A conversa com Ryuu me deixou temporariamente animada. Temporariamente porque logo me lembrei de que Haruhi estava com Hikaru, então seria um problema bem grande ter a Ryuu gostando dele. Estava pensado nisso enquanto ia para casa, mas não conseguia raciocinar direito.

Pedi ao motorista que parasse na frente da loja de doces que havia mais à frente. Como não estava usando nada muito extravagante, o dispensei assim que desci do carro. Ali era perto de casa, então eu poderia ir andando. Não percebi quando alguns rapazes se aproximaram de mim e ficaram observando. Apenas entrei e fiquei olhando o que havia.

Tudo era terrivelmente atraente, mas eu não podia comprar tudo. Por isso continuei olhando até me decidir por levar alguns pães doces para mim e meu irmão, que deveria voltar pouco depois de mim para casa. Paguei e, quando estava saindo, uns quatro homens mais ou menos me cercaram.

- O que vocês querem? – minha voz saía fria.

- Você é até bonitinha… O que tem aí? – o que estava logo a minha direita foi quem falou.

- Saiam. – e abri passagem por eles.

Mas isso não os importou. Eles vieram atrás e um deles me empurrou no chão. Quando caí, os pães continuaram em meu braço, mas a bolsa caiu. E dela caiu o telefone e mais alguma coisa que não identifiquei na hora. Um deles abaixou e pegou as coisas.

- Ora, ora… Uma riquinha por aqui… Que incomum. – e passou as coisas para os outros.

- Devolva…! – quando ia me levantar, um deles tornou a me empurrar para o chão com o pé.

Bati o ombro nessa.

- Isso não é seu, me devolva! – eu continuava tentando me levantar.

Então ouvi passos se aproximando. Rezei para que não fosse mais um do grupinho deles e fiquei aliviada quando ouvi a voz. Uma voz masculina, autoritária. E estava em minha defesa. Por um instante eu quis chorar.

- Afastem-se dela.

Eles obedeceram e finalmente pude me levantar.

- Os pertences. – me virei ao ouvir que ele exigia que devolvessem as coisas.

"Nii-san…"

Os rapazes apenas obedeceram. Com aquele olhar de "demônio em carne e osso", ninguém seria estúpido de contradizê-lo. Assim que foram embora, fui até ele e o agradeci. Ele apenas sorriu e perguntou se eu estava bem. Mas não consegui responder. Apenas o abracei e comecei a chorar em seu peito.

Não ouvi quando alguém mais desceu do carro próximo a nós. Eu apenas continuava abraçada a Kyouya, chorando de alivio em seu peito. Não sei e nem tentei imaginar o que teria acontecido se ele não tivesse chegado. A idéia era assustadora demais para eu querer tê-la na cabeça.

Então meu irmão me conduziu até o carro, levando minhas coisas consigo. Eu já nem tinha a sacola de pães. Nem imaginei onde ela estaria. O importante era chegar em casa. Não demorou muito, mas me pareceu um tempo muito longo. Não peguei minhas coisas com meu irmão, não olhei quem estava no carro conosco. Apenas subi correndo quando chegamos, ansiosa por tomar um banho e trocar de roupa.

Fiquei confusa quando desci e fui para sala. No sofá, lendo algum mangá, estavam Kaoru e Hikaru. Não tinha idéia do que estavam fazendo lá e apenas fiquei olhando para eles. Não piscava, não falava, não reagia. E então Kaoru levantou os olhos para mim, sorrindo. Não demorou muito até que me alcançasse no pé da escada.

- Como se sente, Shou?

- Ah… Bem, até. – pisquei algumas vezes, processando o que acontecia.

Ele pareceu aliviado e me abraçou. Levei algum tempo para entender o que acontecia, mas logo o abraçava de volta. Eu me sentia muito melhor agora que estava com ele. Sua presença, sua voz, seu carinho, seu calor, seu abraço. Tudo nele me acalmava. Tudo nele me deixava alegre.

Fechei os olhos e respirei fundo. E então falei algo que nunca devia ter dito.

- Ryuu gosta de seu irmão.

Ele gelou, eu senti isso.

- Kaoru… Reaja, por favor. – toquei em seu ombro.

- Desculpe… É que isso é tão… Complexo.

Suspirei.

- Vamos deixar isso para lá… Talvez apareça alguém para solucionar tudo…

Pensei em alguém de fora do Host. Qualquer um serviria. Só fazer aquilo se resolver já bastava. E o pior era que a culpa daquilo era minha. Minha. E isso piorava muito minha situação. Por que? Porque eu não poderia fazer nada. Eu estava de mãos atadas.

Nii-san apareceu na sala pouco depois de eu e Kaoru nos sentarmos. Ele não disse nada e eu não sei se aquilo era bom ou não. O importante é que no final ele simplesmente não fez nada diretamente prejudicial. Eu não sei como o que por exemplo, mas não fez.

Talvez ele soubesse que não era dele que eu esperava algo. De alguma forma, não havia mais ali algo que me acalmasse. Refiro-me a casa, não aos presentes. Mas faltava alguma coisa… Faltava… Faltavam palavras.

Não lembro direito o que fizemos no resto do dia e não faço questão. Ter seu irmão, seu namorado e o irmão dele sob o mesmo teto não é a melhor coisa do mundo. Fica sempre aquele clima estranho, entende? Não dá para acontecer algo de que as pessoas querem se lembrar.