Os dias passavam depressa até. Mesmo no clube estranho do qual agora Haruhi fazia parte. E eu fazia questão de ser sua cliente em tempo integral. O que não entendia era como as garotas dali poderiam ser tão… Estúpidas. Qualquer coisa as fazia corar e gritar "Moeee!" a todo pulmão.
E quando eu não estava como cliente de Haruhi, observava meu irmão cuidando dos gastos e tudo mais. Vice-presidente e gerente, ainda trabalhava atendendo. Tenho de admitir que ele é bom nisso. Então, naquele dia, pousei meus olhos nos gêmeos. Eles falavam alguma coisa com as clientes. Nada demais. Mas então eu os vi se abraçarem e quase se beijarem. Fiquei chocada e nii-san notou.
- O que foi, Shou?
- Eles… Os gêmeos… O que é aquilo?! – me exaltei um pouco.
- É o papel deles. A relação deles aqui é algo entre amor fraternal e…
Não o deixei terminar.
- Então é só aqui? Eles são gays daquela forma só aqui? – eu parecia aliviada, o que o fez rir.
- Sim, Shou. Os "demônios" do clube em sua relação proibida. Isso atrai clientes.
Debrucei sobre a mesa. De alguma forma, saber que aquilo não era incesto realmente me aliviou profundamente. Só não sabia dizer por qual motivo. Acho que ouvi a risada de Kyouya mais uma vez, mas não tenho certeza. Logo ele estava no computador de novo.
Então Haruhi apareceu diante de mim.
- Gostaria de algo, Shou-san? Parece cansada.
- Ah, Haruhi-san… Não, não. – parei para pensar – Um copo de água só, por favor. – eu sorri.
- Claro. – ela sorriu de volta e saiu, indo buscar o que pedi.
- Parece mesmo vigilante, Shou. Tem medo do que possa acontecer aqui? – percebi que meu irmão tinha parado de ver o computador e me fitava. Normalmente conversávamos com ele olhando a máquina e não eu.
- Acho que vocês podem muito bem maltratar Haruhi-san. Em especial você… – franzi a sobrancelha enquanto falava.
- E por que eu?
- Você tem um gênio ruim, nii-san…
Ele sorriu como quem achava graça.
- Você não é diferente, Shou.
- Tem razão… Talvez porque somos do mesmo sangue. – revirei os olhos e vi Haruhi aparecer com minha água – Obrigada. – sorri e peguei o copo.
- E você, Kyouya-senpai? O que quer? – Haruhi sorriu para ele.
- Nada, Haruhi-san. Obrigado. – ele voltou a mexer no computador.
- Kyouya-nii… Posso perguntar algo? – esperei Haruhi se afastar para tornar a falar.
- Claro. – ele não olhou para mim.
- O que pensa de Haruhi-san? Digo… O que acha que é? Garota ou não?
- Acho. Ela é perceptivelmente uma garota.
Estranhei.
- Então por que permite que ela se vista como um garoto?
- Porque só assim ela pagará a dívida.
- Dinheiro é tudo para você – suspirei e me levantei – Minha vez como cliente de Haruhi-san.
Fui até a mesa dela, sorrindo.
- Hora de atender outras clientes, não?
- Shou-san. Achei que hoje não seria minha cliente. – ela sorriu sem jeito.
- Estou sempre aqui, você sabe.
Sentei-me a sua mesa e começamos a conversar. Logo outras clientes chegaram e ela teve de se fingir de rapaz. Não liguei. Em vez disso, fiquei observando o trabalho dos outros, participando da conversa dependendo do rumo que tomava.
Meus olhos paravam especialmente em Kyouya-nii, que às vezes estava atendendo e outras não, e nos gêmeos. Eles chamavam minha atenção de alguma forma. Então veio uma pergunta pela qual não esperava.
- Interessada, Shou-san? – desviei o olhar para a garota que falou. Ela estava sentada ao meu lado e tinha o cabelo loiro, mas mais escuro do que de Tamaki ou Hani.
- Em que, Hina-san?
- Os gêmeos. Percebi que olhava com bastante interesse.
- É só que o teatrinho deles… Não sei, acho estranho. Fico pensando quanto daquilo é real.
- Mas não acha lindo? Irmãos se amando daquela forma, se dando tão bem. – ela sorriu.
- Sim, tem razão… No fim não importa o quanto é real. Importa que reflete o quanto se gostam – sorri de volta.
Haruhi acompanhou a conversa, sem dizer nada. No fim, ela apenas mudou de assunto. Parecia não saber o que fazer, então ela olhou, como diz Tamaki, de um ângulo inferior.
- Gostariam de mais uma xícara de chá?
A garota corou instantaneamente e as outras soltaram um alto e estridente "Moeeeee!"
Eu sorri para Haruhi. Se as coisas continuassem daquela forma, logo a dívida dela seria quitada, não?
- E você, Shou-san? Aceita mais chá? – ela sorria naturalmente.
- Adoraria, Haruhi-kun. – me era estranho ainda tratá-la como se fosse um garoto.
Como todos os outros dias, não demorou muito para o tempo passar. Logo voltava para casa com Kyouya-nii. Mas hoje, por algum motivo, Tamaki estava conosco.
- Nii-san… Por que Tamaki está aqui? – eu não fazia a mínima questão de ter qualquer respeito por ele. Afinal, de quem era a culpa por Haruhi ter que se passar por homem? Quem a assediava de forma descarada e ainda se fazia de inocente? Sim, Tamaki. E ele me irritava profundamente.
- Temos um trabalho do colégio para fazer. O professor nos colocou no mesmo grupo. – Kyouya ajeitou os óculos.
- Certo… E são apenas os dois? – eu não ia engolir aquela história.
- Sim. São duplas, Shou-san. – Tamaki me dirigiu a palavra, sorrindo bobamente.
- Ninguém falou com você, loiro. – minha resposta saiu mais fria do que deveria.
- Seja mais educada, Shou. – Kyouya desviou o olhar para mim, mas parecia indiferente àquilo.
- Como se você ligasse… – revirei os olhos – Aliás. – dei ênfase a essa última palavra, mas não cheguei a falar o que queria.
- O que foi? – nii-san quem perguntou, mas não parecia muito mais interessado.
- O que papai disse sobre você estar no Host?
Tamaki também pareceu interessado em minha pergunta.
- Ele… – percebi que não tinha nenhuma resposta.
- …Não sabe. – sorri satisfeita, completando a frase.
Kyouya voltou a olhar pela janela, sem responder.
Chegamos logo em casa depois disso e eu fui direto para o quarto. Não queria ficar lá sozinha com aqueles dois. Fala sério. Fui fazer minhas coisas, nada do colégio. Não tinha nada interessante, então achei que deveria chamar Haruhi. Talvez pudesse ir buscá-la.
Comecei a arrumar umas coisas, para ter certeza de que teríamos o que fazer e depois sai do quarto. Precisaria falar com alguém sobre a idéia e pensei em Kyouya. Não tinha mais ninguém na casa, afinal. Sendo assim, ele era o responsável direto. Parei diante da porta e ia bater quando ouvi algo estranho.
Fiquei quieta e mais perto da porta, ouvindo a conversa.
- Tamaki, pare de gemer.
- Mas… Kyouya…
- O que foi?
...
- Tamaki, se tem algo que quer me dizer, por favor, diga.
- Kyouya, eu…
Tudo bem, aquilo era demais. Mais do que depressa, me afastei da porta. Se fosse o que eu estava imaginando, seria o cúmulo. Meu irmão era… Era… Argh! Voltei para o quarto correndo e acho que fiz barulho, porque ouvi uma porta se abrindo atrás de mim. Ainda assim não parei enquanto não cheguei em meu quarto.
Demorei a pegar no sono, porque as imagens do que poderia ter acontecido se repetiam em minha mente. Aquilo era… Nojento? Ruim? Asqueroso? Tanto faz. Precisava esquecer aquilo. Infelizmente não consegui. Quando finalmente peguei no sono, acabei sonhando com isso também.
Acordei no meio da noite, gritando. E logo alguém bateu na porta.
- Shou-sama? A senhorita está bem? – era uma das empregadas.
- E-estou… – respirei fundo – Estou sim.
Percebi a voz de meu irmão do outro lado.
- Shou? O que foi?
Eu gritei tão alto assim?
- Não foi nada. – fui até a porta e a abri. A empregada já havia saído – Tamaki vai dormir aqui?
- Ele já foi embora, Shou. – ele pareceu estranhar – Por que?
- Não é nada. Só achei que como estava tarde, ele acabaria ficando. – franzi o cenho.
- Queria que ele ficasse? – ele pareceu achar graça da idéia.
- Ele é um idiota. Ainda bem que foi embora. Boa noite, então.
- Durma bem. – ele acariciou minha cabeça e saiu. Eu realmente odeio quando ele faz isso.
"Pelo menos agora eu sei que não tem nada acontecendo"
Depois disso, até que peguei no sono rápido. Não me lembro de ter sonhado com algo, mas isso é bastante normal. Acordei no dia seguinte com o Sol entrando pela janela que eu havia esquecido descoberta.
