— O quê? — Sakura olhava-o, sem entender. — Você deve estar brincando!

— Não, não estou brincando. A decisão final cabe a você. Pode escolher: ou desiste de sua filha ou se casa comigo.

Sakura ajeitou Aya no colo e ficou olhando para o bebê, que dormia. Virou-se para aquele homem sério. Ele poderia estragar toda a sua vida, e, se era isso o que queria, estava conseguindo.

Seu rosto tinha traços fortes. Os cabelos, com a franja lisa e arrepiados, davam-lhe uma expressão de autoridade. Como poderia deixar Aya viver sob os cuidados daquele homem tão frio? Iria ficar sem o amor da mãe? Percebeu que ele não se incomodava com a felicidade dela, estava decidido a ter a menina, custasse o que custasse. Se contasse que não era a mãe, isso só iria piorar a situação, pois ele aí levaria do mesmo jeito. Era melhor não contar a verdade.

— Por que... por que você faria uma coisa dessas? — perguntou, nervosa.

— Por que não? — respondeu, sem alterar o tom indiferente. — E não fique tendo idéias erradas. Faço isso pensando apenas no futuro de Aya. Você, como mulher, não me interessa; não gosto de nada que seja de segunda mão.

— E do que gosta, sr. Uchiha? — perguntou, ignorando o insulto.

— Itachi não comentou a meu respeito?

A pergunta era para testá-la. Sakura sentiu que estava ficando vermelha.

— Não — disse, disfarçando. — Não me lembro. Na verdade, acho que nunca conversamos sobre você.

— Parece-me que Itachi se esqueceu de muitos de seus relacionamentos. Também nunca ouvi falar de você. — Seu olhar tinha um tom de desprezo.

— O que fazia, antes de conhecê-lo?

— Trabalhava como modelo. — Tentou controlar a raiva. O tom dele era provocador e insinuava coisas erradas a seu respeito.

— Verdade? Itachi devia gostar muito dessa profissão, alguma coisa o atraía para as manequins. — Seu olhar percorreu o corpo de Sakura — Ah, sim, lembro-me de você. Fez aquela propaganda de produtos para maquiagem, não?

— Foi o meu último trabalho — respondeu, notando a reprovação dele.

— Pensa em voltar a essa profissão?

— Por agora, não. Tenho Aya e ela é tudo para mim.

— Não precisa ficar me convencendo do seu amor. Já lhe dei as opções, é só escolher a que quer.

— Não é tão simples assim.

— Talvez! Você... tem namorado?

— Tenho um amigo, mas é apenas amigo. Ele não é o motivo das minhas dúvidas. Pensa que me agrada a idéia de me casar com um homem que conheço há apenas uma hora? A única coisa que sei sobre você é que se diz tio de Aya.

— Não seja dramática. Se quer os meus dados, posso dar: já sabe o meu nome, tenho vinte e seis anos e sou solteiro. Tenho muitas propriedades e negócios no mundo inteiro. Sou grego, mas passo a maior parte do tempo em Tóquio. Se você se casar comigo, irá morar numa casa de campo. Aya irá junto e eu arrumarei uma babá.

— De jeito nenhum! Se... veja bem, é uma hipótese... se eu aceitar o casamento, não permitirei que outra pessoa cuide de Aya. Posso fazer isso muito bem. Se eu quisesse uma babá, teria contratado uma e continuaria a ser modelo. Mas não aprovo essa idéia. Vou cuidar dela, enquanto for pequena.

— Então acho que você não tem muita escolha.

Sakura entendia o que ele queria dizer, mas não estava convencida.

— Por favor! Olhe, tenho outra proposta. Você poderia cuidar de Aya e de mim, poderíamos ir morar na casa de campo, mas não precisaríamos nos casar. O que acha?

— Para mim, não há problema, mas a semelhança de Aya com Itachi ou... ou comigo mesmo é muito evidente. Nesse caso, prefiro assumir a paternidade. Ele teve um caso com você, mas, tinha uma noiva, e, se ela souber de sua existência, se sentirá humilhada, desprezada.

— Será que devo lembrá-lo de que o seu irmão também é responsável pelo nascimento de Aya? A mulher não é a única culpada por ser mãe solteira.

— Eu sei, e é por isso que quero cuidar de Aya de você. Se Itachi fosse vivo, ele mesmo assumiria a responsabilidade; então eu farei isso por ele.

— E o amor, não conta nada para você?

— Não está querendo me dizer que amou o meu irmão, está? - Sakura controlou-se ao ouvir seu tom irônico. Ino tinha amado Itachi. Ele podia pensar o que quisesse, mas era verdade.

— Claro que sim! A prova é que Aya nasceu. Nenhuma mulher solteira teria uma criança, se não tivesse amado o pai dessa criança... ou, pelo menos, não precisaria ter. Hoje em dia, não é necessário.

— Meu ponto de vista é bem diferente do seu. Qualquer criança, concebida por amor ou não, deve nascer. Se você não tivesse amado Itachi, Aya não teria nascido? Agora há pouco me disse que não tinha certeza de que Itachi era o pai. O que significa isso? Será que amou todos os homens que dormiram com você?

— Sr. Uchiha, se é essa a opinião que tem a meu respeito, não será um risco muito grande casar comigo? Talvez eu prejudique muito a sua reputação.

— Não terá chance. Viverá numa casa de campo tranquila e sossegada.

— É mesmo? E o que ficará fazendo, enquanto eu estiver lá, fora de perigo?

— Trabalhando. Tenho um apartamento em Tóquio e ficarei morando nele. Raramente visito a casa de campo e, depois de sua mudança, irei menos ainda. Não tenho muita vontade de bancar o marido apaixonado.

— O... quê?

— Teremos que fingir uma certa afeição mútua na frente dos outros — ele disse, indiferente.

— Não espere nada de mim! Não poderia fingir um sentimento por alguém que eu...

— Odeia? — Sasuke arqueou as sobrancelhas — Pode ter certeza, Sakura, de que sinto o mesmo por você. Mas acho que o meu irmão deve ter sentido um pouco de amor. Não sei se ele percebeu que tipo de mulher você é, ou se soube que era o pai da criança. — Respirou fundo e continuou: — Tenho que ir. Os preparativos para o casamento ficam por minha conta. Você será informada.

— Será que posso ter algum tempo para pensar melhor? Foi tudo tão rápido...

— Como, rápido? Você devia ter previsto algo parecido, quando escreveu a carta.

— Não. Realmente, não. Pensei no seu irmão... Itachi poderia me ajudar.

— E por que a necessidade dele agora? Aya já tem dez meses. Você o avisou quando ela nasceu? Ah, desculpe... tinha me esquecido de que você não sabia se meu irmão era o pai. Mas, por que essa necessidade repentina de ajuda?

Sakura teve vontade de não responder, mas percebeu que ele insistiria até que dissesse alguma coisa.

— Tenho que deixar este quarto até o final da semana e não tenho outro lugar para ir. Ninguém aceita uma mãe solteira, e pensei que ele poderia me ajudar, até que encontrasse onde ficar.

— E agora você deve escolher entre casar-se com um homem que odeia ou perder alguém que ama. Que situação desagradável. Mas foi você quem quis esse destino. Devia saber que Itachi nunca se casaria com você.

— Por que devia saber?

— Porque ele morreu quatro semanas antes de casar, e não fique pensando que você foi a única com quem se envolveu. Houve um outro caso com uma modelo.

— Pelo comportamento que teve, ele não devia amar a noiva.

— Amor! O que interessa o amor para o casamento? A noiva dele era de uma ótima família.

— Tudo que não sou, aparentemente — Sakura disse, seca.

— Se você diz... Mas é óbvio que, para ele, as suas qualidades foram mais importantes do que as de Sora. — Olhou para o relógio. — Tenho um compromisso importante agora. Você tem até sexta-feira para pensar. Mas fique certa de que Aya irá comigo, não importa a sua decisão. Você pode, perfeitamente bem, viver a sua própria vida.

— Aya é a minha vida — ela repetiu, segura do que dizia.

— Sexta-feira procuro por você.

O quarto pareceu ficar vazio, quando ele se foi. O cheiro do cigarro ainda pairava no ar, A situação de Sakura já era desesperadora e, agora, mais oferecia um futuro para Aya com o qual ela nunca havia sonhado, mas isso significava um casamento com um homem que desprezava.

Ficou do lado do berço, com lágrimas nos olhos.

— Oh, querida — sussurrou —, o que devo fazer? O que devo fazer?

No dia seguinte, Sakura e a sobrinha mudaram para um outro quarto. Não acreditava em sua sorte: a nova senhoria, uma senhora muito amável, disse que não se incomodava com o bebê e que até poderia cuidar dele, enquanto Dulce fosse trabalhar. A única pessoa que ficou sabendo da mudança foi a sra. Matsane. Sakura achou melhor não contar nada para Sai ou para Hinata, pois não queria envolvê-los em seus problemas. Homens como Sasuke Uchiha fariam de tudo para obter uma informação que lhes fosse útil.

A última visita de Sai tinha sido decisiva. Ele, como Sasuke, deu o ultimato: ou se casavam e ela desistia da menina, ou ele iria desistir dela. Já fazia muito tempo que esperava e não estava mais disposto a ficar se iludindo, esperando que Sakura mudasse de idéia. Sai saiu dizendo que não ia aparecer mais.

Sua saída foi um alívio para ela. Não ia conseguir ficar ouvindo, calada, o modo como Sai se referia a menina, e não queria brigar ou dizer alguma coisa de que, depois, se arrependesse.

Era muito cedo quando deixou a sobrinha com a sra. Shizue. O novo quarto ficava bem longe do trabalho.

Seu chefe, Kakashi Hatake, dirigia uma agência pequena, onde Sakura fazia de tudo: era secretária, assistente, telefonista, servia o café e limpava.

Não se incomodava com o serviço, só não gostava quando Kakashi se embebedava; mas nunca tinha perdido o controle da situação. Ele tinha uma esposa simpática e dois filhos.

— Bom dia, Kakashi — disse, colocando um embrulho em cima da mesa. — Desculpe o atraso, mas tive que comprar alguma comida.

— Não tem problema. O dia nem começou e você já parece cansada. O que houve?

— Nada — respondeu, disfarçando. — Aya dormiu muito pouco esta noite.

— Dor de dente — ele disse, compreendendo a situação. Sakura pegou as cartas que haviam chegado e que estavam sobre a mesa.

— Não, não foi dor de dente. Aya decidiu que duas horas da manhã é hora de brincar e não de dormir. E não adianta tentar explicar a uma criança de dez meses que você está cansada e precisando dormir. Ela não entende.

— É, sei disso. — Ele riu. — Deixe isso assim como está e faça um café.

Na hora do almoço. Sakura foi visitar Hinata. Era sexta-feira e estava nervosa com o que poderia acontecer. Tinha ido ver a amiga para desabafar, mas acabou não dizendo nada. A Hyuuga já tinha muitos problemas e não seria bom ficar ouvindo mais desgraças.

Quando voltou para o trabalho, percebeu que Kakashi tinha tido um daqueles almoços com muita bebida. Seu comportamento começava a ser inconveniente. Sakura preparou um café bem forte e entregou uma xícara para ele.

— Para quem é isso? — ele perguntou, com os olhos vermelhos.

— Beba. Isso o ajudará a sentir-se melhor.

— Está insinuando que estou bêbado?

Não sabia o que responder. Kakashi ficava de mau humor quando bebia e era melhor não provocá-lo. Ia sair da sala quando, de repente, ele puxou-a pelo braço e a fez sentar-se em seu colo.

— Kakashi! — gritou, profundamente chocada. Ele nunca tinha tomado tanta liberdade. — Pare com isso!

— O que há de errado, garota? Você não é sempre tão fria, é? O que me diz daquela...

— Não permito que fale assim, Kakashi. Não me provoque. Aya nasceu por amor, não queira deturpar os fatos. — Tentava soltar-se dos braços dele. — Acho que você já falou demais por hoje!

— Concordo plenamente.

Sakura estremeceu ao ouvir aquela voz profunda e fria. Seus olhos se encontraram com os olhos ônix do Uchiha, que olhava para os dois, fazendo uma idéia errada do que via. Levantou-se, arrumando a saia e a blusa.

— Quem é você? — Kakashi perguntou.

O moreno entrava no escritório, inspecionava o local; seu olhar desaprovava a desordem.

— Sou Sasuke Uchiha. Devo fazer a mesma pergunta a você. E o que estava fazendo com a minha noiva, antes de me ver entrar?

Kakashi olhou surpreso para Sakura, que também estava espantada.

— Sasuke Uchiha? Sua noiva? Você não me contou que estava comprometida! — disse, acusando-a.

— Sakura não precisa lhe dar satisfações de sua vida particular. — Sasuke falou, olhando para Kakashi com arrogância. — A não ser que ela queira contar a novidade.

— Sua voz era calma e segura.

Sakura estava agradecida por ele a ter defendido, mas logo em seguida ficou intrigada. O que ele estava fazendo lá? Ela não tinha dado o endereço do trabalho: será que a sra. Matsane... Não, claro que não. Como ele a tinha descoberto? Sabia que ele estava ansioso e, assim que a tirasse dali, ia querer ouvir a decisão. Queria ir embora. Os insultos que Kakashi tinha feito a ela e a Aya eram imperdoáveis; não podia continuar trabalhando com ele.

— Que novidade? — Kakashi perguntou, confuso. — Não soube de nada.

— O senhor ficaria sabendo hoje, sr. Hatake, mas depois de ver o seu comportamento não acho necessário dizer mais nada. O senhor será capaz de entender que Sakura não trabalhará mais aqui — Virando-se para ela, perguntou: — Está pronta para ir?

Sem dizer nada, Sakura pegou a bolsa, as compras, e seguiu os passos do "noivo".

Kakashi não tinha o que responder. O olhar do Uchiha lhe ordenava silêncio. Era difícil acreditar que Sakura conhecesse aquele homem importante. Sabia que ela tinha sido modelo, e era bem provável que o tivesse conhecido nesse meio. Será que era o pai de Aya?, O Hatake se perguntou. Não havia dúvida de que ela atraía qualquer olhar masculino; era bem possível que ele fosse o pai da criança.

— Se nos der licença — Sasuke falou, olhando para a expressão confusa de Kakashi. Abriu a porta e Sakura não teve outra alternativa a não ser sair.

Sasuke não a deixou abrir a boca até que estivessem sentados em seu carro esporte.

— Pode falar agora.

— Não tenho nada a dizer — Seu corpo estava tenso.

— Se isso for verdade, você é uma mulher muito diferente. É a primeira que encontro que quer ficar em silêncio. — Olhou-a, surpreso.

— Não deve ter muita experiência com mulheres. Conheço várias que gostam de ficar quietas.

— Ah, mas isso é diferente. Eu também conheço muitas desse gênero, mas sei que, no fundo, gostariam de falar muitas coisas. Já vivi vinte e seis anos e posso lhe garantir que aprendi um pouco sobre as mulheres. Eu, como você, tive muitas... amigas, está bem assim?

— Entendo, sr. Uchiha, entendo muito bem.

— Não, não entende. Mas não importa. — Deu uma olhada para ela. — E meu nome é Sasuke.

Sakura apertou os lábios para pararem de tremer. Todos os seus esforços para nunca mais vê-lo tinham ido por água abaixo. Devia ter imaginado que homens como ele não desistem do que querem. E ela não era completamente insignificante para ele: era a mãe de Aya.

— Não posso chamá-lo de Sasuke — falou, depois de ter certeza de que estava controlando os nervos. — Ser o tio da minha filha não o torna uma pessoa da minha intimidade. Se você não fosse parente do pai dela, preferia nunca tê-lo ver Itachi de novo por pura necessidade, não por escolha própria.

— E o fato dele estar morto torna a sua necessidade menor? Ou será que ficaria aguentando as gracinhas do chefe para sobreviver? -

Sasuke estava furioso, não havia dúvida. Sakura ainda não o tinha visto assim. Conhecia apenas sua arrogância e frieza. A raiva modificava o brilho dos olhos: de cor de ônix passavam para um tom avermelhado. Achou-os fascinantes, mas tinha que se controlar. Aquele homem devia ser igual ao irmão: num segundo, conseguia envolver a mulher que quisesse.

— Será melhor se você não fizer nenhuma gracinha — ela disse, firme.

— Não terá a oportunidade de aceitar ou recusar um carinho meu. — Seus olhos percorriam os cabelos róseos de Sakura, o rosto delicado e quase sem pintura, o corpo perfeito e atraente. O farol ficou verde e ela pôde aliviar-se daquele olhar. — Você não me atrai nem um pouco.

— Pode ter certeza de que é recíproco.

— Ótimo. Acho que agora podemos conversar normalmente. Gostaria de saber o que você pretendia, mudando de endereço e não me avisando de nada.

— Não tive nenhuma segunda intenção.

— Acha que isso adiaria a sua resposta? Pensa que, depois de saber da existência de Aya, eu deixaria vocês irem para onde quisessem? Claro que não! Deve reparar muito pouco no que aconteceu à sua volta, Sakura. Está sendo vigiada, desde o dia em que a conheci.

— O quê?

— Está sendo vigiada — ele repetiu calmamente.

— Quer dizer que você colocou um detetive atrás de mim? Quantos homens ele disse que visitaram o meu quarto? — perguntou, indignada.

— Apenas um, e aparentemente não estava com uma expressão muito satisfeita quando saiu.

— E mesmo? Que pena, eu devia estar cansada. Meus homens costumam ficar muito satisfeitos — respondeu, sentindo-se triunfante por falar aquilo.

— Não deve falar dessa maneira.

— Por que não? Não é isso o que você pensa de mim? Não acha que os homens me visitam apenas por um motivo? — Seus olhos verdes brilhavam de raiva.

— Nunca falei isso.

— Claro que não, mas é isso que sempre insinua.

— Não da maneira como você diz agora. Se eu achasse que ia para a cama com todo homem que aparece, o futuro do bebê já estaria resolvido... Eu simplesmente teria tirado a menina de você. Mas acredito que tenha amor pelos homens que... que você agrada.

— Bem, obrigada pela consideração, sr. Uchiha, mas não preciso dela. Não me importo com o que faz ou pensa de mim. Não me casaria com você, nem que fosse o último homem sobre a face da terra.

— Nem pelo bebê? — ele perguntou delicadamente.

— Nem por ele!

Não houve nenhum comentário e Sakura agradeceu por estarem perto da pensão. O que ele faria agora? Será que voltaria atrás com a palavra? Percebeu que ele não tinha se incomodado ao ouvir sua recusa e ficou aflita com isso. A verdade era que faria tudo para ficar com Aya; se fosse necessário, até se casaria com ele.

Chegando à pensão, encontrou a sobrinha brincando com a sra. Shizue. Pegou-a e subiram para o quarto. Aya não parava de olhar para o homem alto, ao lado da tia; seus braços se ofereciam para ir para o colo dele. Sakura não pode resistir e deixou que Sasuke a pegasse. Aya sorria para o rosto sério do tio e sua inocência deixou-a emocionada.

— Desculpe — disse baixinho — vou passar um café. — Foi para a cozinha, sentindo-se uma boba. Imaginou que, por um lado, eles realmente pareciam uma família. Pena que Aya tivesse herdado tão pouco dos traços da mãe. Pobre Ino. Dera a vida por aquela coisinha doce e meiga que, agora, divertia-se no colo do tio, seu maior inimigo.

Oh, Deus, como se arrependia de ter escrito aquela carta! Devia ter dado tempo ao tempo e esperado as coisas melhorarem. Mas o desespero a levara a criar um problema maior.

— Sakura?

Não se moveu, tentando esconder as lágrimas que lhe corriam pela face. Sentiu o toque leve das mãos dele no ombro e virou-se, devagar, até que ficaram frente a frente. Sasuke segurou seu queixo, vendo os olhos molhados.

— Pare com isso, Sakura, não é necessário. Só serve para estragar a sua beleza.

— Pensei que já estivesse estragada — disse, tentando sorrir.

— Eu nunca ignorei a sua beleza. Nunca comentei que acho Aya parecida em tudo com você?

— Disse...

— Por que colocou o nome de Aya na menina?

— É o apelido de Ayumi — explicou, Tiffany sempre gostara deste nome, e o havia escolhido nas poucas horas de vida que lhe restaram, depois do parto. Sakura nunca se acostumou com aquele nome, e logo começou a chamar a menina de Aya.

— Tem certeza? — ele perguntou, devagar.

— Claro. — Que pergunta boba! Será que ele achava que ela não sabia o nome da filha. — Por quê? — perguntou, curiosa, percebendo que ele tinha feito alguma descoberta.

— Esse era o nome de minha avó. Itachi amava-a muito. - Seu olhar demonstrava respeito — Acho que ele realmente amou você, era raro falar de nossa mãe. Não diria nada sobre ela a qualquer...

— Amante? — Sakura completou. — Mas o que o leva a pensar que ele falou dela? Pode ser que eu tenha escolhido por acaso...

— Não acredito, é um nome muito diferente.

Teve vontade de concordar com ele. Ino sempre quis escolhê-lo. Na ocasião, estava muito cansada para responder a qualquer pergunta que Sakura fizesse. Itachi devia ter falado da mãe para a irmã, não havia outra explicação. Será que ela o tinha julgado mal? Mas, não; agora sabia que ele tinha uma noiva e que ia se casar com ela, se não tivesse morrido. Itachi Uchiha devia ter sido como ela imaginava: um rapaz que queria apenas se divertir. E Ino, apaixonada, entregara-se a ele.

— No que está pensando? — Sasuke perguntou, voltando à sua arrogância.

— Estava pensando e decidi que vou me casar com você. Mas tem uma condição.

— Acho estranho que você, nesta situação, ainda queira fazer alguma exigência.

— Você é quem sabe — Sakura disse, balançando os ombros. — Não farei parte da sua vida, se você se envergonha de mim. Se isso acontece, acho melhor eu e o bebê ficarmos longe. Mas, se nos casarmos, quero que moremos na mesma casa

— Você não quer nada, fará o que eu quiser! Sabe tão bem como eu que não temos nenhum desejo de morar na mesma casa. — Estudava as reações dela. — Ou será que também quer ser uma esposa satisfeita e completa?

— Claro que não! — Ficou vermelha de raiva por ele ter deturpado sua proposta. Queria que desistisse da idéia do casamento; cuidar dela e de Aya seria o suficiente. — Nem penso nisso, mas, se vamos mesmo nos casar, acho que é melhor que Aya... por ela... que a mãe e o pai morem juntos. Ou será que você pretende ser um pai que faz visitas de seis em seis meses? E que, quando chega em casa, vem com um monte de presentes?

— Essa não era a minha intenção, mas também não pensei em morar com você. Tem que admitir que será impossível.

Oh, ela admitia, e como... por isso é que tinha feito aquela proposta.

— Então, acho que o casamento também será impossível. Não daria certo, mesmo. O que eu diria, quando ela me perguntasse por que moramos em casas diferentes. É o mesmo que não ter pai, seria difícil de fazê-la entender.

— Meu Deus, você fala como se fosse eu o culpado por esta situação!

— E não é? Itachi era seu irmão, ele não faria o mesmo por você? — perguntou, provocando-o.

— Nunca deixei de assumir minhas responsabilidades, nem ele. Itachi teria ajudado você, se soubesse da sua... situação.

— E se eu não quisesse a caridade dele?

— Bem, seria problema seu. Mas isso não vem ao caso, o que importa é que não posso morar com você.

— Ah, não pode. Sabia que essa seria a sua resposta, e a minha é que, sem essa condição, não há casamento. Se quiser, podemos até brigar no tribunal para ver quem tem direito sobre a criança. E vou brigar, mesmo! Mas acho que você também não gostaria de muita publicidade neste caso.

— Talvez não, mas iria vencê-la.

— Pode ser. Mas seria capaz de envolver Aya nesta luta desgastante?

— Você seria? Oh, está bem! Ficaremos juntos. Terá que ser perto de Tóquio, tenho muito trabalho aqui. — Olhava-a, impaciente. Sentia que ela havia conseguido o que queria.

Sakura não acreditou: seu plano não tinha dado certo. Não queria aquele casamento, muito menos morar com ele. Hesitando, voltou a falar:

— Bem... talvez, você tenha razão. Nós... nós poderíamos morar separados.

— Não, você é que está certa. Aya precisa de ambos. Sakura sentiu um frio na barriga. O que iria acontecer

com ela, agora?