Incondicional

Bartolomeu me amava. Provavelmente, o dia que eu descobri isso, foi um dos melhores dias da minha vida. Era quase inacreditável, aquele garoto sério e ambicioso, um sonserino nato, que era tão duro e capaz de tanta gentileza... Realmente aprendera a me amar.

E jurou me honrar e me valorizar até que a morte nos separasse, para minha alegria.

Mas o dia mais feliz da minha vida, foi quando coloquei o pequeno Bartô nos meus braços a primeira vez. Ele parecia feito de luz, tão pequeno e tão diferente de nós. Eu o amei de uma forma como nunca seria capaz de amar seu pai. E Bartolomeu me amou ainda mais por esse presente, e amou nosso filho ainda mais por ser parte da nossa vida.

Ele era nossa fonte de orgulho, todos os dias. Um garoto inteligente, que aprendia tudo rápido, cheio de curiosidade.

Cheio demais de curiosidade, nós viemos a descobrir.

Ele se formou com tantas glórias, um rapaz tão bonito e eu imaginava o quão rápido ele poderia arranjar uma noiva, e me encher de netos. Eu queria ser avó, pensava na minha velhice, quando eu e Bartolomeu estaríamos rodeados de crianças para nos alegrar. Bartô tinha um rosto marcante, e um sorriso contagiante.

Nenhum de nós notou quando ele se perdeu, tão ocupados que estávamos em sonhar com a vida que ele teria.

E foi como se não só a ilusão a respeito do meu filho fosse destruída, mas a minha própria essência. Ele era assim porque eu e Bartolomeu o deixamos ser assim. Era nossa culpa, em primeira e última instância. E eu não podia suportar vê-lo pagar pelos erros que, no final, eram nossos. Eram meus.

Meu marido me amava, e isso foi o suficiente para convencê-lo. Ele não suportava minha tristeza, minhas lágrimas, a morte da pessoa que eu fora, que ele amara.

Então, ele me deixou ir.

E só agora, só depois, eu me pergunto se isso não apenas me faz ter falhado mais uma vez, se eu não fui egoísta. Se não deveria ter ficado. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, ele sempre estivera lá comigo.

Agora, a tristeza era só minha e eu tinha ignorado a dele. Eu quebrei meus votos, no momento em que o convenci, por amor.

Ele me amava incondicionalmente. Mas eu nunca o fiz. E quebrei minha promessa nupcial para proteger quem eu podia amar daquela forma.

Meu filho, e mais ninguém.