Estou a algumas semanas na casa de China, enquanto me recupero da minha perna quebrada. E durante esse período, fiz descobertas interessantes sobre o meu anfitrião.

A primeira é que ele pode ser extremamente prestativo... eu diria até que tem um certo 'instinto' para acolher os outros. Não é à toa que tem tantos irmãos mais novos. Mas sua casa está vazia na maior parte do tempo.

Outra coisa é que a personalidade alegre e expansiva que todos conhecem é só uma das suas faces. Ele está sempre correndo e festejando, e raramente se dá ao luxo de parar. São em tais momentos fugazes e silenciosos em que, sem notar que eu o observo, revela a melancolia e sabedoria em seus olhos, contrastando com o resto de sua aparência tão jovial. Será só a solidão causada pela distância que cresceu entre si e os parentes, ou será que tanta cor e festa não são para afastar seus próprios fantasmas, talvez de tempos que somente ele pode se recordar? Por que quando me flagra em minha observação, age como se fosse quem está 'agindo grosseiramente'?

Seu corpo de aparência frágil e a maciez de sua pele tão marcada (sim, eu já me dei ao luxo de tocá-la, enquanto me ajuda no banho) ao mesmo tempo em que aumentam o meu desejo, me fazem questionar a fonte da força que emana.

China... sim, eu o quero. Já queria antes, mas não para simplesmente se tornar parte de mim, um mero território anexado à força e explorado, com o espírito de seu povo destruído. Não digo que não usaria a força para tê-lo – eu não hesitaria em tirar qualquer um do caminho, aliás, faria com que nunca mais cogitasse se intrometer em meus assuntos. Quero desvendar esse mistério milenar, que só tenha olhos para mim, que seus sorrisos e suas lágrimas não sejam de mais ninguém. Que minhas mãos sejam as únicas a tocá-lo.

O que faria se soubesse o que penso enquanto lhe sorrio? Que tudo o que eu faço perto dele – até o ferimento do qual cuida com tanto esmero – é friamente calculado...?