Novamente a garrafa parou de girar. Hikaru perguntava. E então olhei quem responderia…
- Eu? – minha voz saiu esganiçada.
Percebi que ele olhou triunfante para mim. Cerrei os olhos. Tinha certeza de que o que ele pediria seria constrangedor.
- Consegue saber o que vou pedir, não?
Engoli em seco.
- Ou será como seu irmão fez… Ou então… – parei. Ou então o que? Coisa pior?
- Desafio você – ele apontou para mim – terá que revelar seus sentimentos por meu irmão e por aquele cara que apareceu no clube outro dia.
- Você diz… O novo professor…? – percebi que eu estava tremendo.
- Exato.
Só então consegui notar. Kaoru estava tremendo junto. Isso significava algo, não? Significaria que… Não. Isso não era possível.
- Eu não sinto nada pelo professor. Ele é apenas o ex de minha mãe. Nada demais. – franzi o cenho, olhando o chão. Não conseguiria falar de Kaoru.
- E sobre Kaoru…? – Hikaru esperava paciente, me olhando com aquele ar triunfante que estava me irritando.
Mordi de leve meu lábio inferior.
- Vamos facilitar… Eu vou perguntar e você responde "sim" ou "não".
Acenei com a cabeça, concordando.
- Você gosta dele. – não era uma pergunta, mas confirmei – Ele não é alguém que você abandonaria. – ele usou o mesmo tom. Confirmei de novo – Então a pergunta central… Você o…
Ele não conseguiu terminar. Alguma coisa voou em sua cabeça, fazendo-o cair. E então ouvi a voz de Haruhi.
- Kaoru-senpai, não faça isso!
Kaoru não respondeu, limitando-se a se proteger da almofada que voou em sua direção. Comecei a rir.
- Vamos continuar, vai. Haruhi ainda não perguntou e Kaoru ainda não respondeu. – eu olhei de um para outro.
- Então nem precisamos girar a garrafa. Haruhi pergunta para Kaoru. – Hikaru sorriu.
- Tudo bem. – Haruhi deu os ombros – Então eu o desafio a… Contar um segredo. – ela provavelmente falou a primeira coisa que veio em sua mente.
Hikaru se apressou em acrescentar.
- Algum segredo amoroso seria interessante. – ele riu.
- Hi… Hikaru! – percebi que Kaoru corou.
- Você está pensando em algo como uma declaração, Hikaru? – eu os interrompi antes que começassem seus joguinhos gays.
Ele confirmou com a cabeça.
- Imagino que eu estou no meio. – dei os ombros.
- Como… Como você sabe? – ele se surpreendeu.
- Culpa sua. Eu descobri agora se quer saber. – dei os ombros.
Kaoru corou.
Eu ia falar alguma coisa quando meu irmão apareceu na porta.
- Shou?
- O que foi, nii-san?
- A mãe ligou. Quer falar com você. – ele me passou seu celular.
- Diga, mãe. – eu não queria falar com ela.
- Querida! Que bom! Você parece bem! – ela me pareceu bastante animada.
- É, mãe… Seu ex apareceu no meu colégio dizendo que me amava, estou na casa de uns amigos jogando, nii-san ainda não foi cruel comigo, papai sumiu, nada que pudesse me magoar.
Ouvi então ela suspirando.
- Eu sinto muito, querida. Sinto muito. Eu não achei que ele estivesse falando sério quando disse que iria ao Japão. Poderia ter avisado se eu soubesse.
- Só quero saber porque dessa vez durou tão pouco.
- Ele é muito novo. Você sabe, não? Caras mais novos são… Bom, espero que se dêem bem. Vou desligar, já que não tem nada que possa fazer você voltar.
- Exato. Eu finalmente tenho amigos aqui. E você não vai me separar deles como no ano novo. – foi cruel, eu sei. Mas tinha de ficar claro que eu realmente não ia voltar.
- Bom, querida. Se cuide. Mamãe ama você.
- Eu sei. – mentira. Se me amasse não tinha me tornado um estorvo – Também amo você, mãe. – e desliguei.
Kyouya pegou seu telefone de volta e desceu.
- Estou com fome. – Haruhi se manifestou.
- Eu também. – acrescentei rapidamente.
- Tem biscoitos lá embaixo. – a resposta veio em uníssono deles.
Levantei e fui para a sala. Mas não cheguei a sair da escada. Meu irmão e Tamaki conversavam sobre algo e eu acabei parando para observar.
- O que foi, Tamaki?
- N-não é nada, Kyouya… – ele se encolheu, parecendo constrangido.
Então percebi que meu irmão tirou os óculos e se aproximou do loiro. Sua voz saía baixa, mas eu consegui ouvir.
- Diga, Tamaki.
- E-eu…
Percebi o nervosismo saindo pelas palavras.
- Sim…? – meu irmão era bastante paciente às vezes.
Então ele percebeu que Tamaki, agora vermelho, não ia dizer nada. E aconteceu. Eu quase caí da escada quando vi. Meu irmão o beijou. Nii-san beijou o cara mais retardado do planeta! Eu tinha razão, entende?! Meu irmão e aquele loiro estúpido tinham um caso! E eles estavam se beijando numa casa que nem era deles! E Tamaki retribuiu o gesto. Ele passou os braços em torno do pescoço de Kyouya e logo os dois estavam deitados no sofá, com meu irmão por cima.
Eles estavam se pegando no sofá dos Hitachiin na minha frente! Tudo bem, ninguém sabia que eu estava lá, mas não deixa de ser estranho e… Nojento! Eu nunca esperei isso de nii-san. Alguém tão sério, tão centrado. Tão… Certinho. E aquilo com certeza não era algo classificado como "certinho". Subi correndo, me esquecendo totalmente do que tinha ido fazer, e entrei no quarto dos gêmeos, me jogando na cama, o rosto escondido no travesseiro.
Foi Kaoru quem se manifestou primeiro.
- Shou-san…? O que… O que houve…?
- Nii-san… Ele… – eu estava atordoada, mas consegui levantar a cabeça para responder – Tamaki… Eles…
- O que tem eles, Shou-san? – Kaoru sentou ao meu lado;
- Eles… Eles… Vocês não viram o que eu vi… – tornei a afundar o rosto no travesseiro.
- Então era verdade…
A voz dos gêmeos soou em uníssono nos meus ouvidos.
Virei para eles, me sentando.
- O que era verdade?
- Tamaki e Kyouya. – novamente a resposta em uníssono.
- Então… Vocês sabiam…? – eu não conseguia aceitar aquilo.
- Sim.
Voltei o olhar para Haruhi.
- E você…?
- Estou tão chocada quanto você, Shou-san.
Fiquei olhando pela janela e não percebi quando os outros saíram, deixando eu e Kaoru sozinhos.
- Shou-san…
Virei o rosto.
- Ah… Onde estão os outros? – franzi a sobrancelha.
- Saíram um momento. – ele deu os ombros.
Eu sorri.
- Vai ser bom para eles ficarem juntos e sozinhos um pouco.
- Shou-san… Poderia… Olhar para mim…? – eu não havia percebido que tinha voltado a olhar pela janela até que ele me chamasse.
Tornei a olhar para ele, sem entender o que queria. Então ele pôs uma mão em meu rosto, me fazendo corar.
- Ka… Kaoru…
Então ele beijou minha testa. Olhei para o chão. Ele então apoiou a cabeça em meu ombro. A voz saindo num sussurro.
- Sabe o desafio de Haruhi?
- O que ela fez para você…?
- É… Eu ia dizer…
Percebi que ele não ia dizer.
- O que…?
- Você já sabe, não é?
- Você ia dizer que… Gosta de mim, não é…?
Ele entendeu que não era um simples gostar. Eu me referia a amor.
- E… Eu ia… – ele hesitou antes de responder.
Vi que havia levantado o rosto para mim e estávamos extremamente próximos. Foi por reflexo que acabei fazendo o que fiz. Passei os braços em torno do ruivo e o beijei. Não achei que fosse fazer isso, muito menos que ele retribuiria. Mas retribuiu. Ele tinha uma mão em meus cabelos, a outra em minha cintura. E de alguma forma aquilo foi envolvente e eu não quis parar.
E de repente alguém estava no quarto. Não sei quem era ou como apareceu ali, mas me surpreendeu. E acredito que Kaoru também. Nossa posição não era das melhores. Estávamos deitados na cama, ele por cima de mim, uma mão em minha cintura, eu com os braços em torno dele. Não diria que era algo agradável.
