. Mas quando o pai apenas suspirou, aquela afirmação pareceu não ser tão tola assim, por mais estranha que a ideia fosse. "Têm personalidade." Pontuou com convicção. "Há quanto tempo estão calados assim?"
"Mais de três estações."
"Pelos ventos do norte! É tempo demais, não é? Ou para os elfos é diferente?"
"O tempo passa para os elfos como passa para qualquer um em certas ocasiões." Elrond observou, percebendo a esposa mover o olhar em sua direção e se lembrando da noite que passaram juntos. Celebrian ergueu os cantos dos lábios, lendo mais do que seus pensamentos naquele instante e compartilhando a sensação agridoce do marido. "As boas emoções parecem breves, as não tão agradáveis custam a passar... Mas tudo vem e vai... para homens e elfos..." Completou, retribuindo sutilmente o sorriso da esposa.
A seu lado Marach balançou a cabeça como quem entende melhor sobre o que estava sendo dito e vivido ali dentro do que Elrond julgara quando o vira pela primeira vez. O anfitrião acenou então para os meninos uma breve despedida, aconselhando-os a experimentarem a geléia de tâmaras e recebendo tímidos sorrisos e acenos positivos como resposta. Quando já à porta, Elrond apoiou a mão em seu ombro.
"Sou-lhe muito grato. Muito grato de fato, meu amigo."
O homem comoveu-se com o tratamento, mais do que já vinha comovendo-se com a situação daquela família. Passara a noite pensando neles. Um casal sozinho em uma floresta escura e cheia de perigos, com ambos os filhos feridos e muitos problemas a resolver. Esperava poder ajudá-los mais.
"Bobagem. Não fiz nada." Ele disse, fazendo um breve movimento com a mão. Quando o curador olhou novamente para os filhos, dando, o que ele achou ser, o propósito do agradecimento, Marach voltou a repetir o gesto casual. "Nah. Os brinquedos? São coisas simples. Eu gosto de esculturas de madeira. Eu mesmo as entalho. Tenho um exército delas." E riu. "Não são nada de mais. Fico feliz em dar uma a eles e que tenham gostado."
"Não agradeço apenas pelas esculturas, senhor Marach. Que para mim foram presentes de grande valor." Elrond disse e havia mais do que sinceridade em seu olhar, havia um sentimento de gratidão genuíno. "Mas também pelo riso que deu a eles, algo que há tempos não via, e que ouro algum pode pagar."
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Conforme o tempo foi passando e o sol correu seus dias, somando as horas de serenidade que aquele lugar idílico e distante era capaz de propiciar, os temores da família de Imladris foram dando lugar a outras sensações mais agradáveis. Por esse motivo quando Celebrian, que saíra do quarto por apenas um instante, deixando o caçula adormecido, encontrou-o na volta em pé diante da janela, tudo o que lhe ocorreu foi o mais corriqueiro dos comentários.
"Está um dia bonito hoje, não acha, elfinho?"
Elrohir sobressaltou-se com o questionamento da mãe, que se limitou a sorrir de volta. A elfa estava tão feliz por vê-lo em pé por vontade própria que se indispôs a adverti-lo por tê-lo feito sem que ninguém estivesse por perto para auxiliá-lo se necessário. Os dias, mesmo os que desenhavam as mais belas paisagens no bosque onde estavam, haviam se passado, até então, sem parecer terem oferecido ao jovem elfo o incentivo positivo necessário para movê-lo de onde estava.
Elrohir olhou rapidamente para a mãe, depois voltou a olhar para fora. O quarto no qual estavam ficava no terceiro andar da bizarra construção, mas de sua janela podia-se ter uma visão privilegiada do cenário além daquela clareira, no qual a paisagem ganhava outros tons de verde e muito mais mistério.
O gêmeo correu os olhos por aquelas distâncias. Há bem pouco tempo, um horizonte como aquele refletiria a imensidão de quase um mundo todo, mas para ele agora aquelas matas e o que pudesse haver por trás delas era apenas mais um lugar onde poderia ir se preciso fosse. Talvez fosse de fato preciso, já que sua família não tinha mais um lugar para o qual regressar, um lugar que pudesse chamar de lar.
Pelos pensamentos da mãe, entretanto, não pareciam passar mais tais idéias. Celebrian envolveu o filho com cuidado, trazendo-o para que se encostasse a ela. Gostava daquela sensação de tê-lo ali, ao alcance das mãos. Quando a porta se abriu novamente, dessa vez mãe e filho se voltaram para ver Elrond regressar ao quarto acompanhado pelo primogênito. Elladan sorriu ao ver que o irmão estava em pé depois de vários dias de recuperação e correu para perto dele.
"Parece que os ventos da tempestade finalmente tomaram outros rumos." Elrond observou, assim que recebeu a esposa em seus braços, os olhos do curador analisavam com alívio a cena dos filhos, novamente juntos. Elladan e Elrohir apreciavam agora o dia azul que a janela do quarto emoldurava, a imagem de suas cabeças morenas lado a lado diante daquela paisagem, que por si só já era cheia de perspectivas, comoveu o curador o suficiente para que ele sentisse que algumas pequenas ações já poderiam ser arriscadas. "Por que não vão apreciar o entardecer lá embaixo, ionath-nín? Se descerem com cuidado e prometerem não se exceder, acredito que o final do dia lhes proporcionará uma visão acalentadora."
Os gêmeos se voltaram com um idêntico arcar de sobrancelhas e Elrond ofereceu a eles aquele sorriso paciente que sempre lhes aplacara o medo dos inúmeros mistérios, desde os pequeninos até os mais profundos e intrincados. Elrohir ainda voltou a olhar a paisagem da janela, como se estivesse se certificando que realmente havia condições para sair. Era quase inacreditável que, depois de enfrentar praticamente sua jornada inteira sob toda a espécie de aguaceiro, o sol houvesse voltado a sorrir. Melhor do que o sorriso do dia, entretanto, era aquele que a família agora lhe dava e que o motivaria a sair em qualquer circunstância, independente de que cenário a paisagem daquela janela oferecesse.
Elrond segurou um instante o ar dentro dos pulmões ao ver o caçula pegar a mão do irmão e, como sempre fora característica sua e que todo aquele sofrimento parecia não ter comprometido, tomar a iniciativa de vencer aquela porta e buscar, sem aguardar qualquer instrução, o caminho que o levaria àquele jardim desconhecido.
Celebrian observou a mesma cena com um sentimento semelhante ao do marido a aquecer-lhe o coração, ela ainda sorriu ao ver o marido gritar uma advertência para que os filhos fossem com cautela, antes de apertar um pouco mais os braços a envolver o lorde elfo. Elrond desceu os olhos para ela.
"Onde estavam?"
"Conversando com um grupo de mercadores recém-chegados, obtendo algumas informações."
A elfa ergueu as sobrancelhas, interessada.
"De onde são?"
"Do além porto, um vilarejo a oeste das Ered Luin. Parece que talvez as Montanhas Azuis sejam um lugar para o qual possamos ir."
"Na outra margem?"
"Sim. Pelo que soube do líder, seríamos bem recebidos no vilarejo onde vivem."
Celebrian ficou pensativa um instante.
"Povo adán?" Ela indagou.
"Sim. Mas nenhum descendente direto de Elros. São de uma vila recentemente estabelecida. Algumas poucas pessoas que pareceram ter se desentendido com o patriarca da família. Uniram-se aos remanescentes de uma outra região que sofreu perdas devido a uma peste desconhecida, muitas doenças andam por aquela região, talvez minha presença seja até de alguma ajuda. De qualquer forma, parecem gente de paz, mas nunca se sabe."
O olhar da antiga senhora de Imladris se perdeu então com a pouca consistência daquele comentário. Dessa vez foi Elrond a dar uma ligeira reforçada no abraço que oferecia. Ele sorriu para a esposa, quando recebeu de volta a atenção daqueles olhos claros.
"Nosso futuro pode ser incerto, Estrela minha." Disse então, beijando carinhosamente a testa da esposa. "Mas, ainda assim, não trocaria o meu hoje por nenhum dos ontens que tive nas ultimas estações."
Celebrian esboçou um pequeno sorriso, depois suspirou.
"O que me importa e que caminhemos juntos, em qualquer hoje, para qualquer lugar." Ela disse, sem deixar de retribuir o olhar que continuava a receber.
Dessa vez não ocorreu ao sábio senhor de Imladris resposta à altura daquela que recebera, mas seus olhos mudaram ligeiramente de tom, antes dele beijar os lábios da esposa e trazê-la para ainda mais perto de si. Ao senti-la encostar a cabeça em seu peito, tudo o que conseguia pensar era que a inabalável confiança que a elfa tinha nele era tão motivadora quanto assustadora. No entanto, ele sentia que o arrepio gerado pelas palavras dela, continha a energia mais poderosa que poderia ter a seu dispor.
"Acho que também nós podemos descer um pouco para apreciar os últimos momentos do dia." Ele propôs então, os filhos estavam quase recuperados, mas não era de todo exagero manter a atenção neles por mais um tempo. A elfa afastou-se no mesmo instante com um sorriso de satisfação. Também ela ficara tempo demais naquele quarto com o caçula, por isso a idéia de ver o dia além daquela janela lhe aprazia.
Reconhecendo o evidente contentamento que a esposa demonstrava, Elrond apressou-se em reabrir a porta, esperando a elfa passar para depois oferecer a ela o braço e seguirem pelo corredor.
A hospedaria não era muito ampla, as paredes ainda reservavam a cor e o odor da madeira original, pequenos troncos de eucaliptos justapostos e amarrados em alguns lugares, de cujas frestas, às vezes mais afastadas pela acomodação e o ressecamento natural do material, escapavam aqui e ali, a luz dourada do sol e o vento breve do entardecer.
Desciam agora a escada espiralada que conduzia ao primeiro andar. Ali ficava uma pequena recepção com poucos móveis de velhos estofados, tapetes igualmente antigos e um balcão cheio de pergaminhos e outros papéis, atrás deste estava agora a figura sorridente do velho Marach.
"Olá, Elrond!" Ele disse, encurvando-se educadamente ao ver que o elfo descia acompanhado de sua esposa. Com o tempo o curador satisfizera-se em conseguir vencer a pequena barreira diplomata com o bom anfitrião e já se tratavam pelos primeiros nomes. "Minha senhora."
"Olá, Lorde Marach." Celebrian retribuiu a saudação com um sorriso gentil, enquanto o casal se aproximava do balcão. Marach deu a volta para recebê-los. "Está um belo dia."
"Sem dúvida. Os raios do sol são uma benção, o melhor remédio para muitos problemas."
"Por certo." Concordou a elfa. "Pensávamos em acompanhar o entardecer." Ela informou, olhando agora para o marido a espera de que o elfo reforçasse sua afirmação. Porém, diante do inesperado silêncio dele a elfa intrigou-se. O curador agora tinha os olhos voltados para o pedaço de céu aroseado, ele parecia pensativo e subitamente preocupado "Elrond?" Ela o chamou mais uma vez e só então teve o favorecimento do olhar dele. "O que foi, querido? Está inquieto por algum motivo?"
"Não... Não, Estrela." Elrond respondeu em tom de desculpas, depois seu olhar fixou-se no anfitrião que agora o observava com a mesma preocupação. "Desculpe-me. Sou-lhe grato pela hospitalidade, Marach. Apenas tenho nos pensamentos a conversa que tive com seus novos hóspedes."
"Ah, sim." O homem mostrou compreensão. "Eles ofereceram-lhe um convite para viver em seu vilarejo, não foi fato?"
"Sim. Julgo que seja uma proposta a ser pensada." Elrond comentou distraído e Celebrian envergou as douradas sobrancelhas, parecendo insatisfeita com algo. Aquele não parecia ser o real motivo da inquietação do marido. Ela conhecia-o bem e sabia que quando seu olhar escurecia-se daquela forma era porque sua mente estava igualmente escurecida por algum pensamento pouco confortante.
No entanto, quando a elfa já pensava em puxá-lo para um canto qualquer e indagar-lhe a respeito a porta da recepção se abriu e a figura de Elrohir entrou como um tufão, agarrando o pai pela cintura e mantendo quase todo o corpo atrás dele.
"Ion-nín!" Elrond sobressaltou-se, e sua mão buscou inutilmente a espada em um instinto que guerreiro algum jamais perde. A arma, no entanto, ficara no quarto. "Onde está seu irmão?" Ele indagou com urgência então, mas a imagem de Elladan surgiu à porta antes que o pai pensasse em se mover. O primogênito estava tão pálido quanto o gêmeo, mas não parecia apavorado, apenas preocupado. Elrond olhou-o dos pés a cabeça, antes de indagar.
"Elladan. O que se passa, criança?"
O gêmeo converteu sua resposta em um doloroso estufar do peito, antes de voltar os olhos para a porta pela qual passara. Foi Marach quem se deslocou rapidamente para verificar o ocorrido. Ao contrário do curador, o anfitrião já tinha uma adaga escondida nas costas. Quando ele alcançou a passagem, no entanto, o ar que seu rosto adquiriu foi o de consternação e dúvida. Ele voltou-se aos hospedes e anunciou preocupado:
"Elfos... Lorde Eilafion e Lorde Círdan estão com eles."
Só então Elrond pressionou os lábios, compreendendo o motivo da preocupação do filho e prevendo o que movera os amigos até ali. Enquanto já tentava imaginar de quais argumentos poderia dispor para desculpar-se com o mestre dos barcos, a esposa se aproximou da grande janela principal. Ele, entretanto, não conseguiu fazer o mesmo, pois, quando decidiu mover-se para enfrentar o que julgava o estar aguardado, Elrohir continuou a segurá-lo com força, impedindo-o de dar um passo sequer.
"Está tudo bem, ion-nín. Confie em mim."
A frase de sempre, contudo, não fez o efeito desejado e logo o porquê ficou mais do que claro. O rosto de Celebrian ganhou a mesma palidez e apreensão dos filhos, no momento em que ela conseguiu desvendar a imagem que os aguardava lá fora.
"Elrond..." Ela disse, olhando o marido com preocupação. "Meu pai está com eles."
