O Host tinha acabado de fechar. Eu estava ao lado de meu irmão, vendo quanto prejuízo o recente acidente tinha nos trazido. Enquanto olhava, também respondia a Kaoru.
- Não, Kaoru. Não vejo problema em voltarmos. Afinal, nós nos amamos, não é? Nós confiamos um no outro. Não estou certa? – a ironia, que antes eu rejeitava, agora estava bem presente em minha voz – Nós sabemos quando o outro está sendo sincero, não é? Afinal, nós temos confiança no que o outro diz, não é?
Desfiz então a trança que havia em meu cabelo e me levantei. Estava indo para fora da sala, ciente de que todos me fitavam com a maior cara de "definitivamente ela é irmã de Kyouya". Não liguei. Quando estava com uma mão na maçaneta, então, Kaoru se pronunciou.
- Desculpe. Eu errei, Shou. Eu magoei e feri você. Eu estava tão tomado pela raiva que não escutei o que a pessoa mais importante para mim tinha a dizer. Eu fui um completo idiota e sei disso. Mas se você puder me perdoar, se você aceitar me dar mais uma chance, eu prometo não fazer isso de novo. Então, por favor, não me trate mais com tanta frieza. Diga o que realmente pensa. Por favor, aceite voltar comigo…
Voltei o rosto para ele e vi que estava quase chorando. Apenas sorri.
- Isso seria… Um "não"…? – percebi a tristeza em sua voz.
- Você é um idiota, Kaoru. Um completo idiota. – eu me aproximava calmamente dele – Como pode não confiar em quem mais ama? Como pode um anfitrião dilacerar o coração de uma dama assim? Isso chega a ser patético. – notei que ele fitava o chão e lágrimas escorriam por seu rosto – Mas ainda assim… Como pode achar que eu não aceitaria voltar com você? Como pode não saber nem mesmo reconhecer meus sentimentos? – levantei seu rosto delicadamente – Eu amo você, seu bobão. – e o beijei.
Por um instante ele ficou sem reação, mas depois percebi seus braços em minha cintura e então que me beijava de volta. Naquele momento o mundo podia acabar, podiam jogar uma bomba no colégio, podia estar tudo um caso. Eu duvido que algum de nós dois notaria. Naquele momento de felicidade extrema, duvido que ele ligasse para alguma coisa. E mesmo que eu estivesse errada, isso não era relevante. Tudo que eu queria era que aquilo durasse para sempre. Mesmo com as lágrimas caindo.
Eu estava feliz.
Meu coração estava inteiro.
Eu estava completa.
Meu coração estava batendo.
E ninguém fez nada para nos separar. Ali estava a felicidade que sempre desejei. A felicidade que sempre procurei, eu consegui encontrar nos braços, na companhia, no olhar, no jeito de ser daquele ruivo. Nada mais iria nos atrapalhar em nosso caminho para a felicidade [N/A: eu sei, escroto. Mas foi o que minha cabeça já se esgotando de inspiração após terminar uma fic recentemente conseguiu produzir]. Mesmo que não estivéssemos perto um do outro, sempre estaríamos juntos.
Paramos o beijo por um momento, mal respirando. O sorriso que ele tinha no rosto era lindo e perfeito. E eu sorri de volta. A sensação de ser feliz de novo. Aquilo era algo mágico. Era algo que me fazia bem. Eu olhava em seus olhos. Seus lindos e perfeitos olhos. Tão profundos, tão encantadores, tão mágicos, tão acolhedores, tão sorridentes, tão calmos. Reconheci o brilho em seu olhar de imediato. O olhar que me lançava era o que eu mais desejava. Era um olhar apaixonado.
Estava tão presa àquela situação que demorei a ouvir meu celular tocando. Quando finalmente atendi, ouvi uma voz feminina e um tanto familiar do outro lado. Era a moça que falara comigo dias antes sobre o desfile. Se não me engano, seu nome era Akiko Takara.
- Estou ligando para avisar quando será o desfile. Digo, que dia iremos expor seu modelo. Escolhemos um magnífico!
- Mesmo? Isso ainda me deixa insegura. Vocês levaram tantos modelos que eu já nem lembro mais…
- Não se preocupe. Terá todos os desenhos de volta logo mais. Daqui uma semana, acompanhe o desfile do início ao fim.
- Tudo bem.
- Agora preciso desligar, querida. Tenha uma boa semana! – e desligou.
Fiquei fitando a tela do celular algum tempo antes de reagir a alguma coisa. Aquilo ainda era muito surreal para mim. E foi presa a tantos pensamentos confusos que cheguei em casa. Não me lembro de como, mas cheguei. E quando voltei a mim, estava em meu quarto, olhando pela janela. Então resolvi tomar um banho.
Não demorei muito no banho, mas ainda assim foi mais do que o normal. Eu não estava normal também. A história do desfile tinha mexido comigo. Eu realmente teria um modelo próprio no desfile mais famoso do Japão. E aí lembrei de algo. A mãe dos gêmeos também era estilista. Isso me empolgou.
Seria o máximo trabalhar na mesma área que ela. Já tinha visto algumas de suas roupas e tinha achado simplesmente incrível. Todas elas. E me sentia honrada em trabalhar na mesma área que ela. Talvez pudesse ter alguma aula com ela. Pedir conselhos. De repente eu estava mais desperta do que nunca.
Saí de meus devaneios quando meu telefone tocou. Olhei o visor e vi que era Tamaki. Hesitei na hora de atender, mas a insistência do loiro me fez mudar de idéia. Era melhor ver logo o que ele queria. E, principalmente, o que queria comigo.
- Pois não, Tamaki? – admito que meu tom de voz não era dos mais amigáveis.
- Shou-san…? – ele parecia um pouco… Amedrontado? É, acho que essa é a melhor palavra.
Não, o abominável homem das neves.
- O que foi?
- Não estou conseguindo falar com Kyouya…
- E o que isso tem a ver comigo?
- Queria saber se aconteceu alguma coisa…
Saí do quarto e fui olhar pela casa.
- Ele estava aqui há pouco tempo… Já ligou no celular dele?
- Seu número foi o último em que liguei. A empregada que atendeu quando liguei aí disse que ele estava fora. – a voz de Tamaki começava a soar desesperada.
- Vou ver onde ele está. – desliguei sem esperar resposta e fui atrás de nii-san.
Definitivamente ele não estava em lugar nenhum da casa, o que me deixou preocupada. Falei com uma das empregadas e ela só disse que meu irmão havia dito que iria sair um pouco. Então fui para o jardim atrás dele. Consegui encontrá-lo deitado no gramado dos fundos, vendo o céu.
- Kyouya-nii…?
Ele desviou o olhar para mim.
- Tamaki queria falar com você. Por que não atendeu o celular?
- Ah, esqueci no quarto.
- E o que está fazendo aqui? – sentei ao seu lado, observando-o.
- Precisava relaxar um pouco. Tamaki teve uma idéia exagerada recentemente e não sei como vamos fazer para que possamos realizar no clube.
- O que ele quer dessa vez?
- Ele não explicou direito. Apenas que quer roupas… Excêntricas…
Ri daquilo.
- É… Assim fica difícil.
- Bom, vou voltar para o quarto e ligar para ele para ver o que quer. – ele se levantou e voltou para o quarto.
Fiquei mais um pouco lá, olhando o céu. Estava uma noite bonita, um céu bem estrelado. Apesar de estar de pijama, não estava sujando-o. Tinha um banco perto de onde Kyouya-nii estava deitado e foi onde me sentei. Fiquei lá, cantarolando alguma coisa, até que ficou frio o suficiente e fui para dentro.
Uma empregada me esperava com uma xícara de chá e quando perguntei o motivo daquilo, ela respondeu de forma serena e com um sorriso no rosto.
- Foi Kyouya-sama quem disse para fazer isso.
Fiquei surpresa.
- Nii-san?
Ela confirmou com a cabeça. Peguei o chá e subi para o quarto, tomando-o aos poucos e tomando cuidado para não queimar a língua. Era meu chá preferido. Erva doce. Isso me surpreendeu mais, pois não esperava que ele soubesse de algo sobre o qual eu nunca havia comentado.
Tomei o chá, deixei a xícara sobre a cômoda e ajeitei as coisas para o dia seguinte. Teríamos muito que fazer para recuperar o prejuízo devido ao conflito recente. Uma vez que estava tudo pronto, tirei as cobertas da cama, me deitei e coloquei só o lençol por cima. Apesar do frio que estava do lado de fora, eu estava suficientemente aquecida. E logo acabei pegando no sono.
