Felizmente ele atendeu. Estava com uma terrível voz de sono, mas não liguei. Eu estava elétrica demais para notar tão cedo um detalhe que normalmente eu perceberia na hora. É isso que acontece quando as pessoas querem fazer você ficar famosa antes mesmo da idéia passar por sua cabeça.
- O que foi, Shou?
- Você não vai acreditar! Sabe quando fui embora do Host? Pois é. Pouco depois meu pai ligou. Vão usar um modelo meu no próximo desfile!
- Desfile? Moda? Você desenha?
- Desenho. Desculpe não contar antes. Era apenas um hobby, sabe? Não achei que papai veria um e de repente me colocasse no ramo da moda.
- Isso é bom. Pode trabalhar com nossa mãe, no fim das contas. – ele pareceu sorrir. Pelo menos foi o que concluí por seu tom de voz.
- Não tinha pensado nisso… Afinal, não é nada certo, né? Mas seria interessante! – eu fiquei mais empolgada ainda.
- Agora, Shou… Eu estou com sono…
- Ah, desculpe! É que eu estava tão empolgada! Desculpe mesmo! – eu fiquei completamente sem graça por aquilo – Não acordei você, né?
- Não, Shou. – ele riu – Não acordou. Só me fez ir mais tarde para cama.
Suspirei, aliviada.
- Que bom! Dorme bem, amor! Vejo você amanhã! – eu sorria.
- Boa noite. – acho que ele corou do outro lado, já que sua voz parecia ter um ar constrangido – Dorme bem.
E desligou. Desliguei pouco depois, indo tomar banho. Seria bom eu ir dormir também. O banho me acalmou mais do que eu esperava, o que foi bom. Isso me permitiu dormir mais rápido do que eu previ. E dessa vez não sonhei com nada. Pelo menos não que me lembre. Não me importo também.
Não aconteceu nada espetacular nos dias que se seguiram. Hikaru não conseguia chamar Haruhi, mas isso eu já tinha previsto. Apesar dos meus esforços e de Kaoru, não havia progresso. Mas isso foi previsto.
O novo professor também não apareceu mais. Não sei por qual motivo, mas isso não me incomodou. Na verdade, me deixava aliviada. Se ele aparecesse, provavelmente tomaria alguma atitude desagradável. Não completamente para mim, mas para meu relacionamento com Kaoru. Não sei o quanto meu ruivinho pode ser ciumento e prefiro não saber.
Infelizmente, a vida não é um conto de fadas. E isso a torna muito complexa. O que é o mesmo que dizer "tenho um problema que vai me arruinar". Só porque eu estava contente por fazer praticamente semanas que eu não via o tal novo professor. O deus que virou professor, para ser sincera. De repente ele surgiu no meio do corredor em que eu andava, tranqüila.
Eu estava indo para o Host e aquele era um caminho que eu sabia que os gêmeos e Haruhi faziam. E por isso foi um problema ele ter aparecido. Um grande e terrível problema. E algo que eu não consegui evitar.
Quando o professor apareceu, eu não consegui pensar em nada além de "problemas". Ele veio animado em minha direção, sorrindo. Quando se aproximou, foi mais educado do que esperava. Conversamos um pouco e de repente ele fez algo que me congelou. Sério. Eu suei frio com o que ele fez.
Ele estava me beijando.
Quando minha mente descongelou, eu consegui empurrá-lo, mas não disse nada. Tinha a cabeça baixa, fitando o chão, e o coração na garganta. O medo de que alguém tivesse visto começava a me consumir. E eu ainda suava frio quando a voz irritada de Kaoru soou em meus ouvidos.
- Poderia me dizer o que significa isso, Shou?!
Eu tinha, perceptivelmente, arruinado nossa relação.
- Foi um acidente, Kaoru…
Eu tinha conseguido me recompor e agora tinha os braços ao lado do corpo, o rosto voltado para o ruivo.
- Acidente? Acha mesmo que vou acreditar nisso? Que foi um acidente?
Conforme ele falava, sentia as palavras cortando e despedaçando o que um dia eu chamei de coração.
- Mas, Kaoru… Não foi culpa minha…
- Mas você também não impediu. Isso a torna tão culpada quanto ele! – e apontou para onde deveria estar o responsável.
Sim, enquanto meu namorado discutia comigo, o culpado havia fugido. Afinal, aquele incidente poderia acabar com sua carreira. Isso me fez afundar na raiva. Quando o reencontrasse, com toda certeza eu arrancaria alguns molares.
- Não vai dizer nada…? – Kaoru continuava irritado, eu notei. Mas sua voz saía mais baixa agora.
Silêncio.
- Se é assim que quer, então assim será. Shou, estamos terminando.
Eu ouvi o que ele disse, mas não reagi. Já estava afundada em meu torpor. Não vi quando os três se afastaram, não notei se fizeram algo antes de irem, não notei a dor que terminava de destruir meu coração. Eu sangrava, metaforicamente, por dentro. Quanto mais meu coração era dilacerado, mais minha visão ficava turva e vermelha. Era o sangue da dor, da perda.
Era o sinal de que minha vida estava apenas começando a ficar arruinada. E então não vi mais nada. Acordei na enfermaria do colégio, ainda zonza. Não havia ninguém lá comigo. Eu nem ao menos sabia quem tinha me levado até lá. Poderia ter sido qualquer um que passasse. Mas isso não importava. Nada mais importava.
Então um loiro de baixa estatura irrompeu pela porta, arrastando um dos gêmeos. Demorei a reconhecer a voz dele, o que fez com que eu notasse tardiamente que era Kaoru.
- Já disse que não quero! Não me importa o que aconteceu! Eu já não tenho nada mais com ela! – ele esbravejava, sinal de que estava irritado com o fato de ter sido trazido até mim na base da força.
Mas de alguma forma aquilo não me machucou. Não derramei nenhuma lágrima sequer quando ele me olhou com repulsa e vi estampado em seus olhos que julgava aquilo adequado. Não reagi quando ele deu as costas e saiu.
- No fundo ele está preocupado. – desviei o olhar para o dono da voz e logo o reconhecia. Não era ele, mas sim ela.
- Ryuu-san? O que faz aqui? – a indiferença gerada pelo torpor ainda existente foi óbvia.
- O que deu em vocês? Primeiro estão no maior amasso e quando os revejo estão se evitando? Não entendo vocês. – ela apoiou o braço na cama em que eu me encontrava.
- Normal. Tudo um dia acaba. – e então pronto.
O resto de meu coração doeu. Doeu mais do que achei que era possível. E logo eu tinha desabado em lágrimas. Consegui deitar de bruços e esconder o rosto. Deixava as lágrimas saírem livremente. O torpor se fora. E então toda a dor que se acumulara em meu ser estava sendo revelada. Eu estava rachando. Afundando. Sofrendo.
Mas ninguém poderia ajudar. Não havia nada a ser feito. Não havia ninguém do meu lado. Nem mesmo meu irmão estava lá para me consolar. Não havia Tamaki, Kyouya, Haruhi, Hani, Mori ou gêmeos. Eu não tinha ninguém naquela hora. Pelo menos foi o que pensei.
Uma mão tocou meu ombro. Era um toque quente e reconfortante. Era um toque calmo e que transmitia paz de alguma forma. Levantei o rosto, secando as lágrimas, e vi quem era. Bem ao meu lado estava ela. Estava a pessoa que eu menos conhecia e em quem eu mais poderia confiar naquele momento. Ryuu.
Eu me sentei na cama e antes que percebesse, estava contando a ela o que havia acontecido. Como as coisas tinham terminado. Meu relato estava imparcial e ela notou. E, assim como eu, foi consumida por raiva. Mas minha raiva dirigia-se a somente uma pessoa. A dela era a uma dupla. O professor e Kaoru.
O primeiro pelo que fez, pelo que arruinou. Por seu egoísmo e falta de bom senso. Por se aproveitar quando estamos com a guarda baixa. Por ser tão repugnante. E o segundo por ser cabeça-oca. Por não escutar. Por não confiar. Por não acreditar na sinceridade que havia em minhas palavras antes de tudo acabar.
Quando minha cabeça parou de girar, consegui me levantar e sair da enfermaria. Ryuu veio comigo. Mas não fomos ao Host, como ela esperava que eu fizesse. Fomos até a sala do professor responsável por tudo aquilo. Parei diante da porta, ela alguns passos atrás.
"Por favor, me deixe mandá-lo para o hospital" havia dito ela. Assim como eu, havia dentro dela o desejo de interná-lo. Mas eu disse que não. Eu havia dito que isso traria problemas a nós e não seria bom. Diferente do que imaginei, ela aceitou facilmente, dizendo que era verdade. Uma verdade problemática.
Bati três vezes na porta e esperei por resposta. Esta veio poucos segundos depois. Mas não houve tempo nenhum para que eu ou ele pudesse reagir. Assim que Ryuu o viu, ela voou para cima dele, começando a lhe desferir uma seqüência de golpes.
Aquilo me fez sorrir. Não soube o motivo de imediato, mas creio que foi por ver o pecador pagando por seus pecados. Aquela cena, como previsto, chamou atenção. E logo havia pessoas demais ali. Havia o Host Club inteiro ali.
Mas Ryuu não parou. Não deve nem ter notado a aglomeração. E eu não fiz menção de que a pararia. Foi aí que Mori interferiu. Ele levantou Ryuu e a levou para fora, sem se abalar com as ameaças e golpes que ela tentava usar.
Eu simplesmente me aproximei do professor jogado no chão e me abaixei ao seu lado.
- Confesse – eu disse, em uma voz tranqüila – Confesse diante de todos. Confesse que foi sua culpa.
Ele não respondeu. Apesar de tudo, estava bem inteiro. Tinha apanhado relativamente pouco. Tossia um pouco de sangue, mas não estava com inchaços. Alguns hematomas, mas conseguia falar com perfeição.
- Confesse se quer ver quem ama sendo feliz. – eu sorria tranqüila.
- Confessar o que? – ele finalmente respondeu.
Então me levantei. Toda minha tranqüilidade aparente sumiu. Pisei com força em sua barriga, o fazendo tossir mais sangue. Minha voz saía fria e áspera.
- Confesse, seu miserável, o que fez no corredor agora pouco!
Então o diretor estava lá. Mas nem eu nem o professor notamos.
- Eu a beijei. Grande coisa. Você ficou gelada. Quem liga? Pode não ter reagido, pode ter ficado com medo de algo. Mas eu não me importo.
Pronto. Aquilo me satisfez. O diretor se aproximou de nós, tocando meu ombro gentilmente.
- Eu assumo daqui, senhorita Ootori. Por favor, volte para a enfermaria. Acho que precisa descansar.
Eu me afastei, passando pela multidão na porta sem me dirigir a ninguém. Sentia olhares em minhas costas, ouvi a voz de Kaoru me chamando, mas não me virei. Segui para a enfermaria e passei a fala do diretor à enfermeira. E então me deitei e dormi. Um sono tranqüilo, mesmo não estando no momento mais feliz de minha vida. Um sono onde pude estrangular e destruir aquele que tinha me destruído.
E nesse dia nasceu a vontade de exterminar todos os que um dia foram casados com minha mãe. Com exceção de meu pai. Ele era o único que merecia continuar vivo. Por mais que não fosse a pessoa mais gentil que eu conhecesse.
