10. Entrevista cognitiva

Eu estava na praia. Podia ouvir perfeitamente o bater das ondas nas pedras. Era noite, e fazia frio. Jacob estava nas pedras, de costas pra mim e olhando o mar. O que raios ele estava fazendo ali?

Quando me aproximei dele para tirá-lo dali, ele ouviu minha aproximação e se virou para mim.

O que há com você? – eu perguntei.

Ele apenas sorriu e estendeu a mão pra mim. Mesmo hesitante, fui até lá.

Você quer dar um mergulho?

Tá brincando? – praticamente gritei, tamanho meu espanto. – Eu já estou tremendo!

— Vamos.

E, como num sonho louco, ele se projetou na minha frente. O mar, de repente, estava a um passo. Ele me empurrou e eu caí.

Eu sabia que estava me afogando, mas só sentia a água batendo até a cintura. Comecei a gritar, desesperada para sair dali. De repente, outro grito se juntou ao meu. Não era um pedido de socorro – era uma ordem.

Edward.

Edward estava me tirando da água e gritando com Jacob.

Edward estava me tirando da água e tudo o que eu conseguia pensar era: Por que eu ainda continuo molhada?

Edward! – gritei, me debatendo em seus braços.

Eu não queria que ele me carregasse – eu estava molhada!

Edward! – gritei de novo, mas ele não parecia ouvir. – Edward! Edward! Edward!!!!!!!

— Bella! Pare de se debater! – ouvi, mas não era a voz de Edward.

Abri os olhos de uma vez só e me sentei, arfando. Reconheci quem estava me abraçando.

Pai. – ofeguei, ficando vermelha.

— Um ponto pra você. Até que enfim me reconheceu! Eu estava começando a achar que estava tendo alucinações! Primeiro gritando como se estivessem te matando, e então Edward, Edward, Edward... Por que estava chamando-o? – fez Charlie, com um sorriso maldoso.

— Eu não estava chamando! Eu estava gritando com ele! – expliquei, meio gritando.

— Relaxa, Bells. Ainda é cedo. Durma de novo. – ele bagunçou meu cabelo e saiu do quarto.

Suspirei. É claro que não ia conseguir dormir de novo. Me levantei e senti uma dor aguda na barriga.

E então tudo fez sentido.

O excesso de sensibilidade ontem – a crise –, meu pesadelo estranho, e agora, cólica.

Argh. Que ótimo – cof, cof – início de Quarta-Feira!

Eu olhei no relógio e era realmente cedo demais, mas tomei um banho do mesmo jeito. Vesti as roupas da escola e voltei para o quarto. Peguei meu lençol e levei até a máquina de lavar roupas, arrumei outro lençol e coloquei na cama... Mas mesmo assim o tempo não passava.

Decidi abrir um livro.

Peguei As Crônicas de Nárnia, porque queria algo bobinho para passar o tempo. Abri na minha crônica preferida, O Cavalo e seu menino.

A história estava me envolvendo, mas não consegui impedir que minha mente viajasse. Concluí que tinha sido precipitada em minhas conclusões da noite anterior. Sobre Jacob, no caso. Quanto a Edward, já era um fato inegável que ele sabia ser muito legal.

Quando olhei no relógio novamente, já estava no horário que eu deveria acordar. Olhei para o livro e vi que tinha lido mais da metade daquela crônica. Mas se me perguntassem até que parte eu tinha lido, eu nunca saberia.

Dei um jeito no cabelo – que estava estranhamente amassado, por eu ter ficado sentada/deitada por tanto tempo –, tomei café, peguei minhas coisas e saí de casa bem mais cedo que o necessário.

Estava chovendo, e eu dirigi devagar. Mesmo assim, quando estacionei o carro, pude escolher qualquer vaga. Fiquei sentada no banco, com a janela praticamente fechada, com um caderno na mão. Comecei a rabiscar a última folha distraidamente.

Pulei quando ouvi duas batidas na minha janela. Saí do carro, carregando minhas coisas num braço só.

— Oi, Alice. – falei, meio atrapalhada. Ela pegou meu caderno para me ajudar. – Obrigada.

Ela olhou a folha que eu estava desenhando.

— O que é isso? – fez ela, confusa e maliciosa.

Eu olhei o caderno. Sem perceber, eu tinha escrito o nome de Edward pelo menos dez vezes. Corei.

— N-n-não é-é n-nada. – falei, puxando o caderno de volta. Desejei ser engolida por um buraco.

Coloquei o caderno dentro da bolsa e olhei ameaçadoramente para Alice. Se você contar para alguém, eu te amo – meus olhos diziam.

— Oi, Bella – ouvi atrás de mim, surpreendendo-me e fazendo-me pular.

O caderno caiu e ele pegou.

AAAHHHH, QUE MERDAAAAAA! – eu quis gritar, enquanto sentia meu rosto corar furiosamente. Puxei o caderno da mão dele.

— Oi, Edward. – falei rápido, e saí andando em direção ao prédio da escola com passos fortes.

Já lá dentro, na sala de aula, vi Jacob. Desviei o olhar para minha mesa, fingindo que não o tinha visto. Alguém sentou ao meu lado e eu xinguei baixo.

— Não tem-

Eu ia dizer "não tem outro lugar pra sentar, não? hoje eu não estou bem", mas parei. Ao invés disso, só bufei no meio da frase, depois que vi que era Edward ao meu lado.

— Não é possível. – murmurei, desacreditando.

— Falando sozinha, Bella? – fez ele, com um ar meio inocente. E totalmente falso, claro.

— Estou falando com a minha sombra, na verdade. Porque ela parece ser bem mais compreensível que a pessoa que está ao meu lado. – soltei.

— Trocou as ferraduras, Isabella? – fez ele, rindo de leve.

— Não. Só lustrei. – grunhi.

— Já está estressada logo cedo? – perguntou, com aquele tom arrogante que me tirava do sério.

— Para a sua informação, eu já nasci estressada. – respondi, erguendo o rosto.

— Mesmo? Pois não me pareceu isso, pelo menos não nos últimos dias. – disse ele, como se estivesse zombando.

Mas, de algum modo, eu ouvi na voz dele. Surpresa e decepção.

Respirei fundo.

— É, talvez não. – falei baixo. – Não estou num bom dia, no geral. Desculpe.

Edward franziu o cenho.

— Você está mesmo me pedindo desculpas ou eu estou ouvindo demais? – ele perguntou, meio rindo.

— Não enche. – reclamei, afundando o rosto entre os braços apoiados na carteira.

Fechei os olhos com força e xinguei baixo de novo. Esse vai ser o pior dia da minha vida. Senti Edward me cutucando e abri os olhos devagar. Ele estava exatamente na mesma posição que eu, na carteira dele. Seu rosto estava tão perto que eu senti seu hálito em minha bochecha – novamente, uma sensação agradável.

— Ei, o que você tem? – ele perguntou, imitando uma voz de criança e me cutucando repetidas vezes.

— Não quero falar. – respondi, também falando baixo, e também como criança.

— Fala, vai. Eu não conto pra ninguém. – fez ele, com uma vozinha infantil.

Eu tive que rir.

— Você é terrível. – ri, falando com a voz normal. Me ergui e fiquei sentada direito.

— O que você tem, Bella? – Edward insistiu, com voz de criança.

— Pare com essa voz que eu conto! – sibilei.

O professor já estava entrando na sala, e eu pretendia deixar essa passar.

— Não pense que vai escapar só porque o professor está na sala. – ele disse.

Eu arfei, fingindo ultraje.

— Eu nem tinha pensado em escapar! – ironizei.

— Vou te perseguir no almoço. – sussurrou ele em meu ouvido.

Trinquei os dentes antes que eles batessem, tamanho arrepio que eu senti. Só consegui balançar a cabeça para ele. Até o almoço eu até podia me recuperar um pouco.

Mas não me recuperei. As aulas passaram desconfortavelmente rápido, e ele realmente me perseguiu no almoço. Eu estava quase do lado de fora da escola, de tão isolada, mas ele me achou – não que eu estivesse me escondendo mesmo, mas eu queria era ficar sozinha.

Nem sempre conseguimos o que queremos.

— O que você tem, Bella? – disse ele, sentando ao meu lado.

Dessa vez não me passou despercebido o fato de ele ter me enlaçado com o braço. Não falei nada – o que eu falaria, afinal?

— Bella... Por que você estava sozinha ontem? – fez ele, mudando de tática.

— Por que eu preferi andar sozinha até em casa. – respondi sinceramente.

— A...?

— Como é? – murmurei, sem entender.

— Você preferiu andar sozinha até a sua casa, a fazer o quê? – explicou.

— A ir pra casa acompanhada e de carro? – sugeri, dando de ombros.

— E por que você preferiu isso? Não seria muito mais seguro ir de carro com alguém?

Eu me senti como se estivesse numa entrevista cognitiva – eu estava prestes a revelar algo que não queria, e percebi isso.

— Sério, Edward. Não quero conversar sobre isso. Hoje é quarta-feira e nós temos que falar com a senhorita Hathaway. – lembrei.

— Nós temos que entregar um papel para ela. E nós já escrevemos, lembra? – ele disse.

Gemi.

— Por que você se importa? – grunhi, mais nervosa do que constrangida. – Há uma semana você iria rir se me visse chorando e agora você me abraça, e me consola, e está tudo bem?

Minha voz foi ficando mais alta no meio da frase e eu acabei gritando. Me levantei e o encarei, esperando que ele respondesse.

— Eu não ia rir. – foi tudo o que ele disse.

— Ahh, você ia sim. – acusei. – Olha, isso está tudo muito lindo e perfeito, nós dois amigos para sempre, e afins. – falei, meio que sarcasticamente. – O que eu quero saber é por quê!

— Por que eu gostode você, Bella. – fez ele.

E, vou te contar, eu meio que me derreti. Juro, por um segundo eu pensei "aahhh, eu também gosto de você". Pensei em mim mesma pulando no pescoço de Edward e o abraçando como se minha vida dependesse disso. Imaginei-o sorrindo e dizendo "eu te amo".

Mas só por um segundo.

Porque, depois de um segundo, minha fantasia foi arruinada.

— Você é uma garota legal, e nós nos damos bem quando estamos conversando. Eu gosto de ser seu amigo.

Eu quase ri. Juro.

Por que, por um segundo, eu pensei na possibilidade de Edward gostar de mim? Quer dizer, ele é aquele cara da escola – o lindo, o garanhão, o inteligente. Por que ele olharia para mim?

E, além do mais, POR QUE eu me importaria se ele não olhasse?

Ah, meleca. Estou devaneando.

— E eu nunca riria de você desse modo. Mesmo antes de descobrir o quanto você consegue ser engraçada sem ofender, e o quanto você é dedicada, e não CDF. – completou ele.

Eu sentei de novo. Ele passou o braço em volta de mim de novo. Eu quis me matar de novo.

Encostei a cabeça no ombro dele.

— Eu sou tão idiota. – murmurei. – Me desculpe.

Ele riu levemente.

— Já estou acostumado com seus surtos.

Me afastei e o encarei.

— Eu não tenho surtos. – garanti.

— Ahh, você tem sim. – ele insistiu.

— Não tenho não! Eu não sou uma maníaca surtada! – quase gritei.

Ele percebeu e eu também.

— Tudo bem. – murmurei. – Eu sou um pouco maníaca surtada.

Nós dois rimos.

— Gosto da sua risada. – ele falou, à toa. – Você devia rir mais.

Franzi o cenho.

— Está me chamando de cara fechada? – perguntei.

Ele revirou os olhos.

— Estou te chamando de barraqueira. Você adora uma boa briga, não é mesmo? – provocou.

Fiz um bico.

— Eu não sou barraqueira.

— Você é – e muito – pertinaz, isso sim. – disse ele, rindo.

— Perti- o quê? – ecoei.

— Procure no dicionário. – Edward falou, mostrando a língua.

— Super maduro. – elogiei, irônica.

— Achei que você era tão boa com palavras difíceis quanto em me enrolar para não contar nada. – brincou ele, com um olhar inteligente.

— Droga. – bufei. – Por que você não alimentou a minha doce ilusão de que você já tinha esquecido disso?

Ele riu.

— Simples: Eu estou preocupado com você.

Respirei fundo e fiz uma careta.

— Não gosto de pessoas impertinentes. – falei, por fim.

— Estou te incomodando tanto assim? – ele perguntou, meio magoado por baixo da máscara de falsa tristeza.

Me lembrei daqueles versos de Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

— Não estou falando de você, Senhor Eu-Sou-O-Centro-Do-Universo. – expliquei, brincando com ele.

— De quem está falando, então? – perguntou suavemente.

— Jacob. – soltei. – Mas não fique falando com essa voz calma demais, me sinto conversando com um psicólogo, e isso é muito irritante.

— Tudo bem, então. Mas me fale sobre ontem à noite. – fez ele.

Expliquei vagamente sobre os acontecimentos – bem vagamente, porque não queria que ele pensasse que eu era a garota que vai para a praia com o garoto. Falei que não tinha sido algo realmente, mas que eu me irritei à toa, assim como estava irritada à toa hoje.

Eu não queria contar. Eu não ia contar. Mas, quando ele perguntou daquele jeito calmo de entrevista cognitiva, simplesmente saiu.

Por algum motivo, falei até sobre meu sonho idiota e o jeito que acordei abraçada com meu pai. Ele riu de mim.

— Se sente melhor, agora que me contou? – perguntou Edward.

— Não. – respondi de imediato. – Por quê? Eu deveria?

Ele revirou os olhos.

— Essa é a ideia, Bells.

— Não me chame de Bells! – reclamei. – Meu pai me chama assim!

Jacob me chama assim – completei em pensamento.

Edward suspirou.

— Vamos para a aula?

Eu olhei ao redor. Aquele já era um lugar naturalmente isolado, mas agora estava ainda mais vazio – eu não tinha reparado, mas não havia mais o barulho dos alunos no refeitório nem tão distante.

— Droga! – arfei, me levantando de uma vez.

Ele se levantou também, mas sem tanta afobação. Na verdade, sem ânimo algum.

— Relaxa. – fez ele. – Qual é o máximo que pode acontecer?

Era obviamente uma pergunta retórica, então eu ignorei.

— Vamos logo. – grunhi, puxando o braço dele.

Entramos na escola juntos, andando rápido para alcançar a sala e saudar nosso maravilhoso professor de literatura inglesa. Não chegamos nem no corredor.

— O que os dois estão fazendo aí fora? Não sabem que já passou do horário de estar nas salas?

Eu gemi. Não tinha reparado que estava de mãos dadas com Edward. Tentei soltar, mas ele segurou forte – não como se estivesse com medo, mas mais como se estivesse me encorajando. Gemi de novo.

— Vocês dois! Agora! Para a detenção!

De novo não!

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Oii, gente! Desculpe a demora pra postar .
Prometo que no próximo não vou demorar tanto! E no próximo acontecerão coisas bem interessantes :D
Obrigada por lerem *-*
E obrigada pelas reviews: V. Keat, Lady Sanctorum, Lali Durao (hahahah, sua safadinha!), Luiiza, Dani Marjorie, Mary-granger-potter, Dani, lud cullen, , Vivi LeBeau, Rêh, Gibeluh, Bruna Watson, Rafinha (concordo plenamente com tudo o que você disse! Rsrs), pequena, Maarii, CullenB, Bee Stream.

Beijinhos ;*

*Bree

PS: Entrevista cognitiva é um método para resgatar memórias esquecidas onde o entrevistador fala bem calmamente, incentivando a explicação cada detalhe do acontecimento.