Segunda Vez

A segunda vez que eu senti o cheiro de pureza, eu estava em uma estação de trem. Já vivia nas ruas por alguns meses, desde que deixara a casa que a Sra. Thorn tinha me colocado. A dona lá tinha uma voz bem aguda que usava todas as vezes que nos ordenava a trabalhar, e o seu companheiro tinha mãos que gostavam de tocar nossas partes íntimas.

O Mestre curtia vários prazeres, mas ele era irredutível que a Serva não deveria ser usada desse modo. Eu deveria ajudar nas tarefas de casa e tinha a tarefa especial de nadar no Poço. Suas companheiras de cama nunca pulavam no Poço, nem chegavam perto dele.

Eu era uma criança de rua, vivendo de pequenos furtos e dos restos de comida dos restaurantes que eles costumavam jogar fora. Achei alguns abrigos que serviam sopa quente em alguns dias da semana, e eles sempre me davam uma tigela e comentavam com pena sobre um anjinho tão lindo que tinha que viver nas ruas.

Nunca reclamei, desde que me dessem comida. Era ainda melhor quando eles me deixavam usar o chuveiro e me davam roupas velhas, porém limpas.

Mas foi em um dia lindo de outono, quando estava andando na plataforma procurando a minha próxima vítima, que eu senti de novo. Um cheiro de rosas selvagens e flor de maracujá misturada com lavanda, algo que simples palavras não conseguem descrever.

Esqueci da minha vítima, e segui meu nariz. Cheguei em um café na estação onde um homem alto falava em um orelhão. Ele estava de costas pra mim. Eu podia ver que ele tinha ombros largos, bastante cabelo e uma voz suave.

Mas o cheiro, ah, o cheiro era simplesmente incrível.

"Sim, querida, eu me atrasei na conferência, portanto só vou pra casa no próximo trem. Sim, vou chegar duas horas depois em Montana. Não, vou tomar um café enquanto aguardo. Manda um beijo pras crianças por mim. – silêncio enquanto ele ouvia a resposta – Te amo também – Ele põe o telefone no gancho e se vira, e encontra eu em pé atrás dele.

- oi.

Fugir ou Ficar. Fugir ou ficar.

- Algum problema?

Corre, sua besta! Corre!

- Bem...

O Chapelão Joseph Buchanan, coronel aposentado da Força Aérea Americana, se encontrava ali, de pé, olhando uma criança miúda, provavelmente menor de dez anos de idade. Ela estava em roupas limpas, porém que tinham claramente sido lavadas várias vezes. Seu cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo, mas a coisa que mais lhe chamou a atenção foram os olhos dela, grandes olhos castanhos e expressivos, que agora o olhavam como se ele a tivesse assustado.

- Bem, tchau.

Ele se virou para ir embora, mas antes mesmo que ele tomasse três passos pra longe da criança ele sentiu o coração apertar. Ele olhou pra trás e viu que a criança continuava no mesmo lugar, e agora o olhava como se ele tivesse matado o melhor amigo dela. Sem questionar as suas próprias razões, ele simplesmente obedeceu o que o Senhor o ordenou a fazer. Ele foi até a criança, ajoelhou-se para ficar na mesma altura e ofereceu:

- Eu tenho que esperar pelo meu trem, e queria tomar um chocolate quente e comer um bolinho. Quer me fazer companhia?

O Capelão Buchanan depois diria que foi uma das transformações mais impressionantes que ele já vira. A pequena abandonada abriu um sorriso tímido que brilhava em seus olhos e que aqueceu o coração do capelão, tomou um passo a frente e estendeu a mão pequenina pra ele.

Ele tomou a sua mão na sua e a levou para uma das mesas, onde eles logo estavam se deliciando com copos enormes de chocolate quente e fatias deliciosas de bolos de chocolate.

Ela não disse nenhuma palavra o tempo todo que ficou ali, mas o sorriso dela valeu mais que mil palavras.

Entretanto, quando ele tentou comprar um café no trem indo para Montana, ele não tinha dinheiro. A criança de rua tinha roubado a carteira dele.