Nota: queria agradecer a todo mundo que está acompanhando a fic! Isso é realmente importante para mim. A cada review que eu leio, fico mais animada e me dá vontade de continuar escrevendo... =D Amo vocês leitores!

Capítulo 02 – Aparições

Os dias em São Francisco passaram mais rápido que imaginaram que seria. Dois dias foram suficientes para relaxar e tirar um pouco os problemas da cabeça.

Porém existe um ditado que diz: "Se você negligenciar um problema, ele virá com o dobro de dificuldade." E foi exatamente isso o que aconteceu. Assim que os irmãos ligaram para Bob, para perguntar como estavam as coisas, levaram um sermão furioso do outro lado da linha como resposta.

"Como vocês podem simplesmente tirar uns dias de férias enquanto os demônios procuram pelo Colt?!" Bob berrou, estava extremamente mal humorado e não queria entender o lado pessoal dos garotos.

O senhor de meia idade havia capturado um demônio e pediu para que eles fossem até sua casa, porque precisava de ajuda para fazer a criatura falar onde estavam seus comparsas que procuravam pelo Colt.

Não demorou mais que três dias para estarem novamente no pátio do ferro velho que pertencia a Bob. No momento em que Sam colocou o pé direito dentro da casa, sentiu certa tonteira. As pernas ficaram bambas por segundos, achando que poderia cair, apoiou-se no vão da porta e olhou para o interior do imóvel.

No meio da sala de estar, existia um círculo mágico entalhado no assoalho de madeira, onde um homem possuído estava lacrado. Em seus lábios havia um sorriso de escárnio, apesar de estar coberto por hematomas e ferimentos.

-O que aconteceu, Bobby? –Dean largou a mochila no sofá, não tirando os olhos verdes do demônio.

-Esse maldito tentou me matar, vindo atrás do Colt. Ele disse que outros demônios estão vindo... –o senhor barbudo respondeu, olhando curiosamente para Sam. –Ei, você está bem?

-Acho que fiquei enjoado com a viagem... –o moreno comentou, colocando a mão sobre o estômago e fazendo uma careta. –Vou ao banheiro e volto já.

Sam passou direto pelo demônio e nem sequer o olhou de relance. Algo naquela sala estava deixando-o inquieto e não gostava nada daquilo. Nunca havia se sentindo desse jeito antes, já prendera e exorcizara inúmeros demônios em círculos mágicos, contudo a mágica empregada naquele que jazia entalhado no chão parecia diferente, mais forte e pesada.

-Vocês brigaram de novo, não é? –a pergunta de Bob soou mais como uma afirmação.

-Ele anda estranho assim desde o lance com Mephisto. –Dean comentou, levantando as sobrancelhas. –Acha que aconteceu alguma coisa que não sabemos?

-Pode ser efeito colateral do contato com aquele demônio. –o cinquentão coçou a barba castanha. –Sam quase perdeu a alma, dê um tempo e ele ficará bem.

-E vocês ainda se acham caçadores... Bando de escrotos. –o homem possuído reclamou, de dentro do circulo.

-Cala a boca! –o loiro parecia irritado com a presença da criatura sobrenatural. –Não pedimos sua opinião.

-Por acaso não sabem que é impossível um contrato, depois de selado, deixar de surtir efeito? -ele girava os olhos, com desdém. –Mesmo que o demônio esteja morto, o contr...

Contudo, antes que o demônio pudesse continuar sua fala, seu corpo começou a tremer violentamente, como se estivesse tendo um ataque epilético. Saliva escorria no canto dos lábios e caia sobre sua roupa suja.

A fumaça negra saiu de dentro de sua boca e voou de encontro ao teto, onde se desfez no ar. O demônio havia sido exorcizado sem que Dean ou Bob mexessem um músculo sequer.

Aquilo de certa maneira assustou os caçadores, que nunca haviam presenciado tal fato. Não perceberam a figura alta de Sam, espreitando pela porta entreaberta do banheiro, que ficava de frente para a sala. O moreno havia ficado ali o tempo todo, observando a conversa.

Tinha medo de que o demônio pudesse deixar escapar alguma informação indesejada. Isso fez com que ele quisesse tão fortemente que a criatura calasse a boca, que quando percebeu, havia exorcizado-o apenas olhando fixamente.

Logo após, fechou a porta do banheiro e tudo ficou muito escuro...

-Que porra foi aquela?! –Dean deixou-se cair no sofá.

-Nunca tinha visto ou lido nada parecido. –Bob coçou a barba, tentando raciocinar.

-O demônio não deixou o corpo, ele foi exorcizado. –o loiro concluiu, passando a mão na testa. – Você fez alguma coisa, Bobby?

-Claro que não! –o senhor levantou as mãos em defesa. –Estou tão espantado quanto você.

-E o Sam? –ele perguntou pelo irmão mais novo. –Cadê ele?

-No banheiro, mas...

Dean não esperou que amigo terminasse a frase, dirigiu-se rapidamente para o local. Depois de bater duas vezes na porta e não obter sucesso, decidiu que iria arrombá-la. Sem nem mesmo avisar, mergulhou o pé direito com toda a força que tinha perto da fechadura.

Foi imediato, a madeira cedeu sobre o golpe e a porta se abriu. Dean encontrou Sam caído no chão, inconsciente. O mais estranho de tudo era que havia um pequeno filete de sangue que saia do nariz e ia até os lábios.

-Merda... BOBBY! PRECISO DE SUA AJUDA!

O cinquentão ajudou o filho mais velho de John a colocar o irmão no sofá.

-O que aconteceu? –ele examinava o caçula.

-Achei estranho ele estar demorando tanto e fui atrás. –Dean sentou-se ao lado do irmão. –Daí o encontrei caído no chão do banheiro.

-Talvez tenha sido algum problema com pressão, ele disse que não estava se sentindo bem... –Bob foi até a cozinha buscar algum remédio.

Nesse meio tempo, Sam recobrou a consciência aos poucos. Assim que exorcizou o demônio, sentiu que todas as forças do corpo foram sugadas e acabou caindo. Por mais que tentasse resistir, era algo que estava além do seu controle.

Acordou deitado no sofá, a sala ainda girava, mas conseguiu perceber a figura de Dean sentado ao seu lado, com uma expressão preocupada no rosto. Ele deu esboçou um leve sorriso quando viu que o irmão acordava.

-Como está se sentindo? –o mais velho perguntou, não deixando de encará-lo.

-Acabei desmaiando? –ele sentou, passando a mão pelos fios que caiam sobre os olhos.

-É, você caiu no chão do banheiro. Eu e Bob tivemos que te carregar para o sofá. –o loiro parecia mais relaxado ao ver que estava tudo bem. –Você é muito pesado, sabia? Da próxima vez, vou chamar um guincho.

Ele brincou enquanto caminhava até a cozinha e pegava duas cervejas na geladeira.

-Onde está o Bob? –Sam perguntou, olhando ao redor.

-Saiu para comprar algumas coisas. –ele voltou com as cervejas e deu uma ao irmão. –Ele reclamou que nós comemos muito.

-Acho que dessa vez ele tem razão... –o moreno brincou antes de abrir a garrafa. –É um saco ficar à base de sanduíche e refrigerante. Quando tenho oportunidade de ter uma refeição decente, como até não agüentar mais. –ele confessou.

-Pensa que eu não sei? –Dean sorriu e depois bebeu alguns goles.

—X—

Quando o relógio da sala marcou meia noite, todos na casa já estavam dormindo. Bob tinha o costume de se deitar cedo, até porque tinha seus próprios hábitos. Enquanto que, Dean estava muito cansado da viajem e acabou apagando no sofá mesmo, com o controle na mão, depois de tanto ver televisão.

Sam estava deitado na cama, completamente entediado olhando para o teto quando tudo começou. A partir daquele momento, seu destino já estava traçado e não havia nada que pudesse fazer para impedir.

Querendo ou não, todas as possibilidades iam de encontro ao mesmo final. Por mais que Sam lutasse contra o sangue de demônio que existia dentro de si e a escuridão que isso trazia para a sua vida, não existia saída.

Uma dor de cabeça muito forte começou, fazendo com que ele se arrastasse para fora da cama e caísse de joelhos ao chão, colocando as mãos sobre as têmporas. Apesar da dor horrenda que sentia, não conseguia parar de rir.

Mas não era sadio o modo como a risada saía de seus lábios, pelo contrário. O tom era baixo demais para acordar os outros. Era macabra e recheada de um senso de humor negro que o espantava.

Esses surtos esquisitos estavam ficando cada vez mais freqüentes e não tinha como controla-los. Primeiro foi o suor frio excessivo, com as mãos tremendo, depois sua boca ficou ressequida e sentia muita sede, algo que chegava a ser fora do comum.

Conforme a necessidade por qualquer liquido aumentava, sua cabeça latejava tão forte que parecia explodir no instante seguinte. Sam sentia tanta dor que fincava suas curtas unhas na própria pele, lutando para agüentar o sofrimento, enquanto as risadas preenchiam o quarto.

Tudo aquilo vinha acontecendo desde que Mephisto havia entrado em seu corpo. O maldito demônio perverteu a essência humana de Sam em algo doentio e repugnante. Sentia desejos e impulsos que nunca pensou existir e o medo do que poderia fazer era constante.

Vinha mentindo para Dean e Bob desde que deixaram a antiga estação de metrô. Para eles, o pacto não havia de fato ocorrido, Mephisto havia se enganado ao achar que finalmente tinha conseguido a alma do jovem Winchester. Apenas Sam sabia o quanto tudo estava diferente e não poderia contar. Ou pelo menos achava que não.

O que poderia lhe acontecer? Sabia exatamente que seu irmão não conseguiria ficar quieto, ao saber que o pacto havia dado certo, iria procurar um jeito de reverter a condição demoníaca de Sam. E ele temia por isso... A coragem lhe faltava para admitir que agora era um demônio completo.

Quanto mais pensava na sua atual situação, mais a vontade de sumir era tentadora. Com o passar dos dias, encarar Dean havia se tornado algo difícil e lhe cortava o coração ter que fingir que estava tudo bem.

Sam respirava com dificuldade. A dor ficou mais aguda e se assemelhava à sensação de ter algo atravessando seu crânio. Levantou-se cambaleante e saiu do quarto, desceu até a cozinha e procurou uma cerveja.

Abriu a garrafa e bebeu todo o liquido com voracidade. Não adiantava, por mais que bebesse toda cerveja do mundo, nada saciava sua sede misteriosa. Sua cabeça continuava doendo de tal maneira que sentiu os joelhos cederem um pouco e quase caiu no chão.

Respirou fundo e continuou procurando por outras coisas que poderia tomar. A garrafa de plástico, que guardava o iogurte especial para controlar o colesterol de Bob, foi parar vazia no chão da cozinha.

E mesmo assim nada da sede passar... Sam estava sentido que as coisas ficariam fora do controle em questão de segundos. Seu pressentimento tornou-se realidade, porque quanto mais bebia, mais sentia sede. Abriu a torneira da pia e bebeu água dali mesmo, sem usar copo. O liquido escorria pelo seu queixo, molhando a camisa. E nada. A secura persistia de uma forma alucinante.

A visão de Sam aos poucos ia ficando mais borrada, conforme ele abria os armários e procurava por qualquer coisa que matasse aquela sede insana. O barulho vindo da cozinha acordou Dean, que esfregou os olhos, enquanto escutava os murmúrios incompreensíveis de seu irmão mais novo.

-Mas o que...? –as palavras morreram na garganta ao chegar à cozinha e perceber várias garrafas abertas e vazias no chão, enquanto Sam estava virado de costas para a porta. –O que está acontecendo aqui?

No momento em que o moreno virou-se para ver quem era, ainda segurava a lata de coca em uma das mãos. Seus olhos estavam arregalados, as pupilas dilatadas e a respiração extremamente ofegante.

Dean sentiu o queixo cair lentamente, conforme os olhos analisavam o estado de Sam. Ele tinha o cabelo bagunçado, a expressão de total desespero, a camisa molhada e os lábios sujos de iogurte.

-Você está bem? –perguntou, com certo receio, se aproximando. –Calma...

-Eu... Não sei, Dean! –as lágrimas escorreram pelo seu rosto e agora parecia iniciar um ataque de histeria. –O que está acontecendo comigo?

-Vamos primeiro trocar sua roupa, você está todo molhad... –ele interrompeu a si mesmo, quando tocou no irmão e percebeu que ele tremia violentamente. –Você está tremendo!

-Me ajuda! –o moreno colocou as mãos trêmulas sobre os ombros de Dean. –Tem alguma coisa acontecendo comigo... Eu não sei o que é!

-Espera aqui, que eu vou chamar o Bob, calma. –virou-se para sair da cozinha, mas ele foi abraçado por trás.

-Não, por favor, eu preciso de você comigo! –Sam ainda chorava e colocou a cabeça sobre o ombro do loiro. –Não vai...

-Está tudo bem, Sammy... –Dean virou-se de frente para o irmão e o abraçou. –Vai ficar tudo bem.

Neste momento, Bob entrou na cozinha, segurando uma shotgun com as duas mãos e não parecia muito animado. O mau humor era mais que evidente e ele ainda vestia seu famoso pijama xadrez, composto por calça e blusa de manga comprida.

-Que merda é essa? –sua voz soou como trovão e os dois olharam para ele.

-O Sam, ele... –Dean começou a explicar, mas foi interrompido pelo irmão.

-Tem alguma coisa acontecendo comigo, Bob! –ele parecia desesperado, soltou-se do abraço e foi até o senhor. –É tudo culpa desse maldito sangue de demônio em mim!

-Calma... –o barbudo deu uma olhada para Dean, fazendo um movimento com a cabeça. –Vamos levar você de volta ao quarto.

Sam parecia mais calmo, quando se deitou na cama de casal, no quarto que dividia com o irmão. Enquanto Bob e Dean conversavam no vão da porta, baixinho para que não pudessem ser escutados.

-Acho que seu irmão está tendo uma possessão demoníaca. –o senhor foi direto, não desgrudando os olhos do jovem.

-Como assim? –parecia que o chão se abria sobre os pés do loiro.

-Seu comportamento está extremamente alterado e ele teve uma reação anormal quando encarou o circulo mágico na sala. –Bob forçou seu sorriso mais amigável no momento em que percebeu que Sam o encarava. –Vai ficar tudo bem, ok?

-Dean... –o caçula murmurou, os olhos enchendo novamente de lágrimas. –Você vai fazer essa sede parar?

-Claro, eu e Bob vamos achar um jeito. –ele tentou ser convincente. –Fique aqui que nós já voltamos....

Os dois desceram as escadas e foram até a cozinha, onde pegaram o sal e água benta. A ficha de que algo demoníaco podia realmente ser verdade, foi caindo lentamente, conforme Dean se lembrava das palavras do demônio, ditas horas mais cedo... "Por acaso não sabem que é impossível um contrato, depois de selado, deixar de surtir efeito?" O pior de tudo era que ele parecia convicto do que falava. "Mesmo que o demônio esteja morto, o contr..." Foi então que o demônio sofreu um exorcismo, realizado por alguma coisa ou alguém.

Logo depois, Sam é encontrado desmaiado no chão do banheiro, com um filete de sangue escorrendo do nariz. Esse tipo de sangramento normalmente ocorre quando a pessoa faz um esforço muito grande, que não está acostumada. Ou então porque levou um soco.

Contudo, o irmão mais novo de Dean não tinha brigado fisicamente com ninguém nas últimas horas para que seu nariz sangrasse daquela maneira. Nem tinha feito esforço físico...

A não ser que ele tivesse exorcizado o demônio sozinho. Mas como isso seria possível? Sam teria que recitar as palavras em latim perto da criatura para assim obrigá-la a abandonar o corpo que tomou.

Porém ele estava no banheiro o tempo todo. A menos que usou o sangue que possuía de Azazel para realizar o exorcismo. Essa teoria era provável, ainda mais depois que Mephisto incorporou no corpo do caçula durante alguns minutos.

No momento em que a ficha caiu por completo, Dean arregalou os olhos, segurando o galão com a água benta. Seu amado irmão mais novo poderia estar caminhando para um lugar onde não há volta...