Capítulo 3.

Olathe, Kansas. Apartamento das irmãs Trent e LaBlank.

O apartamento de Elizabeth, Juliet e Suzan, continuava o mesmo de quando elas haviam ido para Edwardsville, mas o simples ato de entrar em casa e olhar ao redor para seu lar, as fazia mais leves. Aquele apartamento era a calmaria em meio à tempestade que era o mundo lá fora, elas, lá dentro, eram como se fossem inatingíveis aos perigos e maldades terrestres, ou melhor, sobrenaturais.

- Qual filme vocês colocaram? – perguntou Suzan, que acabava de vir do seu quarto.

- A Janela Secreta! – respondeu Elizabeth, sentada bem no meio do sofá vermelho e não desgrudando os olhos da TV que ficava em frente ao sofá – Ah, Suzan, você podia aproveitar e fazer umas pipocas, o que me diz?

Suzan tinha acabado de sentar-se no sofá, à esquerda de Elizabeth, enquanto Juliet ficava à direita da loira.

- Por que eu? Eu nunca vi este filme, vai você! – disse Suzan.

- É um filme do Johnny, – retrucou Elizabeth, aumentando o volume e virando-se rapidamente para Suzan – você não pode me pedir para perder alguma cena de um filme do Johnny!

- Quantas vezes você já viu o filme? – questionou Suzan.

- Apenas cinco, caso você queira mesmo saber. – disse Elizabeth, virando-se novamente para a TV, de modo a não perder nenhuma cena do filme.

- E você não pode perder uma cena do filme e ir fazer as pipocas? – voltou a perguntar Suzan, mesmo já sabendo qual seria a resposta da irmã – Eu nunca vi o filme, e não vou levantar para ir fazer pipoca, sendo que você provavelmente já decorou o filme todo!

- Eu faço as porcarias das pipocas, - disse Juliet, já cansada daquela discussãozinha infantil das irmãs, e até mesmo porque ela sabia que pelas outras duas, ficariam as três olhando o filme sem comer pipoca mas não levantariam pra fazê-la, uma por idolatrar ao filme e o ator, e a outra por pura birra e seu senso de justiça que lhe dizia que Elizabeth tinha uma obrigação muito maior de perder algumas cenas do filme do que ela – eu já assisti ao filme mesmo. Sem falar, que se alguma de vocês abrisse a boca pra falar mais alguma coisa, eu acho que iria acabar esganando vocês. Na verdade, eu ainda estou com vontade de fazer isto!

- Também amamos você, Julie! – disseram juntas Elizabeth e Suzan, alto o suficiente para que Juliet as pudesse ouvir da cozinha, onde estava agora.

Depois desta leve e típica discussão, as três sentaram e assistiram ao filme juntas, comendo as pipocas feitas por Juliet e bebendo do refrigerante que a mesma trouxera. O filme já estava próximo ao seu fim, quando o celular de Elizabeth tocou, era possível ouvi-lo tocar de dentro de seu quarto, que era o mais próximo à sala. A loira por um momento hesitou em ir atendê-lo ou não, mas ao olhar para a TV e ver que aquele era o momento no qual Mort Rainey percebe quem de fato é Shooter, decidiu que o telefonema poderia esperar. O telefone tocou duas vezes até o fim, e então a pessoa pareceu desligar, dois minutos depois o telefone residencial tocou, Suzan questionou se Elizabeth não o atenderia, mas sem desgrudar os olhos da TV, estava absorvida pelo filme.

- Seja quem for pode esperar, estamos falando de Johnny Depp, - respondeu Elizabeth, aumentando o volume da TV para abafar o som do telefone – e ele está interpretando um personagem escrito por Stephen King, o rei do terror! – completou Elizabeth, em mais uma aula sobre Johnny Depp, que fez Juliet revirar os olhos mas sorrir, e Suzan estava entretida demais com o filme para exercer qualquer reação naquele momento.

Alguns minutos depois, com o filme já acabado, e os créditos subindo na tela, as meninas começaram a levantar-se do sofá vermelho. Juliet foi levar as latinhas e os potes de pipocas para a cozinha, Suzan arrumava algumas almofadas no sofá e seus papéis sobre a mesinha de centro, enquanto Elizabeth ia para seu quarto procurar por seu celular.

- Eu não acredito que era... Quer dizer, era tão... – dizia Suzan, olhando para Elizabeth que acabara de sair do quarto com seu celular na mão.

- Eu sei, o filme é incrível! – concordou Elizabeth, sorrindo para Suzan.

Highway to Hell se fez ouvir no toque de celular que Elizabeth tinha nas mãos, ainda sorrindo, a loira olhou para o visor, e o sorriso logo sumiu de seus lábios.

- Preciso atender! – disse ela, olhando para Suzan e para Juliet que tinha acabado de entrar novamente na sala.

Saindo da sala sobre o olhar curioso e questionador de Suzan e Juliet, respectivamente, Elizabeth voltou para o quarto e trancou a porta do mesmo.

- Fala! – disse ela.

- Eu te liguei antes. – disse a voz do outro lado do telefone.

- Eu vi, mas é que eu estava ocupada! – justificou Elizabeth, torcendo para que o motivo da ligação fosse algo banal – Está tudo bem com você?

- Está tudo como sempre! – respondeu ele – Escute, Elizabeth, eu tenho um trabalho para você, e para suas irmãs também!

- Você diria que é um trabalho normal como os outros, ou ele tem um algo a mais, como o último trabalho acabou tendo? – questionou ela, torcendo fervorosamente para que fosse a primeira opção.

- É um trabalho, Elizabeth, e você sabe o que fazer. – disse ele, respondendo indiretamente a pergunta dela.

- Onde e o que? – perguntou ela.

- Bem próximo daí, na verdade. – respondeu ele – Fique de olho nos jornais e logo perceberá, eu não posso explicar agora, tenho de ir.

- Hey, espere! – apresou-se em dizer Elizabeth, antes que ele desligasse o telefone – O que eu faço com eles?

- Mantenha-os aí, até eu aparecer. – falou ele.

- Ah, claro! Não se preocupe, vou amarrá-los ao pé da minha cama, vai ser super fácil! – zombou ela – Sério, como você quer que eu faça isso?

- Minta, convença-os, engane-os! – disse ele – Faça o que você sempre fez, Elizabeth.

- Talvez eu tenha merecido ouvir isto, - disse ela, para o telefone mudo do outro lado da linha, já que o homem havia desligado – mas provavelmente não.

Desligando o telefone e respirando fundo, Elizabeth caminhou novamente em direção a sala, para poder ficar novamente com as irmãs, e terem seus momentos como uma família. Chegando a sala, a mais velha das irmãs parou e bufou levemente, com sua breve ausência e sobre as circunstâncias apresentadas, o clima leve e familiar havia sido quebrado. Suzan estava sentada no sofá, o notebook no colo e alguns papéis em mãos, ela estava provavelmente estudando ou atualizando-se. Juliet, a loira mais velha podia apostar, havia saído com sua moto e estava neste momento em cima da mesma, e acabaria parando em algum lugar para comprar um CD ou qualquer coisa relacionada a isto. A loira abaixou a cabeça e caminhou até a escrivaninha na qual o computador ficava, e passando a mão por debaixo da mesma, encontrou aquilo que procurava, uma pequena tira de couro, a qual prendia uma chave que ela retirou.

- Você vai lá novamente? – questionou Suzan, sem nem ao menos retirar os olhos de seus papéis – Seja "lá" onde for. – concluiu ela.

- Você já esteve em uma situação na qual não queira fazer algo mas saiba que é preciso que este algo seja feito? – perguntou Elizabeth, virando-se para a irmã.

- Do que você está falando, Lizzie? – Suzan estava encarando a irmã, não entendia o que ela queria dizer com aquilo.

- Eu não gosto de não saber o que fazer, principalmente quando algo precisa ser feito. – prosseguiu Elizabeth.

- Elizabeth, eu não consigo entender o que você está querendo dizer. – disse Suzan, começando a estranhar toda a situação.

- Tudo bem Pequeno Gênio, eu também não entendo! – respondeu Elizabeth, pegando as chaves do carro que estavam na estante da televisão, ao lado de uma foto sua e de Juliet.

Elizabeth fechou a porta do apartamento e dirigiu-se para o elevador, as portas do mesmo se abriram e ela entrou, apertando o botão para o térreo. A luz extremamente clara do elevador lhe transmitia uma sensação de leveza, como se ela pudesse flutuar, e a única coisa que lhe impedia de fazer isto, era a chave que pesava em sua mão.

- Merda! – ela gritou, batendo com a mão na porta do elevador, extravasando um pouco da frustração recém adquirida e intensificada logo após a falsa sensação de leveza.

O elevador chegou ao térreo, e o porteiro, Sr. Johnson, sorriu para a loira perguntando se estava tudo bem, ele havia visto o pequeno momento de irritação que ela tivera dentro do elevador, pelo monitor que ficava em frente a sua mesa, e que mostrava as imagens de todas as câmeras existentes no prédio.

- Está tudo bem, foi apenas uma leve irritação passageira, - disse ela, sorrindo para o homem, com quem ela simpatizava bastante – me desculpe por fazer você se preocupar por tão pouco, Sr. Johnson.

- Sua irmã acabou de sair, novamente sem capacete, você deveria conversar com ela sobre isto, - o velho homem dizia, ternura e preocupação eram perceptíveis tanto em seus olhos negros quanto em sua voz – se um dia alguma coisa lhe acontecer, que Deus a livre disto, é preferível que ela esteja de capacete.

- Você a conhece, Sr. Johnson, ninguém consegue botar alguma coisa naquela cabeça loira dela quando ela não quer cooperar. – respondeu Elizabeth, sorrindo levemente, sentindo-se um pouco melhor agora que sua mente estava ocupada com outra coisa, e com a companhia lhe era tão agradável e leve que a fazia sorrir.

- Caso ela não concorde com você, tem um espaço na garagem próximo ao meu quartinho, – disse ele, referindo-se ao pequeno aposento onde ele morava, naquele mesmo prédio – que dá muito bem para esconder aquela moto dela lá. Eu não sei o que ela faz naquela coisa gigante, bem, a moto é bonita é claro, mas ela é tão masculina! – suspirou o homem, ele realmente se preocupava com aquelas meninas, gostava muito delas, as tinha como se fossem de sua família, sobrinhas que ele tem mas que nunca lhe deram bola, ou até mesmo as filhas que nunca teve.

- Pode deixar Ted, eu vou tentar colocar algo naquela cabecinha! – respondeu Elizabeth, depois de gargalhar levemente, imaginando a reação da irmã ao se dar conta da falta de sua moto, e despedindo-se do porteiro com um aceno, seguiu em direção a seu carro, que estava naquele momento estacionado em frente ao prédio, e não na garagem do mesmo, onde ela costumava deixá-lo.

Parada ao lado da porta do seu carro, Elizabeth sorriu, talvez as coisas não fossem tão ruins quanto pareciam, e ela simplesmente pudesse lidar com tudo aquilo. A loira abriu a porta e entrou no carro, ligou o mesmo e começou a dirigir pelas ruas da cidade em direção a um destino que ela sabia que não seria capaz de alcançar. E da mesma forma como ela sabia que não conseguiria chegar ao local pra onde estava indo, ela também soube que não conseguiria lidar com a situação, mas isto nunca significou que ela não iria tentar.

Elizabeth parou em uma sinaleira que estava com o sinal fechado, ligou o rádio do carro e retirou o CD de dentro, sabendo bem que aquele era o CD do Oasis que Juliet havia posto para tocar duas semanas atrás quando estavam voltando de Edwardsville. Abrindo o porta-luvas, a loira tirou o seu suporte de CDs e tirou do mesmo um CD que ela amava muito e o colocou no rádio do carro. Alguns carros buzinaram, e ela percebeu que o sinal havia aberto, então, com a voz de Jamie Campbell a soar dentro do carro, Elizabeth acelerou e continuou seu percurso.

Não, não há lugar como Londres! Desta vez, foi a voz de Johnny Depp que se fez ouvir no carro, fazendo Elizabeth aumentar consideravelmente o volume do rádio.

- Há um buraco no mundo como um grande poço negro. E a ralé do mundo o habita. E seus costumes não valem nada. – a loira cantava junto com a música, lágrimas quentes e salgadas a correr por sua face. E não havia mais nada importante, era só a estrada a sua frente, a música em seus ouvidos, o volante em suas mãos e o deslizar das lágrimas por seu rosto. - Esse lugar atende pelo nome de Londres!

A música seguiu, e a loira continuava a acompanhar, fez uma curva para a esquerda, saindo da rua principal e tomando uma secundária, na qual seguiu por um tempo para logo após fazer mais uma curva, que a tirou mais ainda do movimento dos carros e das pessoas. Pisar no acelerador e apreciar tudo passando por si era algo terapêutico para Elizabeth, e conforme o movimento da cidade era deixado para trás dando lugar a uma paisagem mais calma, seus problemas iam definhando. Quinze minutos após, e com o painel do carro indicando estar a 120 Km/h, o celular da loira começou a tocar novamente.

Elizabeth tirou o celular do bolso da calça jeans e olhou em seu visor, "Suzan" brilhava em letras garrafais no mesmo, a loira apenas jogou o aparelho no banco do carona e continuou dirigindo. O celular parou de tocar, mas logo recomeçou, fazendo a loira bufar mas logo após sorrir, se conhecia bem Suzan ela ligaria irritantemente até ser atendida, e se não fosse atendida, estaria extremamente emburrada quando Elizabeth chegasse em casa. Sendo assim, a loira achou que seria melhor atender ao celular, mas quando foi pegar o aparelho, ele havia parado de tocar.

- Ah, ótimo! – zombou ela – Agora terei de aturar uma pequena discussão familiar, era realmente tudo que eu precisava! Perfeito!

Distraída pelo seu próprio comentário, a loira olhou pelo vidro do carro e viu onde estava, perto da onde estava finalmente chegando, e isto a abalou, como sempre acontecia. Quinze quilômetros à frente, ela saiu da auto-estrada e dobrou a esquerda, seguindo mais trinta quilômetros por uma estrada de chão, até parar diante de uma porteira.

Elizabeth abriu a porta do carro e pegou a chave que ficava escondida abaixo da mesinha do computador no apartamento dela e dar irmãs. Bastaram alguns passos e uma forcinha a mais para que a chave abrisse o velho cadeado, e então ela estava dentro daquele que um dia fora um local feliz para si, mas que agora só lhe trazia saudade. E saudade era algo que doía demais.

Ela caminhou pelo pequeno sítio, a estrada que levava a casa ainda existia mas estava sendo encoberta pelas ervas daninhas e pela vegetação rasteira. A casa de cinco cômodos, que ficava ao fim da estradinha, ainda estava lá, mais conservada do que ela imaginou que estaria, mas ainda assim era muito diferente do que foi um dia. As paredes em tom creme estavam desbotadas e feias, as janelas azuis pareciam mais conservadas que as paredes, mas mesmo assim estavam velhas e gastas. O lugar estava melhor do que ela imaginara que estaria, mas ainda assim era só um fantasma do lugar que foi um dia.

Um pouco antes da casa, havia uma grande árvore, e nela um velho balanço de madeira, que se movia levemente ao toque do vento. Elizabeth caminhou naquela direção, lentamente. Cada passo dado era uma sensação que lhe batia, memórias que voltavam. Aquela casa, aquela velha árvore e o balanço pendurado na mesma, a trilha que levava até aquele que fora seu pequeno castelo, da qual ela era a princesa.

Uma garotinha, de aproximadamente quatro anos, brincava em um balanço pendurado em uma velha figueira. Por mais que estivesse a balançar-se, era um balançar lento, atípico de crianças que estão brincando e se divertindo. O cabelo loiro voava levemente, assim como a saia de seu vestidinho rosa.

- Pequena, o que você está fazendo aqui? – perguntou um homem que se aproximara, vindo da casa, de onde estava a admirar aquela cena por um pequeno tempo. O homem era alto, ombros largos, cabelos curtos e na cor castanho claro, seus olhos eram azuis, como os da menina que agora havia parado de balançar-se, para encarar ao homem de pé a sua frente.

- Eles não gostam de mim, papai! – respondeu a menininha, erguendo o rosto para poder encarar ao pai nos olhos.

- É claro que gostam, meu amor! Todos vieram pro seu aniversário! – falou William Trent, abaixando-se para ficar na altura da menina no balanço.

- Mas eles nem brincam comigo, ficam só falando da Juliet, eu não gosto deles papai. – a pequena Elizabeth estava chateada, não gostava de ter sua atenção dividida com mais alguém, principalmente se este alguém fosse um pequeno bebê de olhos azuis como os seus, com pequenos tufos de cabelos loiros quase brancos na cabeça, e que não parava de chorar para poder roubar a atenção para si.

- É claro que eles gostam, Lizzie! Como não gostariam?- perguntou o pai, e a pequena loirinha sorriu levemente.

- Mas por que eles só brincam com a Juliet? – continuou a menina, estava realmente chateada com o fato de sua irmã mais nova estar recebendo muito mais atenção dos adultos do que si, no seu próprio aniversário.

- Porque ela é menor, querida. Mas por que você não está brincando com as outras crianças? – falou William, passando a mão pela bochecha da filha, fazendo-a sorrir.

- As meninas são bobas, e os meninos falaram que eu não posso brincar porque eu estou de vestido, e sou menina. – queixou-se a pequenina – Eu odeio este vestido!

O pai riu levemente, ali estava novamente sua pequena Elizabeth, os olinhos brilhando de indignação, a personalidade desde sempre forte a se mostrar novamente, e fazendo um leve biquinho de emburrada, que faria qualquer um achá-la extremamente fofa, e concordar com o que ela queria.

- Por que, Lizzie? Você está tão lindinha, parece uma princesa! – disse ele, fazendo a menina abrir um enorme sorriso.

- Uma princesa papai? – perguntou ela, com a expectativa em sua voz sendo quase palpável, e com seus olhinhos azuis brilhando intensamente.

- Sim, a minha princesinha! – respondeu ele, sorrindo abertamente como a menina, que esticou seus bracinhos para o pai e o abraçou, feliz.

- Eu gosto de ser a sua princesa, papai! – sorriu ela, na curvatura do pescoço de seu pai, enquanto ele a carregava em direção a casa.

A lembrança daquele momento, que aconteceu naquele mesmo local há muitos anos atrás, quando ela ainda era uma doce garotinha inocente que tinha uma bela família feliz, e sonhava que seu pai era um herói e ela uma princesa, chegaram a Elizabeth de uma forma que há muito não acontecia. Os olhos azuis transbordavam um mar de lágrimas, quando a mesma sentou-se naquele balanço, tão conhecido seu, e com tantas histórias para contar.

Eram tantas lembranças, foram tantas coisas vividas, tantas alegrias, risos, beijos e abraços! Elizabeth sentia mais a ausência daquilo do que jamais admitiria, afinal, era isso que era sua família, esta era a lembrança que ela sempre teve de sua família, felicidade! E ali, naquele lugar, naquele pequeno sítio da sua família, onde passavam fins de semanas e algumas datas festivas, era onde ela fora mais feliz, onde sua família estava sempre completa e feliz! Seu pai sempre presente, lhe sorrindo o tempo todo, sua mãe fazendo algum bolo ou dando comida para a pequena Juliet, que falou sua primeira palavra naquela casa, mana!

A vida da família Trent era normal, uma casa na cidade, um casal que se amava, duas lindas meninas como filhas, um pequeno sítio, era tudo absolutamente normal, até que uma a uma, as cartas que formavam aquele castelo, começaram a cair, primeiro foi a base, e então, não precisou de muito para que aquele castelo ruísse.

Primeiro foram as brigas, banais a princípio, mas que acabaram tornando-se mais sérias, William saia mais de casa do que costumava fazer, e quando estava em casa, passava seu tempo mais com Elizabeth ou Juliet. Já Grace, a mãe das meninas, parecia estar sempre preocupada, temerosa, o que a deixava muitas vezes extremamente instável quanto as suas reações diante de coisas ínfimas. Nada era como antes, os fins de semanas não eram mais tão alegres, a aura de cumplicidade familiar estava se extinguindo, mas ainda assim eram um família.

E então, abalando e acabando de vez com tudo aquilo que Elizabeth tinha por família, aconteceu a morte de seu pai. Primeiro o sumiço, e o pânico que veio com ele, a dor do não saber e do esperar, esperançosamente esperar. Esperar em vão. Alguns meses depois, a visita de John Winchester e tudo que ela implicara. Então se deu inicio a aquilo que Elizabeth via como uma grande farsa, e que perduraria até os dias atuais. Três meses após a visita de John, foi encontrado um carro em chamas, próximo a Illinois, o corpo estava carbonizado, mas dentro do carro objetos pessoais e documentos identificaram que o corpo pertencia a William Petterson Trent. O pai de Juliet e Elizabeth estava oficialmente morto.

Depois disto, aquilo que Elizabeth mais temia aconteceu, pouco a pouco, a imagem de seu pai foi se apagando, seu nome foi deixando de ser pronunciado, e sua ausência foi desrespeitada. Grace se juntou com outro homem, Joshua LaBlank, e novamente um bebê passou a habitar aquela casa na cidade e a vida de Elizabeth, desta vez um pequeno serzinho branco de olhos negros como seus cabelos e possuidor de um timbre agudo fortíssimo. Três anos depois houve o casamento, e Grace passou a atender pelo sobrenome LaBlank, disseminando assim, na mente de Elizabeth, tudo o que um dia a família Trent representou. Talvez e provavelmente por isto, ela não hesitou quando uma oportunidade de sair daquela casa lhe foi oferecida, mesmo que aquilo significasse abandonar Juliet e aquilo que por muito tempo chamou de lar. No fim, Juliet provou ser muito mais altruísta do que Elizabeth imaginava, e para a felicidade e preocupação da mesma, Juliet resolveu a acompanhar.

Agora, ali, sentada naquele mesmo balanço de outrora, sem conter as lágrimas que novamente corriam por sua face, Elizabeth re-lembrava o quão feliz ficou quando soube que Juliet estaria consigo, por mais que estivesse preocupada e não a quisesse passando trabalho ou levando aquele tipo de vida, mesmo assim enchia-se de alegria por saber que não estaria só. Desde então as duas estiveram juntas, e Suzan por intermédio de Juliet foi tomando seu espaço junto à vida de ambas, fazendo das três uma família, a nova família de Elizabeth.

- Imaginei que você estivesse aqui. – ouvir aquela voz fez Elizabeth sorrir e fungar levemente.

- Imaginei que você viria. – respondeu ela – Suzan me ligou, mas desistiu, achei que ela houvesse se enfurecido.

- Não, ela não se enfureceu, - disse Juliet, dando alguns passos e sentando-se no chão, ficando virada de frente para Elizabeth, diante da mesma – na verdade ela estava bastante preocupada, me ligou porque achou que você não atenderia a ninguém. Ela me fez prometer que te levaria de volta para casa.

O tom de voz de Juliet era baixo, havia mais do que apenas palavras naquela conversa, era toda uma história de vida, todo um mundo de sentimentos, sendo todos transmitidos naquela conversa.

- Me desculpe por isso. – sussurrou Elizabeth, com palavras molhadas e abafadas por culpa do choro.

- Escute, Lizzie, eu sei o quão difícil é para você, e sei que há muito mais peso sobre os seus ombros do que eu tenho conhecimento, mas sei que ele está lá. – começou a loira mais nova, seus olhos de um azul gelado brilhavam prendendo os olhos da irmã, ela estava fugindo do seu 'eu' natural, mas aquilo pouco lhe interessava agora, desde que pudesse trazer sua irmã de volta e fazer com que ela se sentisse um pouco melhor.

- Julie... – choramingou a mais velha, não era de seu feitio ser assim, mas todo ser humano possui seus pontos fracos, e Elizabeth possuía vários deles, aquele era só mais um.

- Você quer ir lá? – interrompeu Juliet, virando a cabeça levemente para trás para mostrar que 'lá' referia-se ao chalé no fim da estradinha. – Talvez assim as coisas melhores, a dor melhore um pouco, mesmo que eu saiba que jamais vá parar de doer.

- Na-não, eu não consigo!... – respondeu a mais velha.

- Você é a melhor caçadora que eu conheço, passou por mais coisas do que até mesmo eu sei, então não me diga que você não consegue. – os olhos de Juliet brilharam intensos, e a expressão em sua face era serena, mesmo que seu tom de voz houvesse saído duro.

- Eu não quero, Julie... – algumas lágrimas percorrem a face já molhada de Elizabeth, mas sua voz já demonstrava mais firmeza, mesmo que ainda fosse pouco.

- Você não quer conseguir, Elizabeth. – concluiu Juliet, fazendo a irmã olhar longamente para o chalé, o que fez os lábios da mesma tremer novamente em sinal do choro que estava por voltar mas que a loira tentava reprimir – Porém eu respeito isto, na verdade eu quero que saiba que eu respeito todas as decisões que você toma, mesmo que eu não concorde com todas elas, mas você é minha irmã Lizzie, minha irmã mais velha, e eu confio e respeito você, sempre.

- Eu não... – tentou discordar Elizabeth.

- E não me diga que não merece que eu esteja te falando isto, Elizabeth Trent. – cortou-a Juliet, severamente, para então poder prosseguir, mas desta vez mais brandamente – Eu não estou falando mais do que a verdade, Lizzie, e você merece o que eu estou dizendo tanto quanto precisa ouvir o que eu ainda tenho a dizer. Nós somos uma família, nós três, você sabe disto. Eu sei que de algum modo eu posso ser o elo que une a nós três, mas você ainda é o elo mais forte, você é a vida desta família, e não acho que somos capazes de superar mais uma crise como a última, Lizzie.

- Me desculpe, Julie. – sussurrou a outra, abalada pela situação, vendo mais e mais peso ser jogado sobre seus ombros já carregados, e preparando-se para poder lidar com mais esta carga.

- Todas as vezes que esta família teve problemas graves, Lizzie, foi porque você estava tendo problemas, - recomeçou Juliet, sendo o mais franca possível – e eu não estou dizendo que a culpa seja sua, não, o que eu estou dizendo é que se você estiver mal, nós estaremos mal. Eu posso ser o elo que nos une, mas você é o que nos mantêm fortes, você é o que faz de nós três uma família, então sim, eu me vejo no direito de egoísta como sou, exigir que você se erga e faça o que deve ser feito. Mais uma vez Elizabeth, salve esta família.

- E se eu não puder? – perguntou Elizabeth, falando baixo, mas tendo suas palavras jogadas ao vento de uma forma impactante.

- Este é o ponto, Elizabeth. – respondeu Juliet, levantando-se e limpando sua roupa, com sua voz ficando mais grave e decidida – Você é a única que pode.

Juliet estendeu a mão e a irmã a aceitou, e então, enquanto levantava-se do balanço e dava uma última e longa olhada para seu antigo lar, uma última lágrima correu pelo rosto da mais velha, um rosto de expressão dura e determinada.

- Eu preferiria que não fosse assim. – comentou Elizabeth, virando as costas para o local e seguindo em direção ao carro em passos decididos, como sempre foram.

- Eu também. – sussurrou Juliet, para si mesma, logo após seguindo a irmã.

As irmãs Trent seguiram para fora do pequeno sítio sem olharem uma vez se quer para trás, porque era assim que elas agiam, quando uma decisão havia sido tomada nada poderia ser feito, então elas escolhiam não olhar para trás, nunca, porque olhar para trás significa hesitar, e hesitar significa fraqueza. Nem todos podem se dar ao luxo de demonstrarem fraqueza, Juliet e Elizabeth sabiam disto muito mais do que gostariam saber.

- Hum, Juliet, - começou Elizabeth quebrando o silêncio, ela estava parada ao lado da porta aberta de se carro, e a irmã encontrava-se sentada sobre sua moto – o que aconteceu aqui...

- Termina aqui. – completou Juliet, sabendo bem do que a irmã estava falando – Agora, voltamos a ser a irmã mais nova fria e meio autista, e a irmã mais velha estressada e meio vadia, finalmente! Bancar a sentimental realmente não é comigo.

- Hey, eu não sou meio vadia! – exclamou Elizabeth, sorrindo logo após, da mesma forma que Juliet sorria – Mas fico feliz que isto tenha terminado.

- Terminado? – questionou a outra, em deboche – Espere só até você chegar em casa e ter se explicar para a Suzan!

- Ah, droga, eu tinha me esquecido! – respondeu Elizabeth, em um falso tom dramático, quando no fundo ela e Juliet sabiam estarem se divertindo bastante com aquilo, com o fato de que o problema havia sido resolvido, e que tudo ficaria bem.

- Então pode ir se preparando, porque ela deve estar uma fera! – riu-se Juliet.

- Merda, estou perdida! – a mais velha resmungou novamente em um tom dramático, logo após entrou no carro e bateu a porta do mesmo, girando a chave e arrancando com o carro dali, sendo seguida logo atrás por Juliet.

N|A: Hey pessoal, desculpem a demora. Os meninos aparecem na segunda parte do capítulo, que já tem um pedaço escrito, é só esperarem. Este foi um capítulo com um pouco mais das meninas, da vida delas, e com muita coisa importante sobre a fic. Muita dica neste cap! Beijos amores!

Dupla Marota: É, eu quis dar um fim melhor pra ela, pra mostrar que nem tudo precisa ser necessariamente como é. As brigas, entre todos, nav erdade, me fazem rir muito, e eu adoro escrevê-las! Quem será do outro lado do telefone? Mistério! HAHSUAU

Jodivise: Que bom ver você aqui, amiga! Fiquei muito feliz por você ter gostado da fiction, mesmo! As três irmãs são meu xodó também, e tipo, cada uma da sua forma. Quanto as brigas de Dea&Elizabeth, bem, eu as adoro totalmente! Hum, quem é do outro lado do telefone? Bem, não posso falar, mas digo que, uow... HAHUSUHA

Elisabeth: Muuito obrigada pelos seus elogios a minha fic! Bem, a Lizzie da fic é bem peculiar, e ela é o que eu sou basicamente só que super ao extremo, mesmo! Continue acompanhando, viu?!

Lety Ackles: Que bom que você está adorando! Por que você acha que não pode ser um demônio? A Lizzie não é santa não, hein! HAUHSUHAHUS, mas será que poderia ser o John? Hum, terá de esperar pra saber!

Dany Moony Lupin: Não se preocupe, eu só espero que continues a acompanhar a fic! Estou muito feliz por você gostar dela, mesmo! Obrigada!

Okay, gente, logo tem mais, aguardem! Beijos amores!