Delirante reencontro
Capítulo 1
Grécia - quinze anos antes...
- E então, Saga! Última semana conosco, hein? Tem certeza que é isso que quer? – a voz de Aioros adentrou o quarto do rapaz de cabelos longos, e ele sorriu para o amigo, vestindo a jaqueta e se preparando para acompanhá-lo.
Era uma noite de lua cheia e o cheiro maresco do verão permeava as ruas de Corinto. Os dois amigos saíram da casa sob as recomendações da mãe do rapaz moreno.
- Saga, vê se não volta bêbado, lembre-se que precisa dar exemplo a esse povo mexeriqueiro! Já pedi ao Camus para não deixar que beba.
- Fique tranqüila, mãe, não vou beber. – prometeu o jovem, sabendo que não cumpriria promessa alguma. Tinha duas semanas para se despedir da vida de rapaz sem compromissos, até a viagem e a futura ordenação em Roma.
- Vamos, Saga, os outros estão esperando, não se esqueça que depois de duas semanas, você passará dez anos num mosteiro! – falou Aioros animado em tirar um sarro do amigo.
- Não é um mosteiro, seu idiota! – riu Saga.
- Ah, tanto faz, você não vai nem beber e nem transar! Será padre da mesma forma! – riu o loiro o enlaçando pelos ombros.
Saga também riu, e eles deixaram o grande quintal da casa provinciana, e encontraram o restante da turma dentro de um conversível, um cadilac azul claro. O motorista já buzinava sem parar e virava, vez por outra, uma garrafa de cerveja na boca.
- Até que fim o Aioros conseguiu arrastar o padreco! – berrou Aiolia que era quem estava ao volante do carro.
- Vamos logo, antes que a noite acabe! – pediu Milo que estava sentando com Camus no banco de trás, e os dois rapazes pularam dentro do carro. Logo partiram para um movimentado pub na saída da cidade.
- E então, Saga, vai se ordenar mesmo? – perguntou Camus quando já estavam sentados dentro do bar.
- Sim, é o que quero.
- Pretende virar papa? – riu Milo, virando sua cerveja na boca.
- Se for da vontade de Deus... – respondeu Saga fazendo o mesmo.
- Prometeu para sua mãe que não beberia. – advertiu Camus, sorrindo com o canto dos lábios, e Saga posou a mão no ombro do francês, o encarando com carinho.
O ruivo era muito bonito, ele achava, e o seminarista sentia certa atração pelo amigo, mas nada além disso. Eram amigos demais e Saga possuía sua vocação, assim como Camus possuía outro amigo, bastante ciumento.
- Camus, você é o único amigo que minha mãe tolera, mas não deixe que ela o influencie assim, certo?
- E você não deixe que essa turma de depravados o corrompa. – falou o francês – Você é bem melhor que todos nós. Nasceu para algo grande e sei que sua vocação religiosa é verdadeira, embora não a entenda.
- Assim você me magoa, Camus! – gritou Aioros que conversava com Aiolia no balcão do bar – Você gosta mais do Saga que de mim! – caçoou o mais velho da turma.
- Oros, você é o pior de todos! O mais pervertido! – riu Camus e recebeu por isso um gesto obsceno do sagitariano.
Milo pousou a cabeça no ombro do ruivo e olhou o geminiano nos olhos.
- Ei, Saga, tira a mão do Camus, sou muito ciumento, você sabe... – sorriu com malícia e depois soprou o ar quente no ouvido do namorado, fazendo a pele clara do francês se arrepiar.
Saga corou e arregalou os olhos. Sabia que Milo gostava de Camus, só não sabia que o loiro grego fosse correspondido e muito menos que os dois estivessem juntos.
- Ah, Milo, desculpe, eu não sabia... – falou sem jeito.
- Sem problema, mas mantenha distância de agora em diante. – tornou o loiro sem sutileza.
- Milo, quer parar com isso. – reclamou o ruivo muito embaraçado e procurou os olhos de Saga que estavam baixos, as próprias mãos do geminiano pareciam mais interessantes que qualquer coisa – Eu lhe contaria hoje, Saga...
- O que é isso, Camus! – riu o grego de cabelos escuros – Você não me deve satisfações, fico feliz por vocês dois!
- Que bom... – Milo falou felinamente e deslizou a língua pelo lóbulo da orelha de Camus.
- Para, Milo! – o ruivo reclamou mais uma vez – Está deixando o Saga sem jeito e me tratando como se fosse sua propriedade, e não sou!
- Não, não! – riu Saga – Estou um pouco surpreso, mas não constrangido.
Aiolia e Aioros conversavam tão animadamente no balcão que não percebiam a conversa dos três à mesa. Milo, ciumento por natureza, gostava de provocar o seminarista, não somente por desconfiar que sua vocação fosse parecida com a dele, mas também por Saga ser todo certinho, ainda mais que Camus. O escorpiano tinha muito ciúmes da amizade entre o francês e o outro rapaz grego.
- Saga, você continua virgem? – perguntou Milo em pura provocação.
- O que isso tem a ver com a história? – indagou Camus que já conhecia o temperamento do namorado e queria evitar atritos entre ele e Saga que, apesar de ser bastante ponderado, não era um imbecil que aceitaria pacificamente os abusos do loiro.
- Não tem problema, Camus, - falou Saga sério e depois sorriu com ironia – Talvez, Milo queira me ajudar a resolver meu problema.
O escorpiano corou e riu sem jeito.
- Calma, padre Saga, foi só uma pergunta.
- Isso não lhe diz respeito!
- Não diz mesmo, Milo, melhor parar agora. – os olhos frios do francês pousaram sobre o namorado, e Milo engoliu em seco se calando.
- Não tem problema, Camus, isso não é problema pra mim. – declarou Saga que não queria ser o pivô de uma briga entre o casal.
- Como não, pirou? – disse Milo, sério – Você tem vinte anos e em breve vai se tornar padre, por isso, vemos tantos padres safados por aí, por que não fazem o que querem e depois ficam com vontade, quando já estão de batina e não deveriam pensar em safadeza!
Dessa vez, até Camus riu com as observações do namorado.
- Tenho que concordar com o Milo, Saga. – disse o ruivo – Além do mais, prometemos fazer uma despedida memorável para você, lembra-se?
- Tenho até medo do que vão aprontar. – disse o geminiano, e Aiolia e Aioros se juntaram ao grupo.
- Não adianta ficar enchendo o saco do nosso futuro padre. – falou Aiolia – Querem mesmo ajudá-lo? Na festa de despedida, arranjem alguém para ele transar e pronto!
- Para com isso, Aiolia! – volveu Saga, ainda mais corado – Eu não quero transar com ninguém, ok? Minha vocação é verdadeira!
- Ah, Saga, qual é? Vai morrer virgem? – indagou Aioros – Lembre-se que será padre a vida toda, cuidado para depois não cair em tentação, hein!
Declarou o loirinho para gargalhadas gerais. Saga baixou a cabeça, balançando-a e pediu mais uma cerveja para encerrar a conversa, contudo, Camus permanecia o encarando enigmaticamente, e ele se viu obrigado a erguer os olhos em sua direção.
- Sério, Saga? – perguntou o francês meio sem jeito – Nunca sentiu vontade...?
- Não. – falou – Só com você. – pensou, mas não faria nada que ameaçasse a relação dos amigos. O que sentia por Camus era uma atração que logo passaria, seu destino era ser padre, para isso, estudara a vida inteira. Sabia que o francês sentia o mesmo, mas amava o louco do Milo. Deixaria que fossem felizes, mesmo que nunca houvesse pensando em sexo antes de conhecê-lo.
Havia cinco anos que o ruivo se mudara para Corinto com a família, e desde então, mantinham uma profunda amizade. Claro que entre eles sempre esteve Milo, e o loiro sabia demarcar bem seu território. Saga sabia, havia anos, da paixão do escorpiano pelo frio francês. Nada mais que merecido que agora ele colhesse os louros de sua dedicação, às vezes, nada paciente.
- Não pensa em fazer só para saber como é? – a pergunta partiu de Milo, incomodado com o olhar trocado entre o namorado e o amigo.
- Por, Deus, Milo! Irei me ordenar padre, acha que se tivesse dúvida do que quero, daria um passo tão sério?
- Ah, Saga, esse passo foi dado muito mais por Dona Adamantina que por você. Todo nós sabemos! – interrompeu Aioros.
- Verdade, mas se não tivesse certeza não viajaria para Roma.
- Por isso mesmo estou perguntando. – Insistiu Milo - Será sua última chance de conhecer os prazeres carnais.
- Não, não quero. E, por favor, vamos mudar de assunto. – enfatizou Saga, dando a conversa por encerrada.
- Não existe felicidade sem sexo! – exclamou Aiolia para risos e uivos dos amigos.
- Chega, seus tarados, me deixem em paz! – riu o futuro padre – Serei um homem de Deus e ponto final!
Todos riam, mas o geminiano percebeu que Milo estava muito sério.
- Algum problema, Scorpion? – perguntou usando o apelido dado ao loiro por causa de uma tatuagem.
- Nenhum, estou indo embora! – ele levantou e jogou uma nota sobre a mesa – Divirtam-se por mim!
Saiu deixando todos sem nada entender. Camus se ergueu resignado e resolveu seguir o namorado e descobrir o que estava acontecendo com aquele louco. Um silêncio tenso se fez entre os que ficaram à mesa e Saga declarou:
- Acho melhor ver o que está acontecendo com aqueles dois. – levantou-se e seguiu o casal. Os encontrou já no estacionamento, ao lado do carro. Eles pareciam discutir feio e por isso preferiu manter certa distância até as coisas se acalmarem.
- Não minta pra mim, você estava flertando com ele! – gritava Milo – Eu vi, Camus, ninguém me contou!
- Isso só aconteceu na sua cabeça, deixa de ser idiota, Milo! – argumentava o ruivo sem perder a calma.
- Então eu sou o idiota agora? Sempre soube que rolava um clima entre vocês, mas daí a me fazer de palhaço...
Camus riu da fúria do namorado o que potencializava sua indignação.
- Não ria da minha cara, Camus, ou eu quebro a sua! – esbravejou Milo, e o francês o puxou pelo braço o dominando e buscando seus lábios.
- Eu te amo, seu estúpido! – exclamou antes de tomar-lhe a boca com urgência, segurando o rapaz grego fortemente pela camisa de flanela xadrez que ele vestia. Milo inicialmente tentou lutar, mas acabou se rendendo aos lábios e as mãos do ruivo.
Saga observava a cena, meio abobalhado e incapaz de se mover; o casal não se dava conta da sua presença naquela parte escura do estacionamento do pub.
- Para, Camus... – o loiro grego ainda tentou protestar ao sentir os dedos longos do francês desabotoarem sua camisa, mas o desejo enfraquecia sua vontade – Ainda estou zangado...
- Adoro transar quando você está nervosinho, Milo... – sussurrou Camus – Vamos para o carro...
Saga achou que passara da hora de sair dali, mesmo porque, seu corpo já estava começando a reagir à imagem sensual a sua frente, aqueles dois homens lindos, trocando carícias mais que ousadas. Quando voltou a entrada do bar, encontrou Aiolia e Aioros já saindo.
- Já fechamos a conta, vocês sumiram! – declarou o mais velho.
- Bem, acho melhor darmos um tempo para o Camus e o Milo... – informou Saga com um sorriso malicioso. Os irmãos deram de ombro.
- Fazer o quê? Enquanto eles transam a gente bebe! Vamos voltar! – disse Aioros e os três voltaram para o bar.
-OOO-
Quando Saga chegou a casa, já passava das três da manhã de domingo, e ele rezava para que sua mãe estivesse dormindo. Abriu a porta com dificuldade, porque estava um pouco bêbado. Subiu as escadas para o quarto, livrando-se dos sapatos e da camisa pelo caminho. Assim que entrou no quarto, desabou sobre a cama, ainda com a calça jeans e as meias.
- Ai! Porra!
Ouviu o praguejo no escuro e tentou visualizar alguma coisa, mas na parca luminosidade da lua que entrava, invasiva, pela janela aberta, ele só conseguiu enxergar um par de olhos tão verdes quanto os seus.
Ergueu-se de supetão, assustado, cambaleando e acendendo a luz.
- Quem é você...? – a voz morreu em sua garganta. A pessoa a sua frente era um sósia seu. Os cabelos desalinhados caíam sobre os ombros largos e rosto, os olhos eram de um verde tão intenso quanto os visto no espelho, a pele, toda via, era pouco mais bronzeada, mas o restante...
- Deus! Que sortilégio é esse? – sua mente turvada pelo álcool não conseguia identificar o óbvio.
O homem sentado, nu, na cama deixou escapar uma risada divertida.
- Onze anos foram suficientes para esquecer que possui um irmão gêmeo, Saga?
O outro rapaz grego permanecia estático com olhos arregalados, então o homem nu se levantou, exibindo toda a beleza do seu corpo malhado e fazendo seus lisos e sedosos cabelos repicados caírem por suas costas. Aproximou-se mais do irmão com um olhar decepcionado.
- Saga, não se lembra de mim? Sou eu, Kanon!
Saga continuava pasmado no meio do quarto, sem nada dizer.
- Porra! Não é possível que tenha me esquecido assim!
- Kanon... – balbuciou o outro gêmeo, e o visitante incidental caiu numa gostosa gargalhada, abraçando o irmão.
- Até que fim! – exclamou – Voltei, irmão!
Continua...
Notas finais: Sion conseguiu escrever um capítulo curto! Viva! Bem, acho que vocês já perceberam que a relação desses dois será bem intensa. Prometo ser mais objetiva nessa fic e tentar não fazê-la muito longa e descritiva demais. Quero algo fast dessa vez XD!
Beijos a todos que leram, gostaram, em especial aos que comentaram.
Keronekoi, Maya Amamiya, liliuapolonio, Vagabond, Silvana (KKK! Conseguirei viver sem o Shaka e o Ikki, menina? Será? Ao menos tentarei dessa vez! Bjus querida e obrigada sempre!); Lune Kuruta, Human Being.
Obrigada queridas pelo incentivo.
