Terceira vez

Vinte e dois anos depois.

Washington DC não é uma cidade nova pra mim. Eu já tinha morado aqui nos meus dois primeiros anos de treinamento e durante meu período em Virgínia.

Só nunca tinha imaginado que voltaria aqui na maneira e pelas razões que tive de voltar.

Como desgraça pouca não tem graça, acabei de descobrir que a companhia de mudança perdeu as minhas coisas. Ao invés de mandar minha mudança para Olive Street NW, Georgetown, eles mandaram para Olive Street, Georgiatown, Minnesota.

Sim, eis a minha droga de sorte.

Por isso estou aqui, em um bar como tantos outros na América, tentando descobrir o significado da vida, amor, coisas e o resto no fundo do meu copo com vodca que eu ainda nem provei. Foi nesse momento que senti aquilo de novo.

Pureza.

O cheiro flutua ao meu redor e fecho meus olhos, me perguntando por que, de todos os momentos da minha vida, esse cheiro quem que aparecer justo agora.

Abro meus olhos e fico surpresa ao notar que o cheiro vem de um homem que se senta ao meu lado. Nem velho, nem muito jovem, ele me saúda com um balançar da cabeça, que eu polidamente respondo do mesmo modo. Unhas limpas; sem anel de casamento no dedo, nem marca de um; um paletó do tipo mandado fazer, não comprado pronto, não um daqueles extremamente caros, mas mesmo assim, um bem feito, que combina com a pele clara e o cabelo claro dele.

Ele tem um desses rostos que, independente de quão velho ele possa ficar, sempre terá parte da juventude dele impressa nele.

Ele pede o menu de drinks, e depois de algum tempo pensando escolhe um Cuba Libre. Minha mente não consegue ser rápida o suficiente para alcançar a minha boca, por que antes mesmo que eu me mande calar a boca eu ouço a minha voz falando.

- Você não tem costume de beber.

Ele me olha surpreso e é a minha vez de ficar surpresa. Independentemente da sua idade, ele tem um dos olhares mais expressivos que eu já vi em toda minha vida, enormes piscinas verdes profundas que uma vez que são dirigidas a minha pessoa, o meu cérebro simplesmente congela.

- Como é que é?

Duh. Eu preciso parar de ter lições com os meus irmãos de como irritar e alienar pessoas. Seja normal, criatura!

- Você não tem costume de beber, e quando bebe, você não bebe Cuba Libre.

O desconhecido de olhos verdes se vira e começa a me medir de cima embaixo. Aproveito a oportunidade de fazer o mesmo. Ele não é tão jovem quanto eu imaginara, nem tão inocente. Há um leve cinismo em seus olhos enquanto ele me mede que me faz pensar como ele consegue balancear o que ele viu com a pureza que eu sinto nele.

Depois de um tempo, ele deve ter decidido que não sou uma louca bêbada que fica tentando agarrar homens estranhos em bares, como a loirinha que estava se oferecendo para o cara no cantinho do bar, e me responde com um sorriso nos lábios.

- Eu não costumo beber, nem você.

Ele aponta o dedo para minha vodca, que agora tem mais gelo que vodca.

Eu não respondo verbalmente, e simplesmente concordo com a cabeça. A possibilidade de alguma coisa acontecer além dessa conversa amigável é próxima a zero, mas isso não impede que o meu cérebro hiperativo comece a criar cenários possíveis.

Quem ele é?

De onde ele vem?

O que ele faz?

Depois de alguns segundos comigo mesma eu simplesmente grito pro meu subconsciente calar a boca.

Mas aí o cheiro de álcool e suor inunda o ar do meu outro lado.

- E aí, belezura, que uma gata como você está fazendo sozinha em um lugar como esse? Me deixa ...

Eu ignoro o resto a medida que ele continua a falar, e uso o tom de voz que uso durante interrogatórios que já fizeram assassinos convictos chorarem.

- Se você dá algum valor a sua mão, você vai removê-la do meu ombro AGORA!"

A última palavra eu pronuncio com raiva, já calculando quanto de força seria necessária para quebrar-lhe os dedos. Ele continua falando, eu o ignoro e em um gesto que mostra a minha prática, eu agarro a mão dele e a torço de forma dolorosa. Ele geme como um bebê e de alguma forma deve notar quão louca de raiva eu estou, pois desiste e se afasta reclamando baixinho.

Eu o ouço me chamar de vaca assim que acha que eu não posso mais ouvi-lo. Simplesmente o ignoro e volto para a minha vodca. E o homem de olhos verdes. Sinto lágrimas começando a surgir em meus olhos e me recuso a permitir que alguma caia.

- Então... dia ruim, ein?

- Ano ruim.

Olho pra ele e sorrio amarelo.

O drinque dele finalmente chega e ele gira o copo, observando líquido se mover nele. Volto pro meu próprio copo e aceito a realidade que a conversa tinha acabado.

- Eu gostaria de propor um brinde.

Mas que p... bem, isso foi inesperado.

- Um brinde?

- Sim.

Ele olha e fixa seu olhar no meu. Tento, juro que tento desviar meu olhar mas por alguma razão eu não consigo me esconder, quanto mais ele me olha mais ele me vê e eu luto para erguer as minhas barreiras mas ele tem a incrível capacidade de ver através de minhas muralhas e reservas.

- Que tipo de brinde?

- Que esse seja um ano melhor.

- Que esse seja um ano melhor.

Nós tocamos nossos copos de bebida, e tomamos um gole de nossas bebidas.

Não sei se consigo descrever as próximas duas horas.

Fizemos um acordo tático de não dizer os nossos últimos nomes. O nome dele é Timothy, mas ele prefere ser chamado de Tim, mas alguns amigos mais próximos o chamam de Timmy.

Falamos sobre tudo e sobre nada. Esportes, política, música, filmes. Ambos somos péssimos em esportes de equipe. Não temos a mínima idéia que diabos estão fazendo no senado. Nossos gostos de música são totalmente opostos e nós dois adoramos ficção científica. Ele me disse que ele é um mestre em RPG e que também tem um nome engraçado, Elflord, Efling, sei lá, algo parecido, e eu contei pra ele de uma vez que fui numa convenção do Senhor dos Anéis na Alemanha. Ele passou mal de tanto rir quando eu descrevi lhe descrevi meu pai vestido de Gandalf, meu irmão mais velho de Saruman e minha mãe vestida de Lady Galadriel esperando pelo trem em uma estação em Dusseldorf.

Ele olha pro relógio e fica sério, foi um prazer mas ele precisa trabalhar na manhã seguinte. Digo-lhe tudo bem, também estou indo embora, e ele galantemente se oferece a pagar a minha conta.

Saímos juntos do bar e eu chamo um taxi. Ele insiste em esperar até que um dos taxistas malucos da cidade pare pra mim. Assim que consigo um, olho pra ele e o agradeço, de coração. Ele fica lá, em pé, olhando pra mim e com as mãos profundamente enfiadas nos bolsos, e diz encabulado que ele também tivera uma grande noite.

Olho em seus olhos e sinto o maior caso de ponto morto cerebral da história. Consigo falar oito idiomas fluentemente, mas não conseguia pronunciar uma única palavra naquele momento.

O taxista toca a buzina.

- Você vem ou não vem?

Sorrimos um para o outro e ai eu penso, ahh, por que não, e me inclino para beijar-lhe a face.

Ele arregala os olhos e por alguma razão vira o rosto. Nossos lábios se encontram. E o que estava congelado se derrete em segundos. Meu corpo se molda ao dele e meus braços se erguem para o seu pescoço. Vagamente me lembro de me dobrar para dentro do taxi, arrastando-o comigo.

- Onde você mora? – eu pergunto entre beijos e amassos.

- Silver Spring – ele responde antes de me beijar novamente.

Guio a cabeça dele para a curva de meu pescoço onde ele, obediente, começa a deixar uma trilha de beijos e com as últimas células pensantes do meu cérebro eu viro pro motorista que está nos olhando maliciosamente.

- Silver Spring, vai, dirige.

O motorista sorri lascivamente mas mantém o bico calado.

Eu não lembro a viagem de taxi. Só lembro que foi curta. Provavelmente curta demais para os vinte dólares que demos ao taxista, mas não queríamos esperar pelo troco.

Antes que eu tenha a capacidade de perceber onde estamos, ele me joga contra a porta do apartamento e se esfrega contra mim. Não tenho a mínima idéia de como chegamos aqui. E pra ser bem sincera, tô nem aí.

Sou muito baixinha e ele é bem alto, e ele se curva todo para me abraçar. Resolvo o problema rapidinho usando minhas habilidades de anos de ginástica para pular e envolvê-lo com as minhas pernas pela cintura.

Ele murmura algo que não entendo.

Ele pára o que for que estiver fazendo no meu pescoço (Céus, nunca imaginei que eu era tão sensível ali) e me olha no rosto, como se estivesse procurando algo, e repete.

- Não costumo trazer pessoas de bares pra casa, não tenho o hábito de fazer sexo casual.

Eu tento filtrar o que ele está falando, comparando o que eu sei do que eu sinto neste homem.

Eu sorrio e o informo da minha situação.

Ele leva alguns segundos para processar a informação dada, e eu ficaria muito orgulhosa de imaginar que essa demora tem relação direta com os beijos que estávamos partilhando.

Quando a ficha dele finalmente cai, a cara dele é uma comédia.

- Quatro anos?

Não sei se eu deveria ficar aborrecida ou lisonjeada pela incredulidade na voz dele. Prefiro o caminho mais fácil: humor.

- Mas...

Eu o silencio com um dedo sobre seus lábios carnudos e úmidos.

- Mas afinal, pra que contar?

Sorrimos um para o outro e ele me leva para seu quarto, onde ele me dá uma festa de boas vindas em DC muito boa.

Depois que acabamos, nossos corpos ainda estão molhados com nosso suor enquanto sinto o palpitar o seu coração contra os meus seios. Ele silenciosamente beija a velha cicatriz no meu ombro direito e a cicatriz que acabou de sarar um pouco acima do meu seio esquerdo. Dois centímetros para baixo e eu estaria cantando com os anjos. Ele levanta a cabeça para me olhar, e alguma represa se rompe dentro de mim.

Eu piro. Eu me desfaço em lágrimas. Soluços gigantescos sacodem meu corpo e independentemente do quanto tento eu não consigo pará-los.

Choro por mim mesma.

Choro por minha família.

Choro por meus amigos.

Choro pelas vidas perdidas, sonhos e potenciais incompletos.

Choro pelas vidas destruídas que não consegui salvar, pelas vidas que eu tentei tanto, ah como eu tentei, mas elas não queriam ser salvas.

E choro pela equipe que, por tanto tempo, foi como se fosse minha família, e em no momento que eles mais precisaram de mim, eu não estava lá para dar-lhes cobertura e para protegê-los. E por causa disso, eles morreram.

E choro pela garotinha que foi tirada do Poço, cresceu e foi treinada para caçar dragões e anda na beira do abismo. Somos caçadores de monstros mas, às vezes, se não formos cuidadosos, nós nos tornamos um.

Ele não diz uma única palavra. Ele simplesmente me toma em seus braços e deixa a tempestade passar. E pela primeira vez em meses, eu tenho a chance de chorar meus mortos.

Primeira fic da série Joy Buchanan em português.