Olá, espero que todos estejam bem.

Esse é o último capítulo de A MÃO DO PRÓXIMO GUERREIRO, e traz os derradeiros momentos de tensão antes do esperado desfecho. Sou realmente grata aos que acompanharam o texto até aqui, oferecendo-me a confiança que eu precisava para terminar o texto e buscando compreender esse nosso elfinho confuso e complicado. Nem eu mesma imaginara até onde Elrohir poderia ir em sua pequena traquinagem. Fico feliz por ter acompanhado com vocês os passos dessa aventura.

Queria agora, no último capítulo, agradecer a ajuda inestimável de minha amiga Myriara, (desculpe amiga, eu sei que você não queria que eu postasse esse agradecimento aqui, mas eu me sentiria muito vazia se não o fizesse). Myriara é minha mestra em muitas questões e seus conselhos e puxões de orelha me guiaram em momentos em que, talvez sem ela, a história poderia ter perdido sua força. Obrigada, mellon-nín. Estamos aguardando ansiosamente a prometida terceira parte da trilogia que começou com A PAIXÃO DOS EDAIN e seguiu primorosamente em DAROR E MÍRIEL.

Gostaria também de agradecer a minha igualmente amiga e mestre em assuntos Tolkienanos Kiannah, que me deu outro puxão de orelha em uma questão que passou batido mesmo na passagem da comitiva pelo Topo do Vento. Há ali um "engano cronológico", eu caracterizei o lugar como já abandonado em um momento no qual ainda estava em pleno funcionamento. Erro da escritora aqui que pesquisou muito, mas mesmo assim ainda cometeu erros. Peço desculpas. A correção virá assim que eu pensar no que fazer... ai ai...

Aproveito também para convidar os amigos a fazerem parte do nosso grupo de escritores. O TOLKIEN GROUP, cujo endereço está na minha página da ffnet. Somos um grupo de amadores apaixonados pelas obras e personagens do professor e que realmente torcem o relógio para encontrar tempo para ler fics, deixar comentários e escrever os próprios textos. Na verdade, o que ansiamos é não deixar o gosto pelas histórias do mundo tolkieano perder-se, estamos até organizando um desafio de final de ano, envolvendo todos os escritores e os que nunca escreveram, mas gostariam de fazê-lo. Se quiserem fazer parte da nossa família tolkienana é só dizer "amigo" e entrar.

A todos meu muito obrigada mesmo, mellyn-nín. Espero que apreciem esse momento final.

Beijos

Sadie


CAPÍTULO XIV – MINHA LIBERDADE, DEPOIS DA SUA.

"Sua voz é um carinho que eu nem sei se merecia."

Tere Penhabe


Quando os irmãos chegaram à sala principal Celebrian lhes sorriu. Eles haviam dormido até quase a hora do almoço e pareciam ansiosos por apanhar a primeira coisa comestível que estivesse ao alcance de suas mãos.

"Olhe os modos, Elrohir!" Celebrian advertiu o caçula ao vê-lo circular a mesa, apanhar um pedaço de pão e enfiá-lo quase inteiro na boca. "Nós vamos almoçar, seu dorminhoco. Não vê que a mesa já está posta?"

Celboril, o cozinheiro da família sorriu ao ver os meninos já tomando seus lugares, puxando guardanapos e apanhando os talheres. À volta deles a família também se acomodava. Elrond à ponta da mesa e Celebrian a sua esquerda. À frente dela sentavam-se os dois filhos, Elladan perto do pai e Elrohir ao lado do irmão. Glorfindel e Erestor foram os últimos a chegar.

"Um almoço em família. Fico feliz em vê-los todos aqui. Uma pena que Lorde Celeborn e Lady Galadriel não estejam entre nós hoje." Comentou o cozinheiro, quando os últimos lordes tomaram seus lugares.

"Há tempos o coração de meu pai está mais aqui conosco do que no caminho que realmente deseja tomar. Foi um custo convencê-lo de que podia regressar para junto de minha mãe." Celebrian sorriu, deslizando os olhos pela família que havia construído com o marido, mas ainda somando a ela a imagem acalentadora do casal. "Pelo menos nossos sábios lordes estão conosco hoje, não é, ionath-nín?" Provocou, olhando agora para o esposo e os amigos recém-chegados, que haviam passado os últimos dias tão envoltos em seus afazeres que não puderam compartilhar refeição alguma com a dama de Imladris e os filhos. Glorfindel tomara seu lado, sentado diante de Elrohir e Erestor ocupava a cadeira ao lado da do gêmeo mais novo.

"Tínhamos muitas questões para resolver esses dias, minha boa senhora." Comentou o conselheiro em seu tom formal. "Fora toda a papelada que recebemos. Creia-me, comer na biblioteca não é muito agradável."

"Nem higiênico." Provocou o guerreiro louro, puxando seu guardanapo. "Aquele lugar nunca está limpo." Ele completou, e piscou para os gêmeos assim que ouviu o esperado e contido bufar de insatisfação do conselheiro que, como era de seu feitio, ignorou a provocação, já fingindo ater-se aos pratos que eram colocados sobre a mesa.

Os irmãos sorriram, mas logo estavam imitando a atitude do mentor. Celboril era um excelente cozinheiro e a cada dia os pratos eram adornados e expostos de maneira diferente. Ele vivia a repetir que a arte não estava só no criar, mas também no expor, assim como o prazer da comida começava pelo observá-la, passava pelo sentir-lhe o aroma para, por ultimo perceber-lhe o sabor.

"Que lindas estão as batatas." Celebrian comentou, como também era seu hábito. Ela tinha um respeito extremo pelo trabalho bem feito de Celboril.

"Fico feliz que aprove, minha senhora. Desejo-lhes um bom apetite." Disse o elfo, inclinando-se em uma breve reverência e afastando-se.

O cerimonial das refeições da família terminava ali. Às vezes o próprio Celboril, quando não tinha outros afazeres, se sentava à mesa com eles. Mas o processo de servir-se era de cada um dos que estavam presentes. Exceto os gêmeos, para quem a mãe sempre preparava os pratos.

Isso quando Elrohir não excedia seus limites, o que era bastante comum.

No entanto, depois da longa viagem, aquela era a primeira refeição na qual a família o via realmente interessado no que comia e no que estava à sua volta. Por isso, quando o menino estendeu o próprio garfo que usara para trazer mais algumas batatas para o prato e a mãe o repreendeu, instaurou-se uma sensação difícil de decifrar. Talvez também, pelas palavras que, displicentemente, escaparam da senhora de Imladris.

"Elrohir! Não sabe pedir, molequinho?" Ela havia dito e agora o menino tinha os olhos voltados em sua direção.

Ciente do deslize. A mãe ainda encheu o peito devagar. A princípio se viu completamente sem ação, mas depois começou a tentar imaginar como poderia contornar aquela situação, sem dar a ela um valor excessivo, que talvez fosse mais prejudicial do que realmente útil. Pensando nisso a elfa respirou fundo e decidiu tomar outro rumo, mesmo que fosse igualmente arriscado. Mantendo o rosto firme, enquanto retribuía o olhar do filho, ela dirigiu-se novamente a ele, em seu simulado ar de mãe insatisfeita.

"Não sabe pedir, molequinho?" Repetiu, mostrando-lhe a grande colher com a qual as batatas eram servidas.

Os olhos do menino não se moveram dos dela por um tempo e Celebrian acabou por sentir enfim um arrepio estranho. Talvez tivesse ido longe demais. Talvez houvesse se excedido. As marcas ainda estavam muito visíveis. No entanto, ao invés de demonstrar qualquer reação de revolta, ela percebeu o filho encher o peito devagar, logo em seguida ele levantou o prato em sua direção.

Celebrian soltou os ombros, aliviada, mas seus olhos marejaram com aquela imagem. Elrohir lhe lançava um olhar de nítidas desculpas, ainda com o prato erguido. Ilúvatar ela o amava tanto, nunca mais queria se zangar com ele, nem por um instante sequer, principalmente por uma tolice daquelas.

"Pronto, aqui está." Ela disse, contendo o choro que queria romper-lhe tolamente e colocando mais algumas colheres de batatas para o menino, que agora continuava a olhar para ela, mais consternado ainda. Elbereth, ela precisava se conter, precisava parar de demonstrar sua dor tão abertamente assim ou o menino nunca melhoraria. "E sem muito molho de pimenta nas batatas dessa vez." Buscou provocar então, com um sorriso ainda embebido nas lágrimas que buscava conter.

Elrohir ainda ficou observando a mãe um pouco mais, mesmo depois de apoiar o prato de volta à mesa, depois retribuiu o sorriso com outro igualmente pouco convincente. Mesmo assim apanhou de forma displicente o pote de molho picante, colocando algumas boas colheradas sobre a comida.

Celebrian fechou os olhos e sorriu, descrente da capacidade que aquele menino tinha de agir sempre de acordo com suas próprias vontades, mesmo que fosse instruído claramente em contrário. Ela sorriu mais largamente então, ao ver o próprio Elladan tomar-lhe o pote de pimentas com um olhar no qual quase se podia ler um: "Êh, Nana disse "sem muito molho de pimenta". Não ouviu da primeira vez?"

Sim. Talvez aquela fosse mais uma das muitas tentativas do mais velho em apaziguar os ânimos, e talvez fossem exatamente aquelas as palavras ditas ao irmão, haja visto o ar de insatisfação que se estabeleceu no rosto deste, antes que os dois simulassem aquele mesmo pequeno jogo de forças que faziam sempre: Elladan afastando o pote com um riso e Elrohir tentando alcançá-lo a todo o custo.

Era uma brincadeira quase diária da qual todos naquela mesa, apesar de buscarem demonstrar sempre insatisfação, percebiam ter sentido uma imensa falta. Um jogo de guerra de dois irmãos em uma pequena tarde de sol, um jogo que Elladan sempre conseguia vencer, assegurado por um olhar reprovador do pai. Dessa vez, no entanto, Elrond demonstrou sua reprovação com mais prazer camuflado do que desejo genuíno de repreensão.

Uma vez resolvido o pequeno e agradável impasse entre os irmãos, todos voltaram a apreciar suas refeições brandamente. Celebrian soltou um pequeno suspiro, então, imaginando que talvez a vida fosse continuar amena assim por um tempo, não completamente perfeita, mas amena, livre de grandes mágoas ou necessidades de consolo. Quando ela deu por si estava apenas remexendo os alimentos de seu prato, sem tê-los provado, afastando as batatas das cenouras, movendo as folhas dos vegetais, colocando a carne em outra posição. Talvez Celboril estivesse certo ao despender tanto tempo no singelo ato de organizar cores e aromas em um prato, talvez a mera certeza de que tudo estava em seu lugar correto já pudesse ser o bastante, já pudesse fazer a diferença. E talvez àquela impressão de segurança se seguissem, uma de cada vez, outras sensações igualmente desejadas e necessárias à felicidade daquele lar reconstruído.

Era uma sensação agridoce aquela, mas era melhor do que as muitas outras que vinha experimentando. A família parecia continuar aquela refeição sem grande desejo por qualquer conversa mais longa. A voz de Glorfindel surgia em alguns momentos, tecendo comentários que eram mais destinados a Elrond ou a Erestor do que aos demais presentes. E os elfos se engajavam em uma rápida troca de ideias entre uma ou outra garfada. Sim. Tudo parecia no lugar. Ela ergueu os olhos em direção à janela então e tentou procurar no brilho daquele sol de primavera e no colorido que trazia à sua terra naquela época do ano as forças que precisava para fazer daquelas conjeturas certezas.

Foi quando alguém pareceu ter notado sua tristeza, mesmo tão bem disfarçada. Mas a senhora de Imladris a princípio não percebeu, mesmo a palavra em tom preocupado sendo destinada diretamente a ela. A elfa até julgara ter ouvido algo, mas parecera-lhe tão irreal que, para se proteger, o subconsciente daquela mãe apressara-se em negar o fato.

Mas houve um silêncio estranho em seguida, um silêncio estranho e cheio de significados que acabou por arrastar a elfa forçosamente de volta a si, ao lugar no qual estava, como que apenas para ouvir mais uma vez o que julgava ter sido um reflexo de seus desejos.

"Nana?"

Elbereth. Não podia ser... Aquela tinha sido a primeira palavra que ele dissera, ainda bebê. Não podia ser verdade... Fora sua primeira palavra. E ele acabara de repeti-la, naquele exato instante, olhando-a nos olhos. Ele a havia chamado... Como da primeira vez... Era mesmo verdade?

Ele a havia chamado?

Chamara-a de fato?

Elbereth... Ele chamara por ela...

Mas...

Por que a havia chamado?

"Sim... Sim, querido... O que foi?" Ela se viu indagando insegura, enquanto olhava para aquele par de órbitas escuras e brilhantes.

Elrohir respirou fundo, pressionando o maxilar, depois ele mesmo soltou os lábios e empalideceu como que se dando conta só naquele momento do que acabara de fazer, como se seus instintos tivessem sido mais fortes do que ele mesmo fora todo aquele tempo. Ele deixara seu coração falar, deixara-o tomar as rédeas novamente. E agora parecia não saber o que fazer. Parecia não saber qual seria o próximo passo. Seus olhos se desprenderam dos dela agoniados então, para se fixarem nitidamente na primeira coisa que estava ao seu alcance.

"Eu... Eu quero um pouco d'água, por favor." Ele disse rapidamente, agarrando o copo e estendendo-o em direção à elfa. Por sorte Elrohir estava longe de desejar que a mãe lhe servisse água de fato, pois da forma como sua mão tremia segurando o copo e por certo as da própria Celebrian, agora firmemente laçadas embaixo da mesa também o faziam, aquele ato estava longe de se consumar.

Havia de fato outros objetivos que talvez o destino, ou mesmo o inconsciente dos que ali estavam pareciam semear. Talvez fosse aquele inconsciente que tivesse gritado o primeiro basta e todos o tivessem ouvido mesmo sem perceberem. Talvez eles apenas estivessem contendo a respiração para depois poderem respirar aliviados. Sim. Talvez fosse aquilo que explicasse o que parecia inexplicável. Mas também não houve espaço para explicações ou evasivas, ou sorrisos forçados. Logo o gêmeo se levantou, parecendo tomar novamente as rédeas daquele cavalo arredio como ninguém soubera fazer melhor e ele mesmo moveu-se do lugar, dando rapidamente à volta na mesa em direção de uma mãe que já o esperava de braços abertos.

E foram os braços dela que ele ganhou.

Mas Celebrian ganhou muito mais...

Ela nem sequer conseguira se levantar, e agora mantinha a cabeça encostada suavemente no peito do filho, em pé abraçado a ela, sentindo toda a emoção de poder ouvir o ritmo rápido que sempre parecera mover o coração daquele menino.

Do outro lado da mesa, Elladan assistia a cena com os lábios descolados. O pai havia segurado sua mão e aquela era a única certeza que tinha de que não estava sonhando. Depois de um tempo nos braços da mãe, ouvindo as palavras de afeto dela e recebendo seus afagos, Elrohir voltou devagar para o seu lugar, apanhando os talheres e concentrando-se na comida como quem não deseja saber de verdade o que está à sua volta. Ele ainda passou a mão no rosto algumas vezes, secando as novas lágrimas, mas logo estava concentrado propositalmente no pedaço de carne que cortava.

Elrohir era de fato ainda muito mais corajoso do que ele imaginara. Como aquilo era possível. Surpreender-se assim com alguém a quem se conhece há tanto tempo? Foi o que Elladan pensou, sabendo o quão duro fora aquele ato. Quando o irmão reergueu rapidamente os olhos e o pegou observando-o, Elladan desviou o olhar, mas percebeu que o mais novo não fizera o mesmo, por isso voltou a encontrá-lo, julgando que havia algo que talvez o caçula quisesse lhe dizer, mesmo que em pensamento.

"Seu copo está vazio também." Foi a fala do irmão, que o fez envergar as sobrancelhas. "Não está com sede? Não quer água também?"

Elladan ainda custou alguns instantes para perceber qual era aquela porta que o irmão lhe abrira. Ele se virou então para a mãe e percebeu que as lágrimas dela ainda não haviam secado. Ela o olhava atentamente. Parecia mesmo faltar algo, ou alguém.

"Eu... tenho sede..." Ele disse, erguendo o copo e olhando a mãe com carinho. "Pode me dar um pouco de água, por favor, nana?"

A mãe retribuiu o olhar, só que ao invés de atender ao pedido ela segurou a mão do filho nas suas, acariciando-lhe o punho e o pulso algumas vezes e sorrindo largamente, antes de soltá-lo e servi-lo assim como ao caçula.

Logo cada irmão estava ocupado com seus talheres e pratos novamente, só que dessa vez apenas os dois continuavam suas refeições. Os adultos deixaram-se ficar, trocando olhares e acenos de confirmação e assimilando, cada qual a seu modo, a sensação de prazer que aquela cena há tanto esperada, enfim lhes revelara.

&&&

Daquele dia em diante toda a Valfenda pareceu tomada por momentos de extrema paz. As manhãs nasciam brandas, os pássaros apreciavam as novas formas da primavera, os cantos dos elfos ecoavam pelas pequenas praças e os filhos do casal de Imladris passavam seus dias na Biblioteca, diante do antigo mestre.

Talvez nesse último aspecto a vida estivesse idêntica demais ao que sempre fora. Pelo menos para o ansioso Elrohir, que passava quase todo o horário das aulas com os olhos claros mais refletindo o azul que o provocava da janela, do que voltados para as tarefas a ele designadas.

Erestor o observava pelo canto dos olhos, vez por outra invadindo o silêncio da leitura com um pequeno som de desaprovação, que logo trazia o olhar do caçula de volta para as páginas que estudava. Na verdade, embora disfarçadamente, apiedava-se do menino, cumprindo outra vez uma penalidade imposta pelo pai e pelo mestre das armas, pela atitude totalmente indisciplinada de sua última visita ao campo de treinos.

Ele só não se manifestara contra a decisão dos amigos porque conhecia o que a motivara. Uma ferida recém-fechada, hematomas quase desaparecidos, um coração cicatrizando... Tudo aquilo requeria mais do que mero zelo. Não, não valia a pena arriscar uma sobrecarga em espíritos tão recentemente recuperados. Agora eles estavam bem mais cientes disso do que quando os dois irmãos voltaram às suas rotinas.

O problema era convencer um jovem elfo, bastante aborrecido com a punição.

No entanto, um olhar breve de desapontamento e um pressionar um pouco mais rígido dos lábios foram as únicas manifestações do rapaz, quando o pai e os mentores lhe esclareceram porque ficaria duas longas luas sem pisar no campo de treinos. O gêmeo mais novo até pensara em tentar negociar a punição, pois, em sua ingenuidade e total desconhecimento das preocupações de seus protetores, apenas atribuíra o castigo à sua atitude de rebeldia. No entanto, logo a barganha de, quem sabe, ter que pedir desculpas ao presunçoso Angahor e ser observado pelos demais pupilos pareceu-lhe cara demais.

Resignara-se então o orgulhoso Elrohir, enfiando-se dia após dia naquela biblioteca com o sempre solidário irmão, mas mastigando cada minuto ali como uma erva das mais amargas.

Por isso quando a figura do guerreiro louro entrou na biblioteca naquele fim de tarde, como vinha fazendo ao término de cada um dos dias da pequena penalidade imposta aos dois irmãos, apenas os olhos do mais velho se voltaram para ele. Glorfindel já esperava por isso, principalmente depois de mais de dez dias daquela rotina. Ele apenas trocou um disfarçado olhar de cumplicidade com o outro mentor dos meninos e acomodou-se na cadeira diante de Erestor, observando distraidamente o desempenho pouco empolgado dos filhos do curador.

Logo Elladan se ergueu, trazendo a Erestor um pergaminho com a cópia exata de um mapa bastante verde. Aquela fora sua tarefa vespertina e ele parecia aliviado por finalmente tê-la terminado. O olhar álacre do mestre moreno também acrescentou um pouco mais de satisfação ao feito, abrandando ligeiramente o pesar de mais aquela tarde de estudos árduos.

"Bom trabalho, Elladan!" Erestor usou as palavras de sempre para reforçar a satisfação pela execução a contento da tarefa. Ele voltou os olhos escuros para o outro gêmeo então e torceu levemente os lábios ao perceber que toda a pouca concentração do rapaz gerara algo bastante longe de poder ser classificado como alguma cartografia.

Elrohir, ao se sentir observado, apenas soltou um prolongado suspiro de insatisfação. Ouvir o elogio que o irmão recebera não era exatamente como ele gostaria de terminar aquela tarde de clausura. Elladan olhou-o por um instante, depois largou os ombros, prevendo um final bem mais insatisfatório para aquela tarde do que o que já aborrecia o irmão, principalmente se este não se acautelasse um pouco com os olhares e outras manifestações de desagrado que estavam lhe escapando.

"Pelo que vejo alguém vai sair daqui depois do despertar das estrelas." Foi Glorfindel quem provocou. Para Elrohir aquilo pareceu ainda pior do que os comentários irônicos dos quais Erestor fazia uso para repreendê-lo em momentos como aquele. "O que há elfinho? É o mais rápido desenhista dos pupilos de seu mestre aqui e não é capaz de traçar os caminhos que precisa memorizar?" Ele completou e quando o jovem elfo torceu insatisfeito os lábios, acrescentou. "Como vai fazer quando em sua próxima viagem inconsequente por essas terras, se não tiver ao menos um rascunho legível no qual se apoiar?"

A brincadeira despertou no menino um olhar de surpresa e rancor que há algum tempo ninguém via, mas que ao mentor não abalou. Glorfindel apenas retribuiu a atenção daquelas pupilas escurecidas, depois jogou por sobre a mesa outro pedaço de pergaminho, erguendo o queixo desafiadoramente e murchando um pouco a disposição do menino de dar aquela resposta que ele parecia ter já quase lhe escapando pelos lábios.

"Pode ir, Erestor." Ele disse, sem desviar o olhar que Elrohir, apesar de visivelmente contrariado, não desistira de direcionar-lhe. Elbereth, aquele elfinho era mesmo corajoso. "Eu mesmo me encarregarei de que você tenha sobre a sua mesa pela manhã o melhor mapa dessa região que já viu."

O lorde moreno ainda moveu os olhos por aquela cena por um instante. Ele decididamente não aprovava os métodos do amigo em certas ocasiões, mas diante daquele impasse, sentiu-se pouco confortável em desacreditá-lo diante dos pupilos. Por esse e apenas esse motivo, ergueu-se um tanto a contragosto de sua poltrona. Antes de sair, no entanto, apoiou uma mão no ombro do primogênito da casa.

"Você vem, Elladan? Seu trabalho foi finalizado a contento."

O gêmeo mais velho hesitou, lançando um olhar para o mestre louro, cujo significado Glorfindel entenderia até mesmo de costas. Na verdade, Erestor havia feito o convite por mera formalidade, pois sabia tão bem quanto qualquer um daquela sala onde Elladan desejava estar.

"Se quiser pode ficar, elfinho." Glorfindel foi dizendo, sem abandonar o seu tom debochado. "Mas não erguerá um dedo para ajudar esse preguiçoso aqui."

Dessa vez Erestor achou por bem abandonar o lugar, sem nem mesmo observar a reação que o gêmeo mais novo ofereceria àquele comentário. Elrohir era, sem sombra de dúvida, seu aluno mais problemático, e ele não queria carregar para o travesseiro a imagem do olhar que, com certeza, o menino havia lançando ao mestre depois de mais aquela provocação. Ele limitou-se a despedir-se do amigo louro e advertir os irmãos com um rápido "Juízo, meninos!" antes de cruzar a porta e fechá-la rapidamente atrás de si.

Elladan acompanhou a saída do mestre moreno, depois ficou parado onde estava por um tempo. Havia se erguido para entregar o trabalho que fizera e depois não conseguira descobrir qual caminho tomar. Ocupar agora a cadeira ao lado de Elrohir era decididamente algo que sabia que Glorfindel não admitiria, por isso mesmo ele permaneceu em pé, encarando o mentor com olhos questionadores.

"Vá buscar um livro para ler." Glorfindel apenas aconselhou, com um sutil movimento de mão que nem sequer foi acompanhado por um olhar. A atenção dele ainda estava na figura endurecida que tinha diante de si. Elrohir apoiara as mãos sobre a mesa e parecia disposto a ignorar a insinuação do mentor sobre refazer o trabalho.

Sim. Se o mestre queria ver as estrelas despertarem, ele daria a ele mais do que isso, o faria ficar ali até que o sol voltasse a dispor sobre elas seu véu de luz.

Nos lábios de Glorfindel desenhava-se, entretanto, um sorriso bastante sutil.

Astalder. Era como o avô o chamava.

Elladan sentia o conflito de forças e aquilo não o agradava. Ele se afastou mesmo assim, trazendo um volume qualquer para a mesa apenas para não acrescentar àquela situação, mais motivos de desapontamento. Ele abriu o livro sem sequer olhá-lo com atenção e apoiou as mãos sobre ele fingindo ler. O que lhe restava fazer? Esperar apenas e torcer para que as coisas não se complicassem mais.

Já Elrohir começou a sentir aquela passagem do tempo de uma forma diferente da do irmão. Glorfindel encostara-se a cadeira, demonstrando sua disposição evidente de esperar o quanto fosse.

Esperar. Elbereth, ele não aguentava mais esperar até que sua vida voltasse ao normal.

"Eu não quero fazer essa droga de mapa." Disse por fim o jovem elfo e sentiu que sua voz despertou uma disfarçada surpresa no mestre. Todos pareciam tão acostumados com o silêncio deles que, às vezes, ele, ou o irmão, eram surpreendidos pela atitude de total surpresa de alguns quando a estes dirigiam a palavra.

Glorfindel respirou ruidosamente.

"Não me lembro de ter-lhe perguntado isso, elfinho."

"Não sou mais um elfinho."

"Está agindo como tal."

"Por que vocês nos tratam como tal." Elrohir enervou-se enfim. Estava tão cansado daquilo que mal podia continuar encenando o papel que sabia ser de sua obrigação. "Tudo o que faço desde que cheguei é copiar esses malditos livros e mapas só porque não consigo me entender com aqueles idiotas que treinam comigo."

Dessa vez Glorfindel não deixou que sua resposta agraciasse tão rapidamente o pupilo. Ele permaneceu encarando o menino por um tempo, antes de perguntar, em um tom completamente isento do deboche que até então embalava sua parte daquela conversa.

"E por que não consegue se entender com seus amigos?"

"Eles não são meus amigos."

"Eles são mais do que isso, Elrohir."

Elrohir rangeu os dentes de nervosismo, mas a frase do mestre ficou a perturbar-lhe as ideias mais do que ele gostaria que ficasse.

"O que quer dizer?" Ele indagou com visível desdém, voltando os olhos para a janela, além da qual a paisagem já se escurecia devagar, enquanto tentava disfarçar o interesse naquele assunto que tratavam.

Glorfindel aguardou para responder quando o menino voltasse a olhá-lo. Sabia que o faria, por isso outro sorriso quase lhe escapou ao ver os olhos do jovem elfo moverem-se, mesmo contrariados, em sua direção.

"O que quer dizer?" Ele repetiu, agora mais irritado.

O elfo louro respirou fundo, depois soltou o ar em um só movimento. Ele se inclinou para frente então, apoiando os cotovelos nos joelhos e deixando as mãos soltas.

"Eles são os seus soldados, Elrohir. São os seus soldados, capitão. São seus soldados, guerreiro."

Elrohir envergou as sobrancelhas, mas logo em seus lábios desenharam-se o mesmo ar de indignação que pareciam ser-lhes marca registrada e ele estalou a língua, voltando a olhar para a janela entreaberta.

"Por que você não vai brincar com outra pessoa, Glorfindel? Essas coisas não têm a menor graça."

Elladan encheu o peito devagar, disfarçando o nervosismo. Elbereth, Elrohir às vezes se arriscava mais do que o necessário.

Mas Glorfindel apenas moveu o olhar por aquela pequena biblioteca, em sua mente não parecia estar à intenção de um conflito mais sério. Ele olhou um momento para o preocupado Elladan e ainda ofereceu a ele um pequeno sorriso antes de voltar a encarar o mais novo.

"Durante várias gerações, boa parte dos elfos nasciam agraciados por um dom de vidência." Ele disse, balançando positivamente a cabeça quando recebeu de novo a atenção, mesmo hesitante, do caçula. "Seu pai percebe os rumos da dor, os caminhos das enfermidades. Ele consegue prever como resgatar alguém de ambas e pode descobrir algumas coisas que o futuro reserva a elas, tanto de dor quanto de alegria."

Os irmãos se entreolharam então e a pergunta ficou roçando-lhes a garganta. Elrohir era quem mais desejava fazê-la, mas estava zangado demais para permitir-se demonstrar interesse no que o mestre estava tentando lhe dizer. Talvez por isso, veio do bom Elladan o questionamento.

"E você, Glorfindel?"

O guerreiro deixou o silêncio invadi-lo um pouco antes de voltar a olhar para os gêmeos e responder:

"Eu vejo o destino dos guerreiros. Pelo menos o de alguns deles."

O gêmeo mais novo desprendeu os lábios, mas depois os torceu em mais um ar de descrença ou desaprovação.

"Dos melhores ou dos piores?" Quis saber então, e o questionamento roubou do mentor aquela risada característica. Aquele era Elrohir, quando se esperava dele um questionamento específico, ele aparecia com aquele tipo de pergunta.

"Acha que eu estaria investindo meu tempo e conhecimento em você, elfinho, se tivesse visto que seria o pior guerreiro que já pisaria esse chão?"

Elrohir moveu o rosto em um novo ar de incredulidade.

"Poderia estar tentando me corrigir. Ada mesmo diz que de nada adianta ver o futuro se não se faz alguma coisa para mudá-lo."

Glorfindel voltou a rir, balançando inconformado a cabeça. Ah, Manwë, Senhor do Alento de Arda, por que aquelas crianças cresciam assim tão rapidamente?

Elrohir, no entanto, não parecia estar tão agradado com aquele assunto quanto estava seu mentor. Ele continuou olhando para o mestre e tolerando o riso contido deste por um tempo, antes de sua pouca paciência voltar a se esgotar.

"Não sei o que tem de tão engraçado." Ele disse, cruzando os braços em total desagrado.

Glorfindel, mais uma vez, não se intimidou. Ele continuou com seu sorriso quase sarcástico a erguer-lhe os lábios e exibir-lhe os dentes muito brancos por quanto tempo julgou que o menino fosse tolerar vê-lo. Depois, quando Elrohir soltou um novo bufar de inegável insatisfação e moveu o corpo como quem vai se levantar de onde estava, disse:

"Angahor estará em sua patrulha, estará sob seu comando um dia." Informou e quando sentiu as sobrancelhas do menino encurvarem-se e seu rosto converter-se em um disfarçado desprazer, acrescentou. "E ajudar-se-ão sem limites, e salvarão um a vida do outro por mais vezes do que eu gostaria que acontecesse."

Elrohir sentiu o queixo cair então, mas qualquer outra reação sua ficou engolida pelo término daquela revelação.

"Angahor estará no seu grupo, e Atarael, e Arnamo, e Ilfirion, e Séretur, e Cúndur, e Earon, e Varyar, e Laston, e Túro, e Hérion... e Elladan." Glorfindel disse com seriedade e cada nome daquela lista, entre os quais, inclusive, estavam muitos dos veteranos, roubou um pouco a cor do gêmeo mais novo. "Estarão todos sob o seu comando, sob a sua proteção, a mercê de suas decisões, agraciados por sua amizade, elfinho." Ele completou, e estendeu enfim a mão para agarrar com força o braço do menino. "Menino, tenho em mim que sua experiência não foi em vão. Que, apesar dela ter-lhe roubado uma parte das boas sensações de uma infância que poderia durar um pouco mais, ela lhe compensou com uma bagagem que talvez no futuro o torne um guerreiro valoroso... É com isso que eu conto, elfinho. É com isso que eu conto, com o guerreiro que você se tornará. Conto com isso porque sei que todos dependerão de sua lucidez, Elrohir. Dependerão de sua experiência, de sua cautela, de sua boa vontade para com eles. Por isso, menino teimoso, queira-os bem, queira-os todos como seus irmãos e prepare-se, pois, muitas vezes, será apenas a amizade que os une a salvá-los do pior."

&&&

Na manhã seguinte Erestor surpreendeu-se por encontrar, assim que entrou na biblioteca, os dois irmãos, já engajados em leituras e escritas. Ele parou um instante à porta, questionando-se se estava mesmo desperto ou simplesmente caminhava em um sonho estranho. Mas, ao perceberem sua presença, os dois meninos se ergueram ao mesmo tempo, em um movimento sincronizado que lhes era característico.

"Bom dia, mestre." E o saudaram em uníssono.

Erestor ainda permaneceu onde estava por um tempo, disfarçando a sensação de surpresa que aquela cena toda lhe despertara. Depois se aproximou devagar, olhando os meninos com atenção, como que para se assegurar tratarem-se mesmo dos dois filhos do lorde de Imladris.

"Bom dia. Sentem-se, crianças." Ele disse então e suas sobrancelhas se envergaram novamente ao ver os gêmeos obedecerem em outro movimento extremamente sincronizado. Ele deu alguns poucos passos inseguros, depois tomou seu lugar diante dos pupilos. Quando ia indagar-lhes o que faziam, percebeu sobre sua mesa o mapa prometido pelo amigo louro na véspera.

"Fiz também as Terras Castanhas, para completar a região leste." Elrohir informou, enquanto os olhos do mestre subiam e desciam admirados pelo excelente trabalho que viam. "Está certo, mestre?"

"Está excelente..." Erestor deixou escapar, depois ergueu os olhos para o menino, como se continuasse a achar que não encontraria ali a pessoa que deveria estar.

Elrohir retribuiu o olhar e Erestor sentiu algo realmente novo ali, naquelas pupilas acinzentadas, algo que ele não conseguiu classificar, mas que agradou seu coração. O que Glorfindel teria feito depois de sua ausência? Seus pupilos o adoravam de tal forma que por várias vezes ele chegara a julgar que o guerreiro louro fosse alguma espécie de hipnotizador.

"Podemos falar sobre as Terras Castanhas hoje, mestre?" Elrohir despertou-o de seu devaneio um tanto inconsequente e o conselheiro voltou a focar seus olhos no jovem elfo.

"As Terras Castanhas?" Ele indagou depois de um instante ainda de estupefação. "O que deseja saber, Elrohir? Espero que não pretenda fazer alguma jornada perigosa para aquela região." Completou, não conseguindo segurar a insinuação e já se arrependendo de fazê-la ao ver o menino soltar um suspiro fraco. "Peço desculpas. Foi um comentário desagradável, eu admito."

Elrohir baixou os olhos para o mapa que fizera, ainda nas mãos do mestre, depois os reergueu.

"Eu queria apenas saber mais sobre os Ents." Ele disse e seu tom não foi o de um aluno aplicado desejando aprofundar-se na matéria estudada, mas sim um tom antigo que há muito o conselheiro não sentia neles: o de uma criança ainda ansiando por mais uma boa história, por um momento de distração.

As sobrancelhas de Erestor fizeram um quase imperceptível vai e vem, e ele enfim sorriu, lembrando-se do quanto aquela idade na qual os gêmeos estavam tinha de fantástico. Hoje reivindicavam seus direitos como se fossem os donos do mundo, amanhã, ansiavam por um simples afago, por um rastro de atenção despretensiosa.

"Querem saber sobre os Ents então?" O mentor deixou que o sorriso permanecesse em seu rosto um pouco. Também ele estava cansado daqueles dias exaustivos de tarefas árduas e pouco prazer. O sorriso que recebeu dos pupilos como resposta foi a motivação que lhe faltava.

Ele ergueu-se então, caminhou até a estante olhando os vários volumes com atenção. Depois puxou a pequena escada para auxiliá-lo a alcançar uma grande encadernação esverdeada que estava levemente apoiada em uma série de livros igualmente antigos. Uma vez com ela nas mãos, o conselheiro, no entanto, não se reaproximou, tomando a direção de um dos cantos da biblioteca e sentando-se em um divã. Ele apoiou o imenso livro nas pernas com um suspiro de satisfação, mas antes de abri-lo, ergueu os olhos para os dois alunos, ainda sentados, mas que acompanharam cada passo do mestre atentamente. Os irmãos se entreolharam e seus sorrisos se alargaram, logo ocupavam cada qual um dos lados do mentor no estofado, com olhos presos naquelas páginas tão ricamente ilustradas que desconheciam.

"Pois bem... Vejamos..." Ele disse, movimentando propositalmente as folhas em uma vagarosidade que não roubasse dos meninos a chance de ver os detalhes da apresentação do volume. "Os Ents são uma raça muito antiga que apareceu na Terra-média juntamente com os Elfos. Há quem diga que estão aqui em nosso chão a pedido de Yavanna porque..."

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E depois daqueles dias outros se seguiram, menos carregados de má-vontade e desacordos, mais favorecidos pela paciência, tanto do mestre quanto dos discípulos, que agora acompanhavam os pensamentos do mentor e seguiam suas instruções com o mínimo de objeção possível.

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Quando Glorfindel entrou novamente naquela sala, ao término do vigésimo dia de labor dos dois irmãos, surpreendeu-se por encontrá-los completamente engajados em uma tarefa conjunta que parecia estar lhes dando algum prazer. Nenhum dos dois sequer notou sua presença. Estavam no chão da biblioteca, envoltos com barbantes e pedaços de madeira. Ele andou alguns passos e achegou-se a Erestor, que observava a cena em pé perto de uma prateleira.

"Como foi o dia?"

"Bom. Estudamos a energia eólica. Então estão construindo um indicador da direção do vento para testarem algumas teorias de Elladan sobre a direção das correntes de ar do vale."

Glorfindel ergueu as sobrancelhas admirado. Normalmente solidarizava-se com a pouca disposição dos meninos a frequentar as aulas de Erestor, haja vista que ele mesmo nunca vira nada de tão interessante naquelas aulas do amigo moreno. Nada, até aquele instante.

"Como chegaram a esse assunto?" Ele indagou, enquanto Erestor oferecia algumas instruções sobre o posicionamento das setas para Elrohir, que se ocupava em tentar colocá-las no ângulo certo. O menino sorriu então, ao ver o mestre louro.

"Estamos fazendo um catavento." Ele disse, parecendo animado.

"Catavento." Repetiu Erestor com um sorriso. "Sim, sim, podemos chamá-lo dessa forma também."

Glorfindel também sorriu, balançando a cabeça em aprovação. Logo os dois irmãos estavam novamente compenetrados no que faziam e o rosto do mais novo ganhava aquela seriedade que ele só vira nos momentos de uma grande disputa. Quando Erestor se aproximou novamente do guerreiro louro, ele pareceu ler o que roubava a atenção do amigo.

"Eles são assustadoramente eficientes." Disse e sorriu ao receber um aceno simples como resposta de um elfo ainda bastante concentrado na tarefa que via os meninos realizando como se fossem homens feitos.

"Assustadoramente eficientes." Glorfindel repetiu enfim. "Na verdade não sei qual dos dois me surpreende mais, eles parecem se revezar nessa tarefa dia a dia, quando não o fazem juntos, como no momento de hoje."

"Sem dúvida. Se o destino não os separar, serão realmente uma força como poucas foram vistas no passado."

Aquele comentário informal, no entanto, trouxe um arrepio à espinha do guerreiro louro. Ele encheu o peito, tentando desfazer-se daquela sensação.

"Quando vão testar essa geringonça aí?" Indagou em um tom de brincadeira que pudesse disfarçar aquela pequena apreensão que o invadira. Elladan ergueu os olhos para Erestor e o mestre apenas arqueou as sobrancelhas como se o instruísse a buscar aquela resposta por conta própria.

"Pela manhã..." Arriscou o mais velho. "Há brisa o bastante aqui, logo o vento deve estar mais forte perto da cascata." Completou, satisfazendo-se por perceber no mestre um ar de contentamento, que Erestor só deixava transparecer quando os pupilos alcançavam uma dedução correta antes do esperado.

"Que assim seja." Glorfindel disse. "Mas eu os quero no campo de treinos antes do terceiro cantar. Tratem de levantar cedo para essa tarefa que combinaram com seu mentor."

Elrohir estava tão concentrado na realização da empreitada que quase pôs a peça toda a perder quando a compreensão daquela fala lhe chegou aos ouvidos.

"Poderemos ir ao campo amanhã?" Ele indagou incrédulo.

"Já se foram as duas luas." Glorfindel tentou dar àquela informação menos relevância do que na verdade tinha. "Terão que dividir seu tempo novamente entre os dois mentores. Sem reclamações."

Elladan e Elrohir se entreolharam por um instante, depois um novo sorriso de satisfação lhes embelezou as faces.

"Até que enfim!" Elrohir disse, ainda mais empolgado agora.

"Perfeito." Elladan concordou. "Vamos Ro, vamos terminar logo isso para que possamos jantar e dormir. Temos que levantar cedo amanhã."

"Certo." Disse o caçula com convicção, e ambos voltaram a se concentrar no término daquela pequena peça.

Glorfindel ainda voltou a encarar a tarefa dos dois meninos por um tempo, depois se lembrou da questão não respondida.

"Como chegaram a esse assunto?" Ele repetiu a pergunta ao elfo moreno a seu lado. "Suas aulas raramente envolvem algo tão criativo."

Erestor torceu os lábios ligeiramente.

"Desde quando frequenta minhas aulas para saber o quão criativas ou não elas são?"

"Nem preciso frequentar. Até o mais tolo dos elfos que conhecesse a sua pessoa chegaria à mesma conclusão."

Erestor arrastou as pupilas nas órbitas para lançar ao amigo um olhar genuinamente insatisfeito agora, mas já encontrou o mesmo sorriso provocador de sempre.

"Suas aulas são de fato muito mais criativas do que as minhas, mestre guerreiro." Ele disse então, desistindo de uma investida mais séria, como sempre fazia diante das provocações do amigo. "Mova as pernas, mova os pés, mova as mãos, mova-se criatura!" Erestor imitou vagamente o tom do amigo louro para oferecer as provas de sua teoria e aquilo foi o bastante para atirar os gêmeos em uma crise de riso. Eram poucas as vezes em que o conselheiro desfazia-se de sua máscara de extrema seriedade, mas quando o fazia aquilo sempre despertava imenso prazer nos pupilos.

Glorfindel ignorou a provocação, como poucas vezes fizera, seus olhos agora se concentravam naquela cena que via e pela qual agora sentia que estava esperando inconscientemente por tanto tempo. Os dois irmãos ainda riram um pouco mais, mas quando se aperceberam observados com carinho pelo mestre louro eles respiraram profundamente, retribuindo o olhar com outro cujo brilho de agradecimento poderia ser lido em qualquer idioma. Glorfindel suspirou, sentindo a mão de Erestor por sobre seu ombro. Os dois mestres trocaram um breve olhar, uma mistura de satisfação e alívio preenchia-os confortavelmente.

"Bem..." Glorfindel forçou-se então a sair daquela contemplação, voltando a disfarçar-se no mestre que sabia que deveria ser. "Não se atrasem ou irei buscá-los pelas orelhas." Ele ameaçou, adiantando-se em direção à porta, atrás da qual poderia voltar a se entregar às ideias que o estavam visitando. "Eu os vejo amanhã."

&&&

Na manhã do dia seguinte os gêmeos apressaram todas as suas tarefas prévias o máximo que puderam e foram capazes de chegar ao campo de treino em tempo para o término do terceiro canto, como Glorfindel os instruíra. Não queriam recomeçar suas atividades com um inconveniente qualquer que adicionasse ao retorno deles algum gosto amargo.

Eles chegaram correndo pelas árvores, mas logo olhavam confusos para os lados ao perceberem que o lugar estava vazio. Os meninos se entreolharam e consultaram o céu, mais uma vez antes que o mais velho indagasse intrigado.

"Não é mais aqui?"

"Claro que é. Se fosse em outro campo Glorfindel teria nos dito."

Elladan não pareceu satisfeito com a resposta, ele ainda deixou o olhar percorrer as distâncias dali em busca de algum dos amigos, mas não viu ninguém.

"E essa agora." Elrohir torceu aborrecido os lábios. "Será que Glorfindel foi a alguma caçada com o grupo dos veteranos e não nos disse?"

"Ele não faria isso..."

"É..." Elrohir teve que concordar, mas mesmo assim aquela ausência, aquele campo vazio estava trazendo a ele sensações bastante desagradáveis. Quando se virou enfim para pedir ao irmão que fossem tentar achar o mestre, a imagem de Glorfindel surgiu aproximando-se com o equipamento de sempre. Os irmãos correram em sua direção.

"Glorfindel, onde estão todos?" Indagou o caçula que, depois de receber um olhar de reprovação do mentor, reformulou a pergunta. "Onde estão todos, Mestre?" Ele tornou a indagar com os olhos provocativamente voltados para o céu e em sua impaciência mais do que conhecida. Não tinha na verdade a intenção de escorregar no quesito disciplina logo no primeiro dia, mas estava totalmente desagradado por encontrar o lugar daquele jeito.

Glorfindel ainda torceu os lábios, fingindo insatisfação com a ironia, depois foi se afastando.

"Hoje de manhã não haverá treinos para os novatos, nem para os veteranos."

"Como assim, não haverá treino?"

"Não haverá treino. Qual das três palavras você não entendeu? Gostaria que eu as traduzisse para algum outro idioma qualquer? Não sei não. Você nunca se mostrou interessado em estudar outras línguas, novas ou antigas." Debochou o mestre, caminhando agora pelo campo e ajeitando algumas das armas que sempre tinha a sua disposição ali.

"Ah, foi muito gentil mesmo não nos ter avisado." Elrohir bufou de insatisfação, continuando a caminhar junto ao mestre, enquanto Elladan ainda olhava intrigado à sua volta. Não se lembrava de Glorfindel ter dispensado os meninos de um treino antes. "Se soubéssemos que ia nos fazer de bobos não teríamos corrido para terminar nossa tarefa perto da cascata." Aborreceu-se por fim o gêmeo, lembrando-se na verdade do quanto resistira à tentação de provar da sensação fria das águas cristalinas que visitaram. Ele simplesmente adorava nadar naquele lugar e só não o fizera porque havia prometido chegar no horário.

Glorfindel disfarçou o riso, limitando-se a continuar ajeitando as espadas de madeira e outro material em seus lugares, enquanto liberava espaço na grande mesa lateral sobre a qual a maioria do equipamento pernoitava às vezes.

"Está mais quente hoje do que ontem." Elladan observou para si mesmo, ainda sem entender o motivo da dispensa dos colegas. Ele se aproximou do mentor então, enquanto o irmão tomava o rumo contrario, andando pelo campo e balançando a cabeça indignado, ainda descrente sobre a oportunidade que perdera. Levaria agora bastante tempo até terem a chance de uma visita daquelas de novo. "Mestre, por que não haverá treino para nós hoje?" O mais velho indagou.

Glorfindel parou um pouco o que fazia. Depois trouxe um grande pacote para ocupar o lugar que havia liberado na mesa.

"Até que enfim um de vocês se mostra interessado em uma questão relevante." Provocou.

Elrohir parou então onde estava. Percebendo que havia algo além da provocação corriqueira naquele comentário do mestre. Ele foi voltando e colocou-se ao lado do irmão.

"Eu não disse que vocês não treinariam hoje."

"Disse que não haveria treino para os novatos." O mais novo lembrou.

"Vocês não são mais novatos." Glorfindel informou com naturalidade.

Os irmãos se entreolharam.

"Não somos?" Indagaram em uníssono.

"Não. Nada de treino com os pequenos mais."

"Vamos para o grupo dos veteranos?" Elrohir indagou descrente.

"Ainda não. Preciso prepará-los melhor para isso."

"Nah." Elrohir bateu os braços nervoso. "Eu sabia que era bom demais." Ele comentou já se afastando novamente. "O que vai fazer? Dar-nos uma espada de madeira mais pesada ainda?"

Glorfindel ainda olhou o indignado gêmeo por um tempo. Elbereth se o menino conseguisse canalizar aquela ira que lhe brotava do mais absoluto nada, como o mentor ansiava que um dia ele fosse capaz de fazer, seria um guerreiro invencível.

"Disse que não eram mais novatos." Glorfindel buscou fingir ignorar aquele rompante então, voltando novamente a se concentrar no pacote amarrado que havia trazido e que já tinha a atenção de Elladan focada nele.

"O que é isso, mestre?" O mais velho indagou e só então Elrohir se reaproximou, movido pelo tom intrigado do gêmeo.

Glorfindel deixou que a expectativa plantasse suas sementes por um tempo, depois desatou os nós devagar e expôs algo que os gêmeos ainda custaram alguns instantes, mesmo depois de verem, para acreditarem que de fato era real.

"Elbereth." Elrohir não esperou, adiantando-se para apanhar uma das espadas idênticas que estavam no pacote.

"São nossas?" Elladan nem se atreveu, olhando para o mentor com um ar descrente.

Glorfindel apoiou a mão no ombro do mais velho, respondendo com um simples aceno de cabeça.

Só então o gêmeo repetiu a ação do caçula, apanhando com cuidado a arma que restara. Era a mais brilhante que já vira. Não tinha ainda qualquer fio, como as espadas de treino que eram, mas poderia ganhá-lo de um bom ferreiro assim que a eles fosse autorizado portá-las tal qual armas de fato. Nada as diferenciava, salvo uma pequena pedra na base do cabo que não apareceria uma vez nas mãos de seu dono ou em seu suporte. A de Elrohir era um rubi e a de Elladan uma safira.

Glorfindel suspirou profundamente, não havia dito aos meninos qual espada pertencia a cada um deles, mas, surpreendentemente, cada qual pegara a arma que lhe cabia. Em segredo, o mestre guerreiro desejava dar a Elrohir a mesma pedra do anel de Círdan e a Elladan, a pedra do anel do pai.

Elrohir estava desatento a tais detalhes pequenos agora, ele tinha um sorriso largo, cujo brilho parecia espelhado na espada que empunhava e já a movia no ar, ensaiava golpes, sentia-lhe o peso, apreciava-lhe o som.

"É linda demais!" Disse por fim, voltando a aproximar-se. "Obrigado, mestre!"

Glorfindel sorriu.

"Olhe só. Alguém sabe dizer obrigado".

"Obrigado." Elladan corrigiu sua falta de diplomacia e o mentor estalou a língua, dando a entender que estava brincando com os dois, na verdade desejava apenas provocar o caçula, como apreciava tanto fazer.

"Treinaremos pela manhã apenas os três por alguns dias, depois poderão acompanhar os veteranos à tarde. Vão ter algum trabalho até estarem no nível deles. Mas creio que não vá demorar."

"Nem acredito!" Elrohir voltou a girar sua arma, como quem parece estar para explodir de satisfação, ele saltava agora na clareira com ela e repetia, um a um, uma série de movimentos perfeitos que aprendera apenas observando atentamente os treinos dos mais velhos.

Glorfindel acompanhou a empolgação do menino disfarçando a admiração. Na verdade eles podiam acompanhar os veteranos quando quisessem, eram os mais habilidosos que ele já vira e não teriam qualquer problema de adaptação. O elfo louro optara por reservar-lhes um espaço apenas para sentir como Elrohir reagiria. Era seu primeiro dia de treino depois do ocorrido com Angahor.

"Então. Qual vai ser nossa primeira tarefa?" Ele indagou, erguendo a arma e virando-se rapidamente em outro golpe. No entanto, no calor de seu entusiasmo, não percebera a aproximação do gêmeo. Elladan ergueu instintivamente a própria espada em sua defesa. Se não o tivesse feito, o irmão o teria acertado.

Elrohir empalideceu, sentindo uma lembrança longínqua vir escurecer-lhe as idéias assim que o som das duas armas chegou-lhe aos ouvidos. Ele apertou o cabo da espada com força, o peso dela ainda sendo amparado pela arma do irmão.

Elladan sentiu-se seguindo o mesmo caminho do gêmeo, relembrando e revivendo o mesmo incidente cruel e tudo o que ocasionara. Ele olhou para Elrohir e percebeu os lábios do gêmeo tremerem, enquanto seus dedos perdiam a cor de tão presos ao cabo da espada como estavam.

Foi quando o mais velho percebeu que sempre haveria momentos como aquele, em uma infinidade de armadilhas que o destino lhes armaria e que caberia a alguém evitá-las, contorná-las ou, uma vez nelas, se necessário, libertar-se... sempre.

"Em guarda... guerreiro." Elladan disse então e Elrohir ainda custou um segundo para sair de seu transe. Ele soltou os lábios surpreso, mas depois os traços de seu rosto apaziguaram-se de um modo diferente daquele que vinha acontecendo. Não havia mais urgência em seu semblante, nem agonia, nem necessidade alguma de confirmação.

"Em guarda, guerreiro! Em guarda... toron-nín..." Ele disse então, com um pequeno sorriso de agradecimento que logo foi trocado por sua mais perfeita máscara de provocação. Logo os dois irmãos giravam naquele campo, oferecendo ao mestre uma boa demonstração de que realmente estariam entre os melhores guerreiros da Terra-média em menos tempo do que ele mesmo julgara.

- FIM -