Fiquei olhando para a porta. Quem estava parado diante dela era de pequena estatura, os cabelos longos. Estava escuro, por isso não vi seu rosto. E então as luzes foram acesas. Quando isso aconteceu, empurrei Kaoru para o lado e me sentei, o coração quase saindo pela boca.
E foi aí que vi. Era uma garotinha loira parecida com Tamaki. Minha voz saiu trêmula e baixa.
- Você… Suou…
Ela olhou para mim.
- E quem é você? – ela parecia indiferente.
Kaoru se apressou em responder.
- Ryuu-san… O que faz aqui? Ah, ela é uma, er… Colega. Shou Ootori.
- Tsc. Então os Suou estão fadados a se encontrarem com os Ootori. – ela falou aquilo de forma zombeteira.
Foi aí que meu irmão e Tamaki apareceram na porta.
- Ryuu-chan! Eu disse que não deveria sair andando assim pela casa dos outros! – o loiro foi o primeiro a falar.
- Tamaki! Pare de sair correndo por aí! – e então nii-san pôs a cabeça para dentro do quarto – Shou? Kaoru?
- Oi, nii-san…
Baixei o olhar. Esperava que ele tivesse ido embora já, mas ele ainda estava lá.
- Shou – a voz de meu irmão me fez levantar a cabeça – Está tarde, vamos embora.
- Sim, nii-san. – levantei e saí do quarto, deixando Kaoru sem as possíveis perguntas que se formavam.
Tamaki e sua irmã foram no mesmo carro que nós. Deixaríamos os dois, já que a casa deles era no caminho.
- Ryuu, não é? – decidi conversar já que era obrigada a respirar o mesmo ar que aquele idiota. Esperava que a irmã fosse mais inteligente.
- O que foi? – ela me olhou indiferente.
- Você é garota, não? – ela confirmou com a cabeça, então continuei – Não me parece que todos saibam…
- E não sabem. – ela se ajeitou antes de continuar – Só vocês três. – ela apontou para mim e nii-san e fez um gesto com a cabeça, indicando seu irmão.
- Isso não incomoda você?
Ela negou com a cabeça e depois completou.
- Não sou obrigada a coisas femininas, o que é bom.
Pouco depois chegamos na casa dos Suou. Dei boa noite e voltei aos meus pensamentos. Tinha a impressão de que poderia me dar bem com ela. E pouco depois estávamos em casa.
- Vou direto dormir, nii-san. – disse isso a ele e subi, indo direto para o banheiro tomar um banho.
Uma vez limpa, vesti meu pijama, mas não fui dormi. Liguei o computador e comecei a olhar algumas coisas. Então uma janela piscou na tela. Olhei o nome. Kaoru Hitachiin.
Abri a janela e vi o que queria. Logo começamos a conversar.
K: Por que pareceu triste quando seu irmão apareceu?
S: Não queria ele ali.
K: E por que?
S: Não sei… Sinto como se não fôssemos irmãos de verdade depois de…
K: Tamaki?
S: É… Por falar nos Suou.
K: O que?
S: Ryuu. Acho que podemos nos dar bem.
K: O baixinho? E por que?
S: Não sei. Apenas senti isso.
K: Hahahahahahaha!
S: Ah, sim… Desculpe ter saído sem me despedir de sua casa.
K: Não tem problema. Hikaru apareceu pouco depois mesmo. Foi melhor assim.
S: É… Seria constrangedor se seu irmão visse o mesmo de Ryuu.
K: Com certeza seria…
Olhei o horário.
S: Já é tarde… Nós dois deveríamos ir dormir. Mesmo que amanhã não tenha aula.
K: Viria aqui amanhã também?
S: Acho que amanhã nii-san vai sair… Venham vocês aqui. Podem trazer Haruhi também. Podemos ver isso direito amanhã? Estou com sono…
K: Claro. Tenha uma boa noite, Shou!
Sorri. Era bom, de alguma forma, vê-lo sendo pouco formal. A formalidade me incomoda. Desejei uma boa noite de volta e desliguei o computador. Então penteei o cabelo e fui dormir.
O sonho que tive aquela noite foi estranho. Tinha metade do Host quase.
Eu estava amarrada a uma tora. As mãos atrás do tronco, amarradas por uma corda com força. E diante de mim, a responsável. Era uma versão feminina de meu irmão. A rainha Ootori. E eu era a condenada na história. A princesa Ootori. E por algum motivo que eu ainda desconhecia, seria cremada. E então apareceu um loiro. Olhei-o desesperançada. Era o rei Suou. Ele se aproximou da sorridente rainha e passou os braços em torno de sua cintura. E então seus lábios se encontraram. Diante de mim, aquele casal repugnante se beijava. Quis vomitar, mas algo me fez desviar a atenção bem em tempo. Olhei o máximo que pude para trás. Um ruivo estava me desamarrando. E quando eu estava livre, ele me tomou em seus braços. Era meu pretendente Kaoru Hitachiin, do reino vizinho. Um reino que só encontraria paz com meu casamento, mas não era o que a rainha queria. Ela desejava poder destruir o reino vizinho e reduzi-lo a pó. Lancei um último olhar ao casal que me dava náuseas e tornei a olhar meu… Príncipe. Ele me envolvia de forma carinhosa e, protegidos pela tora, pudemos ter um instante de felicidade. Assim como os governantes, agora nos beijávamos.
Acordei na manhã seguinte sem entender direito o que sonhei. Era como o que tinha acontecido na casa dos gêmeos, mas uma versão no passado. E aquilo me incomodou. Então me levantei e saí. Quando encontrei uma empregada, perguntei se meu irmão estava em casa.
- Não, Shou-sama. Ele disse que voltará tarde. Bem tarde. – agradeci e ela voltou aos seus afazeres.
Peguei o telefone mais próximo e disquei o número dos gêmeos. A voz sonolenta de Kaoru soou do outro lado.
- Kaoru? Vocês podem vir aqui hoje? Eu acabei ficando sozinha…
- Claro, Shou. Vamos buscar Haruhi e logo estaremos aí.
Ambos desligamos e subi para o quarto. Logo comecei a me trocar. Uma vez pronta, me olhei diante do espelho. Minha saia jeans estava boa, minha blusa rosa-claro com uns corações no meio deixava apenas um dedo de minha barriga aparecendo. Meu cabelo estava preso em duas chiquinhas e eu parecia descansada. Sorri satisfeita e desci.
Esperei por eles na sala e não demorou muito até que a porta fosse aberta. Eu praticamente pulei do sofá e fui ao encontro deles. Cumprimentei Haruhi e Hikaru, abraçando Kaoru em seguida. Eu me sentia extremamente feliz.
- Que bom que vieram! – comecei a andar para dentro da casa – Então, o que vamos fazer?
- Eu não sei. – Haruhi deu os ombros.
- Eu vi que acabaram resolvendo as coisas. Você e Kaoru, digo. – Hikaru sorria maliciosamente, o que me fez corar.
- É… Resolvemos… Eu acho.
- Vocês se beijaram já, por acaso? – a pergunta dele fez com que eu corasse mais. Vendo isso, ele continuou – Isso é um sim. Perfeito, se ajeitaram! Já assumiram namoro?
- Hi-Hikaru…! – Kaoru estava tão nervoso quanto eu.
- Ok, ok… Eu paro de falar disso.
- Bom… Está quente lá fora, né…? – eu tentava desviar de assunto – Por que não vamos nadar?
- Boa idéia. – Haruhi sorriu. De alguma forma, os gêmeos tinham previsto que seria necessário roupa de banho e a fizeram trazer um biquíni.
- Ótimo! – sorri satisfeita – Haruhi e eu vamos nos trocar em meu quarto. Vocês – apontei para os gêmeos – vão usar o quarto de Kyouya-nii.
Comecei a subir, sem dar tempo para protestos. Logo estávamos cada um onde deveria. Eu e Haruhi nos trocamos até que rápido e começamos a conversar.
- Você percebeu, não é? – comecei – Que Hikaru parece gostar de você.
- Sim. – ela olhava pela janela.
- Você o ama, Haruhi? – vi que ela corou – Oooh… Isso seria um "sim"? – sorri maliciosamente.
- É c-claro que não, Shou-san! – ela ficou mais vermelha.
- Que meigo! Agora somos dois casais! – eu sorri, realmente parecendo gostar daquilo.
- Somos, é…? – ela parecia desconfortável com a idéia.
- Eu e Kaoru, você e Hikaru. – minha voz era de quem dizia "Não é óbvio?".
Então bateram na porta. Logo as vozes dos gêmeos vieram.
- Prontas?
Levantei e abri a porta.
- Vamos, Haruhi? – sorri para ela, esperando-a.
Ela confirmou com a cabeça e saiu. Fui logo atrás, tomando o cuidado de fechar a porta antes. Descemos para a piscina e eu, quase de imediato, mergulhei. Quando coloquei a cabeça para fora da água, o primeiro que vi foi Kaoru. Chamei-o para perto e comecei a cochichar algo com o ruivo.
- Temos que fazer com que seu irmão e Haruhi se beijem por vontade própria. Só assim eles vão se assumir como casal.
- Eu sei – ele suspirou – Só se os prendêssemos em algum lugar.
Desviei o olhar para os dois. Talvez…
- Fique aqui, Kaoru. – sai da água e fui até onde tinha uma mangueira. Ela já estava ligada à torneira, o que me satisfez.
Abri um pouco e deixei a água começar a sair. Então mirei em Hikaru e Haruhi e abri mais. Muita água voou neles e de alguma forma o ruivo caiu por sobre a morena, seus lábios se tocando. E não demorou muito para que aquilo deixasse de ser um acidente e se tornasse o primeiro beijo apaixonado deles. Afinal, o do desafio não conta, não é?
Fechei a torneira e tornei a entrar na piscina. Kaoru estava do outro lado observando.
- Bom trabalho. – disse ele, quando cheguei ao seu lado.
- Obrigada. – sorri e passei uma mão por seu rosto – Poderia me dizer uma coisa?
- O que quer saber? – ele desviou o olhar para mim.
- Desde quando… Você percebeu isso? – tirei a mão que estava em seu rosto e coloquei sobre a região do coração. Logo senti que ele batia mais depressa sobre minha palma.
- Eu… Bem… Pouco depois do… Desafio de seu irmão… O que fez você entrar no Host… Eu acho. – ele coçou a nuca, sem graça.
Eu ri.
- Sabe… Eu só percebi – agora meus dedos passeavam por seu peito e eu percebi que isso o deixava nervoso – Depois do "incidente" na sua casa. Você sabe. O desafio de Hikaru.
Então ele segurou a mão que eu mantinha passeando por seu peito. Desviei o olhar para ele e logo seus lábios tocaram os meus. Como da outra vez, foi envolvente e eu não quis parar. Pude perceber um braço seu em torno de minha cintura pouco depois, enquanto ainda segurava minha mão. Eu entrelaçava meus dedos aos seus, com a outra mão em seu peito.
Senti meu coração acelerar e minha respiração falhar um instante. Percebi que o mesmo acontecia com ele, então nos afastamos um momento para respirarmos. Mas logo nos beijávamos de novo. Eu o amava e já não tinha como negar. E, mesmo que ainda não fosse algo verbalizado, sabia que ele também me amava. E isso era o suficiente.
