Olá. Espero que todos estejam bem.
Em um capítulo com um título desses acho que não há muito que dizer. Elrohir e seus obstáculos, imaginários, reais, É mesmo um elfinho complicado.
Obrigada novamente aos que ainda encontram tempo em suas rotinas absurdamente loucas para me deixar um comentário.
Beijos
Sadie
OBS: Acho que todos conhecem ou leram o Silmarillion. Na obra Tulkas, o Corajoso é o campeão dos Valar. Um ser de extrema audácia que luta sem armas ou temor. É dito que não existe ninguém tão rápido ou forte e que Tulkas sempre luta como se estivesse jogando, rindo dos obstáculos como se fossem jogos ou desafios divertidos. Até mesmo Morgoth o temia (sendo, inclusive, por ele derrotado) pois a ausência total de temor em relação a ameaças e perigos ofereciam ao Valar caído um inimigo que não podia ser intimidado. Sua única fraqueza é sua dificuldade em ponderar a respeito de algo, tudo o que Tulkas parece desejar é partir e guerrear, é resolver tudo com braços e punhos. Quando eu idealizei a minha imagem do gêmeo mais novo não tinha lido o Silmarillion ainda, mas agora fico surpresa ao ver o quanto do arredio e irônico Tulkas nosso caçulinha tem.
CAPÍTULO XVIII – OS ÚLTIMOS ESPINHOS
Já o silêncio não é de ouro: é de cristal;
redoma de cristal este silêncio imposto.
David Mourão-Ferreira, in "Tempestade de Verão"
A Última Casa Amiga a oeste das Montanhas. Era como alguns chamavam aquelas terras desde sua fundação no ano de 1697 da Segunda Era, em uma das muitas jornadas errantes de um lorde elfo em épocas de batalhas árduas que pareciam não ter fim.
Elrond encarava aquele caminho conhecido agora com o coração repleto de emoções diferentes. Lembrava-se de ter sido obrigado a abandonar muitos lugares pelos quais seu espírito cantava por inúmeros motivos, todos muito urgentes, todos muito sérios, todos envolvendo o destino de outras pessoas a ele ligadas. No entanto, quando refugiou e protegeu seus amigos naquele vale, jamais imaginara que o destino o levaria a pensar em abandoná-lo por um motivo como o que o fizera cruzar aquela terra sem pensar em voltar.
Ele desceu os olhos então para a mão direita, pousada suavemente sobre a crina escura de Durion, e sua concentração trouxe à vida por um momento outra imagem do passado que permanecia envolvendo seu dedo médio e que poucos além dele tinham a oportunidade de apreciar. A Safira de Vilya, o anel do ar, pareceu engrandecer seu brilho azulado, como que para lembrá-lo de que havia ainda outras batalhas, talvez tão sérias quanto a que obrigara aquele povo a refugiar-se naquele vale há muito tempo. Batalhas maiores, batalhas mais importantes ainda, batalhas nas quais todos os problemas individuais deveriam estar resolvidos.
Elrond respirou fundo, segurando a mão do filho em sua cintura. Elrohir pedira para sentar-se atrás do pai assim que percebera que estavam há poucos cantares de Imladris. Não ficara claro ao curador o porquê, mas ele julgava que talvez tivesse sido porque o filho não queria transparecer seu estado de fragilidade, chegando à sua terra nos braços do pai como estivera por quase toda a viagem.
Elrohir retribuiu o aperto, o rosto apoiado nas costas do curador e os olhos fechados. Ansiara tanto por retornar, mas agora, reconhecendo a vasta terra que se estendia do vau até as montanhas e avistando a única trilha marcada com as conhecidas pedras brancas abraçadas a musgos e urzes que era caminho para Imladris, ele começou a sentir um receio incontrolável de voltar.
A sensação não ficou melhor quando o som da água correndo ganhou seus ouvidos tal qual um alerta de que havia pouco tempo para, quem sabe, mudar de idéia, para, quem sabe, desistir. Ele estremeceu com o som poderoso daquelas águas e Elrond reforçou um pouco mais o aperto na mão que não deixara mais de segurar a dele.
"Tem certeza que não quer cavalgar à minha frente, ion-nín?" Elrond ainda indagou, preocupado, mas como resposta Elrohir apenas apoiou o rosto nas costas do pai, balançando sutilmente a cabeça em uma negativa que o curador pudesse sentir, e fechando os olhos. Elrond suspirou resignado, mas lançou um olhar indagador à esposa ao seu lado que podia agora ver a situação melhor do que ele. Celebrian apenas balançou a cabeça, dando a entender que o filho parecia bem.
"Nossa terra tem um cheiro bom, não tem ionath-nín?" Ela disse em sua voz doce e a singela observação pareceu libertar a fragrância das árvores e das flores rasteiras que se espalhava no ar. Elrohir abriu então os olhos, em tempo de ver a luz na encosta do vale, do outro lado do rio.
Além dela, ele viu um pouco mais.
Um grupo de elfos aguardava a comitiva ali, antes do início da trilha íngreme que os levariam à cidade do vale. Na certa os sentinelas haviam alertado sobre a chegada dos líderes e alguém enviara uma escolta para ser de algum auxílio no trajeto final.
Sim. Talvez alguém tivesse enviado uma escolta, foi o que o gêmeo pensou, antes de reconhecer o elfo que aguardava solenemente à frente do grupo.
Não. Alguém viera trazer a escolta.
Elrond não custou também a reconhecer o amigo louro, mesmo com a pesada capa que transformava seu rosto em uma incógnita de sombras. Glorfindel, entretanto, não parecia de fato querer ocultar-se, por isso, assim que avistou o grupo, jogou o capuz para trás e seus cabelos dourados ganharam o brilho do sol daquele fim de tarde, da luz daquele término de jornada.
Havia, no entanto, uma seriedade absoluta no semblante do amigo, e Elrond sabia muito bem o que a despertara, por isso aproximou-se um pouco à frente, descendo ele também o capuz que lhe protegia a cabeça e deixando-se ver pelo grupo que o aguardava.
Seu olhar estava tão concentrado no do amigo que ele mal percebeu que um dos membros do conselho ocupava um cavalo ao lado do elfo louro. Somente quando chegou mais perto, a voz de Gaellon surgiu, fazendo o curador aperceber-se de sua presença.
"Mae Govannen, Elrond." Ele disse, sem qualquer formalidade excessiva, como era seu hábito. Gaellon fora um dos elfos do exército de Gil-galad que permanecera em Imladris, mas cujo coração nunca perdeu o anseio pelas grandes batalhas. Ele tinha sido o único no conselho a se opor à condenação de Elrohir, mas como era o mais afoito e menos prudente de todos os integrantes do grupo, sua opinião não ganhara tanto crédito.
Elrond moveu seus olhos para o elfo moreno vagarosamente. Embora estivesse satisfeito em vê-lo, pois sabia o que significava o fato do conselho ter incumbido justamente a ele aquele papel, lamentava perceber que não teria oportunidade de conversar com Glorfindel antes de chegarem à cidade. Havia tanto a dizer ao amigo louro, tantas justificativas a dar, tantos pedidos de desculpas por uma série de motivos. Aquele adiamento numa questão que ele considerava das mais vitais o estava incomodando a extremo.
"Gaellon." Ele retribuiu a saudação, apoiando a mão sobre o peito. "Alegra-me vê-los a nossa espera. Presumo ser verdade, ou estou enganado?"
"Presume corretamente, mellon-nín. É o mínimo que podemos fazer, buscar garantir a você e sua família um regresso seguro, nem que seja nesses poucos passos finais. Na verdade não fomos informados de seu regresso, caso contrário teríamos nos adiantado um pouco mais."
Elrond esvaziou o peito, depois o reencheu de ar, apenas pela oportunidade de um novo suspiro. Elbereth, estavam mesmo todos muito atordoados a ponto de esquecerem a primeira regra de diplomacia. Mas em seu coração sentia como se voltasse à sua terra apenas, como já o fizera diversas vezes, não lhe ocorrera que aquela era uma situação diferente.
"Peço desculpas pela descortesia, Gaellon."
O elfo ia responder, mas Glorfindel estufou o peito, tomando a voz depois de soltar um riso sarcástico.
"Se estivesse em seu lugar guardaria o verbo. Ouvirá tantos pedidos de desculpas assim que entrar em sua terra que por certo irá desejar ficar um tempo sem escutar tal palavra." Ele disse e um É fato vindo de Gaellon reforçou a observação do guerreiro louro.
Elrond envergou as sobrancelhas tanto com a informação, quanto com o tom estritamente formal e frio do amigo, a indicar que seus receios de que Glorfindel pudesse estar muito magoado tinham mais fundamentos do que gostaria o curador. Ele ainda manteve os olhos no guerreiro louro depois do comentário, mas o elfo não retribuiu, limitando-se a se manter escondido em um semblante inexpressivo e um olhar distante.
"Sabem que não nos devem desculpas." Ele objetou mesmo assim. Seus conselheiros eram todos bons elfos, ponderados e de conduta impecável até o momento. Cumpriam apenas as próprias regras por eles mesmos estabelecidas. Não cobraria deles tal papel. "Se é fato o que meu sogro informou, a decisão do conselho foi para que o ocorrido todo fosse esquecido, uma vez que concordaram em caracterizá-lo com uma desafortunada seqüência de incidentes."
Gaellon continuou com um sorriso de satisfação estampado em seu rosto, ele parecia de fato feliz por ter sido o único a se opor àquele absurdo e agora saboreava cada momento da queda daqueles a quem julgava diplomatas receosos de suas próprias sombras, com extremo prazer.
Foi de Glorfindel, no entanto, o próximo comentário, também.
"Acredito que não seja de todo improdutivo deixarmos os arrogantes intelectuais de nossa terra baixarem um pouco as cabeças e reconhecerem seus erros. Fará bem ao espírito deles. Se não o fizer, ao menos fará ao nosso." Ele disse, ainda com olhos distantes e peito inchado. Havia tanta contrariedade e inconformismo em todo o seu ser que Elrond quase conseguia vê-los através das linhas do rosto do elfo. Ele só não estava certo de que os alvos daquela indignação eram de fato aqueles em que o guerreiro louro queria fazer o grupo crer.
Com certeza não eram...
Glorfindel ainda deixou seu olhar escapar em direção ao amigo de Imladris mais uma vez, como se tentasse ler o silêncio que seguiu seu comentário, mas logo a atenção do guerreiro louro estava propositalmente em uma outra parte qualquer.
Celebrian, no entanto, já continha um riso brando diante da observação do amigo e isso fez com que Elrond contivesse o ímpeto de objetar mais uma vez. Ele apenas olhou a esposa e o filho mais velho no cavalo ao lado mais um instante, lembrando-se de que o cansaço daquela jornada não permitia a eles as regalias de desperdiçar momentos importantes em uma conversa como aquela.
"Acho que podemos ir." Ele apenas disse e sua observação soou como uma ordem para o grupo todo, que se dispôs a mover os cavalos e dar passagem à família. Elrond observou a movimentação em silêncio, depois assentiu para a esposa, que colocou seu cavalo em movimento, ao lado do dele.
Só então, passando por cada um dos elfos que acompanhavam a escolta, percebeu neles o porquê de tamanha presteza na execução da tarefa; havia um sorriso quase indisfarçável iluminando-lhe as faces eternamente jovens e belas. Pareciam de fato aliviados por verem seu líder de volta. Elrond comoveu-se com os olhares que recebeu, e procurou retribuí-los com o mesmo carinho. Alguns daqueles elfos eram conhecidos seus de muitos anos, outros eram jovens a quem ele mesmo havia ajudado a ver as estrelas pela primeira vez. Eles murmuravam um Seja bem vindo, senhor, ou um Sentimos sua falta, Lorde Elrond conforme percebiam o olhar do líder neles e seus rostos brilhavam ainda mais ao receberem de volta um sorriso do lorde elfo, acompanhado por palavras de agradecimento.
Apenas Glorfindel não dissera nada.
No entanto, disfarçadamente, o lorde louro moveu a cabeça em um discreto movimento, assim que viu os cavalos dos senhores de Imladris passarem por ele. Seu objetivo era óbvio e até mesmo esperado por qualquer um que o conhecesse bem. Ele queria assegurar-se das imagens que ainda não vira. Elrohir, porém nem mesmo levantou o rosto para olhar o mentor, mantendo-o encostado nas costas do pai. Já Elladan buscou preocupado o olhar do mestre assim que passou por este.
Se Glorfindel pretendia se esconder atrás de um ar de austeridade e decepção, para deixar claro a família o quanto estava ressentido pelo que fizeram sem consultá-lo; ele só pôde agradecer pelos demais não o terem visto retribuir o olhar do pupilo mais velho e seus lábios se erguerem em um pequeno sorriso, mesmo sem o desejar.
Elrohir não compartilhava, naquele momento, a coragem do irmão, por isso não reabriu mais os olhos, não queria ver-se envolto em pensamentos indesejados e cenas de tensão mais. Não queria saber como o mestre olharia para ele, não queria saber como seria recebido em Valfenda. Tudo o que ele fez foi deixar-se ficar encostado no pai, enquanto o cavalo em que estava ziguezagueava na íngreme trilha que conduzia ao vale secreto de Valfenda. O calor e aconchego que emanavam do lugar, acompanhado pelo cheiro dos pinheiros, começaram a querer roubar-lhe a lucidez e ele se viu novamente em uma inesperada luta para manter-se acordado.
Imladris era a terra da cura. Muitos diziam isso.
Ele não queria dormir, mas ainda não conseguia ter controle sobre a pouca energia que recuperara. Quando deu por si estava nos braços do avô novamente. Celeborn o vira vacilar e resgatara-o antes que surpreendesse o pai caindo do lugar no qual estava.
"Volte a dormir, Astalder." Ele ouviu o avô dizer e sentiu a voz do pai reforçando esse primeiro pedido. "Não se preocupe. Sua terra estará a espera quando estiver recuperado plenamente."
Elrohir até pensou em resistir, mas sua última lembrança foi o olhar preocupado que viu Glorfindel lhe lançar quando tentou reabrir os olhos. Depois tudo se resumiu a uma escuridão, só que mais agradável dessa vez, uma escuridão temperada pelo aroma das árvores e da grama verde, pelo som do vento nas faias e nos carvalhos, e pela sensação amena do crepúsculo. No entanto, além de todas elas, a primeira lembrança que teria ao acordar ainda seria a de um som muito especial para ele, um som que invadira seu sono pesado, o rio ligeiro e ruidoso de sua terra.
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Elrond teve de fato a recepção que Gaellon relatara. Na verdade sua chegada despertara mais felicidade do que ele imaginava. Pacientemente ele aceitou a saudação de todos, aplacou ânimos exaltados, valorizou os pedidos de desculpas, ouviu as canções.
Celeborn e Celebrian, no entanto, aproveitaram a primeira oportunidade e escorregaram discretamente com os gêmeos para dentro da casa amiga. O lorde elfo, percebendo que o genro não escaparia de seu papel diplomático tão cedo, ofereceu-se para ajudar a filha a garantir que os netos se alimentassem e dormissem. Havia muito tempo para eles matarem a saudade de sua terra que não aquela perfeita balburdia que se instalara no pátio principal. Agora precisavam repousar.
Custou muito para que Elrond pudesse fazer o mesmo, quando ele enfim passou pela pequena multidão e alcançou a porta de entrada, viu duas pessoas com as quais seu espírito precisava conversar antes mesmo de qualquer descanso. Ainda em pé na grande escada de entrada, ele fez um sinal sutil a Erestor, que se quedara calado em um canto do pátio, recebendo um breve cumprimento apenas, mas parecendo igualmente indisposto a esperar por algo mais. Elrond chegou a temer que o amigo simplesmente fingisse não ter compreendido seu chamado. Mas ele não seria Erestor se o fizesse, por isso o curador sentiu a apreensão de seu peito diminuir pelo menos um pouco ao ver o conselheiro adiantar-se em envolver o braço de Glorfindel com a mão direita e trazer o matador de Balrogs com ele, mesmo com a visível objeção deste.
Eles estavam pelo menos dispostos a conversar. Já era alguma coisa. Elrond pensou, observando cansado a imagem dos amigos caminhando em sua direção.
No momento, enfim, em que conseguiram estar a sós dentro do gabinete do Lorde de Imladris, Elrond adiantou-se e parou um instante diante da janela. Quando ouviu a porta se fechar, percebeu que chegara sua oportunidade de encarar os amigos e esclarecer a história que desconheciam.
Por que era tão difícil? Ele pensou, segurando o batente da janela aberta. Além dela a imagem do jardim, pela primeira vez, não lhe trazia a paz que precisava e ele se sentiu subitamente desencorajado de voltar-se e olhar para os dois elfos, que esperavam de pé, em frente da porta, sem também se aproximarem.
Agora que estava novamente protegido pelas graças de sua cidade, o curador começou a sentir o peso do corpo, o peso da viagem, o peso dos perigos, o peso das perdas. Por isso, quando ele enfim se voltou para os dois elfos, buscando em seus inúmeros discursos diplomáticos o que dizer, tentando encontrar as palavras certas que pudessem trazer seus amigos, visivelmente decepcionados e magoados com ele, para seu lado novamente, as palavras lhe escaparam e a imagem deles pareceu escura demais. Quando deu por si tudo o que se viu fazendo foi apenas balbuciar um Desculpem-me, por favor, mellyn-nin, e cobrir o rosto com ambas as mãos em seguida.
Elbereth, era tão difícil acreditar que lhe restava transpor esse último obstáculo e estava praticamente sem forças para isso. E a busca, agora quase desesperada por aquela energia que lhe faltava, pelas palavras certas, pelas atitudes certas, parecia anuviar sua cabeça. Aquela urgência roubava-lhe a sensatez que sabia precisar ter para convencer os amigos a perdoá-lo, e instalava um estado de agonia em seu coração que ele não esperava sentir tão cedo.
O que se deu depois disso, felizmente, não foi o esperado pelo curador, e a ele foi mostrado que certos males eram de cura muito mais fácil do que outros. Logo havia mãos o segurando e as vozes dos dois elfos não soavam mais graves e distantes como no primeiro encontro que tivera com eles.
"Sente-se aqui, Elrond." Erestor o trazia agora para o divã.
"Beba isso. Vamos." Glorfindel colocava em sua mão uma taça de vinho.
"Está cansado. É só isso. Mal chegou em casa e já havia toda essa confusão." Erestor assegurava, a mão dele em seu ombro.
"Devia ter mandado aqueles palermas e suas desculpas para o espaço. Você é bom demais com aqueles inúteis." Glorfindel dizia e ele sentia a mão do guerreiro pousada em seu joelho agora.
Elrond ainda manteve os olhos fechados por um tempo, deixando-se sentir a presença dos amigos. Ele tinha mesmo muita sorte, mal podia acreditar na sorte que tinha. Quando enfim reergueu as pálpebras, encontrou Erestor sentado a seu lado. A mão ainda pousada protetoramente em seu ombro. Agachado a sua frente, Glorfindel olhava-o com preocupação, segurando com força um de seus joelhos.
Ele os olhou alternadamente então, buscando por traços de tristeza ou mágoa em seus semblantes, mas encontrando apenas preocupação agora.
"Eu lamento muito. Lamento mesmo, mellyn-nín. Foi tudo muito rápido. Eu não sabia quantos seria sensato envolver..."
Os elfos tiveram uma reação parecida, o que não era comum para aqueles dois que discordavam um do outro em nove de cada dez assuntos tratados. Ambos apertaram os lábios, parecendo genuinamente preocupados não só com o tom do amigo, mas também com seu estado geral. Na verdade muito pouco sabiam do que havia acontecido.
Diante do silêncio deles então, Elrond voltou a se inquietar, pressionando ele também o maxilar fechado e já sentindo o peito arfar diante daquele impasse que precisava resolver ou não teria paz.
"Beba seu vinho, vamos." Glorfindel disse então, erguendo-se e afastando-se. Elrond acompanhou o movimento preocupado, mas satisfez-se por perceber que o elfo louro erguera-se apenas para alcançar e arrastar ruidosamente uma cadeira na direção deles e se sentar na frente do curador agora. Uma vez acomodado, Glorfindel encheu o peito, apoiando as mãos nas pernas e tornando a olhar para o amigo moreno. "Como ele está? Como foi a jornada dele? Fez mesmo todas as coisas que Círdan disse na carta?"
Elrond silenciou-se a princípio diante do questionamento inesperado, mas depois percebeu o brilho que Glorfindel buscava esconder e todos os significados que tinha. Os gêmeos sempre foram seus melhores discípulos, mas Elrohir era a "menina dos olhos" daquele mestre valoroso. Por isso quando Elrond continuou encarando-o sem nada dizer, um sorriso furtivo escapou dos lábios do guerreiro louro, como quem se cansa de uma máscara e resolve tirá-la de vez.
"Vamos lá, Elrond. Conte-nos logo o que aquela sua criaturinha encrenqueira conseguiu fazer antes que eu exploda aqui de curiosidade." Ele disse então e às suas palavras seguiu-se a risada informal que todos conheciam e que pareceu ser melhor do que qualquer medicação ou noite de sono para o lorde de Imladris.
Logo a noite caiu na Última Casa Amiga dando a Elrond as garantias de que não poderia ter dado nome melhor àquele seu teto.
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Quando Glorfindel chegou naquela tarde acompanhado dos gêmeos os outros meninos do grupo não esconderam a surpresa. Já fazia quase quatro luas desde o retorno dos irmãos e aquela era a primeira vez que eram vistos fora das dependências da grande casa.
Os pupilos se entreolharam curiosos, havia tantas perguntas que queriam fazer, tantas histórias cuja veracidade queriam confirmar, no entanto, o olhar que o mestre lhes lançou era mais do que um aviso do que podiam ou não podiam fazer. Desde o retorno da família do regente o mentor advertira seus alunos sobre o que podiam ou não questionar aos dois irmãos, principalmente a Elrohir, cuja jornada fora das mais árduas.
Por isso eles se contiveram, e se limitaram a cumprimentar os amigos de quem sentiam muita falta. Os gêmeos também pareciam felizes por retornar aos treinos, embora, mesmo sem que ninguém compreendesse o porquê, ainda mantivessem o estranho voto de silêncio.
Espadas de madeira, brincadeiras informais, risos. Foi o que compôs aquela tarde amena de final de inverno. Elladan se cansou do treino com a espada e agarrou o pequeno arco, distanciando-se e pondo-se a arremessar flechas certeiras no alvo colocado em um dos pilares distante do campo. Logo Glorfindel estava ao seu lado, oferecendo algumas instruções.
Enquanto isso Elrohir trocava golpes com um dos elfos do grupo. Por mais informais que fossem tais treinos, o gêmeo mais novo sempre os levava com seriedade extrema, embora não deixasse transparecer isso. Na verdade ele preferia duelar com os elfos mais velhos, aqueles que já haviam deixado as espadas de madeira há um tempo e apenas apareciam para ajudar o mestre no treino dos menores, mas Glorfindel os havia proibido de digladiarem-se com os pequenos naquele dia. Elrohir aborrecera-se com o fato, pois via nele uma evidente manobra de proteção que ele julgava desnecessária e inconveniente.
No entanto, quando atirou longe, e em tempo recorde, a espada das mãos do terceiro amigo que se dispusera a enfrentá-lo, o clima, até agora ameno, acinzentou-se um pouco.
"Humm, nosso navegador voltou com a corda toda." Brincou um dos mais velhos, ao perceber o oponente do gêmeo enrubescer com a rápida ação do filho do anfitrião.
"Angahor." Glorfindel advertiu de onde estava e o elfo engoliu sua brincadeira diante do tom repreensivo do mestre. Beinion, no entanto, que acompanhava atentamente a atuação do gêmeo, ficou por ali quando os demais veteranos deixaram o lugar de treinos para receber instruções de Glorfindel no campo ao lado.
"Vamos lá, Elrohir." Ele provocou, erguendo uma das espadas de madeira. "Só uma luta rápida enquanto Glorfindel está distraído." Eram desafetos desde a última vez que o gêmeo o vencera no campo de treinos e o fato de perder a última luta para Elladan pensando ser o irmão, também não tinha aplacado o sentimento de inimizade entre eles.
O gêmeo moveu os olhos escuros em sua direção, depois verificou com cautela a distância do mentor, reconhecendo o propósito daquela provocação no exato instante em que se dava. Ao invés de recuar, no entanto, como teria sido sensato, ele aceitou o desafio, aproximando-se do elfo mais velho já com a espada erguida.
Olharam-se então por um instante bastante curto, mas antes do primeiro golpe, Beinion deu-se ao direito de aproveitar o distanciamento do mestre para uma pequena provocação.
"Vamos ver se luta melhor do que com a espada que roubou, molequinho."
Foi mesmo bastante rápido e antes que Elrohir pudesse entender o porquê aquela maldita imagem estava novamente em sua mente. O homem do pântano, a provocação, aquela voz...
"Seu molequinho desgraçado!"
"Beinion!"
"Eu não fiz nada. Eu não fiz nada." Gritava o elfo, já de joelhos ao lado do oponente caído. Glorfindel não esperou por qualquer justificativa, erguendo Beinion pelos ombros e praticamente atirando-o para longe. Elladan já estava ao lado do irmão segurando sua mão e apoiando a outra no peito dele. "Deixe-me vê-lo, Elladan."
O gêmeo deixou da mão do irmão, mas não se afastou, enquanto Glorfindel pousava cauteloso a palma no rosto de Elrohir, no qual agora começava a surgir um imenso vergão por sobre o corte que a espada de Beinion, mesmo de madeira, infringira na pele alva. O ferimento por sorte não havia pegado na vista esquerda do menino, começando um pouco ao lado dela e terminando pouco abaixo do canto dos lábios.
"Ele não revidou." Dizia inocentemente Beinion, já em pé atrás do mestre. "Não sei por quê."
"Eu disse que os veteranos não lutariam com os novatos hoje. Será que estou falando em algum dialeto orc?" Glorfindel ralhou inconformado, depois não deu atenção às outras justificativas que acompanharam a primeira, sua concentração estava voltada para o par de olhos que se abriram, já demonstrando uma incontível expressão de dor.
"Devagar, elfinho." Ele advertiu, quando o gêmeo, ao perceber onde estava, sentou-se rapidamente. "Vamos, deixe-me ver isso." Ele disse, tentando segurar o rosto do jovem elfo para analisar melhor o ferimento.
Mas Elrohir esquivou-se dele, como se não desejasse ser tocado mais, seus olhos ainda um tanto confusos, procuraram à sua volta e quando encontraram Elladan fixaram-se nele no exato instante. O gêmeo mais velho atendeu ao pedido que apenas ele compreendeu, ajudando o irmão a levantar-se.
Glorfindel acompanhou o movimento bastante incomodado. Desde que regressara ele sentia que Elrohir não o tratava da mesma forma. Ele estava distante, evasivo e aquilo o estava enervando.
"Deixe ao menos seu pai ver o ferimento. Nem bem se recuperou e já está ferido novamente. Ele não vai gostar de saber disso." Ele disse, ao ver os irmãos se afastarem sem qualquer pedido de permissão ou gesto de despedida. "Elrohir." Chamou por fim, bastante insatisfeito agora pela atitude indisciplinada dos irmãos diante dos outros pupilos. Era certo que haviam passado por muitas coisas, mas tinham que reaprender a encontrar seus lugares se ainda desejavam ocupá-los. A dupla parou, mas apenas Elladan se voltou para o mentor, o que satisfez ainda menos o guerreiro louro. Ele olhou então para o irmão mais velho, soltou um suspiro pouco conformado e disse em tom de advertência. "Quero que o leve a seu pai, entendeu Elladan?" Indagou, recebendo um rápido aceno como resposta, antes da dupla continuar seu caminho em direção à casa principal, o caçula apoiando-se nitidamente no irmão para equilibrar-se.
&&&
Já era quase a hora do jantar quando enfim Glorfindel conseguiu se desvencilhar dos afazeres e entrar em busca de algum descanso e notícias. Ele acabara de passar pela porta principal da casa grande quando encontrou Elrond saindo do gabinete com um dos membros do conselho. O conselheiro se afastou após um breve cumprimento ao guerreiro louro, que mal esperou para indagar ao amigo à porta.
"Como ele está?"
"Quem?" Elrond perguntou.
"Elrohir."
"Bem." Respondeu despretensiosamente o elfo moreno, sua atenção presa em um documento que tinha nas mãos. "Acabamos de receber um mapa atualizado do norte das Ered Luin. Deseja vê-lo ou posso passá-lo a Erestor?"
Glorfindel deu uma leve olhada no documento, depois o pegou das mãos do amigo sem de fato parecer querer dar ao papel alguma atenção imediata.
"Deixe comigo. Amanhã passo ao rato de biblioteca." Ele apenas disse e ambos os amigos trocaram um sorriso cansado. "Acha que posso vê-lo? Está mesmo bem?"
"Quem, Elrohir?"
"Sim, Elrond." Enervou-se ligeiramente o elfo. "Sei que acidentes no campo de treinos acontecem, mas eles acabam de voltar e..."
"Acidentes?" Elrond encurvou as sobrancelhas e só então uma idéia que não havia passado pela cabeça do lorde louro ocorreu-lhe de forma bastante indigesta.
"Não me diga que Elladan não o trouxe até você?"
"Elladan o quê?" Elrond aproximou-se mais, já segurando o amigo pelo braço. "O que aconteceu?"
"Eu sabia." Afastou-se indignado o guerreiro louro. "Isso porque eu disse para trazê-lo. Falo para um não lutar com os veteranos e ele não me ouve, falo para o outro aonde ir e ele não vai. Vou desistir de ser mentor deles se continuarem a me desobedecer desse jeito. Já lhe aviso de antemão que serei obrigado a dar a ambos uma punição. O pior é que nem bem chegaram e..."
O rosto de Elrond converteu-se em uma faceta de total incompreensão, enquanto ele voltava a segurar o braço do amigo.
"Glorfindel. O que aconteceu no campo de treinos?"
O elfo interrompeu então suas queixas, olhou para um ponto qualquer como se desejasse esvaziar momentaneamente a cabeça, depois soltou os ombros, movendo o rosto em um gesto de total indignação. Simplesmente não se conformava com o que acontecera.
"Afastei-me um instante para dar as instruções dos veteranos e quando voltei Beinion tinha derrubado Elrohir em um duelo. Parece que ele o acertou no rosto com a espada de madeira. Não parecia sério, mas Elrohir ficou desacordado, o que me preocupou." Ele relatou e diante do empalidecer do curador voltou a balançar inconformado a cabeça. "Eu disse a Elladan para trazê-lo a você, mas talvez seu primogênito ache que já é curador." Acrescentou então, sabiamente, somando àquele comentário um sorriso irônico, que esperava dar a entender ao amigo que, se o gêmeo mais velho não tinha seguido as instruções talvez fosse porque, na verdade, o caçula já estivesse bem.
"Vou vê-lo." Elrond disse, mesmo assim, não esperando por resposta. Estava tentando dar espaço aos filhos agora, evitando demonstrar excessiva preocupação, adiando perguntas e outros inquéritos que sabia que um dia teria que fazer. Mas aquilo requeria sua atenção de pai, mesmo que ponderada. Ele já se afastara quando ouviu a voz do amigo louro chamá-lo antes que chegasse a escada.
"Elrond. Eu sinto muito." Disse Glorfindel, visivelmente contrariado pelo fato ter acontecido quando os meninos estavam sob sua guarda. "Realmente não vi os dois se estranharem, se houvesse visto..."
"Que bobagem!" Elrond fez um breve movimento com a mão direita para enfatizar as palavras. "São coisas que acontecem. Não foi a primeira e nem será a última vez."
"Que Elrohir se fere em campo ou que os dois desobedecem minhas ordens?" Glorfindel tentou brincar, sentindo que as palavras conciliadoras do amigo eram mais para que ele se sentisse melhor do que para representar a despreocupação daquele pai.
Elrond forçou um sorriso pouco convincente.
"Bem... a primeira, eu espero. Pois conto que lhes dê a punição merecida. Recuperados ou não, eles têm que aprender a acatar as decisões dos responsáveis, a obedecer a ordens, ou não estaremos preparando-os como deveríamos."
Glorfindel entendeu a gravidade daquelas palavras, mas satisfez-se também pelo que lia em seus intervalos. Era bom saber que o amigo depositava nele tamanha confiança.
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Quando Elrond entrou no quarto encontrou Elladan sentado em sua cama ao lado da do irmão. As janelas estavam fechadas e apenas a luz de um lampião clareava um pouco o lugar. Elrohir estava deitado de lado e não se moveu. O curador olhou um instante para o primogênito, depois entrou silenciosamente. O gêmeo mais velho acompanhou os passos do pai com olhos atentos.
Elrond nada disse, ele apenas deu a volta na cama e encurvou-se um pouco para olhar o rosto do caçula. Elrohir tinha os olhos fechados, parecia dormir. O ferimento que o mentor mencionara se transformara em um vergão bastante escurecido e aparente, mesmo com o medicamente que o encobria. Elrond reconheceu a escolha exata das ervas que o filho mais velho fizera, o que lhe tirou parte das preocupações. Elrohir abriu os olhos ao sentir a presença do pai, mas depois voltou a fechá-los. Parecia insatisfeito por Elrond ter descoberto o que acontecera.
O curador continuou olhando para o caçula por algum tempo, depois se voltou ao primogênito.
"Por que não o trouxe a mim como seu mestre o instruiu, menino?" Ele indagou em um sussurro, sentando-se na cama de Elrohir e apoiando com cuidado a palma por sobre o rosto deste para sentir melhor a extensão do ferimento.
Elladan endureceu o maxilar, depois ergueu o queixo em direção ao irmão e a resposta ficou clara para o pai.
"Pacientes não fazem sua própria vontade, Elladan." Elrond advertiu-o então. Sabia não haver gravidade no que acontecera, mas precisava aproveitar a chance para fazer com que o filho se lembrasse das lições aprendidas ou ainda não.
O gêmeo assentiu resignadamente, como o pai esperava que o fizesse e apoiou a mão no peito em um pedido de desculpas também esperado. Elrond condoeu-se, não queria vê-los entristecidos, mal haviam voltado à suas rotinas e já estavam envolvidos em um impasse. Era uma pena.
"Hoje vocês jantam no quarto. Amanhã também ficarão aqui." Ele ditou, mesmo sentindo seu coração apertado pela necessidade daquela punição.
Tudo o que o primogênito fez foi balançar novamente a cabeça, sem reerguer o rosto. Elrohir, no entanto, nem se moveu, continuando a manter os olhos fechados como se estivesse dormindo. Elrond tornou a olhar para ele, depois se arrastou um pouco no colchão onde estava e esticou o braço para segurar o queixo do primogênito e fazê-lo olhar para ele.
"Como será em uma patrulha se seu irmão se ferir e decidir que não quer seus cuidados de curador? Fará as vontades dele?" Indagou e quando o gêmeo balançou indignado e agora mais veementemente a cabeça, Elrond teve que conter o sorriso. Ele no fundo sabia que Elladan não havia trazido o irmão à presença do pai porque tinha total conhecimento da gravidade do corte, caso contrário o teria feito. No entanto, não custava nada lembrá-lo mais uma vez do fato daquela estar longe de ser uma atitude aceitável, haja vista que tal decisão não cabia a ele, a quem foram destinadas ordens específicas. "Ótimo, então me escreverá amanhã todos os motivos pelo qual não pode deixar ferimentos de espadas sem atenção devida, mesmo julgando-os sem gravidade aparente. No final da tarde quero seu relatório em minha mesa, compreendeu?"
Dessa vez Elladan não foi tão receptivo à repreensão do pai, na verdade foi muito difícil disfarçar a insatisfação que aquela tarefa totalmente desprovida de qualquer utilidade lhe despertava. Elbereth, o pai sabia ser severo quando precisava. Ele apenas torceu os lábios contrariado, mas, diante do olhar ainda fixo do pai à espera de sua resposta, limitou-se a balançar forçosamente a cabeça em uma concordância mais forçada ainda.
Elrond permaneceu observando os traços do filho mais um instante, depois checou mais uma vez o ferimento do outro filho, aproveitando a oportunidade para passar a mão levemente em seu rosto, buscando sentir mais do que aquilo que já podia ver. Ser nocauteado no rosto daquela forma significava estar com a guarda completamente recuada, aquilo não fazia muito sentido para um aprendiz tão precavido quanto era o caçula.
"Você receberá uma punição de seu mestre, Elrohir." Ele informou, tentando dar a voz um tom austero, mesmo diante da cena triste que via. "Sabe que lhe deve obediência, não sabe? Ou está muito difícil lembrar-se disso? Quer que eu peça a outro que o instrua?"
Elrohir reabriu os olhos no mesmo instante. Enfim algo parecia ter-lhe chamado à atenção.
"Quer que eu lhe designe outro instrutor que não Glorfindel?" Ele repetiu o questionamento, procurando manter na voz o tom que vinha usando, mesmo com o empalidecer do menino. "Há outros valorosos guerreiros a quem, talvez, você julgue mais fácil obedecer do que a Glorfindel, que o conhece desde bebê."
Aquilo não era um jogo muito justo. Elrond sabia bem. Ele jamais colocaria tal ameaça em prática, mas precisava contar com as armas que tinha, por isso quando Elrohir apressou-se em erguer-se em um cotovelo e balançar a cabeça, apoiando a mão no peito num pedido de desculpas idêntico ao que o irmão fizera há pouco, ele se deu por satisfeito.
"Pois bem. Talvez possa lembrar-se disso na próxima vez que receber uma instrução clara dele, Elrohir. Para ajudá-lo, amanhã espero ter sobre minha mesa a cópia do código de ética dos guerreiros. Completa e legível." Ele adicionou e dessa vez foi muito mais difícil disfarçar o riso que o ar de total contrariedade surgido no rosto do filho quis despertar. Por isso ele apressou-se em encerrar sua visita com um rápido Que assim seja em seu melhor tom de pai e sair para ter a liberdade de sorrir do lado de fora daquele quarto.
Quando a porta se fechou, no entanto, o ar de descontentamento dos irmãos agravou-se, como se, agora sozinhos novamente, eles tivessem se lembrado do porquê daquela situação toda. Elrohir sentou-se e encolheu as pernas, apoiando a cabeça por sobre os joelhos e Elladan passou para a cama do irmão, envolvendo-lhe os ombros com o braço direito.
"Devia contar a ele o que aconteceu, Ro." O mais velho tentou. "Ele acha que está tudo bem."
"Está tudo bem."
"Não está. Você não consegue dormir. Fica tendo pesadelos com isso todas as noites desde que chegamos."
"Não vou falar nada."
"Por quê?"
"Por que não quero falar nisso."
"Acha que ele vai contar o que aconteceu para o Glorfindel, não é? Por isso não quer contar."
Elrohir endureceu o corpo com o comentário, mas depois balançou a cabeça.
"Vai passar." Ele apenas disse.
"E se não passar? E se acontecer novamente algo como aconteceu hoje?"
"Não vai acontecer. O idiota do Beinion me pegou distraído. Eu não fico pensando nisso todo o tempo. Foi por causa do que ele disse... ele..."
"O que ele disse?"
"Eu me chamou... de uma coisa... que aquele... aquele homem tinha me chamado também..."
Não valia a pena repetir. Não valia a pena lembrar daquilo. Foi o que completou aquele pensamento do gêmeo, mas o tremor que lhe sacudiu o corpo pareceu contrariar o que ele queria pregar como verdade ao irmão, por isso Elladan envolveu-o com um pouco mais de força. Elrohir apoiou a cabeça no ombro dele e soltou um suspiro.
"Não pode deixá-lo provocá-lo mais. Você conhece Beinion, ele não joga limpo. Não gosta de você desde aquele dia que você o desarmou na frente de todo o grupo de veteranos."
"Ele que tente me provocar novamente. Essa marca que me deu não vai ser nada perto de como vou deixar a cara de imbecil dele."
"Ótimo. Vou começar a levar a minha bolsa de primeiros socorros para os treinos."
Elrohir baixou os olhos com a brincadeira.
"Me desculpe, Dan."
"Pelo quê?"
"Está de castigo por minha causa."
O gêmeo soltou um suspiro, mas depois deu de ombros.
"Nah, que graça teria poder sair se você não pode?"
Elrohir sorriu.
"É... mas ter que escrever todas aquelas coisas para o ada..."
Elladan fez uma careta indisfarçável
"Não me lembre disso. Pior é que ele sempre escolhe algo que eu não sei de cor. Vou ter que pedir que me deixe ir até a biblioteca buscar aquele livro amarelo... Deve ser um texto imenso... Eu já estou até vendo..."
Elrohir sorriu com tristeza. Ele era um péssimo irmão mesmo para Elladan.
"Mas o código de ética do guerreiro também não é dos mais curtos." Provocou o mais velho, torcendo o rosto para olhar o caçula. "Você sabe de cor ou vai querer que eu pegue uma cópia para você amanhã quando tiver que ir à biblioteca?"
"Droga..."
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Passara-se mais uma lua até que Glorfindel permitisse que os irmãos voltassem ao treino. Aquele fora seu castigo, castigo esse que os irmãos aceitaram porque era o que se esperava deles, mesmo demonstrando estarem contrariados. Desde que retornaram parecia que estava difícil demais retomarem suas vidas. Elladan passava a maior parte do tempo com o irmão, mesmo quando apenas este estava ocupado com seus mapas e desenhos. Estava preocupado com as noites mal dormidas do gêmeo, com as coisas que sacudiam os seus sonhos, mas, principalmente, com o fato de o irmão não ter ainda mencionado sua intenção de romper por fim aquele voto de silêncio no qual estavam. Ele até se acostumara a se comunicar assim, mas sentia falta de algumas coisas especiais, como ouvir Elrohir cantar baixinho quando desenhava, ou imitar o som dos pássaros para atraí-los para mais perto.
Ele sentia falta de poder se comunicar como todo mundo, mas, sobretudo, sentia falta da voz do irmão, envolvida nas coisas que Elrohir gostava de fazer. Ele sabia que, quando Elrohir cantava, era porque estava feliz. Elrohir nunca mais cantara. Elrohir nunca mais dissera nada, mesmo em pensamento a comunicação dele com o gêmeo só se dava em casos de extrema necessidade. Na maior parte do tempo, o caçula mantinha a mente fechada, como era seu hábito.
Sim. Ele sentia falta da voz do irmão.
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Estava um dia de sol intenso no campo quando os irmãos chegaram. Glorfindel lançou-lhes um olhar insatisfeito que os gêmeos entenderam muito bem. Estavam atrasados pela terceira vez consecutiva. Elrohir fingiu ignorar, mas Elladan baixou a cabeça. Não queria que o mestre pensasse que havia pouco caso da parte dos dois. O problema é que como Elrohir mal dormia todas as noites, eles acabavam por perder a hora pela manhã, acabando sempre por despertar com a mãe já lhes chamando a atenção sobre o horário.
"Mais um atraso desses e eu mesmo foi tirá-los da cama pelas orelhas." O guerreiro louro disse aos irmãos, quando passaram por ele. Elladan balançou a cabeça em um pedido mudo de desculpas, mas os olhos de Elrohir já estavam na figura de Beinion, que escondia um sorriso de satisfação que o gêmeo gostaria de retirar com um certeiro de esquerda.
Os veteranos treinavam com suas espadas de metal agora, e só o som delas já enchia o gêmeo de ira. Estava tão cansado de usar aquelas malditas espadas de madeira, estava tão cansado daquele treino sem sentido. Quando aquilo ia acabar? Quando aquele sentimento de vazio ia cessar? Por que, depois de tudo, ele ainda sentia que faltava alguma coisa? Ele ainda se sentia culpado por algo?
Quando enfim pegou sua pesada espada de treinos e seus olhos caíram acidentalmente sobre o mentor, ele lembrou-se do porquê daquela pergunta que repetia todos os dias, mesmo sabendo sua resposta. Glorfindel retribuiu o olhar por um instante, mas logo o gêmeo moveu as órbitas para outro lugar. Desde que chegara ele vinha evitando qualquer contato com o mentor. Temia, inconscientemente que o elfo louro, em um deslize seu, descobrisse o que não devia saber.
Elbereth. O que pensaria dele?
Seu pai aceitara o que ele fizera, mas não contara ao amigo, não contara decerto a ninguém. Talvez porque sabia o que pensariam dele, o que descobririam sobre ele, sobre quem ele na verdade era.
Por essas e outras razões, Elrohir limitou-se a acatar as ordens do mentor por toda a manhã sem qualquer discussão, vencendo um a um os obstáculos, todos fáceis demais, todos inúteis demais para ele. Era como se estivesse condenado, não via mais prazer naquilo... não conseguia mais ver prazer em nada daquilo...
"Quer se concentrar no que lhe digo, elfinho!" Glorfindel ralhou com um outro elfo que segurava agora a espada de metal, ensaiando um golpe novo e preciso que o mestre tentava ensinar-lhe. Glorfindel ajudava-o a posicionar-se, envolvendo-o pelas costas e guiando-lhe os braços em um movimento circular que finalizava com um golpe perpendicular, seguindo de um novo giro, dessa vez em um ângulo menor. O objetivo do golpe era desarmar, de forma inesperada, um inimigo bastante astuto.
Que idiota! Elrohir pensou, observando o elfo repetir o mesmo erro e o mentor rolar insatisfeito os olhos. Alguns realmente só não eram melhores porque eram preguiçosos e desatentos. Só podia ser. Por que aquele imbecil tinha uma espada de ferro e ele continuava com a maldita espada de madeira?
"O que você está olhando?" O elfo indagou então, ao perceber o ar de descaso que, sem perceber, Elrohir lhe lançava. Ao invés de disfarçar e buscar algo melhor com que ocupar a mente, no entanto, o gêmeo ergueu desafiadora e instintivamente o queixo, em uma faceta que dizia mais do que qualquer resposta malcriada que pudesse dar.
"Chega, Angahor." Glorfindel advertiu, ao ver a troca de olhares dos dois pupilos. "Vá arrumar o que fazer, Elrohir."
O gêmeo franziu os olhos, encarando ainda corajosamente o elfo que já tinha uns bons centímetros a mais que ele. Angahor era na verdade o melhor dos elfos veteranos, por isso Glorfindel jamais o fizera lutar contra os novatos. Elrohir gostava ainda menos dele do que de Beinion.
"Concentre-se, Angahor." Advertiu mais uma vez o mentor, enquanto o jovem guerreiro tentava ao máximo realizar a tarefa a ele destinada. O problema era que, mesmo tentando ignorar, estava agora se sentindo intimidado com o olhar que o gêmeo continuava a direcionar a ele. "Assim não é possível!" Glorfindel explodiu. "Quer se concentrar! Não é nada de outro mundo o que estou lhe pedindo." Ele completou contrariado, afastando-se depois para dar algumas instruções para um outro grupo. Era seu hábito dar sempre um tempo ao pupilo quando sentia que o estava pressionando demais.
Mas o jovem Angahor, não fez um uso positivo daquele tempo que ganhara do mentor, na verdade o afastamento do mestre, soou como se Glorfindel houvesse desistido dele, e isso o irritou ainda mais agora, sem saber se era pela repreenda ou pelo porquê que a despertara.
"Então manda aquele molequinho desgraçado ali parar de olhar para mim." Ele desabou sua queixa, já totalmente contrariado. E talvez por isso, quando os olhos de Elrohir se arredondaram e escureceram por um motivo completamente desconhecido para o jovem guerreiro. Angahor deu ao fato outra interpretação e ergueu a espada na direção do gêmeo. "Venha cá, molequinho desgraçado." Ele repetiu a afronta sem perceber. "Ladrãozinho de espadas. Venha ver como se usa uma de verdade."
Quando Glorfindel deu por si já era tarde. Elrohir atendera com relativa satisfação o pedido e, para a surpresa de todos, agora enfrentava o elfo mais velho com a espada que tinha nas mãos. Por sorte, a arma de Angahor, apesar de ser de metal, não tinha qualquer fio, por isso a pesada espada de madeira de Elrohir, em suas mãos habilidosas, acabara por mostrar-se uma arma a altura.
Uma roda se formou à volta deles. Glorfindel até pensou em impedir aquele absurdo, mas vendo a imagem do pupilo, enfrentando bravamente e à altura um adversário que todos julgavam superior a qualquer um daquele grupo de estudantes, contivera-lhe os movimentos por um tempo longo demais.
Em mais dois golpes Elrohir foi ainda mais surpreendente, girando a espada no golpe exato que Glorfindel tentava ensinar a Angahor e atirando a arma de oponente longe. O elfo não teve tempo sequer para admirar-se ou enervar-se com a qualidade do golpe recebido, pois o gêmeo não parou por aí, não pensando duas vezes em acertar Angahor com um chute bem dado no estômago e derrubá-lo de costas. Na verdade, teria ido além e o atingido ainda no chão com sua espada se o mestre não o tivesse segurado a tempo. Só então Glorfindel percebera que o menino não estava encarando aquela prova como um desafio qualquer.
"Pare, Elrohir! Já chega!" Ele o advertiu enquanto o pupilo se sacudia em seus braços. Custou alguns instantes para que seus gritos de advertência e ameaças fossem atendidos. Quando enfim o jovem moreno aquietou-se, o mentor o libertou, afastando-o do outro aprendiz e ainda mantendo uma mão erguida em uma indicativa inquestionável de que não permitira que ele repetisse a maluquice que fizera. "Enlouqueceu? O que por Mandos foi isso aqui? Que grupo é esse que estou instruindo?"
Elrohir arfava ainda, totalmente cego pelo ódio e Glorfindel percebeu que o olhar do menino ainda estava na figura de Angahor que, de tão impressionado, agora retribuía receoso o olhar.
"Ele é doido. É o que é. Deve ter sido aprisionado pelos orcs ou algo assim. Vocês deviam prendê-lo. A viagem roubou a pouca sensatez que ele tinha." Arriscou inconformado o jovem elfo, erguendo em seguida a mão em sua defesa ao perceber o menino avançar furiosamente sobre ele mais uma vez.
Elrohir teria conseguido, se o mestre não o houvesse segurado de novo. Dessa vez, no entanto, o menino libertou-se com rapidez, jogando o corpo agilmente para trás e empurrando então o mentor para que se afastasse dele. Seu peito arfava incontrolável, o olhar ensandecido voltava-se para todos os outros agora. Glorfindel envergou as sobrancelhas douradas atônito. Por Ilúvatar, aquele menino parecia o próprio Tulkas!
"Pare já. Elrohir!" Ele ergueu a voz, buscando contê-lo mesmo assim. "É a última vez que vou dizer isso. Não me obrigue a usar as minhas mãos e lhe dar uma reprimenda que jamais dei em pupilo algum."
Elladan já estava ao lado do caçula, os olhos redondos de surpresa, mas ele não se atrevera a segurar o irmão. Não no estado que este estava. Elrohir olhou então para Glorfindel e o elfo louro sentiu um frio na espinha com o que viu. Era um ódio tão grande. De onde viera? Por que viera?
No entanto ele teve pouco tempo para analisar o semblante do menino, pois logo este dava as costas e corria dali em direção a casa maior. Elladan não esperou autorização para acompanhá-lo.
