Shou's POV

Naquele momento estava tudo escuro, como se eu estivesse sozinha. Mas eu ainda ouvia vozes vindo. Vozes que eu conhecia muito bem e que, por conta disso, me fizeram sorrir. Era bom finalmente ouvi-las depois de tanto tempo longe de coisas conhecidas. Eu quis rir. Sentia-me tão estranhamente alegre, tão anormalmente livre, leve.


Narrador's POV

A garota de cabelos negros retirou o capacete de projeção e o entregou para o rapaz mais próximo. Piscou algumas vezes, se reacostumando com a claridade. Seus olhos focaram o teto e, sob seus dedos, sentiu o couro da poltrona. Apesar do estranhamento por estar novamente naquela sala, seus ouvidos estavam acostumados às vozes presentes. Era como se sempre as tivesse escutado.

Quando finalmente se sentou, a conversa passou a incluí-la.

- E então, Shou-sama? Acha que será um bom negócio? – era uma voz masculina e vinha do lado direito da garota.

- Vocês têm razão, é uma história interessante. Mas não perguntem só a mim. – ela ajeitou o cabelo e se levantou.

- Sim, claro. Pediremos a ela também.

Assim que a frase foi terminada, alguém entrou pela porta. Seus cabelos loiros e compridos estavam comumente presos em um rabo-de-cavalo baixo, os cachos meio sobre o ombro. Estava mais alta do que a morena se lembrava e quando Shou comentou isso, a loira apenas riu, respondendo que aquilo era óbvio.

- Mas então, podemos ir agora? Você tem um compromisso, Shou.

- Eu sei, eu sei. Vai comigo buscar o vestido?

Os outros presentes se apressaram em se despedir para não atrasá-la mais. E uma vez que tudo estava arrumado, Shou pegou sua bolsa e saiu com a amiga. O carro preto estava parado diante da porta, sob a sombra de uma árvore. A morena se dirigiu ao lado do carona, enquanto a loira foi para o lado do motorista.

- Seu vestido está pronto desde hoje de manhã e já é quase hora da sua sentença. –ela olhou para Shou pelo canto do olho.

Shou riu.

- Mas não se esqueça de dizer aos nossos funcionários se podem ou não vender aquilo. Todos os outros já responderam. – e sorriu para a loira.

- Quanta eficiência da parte deles… Antes o Host era apenas um bando de incompetentes.

- As coisas mudaram, Ryuu-chan.

- Menos como você me chama. Já faz mais de dez anos, não dá para chamar só de "Ryuu", não?

- Não. E quando você casar, quero ser sua madrinha.

Ryuu suspirou. Não era a primeira vez que ouvia aquilo de Shou e, com certeza, não seria a última.

- Você quer dizer, se eu chegar a tal ponto. – Ryuu dirigia despreocupadamente, com um braço apoiado na janela totalmente aberta do carro.

- Aposto como o Umehito-kun adoraria. Mesmo tendo aquele ar sombrio todo. Você não usaria branco, mesmo. – Shou riu. Só de imaginar o possível casamento da amiga, ela tinha uma pequena crise de riso.

- Claro, claro… – Ryuu revirou os olhos – Chegamos. Vai lá provar o vestido e me liga se precisar de algo. Vou ajudar meu irmão com o resto dos preparativos de última hora, mas venho para cá se precisar.

Shou agradeceu, sorrindo mais abertamente do que o de costume. Esperara ansiosamente por aquele dia. Tudo bem que o trabalho havia criado a dúvida de se seria possível ou não manter a data prevista, mas no fim tudo dera certo. E agora ela estava em uma das lojas mais caras de noiva existentes no país, provando seu vestido. A morena mal conseguia conter sua emoção.

Enquanto o tempo passava, ela ia se lembrando de alguns acontecimentos aleatórios pelos quais passara. Quando se formaram no colegial, quando entraram na faculdade, quando teve uma briga tão feia com Kaoru que chegaram a passar quase um ano separados, a sua reconciliação com ele, quando arranjou um trabalho como escritora. Inclusive quando entrou para uma empresa que transformavas livros e mangás em animações.

E naquele dia, passaria a ser uma mulher casada com o único homem que aprendera a amar.