8. Deslumbrada
Estava em casa rabiscando um pedido de desculpas para meu diário por ter errado o dia em que iria falar com a diretora quando a campainha tocou. Desci rapidamente e abri a porta sorrindo.
— Jake? – estranhei, meu sorriso desaparecendo.
— Esperava outra pessoa? – ele perguntou, confuso.
— Bem... sim. – admiti. – Edward está para chegar.
Jacob assentiu, sério. Lembrei-me de mais cedo, sua reação sem noção ao fato de eu ter conversado com Edward. Revirei os olhos internamente.
— Tudo bem, então. Eu volto mais tarde. – disse ele, sem esconder muito bem o desapontamento.
— Desculpe. – falei. – Eu já tinha combinado com ele esse horário porque achei que você viria aqui bem mais tarde. – admiti.
— Tudo bem. – ele repetiu. – Até mais tarde.
Jake se aproximou mais de mim e passou a mão por trás da minha nuca para me beijar. Ouvi uma buzina e pulei de susto. Edward estava em seu carro, ralhando com Alice.
— At-té mais, Jake. – falei, sentindo meu rosto muito vermelho.
Ele ignorou os Cullen e voltou sua atenção para mim, me beijando. Correspondi, apesar de encabulada. Ele sorriu levemente e se afastou. Fiz um sinal para que os Cullen esperassem e peguei minha bolsa dentro de casa. Tranquei a porta antes de sair e ir para o Volvo.
— Aquilo não foi nada educado. – murmurei ao entrar.
— Desculpe por aquilo. – fez Edward, se virando para trás.
Alice, do banco da frente do carona, se virou para mim com um sorriso grande.
— Culpada. – ela admitiu alegremente.
Revirei os olhos.
— Muito a sua cara. – murmurei em resposta.
Seguimos para a casa deles em silêncio enquanto eu prestava atenção ao caminho. Achei que já estávamos saindo dos limites da cidade, mas de repente havia praticamente uma fenda na floresta, e a estradinha enorme dava na casa dos Cullen.
É claro que eu já havia ouvido boatos sobre a casa deles. Mas só não pensei que fosse tão grande.
Branca, antiga e muito graciosa, a casa deles gritava paz. Havia flores enfeitando o jardim, e quando Edward percebeu meu olhar, disse, em tom explicativo:
— Esme é decoradora.
Por dentro, a casa era ainda mais magnífica. Muito clara e limpa. Imaginar que os dois moradores daquela casa maravilhosa já tinham entrado na minha humilde cabana me deixou sem graça.
— É uma linda casa. – elogiei casualmente.
— Também acho. – Alice concordou, com seu tom animado de sempre. – Bem, vou ter que sair. Sinta-se à vontade, Bella. Bom trabalho para vocês dois.
E saiu, quase correndo. Balancei a cabeça, rindo.
— Como ela consegue essas coisas? – perguntei, desacreditando.
— Que tipo de coisas? – perguntou Edward, com a voz leve, enquanto indicava a escada.
— Aparecer e desaparecer do nada. – respondi.
— É o jeito dela. – ele disse, dando de ombros com um pequeno sorriso.
Enquanto subíamos a escada, ouvi uma música alta que não reconheci tocando. Edward grunhiu qualquer coisa, e quando chegamos ao topo dos degraus, pediu que eu esperasse.
Ele foi até uma porta no corredor e tentou abri-la, mas pelo jeito ela estava trancada. A música continuou tocando, alta demais para que eu entendesse o que Edward estava dizendo para mim. Por fim, ele apontou uma porta e entrou. Fui atrás, e Edward fechou a porta em minhas costas.
— Hmmm... – falei, devagar. – Alice? – arrisquei, apontando para a direção da música.
— Com certeza. – ele respondeu, revirando os olhos.
Agora a música estava mais ao fundo, graças a Deus. Observei rapidamente o quarto de Edward – muitos CDs, um aparelho de som enorme, muito mais livros do que eu sequer imaginaria e uma cama enorme bem no meio de tudo.
Ele se sentou na ponta da cama e eu percebi os papéis que estavam lá,
— Precisamos de um logotipo, não acha? – disse ele, mostrando as folhas.
Os desenhos eram bem feitos e criativos. Eu ri ao ver um que era um livro aberto com pessoas de mãos dadas em volta, como naquelas campanhas solidárias.
— Ei, não ria. Todos estão lindos! – ele reclamou.
— Estão fofos. – concordei. – Mas essa parece realmente um apelo para crianças carentes. – falei, apontando o que tinha me feito rir.
Edward revirou os olhos, mas não comentou mais nada. Ficamos em silêncio por mais um minuto ou dois, e eu já estava começando a me sentir desconfortável.
— Você já ouviu essa música? – perguntei casualmente.
— Hm, talvez. Por quê? – ele perguntou, franzindo o cenho.
— É muito bonita. – falei. Edward fez uma careta, e eu não o culpo. Concordo que nenhum de nós dois tinha muito jeito de curtir Jesse McCartney. – Sério. A letra dela é fofa.
And I don't know (E eu não sei)
How to be fine, when I'm not (Como ficar bem, quando eu não estou)
Cause I don't know (Porque eu não sei)
How to make a feeling stop (Como conter um sentimento)
— Humpf. – Edward murmurou. – Terrivelmente clichê.
Revirei os olhos.
— Mas a música é bonita.
Just so you know (Só pra você saber)
This feeling's taking control of me (Esse sentimento está me controlando)
And I can't help it (E eu não posso evitar)
I won't sit around (Eu não vou me aproximar)
I can't let it win now (Não posso deixá-lo vencer agora)
Thought you should know (Achei que você deveria saber)
I've tried my best to let go, of you (Dei o melhor de mim pra me permitir me afastar de você)
But I don't want to (Mas eu não quero)
I just gotta say it all before I go (Eu só tenho que te dizer isso tudo antes que eu vá)
Just so you know (Só pra você saber)
— Deve ser legal... – comentei.
— O que deve ser legal?
— Ter alguém que você gosta tanto que não pode mais esconder, essas coisas, você sabe. – falei, meio sem graça.
— O que está querendo dizer?
— Que eu queria ser assim, clichê. – murmurei. – Queria todas essas coisas – o sentimento incontrolável, a vontade de gritar...
— Então você não é torridamente apaixonada pelo garoto? – ele perguntou, levantando uma sobrancelha.
— Que garoto? – estranhei.
Ele revirou os olhos.
— Seu namorado, Jacob. – ele especificou.
Corei.
— Ah, não. Ele não é meu namorado. – falei.
— Não respondeu minha pergunta. – criticou Edward.
Suspirei.
— Não. Não mesmo. – falei, meio triste. – Nem perto disso.
— Nunca imaginei que você fosse esse tipo de garota... – Edward falou, olhando para mim quase pela primeira vez naquela tarde.
— Que tipo? – me sobressaltei.
— O tipo que espera por um príncipe num cavalo branco. – ele disse, sorrindo.
— Não... Você entendeu errado. – falei. – Eu não sou idiota, eu só acho que o amor, ou paixão, chame do que quiser, é uma coisa legal.
Edward riu.
— Mas eu nem disse que você é idiota! – ele rebateu.
— Mas, aah... Eu não acredito nesse tipo de amor – olhar para a pessoa e dizer "aah, eu amo você". Amor é muito mais convivência do que outra coisa. – insisti.
— Então você vai olhar para uma pessoa todos os dias, até se apaixonar por ela? – ele zombou.
— Não dá pra conversar com você. – grunhi, revirando os olhos.
Ele riu novamente.
It's getting hard to, be around you (É cada vez mais difícil, ficar perto de você)
There's so much I can't say (Há muito que eu não posso dizer)
Do you want me to hide the feelings (Você quer que eu esconda os sentimentos)
And look the other way (E olhe de outra maneira?)
— Viu? – falei, convencida. – Toda essa coisa de ser difícil ficar perto de alguém. Isso é lindo!
— Não vai achar lindo quando for você. – ele avisou.
— Você fala como se fosse experiência própria... – e então, parei. – Você já se apaixonou por alguém??
Ele suspirou.
— Já. E nem é tudo isso, se você quer saber. – ele respondeu, dando de ombros.
— Por que? Você disse a ela e ela não gostava de você? – questionei.
— Não. – ele negou. – Eu nunca disse a ela.
— Por quê? – perguntei, em choque.
— Bella... – ele disse, fazendo uma careta. – Sabia que isso está sendo meio infantil da sua parte? Já assistiu aquele filme Encantada, onde a princesa do mundo de Fantasia descobre as coisas e fica em choque? Você está igualzinha.
Fiz um bico.
— Não estou, não. – teimei.
— Está, sim. Ficar apaixonado por alguém não é essa coisa linda que as pessoas fazem parecer. E, acredite, com certeza mais da metade de pessoas apaixonadas nunca contam que são.
— Eu contaria. – murmurei, por fim.
— Ahh, não. Você não contaria. – ele teimou.
Fiquei quieta. Talvez não, então. Tanto faz – não estou apaixonada agora.
— Vamos escolher o logo? – fez ele, por fim. Assenti.
Depois de ter escolhido um livro aberto com letras saltadas – CLFHS, Clube do Livro da Forks High School – como nossa marca registrada, fizemos uma espécie de exemplo de uma ficha de inscrição para o clube. Também treinamos algumas coisas para dizer à senhorita Hathaway, quando fôssemos apresentar a nossa prévia.
Ao todo, a tarde foi bem produtiva. Apesar do humor estranho de Edward ao falarmos de Jacob – eu até o entendo; eles haviam brigado, eu daria todo o apoio aos dois se eles se odiasse, contanto que um mantivesse uma distância segura do outro –, nós acabamos por nos dar bem.
— Eu preciso ir. – murmurei, ao perceber o sol já quase totalmente esquecido.
— Tudo bem. – ele respondeu, também falando baixo. – Eu te levo.
Como já tinha vindo de carona e não tinha como voltar de outro jeito, dei de ombros.
— Okay.
Quando estávamos descendo a escada – eu rindo da música YMCA que tocava do quarto de Alice – ela brotou.
— Alice! – falei, séria. – Você poderia, por favor, abaixar um pouco a música da próxima vez que sair?
— Próxima vez? – ela ecoou, meio maliciosa. Levantei uma sobrancelha, sem entender. – Já está fazendo planos para passar a tarde toda no quarto de Edward?
Revirei os olhos, tentando ignorar o fato de estar, de repente, tremendamente vermelha.
— Você é tão absurda! – reclamei, desviando dela e indo para a porta.
Edward me levou em seu carro até a minha casa, o caminho todo em silêncio. Fiquei desconfortável por não termos conversado durante o caminho.
Parecia muito errado, mas ao mesmo tempo, muito certo.
Quando falávamos, eu sentia aquele impulso de contar tudo – como quando discutimos sobre a música. Se ele não tivesse me deixado sem resposta, estaríamos até agora argumentando se estar apaixonado era algo ruim ou não, e se eu gostava ou deixava de gostar de Jacob.
Para esses momentos, o silêncio era o certo a fazer.
Mas, quando falávamos sobre trivialidades, totalmente à toa, era legal. Nada de dizer a vida inteira pra ele, apenas... socializar. Sem importar as bobeiras que falamos, só passando o tempo. Sem trabalhos, sem dificuldades.
E para esses momentos, eu preferia não ficar quieta.
Paramos na frente da minha casa, o mesmo silêncio forte – já se tornando constrangedor.
— Bem... Obrigada pela carona. – falei, tentando soar simpática.
— De nada. – ele respondeu, com um pequeno sorriso.
Assenti e virei o corpo um pouco para o lado, a fim de abrir a porta. Meio milésimo de segundo depois percebi que estava sendo mal educada e me virei de volta.
Minha despedida ficou presa na garganta, assim como minha respiração. Edward tinha se aproximado, como uma pessoa bem educada, para me dar um abraço de despedida. Mas, quando me virei, ele recuou. Agora que tinha me virado de volta, ele tinha se aproximado novamente – um pouco demais.
— Tchau, Bella. – ele soprou em meu rosto.
Uh, devagar aí!, murmurei internamente.
— Tchau. – respondi, baixo demais.
Ele se aproximou mais e beijou meu rosto levemente. Não o beijei de volta – estava tonta e confusa. Deus do céu, ele tinha que se aproximar tanto para me dar um beijo no rosto?
Argh, idiota. Se ele vai encostar em você, é claro que vai se aproximar.
Urgh.
Para completar a situação, ele se inclinou sobre mim para abrir a porta.
— Tenha uma boa noite. – ele disse educadamente.
Cambaleei para fora do carro, ciente de que só não estava corada porque – pelo contrário – estava absurdamente pálida.
Eu arfei, me recuperando no ar frio do início de noite. Entrei em casa totalmente extasiada.
— Bells, quanta demora! – disse Charlie, ao me ver.
— Hm. É. – murmurei.
— Você parece distante.
E estava mesmo. Tanto que, só quando ele falou que eu percebi – sentado ao lado de Charlie, como se fossem velhos amigos, estava Jacob.
— Hey. – falei, me forçando a soar normal.
— Olá. – Jake disse, se levantando e vindo para a minha direção.
Olhei para Charlie, que olhava para nós dois com algo parecido com aprovação no olhar. Sem graça, olhei de volta para Jacob. Ele percebeu meu olhar, então apenas me beijou no rosto – de modo algum me deixando tão retardada como Edward tinha me deixado.
— Você vão sair? – Charlie perguntou.
— Sim. – respondi. – Sim?
— É. Sim. – disse ele, confirmando com a cabeça. – Foi um prazer, Chefe Swan.
— Me chame de Charlie, por favor. – disse meu pai.
Eu sorri para ele e apontei a porta com a cabeça.
— Saindo. Até mais tarde. – falei.
Parei na varanda com Jake, esperando mais instruções. Ele apontou para seu carro e entramos. Agradeci mentalmente pelo aquecedor assim que ele ligou o carro.
Não era um volvo, mas tinha personalidade.
— Então... Você e meu pai, huh? – puxei assunto, sorrindo.
— Acho que ele gostou de mim. – respondeu Jacob.
— E você gostou dele? – rebati, segurando uma gargalhada.
— Tirando a parte das perguntas, sim. – fez ele, rindo.
— Ah meu Deus. – arfei. – Não acredito que ele fez perguntas. – tapei o rosto com as mãos, sem graça.
— Nem foram tantas... – ele deu de ombros. – Hey, você demorou hoje.
— É... Hoje a tarde acabou se alongando um pouco. – respondi, rindo.
— O que fizeram?
— Falamos de música, de amor, escolhemos um logotipo para nós e uma ficha de inscrição modelo. – respondi.
— Amor? – ele ecoou. – Esse não é um assunto para se conversar co um cara que conheceu há u dia.
— Argh, que bobeira! É só que Edward acha que não é bom estar apaixonado por alguém. – falei, distorcendo um pouco as palavras dele, mas sem ligar realmente. – E eu acho que sim, é bom.
— Eu acho que depende. – comentou Jake. – Se você gosta da pessoa e ela gosta de você, é óbvio que é bom. Mas se isso não acontece, não consigo ver felicidade na situação.
Dei de ombros. Não queria ter essa discussão de novo. Jacob dirigiu até La Push, e paramos em First Beach. A conversa fluiu mais do que com Edward, e fiquei satisfeita.
— Está uma bela noite. – comentei, olhando a lua.
— É verdade. – ele respondeu, se aproximando e puxando meu rosto para si. – Dizem que a lua é a coisa mais bonita que existe... – disse ele, sua respiração em minha bochecha. – Discordo. – murmurou, seus lábios explorando a pele do meu pescoço.
— Eu concordo. – respondi, soltando um riso nervoso.
Ao contrário de Edward, Jacob não me deixava com falta de ar. Louvei-me internamente por isso – se eu ficasse tão abalada assim quando Jacob me abraçasse, as coisas ficariam meio tensas. Ou melhor, intensas demais.
Mas, apesar disso, Jacob me deixava atordoada. O jeito que ele beijou meu pescoço me fez sentir de um jeito que eu nunca tinha sentido antes – é claro que não. Ao mesmo tempo que fiquei assustada, também me senti extasiada.
Acima de tudo, porém, fiquei sem graça, exatamente do mesmo modo que fiquei quando ele me beijou – surpresa, mas resignada; mas ainda assim confusa, e até um pouco ofendida.
Recuei lentamente, pondo a mão em seu ombro.
— Qual é a coisa mais bonita, então? – falei, para não ser totalmente esquiva.
— Eu preciso mesmo responder? – fez ele, me olhando de cima a baixo.
Percebi que ainda estava com as mesmas roupas que tinha ido para a escola – jeans simples e uma camiseta. Franzi o cenho para Jacob, ainda sem entender.
— A-ham. – concordei, confusa.
— Ahh, Bella... Você é tão ingênua! – ele disse, rindo. Depois, acompanhou com um dedo o meu maxilar, bem lentamente. – Você é linda, Bell.
Eu dei um sorriso fraco meio falso – receber elogios realmente não era o meu forte.
— Obrigada. – murmurei, sem graça e desviando o olhar.
— Vem, eu quero te mostrar uma coisa. – Jacob disse, animado de repente.
Ele abriu a minha porta do carro – do mesmo jeito que Edward fez, mas sem me deixar ridiculamente sem ar – e depois a dele.
— Vamos lá. – murmurei, sorrindo levemente ao sair do carro. Eu desejei saber o que me esperava lá, além do vento frio.
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Oi, gente!
Desculpe a demora, mas finalmente estou aqui. Pra compensar, um capítulo bem grandinho, com direito a momentos Beward :D
Aguardem para saber a surpresinha da Bella. Mas nem é tãão assim, não criem expectativas! =P
Obrigada pelas reviews!
Beijos!
*Bree
