Antes das Cinco

Precisou de alguns dias para se recuperar do choque do que fizera, das coisas que ouvira. Precisara de mais que horas andando, e que chegar esfarrapado, não poderia simplesmente aparecer como se nada tivesse acontecido e desfazer aqueles meses.

Não sabia bem o que ia dizer, quando bateu na porta dela, flores em uma mão, o cabelo cortado, a barba feita, os olhos novamente sãos. Foi ela mesma quem abriu a porta - um evento raro, e achou que aquilo era um momento de sorte dele.

"Olá, Cecília" ele falou, a voz ainda um pouco rouca, e ela arregalou os olhos.

"Fico feliz em vê-lo recuperado, Sr. Riddle" foi a resposta dela, sem abrir mais a porta, sem convidá-lo a entrar, sem o menor calor na voz. Eram apenas tons frios e polidos, o interesse que poderia dedicar a um vizinho que mal conhecera.

"Para você" disse, entregando as flores, e ela as observou por um longo tempo antes de suspirar.

"Você acha, Sr. Riddle, que eu sou uma daquelas garotas que precisa apenas de flores para esquecer tudo?" sua voz agora era amarga. "Esquecer que você fugiu com outra, esquecer os comentários, esquecer a forma como fui largada, como todas as suas promessas não eram verdadeiras?" Em outra mulher, aquelas palavras teriam soado histéricas, mas com Cecília, parecia que meramente relembrava detalhes desagradáveis de algo que aconteceu com outra pessoa.

"Cecília, você precisa me escutar..." tentou argumentar, pensou até em implorar.

"Oh, claro, todos querem escutar o que aconteceu com Tom Riddle, o grande mistério de Little Hangletown. Tenho certeza que você encontrará muitos ouvidos simpáticos por ai, mas não o meu, Tom. Não o meu. Eu preciso de toda a minha simpatia para mim mesma, já que você me transformou no motivo de chacota para toda a cidade."

O rapaz a olhou incrédulo, mas não havia qualquer suavidade ou gentileza no rosto de Cecília. Era como se tivessem pego a menina delicada que ele deixara e esculpido em pedra.

"Agora, se puder me dar licença, sr. Riddle, são quase cinco horas e preciso arrumar o chá, meu noivo está quase chegando, tenho certeza."

Murmurou alguma resposta apropriada, e ouviu a porta fechar mesmo antes de acabar de virar, o buquê ainda em suas mãos. Olhou as flores, uma última vez, antes de jogá-las no chão e pisotear com raiva. Não havia para onde ir.