Olá. Espero que todos estejam bem.

Agora que estou prestes a publicar o penúltimo capítulo dessa fic, que começou como uma rememoração e acabou ganhando vida própria, vejo o peso que esse texto ganhou para mim. Com certeza ele não estar entre os trabalhos mais bem recebidos que escrevi, os fãs do meu Legolas com certeza ainda não me perdoaram por eu dedicar tanto tempo a esses dois irmãos que sempre foram coadjuvantes, ainda que muito especiais, nas minhas fics.

No entanto, para mim, esse texto acabou entre os que mais prazer tive em escrever. Foi especial porque precisei pesquisar muito, foi especial porque os gêmeos eram apenas crianças, então não havia a ferramenta de sedução que o escritor sempre pode usar quando tem um elfo adulto e muito bonito como personagem principal; foi especial porque não havia também o discurso sempre contundente e malcriado de um gêmeo que, por conta própria decidiu se calar. É não havia mesmo muitos dos recursos que eu estava acostumada a usar, mas o texto acabou saindo, tão teimoso como o próprio Elrohir.

E eu acabei gostando muito mesmo de escrevê-lo

Bem, deixo aos bons amigos que estão me acompanhando e motivando sempre um pouco das últimas arestas que ainda precisam ser aparadas para que o elfinho teimoso consiga, enfim, sentir que seus problemas se resolveram.

Muito obrigada novamente a todos os que estão acompanhando.

Beijos

Sadie


CAPÍTULO XIX – INCOMPREENSÃO

"A juventude, ainda que ninguém a combata, acha em si mesma seu próprio inimigo."

William Shakespeare


Elrond passara quase toda tarde ausente. Havia abandonado a casa maior acompanhado de outros elfos da ala de cura, com o objetivo percorrer alguns atalhos na floresta circunvizinha em busca de ervas e outras matérias-primas específicas para alguns experimentos que faziam. Na verdade buscava ocupar um pouco a mente com algo que lhe aprazia, para assim, quem sabe, esquecer-se por um breve momento que fosse, toda a dificuldade que estava enfrentando para readaptar-se a sua velha rotina. Passava os dias no escritório, olhando para os mesmos papeis, mas seu pensamento ainda estava nos filhos, a quem procurava dar algum espaço, mas em quem não conseguia deixar de pensar. Eles pareciam bem, ansiosos para estarem novamente no campo de treinos, principalmente depois do pequeno incidente ocorrido. Mas algo neles, principalmente em Elrohir ainda soava-lhe como uma nota que desafina em uma canção já bastante ruim.

Esperava demais. Ele sentia a cada dia. Esperava demais para sentar-se com eles, para tentar saber de suas fragilidades, do que ainda restava daquela dor toda. O problema era que os filhos não estavam facilitando as coisas. Ao sair ele até pensara em levar Elladan consigo, para, quem sabe longe do irmão e da casa maior, conseguir diminuir aquela distância que estava surgindo, retirar sutilmente a barreira que se formava e, com mais sorte ainda, tentar compreender, através do mais velho e mais ponderado filho, como seu caçula se sentia. Aquele incidente no campo de treinos, apesar de aparentemente insignificante, ainda estava criando imagens escuras em sua mente de pai. Ele queria muito saber mais sobre o que , no entanto, não parecera empolgado, nem a ir, nem a dar ao pai qualquer informação, nem mesmo um porquê convincente para a recusa.

Restava-lhe agora, naquele caminho de volta, a mesma sensação de desconforto que parecia espreitá-lo a cada instante, um receio indigesto de algo que nem mesmo ele conseguia converter em pensamentos coerentes. Na verdade estava se sentindo impotente. Como pai sabia que devia fazer mais e temia extremamente o que aqueles vazios que deveriam ser ocupados por atitudes suas podiam originar. Já conhecera frutos amargos o bastante gerados por suas falhas como pai...

Ele, o pai... percebia enfim que não tinha tanto controle ou compreensão da situação de sua família como julgara ter. Ele, o pai, não fora capaz dar ao problema uma solução menos amarga logo em seu princípio, não fora capaz de impedir que o caçula passasse pelo que passara, não fora capaz de fazer com que a família confiasse nele o bastante para aguardar pela sua volta...

Não. Sua família não foi capaz de aguardar por ele porque talvez não confiassem nele tão plenamente mais...

Afinal, ele já falhara antes e por isso o filho se vira obrigado a tentar recuperar por conta própria algo que o pai jamais deveria ter permitido que dele tivesse sido retirado.

E os frutos desse conjunto de erros talvez fossem ainda piores; Por essa razão, apesar dos sorrisos e do afeto que a família continuava a lhe reservar, seu coração permanecia assombrado pelo receio de que, talvez, não fosse mais capaz de oferecer à família a sensação de segurança que todo o pai deveria ser capaz de oferecer...

Talvez fossem aquelas sensações que ainda roubavam-lhe a paz, talvez fossem aquelas descobertas, aquela necessidade que agora sentia de que precisava ficar mais atento, de que precisava rever velhos princípios, de que precisava aprender a ser de fato a desempenhar o papel mais importante de sua vida...

Precisava aprender a ser pai...

Quando Elrond já estava a poucos metros da casa maior a sensação cresceu, desagradável e indigesta. Sentada ao lado de Glorfindel na varanda, Celebrian conversava atentamente com o guerreiro louro, balançando a cabeça e unindo as mãos por sobre o colo. O rosto da elfa estava pálido e preocupado e o do amigo também não transparecia um sentimento diferente.

Em poucos instantes os olhos claros dela o avistaram e Elrond, mesmo de longe, procurou ler o que havia acontecido. Mas a elfa parecia indisposta a se contentar com a troca de sensações que sempre os unira diante de qualquer problema. Ela se ergueu de imediato, dando alguns passos à frente e parando diante da escada como quem tenta, ao máximo, encurtar uma distância o quanto antes.

Foi o que bastou para Elrond apressar o passo, já subindo aqueles degraus com um olhar adornado por suas escuras sobrancelhas em V.

"O que se passa, Estrela?"

"Você demorou tanto!" Celebrian queixou-se em um tom que Elrond não se lembrava de tê-la visto usar e tomou as mãos do marido assim que o teve a seu alcance. "Aconteceu alguma coisa com Elrohir, meleth-nín."

Elrond empalideceu, voltando-se imediatamente para o amigo, que lhe ergueu uma mão, pedindo calma.

"Não é nada físico." Ele adiantou, sem nem erguer-se de onde estava, parecia indisposto até mesmo a falar. "Ele está bem..."

Elrond envergou as sobrancelhas ainda mais, e sua paciência foi o bastante para esperar pela explicação apenas por poucos instantes. Logo ele mesmo puxava uma cadeira e sentava-se com um olhar inquisidor diante do amigo louro. Conhecia Glorfindel há muitos anos, dezenas de invernos e verões, e jamais vira nele a expressão que o guerreiro agora procurava disfarçar. Ele não estava apenas preocupado, ele estava perturbado com algo que não compreendia.

Por isso mesmo, talvez, quando o amigo reergueu os olhos e foi, pouco a pouco, oferecendo a mesma narrativa detalhada do que havia acontecido que fizera a Celebrian, Elrond buscou o encosto da cadeira, percebendo que havia de fato um porquê bastante sério para o desaparecimento da cor e da alegria do semblante da esposa.

Uma vez finalizado o relato, Glorfindel nem mesmo olhou o casal. O término daquela história, por ele relatada tal qual um desabafo, não parecia tê-lo ajudado a compreendê-la, ou a sentir-se ao menos um pouco melhor.

"Eu fui até o quarto." Celebrian adicionou. "Mas não consegui tirar nada deles. Elladan estava evasivo e Elrohir nem sequer me olhou. Ficou andando pelo lugar, tal qual um lobo acuado por um grupo de caçadores, o tempo todo que estive lá. Estava tão incomodado com minha presença, tão nervoso. Parecia que ia explodir. Nunca o vi assim."

"Se ao menos ele me dissesse o que se passa." Glorfindel queixou-se consigo mesmo. "Mas tudo o que faz é me evitar desde que chegou."

Aquela informação nova, no entanto, mudou levemente o semblante preocupado do curador.

"Como assim? Desde que chegamos não teve com ele qualquer contato?"

O elfo louro soltou um suspiro insatisfeito.

"Nada que se comparasse ao que tínhamos. Ele mal responde às minhas instruções, na verdade quase nem me olha. A princípio julguei que fosse o cansaço da viagem, a indisposição, mas depois percebi que era algo comigo, decididamente, haja vista que os colegas até conseguiam roubar-lhe algum riso e envolvê-lo em brincadeiras. Já eu custo a receber um olhar que seja dele."

Elrond silenciou-se por um instante, repetindo mentalmente a história que ouvira.

"Do que disse que Angahor o chamou?"

"Ele não teve a intenção. Elrohir o estava provocando, Elrond. Sabe que não defenderia aluno algum meu se não fosse justo. Depois dos gêmeos, Angahor é meu aprendiz mais dedicado. É um pouco arrogante, mas jamais buscou confusão com alguém, principalmente os pequenos."

Elrond ergueu a palma, balançando a cabeça diante daquele desnecessário discurso de defesa.

"Apenas me responda, mellon. Nada farei contra o rapaz, sabe disso. Só desejo tirar uma dúvida."

"Não ouvi a discussão dos dois. Mas um dos pequenos me disse que ele o chamou de ladrão de espadas. Acho que foi isso que o enervou. Angahor não devia tê-lo feito..."

Elrond esfregou a têmpora pensativo.

"Chamou-o de molequinho também. Molequinho desgraçado." Adicionou Glorfindel insatisfeito, com os olhos fixos naquela cena do passado. Estava tentando conter-se para não castigar Angahor devidamente. Provocado ou não ele jamais deveria ter se aproveitado da dor de alguém para usá-la daquela forma, pelo menos não naquelas circunstâncias. Angahor sabia bem o que estava fazendo. Elrohir estava fragilizado demais para lembra-se de que estava em um treino, como das outras vezes em que os pupilos trocavam propositalmente provocações para testarem suas habilidades de guerra.

Dessa vez o rosto de Elrond endureceu e suas órbitas escuras escorregaram pelos globos como se seguissem uma ideia furtiva, que queria levá-lo a um lugar específico. E ele encontrou, enfim, um elo bastante convincente para todos aquelas peças perdidas.

"Ah, Ilúvatar..." Ele clamou, pousando a palma sobre a face esquerda e esfregando-a sem grande esforço. Logo a mão de Celebrian estava sobre seu joelho. Ele voltou os olhos para ela e a esposa percebeu que o marido parecia ter desvendado o mistério.

"Algo está errado, não está, Elrond?"

"Está. Está sim, Estrela minha." Respondeu o curador com um esforço visível para conter a consternação. "Quis dar a ele espaço desde que chegamos. Estive adiando tratar de assuntos delicados, e agora percebo que tudo o que fiz foi repetir o mesmo erro de antes."

"Do que está falando, meleth?"

Elrond soltou as mãos sobre o colo, apoiando os braços nas pernas e encurvando o tronco. Ele ainda balançou acabeça algumas vezes, inconformado, antes de voltar a olhar para a esposa.

"As experiências pelas quais nosso filho passou, melethril-nín... Não foram fáceis... De algumas delas nem sequer estamos ou ainda tentamos estar a par."

"Acha que ele está assim violento por causa de algo que aconteceu na viagem? Está com algum trauma sério ou algo parecido?"

"É provável." Elrond respondeu pensativo, já erguendo os olhos em direção às inúmeras janelas da casa maior. "Muita coisa aconteceu com ele... Segui seus passos, mas não seu coração... Para ser sincero, nem seus passos consegui de fato seguir pelo tempo que seria necessário. Talvez por isso meu coração ainda não foi ocupado pela coragem que necessita para que eu consiga tentar conjeturar sobre o que aconteceu com ele nesses dias. Acho que semeei a tola ilusão de que, como se por magia, o fato de termos retornado a Imladris fosse fazer por ele mais do que cicatrizar suas feridas externas..." Ele soltou um suspiro forte então e seu olhar se perdeu, antes que a última frase lhe escapasse como um desabafo. "No fundo eu sempre soube que algumas feridas... algumas feridas simplesmente nunca cicatrizam..."

"Ai, meleth." Celebrian disse agoniada. "Não diga isso, por favor."

Elrond baixou os olhos, respirando profundamente.

"Não podemos negar, Estrela minha... Ele era apenas um menino... Um menino que escapou de minhas mãos mais uma vez." Ele comentou em tom triste e o casal trocou um olhar de cumplicidade e agonia que Glorfindel não entendeu. "Nunca havia visto o mundo, principalmente o mundo que se mostrou a ele..." Adicionou, depois tornou a balançar a cabeça. "Temo que o menino que saiu daqui... nunca voltará, melethril-nín... E nós... principalmente eu, precisamos aprender a lidar com o que esse mundo difícil para o qual trouxemos nossos filhos fez a ele. Porém... antes disso, precisamos descobrir o quão profunda foi essa modificação."

Celebrian cobriu os lábios com a mão delgada, os olhos distantes agora.

"Acha que sofre agora por algo que desconhecemos?" Ela enfim indagou, como se temesse pela resposta a ser recebida. "Algum acontecimento ou fato terrível que ele não nos revelou?"

O lorde elfo respirou fundo, depois segurou o ar no peito um tempo, antes de libertá-lo pelos lábios entreabertos.

"Creio que este fato em especial não esteja ligado a nada que desconheçamos... na verdade temo saber bem o que o continua incomodando... Algo sobre o qual chegamos a conversar, mas que talvez eu não tenha sido capaz de esclarecer devidamente."

Celebrian envergou as sobrancelhas e ainda olhou um momento para um igualmente confuso guerreiro louro antes de uma ideia surgiu-lhe garganta acima.

"Ai, meleth." Ela disse em tom lamentoso. "Diga-me, por favor, que não tem relação alguma com o que aconteceu nos pântanos."

"O que aconteceu nos pântanos?" Glorfindel foi logo indagando, antes mesmo que Elrond pudesse dar qualquer indicação positiva ou negativa para a questão da esposa. O lorde elfo moveu então os olhos para o amigo e este sentiu um desagradável arrepio na espinha, tal qual o que sentira diante do olhar escurecido do menino naquela manhã. "Estão falando do Pântano dos Mosquitos? Elrohir cortou caminho por aquele lugar em sua jornada?"

"Não contou a ele, Elrond?" Celebrian indagou surpresa. "Não contou a Glorfindel o que aconteceu a Elrohir no Pântano?"

Dessa vez os traços de preocupação do mentor se agravaram como nunca. Sua atenção revezou-se do semblante pesaroso e inquieto da senhora de Imladris para o do marido dela algumas vezes, à espera do esclarecimento daquele mistério. No entanto, nem o elfo moreno, nem sua esposa, pareciam dispostos a oferecer qualquer resposta efetiva.

"Elrond." Ele pressionou então.

O curador encostou-se no encosto da cadeira mais uma vez, olhando atentamente para o amigo agora. Seguiram-se uns instantes de silêncio absoluto no qual Glorfindel percebeu que o outro tentava encontrar as palavras certas para dizer-lhe algo, mas simplesmente não estava conseguindo. A sensação desagradável só cresceu ainda mais, quando o curador balançou a cabeça, parecendo perceber-se incapaz da ação que tinha que executar.

"Por que não contou?" Celebrian repetiu a pergunta inconformada. "Ele pode ajudá-lo."

"Eu sei..." Elrond voltou a cobrir o rosto. "Mas para contar a Glorfindel tal fato tinha que pedir a Elrohir permissão..."

"E para pedir permissão teria que levantar o assunto novamente." A elfa concluiu então, com um breve, porém compreensivo sorriso. "Mas precisamos fazer algo..."

"Sim. Precisamos." Elrond voltou a massagear o rosto com ambas as mãos. Depois seus olhos estavam novamente no agora menos confuso guerreiro louro. Glorfindel, contudo, não parecia satisfeito com o que percebia naquelas entrelinhas.

"Pensei que já tivesse se dado conta de que precisa dividir os problemas ao invés de encará-los sozinho, Elrond." Ele observou em um tom de advertência que na verdade não desejava usar. Ilúvatar, estava por demais preocupado. Depois que o curador voltara e reatara-se a amizade entre os dois, a dor por não tê-lo seguido em sua jornada arriscada amenizara-se um pouco, mas agora tudo parecia de volta, em uma intensidade ainda pior.

E o passado agora provocava o guerreiro louro, atirava-o novamente no mesmo turbilhão de culpas e dúvidas do qual ele custara tanto a sair. Elbereth, ele tinha que ter feito mais logo no início... Mas não pôde. Se ele ao menos tivesse compreendido o que se passara logo no início... Se ao menos tivesse conseguido imaginar qual caminho haviam tomado... Nem mesmo sabia que a família partira separada daquela forma... Mandara patrulhas a todos os cantos, em todas as direções, mas não se atrevera a seguir nenhuma delas, tendo que conter-se em ficar na cidade, à espera de uma notícia mais efetiva a qual pudesse de fato seguir.

Glorfindel respirou fundo, procurando lidar com a aspereza daquela nova viagem pelos remorsos passados, relembrando o choque que tivera ao receber a carta de Círdan e depois suas árduas discussões junto a Erestor diante do conselho. Aqueles foram momentos muito duros, quase perdera a cabeça tentando convencer aqueles inúteis da gravidade do que haviam feito. Ilúvatar, se não tivesse prometido ao amigo conselheiro conter-se teria esmurrado cada um daqueles lordes presunçosos pelo que haviam feito aquele menino fazer, pelo que haviam feito aquela família toda passar.

"Eu sinto muito, mellon-nín." Ele ouviu a voz do curador e seus olhos refocaram-se na tristeza que se refletia no olhar do amigo. "Acho que tenho me calado demais... Depois de tudo o que meu silêncio gerou, eu já deveria ter aprendido essa lição que a ventura deseja me ensinar."

O lorde louro mordeu então o canto dos lábio ao perceber que seu comentário anterior não havia sido de grande serventia. Ele respirou fundo então, pensando no que seria mais grave, calar-se como Elrond fizera diante de um problema, ou cuspir verdades ou meias-verdades aos quatro ventos como ele ultimamente andara inclinado a fazer.

"Se acham que eu posso ajudar, talvez esse deva ser o momento. É e meu desejo fazê-lo, mellyn-nín." Foi o que permitiu que seu coração dissesse em lugar de sua tão contundente, olhando alternadamente para o casal.

Celebrian ofereceu um sorriso triste e Elrond respirou fundo, parecendo querer encher-se de coragem.

"Não será fácil. Especialmente para você." Ele adiantou.

"Diga-me apenas o que deseja que eu faça e verá feito." Glorfindel foi categórico e seu tom decidido alimentou um pouco das forças do curador. Ele trocou um olhar breve com a esposa, depois encarou o amigo com respeito.

"Creio que para isso, será preciso que você me acompanhe até o quarto dos meninos. Tenho que pedir-lhe que fique lá comigo, mesmo que sinta que sua presença não é desejada, mesmo que Elrohir deixe claro que não o quer ali."

Glorfindel endureceu o rosto.

"O que fiz a ele, Elrond?"

"Mellon-nín, não se trata disso..."

"Mas está praticamente afirmando minhas desconfianças."

"Quais desconfianças?"

"A de que ele está magoado comigo por algum motivo... Eu só quero saber por quê. Só desejo saber o que fiz ou deixei de fazer para que um sentimento desses tenha se instalado no coração do menino."

Elrond deixou o ar sair pelos lábios cerrados, ainda olhando o amigo com aquele mesmo ar que passara a incomodar Glorfindel tremendamente. Raras foram as vezes em que o guerreiro vira o curador buscando pelas palavras certas de forma tão cuidadosa. Por isso, quando o Elrond voltou a olhar para a esposa, como se houvesse desistido de sua procura, o elfo louro se inquietou ainda mais.

"Estrela," Ele disse e até naquela frase Glorfindel sentiu que o senhor de Imladris colocava mais cuidado e zelo no embalo de sua voz do que fazia normalmente. "Preciso que estejamos a sós com ele, melethril-nín."

Elrond notou o desapontamento da esposa, mas ela o disfarçou assim que sentiu o olhar complacente que ele lhe direcionava e soltou os ombros, disfarçando a insatisfação. Não queria admitir que chegara aos limites de suas possibilidades de mãe, principalmente após tentar, por meio de todas as armas de que dispunha, convencer o filho a revelar-lhe o que se passava em seu íntimo, sem contudo obter êxito.

"Ele já se mostrou fragilizado o suficiente diante de você, Estrela minha." Elrond esclareceu. Não queria que a esposa sentisse que não era capaz de ajudar o filho. "Em sua presença tentará parecer forte, como vem fazendo desde que chegamos."

Celebrian soltou os lábios, diante daquela possibilidade que não cogitara e que parecia mais sensata do que ela gostaria que fosse. A conclusão acabou por descer amarga pela garganta da senhora da Imladris: Restava-lhe agora aguardar, situação essa que esposa ou mãe alguma apreciava, mas com a qual tantas vezes era preciso se resignar.

"Por favor, Estrela minha." Ela ouviu o marido dizer, tocando-lhe sutilmente o rosto. A elfa pressionou o maxilar, ainda apreensiva, mas acabou por assentir com a cabeça.

"Peça que me chamem se precisar de mim, meleth-nín."

Elrond espelhou o gesto, por fim ergueu-se e apoiou a mão no ombro do antigo elfo de Gondolin.

"Virá comigo então, mellon-nín?"

Glorfindel nem respondeu, erguendo-se de imediato. Seu rosto, porém, era o de quem vai a uma guerra contra a própria vontade. Ele seguiu os passos do amigo de perto, enquanto alçavam cada degrau da escada que os levava ao quarto dos dois irmãos com um sentimento misto de apreensão e urgência a hora conter-lhes, ora acelerar-lhe os passos. Eles se entreolharam algumas vezes durante o trajeto até, por fim, Elrond se ver diante da porta dos meninos. Vencer aquele último obstáculo também não esteve entre as provas menos árduas para nenhum daqueles guerreiros, mas, uma vez lá Elrond, entrou devagar, dessa vez sem bater.

Pela janela entreaberta entravam os raios do entardecer e uma brisa dos primeiros dias de primavera. Elladan estava sentado em sua própria cama, com as pernas dobradas embaixo de si. Já Elrohir parecia ainda estar no caminho árduo que sua mãe descrevera, pois continuava em pé, e só estagnara seus passos quando viu a figura do pai.

Elrond continuou seu trajeto sem hesitação. No rosto, porém, não havia o ar austero que os filhos esperavam. No entanto, quando eles reconheceram quem o acompanhava, ambos os irmãos empalideceram quase na mesma intensidade. Glorfindel entrou sem olhar qualquer dos gêmeos, posicionando-se perto da porta com as mãos atrás das costas.

O próximo passo naquela cena forçada que o curador estava sendo obrigado a armar não foi dos mais fáceis, pois a primeira atitude do gêmeo caçula, ao perceber o que estava por vir, foi dar aos recém-chegados às costas e colocar-se diante da janela. Seus ombros estavam rígidos, e assim continuaram, mesmo quando ele segurou o batente abaixo e começou a gingar o corpo ligeiramente para frente e para trás, como se estivesse tentando se acalmar.

Elrond encheu o peito de ar. Se pudesse ser de sua escolha preferia nunca mais ter que tratar do assunto que o trazia de volta àquele quarto. Mas era seu papel e agora percebia quanto mal postergar tê-lo cumprido havia ocasionado. Por esse motivo, ele caminhou devagar até a cama do caçula e se sentou.

"Venha cá, Elrohir." Chamou enfim e esperou alguns instantes, mas o gêmeo não se moveu. "Elrohir. Sabe que temos que conversar."

Mais silêncio.

Elrond soltou um suspiro forçado, percebendo a dificuldade que a situação impunha.

"Vamos, Elrohir. Venha sentar-se aqui e falar comigo. Vamos entender e resolver o problema que o incomoda." Ele ainda tentou, mas tudo o que conseguiu foi a imagem do menino enrijecendo ainda mais o corpo, diante da mesma janela.

O lorde elfo tornou a esvaziar o peito. Elrohir nunca fora uma criança de temperamento fácil. Moldar-lhe o comportamento e direcionar-lhe o caráter desde pequeno sempre fora uma tarefa cheia de surpresas e imprevistos. Mas ele era um bom menino e jamais o afrontara tão diretamente quanto estava fazendo naquele instante.

"Venha, ion-nín." Ele ainda tentou uma vez mais, descendo seu tom e limpando a voz de qualquer sinal de repreensão, para assim, quem sabe, encorajar o filho.

O gêmeo apenas fechou os olhos e endureceu o queixo. E Elrond chegou a sentir que o que o menino queria mesmo era cobrir os ouvidos para não ouvi-lo mais chamar por ele. Elbereth, ele estava irritado de fato, não era de se admirar que sua atitude houvesse despertado tamanha preocupação na mãe.

Mas Elrond era um pai experiente, pelo menos quando se dedicava de fato ao que o momento lhe propunha, e como pai ele sempre tinha algumas cartas nas mangas das quais não desejava fazer uso, mas o momento acabava por forçá-lo a isso. Ele ponderou a situação na qual estava por um tempo, depois moveu os olhos para o primogênito na cama ao lado. O gêmeo nem sequer se mexera, mantendo a atenção forçosamente presa aos detalhes da colcha sobre a qual estava sentado.

"Elladan." Chamou enfim o pai, indisposto, mas obrigado, a fazer uso de uma de suas cartas. "Vá ficar com sua mãe, por favor, ion-nín."

O primogênito ergueu surpreso os olhos, e mais surpreso ainda ficou quando não conseguiu ler o que estava no semblante do pai. O rosto do curador estava intraduzível, nenhum traço de decepção, ou indignação, nenhuma leve menção do que estava por vir. O pai nem mesmo contraíra as sobrancelhas. Elbereth, nunca o vira assim.

"Sem demora, menino." Elrond adicionou, a atenção já no outro filho na janela.

Sem demora. Elladan custou a repetir mentalmente a advertência do pai. Sabia o que isso significava. Sabia que devia obedecer. Ele ainda arriscou um olhar para o irmão e sentiu seu corpo esfriar diante da mesma total ausência de reações deste. Elrohir não parecia se importar com sua saída e isso não era um bom sinal. Mesmo assim o gêmeo mais velho decidiu tentar uma última manobra, ele tornou a olhar para o pai, torcendo as sobrancelhas como quem deseja entender por que deveria abandonar seu próprio quarto. Eles jamais haviam sido repreendidos separadamente antes, mesmo se apenas um deles fosse culpado pelo deslize.

Elrond compreendeu o olhar questionador do filho, por isso aproveitou a oportunidade para lançar mais algumas sementes que talvez pudessem ajudar.

"Preciso que saia, menino. Essa noite, e todas as outras que forem necessárias, você deverá dormir no quarto de hóspedes." Ele informou e logo seus olhos estava fixos novamente na figura do caçula à janela, parecendo analisar o que suas palavras despertavam.

E uma reação foi o que o pai conseguiu, assim que terminada a sentença. Elrohir baixou a cabeça e o curador percebeu-o olhar de soslaio para o irmão na cama. Elladan também reagiu à sua forma, mesmo surpreso com a informação ele envergou ainda mais as sobrancelhas, buscando esclarecimento para aquilo também.

Elrond olhou novamente para primogênito e sentiu uma ponta de orgulho por vê-lo discutir com ele uma decisão como raras vezes fizera. Elladan só se colocava em uma posição defensiva daquela forma quando na verdade não era ele a pessoa a quem desejava defender.

"Preciso conversar com seu irmão, Elladan. E se para conseguir fazê-lo tiver que afastar vocês dois eu infelizmente o farei. Elrohir não está me dando alternativa melhor, ion-nín."

O rosto do gêmeo mais velho ficou inexpressivo por um tempo e Elrond pôde perceber um brilho de tristeza surgir vagaroso e daninho nos olhos escurecidos dele. Sabia que em seu coração de menino, o filho não tinha experiência o bastante para entender em qual papel o pai precisava colocá-lo naquela busca pela verdade.

"Vá agora, menino. Confie em mim... pelo menos você, ion-nín." Ele pediu então e talvez por causa deste pedido ou pelo olhar mais austero que o seguiu, o jovem elfo sentiu que já abusara da sorte e que não lhe restava caminho naquela indigesta encruzilhada. Ele então jogou os pés para fora da cama, compelido a obedecer ao pai, como sempre fizera, mesmo sentindo que agia como quem cai em uma armadilha por vontade própria.

Elrohir, que até então se esforçava para fingir desatenção às palavras do pai, pareceu enfim incomodado, ao perceber que o primogênito tinha desistido de sua resistência e decidira obedecer à determinação recebida. Ele passou a acompanhar o movimento hesitante do irmão, e quando este se ergueu e lançou-lhe um pedido não verbal de desculpas, o gêmeo mais novo sentiu o quão sério o pai estava falando.

Talvez por isso, ou por outro acesso de loucura qualquer que mais tarde ele também não saberia explicar, como já vinha não sabendo explicar quase tudo o que fazia ou sentia, Elrohir agarrou um dos braços do gêmeo, antes que este pudesse se afastar. Ainda assim não escapou dele qualquer palavra, mas o pai pode ler, infelizmente bem demais, o que aquele olhar angustiado do menino dizia.

Elbereth, por que o pai queria afastá-lo do irmão? O que ia dizer a ele que Elladan não pudesse ouvir? Por que os estava separando? Não queria que fossem separados mais.

Elladan surpreendeu-se, mas vendo o irmão balançar a cabeça com tanta convicção e angústia, também ele compreendeu aquelas mesmas mensagens, por isso acabou lançando um olhar desesperado ao pai, que traduzia ainda melhor, sem qualquer dificuldade, o pedido dos filhos.

Elrond encheu o peito. No rosto nenhuma alteração. Ele parecia saber exatamente o que fazia, embora só ele mesmo soubesse o quanto lhe doía fazê-lo. Glorfindel, que observava a cena, agora soltara as mãos e continha-se ao máximo para continuar mantendo-se de expectador naquela história triste.

"Se deseja que seu irmão fique, Elrohir, terá que se sentar aqui e me fazer saber o que aconteceu. Caso contrário afastarei vocês dois até que sinta a necessidade de se comunicar comigo, nem que seja como faz com ele." Elrond disse bastante sério e calou o coração o quanto pôde ao ver o menino endurecer novamente o corpo como se houvesse sido golpeado e apoiar a testa no ombro do irmão. Seus dedos estavam tão agarrados no braço do mais velho que Elrond admirava-se pela dor não ter forçado o filho a pedir ao caçula que o soltasse.

Mas Elladan continuou imóvel. E tanto o pai quanto o mentor percebiam-no agora tentando convencer mentalmente o gêmeo do que seria melhor fazer. Elrohir apenas balançava a cabeça, a princípio sem muita convicção, mas depois angustiantemente, em uma negação mais do que clara ao que quer que lhe estivesse sendo sugerido.

Elrond aguardou mais alguns poucos instantes.

"Saia, Elladan, por favor." Ele colocou sua voz novamente, fazendo mais pressão em um momento que julgava apropriado.

Custou ainda um doloroso instante até que o mais velho manifestasse a intenção de atender ao pai, e só naquele momento a manobra de Elrond pareceu funcionar, pois Elrohir voltou a sacudir a cabeça, a princípio agarrando-se ainda mais no irmão, mas por fim soltando-se dele. Elrond chegou a pensar que o caçula fosse permitir o afastamento dos dois, mas logo seu próximo passo foi na direção que o pai instruíra.

O curador observou a aproximação do filho com paciência, enquanto este praticamente se arrastava em sua direção e se sentava pesadamente na cama do irmão, à frente do pai. Elrond buscou ignorar o ar extremamente desgostoso e contrafeito atrás do qual o filho decidira se esconder e olhou-o com cuidado. Logo as nuvens negras e as bolsas abaixo dos olhos do menino lhe chamaram a atenção e ele lamentou que após sua chegada, seu zelo pelos filhos não tivesse sido mais efetivo. Ilúvatar, desde quando aquele menino sofria e ele não se apercebera disso? Quantas vezes uma mesma pessoa poderia cometer um erro idêntico?

"Pegue sua lousa, Elladan, por favor." Ele pediu então ao filho mais velho, que atendeu prontamente, reaproximando-se com a pedra de ardósia que ganhara de Erestor e um pedaço de giz. Elladan a usava com frequência para trocar instruções com o pai e os mentores. Elrond agradeceu depois de pegá-la e esperou o filho voltar a se afastar.

Elladan arrastou o passo inseguro pelo quarto, mas por fim foi se posicionar ao lado do mentor, que sentiu certo alívio ao vê-lo procurar sua companhia. Quando Glorfindel colocou a mão por sobre seu ombro, Elladan soltou o ar do peito. Queria que aquilo tudo acabasse, que tudo se resolvesse de vez. Estava tão preocupado que nem se apercebeu que o mentor o puxava para mais perto, cobrindo-lhe protetoramente os ombros com seu braço. Quando reergueu os olhos, Glorfindel ofereceu a ele um pequeno sorriso assegurador que, pela primeira vez, naqueles dias conturbados, o fez sentir alguma esperança de que tudo voltaria a ser como antes.

Elrond então ergueu a lousa ao filho, que mantinha os olhos no chão desde que se sentara e não os levantou nem mesmo quando balançou a cabeça para dizer que não desejava fazer uso daquele recurso. O curador colocou a pedra e o pequeno pedaço de calcário ao lado do menino mesmo assim, parecendo um pouco insatisfeito com aquela manobra do filho. Sabia que a comunicação entre os dois ficaria muito mais árdua sem o auxílio ao menos da escrita.

Ficaram em silêncio então os dois, enquanto Elrond continuava a desenhar os detalhes daquela imagem em busca do que estava fora do lugar, do que podia fazer para corrigir o problema, das palavras e atos que pudessem ser de fato de alguma ajuda. Ele ainda aguardou, mas tudo o que o espaço que deu gerou foram outros tremores no jovem elfo. Elrohir apertava agora as mãos. Era como se esperasse por alguma reprimenda bastante severa, mas, ao mesmo tempo, parecesse tão farto e cansado de ser repreendido, de não ser entendido.

Analisando friamente o que o rapaz fizera, ele de fato merecia uma repreensão. Era o que Elrond sabia ser o correto. Contudo a situação era extrema e completamente oposta a todas que tanto ele como pai, quanto Elrohir, como filho, já haviam vivido. Aquilo tudo se convertera em uma história bastante triste, e cada nova faceta dela ali lida só dava ao curador mais motivos para sentir que palavras de condenação ou reprimenda seriam as últimas atitudes de alguma real serventia, principalmente se ele desejava não abalar mais o filho motivo do que estava. Foi então que o curador percebeu que o papel que lhe cabia não poderia envolver a pressão que ele estava utilizando até agora.

Restava-lhe o papel de pai.

Elrond ergueu então uma das mãos e a pousou com carinho no joelho do filho.

"Rohir-nín..." Ele disse serenamente, como se apreciasse o sabor daquelas palavras em sua boca. "Preciso pedir que sua mãe pare de chamá-lo assim." Completou e o filho ergueu intrigado os olhos com o tom inesperado das palavras do pai. "Acho que há peso demais em seus ombros para que sua mãe continue achando que você é o guerreiro dela, não é ion-nín? Acho que eu também tenho que parar de achar que você será meu capitão e dar-lhe a oportunidade de ser quem quer ser... Quer deixar os treinos, criança minha? Quer dar outro rumo à sua vida?"

Elrohir sentiu o queixo cair, lendo na insinuação do pai um significado que não era a intenção deste. Logo ele balançava, atônito, a cabeça, nem sequer conseguindo cogitar a hipótese de não vir a ser um guerreiro. Elbereth, era o que sonhara desde pequeno, era no que se concentrava em cada treino, era no que pensava em cada arma que via. O que faria se não pudesse mais ser um guerreiro? Quem seria? Ele não sabia ser outra coisa, não se imaginava seguindo qualquer outro caminho.

Por isso quando as mãos do pai tomaram seu rosto, o menino o olhou com atenção, engolindo suas mágoas e dissabores, calando o ódio que crescia dentro de si como podia e concentrando-se no que esperava se tratar das novas instruções a serem cumpridas, o seu castigo merecido. Faria o que o pai quisesse, copiaria a biblioteca inteira, jamais tocaria em arma qualquer sem autorização de alguém, lutaria sem se queixar com as espadas de madeira por quanto tempo fosse preciso, jamais se meteria em outras confusões com os veteranos. Ilúvatar, cumpriria o castigo que fosse, desde que ele não o afastasse dos campos de treino.

Mas Elrond não tinha a intenção de dar ao rapaz qualquer castigo, por isso quando percebeu o que movia o filho a olhar ansioso e apreensivo para ele daquele modo, tudo o que fez foi apenas segurar-lhe o rosto por algum tempo, oferecendo sua energia de paz, compelindo-o a relaxar, depois desceu as mãos e tomou as dele nas suas.

"Ainda deseja seguir esse rumo que tomou para si, criança? Ainda desejar ser um guerreiro?" Elrond indagou e respirou fundo quando o filho moveu rapidamente a cabeça em uma afirmativa. Ele olhou o jovem elfo com carinho e preocupação, depois voltou a apertar-lhe as mãos que segurava. "Então, ion. Se esse é seu desejo, teremos que ver certos assuntos resolvidos antes que outros problemas voltem a dificultar seu caminho." Colocou com cautela, acariciando as mãos do filho com os polegares. "Sabe que algo está errado, não sabe, menino meu? Acho que há alguns assuntos mal resolvidos que ainda precisam ser discutidos, criança, para que você não sofra mais e outros não sofram porque não compreendem a sua dor."

Elrohir olhava agora o pai atentamente, tentando entender o que havia naquelas palavras.

"Falo sobre o Pântano dos Mosquitos, criança." Elrond foi claro então e segurou com um pouco mais de força as mãos do filho quando, em um evidente reflexo àquela lembrança negativa, ele tentou soltar-se. "Elrohir... Escute, criança... Talvez minhas palavras não tenham sido suficientes para esvaziar seu coração dos sentimentos que se enraizaram com aquela experiência que teve." Ele continuou, buscando agora pelo olhar do filho, que voltava a fugir do dele. Elrohir já arfava, visivelmente incomodado com a mera menção daquele assunto. "Ion-nín... Penso que talvez devamos contar a seu mentor o que aconteceu, o que acha?"

Não houve nem tempo para uma negativa dessa vez, pois a ideia do pai pareceu funcionar como o estopim de uma bomba dentro do menino. Elrohir ergueu-se violentamente e moveu-se com tanta convicção que Elrond o agarrou, temendo sua próxima atitude e o trazendo para junto de si.

"Paz, paz, paz, criança minha." Ele dizia ao filho que se debatia em seu colo agora. Elrond tinha um braço enlaçando o menino junto a seu corpo, enquanto a outra mão segurava-lhe a cabeça, mantendo-a apoiada em seu ombro. Elrond estava surpreso e totalmente desagradado por só agora perceber o estado de total exaustão do filho. "Criança... está sem forças, percebe? Seja o que for que sinta o está consumindo. Pare de brigar contra nós. Sabe que não queremos seu mal. Confie em mim, confie em mim, criança. Confie no amor que temos por você, não duvide dele. Permita-nos ajudá-lo... Permita que seu mentor se junte a mim nesse auxílio o qual sabemos que você precisa, minha criança amada... Não duvide do amor dele também."

Glorfindel, que já se movia devagar no quarto, angustiado com o que não compreendia daquela conversa, aproximou-se então, ainda mais intrigado, sentando-se cauteloso no lugar que o pupilo deixara. Quando Elrohir percebeu sua presença então, fechou os olhos apertados, pressionando agora ele a cabeça no ombro do pai, logo seu corpo era tomado por um pranto contido que ao curador perturbou imensamente.

"Shh... Paz, ion-nín... Paz... Precisa voltar a acreditar em nós, criança. Por isso sofre... Por que se sente só. Mas não está, meu menino, não está só. Estamos ao seu lado e dele não sairemos, não importa o que aconteça."

Elrohir respirou fundo então, mas não conseguiu se acalmar. Tudo o que ele fazia era continuar sacudindo a cabeça, inconformado, vez por outra tentava soltar-se novamente, mas o pai não permitia. Quando enfim percebeu outra mão por sobre sua perna, uma sensação mista de medo e saudade doeu-lhe tanto, que ele sentiu que o ultimo pedaço de seu coração explodiria.

Então, aos poucos, mesmo sem buscar por ela, um resto de coragem começou a provocá-lo. Apesar de toda a dor, de todo o medo, queria poder olhar para Glorfindel como antes, mesmo achando que talvez aquela fosse a última vez que o mentor o olharia sem saber em que seu pupilo havia se tornado. Ele reergueu as pálpebras devagar. Sim, queria olhar Glorfindel, antes que o mentor soubesse o que ele fizera, antes que soubesse o tipo de criatura na qual ele tinha se transformado. Por certo Glorfindel já desconfiava dele, principalmente depois de vê-lo fazer o que ele fizera pela manhã.

O semblante de Glorfindel, contudo, não era o de alguém que desconfiava de algo, era o mais preocupado que ele já vira o mentor portar. Ao ter seu olhar enfim retribuído pelo menino, o elfo louro apressou-se em estender a mão e segurar a do pupilo com força.

"Elfinho, o que se passa? Conte-me. Eu quero ajudá-lo."

Elrohir ainda deixou-se olhar pelo mestre, saboreando aquela oportunidade de ter a atenção dele assim, antes de tudo voltar a ser pesado demais. Estava cansado de ter medo, cansado de buscar pelo que nem sabia mais ser o que queria. Estava tão cansado. Depois disso ele desceu devagar as pálpebras e parecia não haver mais nada dentro dele, não havia revolta, ou medo, ou desejo de fugir. Glorfindel continuou olhando o pupilo, sua preocupação de mestre, mas também de amigo, não havia cedido em absolutamente nada. Seus olhos então buscaram pelos de Elrond. O casal de Imladris havia dito que ele podia ajudar. Ele queria ajudar. Queria fazer algo e queria fazê-lo agora.

Elrond leu aquele pedido silencioso e assentiu. Também ele estava cansado de buscar e esperar por oportunidades de fazer algo, por isso ergueu a mão direita para o guerreiro, que a principio não compreendeu, mas mesmo assim escorregou o corpo um pouco para frente, até que os dedos do amigo quase alcançaram seu rosto.

"Mais perto, mellon-nín, por favor." A voz de Elrond soou e Glorfindel notou que não a ouvia de fato, que o curador já falava dentro de sua mente. Só então ele percebeu o motivo do contato físico. Ele queria compartilhar com o amigo não apenas a oportunidade de uma conversa confidencial, ele queria mostrar-lhe algo. Glorfindel surpreendeu-se, mas não pensou duas vezes. Só quando Elrond pousou cauteloso os dedos na testa e na têmpora do amigo ele sentiu uma pontada de apreensão, mas, diante da sombra de hesitação que percebeu no curador, endureceu o rosto em uma certeza na qual sabia que deveria se apoiar.

"Mostre-me, mellon. Mostre-me o que eu preciso ver."

Ao perceber o que estava para acontecer, Elladan caminhou mansamente e se sentou na ponta da cama e Elrohir reabriu os olhos devagar, apenas para tornar a fechá-los, mais receoso ainda do que já se percebia incapaz de impedir que acontecesse. Foi quando os irmãos sentiram um silêncio invadir aquele quarto como eles jamais haviam experimentado. Era um silêncio tão profundo, como se os próprios pássaros houvessem parado de cantar, como se as águas do rio houvessem parado de correr, como se o mundo inteiro houvesse parado no lugar.

O tempo do processo não pareceu tão longo quanto a cena do passado parecia ser. Quando Elrohir sentiu o pai recuar a mão que erguera e voltar a apoiá-la sobre seu braço, o gêmeo foi invadido por uma sensação diversa de tudo o que sentira até agora, ele percebeu, pela primeira vez, que enfim terminara, por bem ou por mal. O que restava da verdade tinha sido divulgado e ele não era mais escravo dela, não era mais escravo do temor, de revelações que estavam por vir. Ele estava livre, livre para arcar com suas culpas, livre para sofrer as represálias que surgissem, livre para ser odiado, livre... Ele, pelo menos, estava livre.

Faltava apenas algo acontecer para que ele pudesse se entregar àquele sentimento definitivamente. E foi pensando naquilo que ele se muniu da pouca coragem que lhe restara e reabriu os olhos, movendo-os devagar em direção ao mentor.

Sim. Precisava saber o que diziam os olhos de Glorfindel e por isso foi buscando devagar por aquela informação preciosa.

Elbereth, Glorfindel vira tudo, tudo o que ele fizera.

Glorfindel o vira erguer a espada, a espada que roubara, que reforjara sem a autorização de seu dono, que portara como se fosse sua, a espada com a qual fugira. Glorfindel o vira erguê-la e arrancar a cabeça de um homem.

Glorfindel o vira matar um homem...

Glorfindel o vira matar um homem e fugir...

E agora Glorfindel estava olhando para ele...

Estava olhando para ele fixamente...

Fixamente...

Mas... havia algo naquele olhar...

Havia...

Lágrimas...

"Meu bom Ilúvatar..." Ele ouviu o mentor dizer.

Glorfindel estava chorando...

O mentor ainda esfregou a face com força, respirando ruidosamente. As mãos pareciam pesadas subindo e descendo pelo rosto que agora ele não podia ver.

O que estaria pensando? Parecia zangado... Zangado... Estava zangado e não decepcionado? Estava zangado com ele? Zangado pelo que ele fizera?

O antigo guerreiro voltou a respirar fundo, e enfim ele olhou para o menino, cujo semblante tornara a perder a cor. Elrohir agora não conseguia deixar de olhar para o mestre. Seu corpo estava novamente tenso, mesmo com as mãos do pai o afagando devagar. Glorfindel percebeu então que estava em um momento delicado, um momento em que uma palavra sua poderia mudar todos os conceitos da vida de alguém.

Elbereth, às vezes era difícil demais ser tão importante para uma criança...

Era difícil demais... Mas... Mas era bom demais saber que ainda era importante assim e que esse era o motivo que afastara o discípulo dele. Não. Elrohir não lhe dera as costas por falta de afeto ou respeito. Ele lhe dera as costas exatamente pelo motivo contrário.

E agora, por aquele motivo, os lábios do menino tremiam, enquanto seus olhos estavam fixos nele. O lorde louro se viu sacudindo a cabeça inconformado. Aquela criança fora atacada por um homem armado com o dobro do tamanho dela. Um ladrão oportunista que tentara matar uma criança por causa de uma maldita arma. Um ladrão oportunista e covarde que poderia ter roubado a vida de uma criança por causa de uma maldita arma...

Glorfindel ficou preso naqueles pensamentos, sua mente repetindo aquela cena inúmeras vezes. A cada uma o guerreiro sacudia a cabeça com mais força, não conseguindo impedir-se de imaginar-se lá, arrancando a cabeça daquele infeliz com as mãos nuas e jogando o corpo dele naquela água imunda e cheia de insetos. Ilúvatar que o perdoasse, Mandos que o compreendesse, mas ele desejava de todo o coração ter podido fazer aquilo, ele desejava de todo o coração ter aparecido ali mesmo que uma águia o houvesse levado. Ele desejava ter... desejava ter evitado aquela cena... aquela cena horrível com a qual teria que viver...

Foram alguns momentos até que ele se acalmou. Quando enfim conseguiu fazê-lo, percebeu que Elrohir havia fechado os olhos mais uma vez e voltava a esconder o rosto no ombro do pai. Elrond o embalava agora sutilmente e em silêncio.

Ah, sua pouca sabedoria! Recriminou-se mentalmente o guerreiro louro. Ficara tão inconformado! Na certa seu silêncio e sua reação de exasperação foram mal interpretados. Ele tornou a sacudir a cabeça então, depois se esticou um pouco e tocou com carinho a perna do jovem elfo. Precisava dizer algo que não aquelas barbaridades que estavam em sua cabeça.

"Sabe quem passou por aquele pântano depois de você, Elrohir?" Ele disse e o menino reabriu, relutante, os olhos. "Seu pai... Pouco depois de você... E depois dele, sua mãe e seu irmão. Sabe-se lá mais quantos outros. Aquele ser sem escrúpulos poderia ter vitimado qualquer um deles. Poderia tê-los pego desprevenidos. Poderia ter atacado uma caravana com mulheres e crianças. Poderia ter surpreendido outra pessoa com menos sorte e perícia do que vocês."

Aquele era o seu melhor tom de mestre, mas em seu peito o que fazia ainda era tentar calar as selvajarias que na verdade queria dizer. Seu coração continuava a gritar outras insensatezes do tipo: "Mandos... Eu arrancaria a cabeça daquele infeliz com as mãos nuas... Eu... Eu juro que o faria... Eu teria sentido um imenso prazer nisso..." Mas essas palavras eram apenas para si e não para aquele menino que já se julgara culpado por tempo demais. Ele continuou olhando-o, depois se arriscou a erguer uma mão e tocar-lhe a face, satisfazendo-se por sentir o jovem elfo não se esquivar mais de seu toque.

"Dar-te-ei uma lição que só agora a oportunidade me permite, elfinho..." Ele disse então, procurando retomar a calma e mantendo a mão por sobre o rosto de Elrohir. Aquietava-lhe agora um pouco o coração inconformado perceber que ao menos o calor voltava àquela pele tão alva. "Essa é uma verdade da qual todo elfo, inclusive eu mesmo às vezes, precisa se lembrar. Apresento-lhe um sentimento que é conhecido como a dor dos guerreiros." Ele adicionou, soltando agora o rosto do jovem elfo apenas para segurar sua mão.

Elrohir lembrou as palavras do pai no pântano, quando ouvira a primeira vez aquela expressão. Ele respirou fundo então, torcendo um pouco o nariz para tentar conter o desejo de derramar outras lágrimas. Não queria mais chorar, queria ouvir o mestre, não importava que reprimenda ele fosse lhe dar.

"Ás vezes somos obrigados a fazer o que não desejamos, estejamos ou não treinados e preparados para isso." Ele disse, deixando-se ficar preso naqueles olhos escuros. "Mas em nosso ser existem alguns sentimentos e sensações que não podem ser esquecidos. Se você levar a vida de alguém, defendendo-se ou defendendo outra pessoa, mesmo assim você será um matador." Continuou, com cuidado, o mestre. "Entretanto, se você o faz, mas, mesmo sabendo que agiu sem outra escolha, sente o peso do ato em seu coração e lamenta a vida que roubou... você é um guerreiro, menino."

Mesmo Elrohir tentando contê-las, as lágrimas voltaram a rolar por suas faces, impedindo momentaneamente o mentor de continuar seu discurso. Glorfindel analisou o semblante do menino um pouco, segurando a emoção, depois passou a enxugar-lhe o rosto displicentemente. Os olhos do jovem elfo ainda estavam fixos nele e brilhavam como ele nunca os havia visto brilhar.

"O que precisa se lembrar, elfinho." Ele continuou então, procurando dar à sua voz um tom menos contundente do que vinha dando até agora. "É que a dor simboliza o respeito que o guerreiro tem pela criação de Ilúvatar que se deixou perder. Ela é respeito pela vida, pelo direito de existir de todas as criaturas. Essa dor não tem outro propósito que não lembrá-lo de que seu papel tem que ser justo." Completou então, mas diante do leve contrair das sobrancelhas do menino, somou: "O que estou tentando lhe dizer, elfinho bobo, é que a dor não pode abalá-lo a ponto de comprometer o seu bem estar, a ponto de fazer novas vítimas, compreende?"

Elrohir desprendeu os lábios, mas depois, traduzindo o porquê daquela reprimenda, baixou os olhos. Glorfindel, no entanto, apressou-se em reerguer-lhe o queixo, voltando a alisar um tanto mais duramente a face pálida do jovem elfo, como se não desejasse apenas aquietá-lo, mas sim despertá-lo, retirá-lo enfim daquela dor.

"Pare de sofrer, Elrohir. Pare de sofrer. Se é pelo que fez, não tem porquê. Se é por mim ou por qualquer um dos que te querem bem, tem menos porquê ainda. Não vou negar que às vezes me vejo querendo sua pele quando me lembro do quanto você se arriscou, eu mal consigo imaginar sem que minha cabeça fique dando voltas... Mas... Elbereth, elfinho tolo. Não se dá conta do que fez? Não se dá conta da coragem que teve? De onde foi capaz de chegar? Não sei que tipo de tolices está pensando sobre si mesmo, mas lhe asseguro que nada têm de verdade. Pela boa memória que seu avô deixou entre as estrelas, elfinho! Você não imagina o quanto estou esperando ansioso que um dia tudo volte ao normal e você possa me contar como foi cavalgar as ondas de Ulmo."

Os olhos de Elrohir ainda continuaram fixos no mentor, até que o sentindo da brincadeira o fez erguer levemente os cantos dos lábios. Mas ainda havia lágrimas fazendo seu caminho pelas maçãs do rosto do jovem elfo. Ele mesmo agora as enxugava, apoiando a cabeça no ombro do pai, que reforçara o abraço oferecido.

Glorfindel continuou analisando a cena que via, tentando ver que sementes poderia colher de fato do que plantara. Elrohir era agora embalado levemente pelo pai, vez por outra ele respirava fundo, como se ainda estivesse contendo um choro que queria lhe voltar. O antigo guerreiro de Gondolin esvaziou os pulmões, ele ainda se apiedava daquele menino tão cheio de coragem, de toda aquela dor que surgira porque ele fora julgado com rigidez. Não queria julgar aquele rapaz com rigidez mais. Não agora. Não durante algum tempo.

"Estou orgulhoso de você, elfinho encrenqueiro. De tudo o que fez. Da coragem que teve. Poucas vezes vi tamanha determinação em minha vida de guerreiro e jamais a vi em alguém tão jovem quanto você, rapazinho. Fico me controlando para não sair por aí aos quatro ventos dizendo que sou seu mentor. Estou mesmo orgulhoso demais de você" Ele se viu dizendo e um sorriso sincero acompanhou aquela verdade. Quando percebeu que seu comentário gerou uma nova comoção e outras lágrimas naquele rosto já bastante abatido, Glorfindel sentiu que já era demais. Ele puxou aquela criança já crescida e surpreendente dos braços do pai, fazendo algo que há muito tempo não fazia, trazendo-o para seu próprio colo e abraçando-o como quando ele ainda era de fato um menininho.

Elrohir surpreendeu-se, mas depois jogou os braços à volta do mestre com a mesma urgência, não acreditando no que estava sentindo. Aguardara tanto, ansiara, imaginara como seria a sensação, se de fato viria. Mas viera enfim... a sensação de que era finda a batalha... a sensação de que podia aquietar o coração, de que aquela dor ia acabar, de que havia como completar novamente aquele vazio.

E naquela noite, depois de muitas estações, ele conseguiu dormir profundamente sem que imagem alguma, fosse a de uma espada, fosse a de uma ilha, fosse a de um guerreiro injustiçado, fosse a de um homem morto em um pântano, surgisse para assombrá-lo.

Na varanda do quarto deles, o pai e o amigo louro, dividiram, naquela noite, uma garrafa de vinho, conversaram displicentemente sobre os tempos passados e velaram por vontade própria a noite de sono dos dois irmãos.