Das Inconveniências De Se Namorar Uma Trouxa
Ele não sabia exatamente como chamá-la para sair, inicialmente. Mas não foi tão difícil. Um sorriso, algumas palavras, e logo estavam conversando. Foi natural levá-la para jantar - até demais - e natural sair novamente. Não houve nada de diferente (ainda que fantástico) em beijá-la. E, mais rápido do que ele imaginara, três meses se passaram.
Mas um assunto vivia voltando à tona: Quando a levaria para conhecer seus pais?
Quando você tem dezoito, vinte anos; três meses é cedo demais.
Mas aos vinte e oito, com sua irmã mais nova já com um filho, três meses... Bem, já deveriam ter sido mais que o suficientes.
Percy gostava muito de Audrey. Pensava em um futuro juntos, às vezes, apenas para balançar a cabeça e imaginar que não daria certo. Sempre fora um pessimista - realista, argumentaria. Relacionamentos entre completos trouxas e bruxos eram uma coisa muito complicada.
Então, continuava adiando, momento a momento, quando a levaria na Toca.
E mais três meses se passaram, até que ela o deu um ultimato: ou mostrava que era mais que distração e a apresentava aos pais... Ou seria o fim.
Mulheres. Elas podem ser muito obstinadas, ainda mais com essas coisas.
Precisam saber que é sério. Precisam de pedidos completos. De enxovais escolhidos. De vestidos brancos, e caminhar pela igreja de braços dados com o pai.
... E ele sabia, agora, que daria a ela tudo isso... Se ela conseguisse resistir.
Então, assim, numa noite com nada de especial, ele chegou no apartamento dela trazendo flores.
Audrey, claro, ergueu as sobracelhas em descrença. Sabia que flores costumavam ser um prenuncio de algo ruim.
"Tem algo que preciso lhe falar" ele disse, muito sério.
Ela apenas cruzou os braços, se protegendo, esperando.
"O que?"
"Eu sou um bruxo."
Claramente ele não esperava pela reação dela: um tapa bem dado na cara, e gargalhadas histéricas.
"Patético, Percival, Patético. Você precisa de uma desculpa melhor. E espero que você tenha, realmente, ou as coisas vão ficar muito feias."
"É a verdade" ele tentou falar, mas ela apenas suspirou.
"Se você quer arranjar uma desculpa esfarrapada para fugir, tudo bem. Mas, só para você saber, eles recusaram o sangue que eu doei essa semana."
O homem arregalou os olhos, sem entender a conexão entre as duas coisas.
"Por quê?"
"Eles testaram o sangue, e deu positivo..." a mulher parou de falar, deixando o suspense no ar por alguns segundos, enquanto todo tipo de coisa horrível passava na cabeça do ruivo. "Para gravidez."
E, Audrey não esperava pela reação do namorado-enrolado: desmaiar.
(Riam sempre, no futuro, lembrando disso. Riam da incredulidade dela, do susto dele. Riam da vida que podiam nunca ter tido. Porque, naquele mesmo dia, ele a levou a toca, e anunciou - sem pedir - que iriam se casar. Algumas decisões não são difíceis de tomar.)
