Primeira vez
As coisas mudaram muito uma vez que o homem com o sobretudo me tirou do Poço. O Mestre foi preso e me levaram para um prédio onde uma mulher simpática com olhos cansados ficava me perguntando coisas sobre o mestre.
Eu não falei uma palavra.
Uma Serva não tem permissão de falar, a não ser que tenha permissão irrestrita do Mestre. Meu Mestre se fora, então eu não tinha idéia de como proceder neste mundo que se abria diante de mim.
A mulher de olhos cansados saiu da sala onde ela me colocara e foi falar com alguém que eu não podia ver. Palavras como "atrasada mental", "autista", "estresse pós traumático" foram repetidas várias vezes.
Euzinha, eu só olhava o lugar que me colocaram com curiosidade.
Aí Ele veio. O homem do sobretudo. Mas ele não estava mais usando sobretudo. Provavelmente teve que jogar fora depois no mergulho no Poço.
Ele se sentou na minha frente do outro lado da mesa. Sentei-me na pontinha da cadeira e o encarei.
Ele sorriu pra mim.
Eu sorri pra ele.
Provavelmente, ele não tinha nem idéia como a alma dele cheirava bem pra mim.
- Olha, você entende o que eu digo, não?
Sorri pra ele.
Ele sorriu pra mim.
- Qual o seu nome?
Continuei sorrindo pra ele.
- Quanto tempo você morou com o Sr. Swanson? Você se lembra de seus pais? Eles estão vivos?
Ah, a voz dele era muito gostosa se você realmente prestasse atenção a ela. Um pouco rouca, como se ele não tivesse costume de usá-la muito.
- Eu quero te ajudar, mas você tem que falar comigo.
Não, não tenho. Você não sabe que Servos só falam se receberem permissão?
- Se você não falar, ou ao menos dar algum sinal que você entende o que o povo fala, isso pode complicar sua vida uma vez que você for colocada no sistema de crianças para adoção.
Como assim, complicar?
Algo em meu rosto deve tê-lo dado alguma idéia que eu não tinha entendido o que ele estava me falando, portanto ele começa a me explicar os detalhes de como seria a minha vida dali por diante.
- O que vai acontecer é o seguinte: eles vão levar você para uma casa, bem grande, com muitas crianças. Você tá vendo aquela senhora lá fora?
Ele aponta a mulher com olhos cansados. Ela deve ter percebido que estávamos conversando sobre ela, pois ela nos saúda com um aceno.
- Ela é a Sra. Doreen Thorn, ela é a assistente social do seu caso. Ela vai levá-la pra uma casa cheia de crianças e lá você vai poder brincar, ter uma vida melhor que a que você tinha na casa do Sr. Swanson. E, se você tiver muita sorte, depois que estiver lá por um tempo no abrigo para crianças para adoção, talvez você possa encontrar uma família que a adote.
Uh?
- Sim, alguém pode decidir adotá-la. Mas as suas chances disso acontecer aumentam drasticamente se você começar a falar. – Ele pronuncia a última sentença bem devagar, como se, falando devagar, houvessem maiores chances de eu finalmente decidir responder-lhe.
Silêncio.
- Eu sei que você não é autista. Eu sei que você não é retardada. Swanson era um perfeccionista nato. Ele não teria mantido você por perto se você tivesse algum defeito, real ou imaginário. Mas você precisa me ajudar.
Mais silêncio.
- Você vai me ajudar?
Concordo com minha cabeça em silêncio. Tudo bem, vou dar-lhe o que ele queria.
Ele sorri, levanta-se e estende a sua mão em minha direção. Ponho a minha pequenina mão na dele, e ele me leva para a assistente social do lado de fora.
- Ela prometeu colaborar.
- Bem, já é um começo. Querida, qual é o seu nome?
Balanço a cabeça indicando que não tenho nome.
- Querida, qual é o seu nome?
Balanço a cabeça de novo, olho pro meu herói e ele interfere em meu nome.
- Ela provavelmente não tem um. Cuidar dela não era uma das prioridades do Swanson. Ele a negligenciava tanto, provavelmente nunca pensou em dar-lhe um nome. Certo, pequena?
Balanço a cabeça concordando em silêncio.
- Então a gente precisa arrumar isso, não?
Ela me pega pela mão, e começa a me arrastar até a saída, falando sobre possíveis nomes pra mim e as pessoas e crianças que eu iria conhecer na casa que ela iria me colocar. Antes de chegar no fim do corredor, eu olho pra trás e vejo meu herói me olhando com olhos tristes. Ele me dá um tchauzinho com a mão, e esta é a última imagem que tenho dele.
A Sra. Thorn realmente me encontra uma família legal pra morar. Eles tinham duas outras garotas e um garoto, todos do abrigo. Eles eram uma família legal.
Só fiquei por lá quatro meses. Fugi no começo da primavera.
