Ryuu's POV
Eu nunca devia ter feito aquilo. Não devia ter entrado no meu quarto com o sangue fervendo. Mas entrei. E a primeira coisa que vi foi Nekozawa-senpai parado o mais longe possível da janela, mas de frente para a porta.
- O que você está fazendo aqui? – minha voz saía fria.
- Suou-san… Desculpe… A Ootori-san acabou me empurrando para cá…
Ootori-san? Ah, sim. A Shou é irmã do Kyouya, sua mula. Tudo culpa dela.
- Ah, claro… – minha voz não estava mais firme. Por que raios minha voz não estava mais firme?! Como era possível que a voz dele me acalmasse tanto de forma tão… Rápida?!
- Suou-san…
- Chame de "Ryuu", por favor. – eu não estava prestando atenção alguma no que estava dizendo.
- Certo… Ryuu-san… Posso fazer uma pergunta? – ele estava nervoso. Tanto quanto eu.
Engoli em seco.
- Claro… – o que mais eu poderia responder?
Ok, a situação era a seguinte: eu estava andando pelo quarto aparentemente arrumando algumas coisas e ele estava sempre no meu campo de visão de alguma forma misteriosa, mas sempre longe da janela e da luz que vinha de fora. E nós estávamos conversando relativamente numa boa.
- O que a Ootori-san disse é… Verdade? – nossos olhos azuis se encontraram quando ele perguntou, me fazendo corar e desviar o rosto.
- Depende. O que ela disse? – eu tentava soar natural, mas estava cada vez mais difícil.
Ele não respondeu.
- Olha… – eu me sentei na cama e abaixei a cabeça. Não queria encará-lo por nada nesse mundo – Eu não sei o que ela falou… Mas sei o que ela vai perguntar quando sairmos daqui, então… – fechei os olhos e respirei fundo. Quanto mais rápido eu dissesse, mais rápido tudo acabaria, certo? – Eu vou dizer que gosto de você. Pronto, falei.
Minha voz saiu tão rápido que nem mesmo eu entendi direito. Quando levantei o olhar para ele, vi-o piscar algumas vezes, como se ainda não tivesse compreendido a mensagem. E quando compreendeu, sua reação não foi a que eu esperava.
- É… Mesmo…? – sua voz estava séria e ele se aproximava da cama.
O silêncio era tão profundo que eu ouvia perfeitamente o som da capa roçando no chão, ou mesmo nossas respirações. E meu coração pulsava tão rápido e tão forte que eu conseguia ouvir meu sangue circulando. Só esperava que ele não estivesse ouvindo.
- É… É, sim… – eu hesitei ao responder. Não sabia se ele havia achado algo bom ou não descobrir aquilo.
Ou pelo menos, eu não sabia até o que veio em seguida.
Ele se sentou ao meu lado na cama e pôs uma mão em meu rosto. Não sei como as coisas aconteceram, só sei que de repente ele estava me beijando. Sim, ele estava me beijando. Beijando! A mim!
Eu levei um bom tempo para processar o fato, mas cheguei a reagir. Não sei a razão, não sei como, mas eu passei a beijá-lo de volta. Não tenho ideia de quanto tempo tudo isso durou, mas pareceu um tempo muito longo. Um tempo que passamos na mesma posição, sem mover um músculo do corpo para nos ajeitarmos ou qualquer outra coisa que não fosse aquele… Beijo. Que eu ainda não acredito ser real.
Quando afastamos nossos rostos, ambos ofegavam. E ambos tinham as bochechas coradas e fervendo. Mas acima de tudo, nenhum de nós, por mais felizes que estivéssemos, sabia o que fazer dali para frente. Não havia sido algo normal para ninguém. Não tínhamos a menor experiência nesse campo.
Então apenas continuamos ali, corados mas já respirando normalmente. E ele com a mão em meu rosto, com os olhos fixos nos meus. E eu com os olhos fixos nos dele. Eram tão azuis quanto os meus, o que me confortava de alguma forma. Talvez a semelhança física entre nós tivesse interferido em tudo aquilo de alguma forma.
Aliás, que eu estou dizendo?! Não sou a Shou para ficar pensando sobre isso. Aconteceu, não aconteceu? Então ponto. A partir disso, não lembro direito do que houve. O resto do dia realmente passou em branco para mim. Em branco.
