Quantas vezes eu estive cara a cara com a pior metade.

A lembrança no espelho, a esperança na outra margem.

Jared havia finalizado a ligação com Morgan, reportando que estava bem e que o plano estava em pé. Foi um dos momentos mais difíceis de toda sua vida. Mas, se tudo desse certo, Morgan não saberia a verdade. Ele sentia-se envergonhado moralmente pelo que estava fazendo, mas Jensen era o amor da sua vida e ele tinha certeza disso. Não havia nada que ele pudesse fazer a respeito. Não poderia trair seu amor.

- Jen... – Jared chamou pelo loiro, que estava saindo do banho. – Podemos conversar um minuto? – Ele tentou parecer natural.

- Claro, meu amor. – Jensen respondeu enquanto procurava roupas limpas.

- Vamos... Para Miami? – Jared disse um pouco inseguro para o loiro.

- O que? – Jensen, que procurava uma cueca na gaveta de costas para Jared, olhou para o mais novo surpreso.

- É. – Jared insistiu. – Vamos para aquela praia em Miami onde... você sabe... – Ele ficou ligeiramente tímido ao relembrar.

- Mas Jay... – Jensen tirou o robe branco e colocou a cueca slipper preta. – Você sabe que hoje a noite é o dia da entrega... – Ele sorriu como se quisesse lembrar a Jared algo importante que ele havia esquecido.

- Eu sei amor, mas não precisam da gente lá, não é? – Jared disse indo de encontro ao mais velho. – Quer dizer, eu posso não ficar em meu posto, estaria vazio... Dá no mesmo, não teria ninguém lá, os caras poderiam passar livremente...

- Jared, de quê está falando? – Jensen perguntou agora mais sério enquanto terminava de vestir as próprias calças. – Preciso estar lá, tem muito dinheiro em jogo e você também precisa estar, pra não levantar suspeitas...

- Jen...

- Jared. – O loiro interrompeu uma nova tentativa frustrada de convencê-lo. – É a última vez, prometo. – Ele segurou o moreno pelos ombros, crente de que Jared estava apenas bancando o moralista.

- Apenas... Pense a respeito, ok? – Jared insistiu, e certo pânico começou a rondar sua mente. Ele precisava proteger Jensen. De repente, se deu conta de que ele também era uma ameaça. – Fique comigo Jen...

- Jay, o que está acontecendo? – Jensen perguntou olhando sério para Jared. Ele estava começando a estranhar aquele comportamento.

Quantas vezes a gente sobrevive à hora da verdade.

Na falta de algo melhor, nunca me faltou coragem.

Se eu soubesse antes o que sei agora...

Erraria tudo exatamente igual.

- Vamos logo, Hilarie. – James chamou pela esposa pela terceira vez. – Ou eu vou sem você.

- Já estou pronta, Lafferty, pare de me apressar. – Ela respondeu irritada, passando pelo moreno através da porta da mansão, andando na frente dele.

- Não vamos exatamente a uma festa. – Ele retrucou entrando no carro, o qual Justin já estava esperando, bem humorado, mas apreensivo.

Jared não atendeu nas três vezes que ele ligou.

- Prontos para ficarem mais ricos? – James brincou ajeitando-se no banco de trás do carro, verificando as três armas que carregava. Uma nas costas, outra do lado esquerdo da cintura e outra no tornozelo direito.

Hilarie apenas sorriu pretensiosa em resposta quando o motorista eu partida no carro em direção às docas de recebimento de cargas internacionais de Los Angeles.

Katie se encaminhava para o posto do segurança que era responsável pela troca de postos da guarda costeira e Beaver já estava à espreita nas docas, vigiando os três barcos que chegariam do sul do Pacífico.

Kristen, por sua vez, entrava no carro rumo a mesma direção de todos. Armada.

Chad, como de costume, estava em frente a seu computador com três celulares em cima da mesa. Ele havia revirado a internet atrás de Jared e Christian, mas não havia encontrada nada de relevante.

- Kristen, você é uma paranóica. – Ele falava consigo mesmo enquanto entrava no restante de links em que aparecia o sobrenome 'Kane'. – Jared Tristan e Christian Kane, amigos de infância, que tédio. – Ele continuou falando.

Tomou mais um gole do whisky que tinha por perto e, prestes a desistir e ir logo se arrumar para ir ao píer ajudar Jensen, ele resolveu uma última tentativa.

– Ok... Vamos ver se juntos vocês aparecem... – Ele digitou "Jared Tristan Christian Kane" numa busca só.

Para sua surpresa, havia algo interessante em meio a muitas outras coisas irrelevantes. Uma reportagem sobre uma morte.

Chad clicou no link e viu uma reportagem antiga com uma antiga foto de jornal, mostrando o que ele identificou como certamente Jared e Christian, apenas há alguns bons anos atrás. Sim, eles deviam não ter mais que quinze anos, mas eram eles, sem dúvida.

Ele olhou mais abaixo da foto para ler do que se tratava. A foto, apesar de antiga e preto e branca, era bastante clara. Christian estava ao lado de Jared, ambos tristes, vestidos com ternos pretos envoltos por muitas pessoas, uma delas em destaque ao lado dos garotos, usando óculos escuros e também mais jovem. Chad imediatamente o reconheceu.

- Jeffrey Dean Morgan. – Ele disse em voz alta, sentindo cada músculo de seu corpo se encher de pânico.

Ele desceu mais a página e começou a ler a reportagem.

"Agente do FBI morto em operação especial.

O agente do FBI, Gerald Padalecki perdeu a vida hoje durante uma perseguição a um dos traficantes mais procurados dos Estados Unidos, Roger Ackles. Seu corpo foi enterrado no cemitério local de San Antonio, no Texas, terra natal do policial federal.

No enterro, entre os demais, estava sua esposa, Sharon Padalecki, seu filho Jared Tristan Padalecki, acompanhado de seu amigo Christian Kane e o parceiro de Padalecki, o agente Jeffrey Dean Morgan."

Chad estava paralisado em frente à tela. Ele não sabia nem por onde começar. Ele sentiu o suor escorrer pela testa, levantou-se da cadeira e começou a andar de um lado para outro da sala de seu apartamento. Ele tremia, tinha os pensamentos fora de ordem, não conseguia respirar direito.

Não, não precisavam ser mais claros. Jared era um federal, um agente infiltrado. Enganou a todos. E eles, incluindo Chad, estavam ferrados. Ele não conseguia pensar direito, lembrou-se que Morgan fora quem atirou no pai de Jensen e agora fazia sentido, certamente era pra vingar seu parceiro.

Ele pegou um dos celulares, com as mãos trêmulas, e discou um número conhecido.

Tenho vivido um dia por semana

Acaba a grana, mês ainda tem

Sem passado, nem futuro...

Eu vivo um dia de cada vez.

Beaver, James, Hilarie e Justin já estavam no píer, vigiando de seus carros a chegada dos barcos. Beaver não viu a presença do carro de James, que estava num canto escuro, apenas observando a hora em que os barcos chegariam.

Hilarie checou as armas que igualmente carregaria e ajeitou a munição dentro do terninho comportado. Ela tinha uma 9mm nas costas.

Justin apenas aproveitou o momento de distração dos dois com as armas e mandou uma mensagem de seu celular para Morgan avisando que já estava a postos, mas que Jensen não havia chegado. Morgan respondeu a ele onde todos os policiais estariam estrategicamente posicionados.

Jared beijava Jensen avidamente já se preparando para tirar a roupa do namorado novamente. Jensen, que estava achando todo aquele comportamento estranho, tentava se desvencilhar da tentativa de Jared de prender Jensen em casa.

- Jay, pare... – Ele disse entre um beijo e outro.

- Fique comigo, Jen...

- Jared, pare! – Ele segurou os braços do moreno obrigando-o a parar com tudo aquilo. – Que está fazendo? Temos que ir...

- Jen, por favor, não vá... – O moreno implorava.

- Que está acontecendo com você? – Jensen perguntou sério, até um pouco irritado. – Está insistindo tanto nisso... Qual é o problema?

- Nenhum. – Jared apressou-se em responder. – Só não tenho um bom pressentimento sobre isso.

- Pressentimento? – Jensen franziu o cenho. – Tem algo que não está me contando?

- Não, Jensen. – O moreno alto respirava um pouco apreensivo e Jensen percebeu que definitivamente tinha algo errado.

Ele encarou Jared por um momento como se quisesse ler seus pensamentos, quando foi interrompido pelo seu celular tocando em seu bolso.

- Devem estar me esperando. – Ele disse olhando o visor e constatar que era Chad. – Vamos Jared. – Ele disse imperativo, afastando-se um pouco do moreno que suspirou conformado. Ia contar a verdade de uma vez por todas, tentar amenizar os danos.

Quantas vezes eu estive cara a cara com a pior metade.

Quantas vezes a gente sobrevive à hora da verdade.

Se eu soubesse antes o que sei agora...

Iria embora antes do final.

- Jensen, espere, quero contar uma coisa...

- Espere. – Jensen respondeu enquanto abria o celular para atender. – Fala, Chad.

- Jensen onde você está? – O loiro quase gritava em pânico do outro lado da linha.

- Em casa ainda, já estou a caminho. O que está...?

- Onde está Jared? – Chad perguntou bastante agitado.

- Está aqui ao meu lado. O que foi, Chad? – Jensen perguntou preocupado e Jared passou a prestar atenção na conversa. Péssimo, péssimo pressentimento...

- Está armado? – Chad tinha a respiração pesada.

- Estou. O que foi? – O mais velho estava irritado agora.

- Jared... Jared é Jared Tristan... Padalecki.

Obviamente que Jensen reconheceu o sobrenome e uma onda de pavor passou pelo seu corpo. Ele virou-se pasmo para encarar um Jared que parecia estar vendo seu medo se tornar realidade bem a sua frente. A expressão de Jensen era muito clara.

- ELE É A PORRA DE UM FEDERAL, ACKLES! – Chad esbravejou do outro lado da linha diante do silêncio de Jensen. Um Jensen que agora sentiu o chão desaparecer debaixo de seus pés.

Ele sentiu o sangue correr gelado dentro de suas veias e sua cabeça deu algumas voltas quando pareceu que seu coração falhou uma batida.

- Ligue para o Beaver. – Foi a única coisa que ele conseguiu proferir.

Ele fez tudo isso sem tirar os olhos de um Jared imóvel, com muito, muito pânico nos olhos. Ele, pela primeira vez desde que estivera ao lado de Jensen, temeu pela sua vida.

Jensen recuperou a razão e voltou a ter aquele olhar frio de quando Jared o conhecera, no primeiro dia. O loiro calmamente desligou o celular. Jared não se moveu.

Jensen deu dois passos da direção do moreno e, sem nenhuma cerimônia, sacou a arma que tinha nas costas e apontou pra cabeça de Jared, sem tirar os olhos dele.

Surfando karmas e DNA.

Não quero ter o que eu não tenho.

Eu não tenho medo de errar.

- Jensen... – Jared respirou fundo e fechou os olhos ao dizer o nome do loiro. Ele tremia, tentava retomar o controle de seu corpo, mas estava realmente muito difícil. – Eu posso explicar...

- O que? Pode explicar o que? – Jensen disse debochado, engatilhando o 38. Jared gelou ao ouvir o barulho da bala sendo posicionada. – Explicar que é uma merda de um federal que resolveu se envolver comigo, adquirir confiança pra que eu te contasse tudo e você colocasse no seu dossiê?

- Jen...

- NÃO ME CHAME ASSIM! – Ele gritou fazendo a arma gelada tocar na testa de Jared que apenas fechou os olhos. – Não negue, seu filho da puta, porque eu já sei de tudo. Estava muito óbvio, parabéns, Tristan... digo... – Jensen sorriu irônico. – Padalecki.

- Por favor... – Jared dizia tentando manter a calma. Falava baixo e escolhia as palavras. – Me escute... Se você me ama como diz amar, me deixe explicar...

- O QUE? – Jensen olhou incrédulo para o moreno. – Ficou louco? Não acredito que está debochando do meu sentimento por você com o cano de um 38 apontando pra sua cabeça, você definitivamente não deve estar bem da cabeça, Padalecki.

- Não estou debochando. – Jared se defendeu. – Lembra... Você prometeu... – O moreno agora não conseguiu conter as lágrimas ao lembrar da conversa. Mágoa, nervosismo, medo... Tudo ao mesmo tempo. – Eu nunca menti sobre o que sinto por você...

Ele mal terminou a frase e sentiu uma batida forte no rosto e gosto de sangue na boca. Jensen havia lhe dado uma coronhada perto da boca, fazendo o moreno cair aos pés dele.

- Como tem coragem... COMO VOCÊ TEM CORAGEM, SEU DESGRAÇADO! – O loiro estava enfurecido, e voltou a apontar a arma para Jared que estava no chão, limpando a boca com a manga da jaqueta.

- Jensen, por favor, me deixe falar, estou implorando... – Jared recomeçou, tirando forças sabe se lá de onde. Levantou-se novamente com certa dificuldade e ignorando a dor que sentia no maxilar.

- Você é um covarde. – O loiro agora tremia de raiva ao lembrar-se de tudo que disse a Jared e de tudo que o moreno havia dito a ele. – Como teve coragem de usar de algo tão sujo? Como desceu a esse nível? – Jensen tinha repugnância na voz e no olhar.

Jared apenas o ouvia sem conseguir pensar num contra argumento, apenas as lágrimas desenfreadas, principalmente agora que via os olhos de Jensen igualmente marejados.

- Eu não valho muita coisa, Jared... – Jensen começou novamente diante do silêncio de Jared. Ele tinha um tom cheio de mágoa. – Mas se quisesse me pegar... Não precisava ter usado meus sentimentos pra isso... – O mais velho não conseguiu conter uma lágrima que caía agora escorrendo pelo rosto e a mão que segurava a arma tremia.

- Eu não brinquei, Jensen... – Jared ajoelhou-se em frente ao loiro, sem tirar os olhos dele. – Foi por causa disso que te fiz prometer... Foi por isso que disse que tinha medo de te perder... Foi por isso que te pedi pra não deixar de me amar...

Jensen estava em pânico agora. Queria apertar o gatilho, queria matá-lo bem ali, naquele momento, queria atirar. Ele tremia, seu corpo inteiro estava descontrolado. Ele lembrou-se de seu pai, lembrou-sedo clube, da praia, da primeira vez que transaram na pedreira...

- Jensen, por favor... Você precisa acreditar, eu te amo...

- FILHO DA PUTA MENTIROSO! – Jensen voltou a bater no moreno com a arma.

Jared caiu pro lado sentindo agora seu sobre cilho arder e verter sangue perto de seus olhos. O liquido vermelho que escorria agora se misturava as lágrimas dele. Mas ele voltou a ficar de joelhos na frente de Jensen.

Ele fechou os olhos e respirou fundo.

- Por que você acha que eu não queria que você fosse lá hoje? – Jared perguntou tentando se acalmar.

- Contou a eles não é? Contou tudo a eles... – Jensen dizia inconformado. – Meu Deus como eu pude confiar em você, Jared, meu Deus! – Ele tinha desespero na voz. – Como fui idiota, você estava me usando o tempo todo!

- Eles não vão pegar você... – Jared dizia olhando um Jensen perdendo o controle. – Não vá lá... Eles vão pegar James...

- Lafferty? – Jensen olhou incrédulo para ele, achando que ele estava provavelmente ficando louco.

- Lafferty vai roubar sua carga. – Jared dizia enquanto Jensen arregalava os olhos e pegava o celular. – FBI vai estar lá e vai pegá-lo... E não a você...

- Você é a pior espécie de traidor, Padalecki... Pode parar o teatro agora, o show acabou!

- ESCOLHI TRAIR MEU PAÍS PRA TE PROTEGER. – Foi a vez de Jared gritar agora. Jensen se surpreendeu com a coragem dele, desistiu de fazer a ligação. – Pedi pra que ficasse comigo... – Ele continuou e Jensen, por incrível que pareça, se calou para ouvir. – Eu armei isso! Eu traí o FBI, eu me corrompi, pedi que fosse embora comigo...

- Está mentindo outra vez, isso é tudo parte do seu plano...

- E FIZ TUDO POR VOCÊ! – Ele voltou a erguer a voz para Jensen, ignorando o fato de Jensen novamente estar duvidando dele. – Como pode achar que fingi tudo aquilo?

O moreno levantou-se e foi de encontro a Jensen. Sem dificuldades pegou o braço de Jensen que estava com a arma e o colocou novamente sobre a própria cabeça.

- Se você não acredita, atira. – Jared dizia, limpando as lágrimas e o sangue. – Atira. Se acha que todas as vezes que transamos eu estava fingindo ser o homem mais feliz do mundo, atira. Não acredita mesmo que não te amo? Duvida de todas as coisas que te falei olhando nos teus olhos? Então atira...

Jensen sentiu a respiração pesar como se uma tonelada estivesse em cima de suas costas impedindo seus pulmões de inflarem.

- ATIRA! – Jared agora estava firme. Ele preferia mesmo morrer a viver com Jensen achando que ele era a pior espécie de ser humano.

Os olhos deles se encontraram por alguns segundos antes que Jared os fechasse, esperando e tentando adivinhar qual seria seu último suspiro.

Mas Jensen não teve coragem. Não teve coragem de atirar no homem que amava.

Ele apenas voltou a bater em Jared com o cabo da arma. Mais forte desta vez. Tanto que Jared caiu desmaiado ao pé da cama do loiro.

Ele voltou a pegar o celular, com as mãos trêmulas.

- Beaver.

- Já estou no aeroclube preparando seu jato. – Jim respondeu sereno. Era incrível a frieza com que ele conseguia se manter diante de tudo aquilo. – Vim pra cá assim que Murray me ligou. Ele e Katie já estão a caminho.

- Obrigado, muito obrigado. – Jensen disse aliviado. – Já estou indo até aí.

Ele desligou celular e o atirou no chão, pisando em cima em seguida, com medo de que estivesse sendo rastreado ou que a linha estivesse grampeada.

Ele olhou para Jared desmaiado e foi uma das visões mais tristes de toda sua vida. Ele se permitiu chorar pela primeira vez, de verdade, em toda sua vida. Nem quando seu pai morreu ele sentiu um vazio tão grande.

Pegou o boné de Jared e pôs. Desceu as escadas rumo ao carro para o aeroclube.

Surfando karmas e DNA.

Não quero ser o que eu não sou,

Eu não sou maior que o mar...