"Doer, aru?"

"Um pouco..." - respondeu o paciente sempre sorridente.

"E aqui, aru?"

"Ai, devagar, por favor, China..." - uma expressão dolorida, mas o sorriso ainda estava ali.

O menor franziu a sobrancelha, pensativo, analizando aquela perna. Quando o resgatou da neve, ela estava inegavelmente quebrada, mas agora... não havia mais inchaço nenhum, e o russo podia tentar enganá-lo, mas o chinês sabia que as queixas de dor eram falsas, já que alegava tê-las em lugares em que não devia senti-las... O asiático suspirou fundo e se virou de costas, arrumando sua caixa de medicamentos.

Que criança tola, pensando que pode enganar alguém com 4000 anos nas costas? Um breve sorriso não pôde ser evitado.

E lá estava ele, novamente cuidando de uma 'criança'.

Voltou a dar atenção ao suposto membro ferido, enfaixando-o pensativamente. E por que se deixava levar pela farsa?

O enfermeiro sabia que o jovem diante de si tinha outras intenções, apesar de nunca verbalizá-las.

E, contrariando sua natureza direta, também não dizia nada. Por quê?

Sentiu uma mão se aproximar, como se quisesse tocá-lo, mas ela hesitou e voltou a sua posição anterior.

"Está quieto hoje. Algum problema?" - ouviu um leve tom de preocupação na voz do convidado e levantou os olhos, sorrindo.

"Ser nada aru. Rússia só preocupar ficar bom logo, yoroshi? Ter fome? Eu cozinhar aru." - respondeu, deixando o outro repousar enquanto se dirigia à cozinha.

Há quanto tempo não tinha ninguém em sua casa? Há quanto tempo não cuidava de ninguém?

Todos tinham partido, deixando aquele lugar, antes verdadeiramente cheio de vida, como um ninho abandonado em um galho invernal. Como legado, ficou a solidão que China tentava disfarçar com festas e cores vibrantes. Com sorrisos e aquela energia, incomum para alguém de sua idade.

Sentia saudades dos velhos tempos... da época em que seu nome fazia sentido. Em ideogramas, significa "País do Meio", em outras palavras, "Centro do Mundo". Queria voltar a quando ele era quem ensinava as lições das ciências e da vida a seus irmãos. Quando os pequenos se maravilhavam com as histórias que narrava, tentavam imitar as suas artes. Quando era sua mão que os protegia, que lhes curava as feridas. Quando ele era o modelo a ser admirado, o que inspirava.

Mas as crianças cresceram e partiram, cada qual seguindo seu rumo. Não era mais quem ensinava, a lição mais dura que aprendera marcada pra sempre na própria pele, cravada por aquele de quem mais tinha orgulho, em quem mais confiava. Não era mais aquele a ser seguido.

Não, infelizmente não poderia voltar no tempo. Mas era tão bom ser o "Centro do Mundo" de alguém...

Mas Rússia não era seu irmãozinho. Nunca poderia ser.

Não eram só o os olhos e cabelos claros, nem o fato dele ter quase quinze centímetros a mais em altura. Não. O vizinho definitivamente não o via como irmão. Podia afirmar pelos olhares que recebia e pela 'animação' que o outro não conseguia ocultar quando o ajudava no banho. Quando seu corpo (que o estrangeiro insistia que estivesse menos vestido possível 'para não molhar a roupa') era tocado 'inocentemente' quando o convidado procurava por apoio para se equilibrar.

E o anfitrião aceitava a situação, contudo novamente questionava seus próprios motivos.

Vaidade? Egoísmo? Talvez...

Talvez... tivesse deixado de ser o exemplo a ser seguido... talvez devesse descer do pedestal a que tinha se forçado pela sua posição de 'irmão mais velho'. Ou talvez nunca tenha sido um bom modelo no fim das contas.

Mas isso levava novamente à questão: O que fazer com Rússia?

Devia aceitar suas atenções? Parecia tentador... Mas já sofreu tantas traições, até mesmo dentro da família, que temeu protagonizar novamente tantas cenas tristes que cansara de ver...

Estava cansado... Suspirou. Vai ver era a idade... E será que ainda teria idade para se envolver...? Ainda poderia ser inocente o suficiente para confiar e se entregar...?

Não. O estrangeiro devia partir.

E quem garante que o encanto que tanto atrai o russo não se desfará assim que tiver sua curiosidade saciada?!

Contudo, seria rude simplesmente expulsá-lo, depois de tê-lo convidado... Além disso... Era difícil de admitir, mas não queria deixar de ser o "Centro do Mundo" novamente. Mesmo que apenas para Rússia...

De repente teve uma ideia, e não pôde deixar de sorrir, maroto. Podia não ser jovem, mas tal fato não o impedia de se divertir de vez em quando...