Vi papai entrando apressado em casa, com vários homens atrás. Não consegui passar do meio da escada, ficando estática, apenas observando. Ele deixou algo sobre a mesa e falou com uma das empregadas, saindo com a mesma velocidade com que entrou. Quando ouvi a porta bater, desci correndo, indo ver o que estava na mesa. Era um envelope branco com dizeres de papai. Para Shou.

- Shou-sama…! – percebi que a empregada que falara com meu pai se assustou ao me ver lá – Eu ia levar isso ao seu quarto agora mesmo.

- Não precisa. – peguei o envelope e subi, abrindo-o no caminho. Um enorme sorriso surgiu em meu rosto quando vi o que era – Ele conseguiu! Ele conseguiu os ingressos! Ele conseguiu! – eu estava eufórica.

Kyouya-nii então entrou em meu quarto sem bater.

- Está feliz por qual motivo, Shou?

- Nada que interesse a você. Poderia sair do meu quarto?

- Vejo que melhorou.

Droga.

- O que exatamente você teve?

Droga ao quadrado.

- Papai ficou sabendo?

Droga ao cubo.

- Ou tudo isso foi forjado?

E mais uma vez… Droga!

- E então, Shou? – ele sorria satisfeito.

- Bom… – eu comecei – Eu fiquei um pouco febril e… Minha garganta doía muito… Também teve a tosse.

- Forjada.

Droga a quinta!

- Faltou no colégio sem motivo… Acho que papai deveria saber.

Isso me irritou.

- Se contar a papai, contarei sobre seu namorinho com o imbecil do Tamaki!

Ele me olhava, surpreso.

- Você ouviu! – comecei a empurrá-lo para fora – Agora saia do meu quarto!

Como Kyouya-nii podia ser irritante! Se eu não soubesse de seu caso com o loiro retardado, eu estaria frita! Como eu podia detestá-lo! Eu poderia ficar, e estava, tão irritada com ele quanto com mamãe! Primeiro eu sou algo indesejado e depois sou posta na corda bamba? Só porque achei que poderia viver despreocupadamente agora! Mas claro que eu estava enganada! Por que o mundo deve ser bom e a vida feliz, não é?

Suspirei. Ficar irritada não mudaria as coisas, então o melhor era descansar a mente e relaxar o corpo, boiar sobre o mar tranqüilo da inconsciência e esperar pelo dia seguinte. O dia em que as idéias sairiam do fictício e, supostamente, passariam para o real. Era o dia pelo qual eu ansiava e nada, nem um sonho estranho, me desanimaria.

Estava sozinha, no meio da selva. De longe, podia ouvir uma música que tocava, mas por mais que corresse, não conseguia chegar em sua fonte. E por vezes uma voz familiar soava. "Esse é seu castigo por mentir e ameaçar… Seu castigo por não ser boa filha. Se soubesse…" E eu continuava a correr e procurar por algo, mesmo sem saber dizer o que. E então um ruivo de peito descoberto, vestindo apenas uma tanga. Apareceu em cima de uma das árvores. "Perdida?" ouvi me perguntar. Foi só então que percebi, a música tinha parado. "Sim. Creio que sim" respondi. Ele sorriu e me estendeu a mão. De alguma forma consegui alcançá-la…

Acordei mais cedo do que o normal no dia seguinte e aproveitei para fazer as coisas com calma. Comi um bom café da manhã e fui para o colégio, mas não sem antes me certificar de que estava com os ingressos. Cheguei poucos minutos antes dos gêmeos e Haruhi.

- Bom dia! – sorri.

- Shou-san, bom dia. – Haruhi sorriu de volta.

- Não vou poder ficar o tempo todo no Host hoje… Tenho umas coisas para fazer. – lancei um rápido olhar para os gêmeos para ver a reação que viria.

Eles deram os ombros.

E logo as aulas começaram. Foi maçante, como sempre, mas minha mente pelo menos vagava por coisas mais interessantes, como o que eu faria para que os ingressos fossem parar com Hikaru. E como ele chamaria Haruhi. Mal percebi quando as atividades do clube começaram.

Atendi alguns rapazes, mas antes que entrasse o próximo, fui até Kyouya.

- Eu não posso atender o restante.

Ele me olhou por cima dos óculos.

- E por qual motivo?

- Compromissos.

- Sei… E como pretende repor?

- Não sei. Amanhã, depois. – dei os ombros.

Ele suspirou.

- Tudo bem então, Shou. Mas se não repor, teremos problemas.

- Eu sei. – me virei e fui até onde os gêmeos estavam atendendo – Desculpe, meninas, Hikaru. Eu preciso do Kaoru um momento. – sorri e o tirei de lá.

Fomos para o vestiário, ele me olhando como quem não entendia.

- Seguinte. – tirei o par de ingressos do bolso – Aqui estão os ingressos.

- Por que está me entregando os dois? – ele ficou mais confuso ainda.

- Não são para nós, bobão. Seu irmão e Haruhi. Dê os ingressos a ele e faça com que chame Haruhi. – entreguei os ingressos a ele – Agora melhor voltar, antes que alguém venha me estrangular por monopolizar você.

Ele riu.

- Tudo bem, tudo bem. Vejo você mais tarde?

- Claro. – sorri e dei um beijo em sua bochecha – Até mais então.

- Até mais. – ele sorriu de volta e voltou às atividades do Host.

Eu saí do clube e fui para a biblioteca mais próxima. Apesar do barulho, consegui fazer o que queria. Ver meus e-mails. Ultimamente minha mãe estava enchendo o saco para eu voltar para a Espanha. Abri o primeiro.

Shou, é a mamãe. Você não vem mesmo para cá? Tenho uma surpresa para você! E sinto sua falta. Você adoraria conhecer seu novo padrasto. Venha antes de acabar o mês, por favor. Amo você, querida.

Ri. Claro, ela sempre dizia isso. "Você adoraria conhecer seu novo padrasto". E eu sempre o odiava. Fechei tudo e fui para onde eu poderia fazer uma ligação. Parei na porta do colégio e disquei o número do celular de minha mãe.

- Querida! – ela pareceu realmente feliz por eu ter ligado.

- Mãe, qual é a surpresa?

- Se eu contar então deixa de ser surpresa.

- Não é algo que possa mandar para mim?

- Mandar? Eu não posso mandar para você!

- O que foi dessa vez? Por que é tão importante que eu volte?

Então alguém assumiu o telefone.

- Shou?

- Quem é você?

- Seu novo padrasto.

- Certo… E por qual motivo eu devo voltar?

- Sua mãe quer você de madrinha.

- De casamento? Mas vocês… – então caiu a ficha – Ela engravidou, teve um bebê e me quer no batizado.

- Certo.

- Não vou, sinto muito.

E desliguei. Um bebê! Minha mãe estava grávida! E me queria de madrinha da criança. Voltei para o Host, indo falar direto com nii-san. Felizmente ele não estava atendendo.

- O que foi agora?

- Mamãe teve um bebê. Preciso da sua ajuda.

- Ganhamos um meio-irmão? – ele pareceu achar graça.

- Não fique achando graça. Ela me quer na Espanha até o fim do mês. – eu estava entrando em pânico.

- E como espera que eu ajude, Shou?

- Eu não sei! Mas por favor, faça alguma coisa! Convença-a!

- Por que não fala com nosso pai?

Papai. Eu havia me esquecido disso. E de repente meu celular tocou, me fazendo pular, o que fez Kyouya rir.

- Ora, cale-se. – e então atendi.

- Shou? – era a voz de papai.

- Pois não, pai?

- Venha para casa agora. Tem algo importante que eu quero falar com você.

Estranhei.

- Claro, pai… Vou agora mesmo. – desliguei.

- O que foi, Shou? – Kyouya me olhava sem entender.

- Papai quer me ver agora. Vou para casa. – peguei minhas coisas, chamei um carro e fui.

Quando coloquei os pés dentro da sala, não consegui sair do lugar. Reconheci meus desenhos sobre a mesa e vi pessoas estranhas olhando-os interessadas. Estavam bem vestidas e ninguém pareceu me notar. Isso me aliviou, mas por pouco tempo. Ouvi meu pai expondo minha presença.

- Shou! Que bom que chegou! – ele se levantou e veio até mim.

Eu o cumprimentei e ele me levou até o grupo de pessoas.

- Esses são alguns colegas meus da faculdade. São formados em artes e me perguntaram se eu tinha algum talento na família. Pensei em você.

- Mas… Eu… Digo… Eles… Como assim? – eu não conseguia acreditar.

Então uma mulher se levantou e veio até mim.

- Prazer. – ela sorria – Sou Akiko Takara. Seus desenhos são muito bons! – ela parecia sincera, o que me deixou encabulada.

- São… Apenas rascunhos… Não creio que estejam tão bons…

Ela se referia aos meus desenhos, ou tentativas, de alguns modelos originais que fiz nos momentos de tédio. Eu sempre gostei de desenhar roupas e achou que papai acabou percebendo. Ou então aquelas pessoas não estariam lá.

- Queremos saber se podemos utilizar um de seus modelos na próxima coleção. Se fizer sucesso, você estará no esquema.

Um momento! Ela disse… Meus modelos… No desfile… De moda? Eu a olhava sem acreditar. Então eu poderia ser esperançosa? Eu realmente tinha como marcar o mundo da moda? Aquilo era sério?

- Então? O que acha? – ela continuava sorrindo de forma gentil.

- Eu… Eu adoraria! – então nos juntamos ao restante do grupo. Meu pai parecia orgulhoso.

- Vamos ensinar você tudo que precisa saber e logo poderá passar seus modelos do papel para o tecido.

Eu me empolguei e logo começamos a conversar. E quando eles estavam discutindo algo entre eles, meu telefone tocou. Olhei o número.

- Desculpem. – fiquei meio sem jeito – Tem algum problema se eu atender?

A moça chamada Akiko foi quem respondeu.

- Depende de quem for. – ela sorria.

Corei.

- Namorado? – ela riu.

Confirmei com a cabeça.

- Pode atender, querida. – e então voltou a conversar com seus colegas.

Fui para perto da escada e atendi.

- Desculpa a demora… Meu pai me arranjou umas coisas complicadas aqui…

- Sem problemas. Kyouya-senpai disse que você foi para casa porque seu pai queria falar com você, então não precisa se desculpar. – ele parecia despreocupado.

- Então. Como foi com Hikaru?

- Os ingressos estão com ele, mas aquele idiota não consegue chamar Haruhi.

- Ele vai precisar de ajuda então…

- Sim. E eu queria saber… Quando vai estar livre?

- Não sei, desculpe… Tem um povo aqui em casa…

- E você precisa ficar aí?

- Sim… Eles só estão aqui por minha causa…

- Como assim?

- Depois eu explico, estão me chamando. Desculpe.

- Não precisa se desculpa tanto, Shou.

- Certo… Vejo você amanhã então?

- Tente não se afogar no meio de tanta gente. – ele riu.

- Bobão. Vou desligar antes que se irritem.

- Ok. Até amanhã então.

- Até! – e desliguei, voltando para o sofá.

Voltamos a conversar e eles só foram embora depois do pôr-do-Sol. Mas antes de ir, Akiko me deixou um par de entradas para o desfile onde apresentariam a próxima coleção. Eu não sabia qual modelo meu eles escolheriam, já que tinham levados vários, mas ainda assim estava eufórica. Peguei o telefone e liguei para Kaoru.