Desigualdade
Os raios que entravam pela janela do salão comunal vazio falavam de uma manhã luminosa que se aproximava. Ginny estava quieta, olhando pela janela, já sem forças para chorar ou sorrir, achava que jamais sentiria nada novamente. Suas emoções já tinham a deixado exausta, e agora, o silêncio era bem vindo.
Passos se aproximavam, mas ela não se virou para ver. Só havia mais uma pessoa na Torre da Grifinória.
"Que horas são?"
"Está quase amanhecendo. Você dormiu um dia inteiro" falou, a voz sem emoção.
Mais passos, e então estava sendo abraçada pelas costas. Sentiu o calor do hálito de Harry, tão perto de seu rosto.
"Eu senti sua falta."
Não respondeu. Não confiava no que poderia dizer.
"Pensei em você todos os dias. Toda noite eu olhava no mapa do maroto, você dormindo aqui, em Hogwarts. Quis estar contigo o tempo todo."
Ele a apertou mais forte, e beijou seu rosto de leve, claramente esperando que ela se virasse.
"Não o suficiente" respondeu, a voz firme e cortante.
"Não o suficiente o que?"
"Não sentiu minha falta o suficiente, não quis o suficiente. Não me escreveu, não me mandou recados, não procurou por mim, SEQUER FALOU COMIGO QUANDO TUDO ACABOU!"
"... Era muito arriscado, ok? Eu não queria..."
"HISTORINHAS E DESCULPAS ESFARRAPADAS! Você estava sendo vigiado? Adivinhe só, eu também! Mas quando eu estava na tia Muriel e você sabia, você sabia onde eu estava, você sequer mandou um oi. Você não falou comigo DEPOIS de derrotar o Voldemort. Você não pensou em mim. É tudo Ron e Hermione, eles são seus amigos, eu sei, seus melhores amigos, e foram até o inferno por você. E eu teria ido também, Harry James Potter, se você tivesse me pedido! Mas você me proibiu e me tratou como se eu fosse um risco, como se eu fosse incompetente, como se eu fosse menos que a porra do Colin Creevey."
"Não é assim, eu só estava preocupado e..."
"Você não é minha mãe" respondeu, a fúria tornando-se gelada, "para me tratar como seu eu fosse criança. Toda a nobre preocupação..." ela tinha se desvencilhado, e andava na sala comunal, de um lado pro outro, sem sequer ver o rosto dele se franzir pelo deboche. "Não impediu nada de acontecer, nem hoje, nem nunca! E eu, tão boba, que achei que você era o príncipe encantado que tinha me salvo e ficaria comigo... Mas a única coisa que você sabe fazer é ir embora. As pessoas te deixaram pra trás, e você aprendeu isso muito bem. Eu sou uma pessoa Harry, não um bibelô que você pode por em cima da lareira!"
"Nunca achei que fosse" ele respondeu, e seu tom de voz era cansado. "Eu senti sua falta, e queria aproveitar estar com você de novo, só isso. Não queria te perder antes da hora."
Ela o olhou por um longo tempo, e seus olhos ardiam como o fogo, deixando claro que ela tentava controlar uma tormenta.
"Certo. Você só achou que a minha vida pararia e eu esperaria por você. Que nada, nunca, poderia acontecer para nos afastar, não é? Porque, afinal, eu sempre esperei. Certo. A culpa é toda minha, claro. Deveria apenas sentar em meu canto e ficar lá como uma mocinha bem comportada enquanto você não volta." Falou, em um impulso venenoso, e ele se encolheu diante da ironia pesada.
A ruiva começou a caminhar em direção ao buraco do retrato, com passadas firmes, ele finalmente conseguiu recuperar a voz.
"Ginny..."
"Quando você aprender a pensar em como os outros se sentem, e não só no que você acha melhor pra todo mundo, Harry Potter, ai você pode vir com 'Ginnys' pra cima de mim. Mas enquanto você for esse egoísta-cheio-de-desculpas-de-um-bem-maior, pode ficar longe."
E ela saiu, com certeza de que aquilo era o mínimo que poderia fazer por seu orgulho, por sua integridade, pelos dois. Não havia espaço num relacionamento para desigualdade.
