Era meu primeiro dia como Hostess e eu tenho de admitir. Estava nervosa. Mas estava indo bem pelo menos. Ou achei que estava. Ninguém pareceu achar ruim. Eu ignorei por completo os olhares que às vezes os outros lançavam sobre mim. E a forma como fui apresentada não foi agradável…

- Shou-san! Agora você faz parte do clube! – Tamaki parecia estranhamente alegre.

- Faço… Grande coisa. – revirei os olhos.

- O clube logo estará funcionando. – foi uma observação feita por meu irmão. Isso me desconcertou um pouco.

O "logo" foi uma questão de segundos. E então Tamaki me apresentou as clientes e deu a novidade.

- Minhas queridas. Peço a ajuda de vocês em algo. Sinto-me horrível por ter de pedir a jovens tão belas, mas temos um novo integrante. É nossa primeira Hostess. Shou-san, venha aqui! – ele estava se exaltando mais do que deveria na minha opinião.

- Pois não, Tamaki? – me pus ao lado dele.

Ele tornou a falar com as clientes.

- Se pudessem, gostaria que dissessem a seus colegas que agora podemos atendê-los também. E com a mesma qualidade que atendemos vocês! – ele sorria.

Revirei os olhos.

- É… Isso aí…

Então elas pareceram impressionadas.

- Isso é verdade, Tamaki-sama? – foi uma garota loira perto de mim quem falou.

Ele confirmou com a cabeça.

E então os cochichos começaram.

- Nii-san! – voltei o rosto para onde provavelmente ele estaria.

E logo ele apareceu. Isso fez todas elas se calarem.

- É hoje que começo atendendo, Kyouya-nii? – comecei a falar com ele, sem ligar para todo o restante.

- Em teoria. – ele ajeitou os óculos – Mas pelo visto, seus atendimentos terão de começar a partir de amanhã.

- Pelo visto sim – dei os ombros, voltando meu rosto a Tamaki – É bom que minhas condições sejam cumpridas. Ou então caio fora. – na última frase, desviei o olhar a meu irmão.

- Sim, sim! Serão sim! Não é lindo, Kyouya? Sua irmã agora está conosco! – é. A animação dele era maior do que julguei normal.

- Já que não tenho o que fazer hoje, vou me retirar. – dei as costas e comecei a sair, mas então os gêmeos se colocaram no caminho.

- Onde acha que vai, Shou-san? – eles falaram em uníssono. Estava começando a me acostumar com isso.

- Embora. – minha expressão era de "Isso não está claro?"

- Não vai, não! – cada um pegou um braço meu e começaram a me arrastar para algum lugar. Então vi que era onde eles estavam atendendo naquele dia.

- O que estão pensando?

- Será nossa cliente hoje! – eles pareceram animados com a idéia.

- E por qual razão?

- Ajudamos você a entrar no clube. – começou Kaoru, ao meu lado, o rosto próximo ao meu.

- Então temos o direito de pedir isso, não acha? – terminou Hikaru, do outro lado, com o rosto igualmente próximo.

- Pedir foi a única coisa que não fizeram. – me levantei, ignorando a atenção extrema que estávamos recebendo.

Eles me olharam por algum tempo, mas logo me pegaram pelo braço de novo e me puseram sentada no mesmo lugar de antes.

- Seremos obrigados a fazer você ficar? – o olhar e o tom de voz que usaram me fez lembrar de como Kyouya-nii os havia chamado uma vez.

- De… Mônios – eu olhei como se processasse aquilo pela primeira vez. E era a primeira vez mesmo que eu entendi o termo – Vocês são do tipo demônio aqui, não?

- Nós mesmos! – eles sorriam.

Logo voltaram a atender as outras clientes. Eu apenas observava.

Não é sempre que as pessoas comentam sempre que a vêem sobre você ser irmã de alguém lindo, que faz parte de um clube escolar de sucesso. E isso não é tão agradável assim. Não que seja desagradável, não chega a isso. Mas incomoda sim.

E então era o último cara a ser atendido no dia.

- Gostaria de mais alguma coisa? – sorri para ele. Tentei parecer natural e acho que consegui.

- Sua pergunta está meio ampla, não acha? – seu sorriso me desagradou.

Ok. Se ele tentasse qualquer coisa, era só gritar. Ou atacá-lo. Eu treinei artes marciais por muito tempo. E ainda treino.

- Se eu fosse você, não faria o que está pensando.

Ele aproximou seu rosto do meu. Foi o suficiente para eu ficar séria.

- E como sabe o que estou pensando? – sua voz mais parecia um sussurro.

- Você é bastante transparente. – virei meu rosto e levantei – Se está satisfeito, se retire. – lancei um último olhar a ele, sem emoção alguma.

Ele franziu o cenho.

- Tudo bem… Já entendi. – ele se levantou e veio até mim.

- Entendeu o que? – ele estava diante de mim. Eu apenas o olhava, sem emoção nenhuma.

- Se eu quiser algo, terei de lutar por isso, não?

- Sim. Geralmente é assim que funciona.

Ele colocou uma mão em meu rosto e do nada estava me beijando.

Não foram nem três segundos. Os gêmeos jogaram beisebol e acertaram a bola na cabeça dele, propositalmente. Fiquei feliz com isso e até ri. Já ele ficou bravo. Lançou um olhar irritado para os gêmeos, que apenas riram.

- Vá embora, por favor. – ouvi a voz de meu irmão atrás de mim.

- Kyouya! – me virei e o abracei – Não achei que fosse tomar uma atitude.

O rapaz então saiu, parecendo irritado. E uma vez que ele estivesse fora, eu podia soltar meu irmão e agradecer aos três por terem parado seus atendimentos por minha causa. Apesar de não ser necessário. Os gêmeos sorriram de volta e voltaram ao que faziam. Kyouya ajeitou os óculos e simplesmente se afastou.

Fiquei sentada onde estava atendendo, olhando. E mais uma vez meus olhos pousaram sobre os ruivos. Então comecei a prestar atenção.

- Lembra-se, Kaoru? Hoje você parecia tão indefeso quando acordou porque teve um pesadelo. – Hikaru sorriu para o irmão.

- Hikaru… Não fale sobre isso… Fico envergonhado… – o mais novo baixou o olhar e corou de leve.

- Desculpe, Kaoru. – nisso, ele pôs uma mão no rosto do irmão e o puxou pela cintura para mais perto, quase tocando seus lábios nos do outro.

- Hi-Hikaru…

E então veio. O grito a todo pulmão.

- Moeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!

Revirei os olhos. E então um jovem realmente lindo e maravilhoso, com os cabelos mais negros que eu já vi, os olhos verdes intensos e profundos, de mais ou menos 1,80 metros, dono de um sorriso lindo e tudo mais que tem direito estava ao meu lado.

- P-pois não…? – eu não conseguia pensar direito.

- Você seria Shou Ootori? – ele sorria gentilmente e logo se sentou ao meu lado.

Apenas confirmei com a cabeça.

- Tem algo que preciso falar com você. Tem algum lugar mais… Reservado?

Senti olhares me fuzilando. Não sei se era apenas das meninas.

Mais uma vez confirmei com a cabeça. Em seguida me levantei e comecei a sair. Ele veio atrás.

- E… Quem seria você…? – comecei a falar somente quando estávamos suficientemente longe.

- Sua mãe me mandou. – sua voz saía tranqüila, mas sua expressão mostrava que o assunto era um tanto sério.

- Mamãe…? E o que ela quer?

- Ela precisa que você volte para a Espanha…

- E por quê? Ela tem o novo maridinho dela que a faz mais feliz do que eu jamais consegui. – fiquei séria. No dia em que minha mãe precisasse de mim após um novo casamento, iria chover canivete.

- Não, Shou. Ela não tem.

- Divórcio? – dei os ombros. Aquilo era bem normal na vida dela.

- Exatamente.

- Ela sempre se divorcia. Agora que estou acostumada ao Japão e tenho amigos aqui, não serei arrastada para a vida confusa dela. Vou ficar.

- Shou, entenda… Ela só consegue pedir que você volte.

- E eu não quero. Aliás. Quem é você?

- Eu sou o ex-marido de sua mãe.

Parei. Como assim aquele deus grego era o ex de minha mãe?

- Você é o ex dela? Você? – não conseguia acreditar.

- Exatamente.

- E por qual motivo você… Melhor! Quantos anos você tem?

- Pouco mais de vinte.

Mamãe tinha trinta… Não era tanta a diferença, tenho de admitir. Mas aquilo me desconcertou.

- Parece ter menos que eu, isso sim.

Ele riu.

- Que bom. Assim não tem grandes problemas se eu disser…

Eu o interrompi.

- Ora, cale-se. Você acabou de deixar minha mãe. – eu senti uma raiva subindo por meu corpo.

- Não, Shou. Ela me deixou. Apesar de precisar muito de você agora, ela achou alguém de idade mais apropriada.

- Está tentando me dizer que ela quer o meu apoio no novo caso dela?

Isso não era aceitável.

- Exatamente.

- Ligue para ela agora e diga que não vou voltar para a Espanha para apoiá-la e depois ser despachada novamente. Não pisarei fora do Japão enquanto não for de minha vontade. – girei sobre os calcanhares e comecei a andar de volta para o clube.

Então ele riu.

- Qual a graça? – voltei-me para ele, sem entender.

- Ela disse que você iria reagir assim.

Franzi o cenho.

- Se ela sabe, então por que está aqui?

- Por que eu não deveria estar aqui? Fui aceito como professor.

Ok. Aquilo já era muito para minha cabeça.

- Veio descontar as mágoas em alunos riquinhos, frescos e mimados?

- É um ponto de vista. – ele deu os ombros.

- E qual seria o outro?

- Acabei me apaixonando pela filha de minha ex-mulher.

Corei.

- Não… Não fale besteiras…

- Não estou falando. – ele se aproximou de mim e pôs uma mão em meu rosto. Eu me limitei a fitar o chão.

- É claro que está…

Ele não respondeu. Em vez disso, levantou meu rosto delicadamente, me obrigando a olhar para ele.

- Preciso provar que não? – era uma pergunta retórica, já que ele faria o que estava pensando independentemente de minha resposta.

Abri a boca para responder, mas logo a fechei de novo. Não conseguia formar uma frase lógica em minha mente.

- Parece que sim – ele aproximou seu rosto do meu e logo nossos lábios estavam se tocando.

Fiquei estática. Ele estava me beijando! Aquele deus grego pouco mais velho do que eu, ex de minha mãe, estava me beijando! Beijando! No meio do colégio! E então senti que ele passou um braço em minha cintura, mantendo a outra mão em meu rosto. Eu já tinha fechado os olhos, tentando pensar. Em vão, para ser sincera.

Quando ele afastou seu rosto do meu, eu ainda não conseguia reagir. Abri os olhos devagar e fiquei olhando para ele. Em troca recebi um sorriso lindo e perfeito, acompanhado de uma frase sussurrada.

- Acredita em mim agora?

Confirmei com a cabeça. Minha reação não passou disso.

E então passos. Eram passos conhecidos, passos do Host. Gelei. E se alguém tivesse escutado? Pior. Se alguém tivesse visto?

- Shou-san! – era a voz de Haruhi. Pelo jeito ainda não tinha me encontrado.

Ele se afastou de mim, dando um beijo em minha testa.

- Vejo você por aí, Shou. – sorriu e sumiu ao virar em um corredor.

Fiquei apenas olhando, até que Haruhi me alcançou.

- Shou-san? O que foi?

Voltei o rosto para ela e sorri.

- Nada. Não se preocupe. O Host já fechou?

- Sim. Kyouya-senpai está com suas coisas e esperando lá fora.

E fomos embora do colégio.