Olá. Espero que todos estejam bem.
Não há muito que dizer sobre esse capítulo, a não ser que é um dos poucos centrado quase inteiramente em uma só situação. Na verdade, este e o próximo eram um capítulo só que acabei por dividir porque talvez a cena abaixo talvez se perdesse junto com outra forte que está presente na continuação deste.
Eu sempre me sinto insegura quando tenho que retratar esses elfos poderosos como Círdan e Celeborn (e como é difícil me lembrar de que o C que inicia o nome deles é lido, na verdade, como K). Enfim, espero que as cenas tenham ficado convincentes. Se não ficaram, não hesitem em me dizer, por favor. Escrevi e reescrevi esses últimos capítulos tantas vezes que acho que gastei neles o tempo de três fics.
Muito obrigada novamente a quem continua acompanhando. Espero que no final esse texto deixe boas recordações a todos. Muito obrigada mesmo pelas reviews.
Mil beijos
Sadie
CAPÍTULO XVI – LAÇOS REATADOS
"As coisas que não dependem de você podem acontecer a qualquer momento."
Acídio Alan
Conforme os cavalos retomavam o caminho em um dos muitos amanheceres que a companhia passara junta, Elrohir moveu-se onde estava, estranhamente incomodado com a queda de temperatura. Ele sentiu então a capa do pai cobri-lo e os braços dele à sua volta, dando as mesmas garantias que vinha recebendo nos últimos dias. O gêmeo abriu os olhos apenas um pouco, o suficiente para ver o cavalo que espelhava a caminhada do corcel do pai. Roquen continuava em seu trotar ligeiro, alguns fios da crina prateada envolvidos pelos dedos da senhora de Imladris.
"Volte a dormir, Rohir-nín." A voz desta veio em sua direção e ele ainda sentiu um momento de hesitação, questionando-se se a ouvia de fato ou sonhava com ela, como sonhara tantas noites em sua viagem.
Como que para assegurar-lhe que estava de fato desperto e não em algum sonho bom demais, a palma do pai surgiu em seu campo de visão, cobrindo-lhe levemente os olhos.
"Durma, ion-nín. Ainda temos mais algumas horas antes do amanhecer completo. Durma... Apenas durma..."
Durma... Apenas durma... A voz pacata do pai parecia continuar ecoando naqueles vazios que tomavam sua mente agora. Há algum tempo não tinha mais pensamento algum sobre o que esperar do futuro, sobre o que acontecera no passado. Ele simplesmente desistira de conjeturar, parara de temer, de negar o que realmente queria. Queria estar com a família, não importava onde fosse. Queria estar sob a sombra do pai, queria segurar a mão da mãe, queria ter oportunidades de buscar pelo irmão, pela ajuda dele, pela aprovação dele. Queria ter uma vida normal, não importava qual teto estivesse sobre sua cabeça.
Por esse motivo, quando a companhia liderada por Círdan e Celeborn chegou, tudo o que mais temeu foi que o avô viesse a levá-lo novamente. Ele reivindicara sua guarda uma vez, podia fazê-lo de novo, principalmente depois do que ele fizera. Por isso, por mais garantias recebidas do pai de que nunca mais se separariam, ele temeu tanto que, pela primeira vez, a presença de alguém a qual até pouco tempo lhe despertava imenso prazer, o enchera de desespero.
Quando Marach enfim entendera o que aqueles elfos estavam fazendo na clareira na qual vivia, ele procurou providenciar abrigo e alguma atenção para eles, além de um pequeno lugar no qual pudessem se reunir. Haja vista que um assunto urgente parecia estar aguardando apenas o local e momento certo para ser resolvido
No jardim da hospedaria, bem abaixo de outro carvalho quase idêntico ao principal, o anfitrião construíra uma pequena guarida, apenas para propiciar um lugar para refeições ao ar livre em dias tranqüilos. Havia algumas mesas rústicas de madeira, uma lareira e um grande fogão a lenha, sobre o qual várias panelas soltavam vapores de diferentes fragrâncias, esquentando um pouco o ambiente.
As mesas haviam sido cobertas por toalhas coloridas e os soldados de Círdan e outros elfos que vieram na comitiva de Celeborn foram se ajeitando nos assentos mais distantes. Elrond e a família posicionaram-se no outro extremo do local, longe da porta, mas próximos a uma grande janela, que lhes propiciava a imagem do jardim que os filhos mal haviam conseguido conhecer. Celebrian tomara uma cadeira a pedido do marido, mas o curador preferira ficar em pé ao seu lado, haja vista que o próprio Celeborn não se sentara, limitando-se a se encostar também ele a outra janela. Embora os olhos do senhor dos cabelos prateados estivessem na paisagem que via, a impressão que Elrond tinha era que o sogro buscava, na verdade, um pretexto para não olhar em sua direção. Aquilo não podia ser bom, ele sabia; e até mesmo Celebrian estremeceu diante do absoluto silêncio do pai, que deixara a Círdan a responsabilidade de falar pelos recém-chegados.
Ao contrário do que o curador havia imaginado, Eilafion não se dispusera a guardar segredo dos planos do amigo por muito tempo. No momento em que a informação de que Elrond dispusera-se a cruzar aquele pedaço inóspito de chão com o filho ainda convalescente e sem a certeza absoluta de um abrigo a sua espera chegou ao mestre dos barcos, Círdan enviou, de imediato, soldados em busca de informações sobre amigo. Quando a notícia trazida foi a que Elrond não só havia enfrentado um grupo de orcs, antes de ter chegado ao local indicado por Eilafion, como também, encontrara a esposa e o primogênito no caminho em busca deste, o armador julgou que já suportara o bastante de toda aquela insensatez.
"Você fez o que, Círdan?" Elrond ficou tão surpreso com a informação que fechara o relato do amigo dos portos, que se esqueceu brevemente das pequenas regras diplomáticas ainda exigidas pela posição de ambos.
"Eu mandei uma mensagem aos sábios lordes de sua terra e relatei-lhes sobre o ocorrido na ilha." O curador ouviu atentamente a repetição daquela última sentença, dessa vez com a palavra "tolos", usada anteriormente, substituída pela expressão "sábios lordes", porém com uma inegável e muito mais acentuada ironia.
"Mas..." Elrond procurou não se desesperar com aquela informação. Afinal estava diante dos filhos, cuja presença fora solicitada para a breve reunião. Os olhos de Elladan, sentado ao lado da mãe, não desgrudavam dele, mas Elrohir, ao lado do irmão, mantinha os seus presos no chão abaixo de si, imóvel com quem teme até respirar. "Círdan... você..." Ele ainda tentou dizer, porém, diante do olhar seguro que o amigo lhe direcionava, perdeu por completou a motivação.
Aquele era Círdan, o mestre dos mares. Sentado em uma das cadeiras, as costas eretas, as pernas ligeiramente afastadas, as mãos pousadas sobre os joelhos, o olhar profundo, o elfo que despertara com os primeiros eldar de Arda parecia uma estátua de mármore indestrutível. Havia quem dissesse que o olhar do senhor dos barcos era capaz de gelar elfos e mares. Elrond não sabia se aquilo era verdade, mas diante de sua súbita ausência de palavras, começou a desconfiar que sim.
"Diga-me o que o incomoda, mellon-nín." Foi só depois daquela motivação do armador que o curador sentiu que seria capaz de dizer o que preocupava seu coração.
"Eu... apenas me questiono, mellon-nín... Se sua atitude não fez apenas aumentar a lista de atos culpáveis aos quais meu nome está associado." Ele disse com cuidado, mas sentiu, mesmo assim, o filho caçula estremecer ao lado do irmão. Por isso fora tão relutante em ter o menino ali, e só concordara com a presença dele devido à exigência do próprio Círdan. Sabia que estar novamente sentado diante de um conselho como estivera no passado era algo para o qual o caçula ainda não se recuperara devidamente. Não queria que o menino voltasse a se sentir responsável pelo destino da família. Elrond ainda suspirou preocupado, percebendo Elladan achegar-se mais ao gêmeo sutilmente e Elrohir fechar os olhos com aquele contato.
"Eu não creio que ato culpável algum esteja associado a seu nome agora, Elrond." Círdan ofereceu então a resposta e, quando curador lançou-lhe um olhar intrigado, ele escorregou os olhos em direção ao lorde elfo em pé a alguns passos.
O rosto de Celeborn ainda guardava uma seriedade intensa, embora houvesse demonstrado inquietude algumas vezes, conforme ouvia todo o relato que o senhor da cidade portuária acabara de fazer. Quando seus olhos poderosos fixaram-se enfim no genro, Elrond teve que repetir mentalmente quem era algumas vezes para não perder o rumo dos próprios pensamentos. Era no mínimo desconfortável imaginar o que o sogro, alguém que lhe dera sempre tamanho apoio, pensava dele e das atitudes que havia tomado.
"Sei que lhe devo explicações, Celeborn." Ele adiantou-se, mesmo assim, principalmente diante do silêncio permanente do lorde elfo. O olhar deste, no entanto, não era o de quem realmente esperava por uma satisfação. Muito pelo contrario, era o de alguém que já tem idéias bastante claras na cabeça. Elrond apenas percebeu-o soltar o ar vagarosamente do peito, depois seus olhos deixaram os do genro para encontrarem os da filha.
Celebrian manteve-se firme, mesmo sentindo o total desapontamento no rosto do pai e não conseguindo qualificar todos os seus motivos. Para Celeborn eram momentos como aquele de convicção extrema que a faziam a filha perfeita da mãe que tinha.
E o que parecia desenrolar-se voltou a se converter em mais e mais silêncio. Um silêncio pegajoso que só não era pleno porque se ouvia o cantarolar e as conversas leves dos elfos do outro lado do salão. Celeborn ainda voltou a olhar pela janela por alguns instantes, para depois respirar fundo e afastar-se dela, na direção da família.
"O discurso de Círdan em seu relato aos lordes de Imladris foi bastante convincente." Ele disse, vindo sentar-se ao lado do elfo dos portos e fazendo um gesto para que o genro também tomasse um lugar.
Elrond ainda hesitou, sem saber o que dizer ou pelo que esperar, por fim puxou uma cadeira e a colocou ao lado da do filho caçula. Elrohir estremeceu, erguendo enfim os olhos para acompanhar as atitudes do pai, e surpreendeu-se ao vê-lo sentar-se a seu lado com um rápido, mas assegurador sorriso. O gêmeo não soube por que, mas aquele ato pareceu arrancar à força qualquer receio que ainda estivesse em seu peito. Haviam enfrentado tudo, não se perderiam em novos temores justamente naquele momento, diante dos seus, daqueles que, apesar de tudo, ainda se preocupavam com eles. Elrond encheu o peito então, igualmente fortificado naquela certeza.
"Círdan comprometeu-se por mim. E por isso sou grato." Ele disse então, apoiando a mão no peito para enfatizar a verdade de suas palavras. "Depois de tudo o que fez e da retribuição pouco agradecida que lhe dei, só posso envergonhar-me, mas agradecer a ajuda a mim concedida."
"Eles querem a sua volta, Elrond. Sua e de sua família." Círdan disse como resposta, fazendo o que sabia fazer de melhor, rompendo a quase sempre desnecessária diplomacia que parecia esfriar aquele lugar no qual estavam, mais do que o próprio inverno incumbia-se de fazer do lado de fora.
O olhar de Elrond se perdeu por um instante, como quem decora um texto conjunto e subitamente a próxima fala não corresponde à seqüência esperada.
"Peço que me perdoem, mas..." Ele tentou dizer.
"Eles os querem de volta." Círdan apenas repetiu, olhando o amigo nos olhos agora, com que para dizer-lhe mais do que aquelas palavras. "Convenceram-se de que o menino não tem culpa do que aconteceu. Que tudo foi um conjunto de infortúnios e decisões precipitadas de todas as partes. Para ser sincero, meu bom Elrond, essa é a única parte do discurso daqueles tolos com a qual devo concordar. Ultimamente parece que todos vocês estão agindo antes de pensar."
Elrond moveu enfim as sobrancelhas em um movimento que lhe era característico. Apesar da provocação implícita da afirmação do amigo, seus olhos caíram nos de Celeborn, esperando uma confirmação que não conseguia ler no ar ainda bastante insatisfeito do sogro.
"Eles querem que retornem." O lorde elfo correspondeu à expectativa, em um tom menos contundente que o do amigo, mas igualmente sincero.
"É a terra que você idealizou, Elrond. Não podiam mesmo condená-lo da forma que imagina." Círdan ainda disse.
"Eles podiam. Era o direito que cabia a eles." Discordou o curador, começando a achar que algo estava naquelas entrelinhas, algo que não o agradava. "Estiveram em Imladris? Falaram com alguém?"
"Não. Mas gostaria de ter estado." Círdan compreendeu a insinuação. "Talvez devesse. Talvez fosse interessante lembrar-me de tais elfos a fim de reservar-lhes a pior de minhas embarcações em caso de necessidade."
Elrond uniu as sobrancelhas, mas um pequeno riso escapou de um de seus filhos, talvez dos dois, ele não conseguiu perceber, a seu lado um sorriso leve também se esboçava nos lábios rosados da esposa, aquecendo de uma forma positiva um pouco dos ânimos dos presentes. Ele estufou o peito então, voltando a encarar a figura ainda austera do sogro.
"Sei que desejam o melhor para nós, mesmo com nossa atitude pouco digna de tamanha consideração." Ele disse, dessa vez encarando Celeborn com coragem, desejando imensamente ouvir dele de uma vez o discurso que parecia estar entalado em sua garganta. O silêncio daquele elfo era pior do que a mais severa das reprimendas "Todavia, busco por uma compreensão desses fatos inesperados... Eu..." Ele titubeou um instante, ainda com a imagem do silencioso pai da esposa a retribuir-lhe o olhar. "Eu preciso saber o que mudou a opinião dos conselheiros. Preciso saber a verdade. Preciso saber o que disse a eles, senhor meu sogro."
E o tom formal, porém extremamente sincero, daquele questionamento amenizou por fim os intensos traços do rosto do lorde elfo. Celeborn ainda soltou um breve suspiro e seus olhos passaram rapidamente pelo rosto de Elrohir e de Celebrian antes de responder.
"Eu nada disse. Eu nada disse e nada fiz, pois de nada sabia." Ele garantiu, os olhos agora fixos na filha. "Quando a ausência de vocês foi enfim esclarecida, os senhores de sua terra me contataram já com a decisão em mente. Calculo que seus amigos Erestor e Glorfindel talvez sejam mais responsáveis por essa reversão dos fatos do que eu. Minha presença aqui é apenas formalidade, julgavam que se o pedido viesse de mim vocês aceitariam retornar."
Celebrian soltou enfim os lábios, sentindo que o tom usado pelo pai no término de sua sentença não era o de alguém contrariado ou desapontado. Havia nele uma estranha tristeza.
"Veio fazer esse papel, adar-nín?" Ela indagou entre o confuso e o descrente. "Veio transmitir o pedido dos conselheiros de Imladris?"
Celeborn encheu o peito.
"Também, pois prometi a eles fazê-lo."
"Mas não foi por isso que veio..." A elfa concluiu, ainda retribuindo o olhar do pai.
"Não. Vim porque precisava compreender uma sensação que me incomodava tremendamente. Vim em busca de uma resposta importante. Mas só agora percebo que sempre tive conhecimento dela e que o que me trouxe até aqui foi apenas a necessidade de uma confirmação. Tivesse ela o sabor amargo que fosse."
Celebrian envergou o cenho, e seu rosto foi tomado por uma palidez mais acentuada. Dessa vez seu olhar buscou o do marido antes de voltar a fixar-se no pai, mas ela não temeu fazer a pergunta que sabia ser fala sua.
"Que resposta, adar-nín?"
Celeborn respirou fundo, soltando um pouco o corpo na cadeira na qual estava.
"Quando deixei você naquela manhã, seu marido já havia partido em busca de seu filho, não havia, Celebrian?" Ele indagou duramente e apertou o maxilar ao ver a filha empalidecer ainda mais, mesmo sem desviar o olhar do seu.
"Eu pedi a ela que escondesse o ocorrido, Celeborn." Elrond tomou a defesa da esposa. Temendo ter motivado um mal entendido daqueles.
"Pediu a ela que o aguardasse em Imladris também, presumo eu." O lorde elfo encarou o genro, que emudeceu. "Minha filha não toma uma atitude da qual discorde em situação alguma, Elrond. E você, como esposo dela há um tempo razoável, por certo sabe disso tão bem quanto eu."
Elrond respirou fundo, em seguida baixou os olhos.
"Não seria justo envolvê-los em uma situação como aquela." Ele justificou-se.
"Eu já estava envolvido, Elrond. Estava presente desde que a situação estabeleceu-se. Fui dela tirado por um motivo distinto." Ele disse, olhando agora para o casal alternadamente.
O rosto de Celebrian por fim se enterneceu, e seu ar precavido se desfez quando ela foi tomada pela compreensão de que espécie de sentimento havia semeado no coração do pai.
"Acha que não confiamos mais no senhor? Acha que o que fiz foi porque não confiava no senhor, não acreditava que fosse me ajudar?" Ela indagou então, já inconformada com aquela situação.
A resposta do pai não veio fazê-la sentir-se melhor.
"Estou na verdade com uma sensação um pouco pior." Celeborn respondeu, mas antes da filha poder retrucar, seus olhos ganharam aquele brilho que ela conhecia muito bem, um tom que sempre calara seus protestos e a fizera aguardar o que estava por ouvir. "Quando montei em meu cavalo para tomar esse rumo, meu coração estava apenas assombrado por uma desconfiança, mas essa sensação transformou-se em certeza da pior maneira possível."
Dessa vez nem mesmo a Celebrian ocorreu o desejo de fazer o questionamento que o lorde elfo deixara no ar. A necessidade dele, no entanto, desapareceu quanto Celeborn moveu os olhos em direção ao gêmeo mais novo, e os traços de sua face se suavizaram enfim em um semblante de abnegação.
"Da pior maneira possível..." Ele repetiu. "Não há só a ausência de confiança entre nós agora... Há algo mais... Há mais..."
Elrohir ergueu o rosto ao se sentir observado e retribuiu o olhar do avô pela primeira vez desde sua chegada, compreendendo então que aquela conversa não era apenas de adultos como as outras das quais havia participado. Eles não estavam discutindo assuntos que não lhe diziam respeito ou tomando decisões importantes sobre as quais ele não tinha qualquer poder. Eles não estavam apenas falando sobre ele...
Celeborn continuou olhando para o neto, enquanto percebia-o retroceder mentalmente o que ouvira da conversa até o ponto em que as reticências do avô pareceram ganhar algum sentido. Elrohir engoliu em seco então, pensando que talvez agora fosse ganhar a reprimenda que estava esperando ouvir desde que seu pai o encontrara naquela ilha. Ninguém ainda o havia censurado, ninguém o havia feito pensar na loucura que fizera, no pesadelo pelo qual fizera sua família passar. Sim. Talvez agora o avô fosse tomar para si esse papel.
O gêmeo não o culparia. Na verdade esperava por uma atitude até pior dele. Quando vira a comitiva de elfos liderada pelo senhor dos Portos Cinzentos seu coração preocupou-se, pois sabia o que o pai tinha feito por ele. Contudo no instante que percebera a presença de Celeborn entre esses elfos, um desespero incontrolável o preencheu de tal forma que ele nem sequer conseguia agora se lembrar dos momentos seguintes até alcançar o pai, já dentro da hospedaria. Talvez o avô o houvesse chamado... Sim, ele se lembrava vagamente de ouvir o seu nome...
"Quero que ouça o que vou lhe dizer, Elrohir." Celeborn dirigiu-se ao neto então e engoliu todas as sensações ruins que lhe vinham à boca quando o menino pareceu petrificado só por ouvir o avô dirigir-se diretamente a ele. Celeborn o estava chamando pelo nome e só aquilo já não era bom sinal para o menino que, desde muito pequeno, ganhara um apelido do avô e por esse era tratado na maior parte do tempo."Quero que saiba algo de extrema importância e quero que o guarde dentro de si como uma verdade inquestionável, como uma promessa." Reforçou o lorde elfo e seus olhos sempre tão claros ganharam um quê de anoitecer. Ele então os focou plenamente no neto, antes de completar o que tinha para dizer. "Elrohir, saiba que nunca mais, em momento algum, por circunstância nenhuma, eu o afastarei de sua família sem que este seja seu desejo, mesmo que as mais nobres intenções me sejam motivo. Compreende o que lhe digo?"
Elrohir estufou o peito, mas demorou mais tempo do que o normal para soltar o ar. Para Celeborn aquilo foi uma pequena indicativa de que suas palavras ainda despertavam mais temores do que certezas no jovem elfo. Elrond pousou a mão por sobre a perna do filho, como que para lembrá-lo que havia uma pergunta que deveria ser respondida. Só então o gêmeo balançou a cabeça em uma hesitante confirmação.
Celeborn soltou então o corpo na cadeira na qual estava e seus olhos refletiram por fim a tristeza que estava escondendo.
"Que assim seja." Ele disse depois de um doloroso e conformado suspiro. Seus traços ainda transpareciam uma insatisfação, embora diferente agora da que vinha demonstrando, ele balançou então a cabeça e soltou um novo suspiro, antes de arriscar mais um olhar ao neto, que agora acompanhava suas reações com as sobrancelhas levemente contraídas. "Ah, Astalder. Espero poder um dia voltar a ser digno de sua confiança. E não alguém que lhe desperte algum temor, alguém de quem você julgue que deva fugir."
Só então o gêmeo pareceu entender o que havia por trás de todo aquele discurso. Seu peito começou a ser invadido por outras sensações mais duras, como se tivesse acabado de ser esmurrado no estômago, ele sentiu o queixo estremecer e seus lábios ficaram entreabertos. O avô continuou olhando-o por mais um tempo e havia grande tristeza dentro dele. O menino quase não pôde agüentar o que lia agora naquelas linhas do rosto do lorde elfo, nas entrelinhas das palavras que ouvira, no vazio que agora se instaurara. Elbereth, só agora ele entendia e chegava a desejar não ter percebido...
Ah o mal que fizera às pessoas, e que aos poucos ia descobrindo... Apanhar uma espada enferrujada, fazer uma peraltice, quem diria que aquilo semearia o que ele agora via até mesmo na figura do tão poderoso avô.
Quando Celeborn enfim baixou novamente os olhos, movendo-os para outro lugar, Elrohir foi tomado por uma sensação de abandono intensa, e ocorreu-lhe o tolo temor de que o avô não fosse olhar para ele mais, nunca mais. E se fosse verdade? E se o avô estivesse sentindo que precisava se afastar dele?
Ilúvatar! Não queria que o avô se afastasse dele. Não queria tê-lo ferido assim.
Foi aquele receio tão insuportável então, engrandecido por outros pensamentos ainda mais pesarosos, que praticamente arrancou o gêmeo de seu lugar. Ele se levantou em um ímpeto e antes que qualquer um pudesse fazer algo correu e abraçou o avô com força. Celeborn, a princípio surpreendeu-se, abrindo os braços sem qualquer outra reação. Elrohir ainda teve mais um instante de temor antes de sentir as mãos dele o envolvê-lo com a mesma urgência, trazendo-o para seu colo e deixando-o ficar ali com a cabeça apoiada em seu ombro para esconder um rosto já banhado de lágrimas.
"Astalder, Astalder..." Repetiu o elfo de cabelos prateados, com um sorriso triste entre suspiros de alívio e cansaço, enquanto embalava o neto devagar. "Tudo em você é força e determinação, não é? Tudo o que faz é de tirar nosso fôlego." Ele completou, soltando então um pequeno riso ao sentir o neto sorrir também por entre as lágrimas que ainda derramava.
Celebrian foi a próxima a se erguer de onde estava e ir ao encontro do pai. Ela deu alguns passos e ajoelhou-se diante dele, pousando a mão em seu joelho. Quando os olhos de Celeborn encontraram os dela, muito do que os havia separado já parecia extinto.
"Perdoe-me, ada..." Ela pediu, mesmo assim. "Eu errei em não lhe contar."
O lorde elfo moveu a mão direita, descendo os dedos pelos cachos da filha com atenção, a seriedade novamente em seu rosto. Elrohir moveu um pouco a cabeça no ombro do avô de modo a poder olhar para a mãe, mas não se afastou, a mão do avô ainda acariciava seu braço enquanto com a outra o lorde elfo sentia os anéis dos cabelos claros da filha em seus dedos.
"Está muito zangado comigo, não está?" A elfa ainda insistiu, mas já havia um sorriso provocativo querendo erguer-lhe o canto dos lábios.
"Estou muito zangado comigo mesmo." Ele disse em um tom sereno agora. "No futuro nunca mais quero estar envolvido demais com banalidades a ponto de não perceber que o caminho certo a tomar nem sempre é o mais lógico deles."
"Ada..." O sorriso da filha morreu e ela achegou-se mais, instintivamente, apoiando a cabeça no joelho do lorde elfo. "Nós fomos precipitados."
"Não, ield-nín. Você estava certa todo o tempo. Foi contra cada passo que dávamos, mas simplesmente ignoramos sua opinião. Como posso culpá-la por fazer o que fez?"
"Sim. Talvez Imladris estivesse nas mãos erradas. Talvez a senhora de Imladris tivesse sido mais capaz do que fora o seu senhor." Elrond observou, e não se intimidou quando a esposa estalou a língua, insatisfeita, depois lhe lançou um olhar severo. Havia verdade demais nas palavras do sogro para que ele negasse qualquer uma delas. Ele apenas baixou a cabeça diante da cena que via, por fim trocou um olhar sereno com o filho mais velho sentado próximo dele e satisfez-se por vê-lo sorrir da brincadeira.
"Imladris tem bons lideres." Círdan, que observara tudo calado e calando as sensações que aquela situação toda estava lhe despertando desde que começara, inseriu-se enfim na conversa da família. "Diga-me que voltará a conduzir aqueles perdidos, Elrond. É mais do que claro para mim que eles precisam de seu protetor. Você ainda tem mais a fazer por eles do que desviar vagamente o curso de um rio para escondê-los naquele vale."
Elrond voltou a baixar os olhos, pensativo, sentindo a atenção de todos sobre ele. Aquela não seria uma decisão difícil em outras circunstâncias, mas naquela, era complicada demais.
"A meu ver tenho feito escolhas em demasia ultimamente... Acho que esta não cabe a mim em particular." Ele disse então e seus olhos pousaram suaves na imagem do filho, ainda nos braços do avô. Elrohir encurvou as sobrancelhas. "Diga-me o que quer, ion-nín. Tenho uma proposta para vivermos em uma vila edain além da cordilheira rochosa a oeste de Eriador, as Ered Luin, e agora podemos também regressar à cidade do vale. O que deseja fazer? Onde se sentiria melhor, criança minha?"
Elrohir empalideceu, mesmo sem entender ao certo o que o pai queria de fato dele. Seu corpo se esfriou então de tal forma que o avô envolveu-o com ambos os braços, trazendo-o novamente para perto do peito.
"Seu pai tem razão, Astalder." Ele disse ao ouvido do menino, que fechou os olhos no mesmo instante, não sabendo o caminho que aquela conversa levaria, mas já sentindo que não seria bom. Ele balançou simplesmente a cabeça, mas o avô o apertou um pouco mais. "Menino, você cometeu um erro, é fato, mas o que aconteceu depois disso transformou sua terra em uma cidade que você quis deixar para trás por algum motivo. Não se sente mais bem lá, Astalder? É direito seu desejar ir para outra parte, não necessariamente para essa vila, mas para qualquer lugar, agora que estão livres da punição que lhes foi imposta."
Elrohir respirou fundo, voltando a balançar a cabeça. Dessa vez Elrond levantou-se e foi ele também se ajoelhar ao lado da esposa, diante do caçula. Ao ver o pai aproximar-se o menino fechou rapidamente os olhos, fugindo do que sabia ser esperado dele. Mas Elrond tocou-lhe com carinho em uma das pernas.
"Diga-me onde quer estar, ion-nín. Ninguém o questionará."
Mesmo com aquele tom apaziguador, Elrohir custou ainda alguns instantes para reabrir os olhos. Diante dele o pai aguardava por sua decisão. O pai que havia desistido de sua própria posição, de seu nome honrado, por ele. O pai que havia percorrido sozinho uma terra hostil para salvá-lo. O pai que havia enfrentado toda a espécie de perigos para que ele estivesse seguro.
Por ele... O pai que fizera tudo aquilo por ele. Agora deixava uma decisão daquela importância nas mãos dele...
"Onde quer estar, ion-nín?" Elrond indagou novamente, acariciando devagar a perna do menino, em seu rosto aquele mesmo sorriso assegurador que sempre fizera os filhos se sentirem protegidos.
Elrohir sentiu seu peito apertar-se até que parecesse só haver dor dentro dele. Só uma resposta lhe ocorria para aquela pergunta e ele apressou-se em oferecê-la como podia. Ele ergueu a mão esquerda e a apoiou por sobre o coração do pai, de seus olhos lágrimas voltavam a escorrer.
Elrond cobriu a mão do filho com a sua, seu sorriso paciente ainda no rosto.
"Aqui você estará sempre, criança amada minha." Ele compreendeu a resposta mais rapidamente do que o próprio filho imaginara. "Nada o tiraria daqui, nem que meu coração me fosse arrancado do peito."
Elrohir tornou a fechar os olhos então, sentindo-se em um redemoinho de emoções novamente, um redemoinho incontrolável que quase o enlouquecia. Tudo mudara tanto! Tudo mudara demais! Ele... Não queria que mais nada mudasse... Sim... Ele sabia o que queria. Sabia o que queria, por isso, quando deu por si havia se erguido, abandonado os braços do avô para praticamente atirar-se de joelhos e abraçar o pai.
Elrond o recebeu nos braços sem qualquer hesitação, embora não compreendesse bem aquela atitude. Como estava sendo difícil naqueles dias compreender o confuso e frágil coração do filho. Por isso ele permaneceu no chão como estava, com o gêmeo nos braços, acariciando-lhe os cabelos, embalando-o devagar e procurando lidar com o pranto que voltava a sacudir o corpo do menino, agora de forma mais angustiante do que antes.
Celebrian também descia os dedos pela face úmida do filho, oferecendo-lhe as palavras asseguradoras que lhe ocorriam. Logo Elladan também se aproximou mansamente e se agachou perto do irmão, apoiando uma das mãos por sobre a perna do gêmeo apenas para mostrar-se presente ali, ao alcance, para o que fosse preciso.
Para Círdan aquela cena pareceu ser demais. Jamais se vira em um jogo de guerra de tão difícil interpretação e finalização como aquele. Um jogo sem inimigos, sem oponentes claros, sem grandes exércitos, mas, mesmo assim, um jogo com tantas vítimas. Ele se ergueu em um impulso, afastando-se alguns passos, para depois parar onde estava, esfregar a barba com a mão direita e voltar-se para aquela família que não se assemelhara a nenhuma outra que já vira em sua existência. Apesar de toda a experiência, sua mente fervia agora em um turbilhão de informações e conclusões que ele custava a classificar. Há tempos não se sentia assim.
"A Cidade Portuária está aberta para vocês." Ele comunicou então, em seu tom solene e integro, logo após perceber que o menino cessara seu pranto e apenas mantinha o rosto apoiado no peito do pai e os olhos fechados.
Elrond olhou para o antigo amigo com respeito, mas Círdan lamentou o que viu no semblante do lorde de Imladris. As dores daquela jornada difícil mal haviam cicatrizado e aquela notícia, que até o momento os membros da caravana que chegara julgavam positiva, estava se convertendo em mais uma fonte de angústia para o já tão cansado curador.
"Seria uma grande honra tê-los em Mithlond, Elrond." Ele reforçou seu convite. "Com certeza meu povo aprenderia lições há muito esquecidas."
Elrond compreendeu aquelas palavras e as intenções positivas que estavam por trás delas. Ele encheu o peito então, buscando aproveitar daquela energia positiva como podia, daquela certeza, da ajuda que agora sentia dispor, da ajuda da qual, mesmo desejando negar, precisava ter. Olhou depois para o filho em seus braços, cuja cabeça continuava encostada em seu peito. A seu lado a esposa e o primogênito também só tinham olhos para aquela tristeza do jovem elfo que parecia não ter fim, por mais que, em algumas vezes, o menino tentasse escondê-la ou disfarçá-la.
O que fazer? O que fazer? O curador se indagava agora, retribuindo o olhar do amigo dos portos. Certas decisões eram tão difíceis quanto encaminhar um exército de inocentes para uma batalha, cuja certeza de vitória não é tão grande quanto se deseja.
E quantas vezes já o fizera? De quantas batalhas já participara? Quantas perdas tivera? Quantas ainda esperavam por ele?
Elrond soltou um suspiro conformado, depois pousou a mão por sobre o rosto do filho, em mais um sinal de proteção;
"A honra será nossa, mellon-nín. A cidade portuária é um lugar muito belo e cheio de boas perspectivas." Ele disse as palavras esperadas dele, por mais que lhe doessem. Deixar para trás sua terra em definitivo talvez fosse o que lhe restava fazer.
Mas nem bem terminara sua sentença Elrond sentiu o filho voltar a inquietar-se em seus braços, balançando angustiado a cabeça.
"O que se passa, ion-nín? O que ainda incomoda seu coração, criança minha?" Ele ainda indagou antes de sentir a mão esquerda do rapaz voltar a apoiar-se no peito do pai. O curador envergou o cenho sem entender. Elbereth, aquele voto de silêncio era cruel. Ele ainda deixou-se ficar preso nas órbitas escurecidas e brilhantes do filho, mas nada quase conseguia ler nelas, por fim envergou um pouco o corpo e apoiou a palma no rosto do filho. Em sua garganta uma pergunta incomodava como se tivesse vida própria e Elrond decidiu fazê-la, mesmo temendo o resultado que receberia como reação a ela.
"Quer... Quer voltar a Imladris, criança? É isso?" Ele arriscou.
Os olhos do menino brilharam ainda mais então e ele moveu a cabeça em uma afirmativa que haveria roubado o chão do pai se ele já não estivesse sentado. Elrond sentiu o queixo amolecer, mas mesmo diante da surpresa daquele pequeno aceno positivo, seu coração se inquietou.
"Criança minha... Não está tomando tal decisão por mim, está? Sabe que já estive em muitos lugares e..." Ele tentou explicar, mas o gêmeo apressou-se em balançar negativamente a cabeça. No entanto foi o gesto seguinte dele que surpreendentemente, quase parou o coração do curador, fazendo-o acreditar em uma idéia que há tempos já abandonara: Elrohir apoiou a mão no próprio peito, por sobre o coração.
Ele queria voltar a Imladris. Elrohir queria voltar à sua terra.
O gêmeo mais novo sentiu seu corpo estremecer outra vez, e os braços de Elrond reforçaram sua presença à volta dele. Estava sentado de lado, a cabeça encostada no peito do pai, ouvindo o tom agradável do coração dele, sentindo o cheiro de ervas que impregnava as vestes dele e que aprendera a apreciar, pelo menos naquela circunstância. A mão do curador desceu por seus cabelos, como se percebesse a necessidade daquele toque e Elrohir enfim suspirou, relaxando novamente o corpo.
"Durma... Apenas durma mais um pouco... Mais alguns cantares apenas, criança minha."
Sim. Dormir, apenas dormir. O que tinha e podia ser resolvido já fora feito... o resto que viesse se tivesse que vir, ou que não viesse, que, de preferência, nada mais viesse, nada mais acontecesse...
