Nota: a letra da música que aparece nesse capitulo é Tokio Hotel – World Behind My Wall.

Capitulo 07 – Memórias

O que despertou Dean foi o zumbido do chicote no ar e o contato extremamente agressivo contra a pele de suas costas. Enquanto sua consciência voltava progressivamente, lembrou-se de que acabou desmaiando por causa dos choques na cadeira elétrica.

Agora estava sendo açoitado por Eon, que parecia se divertir com a situação. A cada nova chicotada, mordia os lábios, fechava os olhos, enquanto seu tórax se arqueava. Em pouco tempo sentia o sangue escorrendo das feridas.

-Finalmente acordou, achei que iria brincar sozinho. –a criança disse, parando de chicotear.

-O que você quer comigo, porra?! –Dean estava sem paciência, tentando olhá-lo por cima dos ombros.

-Fazer você pagar pelo que pediu. –ele foi objetivo.

-Quanto tempo essa merda vai durar?

-Depende do seu comportamento...

-Depois disso estou livre pra achar o Sam? –não sentia mais dor, estava entorpecido.

-Sim.

-Então por que não começa logo? Não quero perder meu tempo com esses joguinhos idiotas. –o ódio era tanto em seu coração, que ficou assustado com o tom da própria voz.

Eon levantou uma das sobrancelhas, não acreditando nas palavras que o humano lhe disse. Nunca havia passado por nada parecido, nenhum dos que torturou durante todos esses séculos tinha se mantinho tão determinado.

Ele realmente parecia estar preocupado com o irmão. A criança ruiva liberou Dean das tiras de couro e ele caiu no chão de pedras da masmorra, sem se mexer. Iria aplicar seu pior castigo e se por acaso ele sobrevivesse, o libertaria.

Eon segurou o rosto de Dean com suas mãos pequenas rudemente, obrigando-o a manter contato visual. Abriu os lábios e uma espécie de névoa negra saiu de lá, entrando nas narinas e boca do humano.

Em poucos segundos, ele se contorcia agressivamente no chão, tendo uma espécie de ataque epilético. Na verdade, o que estava acontecendo era uma ínfima parte da alma de Eon entrou no corpo de Dean e lutava contra a alma do mortal.

Tudo isso não passava de uma resistência de fé. Se o humano fosse realmente forte e soubesse o que desejava, não encontraria problemas em expulsar Eon de dentro dele. Agora, se desviasse do caminho e cedesse a toda pressão, seria destruído ali mesmo.

O garoto ficou observando atentamente, ajoelhado ao lado do corpo de Dean, que não parava de demonstrar sinais de resistência. Era algo fantástico de ver como mortais batalhavam pelos seus ideais, era isso o que os fazia diferente dos anjos e demônios.

Ao contrário de todas as outras criaturas sobrenaturais que possam existir, humanos possuem livre arbítrio e isso lhes dá um poder que eles não tem a real noção. Quando bem utilizado, faz com que cresçam e se tornem melhores.

Quando usado de forma errada, destrói pouco a pouco sua essência, até que sobre apenas uma mente vazia sem realizações.

Após alguns minutos, Dean parou de chacoalhar e ficou quieto, com os olhos fechados. Parecia que havia morrido, pois não respirava. Eon iria se levantar para arrastar o corpo para fora da masmorra, quando inesperadamente, o loiro sugou todo o ar que conseguiu de uma vez só.

Girou o corpo, ficando de quatro e vomitou um liquido espesso e escuro, parecido com petróleo. Ou seja, ele tinha vencido sua batalha interna e agora o garoto precisava liberá-lo, como prometeu.

-Dean, você passou no meu teste e pagou o que devia.

-Posso... –sussurrou, com a boca ainda ardendo. –Procurar... Sammy?

-Ele está nos aposentos de Lúcifer, vou mandar você direto para lá. –Eon encostou dois dedos na testa do mortal. –Deve ter esse selo para que ele não lhe faça nada...

Um símbolo desconhecido foi desenhado na alma de Dean, sinalizando que já pagou o que devia e por isso Lúcifer não poderia fazer nada contra ele. Depois disso, a mesma luz azul que o cegou no encontro com os demônios de baixo nível, iluminou a masmorra e Dean cobriu os olhos.

Assim que os abriu, deu-se conta de que estava em outro lugar completamente diferente. Uma sala de jantar extremamente luxuosa cercada de tudo o que poderia haver de mais fino e nobre existente na face da Terra.

Após percorrer os olhos rapidamente pelo local, Dean olhou a si mesmo. Usava as mesmas roupas que entrou no inferno e seu corpo estava normal, sem qualquer ferimento. Apesar de toda a esquisitice e por ser um demônio, até que Eon cumpria com sua palavra.

Ele reparou que não existia nenhuma porta e que provavelmente um lugar sem saída. O desespero começou a crescer no seu peito, tinha salvar o irmão o quanto antes. Não fazia a mínima idéia do que poderia estar acontecendo com Sam.

Fechou os olhos e concentrou-se no que veio fazer no inferno. Durante sua luta contra a alma de Eon foi isso o que lhe deu forças, provavelmente poderia ajudar agora. Quando imaginou o rosto do irmão, com seu sorriso de covinha, os cabelos caindo sobre os olhos brilhantes e o jeito que ele falava, ouviu que algo se quebrava na sala.

Abriu os olhos mais uma vez e percebeu que uma porta se fez na parede. Não quis pensar muito como isso aconteceu e girou a maçaneta.

Entrou em um quarto, tão luxuoso quanto a sala e Sam estava perto da janela, olhando alguma coisa lá fora, parecia tão compenetrado que nem escutou quando o irmão se aproximou.

-Ei, Sammy! –Dean colocou uma mão no ombro do caçula.

O mais novo virou-se e seu rosto estava molhado de tantas lágrimas. Parecia extremamente triste e distante.

-Sam? –chamou mais uma vez, mas ele não escutava. –SAM!

Os olhos verdes do caçula voltaram-se na direção do olhar do mais velho. Possuíam um brilho opaco e sem vida, como se nada fosse importante ou fizesse sentido mais. Alguém ou algo havia sugado todas as emoções de Sam, deixando apenas uma casca vazia...

"It's raining today - The blinds are shut

It's always the same

I tried all the games that they play

But they made me insane"

-LÚCIFER! EU PEGO VOCÊ, SEU MERDA! –Dean berrou olhando para o teto do quarto. –O QUE VOCÊ FEZ COM O SAM?!

Ainda nesse ataque de fúria, ele começou a destruir o quarto, puxando as cortinas de seda ao chão com toda sua força, rasgando o tecido. Depois chutou com força o criado-mudo, fazendo com que o abajour de porcelana caísse, quebrando-se em vários pedaços.

Atirou longe a mesa do criado-mudo, que bateu na parede, deixando um buraco. Após todo o esforço e sofrimento que passou até conseguir chegar perto do irmão e agora ele estava daquele jeito...

"Life on TV

It's random but it means nothing to me

I'm writing down what I cannot see

Wanna wake up in a dream"

Sentou-se na cama e não conseguiu conter as lágrimas. Dean sentia que suas forças tinham sumido, abandonando-o ali, numa situação deprimente. Não sabia o que fazer e precisava achar uma solução rápida, pois Bob estava tomando conta do portal no cemitério e tinha medo dele estar enfrentando demônios poderosos.

Conforme as lágrimas desciam de seus olhos verdes, molhando a pele sardenta do rosto, a calma aos poucos invadiu seu coração. Nunca iria achar uma saída se continuasse daquele jeito.

"They're telling me it's beautiful

I believe them but will I ever know

The world behind my wall

The sun will shine like never before

One day I will be ready to go

See the world behind my wall"

Levantou seu olhar e encarou Sam, que continuava parado no mesmo lugar. Não fazia a mínima noção do que Lúcifer poderia ter feito com ele, mas não deixaria que levassem seu irmão embora.

Por isso, ele ficou de pé e caminhou até o caçula.

-Sammy? –chamou mais uma vez, para ter certeza de que não estava ficando maluco.

-Quem... É você? –as palavras saíram lentamente, como se nunca tivessem sido usadas antes.

Então era isso, sua memória havia sido apagada. Por esse motivo Sam estava tão estranho e distante, com movimentos lentos. Parecia estar dopado por alguma coisa, que não sabia explicar o que seria.

-Me chamo Dean Winchester... –o loiro começou a dizer, calmamente. –E você?

-Não sei... –o mais alto franziu as sobrancelhas. –Apenas acordei aqui.

-Por que você está aqui? –tentou segurar as lágrimas, se chorasse logo no começo não conseguiria progredir.

"Trains in the sky

Are travelling through fragments of time

They're taking me to parts of my mind

That no one can find"

-Eu… - fechou os olhos, tentando lembrar-se. –Estava com alguém e fui trazido pra cá. Sabe onde estamos?

-Não sei. –ele mentiu descaradamente, não sabia qual seria a reação de Sam. –Sabe você me lembra o meu irmão mais novo...

-Como ele se chama? –o mais alto perguntou, parecendo interessado.

-Sam... Sam Winchester. –sua voz saiu sonora, na esperança que ouvindo o nome pudesse voltar a se lembrar.

-Você parece triste quando fala dele... –sua expressão era de compaixão pela dor de Dean.

-É que... Tiraram ele de mim há pouco tempo. –o loiro virou-se de costas, não conseguiria continuar falando do irmão como se ele não estivesse na sua frente.

-Tenho certeza de que ele o ama e que está esperando por você.

"I'm ready to fall

I'm ready to crawl

On my knees to know it all

I'm ready to heal

I'm ready to feel"

Aquilo estava sendo demais para Dean, não sabia quanto iria conseguir ficar naquela conversa. Era torturante ver que o próprio irmão não se lembrava de nada e agia como outra pessoa, completamente alheio a tudo.

-Apesar das brigas, sempre fomos muito unidos. –ele disse, ainda de costas, tentando segurar seu choro. –Ele é a única pessoa que eu tenho no mundo.

-Mas e a família de vocês?

-Estão todos mortos... Sobramos eu e Sam. –Dean fechou os olhos, deixando que suas memórias passassem como um filme em sua cabeça. –Desde então, ficamos mais unidos. Nunca nos separamos.

-Eu entendo como se sente. –Sam ficou de frente para Dean. –Minha história é bem parecida com a sua. Só tenho o meu irmão mais velho.

-Ah é? –ele estava a ponto de desabar.

-Só que eu não consigo me lembrar dele... Ou o seu nome... –parecia estar confuso. –Ele sempre me protegeu e é meu ídolo desde quando eu era pequeno.

Sam colocou as mãos nas têmporas, fechando os olhos, sua expressão era de dor profunda. Parecia que as memórias voltavam aos poucos e isso lhe causava um desconforto grande.

"They're telling me it's beautiful

I believe them but will I ever know

The world behind my wall

The sun will shine like never before

One day I will be ready to go

See the world behind my wall"

-Minha cabeça está doendo! –ele gemeu entre os dentes. –Por mais que eu tente, não consigo lembrar quem é o meu irmão...

Ele caiu de joelhos, com lágrimas nos olhos. Dean também se ajoelhou, segurando os ombros de Sam.

-Olha para mim! –ele pediu, com uma ponta de esperança crescendo no peito.

-Dói quando tento lembrar... –o mais alto levantou o olhar mareado, o rosto coberto de lágrimas. –Faz isso parar, por favor!

-Calma, vai passar. –Dean ajeitou uma mecha atrás da orelha do irmão. –Tente se lembrar de quando seu pai morreu, você e seu irmão prometeram que nunca iriam se separar...

-É, ele me disse que apesar de todas as dificuldades, estaríamos juntos. –sorriu levemente, parecendo se lembrar, conforme Dean falava, mas ainda sem associar a pessoa a sua frente com seu irmão.

-Desde então vocês enfrentaram muitos problemas... –o loiro continuava falando, observando atentamente a expressão do outro. –Até que um dia você morreu e ele fez um pacto para trazer você de volta...

-Isso mesmo! –ele deixou os braços soltos, esticados ao longo do corpo. –Quando eu descobri, fiquei preocupado com sua alma e tentei todas as maneiras de cancelar o contrato.

-Exatamente... –Dean foi com calma, não queria enchê-lo de informação. –Pouco antes do seu irmão morrer, você fez um pacto para salvá-lo do inferno, dando em troca sua alma para se tornar um demônio.

-Queria tentar ajudá-lo, não podia deixar que ele fosse ao inferno porque eu não consegui me proteger. Era culpa minha ele ter sido condenado eternamente...

"I'm ready to fall

I'm ready to crawl

On my knees to know it all

I'm ready to heal

I'm ready to feel

Take me there

Take me there

Take me there"

No momento em que Dean iria continuar a falar, notou que Sam piscava seguidamente, como se tivesse acabado de acordar. Seu olhar não possuía mais aquele vazio e a opacidade, pelo contrário, estava vívido e atento.

Foi então que o loiro se deu conta de o irmão caçula recuperou a memória. Mas seu rosto ainda estava assustado e confuso.

-Sam, você está bem? –chamou, preocupado.

-Dean?! –encarou seu irmão como se fosse pela primeira vez na vida. –Dean, é você mesmo?!

-Sim... –conseguiu responder antes de ser surpreendido por um abraço.

-Dean... Cara, como senti sua falta! –sua voz estava embargada pelo choro.

Eles ficaram alguns minutos se abraçando, sem dizer uma única palavra. Mas não precisavam delas, pelo contrário. Apenas o fato de estarem juntos mais uma vez era tão grandioso que eliminava qualquer discurso que pudessem falar.

-Vamos embora daqui. –Dean levantou-se, ajudando o irmão.

-Bob está esperando por nós... –Sam sorriu, mas dessa vez do fundo coração.

-Mas e Lúcifer? –o loiro ficou paralisado ao lembrar-se do motivo de estar ali.

-Não precisa se preocupar. –o mais alto começou a procurar algo nos bolsos do casaco. –Vamos sair logo daqui, eu odeio esse lugar.

O caçula tirou a adaga pertencente a Lúcifer do bolso e fincou o objeto no chão. Uma fonte de luz vermelha saiu da fenda aberta e tomou conta do quarto. Os irmãos tamparam os olhos, protegendo-se.

Sentiram que estava mais pesados e que o chão estava úmido e macio. Ao abrirem os olhos, viram que haviam voltado para o cemitério e encontravam-se de frente à mausoléu que guardava a entrada do inferno.

"They're telling me it's beautiful

I believe them but will I ever know

The world behind my wall"