Cacos de Cristal
"Então eu disse a eles que se eles estavam dispostos a jogar tudo no lixo pelas idéias lunáticas de um garotinho, eu faria questão de deixar claro para todo mundo que não queria mais ser associado com eles."
Doía para Percy reviver aqueles momentos, a humilhação da discussão com seu pai fazia suas orelhas arderem de vergonha, mas sabia que podia confiar em Penélope. Eles se estavam juntos há anos demais para pensar diferente, tinham passado por tanto juntos, dificuldades e glórias. Sabia que ela poderia entendê-lo.
A garota aproximou-se, abraçando-o e seus cachos castanhos toldaram a visão do ruivo que ficou ali, respirando fundo, e tentando controlar suas emoções.
"Eu sinto muito" ela disse, finalmente. "Sinto muito que tudo isso tenha acontecido, Percy, mas..." ela suspirou, balançando a cabeça e soltando-o.
"Você pode ficar aqui enquanto procura um apartamento, claro. Apesar de tudo..." sua voz apagou-se sem terminar a frase.
Ele levantou, juntando toda a dignidade que ainda conseguia manter, e disse.
"Se não tivesse que me mudar, com essa promoção eu poderia começar a juntar dinheiro, mas... Você entende que vamos precisar esperar mais algum tempo antes de podermos noivar."
Penelope o olhou, e seu olhar era tão cheio de compaixão e ternura que só ele teria sido capaz de quebrá-lo, ainda que nada mais tivesse acontecido naqueles últimos dias.
"Percy, você sempre terá um lugar no meu coração. De verdade. Mas eu não poderia... Casar com alguém que é capaz de trair a própria família dessa forma. Eu não poderia, jamais, me sentir segura ou simplesmente esquecer. Você os magoou, meu bem. E se fez isso com eles, o que não faria comigo?"
A voz dela era calma e suave, mas isso não impediu Percy de sentir-se espancado e desnorteado.
"Desculpe, mas eu não posso mais confiar cegamente em você."
Ele ouviu-a falando por um longo tempo, concentrando-se no tom consolador e suave de suas palavras, tentando ignorar seu significado, mas era impossível.
Tinha, realmente, perdido tudo.
Sem conseguir aceitar favores de mais alguém que o recriminava, aparatou.
(Nunca soube que Penélope ficara muito tempo na sala, abraçada com o travesseiro que trouxera para ele, as lágrimas silenciosas de quem sofria por ter sido honesto.)
