Olá. Espero que todos estejam bem.
Essa é a segunda parte do capítulo anterior que acabei por dividir. Meu maior anseio é que, depois de lê-la, vocês concordem com a divisão. Estas cenas abaixo estão entre as que foram mais modificadas, recortadas, coladas, rearranjadas. Foi um capítulo difícil porque, além dos momentos de tensão também há trechos descritivos para os quais eu não sei se tenho tanta habilidade quanto gostaria. Baseie toda a geografia que descrevo nos detalhamentos da Sociedade do Anel. Tomara que o trabalho final esteja, pelo menos, compreensível.
Estou feliz com esse capítulo apesar das intempéries. Espero que também gostem. Quero muito saber a opinião dos que estão acompanhando e aproveito para agradecer as reviews gentis dos bons amigos.
Muito beijos.
Sadie
CAPÍTULO XVI – O ÁRDUO RUMO CERTO
"O passado é que veio até mim, como uma nuvem, vem para ser reconhecido; apenas não estou sabendo decifrá-lo."
João Guimarães Rosa
Quando Elrohir cruzara aquele caminho pela primeira vez, não tivera tempo, nem condições físicas, para apreciar os traços sutis das imagens que compunham o cenário da jornada que tomara para si. Agora que a Colina de Bri crescia ao norte, e o sol revelava os detalhes, outrora ocultos pela noite chuvosa de sua primeira visita, o gêmeo sorvia cada um daqueles enigmas desvendados, como quem pincela os traços finais de um quadro abandonado por muito tempo.
Havia se recuperado bem até agora, mas o pai ainda o mantinha à sua frente na montaria, as mãos segurando-o sempre com firmeza. Em relação àquilo, entretanto, o jovem elfo não tinha qualquer objeção. Depois de tanto tempo apartado do curador, nutrindo toda a sorte de pensamentos pessimistas em relação ao futuro do relacionamento de ambos, tudo o que Elrohir mais desejava era que Elrond nunca mais se afastasse dele, era senti-lo ali ao alcance da mão e, melhor do que isso, era saber que o pai desejava o mesmo.
Chegaram ao Portão Sul em silêncio e por ele passaram ainda sem nada além de pequenos olhares e pensamentos distantes. A Grande Estrada do Leste continuava por alguns quilômetros, seguindo o rumo dos muitos anos daquele caminho. Ela se encurvava suavemente para a esquerda, refazia-se um pouco adiante, seguindo a leste, depois contornava o flanco da Colina Bri para só então iniciar uma nova descida, quase imperceptível, em direção a uma região habitada por muito mais árvores.
Depois do caminho feito, deixaram para trás, por fim, a alta Colina, já quase tomada pela escuridão. Elrohir voltou a sentir a cabeça pesar. Os remédios que tomava o deixavam sempre com a sensação de uma noite ainda a dormir. Aquilo o estava começando a irritar. Ele sentiu a cabeça cair uma, duas e três vezes, até perceber o corpo do pai sacudir-se em um pequeno riso.
"Por que não dorme ao invés de lutar contra o sono, criança?" Elrond disse então, apoiando a palma na testa do filho para encostar a cabeça dele em seu ombro e poder olhá-lo um pouco. O menino já recuperara peso e energia visivelmente e, talvez por isso, desviou os olhos em sua primeira atitude mal humorada em muito tempo. Aquilo despertou mais um riso no pai, que se limitou a beijar-lhe o rosto e cobrir-lhe os olhos. "Durma. Vamos tentar acampar em breve."
O gêmeo se viu obedecendo: que outra escolha teria? Aquele chacoalhar incessante, aquela clima sempre mais frio do que poderia ser sensato, a sensação de segurança dos braços do pai, tudo parecia fazê-lo fechar os olhos, mesmo desejando mantê-los abertos.
Quando chegaram a uma trilha estreita que levava ao Norte, Celeborn olhou o céu acima, depois percorreu os detalhes da estrada vazia, para por fim se prender a um pequeno vale arborizado e já igualmente escurecido.
"Estamos em um bom momento para acamparmos." Ele observou, erguendo o queixo naquela direção. "Pela manhã podemos fazer o caminho que leva à aldeia do norte e seguir pelas terras vazias por alguns dias."
"Archet e depois o Topo do Vento?" Elrond deduziu, emparelhando seu cavalo ao do sogro.
"Por que não continuamos pela estrada?" Foi Celebrian quem indagou antes mesmo da resposta do elfo de cabelos prateados. Ela parecia um tanto desagradada.
"Acho que seu pai intenciona passar pelo Pântano dos Mosquitos." Arriscou a resposta o curador, reconhecendo o caminho que fizera em sua vinda.
A elfa estalou imediatamente a língua, bastante insatisfeita agora, na verdade já tinha chegado antes do marido à mesma conclusão.
"Não sei não. Eu prefiro seguir a Estrada ao sul, o caminho é mais longo, mas, com certeza, bem mais agradável." Ela comentou contrariada. Alguma coisa a estava incomodando demais naquela idéia de passar pelos Pântanos novamente, mas a elfa não sabia dizer o que era. "Estamos à cavalo, não precisamos de atalhos para encurtar o caminho, precisamos?"
"É uma volta desnecessária. Tempo perdido para um grupo já bastante cansado." Celeborn observou, olhando a filha com carinho. "Não deseja voltar a sua terra o quanto antes, ield-nín?"
Celebrian torceu os lábios, mas engoliu a insatisfação em silêncio. Ela conhecia aquele olhar do pai. Ele jamais mudaria. Quando em grupo pedia a opinião dos demais por pura diplomacia, mas por fim acabava por seguir seus próprios instintos. Não seria diferente daquela vez. Nem bem havia pedido desculpas por não a ter escutado e já estava lá novamente, ignorando sua opinião a respeito do trajeto que fariam. A elfa balançou sutilmente a cabeça, depois tudo o que fez foi checar o filho atrás dela, que encostara o rosto em suas costas e amolecera ligeiramente o corpo, afrouxando o abraço com o qual se segurava na cintura da mãe.
"Não durma ainda, El-nín." Ela pediu, mesmo julgando que o filho estava apenas relaxando um pouco. Elladan raramente dormira durante a viagem. "Logo vamos acampar, querido, está bem?"
Elladan reabriu os olhos em tempo de ver o cavalo alvo do avô tomar o rumo em direção aum monte de árvores, seguido de alguns de seus elfos. O gêmeo apenas assentiu, voltando a avigorar a força dos braços que envolviam a cintura da mãe, para garantir a ela que entendera o recado.
&&&
No dia seguinte o sol brilhava e, apesar do inverno presente, a mata estava preenchida por folhas de diferentes cores, parecia reinar ali um sentimento de paz e brandura. O grupo seguia por atalhos estreitos e conhecidos, nos quais o único som da mata era o cantar dos pássaros. Ao término da última trilha, começaram a rumar por um caminho em direção ao leste e dele não saíram até se verem, por fim, fora da Floresta Chet.
Havia decorrido mais meio dia de viagem e Elrohir agora estalava os lábios em uma visível inquietação. Elrond não custou a perceber o que estava incomodando o filho caçula, que esfregava avidamente os olhos e o rosto.
"Precisa dormir, criança." Ele traduziu o desconforto do gêmeo. Desde que saíram estava literalmente mantendo o caçula adormecido de forma proposital. Era fato que os ferimentos do menino ainda estavam longe de uma cicatrização efetiva, mas algo ainda preocupava aquele pai, além das feridas que podiam ser vistas e avaliadas. Refaziam o mesmo trajeto que o menino fizera, um trajeto cheio de lembranças cujo valor e significado Elrond não podia avaliar. Por isso o curador decidira tentar evitar, sempre que pudesse, por em risco a lenta recuperação do filho.
Elrohir, por sua vez, quando conseguia sentir-se desperto, já começava a questionar-se sobre a necessidade constante daquele sono de recuperação que o pai lhe impunha. Mas ele era o único que parecia disposto a questionar as decisões do curador. Os demais não proferiam comentário algum, muito pelo contrário, tanto a mãe, quanto o avô ofereciam palavras de incentivo ao sonolento gêmeo sempre que este se mostrava aborrecido como naquele momento. De certa forma, era como se todos compartilhassem de um mesmo temor, mesmo não conseguindo classificá-lo.
"Quer vir cavalgar um pouco com seu avô, Astalder?" Celeborn voltou a emparelhar o cavalo com o do genro, tomando a iniciativa de ser o apaziguador dos ânimos do menino dessa vez. "Assim seu pai pode voltar a sentir os braços novamente."
Elrond sorriu com a brincadeira, mas Elrohir apenas uniu os lábios em uma faceta de insatisfação que lhe era característica. Não porque ele não quisesse cavalgar com o avô, mas sim porque sentia que adormeceria novamente e nem ficara desperto tempo bastante para conseguir saber onde estava. Na próxima vez que o pai viesse oferecer-lhe qualquer medicamento ele se recusaria a tomar. Até a dor dos ferimentos recém-fechados era melhor do que aquele eterno não saber onde se está.
Celeborn recebeu o neto com um sorriso, quando este ergueu os braços aceitando a proposta. Era bom saber que Elrohir não tinha mais qualquer restrição quanto a estar com ele. O avô o colocou de lado no cavalo, permitindo que o menino encostasse a cabeça em seu peito e sorrindo ao senti-lo soltar mais um suspiro de insatisfação antes de adormecer.
&&&
Depois de mais algum tempo de cavalgada, o grupo caiu em um terreno que descia continuamente. Era um caminho bem mais íngreme do que o outro que tomaram quando saíram da Estrada, e agora entravam numa região ampla e plana, mas cuja travessia ficava cada vez mais difícil aos animais. Era um lugar deserto e sem trilhas, bem mais distante das fronteiras de Bri do que os gêmeos, em sua inexperiência, julgavam, e bem mais próximo do Pântano dos Mosquitos do que os adultos desejavam.
Pouco a pouco o solo foi se tornando mais e mais úmido, lamaroso em algumas partes. Poças se formavam em lugares alternados, e eles começaram a se deparar com grandes trechos de juncos que dificultavam a passagem dos cavalos.
"Não me lembro desse lugar ser de travessia tão difícil." Celebrian observou, lembrando-se que Roquen deixara o pântano para trás com quase a mesma rapidez com que vencera os caminhos atrás e depois daquele.
Elrond soltou um suspiro fraco. Mistério. Era o sobrenome apropriado para algumas daquelas passagens, e o entardecer somava a elas uma sensação ainda mais densa.
Aquele pântano era mórbido demais até mesmo para Celeborn, que já vira toda espécie de criação que a canção dos Valar convertera em imagens sólidas. Até mesmo o entardecer rosa, que os acompanhara até então, fora tragado por aquela névoa espessa e emudecido pelo som do caminhar difícil dos cascos dos animais naquela água rasa e lodosa. Elrohir continuava a dormir nos braços do avô, fechara os olhos nem bem haviam saído da Floresta Chet e não parecera propenso a despertar desde então.
"Que lugar horrível." Celebrian queixou-se para si mesma outra vez, puxando um pouco mais o capuz para proteger-se dos insetos que habitavam aquele anoitecer.
Celeborn puxou também um pouco mais o manto do neto para que os insetos não o despertassem.
"É a mais próxima tradução para a palavra inóspito que já tive a oportunidade de ver" O lorde elfo comentou, protegendo-se igualmente.
"Pois eu abriria mão dessa oportunidade sem pestanejar." Soou a voz risonha de Celebrian e os demais elfos se puseram a rir mesmo naquela situação.
No início o bom humor até lhes fez companhia, mas depois, à medida que continuavam, a travessia foi se tornando lenta. O pântano parecia mais enganador e traiçoeiro do que na vinda, talvez porque a chuva houvesse diminuído, transformando o solo, que agora exibia um terreno cheio de armadilhas. Era como se os charcos fossem mais do que na verdade pareciam ser.
"Se não agilizarmos o passo seremos obrigados a acampar nessa região." Elrond advertiu, olhando atentamente para o terreno que percorria.
"Pela doce Yavanna. Tudo menos isso." Celebrian puxou mais o capuz, sentindo o rosto de Elladan apertar-se em suas costas para proteger-se também. "Não havia tantas dessas criaturas quando passei por aqui." Ela comentou, abanando inutilmente a mão em uma verdadeira nuvem de mosquitos que cercava seu animal.
"Chovia, por certo." Elrond arriscou.
"Para você ver, meleth-nín. Há coisas piores do que a chuva." Ela insinuou com um raro sorriso seu desde que entraram naquele lugar úmido e frio. O marido retribuiu o sorriso, abanando, conformado, a cabeça com a pequena provocação.
Infelizmente a travessia, dificultada pelo terreno arredio e pela inacreditável disposição dos insetos em tentar a todo custo experimentar o sabor daqueles elfos, atrasou o passo da comitiva e o grupo acabou por ver a noite cair devagar sem ter conseguido sair daquele ambiente nada acolhedor. Conforme a luz desaparecia, cresciam outros ruídos de seres noturnos que se instalavam nos juncos e moitas, produzindo os mais estranhos sons.
"Vamos ter que acampar." Elrond soltou os ombros, como se atingido duramente pela própria ideia, que, de tão desagradável, indispôs os demais a qualquer resposta. Celeborn só começou a olhar a volta, igualmente conformado, buscando um lugar no mínimo sólido o bastante para passarem a noite e poderem fazer uma fogueira. Alguns elfos espalharam-se um pouco, fazendo o mesmo.
"Aqui, meu senhor." Um disse ao longe, trazendo o olhar de todos para uma pequena elevação que roubava, em poucos metros, a cena das águas lamacentas do pântano. O lorde elfo ainda trocou um olhar resignado com o genro, antes de incentivar o cavalo a ir naquela direção.
Elrond esperou a montaria da esposa passar primeiro, depois seguiu atrás dela, olhando para aquele chão atentamente. A ausência de chuva havia, de fato, transformado bastante o solo desde sua última passagem, no entanto algo parecia familiar naquele trecho em especial. Ele parou um instante, fazendo Durion dar uma pequena meia volta no mesmo lugar antes de ouvir a voz da esposa chamá-lo.
"Elrond? O que foi, meleth-nín?"
"Nada, Estrela." Ele respondeu, distraído, enquanto os olhos percorriam pequenos montes de areia e lama que surgiam aqui e ali na água escura e vasculhava seus próprios pensamentos, atrás da imagem à qual sua mente estava tentando ligá-los.
Tal imagem não custou a chegar, embora, depois, o curador se arrependesse por tê-la buscado...
Parcialmente submergido em um charco próximo, um corpo em boa parte deteriorado jazia em uma poça escura. Elrond reconheceu o cadáver que vira na vinda, ao qual a aflição lhe impedira de dar o devido sepultamento. Ele achegou o animal alguns passos, pensativo, mas logo um som sobressaltou-o.
"Elrohir!" Era a voz de Celeborn. Elrond voltou-se em tempo de ver o filho saltando do cavalo do avô e caindo naquela água escura, apenas para reerguer-se e afastar-se do grupo.
"Elrohir!" Ele também chamou, erguendo uma palma para acalmar o filho, cujos olhos redondos encaravam seus arredores como quem se sente em um lugar assustador. O gêmeo não atendeu aos apelos, nem do pai, nem do avô. Muito pelo contrário, ele continuou afastando-se deles com o olhar vasculhando a paisagem à sua volta. Celebrian fez menção de descer do cavalo, mas foi contida por um movimento de advertência do marido que já estava no chão. Ela permaneceu então onde estava, impedindo também o filho mais velho de apear.
A noite era plena agora, e a escuridão aplacava-se apenas pelas tochas que os soldados carregavam. Mas não era o anoitecer, nem tampouco o lugar estranho que parecia assustar o jovem elfo. Elrohir agia como se desperto de um pesadelo. Na verdade estava. Abrira os olhos em tempo de, assim como o pai, reconhecer o lugar pelo qual passara, porém, também como o pai, ele tinha uma recordação presa àquelas águas lamacentas, uma recordação difícil, que seu inconsciente lhe escondera até então, parecendo apenas esperar para arremessá-lo nela exatamente naquele momento.
"Tudo bem, criança." Elrond tentou se aproximar, enquanto o filho ziguezagueava confuso buscando evitar ser apanhado. A água escura atingia-lhe quase na altura dos joelhos. Celeborn também estava no chão, chamando pelo nome do neto com a mesma paciência.
"Esta água fria não trará benefício algum para seus ferimentos, Astalder." Dizia o avô em tom sereno, parando depois de duas tentativas frustradas de se aproximar. Não queria achegar-se de forma forçosa do neto. Ele fez apenas um sinal de cabeça aos elfos e todos compreenderam bem, tomando algumas posições protetoras.
Os olhos de Elrohir, já não acompanhavam mais as atitudes daqueles à sua volta, eles permaneciam fixos na imagem daquelas águas escuras como se atrás elas estivessem para lhe revelar algum segredo. Na verdade buscava, mesmo sem saber, por uma resposta, uma resposta que parecia deveras importante.
Elrond, que também desistira de tentar conter o filho, acompanhava seus movimentos atentamente, tentando desvendar aquele mistério. Os receios e preocupações que lhe ocorreram em sua primeira passagem por aquela região, no entanto, já teimavam em oferecer-lhe indigestas sugestões de resposta para aquela incessante busca do filho. O lorde elfo acabou por ceder a uma delas, torcendo para que estivesse certo e ao menos aquele impasse se resolvesse..
"Aqui, menino." Ele disse, puxando devagar a adaga que trazia presa na cintura, sua própria arma que encontrara no pântano recentemente "É o que procura? Está aqui. Eu a encontrei quando passei por esse chão em minha vinda. Não precisa se preocupar mais."
Elrohir focou imediatamente um par de olhos ansiosos na arma brilhante, mas ao invés da imagem trazer-lhe o alívio que o pai esperava, o rosto do jovem elfo foi ganhando mais e mais palidez até que, por fim, ele arredondou os olhos, parecendo encontrar a recordação que perdera e pela qual buscava avidamente. Ele ainda encarou o pai, mas seu rosto voltou a se converter em uma expressão de agonia quase insuportável.
"Está tudo bem agora, criança... Seja qual for a lembrança que está em sua mente, ela já ficou para trás. Não pense mais nisso." Elrond ainda disse, buscando não conjeturar sobre a cena do passado que desconhecia, mas que parecia estar agora se mostrando um empecilho bastante preocupante. Os olhos do filho moveram-se insatisfeitos e ele ainda sacudiu a cabeça com força antes de atirar-se em uma nova busca, que parecia mais terrível do que a primeira, o pai se preocupou.
Não custou, infelizmente, para que a atenção de Elrohir fosse atraída para um lugar que seu subconsciente por certo retivera, e ele encontrasse a mesma imagem que o pai também distinguira na escuridão. Naquele instante o brilho do menino diminuiu de tal forma que Elrond começou a temer que aquela história ainda tivesse sido pior do que ele havia imaginado.
"Não, criança..." Ele ergueu uma mão para tentar impedir o filho de se aproximar. "Este homem se foi... Há ali apenas um corpo que necessita de sepultamento devido. Não vá até lá."
Mesmo assim Elrohir deu alguns passos, no entanto não foi adiante, não pelo pedido do pai, mas porque suas pernas simplesmente não permitiram. A imagem era nítida demais, o corpo decapitado jogado de bruços, a cabeça desaparecida. Elbereth, aquele homem estava mesmo ali... Ele se lembrava. Não havia sido um sonho. Mas, por que aquele homem estava ali? Quem fizera aquilo?
"Elrohir..." Ele ainda ouviu o pai chamá-lo e percebeu que a voz estava mais próxima, logo a mão dele estava em seu ombro, enquanto outra envolvia sutilmente seu braço, bem por sobre o ferimento embalado. Aquele ato em si, a pequena dor do contato, foi o bastante para trazer de volta as recordações por inteiro.
Era um adán, um adán de pele queimada pelo sol e barba castanha bastante encardida... Vários dentes lhe faltavam, outros tinham um brilho estranho... Era um adán e o ameaçara...
"Seu molequinho desgraçado! Por que não desiste de uma vez? Eu só quero a arma, não me faça deixar o seu corpo aqui para o seu pai encontrar boiando nesse pântano nojento."
Ele queria a espada... Mas ele não podia deixá-lo levá-la... Não podia...
A mão do pai segurava agora seu braço, bem por sobre o ferimento que ganhara. Não fora bastante rápido. Deixara-se atingir... Ainda doía... Ainda doía quase como naquele dia...
"Está doendo, não está? Imagine como vai ser quando eu o acertar bem no coração? Acha que vai doer também? Acha que vai morrer na hora?"
Era um adán e avançara sobre ele. Dissera coisas... Provocações...
"Vejam só. Achei que elfos não eram ladrões. Vai ver que nem são e morreriam de vergonha se soubessem que um deles faz isso."
Ele reagira... Como?
"Morreriam de vergonha..."
A espada... Ele a segurara... Ele a empunhara firmemente. Ele a manchara de sangue...
Elbereth... Ele... Ele..
Mas foi em sua defesa... O adán... Ele queria...
"Morreriam de vergonha..."
A espada...
Ele queria... a maldita espada...
"Morreriam de vergonha se soubessem que um deles faz isso."
Sangue vermelho... escorrendo por ela mansamente, o metal mais escuro do que nunca...
"Morreriam de vergonha se soubessem que um deles faz isso."
Fora ele... Fora ele... Ele fizera aquilo. Ilúvatar... Ele... Ele tirara a vida de alguém... Não de um orc... Não de um lobisomem... Ele tirara a vida de um adán... Matar um adán era como matar um elfo... Isso Glorfindel sempre lhe dissera... Isso seu próprio pai sempre lhe dissera... Isso todos lhe disseram...
Não... De novo não... Como podia errar assim constantemente? Mal havia conseguido um perdão e... Descobrira que ainda havia mais pelo que ser condenado... Coisas horríveis pelas quais não podia ser perdoado... Pelas quais nem sabia se queria ser perdoado...
Por quê? Por que não apanhara aquela maldita espada e fizera com ela o mesmo que Túrin Turambar fizera? Ela transpassaria seu corpo com certeza sem sofrer qualquer dano... sem problema algum... e eles estariam livres dele... estariam todos livres dele...
"Ion-nín, ouça-me, ouça-me, criança minha." Ele ouviu a voz do pai agora e não estava apenas ali, presente, diante dele. Estava em sua mente. Elrohir despertou em um estalo, sentindo aquela presença e encontrou-se preso em um par de olhos acinzentados que o olhavam profundamente como nunca haviam feito antes.
Ilúvatar... O pai vira... O pai vira o que ele fizera.
"Elrohir." A voz soou outra vez, agora mais distante. "Olhe para mim, menino meu. Olhe para mim. Ouça a minha voz, criança. Confie em mim. Vai ficar tudo bem."
Confie em mim... Não... O pai sempre dizia isso... Aquela frase... Aquela certeza. Não. Não. Não... Ele sabia o que o pai ia fazer agora... O pai ia protegê-lo... Ia protegê-lo com fizera antes... Ia sacrificar-se... Ia impedir que o castigassem novamente.
Não. Não. Não...
Ele tinha que ser castigado. Ele queria ser castigado. Ele queria desaparecer. Desaparecer!
Elrohir começou a balançar a cabeça então, sua respiração acelerou-se, convertendo-se no único som que surgia de sua garganta, embora outros muitos sons, sons de desespero, sons de angústia extrema, se enfileirassem ali como se ele não os fosse conseguir conter. Ele passou a tentar soltar-se agora dos braços que o prendiam, mas Elrond continuou a segurá-lo, chamando por seu nome, buscando acalmá-lo. Logo Celeborn uniu-se ao genro. Ele segurou o neto pelas costas, envolvendo-o com os braços para tentar contê-lo sem agravar-lhe os ferimentos. O curador, uma vez com as mãos livres, tomou o rosto do filho entre as palmas, tentando obrigá-lo a olhar para ele, tentando retomar o contato que perdera, fazê-lo voltar a si.
"Elrohir. Ion-nín. Olhe para mim. Ouça-me, criança." Dizia agora o curador, a própria voz parcialmente presa na garganta.
A cena que vira... Ilúvatar aquilo pelo que o menino passara... Aquilo não podia ter acontecido... Não. Não podia. Não podia ter acontecido a alguém tão jovem... Elbereth, por que não chegara a tempo? Por que não fora ele a dar uma lição àquele oportunista, uma lição que ele não esqueceria nunca mais.
Elrond ainda tentou chamar o filho mais algumas vezes, mas o desespero daquela lembrança revivida, do peso de uma nova culpa que ele julgava ter nos ombros, estava roubando a sensatez do menino, atirando-o em um poço tão fundo e desesperador que até para Celeborn estava difícil segurá-lo sem agravar-lhe os ferimentos. Elrond pressionou os lábios, preocupado demais, por fim cobriu os olhos do filho com a mão direita e disse algumas poucas palavras quase inaudíveis, antes do corpo do rapaz amolecer nos braços do avô.
"Ilúvatar." Celeborn apressou-se em erguer o neto nos braços, retirando-o daquela água fria e escura. "Que sequência triste de infortúnios foi essa, Elrond?" Ele indagou, embalando sutilmente agora o menino.
O elfo moreno soltou a cabeça para frente como se pesasse demais e largou o ar do peito de forma tão profunda que pareceu que ele estava usando toda a sua força para isso.
"Que meus erros nunca mais deixem a qualquer um em uma situação como esta... É o que peço." Ele disse. A voz embargada era quase um sussurro. "E que não haja cicatrizes desses ferimentos tão profundos."
Celeborn não respondeu, mas os dois lordes elfos se olharam e no rosto de cada um o outro pôde ver a própria angústia refletida. Celebrian aproximou-se com o cavalo então e ergueu os braços. O pai da elfa atendeu ao pedido implícito da filha, achegando-se e deixando-a segurar o caçula.
Quando o corpo frio do menino chegou aos braços da mãe, Celebrian não se importou com o lugar no qual estava, ela apenas o abraçou forte e rompeu em um choro contido, entrecortado apenas pelas palavras doces que buscava dizer ao filho em seus braços.
"Tudo bem, meu guerreirinho." Ela tentava garantir em tom embargado ao ouvido do menino, finas lágrimas escorriam pelo rosto pálido da elfa enquanto ela cobria o rosto do filho desacordado de beijos. "Vai ficar tudo bem, meu menininho corajoso, meu menininho querido..."
O abraço de Elladan na cintura dela se intensificou então, quando o menino sentiu a pranto da mãe. Celebrian soltou uma das mãos para segurar a do primogênito, enquanto Elrond aproximou-se em silêncio, ainda a pé, e conduziu o cavalo da esposa com a família para o lugar que haviam escolhido para pousarem, pelo menos por algumas horas.
De toda aquela tristeza, restaram apenas o silêncio e aquele cheiro característico do pântano, um odor de desventura que a brisa levava e trazia provocativamente, agravado agora pela putrefação daquele cadáver, cuja história pessoal poucos desejavam conhecer.
Mesmo assim, ao morto foi dado enfim o devido sepultamento. E Elrond ainda proferiu algumas palavras aos Valar, pedindo pela paz daquele indivíduo que desconhecia e desejando a ele o perdão, se deste o outro houvesse necessidade. Por fim, em meio à amargura daquele dia difícil, que terminara mais difícil ainda, os soldados dispuseram seus horários de guarda e alguns deles fizeram uma fogueira e providenciaram o que comer, embora da família que conduziam e protegiam ninguém se houvesse disposto a fazer qualquer refeição.
Por fim o acampamento foi quase inútil, mas por segurança os elfos da comitiva o fizeram mesmo assim. Repouso nenhum deles encontrou, exceto os gêmeos, a quem o pai providenciou descanso, abrigou e protegeu como pôde dos incômodos seres noturnos. Elrohir e Elladan dormiram lado a lado por sob um abrigo improvisado com capas e galhos. Os demais se dispuseram à volta de uma fogueira igualmente protegida, mas que não os poupou de passaram quase toda a madrugada movendo as mãos inutilmente para espantar os indesejáveis e desagradáveis insetos do pântano.
&&&
O sol pleno do novo dia já encontrou os elfos em sua segunda hora de cavalgada e foi ele a despertar o gêmeo mais novo. Por estar sentado novamente nos braços do pai, a presença deste foi a primeira coisa que o menino sentiu, e foi o bastante para fazê-lo desejar não abrir os olhos. Mas logo a mão do curador estava em seu rosto, acariciando-o brandamente. Não havia como enganá-lo, isso Elrohir sempre soubera.
"Logo sairemos do pântano." Ele o ouviu dizer a seu ouvido, mas não reergueu as pálpebras. "Não precisa despertar agora, tente voltar a dormir, ion-nín."
Elrohir encheu o peito de ar, a lembrança latente do que ocorrera na véspera infelizmente semeara e dera frutos terríveis em seus inúmeros pesadelos noturnos. Agora desperto, ele nem queria cogitar a hipótese de voltar a dormir, mas também não se sentia disposto o bastante para encarar a realidade do que lembrava ter feito. Elbereth, havia um adán morto no pântano... E ele... Ele era o responsável por aquilo.O que ia acontecer agora? O que seria dele? Como poderia se redimir dessa vez? Como poderia compensar o que havia feito?
"Shh, não pense nisso." Ele ouviu a voz do pai novamente, deduzindo seus pensamentos e dores como o curador inigualável que sempre fora, os lábios dele quase em seu ouvido, os dedos enxugando as lágrimas do rosto do filho.
A voz do pai. Como ele gostava de ouvir a voz do pai, aquele tom que somente ela tinha, tal qual a brisa leve nas folhas verdes da primavera. Fora ela a última coisa que ele se lembrava de ter ouvido na véspera, quando aquela imagem do passado lhe viera fazer ver a gravidade de que havia feito. Ele devia ter partido, devia ter fugido... Mas não conseguira. O que tinha acontecido depois? Ele não se lembrava, nem sabia se queria de fato se lembrar.
Elrohir abriu os olhos mansamente e a luz repentina o fez deixar as pálpebras semiabertas. Depois, uma vez habituado à claridade mesmo acinzentada do dia ainda no pântano, ele viu o semblante do pai. Houve um pequeno silêncio entre eles então, que foi Elrond quem rompeu, percebendo, por fim, que havia um assunto urgente demais para ser tratado em outra oportunidade.
"Existe toda a espécie de caráter em qualquer raça, ion-nín." Disse-lhe o curador olhando-o atentamente nos olhos. "E também é direito do membro de qualquer raça se defender e defender os seus." Completou, bastante sério, depois pressionou os lábios juntos e balançou suavemente a cabeça como se apenas lembrar o que havia ocorrido com o filho já o angustiasse a extremo.
Elrohir prendeu o ar no peito e mais algumas lágrimas caíram de seus olhos, mas ele apenas assentiu com a cabeça. Teria que lidar com aquilo que tinha feito, não importava a gravidade que tivesse. Não queria mais ver o pai tão preocupado. Elrond tornou a enxugar-lhe o rosto, ainda bastante sério.
"Sabe de quantos edain seu pai já tirou a vida?" A pergunta surpreendeu o filho, que empalideceu mesmo antes de pensar que aquele era um questionamento, logo havia uma resposta para ele. Mas Elrond permaneceu sereno, como era seu semblante quase a maior parte do tempo. Ele apenas acariciou brandamente o peito do filho, depois deixou a palma pousada sobre o coração deste. "Muitos ion-nín, e em nenhuma dessas mortes ele teve prazer, nem por elas aguardou. O único consolo que restou a ele, e espero que este lhe amenize o peso do coração igualmente, é que em nenhuma dessas vezes ele foi o primeiro a erguer a arma ou o fez apenas com o propósito de levar a vida de alguém."
Elrohir piscou algumas vezes, olhando o pai de uma forma que nunca havia olhado antes e imaginando por que ele lhe contava aquela história em terceira pessoa como estava fazendo. Foi quando concluiu que talvez fosse porque aquela experiência tivesse sido tão triste que nem mesmo o pai, cujo conhecimento de vida e morte superava o de muitos, tinha forças para associá-la a seu próprio nome, para usar a palavra "eu".
"Eu fiz isso... Eu fiz isso..." Elrohir tentou dizê-lo mentalmente, mas a palavra "isso" pareceu ser insubstituível e ele percebeu a força terrível que as expressões "matar", "assassinar", "tirar ou roubar a vida" tinham, uma vez associadas àquele pronome pessoal.
"São as dores do coração de um guerreiro, criança." Elrond disse paciente, mas seu tom era tão triste quanto aquela paisagem da qual custavam a sair. "Tem por seu pai menos amor agora que sabe dessa verdade que lhe disse, criança?"
Elrohir sacudiu a cabeça urgentemente, surpreso com o questionamento.
"Acha que seu pai carrega nas costas alguma maldição e deve ser desprezado pelo que fez, ion-nín?" Elrond insistiu e seus lábios esboçaram um pequeno sorriso quando o filho voltou a sacudir negativamente a cabeça.
E mais nenhuma pergunta aquele pai fez ao filho nos instantes que se passaram, mas os olhares de ambos ainda ficaram ali entre a imagem que viam e as inúmeras outras que aquele assunto lhes tinha despertado. Elrohir por fim baixou os olhos, então moveu o braço para a volta do pai e o abraçou. Elrond reforçou, ele também, o abraço que já oferecia então e beijou o rosto do menino com carinho. Havia aquela sensação de um espinho recém-retirado, aquele sentimento de perpétua incredulidade na ausência do que fazia tanto mal. Mas depois Elrond satisfez-se por sentir o corpo do filho relaxar por vontade própria, como até então não havia feito e o menino voltou a fechar os olhos, também por vontade própria e escorregar para um mundo de sonhos que todos esperavam ser melhor do que os outros que vinha visitando até então.
&&&
Depois de quase meio dia de caminhada, a comitiva deixou as últimas poças e a paisagem triste dos pântanos para trás e caiu em uma das melhores trilhas desde que haviam saído da estrada principal. O caminho mergulhava tênue pelos estreitos e circundava barrancos íngremes sem oferecer aos viajantes qualquer temor. Logo estavam em trechos mais planos e abertos e o grupo tomou as laterais da trilha, cercada por fileiras de pedras grandes de formatos diversos.
A paisagem diante deles começou a subir sem parar então. No horizonte ao leste, podia-se ver colinas irmanadas em uma fileira quase exata. Havia a direita delas uma que se destacava em altura das demais e que estava ligeiramente apartada das outras. Seu topo também era diferenciado, o cume tinha formato afunilado, um pouco plano na parte mais alta. No término da trilha, já ao sul, um barranco preenchia a paisagem, sua parede de pedra e musgo tinha um brilho que fazia com que parecesse um perfeito espelho da luz que recebia acima, era de um cinza-esverdeado e funcionava como uma espécie de ponte na colina até seu topo.
Elrond olhou aquela paisagem com um misto de sensações.
"Aquele é o Topo do Vento." Ele ainda ouviu a mãe dizer ao primogênito no cavalo ao lado. "Nem o vimos quando passamos pela primeira vez por aqui, não foi, El-nín?"
Elladan subiu os olhos para aquelas colinas. Havia um flanco a oeste da principal delas com o que pareceu ser um caminho a ser usado em uma escalada. O gêmeo continuou percorrendo aqueles detalhes geográficos com atenção, como se estivesse se lembrando de um lugar há muito conhecido. Ocorreu a Elrond então que para os filhos aquelas reentrâncias cobertas de capim que escondiam acessos ao topo da colina não eram uma paisagem qualquer. O Topo do Vento tinha uma história, e tanto Elrohir, agora adormecido novamente, quanto Elladan, por certo já a haviam ouvido do mentor. O olhar curioso do primogênito, pelo menos, era um grande indício disso.
"Em outra oportunidade eu o trarei aqui, ion-nín." Ele disse, enquanto a comitiva desviava-se já para leste com a intenção de circundar a colina ao invés de subi-la. Em uma situação diversa teria sido construtivo estar naquela região, escalá-la ao norte, onde seria mais seguro, aproximar-se do céu, falar sobre o passado daquele lugar para as crianças.
Elladan apenas assentiu, quase inconscientemente. Ele também parecia cansado, mas continuava a olhar a paisagem com atenção, colhendo os detalhes que o irmão não via para, talvez, dividi-los com o caçula mais tarde.
Elrond analisou o primogênito por mais um tempo. Elladan estava abatido. Também ele passara por muito desde o início de toda aquela insensatez. Contudo, não havia em seu rosto qualquer queixa, qualquer sinal de insatisfação. O bom Ilúvatar fora mesmo generoso ao dar a Elrohir o irmão que dera. Elrond jamais vira uma criança assim. Elladan simplesmente nunca se enciumava, mesmo quando a atenção de todos estava, como nos últimos dias, voltada para o caçula praticamente em tempo integral. Muito pelo contrário, o próprio gêmeo mais velho não tirava os olhos do irmão, mesmo quando este estava adormecido. Algum descanso para ele mesmo naquela travessia de dias, só vinha quando praticamente caía de exaustão, ou quando o próprio pai se via obrigado a fazê-lo dormir com medicamentos, o que ocorrera mais de uma vez.
O lorde elfo sorriu, conformado com aquele pensamento. Depois se voltou para Elrohir, que continuava adormecido, agora nos braços do avô novamente. Ele e Celeborn revezavam a proteção do gêmeo desde o acontecido no pântano e Elrond não se indispunha toda a vez que o sogro pedia para levar o neto. Quando tornou a olhar para o primogênito, pegou-o novamente com os olhos presos no irmão, como ficava quase toda a viagem.
"Quer cavalgar comigo um pouco, meu arqueiro?" Ele disse então, percebendo que aquela era a primeira vez que convidava o filho para estar em seu animal desde que saíram da pousada. O olhar surpreso de Elladan quase lhe cortou o coração de pai, fazendo com que Elrond erguesse os braços quase imediatamente.
"Venha, ion-nín. Vamos falar um pouco sobre essa mata na qual estamos." Ele sorriu, mas Elladan ainda olhou mais uma vez para o irmão, permanecendo no lugar. Só depois que Celeborn ofereceu-lhe um sorriso assegurador o menino aceitou a proposta do pai, surpreendendo-se ao ver-se colocado na frente do animal. Elrond envolveu-o com ambos os braços como vinha fazendo com o filho caçula, trazendo um pequeno tremor no jovem elfo. Elladan parecia dividido, ele queria estar com o pai, mas sua atenção continuava na figura do irmão no cavalo ao lado, como se sentisse que não poderia estar ali, não poderia ter a atenção do pai enquanto Elrohir ainda não estava recuperado.
"Seu irmão está bem melhor." Elrond disse-lhe ao ouvido, apertando um pouco o abraço que oferecia ao sentir o filho estremecer novamente. "Tente não se preocupar, ion-nín. Tudo vai ficar bem agora. Confie em mim."
Elladan assentiu em silêncio, mas não havia força naquela concordância, nem mesmo no aceno de cabeça que menino ofereceu ao pai. Elrond segurou-o com mais firmeza, engolindo amargamente o significado daquela situação. Restava-lhe, depois de tudo pelo que vira os filhos passarem, compreender a insegurança do mais velho. Afinal, apesar de suas efetivas tentativas, ele não pudera simbolizar o papel assegurador que queria quando o problema começou, por isso não culpava o menino pela incerteza com encarava suas palavras agora.
"Vai ficar tudo bem dessa vez." Repetiu mesmo assim, pensando que talvez ele mesmo devesse começar a acreditar no que pregava.
Avançaram durante todo o dia, até que o inverno começou a lembrar a comitiva da precocidade dos dias de sua estação. Outras lembranças surgiram. O chão foi ganhando ares de terra seca e estéril, mesmo com toda a névoa, vapor e imagens tristes que deixavam agora para trás, ainda desenhando os pântanos dos quais partiram. Logo veio o entardecer, e alguns pássaros pareceram igualmente melancólicos em seus piados que mais se assemelhavam a choros e lamentos. O sol desceu, redondo e vermelho, lentamente, desaparecendo nas sombras do oeste; e tudo foi silêncio e vazio.
O fim do dia foi tão sutil quanto a brisa que o anunciou. O frio movia os cabelos dos elfos, fazendo-os abrigarem-se em seus capuzes novamente. Tomavam agora um pequeno atalho que fugia do caminho principal sob um céu ainda azul. Na Grande Estrada do Leste, viajantes eram raros, e nem sempre tinham os melhores propósitos. Elrond não deixava de pensar nisso, e aquele pensamento enveredou para o caminho ao qual vinham enveredando todos os outros que tivera desde a saída do pântano, desde que descobrira mais sobre a experiência horrível do filho.
Aquele seu atraso... Aquele seu atraso...
Não. Não valia a pena, ainda que em uma comitiva numerosa como aquela, atracar-se em uma disputa tola qualquer. Tudo o que ele menos desejava era que a imagem de um novo conflito se somasse às outras cenas tristes que aos filhos já assombravam. Melhor prevenir-se, mesmo porque todos aqueles pequenos atalhos eram de uma extrema beleza e os conduziriam com igual serventia e até em tempo mais reduzido, à sua terra.
Um bom exemplo disso foi a cristalina corrente de água com a qual se depararam no final do dia. Ela descia das colinas refletindo os últimos raios do sol para se perder em um charco avermelhado. Elrond desceu os olhos pelo caminho daquelas águas, procurando preencher-se da paz que emanava delas, depois trocou um pequeno olhar com a esposa que cavalgava ao lado. Estavam a pouco mais de dois dias de casa e aquela era uma sensação reconfortante.
Quando começaram a subir ao longo das margens, aproveitando a luz que ainda havia, o curador respirou fundo, desejando que o caminho final pudesse atenuar lentamente as marcas tristes daquela jornada. Ele se pôs então a murmurar um pequeno canto de sua infância, acariciando mansamente o peito do filho sentado à frente. Queria tentar fazê-lo dormir por conta própria. Elladan ainda moveu a cabeça para os lados, como quem não tinha o desejo de adormecer ainda, mas sua pequena luta contra o cansaço daquela viagem foi logo abandonada e Elrond satisfez-se por percebê-lo adormecer por conta própria, embalado pela canção que o pai escolhera.
&&&
Houve mais dois entardeceres até que a comitiva passou a perceber a mudança de cenário. Atrás deles o Topo do Vento parecia desaparecer e, à sua frente, as montanhas, outrora distantes, cresciam em volume e cor. Finalmente um som conhecido começou a trazer a sensação de paz há muito esperada.
"O Mithieithel." Elrond disse para si mesmo, fechando os olhos ao ouvir o som do rio Cinzento, como alguns o chamavam. Ele engrandecia em volume naquele trecho antes de desembocar no mar, por isso não havia como atravessá-lo abaixo de suas cabeceiras na Charneca Etten, nem a pé nem a cavalo. "Temos que voltar para a Estrada." Ele disse então, já pensando no rumo que levaria à Última Ponte.
Elladan estendeu o indicador em direção ao horizonte, de onde se via um outro veio d'água, igualmente bravio, igualmente conhecido.
"Sim, ion-nín. Aquele é o nosso Bruinen. Não estamos tão longe de casa quanto nossos corações cansados nos querem fazer crer."
Seguiram então a Estrada sob a sombra das colinas por mais alguns quilômetros até serem recompensados pelo som do redemoinho das águas do Mithieithel, açoitando os grandes arcos da Última Ponte, no término de uma pequena e íngreme ladeira. Além dela, já conseguiam ver o desfiladeiro estreito ao norte, ao longe da Estrada que continuaria acompanhando a borda das colinas por muitos quilômetros até o Vau do Bruinen.
Mas aquele não era o caminho que a comitiva seguiria. Isso ficou claro ao jovem Elladan, que envergou as sobrancelhas confuso, enquanto olhava a imagem da estrada que conduzia ao rio desaparecer atrás deles.
"Vamos pegar um novo atalho." Foi o avô quem explicou dessa vez, ao ver o olhar confuso do neto, conforme avançavam em direção às colinas à frente. Logo estavam em um vale estreito e silencioso, árvores retorcidas e ladeiras compunham a paisagem. Em pouco tempo o vento começou a soprar e os membros da comitiva olharam para o céu com o temor de uma tempestade a assolar-lhes os corações.
O solo a partir de então ficou um pouco mais pedregoso, dificultando o caminhar dos cavalos, mas logo eles encontraram a passagem pelas colinas que conheciam e caíram na trilha que buscavam. Naquela noite o vento soprou frio movendo as copas das árvores para, no amanhecer, revelar um céu extremamente claro e azul.
Depois de uma breve caminhada, alguma distância à frente, o som conhecido voltou a erguer os cantos dos lábios do curador. O Bruinen corria por perto, revelando que a Estrada para o Vau não estava longe do Rio. O grupo tornou a desviar em uma pequena trilha que os levaria de volta à Estrada. O caminho percorria algumas ladeiras e curvas, acabando por sair da floresta onde o terreno ficava mais plano e largo. Estavam no meio das árvores enfim, contornando uma saliência rochosa da colina e continuando rente a parede de um rochedo baixo coberto de árvores.
Elladan tornou a olhar para trás, mas não conseguiu ver muito além por causa das várias curvas da Estrada. A vegetação agora era densa com urzais e mirtilos cobrindo
as encostas acima. Ele não entendia por que, mas a jornada de volta parecia estar sendo mais longa do que a de vinda, aquilo não fazia sentido.
No fim da tarde, chegaram a um lugar onde a Estrada era coberta pela sombra escura de pinheiros altos, e então mergulhava em um foco fundo, com paredes escarpadas e úmidas de pedra rubra. Elladan passou a olhar à sua volta, sem entender, decididamente não havia passado por aquele lugar. A sua frente, no entanto, Celebrian olhava distraída a paisagem, como quem cavalga em um lugar bastante conhecido.
A Estrada saiu novamente para o espaço aberto, bem na base de uma subida um pouco difícil e além dela, enfim, uma imagem esclarecedora surgiu distinta e reconfortante: um
pedaço de chão longo e plano, além do qual estava o Vau de Valfenda.
Naquele exato momento Elrohir despertou nos braços do pai, bem a tempo de ver a água do rio descendo em seu curso violento. O gêmeo sentiu seus olhos arderem e estremeceu, dessa vez com um motivo completamente diferente. Atrás dele, Elrond já o envolvia com ambos os braços, apoiando o queixo em seu ombro.
"Vamos para casa, ion-nín?" Ele indagou e respirou fundo. Elrohir não soube dizer por que, mas aquela pergunta por mais óbvia que pudesse ser, pareceu importante demais. Ele engoliu em seco então, deixando-se levar pelas águas que corriam e que agora, como se conhecessem seu mestre, ou talvez a pedido deste, amansavam sua força sutilmente, escorregando rio abaixo em montes de espuma branca. Por fim, seus olhos buscaram os do irmão, que continuava a cavalgar junto com a mãe. Elladan retribuiu o olhar com um outro que era só dele, um olhar pacato que transparecia extrema confiança, confiança que Elrohir jamais entendera por que merecia, mas cuja certeza sempre lhe fizera um tremendo bem.
"Vamos para casa, ion-nín?" A mãe repetiu a indagação e os olhos claros dela selaram para o gêmeo, o final de toda aquela angústia. Viesse o que viesse a partir de então. Ele estava indo para casa com a família, onde esperava voltar a ser quem era, onde esperava esquecer tudo pelo que passara, pelo que fizera a família passar.
