Apareci no Host mais alguns dias, até que algo começou a me torturar lá dentro. Algo que eu não sabia dizer. Pelo menos logo seriam férias. Tudo bem, daqui uns meses seriam férias. Apenas detalhes. Minha ausência constante no Host fez com que obrigassem Kyouya a descobrir o motivo. Voltávamos para casa quando ele tocou no assunto.

- Shou?

- O que foi, nii-san?

- O pessoal queria saber o motivo de sua ausência.

- Nada em especial. Só vi que não preciso mais ficar vigiando.

- Tem certeza de que não é para evitar ninguém?

- Tenho, nii-san. – revirei os olhos.

- Foi o Tono?

- Aquele estúpido? Eca.

- Hani ou Mori?

- Criança e servo.

- Então são os gêmeos.

- O que tem? – eu olhava pela janela, o que o impedia de ver que corei.

- Você sempre olhava para eles – percebi que ele parecia analisar meu rosto.

- E daí? Só porque aquele joguinho gay me enoja.

- Quer virar uma Hostess?

Fiquei estática. Aquilo era sério?

- Posso falar com Tamaki – continuou ele – Pode ser fácil convencê-lo.

- Imagino… Qualquer um conseguiria.

- Então pronto. Se conseguir usar contra Tamaki as técnicas que ele usa com as clientes, será uma de nós.

- Não quero fazer parte desse clube ridículo.

- Para quem acha o clube algo ridículo, você se afeiçoou bastante pelos integrantes.

Ele tinha razão. Acabei me afeiçoando aos integrantes.

- Tudo bem – eu concordei de má vontade.

Ótimo. Agora eu tinha que fazer Tamaki me aceitar como Hostess, a última coisa que achei que faria. Chegamos em casa em um tempo que pareceu maior do que o normal. Fui direto para a cozinha. Precisava comer alguma coisa. Vi então um bolo sobre a mesa.

"Não tem problema pegar um pedaço…" Cheguei perto e estava quase cortando um pedaço quando Kyouya apareceu na porta.

- Shou? Tem um pacote para você na sala. Ia comer bolo? – ele pareceu estranhar.

- Para mim? Ah… Ia comer… Mas perdi a fome. – deixei a faca na mesa e fui para sala – De quem é?

- Não sei, não olhei. Achei que ficaria brava.

Essa foi boa. Aposto que não queria me contar de quem era.

Sentei no sofá, ao lado do pacote. Era de tamanho médio pelo que vi. E tinha um cartão. Cartões podem ser bregas dependendo do que estiver escrito. Dei os ombros e o tirei, sem ler. Tirei a embalagem em seguida.

- Como… Kyouya-nii! – eu gritei da sala para a cozinha, chamando-o. Não tinha como alguém saber que eu gostava tanto daquilo. Não sem Kyouya ter dito.

Ele logo apareceu.

- O que foi, Shou? Não gostou?

- Diga-me uma única coisa. Como posso receber isso pelo correio – tratei de dar ênfase nisso – de alguém com quem nem cheguei a comentar que…

Ele me interrompeu.

- Já olhou de quem é?

Olhei para o cartão.

"Pedi para seu amigo mandar para você. Daria muito trabalho daqui. Mamãe"

- Mamãe…

- Problema resolvido. – ele se virou e saiu.

Eu fiquei sentada no sofá, olhando a caixa de rosas de vidro que havia recebido. Era o meu tipo preferido de rosa. Subi para meu quarto, segurando a caixa. Deixei-a sobre a cama e comecei a olhar meu guarda roupa, apenas para tentar me distrair. Tinha aceitado algo que nunca faria. Ficar atendendo garotos realmente não era minha cara.

Quando me cansei, tirei as rosas da caixa e deixei-as em um vaso que tinha próximo à janela onde antes estavam rosas brancas. E reais. Deixei a caixa em qualquer canto e fui tomar banho. Estava cansada e precisava dormir. Assim que saí do banheiro, coloquei meu pijama e me joguei na cama, dormindo rapidamente.

Acordei no dia seguinte um pouco em cima da hora. Arrumei meu cabelo correndo e vesti um uniforme limpo. Desci às pressas e comi pouco de café da manhã. Quando saí para ir para o colégio, Kyouya estava encostado no carro, me esperando.

- Atrasada. – a voz dele estava séria.

- Eu sei. Dormi demais, só isso. Vamos logo. – entrei no carro e vi que ele logo fez o mesmo.

Fomos para o colégio um pouco mais depressa do que nos outros dias. Não consegui conversar direito com ele sobre a idéia que tivera no dia anterior.

- Quer mesmo que eu entre no Host?

- Isso nos daria mais dinheiro.

- E você acha mesmo que eu quero ficar agindo como se estivesse tentando seduzir rapazes ricos e mimados?

Ele riu.

- Teria que ser algo que os prendesse lá, mas não sei se isso.

- E por isso tenho que "seduzir" Tamaki.

- Exato. Se quiser pode ser os dois gêmeos.

Olhei para ele, séria.

- Só falta me dizer para fazer isso com os três.

Ele sorriu satisfeito, o que me fez tremer.

- Não é má idéia.

- NÃO! – mas ele não ouviu. Tínhamos chegado no colégio e ele saiu do carro assim que terminou de falar.

Não consegui me concentrar nas aulas. Minha mente vagava pelos planos de meu irmão e em como eu faria aquilo. Fitei as costas de Hikaru. Acompanhei calmamente com os olhos de suas costas até o topo de sua cabeça. Depois olhei para Kaoru. A simetria entre eles era perfeita. Se fossem postos de frente para o outro ou lado a lado, seria como se estivessem diante de um espelho.

Assim que as aulas acabaram, saí mais rápido do que o de costume da sala, indo me encontrar com Kyouya-nii.

- Ora, ora. Por que está aqui, Shou? – ele me olhou com indiferença. Parecia esperar alguém, já que estava em pé do lado de fora da sala.

Coloquei a cabeça dentro da sala e vi que Tamaki conversava animado com alguns alunos.

- Esperando ele? – olhei para meu irmão, com uma expressão confusa.

- Sem ele não há Host. Nem seu desafio. – ele deu um sorriso satisfeito e frio.

Tremi.

- Sim… O desafio…

- Espero que esteja pronta.

Tamaki então saiu da sala.

- Kyouya! – ele parecia feliz.

Eu fiquei olhando para ele, pensando em quanto era idiota. Um bom tempo após termos começado a ir para o clube, ele notou minha presença.

- Oh! Shou-san! O que faz aqui? – ele pareceu estranhar.

"Oh! Só me notou agora! Meu Deus, o mundo está acabando! ¬¬"

- Eu na verdade estava…

Kyouya me interrompeu.

- Pedi para que ela viesse conosco hoje. Assim estaria lá antes do clube abrir. Tem algo que eu queria que ela fizesse.

Vi que Tamaki sorriu animado.

- E o que é? – seus olhos brilhavam.

- Envolve você, então quieto. – não fui delicada. Não queria ser, entende?

Ele não entendeu. E Kyouya não explicou, o que me aliviou um pouco. Chegamos na Sala de Música pouco depois. Deixei minhas coisas onde ninguém poderia ver durante as atividades do clube e me virei para Kyouya.

- Muito bem. O que eu devo fazer? – perguntei em alto e bom tom para que todos ouvissem.

- Ora, Shou. Parece que quer acabar logo com isso. Não acha que isso tirará a diversão? – ele riu.

- Diversão nada. Diga logo qual é a minha sentença por ter vindo para cá.

- Tudo bem. – ele apontou para Tamaki e em seguida para os gêmeos – Ele e eles. Se conseguir provar que nossas técnicas servem também em nós, estará no clube.

Tamaki corou. Ele sabia, provavelmente, que meu irmão queria me colocar nessa coisa estranha desde o começo, mas aposto que não imaginou isso. E os gêmeos… Bem, para eles era uma surpresa desagradável pelo que conclui através de suas expressões. Suspirei.

- Tudo bem. Vou provar que toda essa futilidade não atrai somente garotas.

Agradeci por Hani e Mori ainda não estarem lá. Olhei ao redor e vi que Haruhi também não estava lá. Isso me animou um pouco. Só estavam presentes as vítimas e o sentenciador.

- Kaoru, Hikaru. – ao ouvir a voz de meu irmão, automaticamente me virei para ele – Venham comigo um instante.

E saiu. Os gêmeos foram logo atrás, sem entender.

- Bom, hime… Ficamos sozinhos. – Tamaki sorriu sem graça.

- Seguinte, loiro. Trate de corar bem rápido porque eu realmente não quero fazer isso.

- S-sim…!

Suspirei.

- Tamaki… – eu cheguei com o rosto próximo ao dele, pondo delicadamente a mão em seu rosto.

- Sim, hime…

Ele parecia hesitante.

Mexi no cabelo dele, parecendo distraída. Tinha a boca agora próxima ao seu ouvido, o que me satisfez. Usei a técnica preferida dele contra ele.

Soprei sua orelha.

Ele tremeu e ficou mais corado do que achei possível. Estava achando aquilo divertido. Comecei a passar de leve um dedo em seu peito, olhando distraída seu peito subindo e descendo, devido à respiração descompassada.

- S-Shou-hime…

- Sim, Tamaki? – olhei para ele como se realmente o amasse.

Senti seu coração quase pular para fora do peito com a vozinha melosa que eu fiz. Depois ele saiu correndo para fora da sala, com uma mão no rosto. Estava totalmente vermelho. Em seguida vi meu irmão entrando, aplaudindo.

- Parabéns. – ele sorriu.

- Isso foi desgastante. – franzi o cenho.

Ele riu.

- Mas Tamaki é fácil. Seu maior desafio está neles. – vi os gêmeos entrando, ainda sem entender.

Corri para perto dos dois, com uma cara de "Por favor, me ajudem!"

- Boa sorte. – e a última coisa que vi foi meu irmão saindo.

Provavelmente foi porque desmaiei. Lembro-me de ter aberto os olhos e ter visto o teto antes de tudo. Só então percebi que estava deitada no colo de alguém. Desviei o olhar e vi…

- Kaoru, não? – franzi a sobrancelha.

- Acordou! – os gêmeos sorriram.

Sentei e olhei ao redor.

- Por quanto tempo eu apaguei?

- Poucos minutos. – foi Hikaru quem disse.

Apoiei a cabeça no ombro de Kaoru, com a voz saindo mais um sussurro. Eu também tinha um pequeno sorriso no rosto.

- Obrigada.

Ouvi o coração dele dar um salto.

- Kaoru… – eu levantei o rosto para ele e toquei seu rosto com as pontas dos dedos.

Ele ficou apenas olhando, igual Hikaru. Mas eu não tinha forças para continuar com o desafio de Kyouya. Tornei a apoiar a cabeça no ombro do mais novo, descendo a mão até seu peito. Sentia meu rosto fervendo, minhas pernas e braços fracos, a respiração falhando. Ouvi seu coração pular de novo. Eu sorri. Mesmo assim conseguia fazer o que precisava.

Kyouya logo entrou, curioso. Quando me viu quase desmaiando de novo, foi um tanto rapidamente até mim.

- Shou? Shou?! Shou, consegue me ouvir?

Eu gemi. O tom de voz dele estava me incomodando, minha cabeça girava.

- Cala a boca…

Eu tentei me sentar, mas não tinha forças para me manter. Caí deitada no sofá e fiquei. Acabei desmaiando de novo. Quando acordei, percebi que estava na enfermaria, com todo o Host lá, me esperando. Percebi que as garotas presentes olhavam e cochichavam.

- Que desagradável – falei mais para mim do que para os outros, mas foi suficiente para chamar a atenção de Hani. E ele chamou de todo resto.

- Shou-chan! Shou-chan! Como você está?

- Bem… Eu acho. Por que vim para cá? – olhei um tanto confusa para aquele monte de rapazes.

- Você desmaiou. Sua temperatura subiu. – percebi que era a voz de um dos gêmeos.

- Desmaiei? Hm… Isso complica minha situação. – desviei o olhar para Kyouya.

- Não se preocupe. – ele ajeitou os óculos – Você já faz parte do Host.

Olhei para ele com uma cara de "Diga". Ele percebeu o motivo rapidamente, acrescentando o que eu queria.

- Irmãzinha.

Eu sorri, satisfeita. E logo a enfermeira disse que já estava tudo bem e eu podia sair. Mais do que depressa eu fiz isso, com o Host vindo logo atrás. Voltamos para o clube para a "reunião diária".

- Tudo bem. – fui a primeira a falar – Deixe-me ver se entendi. Eu realmente virei uma Hostess?

Tamaki pareceu se abalar com aquilo.

- Shou-san não queria? Foi tudo idéia de seu irmão!

- Não disse isso, Tamaki…

Sim, ele me estressa.

- Eu só não compreendo como isso aconteceu…

- Você cumpriu o que devia, Shou. – nii-san sorria como se não tivesse culpa de nada.

- Cumpri, foi? – desviei o olhar para os gêmeos e vi que Kaoru desviou o rosto.

Hikaru olhava para ele sem entender.

- Sim. Agora podemos lucrar mais, já que atenderemos homens também.

- Muito bem… Então. – minha voz se tornou autoritária – Eu vou fazer do meu jeito! Nada de arranjarem vários por sei lá quanto tempo! Um por vez ou nada feito! – olhei de meu irmão para Tamaki. Tinha um olhar decidido.

- Sim, sim. – Tamaki concordou na hora.

Mas Kyouya parecia pensar.

- É isso ou eu saio. – insisti em conseguir o que queria.

Ele suspirou.

- Tudo bem, Shou. Um por vez.

Isso! Consegui! Ganhei dele!

Olhei, com um sorriso de satisfação, de um Host para outro. Então meu olhar caiu sobre Haruhi.

- E ela? – a essa altura, todos haviam descoberto que Haruhi era garota – Vão manter como menino?

Kyouya acenou com a cabeça.

- Por que? – eu desviei o olhar para Tamaki, que corou instantaneamente.

- Não queremos que pensem nada errôneo dela. – foi meu irmão quem respondeu.

- E quando eu começarei atendendo? – mudei de assunto, desviando o olhar para o ser de mesmo sangue que eu.

- Amanhã.